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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

cómo ser europeos

"Cómo ser europeos" reune oito ensaios de Cees Nooteboom que foram produzidos originalmente para propósitos diferentes. Alguns foram lidos em conferências, outros publicados em jornais, uns poucos para consumo pessoal do autor. Em comum entre eles está a preocupação em entender e acompanhar o processo de unificação pelo qual passou a Europa na segunda metade do século XX, a tentativa de criar uma comunidade e/ou identidade européia singular. Os mais antigos são de 1988, antes da queda do muro de Berlin e da derrocada da união soviética; os mais recentes de 1993, ainda com os ecos daquela transição retumbando nos corações e mentes dos europeus. Nooteboom sabe ler com precisão os muitos desafios que a idéia de unificação européia tem (e ainda os têm, mesmo agora, neste início de século XXI, passados 15 ou 20 anos da publicação original dos ensaios). Isto torna os ensaios ainda atuais, pois há muito artificialismo na idéia de uma Europa unida. Como se pode unificar plenamente 500 milhões de pessoas? Como se pode universalisar neste conjunto histórias, tradições, comportamentos e projetos de futuro distintos? Ora se apoiando em fábulas e na mitologia, ora refletindo filosoficamente, ora apenas repercutindo com curiosidade as notícias mais importantes dos jornais da época, Nooteboom adverte-nos com elegância e sabedoria sobre os riscos que este projeto intrinsicamente tem. Aqueles de nós que apenas conhecemos a superfície da cultura e história europeia, turista eventuais e banais que somos, podemos aprender um tanto com este holandês errante, este viajante incomum. Boa leitura. [início 19/11/2008 - fim 29/11/2008]
"Cómo ser europeos", Cees Nooteboom, tradução de Anne-Hélène Suárez Girard, Ediciones Siruela, (2a. edição) 2006, brochura 11x15, 126 págs. ISBN: 978-84-78344-295-9

