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sábado, 1 de novembro de 2008

tatuaje

Se em “Yo maté a Kennedy” o personagem Pepe Carvalho é engenderado pela primeira vez, neste “Tatuaje” o encontramos já no formato em que ele passará a ser conhecido por sua legião de aficionados. É bom registrar que estes aficionados o seguiram como bacantes em festa por trinta anos, até o cárcere de “Milênio”, último volume da saga do detetive catalão (galego de nascimento.) Manuel Vázquez Montalbán em “Tatuaje” nos faz encontrar pela primeira vez vários personagens da série: o engraxate Bromuro, fornecedor de informações que só alguém das ruas e sem medo dos vapores que emanan das Ramblas (do Caganell diria mais apropriadamente o Robert Hughes que eu abandonei, mas a quem em breve voltarei); a voluptuosa Charo, prostituta que manterá um relacionamento curioso com o detetive até o final; o vizinho iconoclasta Fuster, senhor dos comentários curtos e dos conselhos econômicos e jurídicos invariavelmente trocados por comida; o estafeta Biscuter, ex-colega de cadeia, ou Ginés, o delegado ainda franquista, saudoso das masmorras da Via Laietana. Também temos vislumbres da serra de Collserola, do distrito de Vallvidrera, lugar mítico da casa de máquinas da cozinha terroir e primordial de Carvalho e é claro, como não, temos Barcelona, a eterna feiticeira. Todos aparecem ao menos um tanto. Acompanhamos Carvalho na solução de um crime pelos carrers de Barcelona e pelos canais de Amsterdan. Elipticamente ficamos sabendo uns poucos detalhes do passado de Carvalho, nada muito detalhado, apenas pinceladas de informação, que mais iludem que explicam. A política espanhola da metade da década de 1970 aparece, exuberante e contraditória, exatamente como o próprio detetive, que afinal foi comunista e agente da CIA, e que é um intelectual de formação universitária sólida, mas que também queima livros como se enfadasse da cultura. A solução do crime, descobrir como sempre quem afinal matou o homem tatuado das primeiras páginas é o de menos, pouco importa de verdade. Em “Tatuaje” aprendemos a respeitar este sujeito inverossímel, irreal, mas pleno de vida que é Pepe Carvalho Tourón.
"Tatuaje”, Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta, 1a. edição (2004), brochura 15x23cm, 226 págs. ISBN: 978-84-08-05131-2

terça-feira, 2 de setembro de 2008

carvalho 25 años

Achei esta caixa comemorativa dos 25 anos da publicação do primeiro volume das histórias do detetive Pepe Carvalho na "La Central", uma adorável livraria catalã. Achei por acaso, pois estava a procurar algo para dar de presente e o "estuche" caiu-me nas mãos. É antigo, foi publicado em 1997, quando ainda não haviam sido publicados os três últimos volumes da saga: "Quinteto de Buenos Aires", "O homem de minha vida" e "Milênio". Mas isto não é um problema, pois serve sim como um bom guia tanto para os já entusiastas de Montalbán, quanto para os recém iniciados. A caixa contêm seis volumes pequenos e foi organizada pelo jornalista catalão Quim Aranda, ele também um grande entusiasta da obra de Manuel Vazquez Montalbán. Dois dos volumes são assinados por ele e contam na forma de biografia ligeira a vida do detetive Pepe Carvalho, alinhavando situações e passagens que podem ser encontradas nos dezessete livros publicados até então (o último havia sido "El Prêmio"). É mesmo uma bela homenagem e há muitas pistas para elucidar aquelas passagens menos conhecidas da vida do detetive. Um terceiro livro apresenta fotos de lugares onde o enredo da maioria dos romances foi ambientado, Barcelona reina, claro, mas também há Madrid, Múrcia, Albacete, Amsterdan, Bangkok, São Francisco, Grécia. Os fotogramas vêm acompanhados de trechos dos livros. Dois outros livros envolvem dedicatórias e/ou cartas oficiais cumprimentando Montalbán pela obra ou mesmo o próprio Carvalho pela efeméride. As dedicatórias dão conta do vasto conjunto de apreciadores de sua obra, pertencentes a muitas camadas sociais espanholas, envolvendo jornalistas, escritores, políticos, empresários, poetas, ilustradores, críticos, e por aí vai. Montalbán participou ativamente do movimento de redemocratização espanhola e neste processo encontrou muitos admiradores no meio literário e político (claro que há os detratores, mas estes não participaram destes livros). O último volume organizado por Aranda envolve 101 perguntas sobre Carvalho, um longo teste do perfeito carvalhista. As soluções estão todas nos livros, claro. Um sexto volume encerra a caixa comemorativa e nesta o Montalbán escreve um texto onde o detetive Carvalho é o entrevistado de próprio Montalbán. Com sua ironia de sempre ele vai ajudando-nos a conhecer melhor seu personagem. Belo texto onde criador e criatura se miram, se enfrentam, mas o detetive já sabe que quem terá a última palavra será o autor. Belo conjunto. Para quem tem interesse em conhecer um pouco mais sobre a série Carvalho ou mesmo os demais escritos por Montalbán recomendo o site http://www.vespito.net/mvm/indesp.html. Quem sabe um dia, antes do cinquentenário, voltarei a ler todos os volumes, mas desta vez justamente na ordem em que foram publicados. Veremos.
Carvalho 25 años, el aniversário del grande detective (estuche comemorativo), Quim Aranda e Manuel Vazquez Montalbán, editora Planeta, 1a. edição (1997) brochura 10.5x15.5cm, 6 volumes, 350 pág. ISBN: 978-84-08-02056-1