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

tumbas

Tumbas. Eis um belo e bom livro para encerrar o ano. Com as festas de final de ano vou ficar atrapalhado, as meninas estão chegando de Barcelona, vou fazer mais festas e ler menos, portanto resenhas no "livros que li" só em janeiro de 2009. Claro, já li "Princesas, esquecidas e desconhecidas", belíssimo, que vou presentear a minha sobrinha Clara; já li "Cómo ser Europeos", pensando em dueña Helga; já li um livrinho sobre o Hemingway, li umas 100 páginas do "Crime e Castigo" e estou a ler um livro infanto-juvenil do Christopher Paolini, mas só em janeiro retomo a lida, pois ler é uma coisa, resenhar é outra. Este foi o ano em que descobri Cees Nooteboom e li vários livros dele. "Paraíso Perdido" é bom, mas gostei mais de "Caminhos para Santiago" e de "Dia de Finados". "Tumbas, de poetas y pensadores" é um livro feito por encomenda. Um sujeito convidou Nooteboom a registrar túmulos de escritores alemães e fazer comentários sobre a vida e a obra para um evento. O projeto cresceu e Nooteboom, que escreve livros de viagens a mais de trinta anos transformou a idéia original em uma peregrinação pelos túmulos dos escritores e escritoras (e filósofos e pensadores) com os quais ele mais tem afinidade. O resultado é um livro poderoso, onde ora temos longos trechos analíticos sobre a vida e a obra do escritor, ora temos apenas a fotografia do túmulo e um trecho de texto ou poesia onde o autor conta uma experiência com a idéia de morrer. As historias mais longas são mesmo as mais deliciosas: Bernhard, Casares, Borges, Cortázar, Dante, Goethe e Schiler, Hoffman, Antônio Machado, Mary McCarthy, Nabokov, Erza Pound, Murasaki, Nabokov, Sartre, Wittgenstein, Virgínia Wolf, Virgílio. As curtas também têm seu valor. O livro abre com uma história divertida, perto do túmulo do Machado de Assis no cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro. "Qual é mesmo o primeiro nome de Machado de Assis pergunta o administrador do lugar?" Ninguém do grupo parece se lembrar e a lista das campas está em ordem alfabética! Curioso mesmo! Primeiro eu achei Tumbas em alemão, comprei só pelas fotografias (de Simone Sassen, mulher de Nooteboom), belíssimas, sente-se o silêncio entranhado destes lugares. Quem de nós, amantes dos livros e da literatura, não fez uma peregrinação ao túmulo ou ao local onde viveu um autor que nos agradasse. O livro chegou na semana em que soube da morte recente de meu amigo Johannes Musolf, um artista plástico alemão com quem eu me dava muito bem. Folheando o livro lembrei também daquela passagem do Proust onde o narrador reencontra o Barão de Charlus velhinho dizendo: "Hannibal de Bréauté, morto! Antoine de Mouchy, morto! Charles Swann, morto! Adalbert de Montmorency, morto! Boson de Talleyrand, morto! Sosthène de Doudeauville, morto!" Percebi logo que o texto de Nooteboom deveria ser tão poderoso quanto as imagens e acabei procurando e encontrando esta versão em espanhol. Valeu a pena. No ano que vem tem mais. Boas festas.
Tumbas: de poetas y pensadores, Cees Nooteboom, tradução de María Condor, fotografias de Simone Sassen, Ediciones Siruela, (1a. edição) 2007, capa dura 22x29, 264 págs. ISBN: 978-84-9841-115-7
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Balanço final [13.12.2008]
Fiquei feliz de ter terminado o ano com um livro espanhol e com um livro tão bonito quanto este. "Tumbas" é mesmo uma declaração de amor de um escritor a seus pares. Este 2008 ainda foi um ano de "espanholices": continuei com as leituras de Montalbán, mas aprendi um tanto mais sobre a Espanha buscando outras vozes, como a de Rosa Montero ou outros temas, como os livros de viagem do Cees Nooteboom (de fato minha grande surpresa deste ano.) Foi um ano onde li muitos livros de mulheres (sugestão de Cristina Gómez-Polo). Na segunda metade do ano conheci Rosa Montero, Amèlie Nothomb, Inês Pedrosa e Isabel Allende. Foi de fato o ano de grandes romances (de Melville, de McEwan, de Roth, de Nothomb, de Nooteboom) e muitos livros de crônicas ou ensaios. Li menos romances policiais (quase todos do Montalbán, meu grande guru espanhol), quase nada de poesia (tolo que sou), alguma gastronomia (cozinhei muito este ano.) Claro, continuei a ler solenes bobagens (as vezes a compulsão cobra caro sua fatura.) Foram 98 livros, mais precisamente 35 romances, 26 de crônicas ou ensaios, 8 de contos, 6 romances policiais, 5 novelas, 4 cartuns e mangás, 4 de gastronomia, 4 perfis ou memórias e 4 de outros gêneros (um único de poesia, dois infanto-juvenis, duas peças de teatro e 1 catálogo de exposição belíssimo, sobre o grande sertão veredas). Vamos a ver o que se passa em 2009. Minha lista de projetos sempre aumenta. Estou devendo os grandes russos, comecei tímido neste ano, mas os russos estão chegando sim. Desvios ocorrerão, os livros têm mesmo uma alma própria, seus segredos, suas sutis conexões com eles mesmos e conosco. Estou certo que haverá surpresas no próximo ano. Vale.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

nomad's hotel

"Nomad's Hotel: Travels in Time and Space" é um livro de crônicas de viagem. Algumas bem antigas, ainda do início da década de 1970 e várias outras já deste nosso nebuloso século XXI. Cees Nooteboom escreve como um Ulysses que vaga pelos mares do mundo sem nunca alcançar sua Ítaca. Quase todos os ensaios já haviam sido publicadas em revistas e bem recentemente foram compiladas por Nooteboom para o formato livro. Os ensaios e/ou crônicas (difícil determinar onde termina um estilo/formato e começa o outro) formam um mosaico bastante diverso. As vezes estamos em lugares sofisticados, em hotéis elegantes, imersos no colorido familiar da Europa ocidental, noutros ensaios estamos em territórios onde ninguém fala inglês, a paisagem é desconhecida, os costumes necessariamente ainda estão por serem compreendidos. Em comum nos ensaios está o fato de sempre encontramos neles a capacidade de Nooteboom de sintetizar impressões, generalizar conceitos, explicar discordâncias e afinidades entre povos distintos. Trata-se de um sujeito que aprendeu a viajar e a extrair conhecimento de cada uma das viagens, tanto as de caráter profissional quanto as de puro lazer. O texto sobre Veneza me lembra muito o que já havia escrito Joseph Brodsky sobre ela; em Zurich reencontro um Elias Canett diferente; o texto sobre Isfahan explica um tanto o que se passa no Irã de hoje, 33 anos após ter sido escrito; ao falar de um memorial de guerra australiano lembramos os horrores da segunda grande guerra vividamente; na descrição dos rigores da ilha de Aran encontramos o belo contraste entre as forças da natureza vibrantes e o caráter organizador do homem. Todo aquele que já viajou um tanto vai gostar de acompanhá-lo mundo afora. Nas palavras dele: "Quando estamos longe de casa a única companhia constante é a de nós mesmos. Apreciar esta companhia é uma habilidade, uma arte, que em geral leva-se tempo para alcançar. Viajamos para contemplar e aprender, com curiosidade e perplexidade, entretanto, mais do que tudo, o que aprendemos ao viajar é algo sobre nós mesmos."
Nomad's hotel, Cees Nooteboom, tradução de Ann Kelland, Vintage books (1st edition) 2007, brochura 13x20, 232 págs. ISBN: 978-0-099-45378-9

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

rituais

Rituais é um bom romance. São três partes simétricas que se movimentam no tempo, primeiro estamos em 1963, voltamos para 1953 e por fim avançamos até 1973. Estamos a seguir um sujeito cuja vida é influenciada por duas pessoas que nunca se conheceram, pai e filho na verdade. Este sujeito, Inni Wintrop, é quem faz a conexão entre Arnold e Phillip Taads. O livro discute o quanto de um pai há num filho: será que genética é mesmo destino? Discute-se também sobre o quanto podemos ser cerebrais e frios mesmo sobre os assuntos mais pessoais e humanos. Além das simetrias de sempre há também o contraste entre a planície e a montanha, entre o mar e a neve, caros ao autor. Uma Holanda quase desconhecida para mim aparece neste livro. Também aprendi um tanto nas descrições do dia a dia do povo; da tradição e a religião; do hábito; da unificação européia; do papel do sexo, do amor e da morte na vida; da linguagem dura e áspera; do enfrentamento com a natureza. Nooteboom também me surpreende por juntar temas que me são caros há anos: Vermeer, gravuras japonesas, Espanha, mitologias. Há um erro absurdo de tradução, onde uma citação de um livro de Yasunari Kawabata, prêmio Nobel de 1968, que deveria ser algo como “mil tsurus”, “mil origames”, “mil garças”, se transformou em “mil guindastes”. Você está ali, totalmente budista, lendo sobre a cerimônia do chá, sobre os diferentes modelos de tijelas japonesas e de repente aparece um trator, um “crane” mal traduzido, o que significa que o livro foi traduzido do holandês para o inglês e depois para o português. Paciência. É mesmo um romance pequeno, duzentas e poucas páginas, mas muito bom de se ler e instigante mesmo. Lembrei por fim da Sibele e do Koji, que me ensinaram um dia como se deve estudar algo sobre o qual queremos entender mais: com informações precisas mas também com paixão. Entretanto, a idéia de que nem tudo pode ser aprendido nos livros paira sobre este, e isto leva um atento leitor a pensar.
"Rituais”, Cees Nooteboom, tradução de Irene Cubric, editora Nova Fronteira, 1a. edição (1995), brochura 14x21cm, 225 págs. ISBN: 85-209-0668-0

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

dia de finados

“Dia de Finados” é um belo romance de Cees Nooteboom. É um livro bem mais longo que os dois romances anteriores que li dele. As primeiras cem páginas são muito herméticas, obscuras mesmo, e eu tive de me esforçar muito para entender o que estava acontecendo, mas da mesma forma como repentinamente discernimos formas e cores em meio a uma espessa bruma matinal, de algum ponto em diante no romance tudo passou a fazer sentido, os personagens se materializaram (eles já estavam ali quase como fantasmas), o enredo se desdobrou. Um documentarista free-lancer, Arthur Daane, tem como projeto autoral fixar (em imagens e sons que filma e grava o tempo todo no livro) momentos quase imateriais, como o lento desaparecimento de pegadas sobre a neve, o ar se condensando próximo a nós em um dia muito frio, o gelo se formando sobre a superfície tépida de um lago, a amplidão de lugares públicos vazios. Há uma presença forte da morte e da perda neste livro. A mulher do personagem principal e seu filho morreram recentemente em um acidente de avião. Deslocados do texto principal vários acidentes, violências, descuidos e mesmo vontades ceifam os homens e as mulheres, personagens aos quais mal fomos apresentados. O livro se passa basicamente em uma Berlin invernal nos tempos imediatamente seguintes a queda do muro (início dos anos 1990), mas há algo sobre as rixas entre a Holanda e Alemanha, bem como sobre as rivalidades entre a esta última e a Rússia ou sobre o contraste entre o tradicional e o novo no Japão. Nooteboom gosta de simetrias (acho que isto também é um padrão nele), os personagens por vezes viajam pelo livro e pela Berlin enevoada seguindo os pontos cardeais. O restaurante onde os personagens principais se encontram lembra um tanto “La Colmena”, do Camilo José Cela. Seus amigos são Arno, um filósofo; Victor, um escultor; Zenóbia, uma física/astrofísica russa. Todos muito intelectuais e sofisticados, discutindo filologia, o sentido da vida, a política de seu tempo, a vida pessoal de cada um. O estranhamento e o deslocamento, a orientação vaga que temos durante as viagens, a experiência religiosa, o mundo acadêmico, a presença da Espanha, também são temas presentes no livro. Mas o que emerge da trama é a busca do entendimento do mundo feminino, afinal não estamos sempre a seguir uma mulher, falando algo seu nome, como um mantra? Uma mulher jovem aparece no livro. Ela estuda um período obscuro da história espanhola, quando uma rainha, Urraca, dominou León e Castela. Ala putcha! Como a Espanha sempre dá um jeito de aparecer nos livros de Nooteboom! A mulher aparece e desaparece de seu cotidiano como as imagens fugidias que ele perseguia no início do livro. Conhecer de fato esta mulher passa a ser a nova obsessão do documentarista. Nada transcendental, mas honesto e instigante. Gostei.
"Dia de Finados”, Cees Nooteboom, tradução de José Marcos Macedo, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2001), brochura 14x21cm, 345 págs. ISBN: 85-359-0146-9

domingo, 7 de setembro de 2008

paraíso perdido

Li este "Paraíso Perdido" assim que terminei o "Caminhos para Santiago", de um Nooteboom para outro. Gostei do livro. É pequenino, cento e cinquenta páginas. Lê-se em um final de semana de sol, sem medo. O livro começa com uma epígrafe de Walter Benjamin que já dá o tom duro do livro (algo envolvendo o conceito de progresso humano.) Nos livros de Nooteboom os personagens estão sempre viajando, de um lado para o outro do mundo, tentando entender a si mesmo e ao próprio mundo. Neste duas brasileirinhas são personagens importantes, começam sua saga em São Paulo, mas logo se vêem primeiro na Europa e depois na Austrália. No enredo o que está em jogo pareceu-me ser a descoberta se há redenção pessoal possível em qualquer queda, ou ainda, se alguma redenção pode ser desejada e alcançada após uma queda (não estaríamos sempre em queda após o pecado original afinal de contas, parece dizer o autor.). O texto é repleto de flashs, pinceladas curtas que deixam a continuação e o desfecho das situações apenas subentendidos. Há duas sessões grandes e simétricas no livro, cada uma com quinze capítulos. A primeira parte da conta da partida e das primeiras experiências de duas amigas brasileiras na Austrália. Na segunda parte mudamos de personagens e de paisagem. Um sujeito (editor e/ou crítico literário) sai da planície holandesa e vai às alturas de um spa suiço tentar emagrecer um tanto. Lá reencontra uma das moças da primeira parte, fortuitamente e eles têm a chance de discutir uma experiência que tiveram na Austrália. Não há desfecho possível para o livro. Mas no final um curioso epílogo explica algo. O epílogo me pareceu uma conversa de uma das personagens com o autor do livro, como se ambos estivessem avaliando o resultado da escritura em si do livro, ou melhor, como se o escritor estivesse tentando saber se a personagem gostou do resultado do livro. Interessante. Grande autor este sujeito.
"Paraíso Perdido", Cees Nooteboom, tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008) brochura 14x21cm, 153 pág. ISBN: 978-85-359-1229-6

sábado, 6 de setembro de 2008

caminhos para santiago

Se há uma coisa que impressiona um sujeito é descobrir um autor feito à sua medida. Descobri Cees Nooteboom há pouco e por acaso, mas já me sinto um afotrtunado amigo dele, de suas criações, de seus personagens. Quando vi uma entrevista de Edney Silvestre com Nooteboom impressionei-me com um comentário onde ele dizia que um país como a Espanha era curioso principalmente por ter Nossa Senhora, mãe de Jesus, como "comandante em chefe" honorária dos exércitos de Espanha (e isto até hoje, neste bizarro século XXI) e também por ter uma cerimônia anual, onde o Rei, o Príncipe de Austúrias ou ainda um preposto nomeado, entregam o país simbolicamente à são Santiago, o apóstolo que é cultuado na cidade Galega de Compostela e é o padroeiro da Espanha. Em função deste comentário resolvi ler algo sobre o tal caminho de Santiago (daí o "Ultreia", garimpado nos guardados, que já resenhei aqui) e encomendei este "Caminhos para Santiago", que resenho agora. Bom, lê-se este livro com enorme prazer. Não se trata de um guia para peregrinos, mas antes, como o próprio subtítulo do livro nos ensina, uma digressão inspirada por "desvios pelas terras e pela história da Espanha". São vinte e cinco capítulos, escritos entre 1979 e 1986. No último texto, escrito em 1992, ele analisa estas viagens (anuais quase todas) e seu envolvimento com o país. Nooteboom, que tem setenta e cinco anos agora, foi a Espanha pela primeira vez quando tinha vinte. A idéia era experimentar o calor do sul, esteve primeiro na Itália, mas logo quis conhecer aquele país que em sua Holanda natal era odiado desde os bancos escolares (por conta da guerra de secesão do final do século XVI.) Daí para um encantamento foi um passo. Seu texto aqui lembra Robert Hughes contando as coisas da Catalunha. Temos a mesma mistura de erudiçao e cultura refinada, envolvimento pessoal e emoções, tudo na medida certa. Já disse que não se trata de um guia para explicar como funciona a caminhada. Em suas viagens ele segue caminhos distintos a cada ano. Alguns de fato associados a história da peregrinação (Saragoça, Jaca, Sória, Pamplona, Burgos, León, Atorga), a maioria entretanto por destinos rotas mais distantes (Segóvia, Extremadura, Córdoba, Cádiz, Múrcia, Valência, Teruel.) Os espaços amplos e o tempo que flui lentamente na meseta espanhola parece saltar do livro, emulado pelo autor. Assim como no Hughes há uma enfase na descrição da arquitetura de castelos, mosteiros, claustros, mas há também muito sobre pintura (Zurbarán principalmente, mas também Velázquez e claro, Goya), sociologia, história, literatura e religião (sempre presente em seus livros.) O livro inclui um mapa simples e índices de nomes próprios e lugares, além de algumas fotos em preto e branco. Todo aquele que já esteve na Espanha e já se apaixonou por aquele país há de apreciar este livro e talvez concordar com ele quando diz: "Um ano sem o vazio desse país, sem as cores da terra e dos rochedos, é um ano perdido." Vale.
"Caminhos para Santiago", Cees Nooteboom, tradução de Irène Cubric, editora Nova Fronteira, 1a. edição (2000) brochura 14x21cm, 451 pág. ISBN: 978-85-209-1117-X

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

a seguinte história:

Cees Nootebom é um escritor holandês de seus setenta e poucos anos. Tem como marca seu apreço pelas viagens e pelo esforço em incorporar as distintas experiências que teve e tem ao redor do mundo em seus livros. Ao mesmo tempo é um erudito de mão cheia. Recentemente ele esteve no Brasil, participando da feira literária de Paraty. Lá ele lançou "Paraíso Perdido", que já li e vou resenhar aqui daqui a um par de dias. Eu diria para você ler este livro de uma vez e não ler esta resenha, pois me é impossível não contar o enredo. Há uma "presença grega" notável nesta história, e isto já bastaria para recomendar o livro. Este a "A seguinte história:", assim mesmo, com os dois pontos no final do título (um artifício do editor brasileiro, não presente no original) é um curto romance ambientado em três lugares bem separados no tempo e no espaço: Amsterdã (a cidade holandesa), Lisboa (a cidade portuguesa) e Amazonas (o rio brasileiro). Na primeira parte um sujeito acorda em um hotel lisboeta, falando português, com dinheiro português na carteira, pensando em português, mas ele tem certeza que na noite anterior havia se deitado holandês, falando holandês, pensando em holandês. Este sujeito, um professor de latim e grego, no passado havia estado neste hotel com uma mulher, casada com um colega de trabalho seu. Na segunda parte ele está no passado, nos tempos em que ainda era um professor vagamente interessado (mas sem genitalidades) em uma aluna brilhante. Esta por sua vez era amante do tal colega de trabalho do narrador. A mulher do colega, por vingança e não por amor, aparentemente trai o marido, mas o narrador é o último a saber das nuances do triângulo/quadrilátero amoroso, bobo que é, imerso em seus livros e em suas traduções. A aluna brilhante desaparece na trama após usar sua juventude e calor para colocar a engrenagem da vida para funcionar. Os três profesores algo adúlteros são expulsos da escola. O narrador se transforma em um escritor de guias de viagens. O enredo é o de menos, o livro é curto, o que importa basicamente são as reflexões do narrador sobre a cultura e o prazer quase desconhecido que se encontra na cultura (as línguas, principalmente as ditas mortas; a filosofia, principalmente na sua origem grega; os relacionamentos amorosos, principalmente na sua complexidade e dramacidade). E a arte claro, sempre seminal. A terceira parte é mais enigmática. Eu a entendi como a de um homem que está a singrar por um dos rios do inferno (tudo parece mais luminoso e etéreo que um inferno no livro, mas eu prefiro entendê-lo como uma metáfora de meu favorito entre os rios infernais, o Letes, o rio do esquecimento.) Ao cruzar este rio ele tenta lembrar dos fragmentos de histórias suas histórias, das histórias dos colegas, bem como seguir recolhendo histórias dos incríveis companheiros de viagem (um chinês é o mais interessante.) No final do livro ele se prepara para contar a tal seguinte história que estamos a ler. É um livro muito gostoso de ler, muito tocante mesmo. Haverá mais Nooteboom aqui, prometo, mas esta é outra história.
"A seguinte história:", Cees Nooteboom, tradução de Ivanir Calado, editora Nova Fronteira, 2a. edição (2008) brochura 14x21cm, 102 pág. ISBN: 978-85-209-2123-4