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

la soledad del manager

Montalbán tornou-se mesmo meu guru para história espanhola. "La soledad del manager" foi publicado em 1977, pouco depois da morte de Franco e do início da transição para a democracia ocorrida por lá. Trata-se do terceiro livro da série de romances policiais com o detetive Carvalho. Belo exemplar da série, cheio de reviravoltas, que conseguem fazer com que a trama fique em suspense até o final, mas também recheada de desvios históricos e sociológicos que tentam explicar um tanto o momento político espanhol. Os personagens secundários são poetas, políticos, grandes empresários, jornalistas, professores, policiais, cada um com um pouco de tempo para explicar a Espanha. Ao mesmo tempo os personagens principais que aparecerão nos demais livros da série Carvalho são inventados aqui (ok, não li ainda Tatuagem, o segundo volume, talvez eu precise um dia corrijir esta informação). Além de Carvalho, no auge da forma, Biscuter já está ali trabalhando (no escritório das Ramblas pois a casa em Valvidrerra todavia não existe); Bromuro já é o contato com o submundo; já há Charo, ainda uma amante eventual; o coronel Parra também aparece, já saudoso de Franco. A Las Vegas americana, lugar onde o antigo agente da CIA, Pepe Carvalho, tinha como base eventual, aparece como cenário de um encontro com um catalão e um alemão, empresários cujas mortes, na trama de "La soledad del manager", servirão para se contar como se dá a tateante ida da Espanha para o campo democrático pós-Franco ao mesmo tempo que se insere nas grandes disputas econômicas do final do século XX. Quem conheça minimamente a força da "Armada Espanhola" de grandes grupos espanhóis que tomou de assalto o mercado latino-americano nos últimos anos vai entender um tanto melhor a gênese do processo. A gastronomia é farta, insistente e generosa neste volume. Belo livro, editado em Cuba, veja só, que eu achei usando o site estantevirtual. Belo livro, grande achado.
La Soledad del manager, Manuel Vazquez Montalbán, editorial Arte y Literatura, 1a. edição (1991) brochura 13x18.5cm, 281 pág. ISBN: ------------------------

quarta-feira, 25 de junho de 2008

yo maté a kennedy

Este livro é o primeiro de Manuel Vázquez Montalbán onde o personagem Pepe Carvalho aparece. Muito vagamente associamos as características que ele viria a incorporar mais tarde às que ele apresenta neste livro. Trata-se mesmo de uma alegoria, uma versão de Montalbán para uma eventual conspiração tramada com o entuito de matar o presidente americano John F. Kennedy. Carvalho é um ex-comunista gallego, exildo dos tempos duros do franquismo espanhol, recrutado e treinado pela CIA para ser guarda costas do presidente. Washignton DC é apresentada como uma Camelot hiper moderna, repleta de vidro, aço e plásticos coloridos, com miríades de aparatos tecnológicos que a mantêm flutuando sobre os EUA, aspergindo um polém de tranquilidade sobre todos, imersos em um mundo de sonhos. É uma visão romântica dos anos 60, talvez contaminada pelos anos duros posteriores ao assassinato de Kennedy, pela guerra do Vietña, pelos movimentos da guerra fria. Não sei exatamente como era o cenário social nos últimos anos de Franco na Espanha (o político eu entendo um pouco mais, ma no troppo), mas a fixação em Kennedy e seu mundo glamuroso talvez sirva de contraponto às cruezas espanholas e a falta de líderes carismáticos. Carvalho priva da companhia de Jackie O. sempre que possível, ganha ternos bem cortados dela e se diferencia dos demais guarda costas. Kennedy é quase um confidente seu, mas na verdade ele é um marionete nas mãos de grupos poderosos que pretendem atribuir a Carvalho seu assassinato. Reviravoltas e aventuras ao longo das páginas nos apresentam Carvalho de fato ao longe dando os tais tiros de fuzil que matam JFK, mas conseguindo se livrar dos sujeitos que o queriam como testa de ferro. Tão verossímel quando a vesão de Oliver Stone, sem dúvida. Preciso ler o livro seguinte, Tatuagem (que não encontrei em Madrid), para entender como Carvalho vai se transformar no cínico e irônico detetive das ruas frescas de Barcelona após este início de carreira tão surpreendente.
Yo maté a Kennedy, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 1a. edi ção (1972) brochura 15x23cm, 181 pág., ISBN: 974-84-08-05030-8

domingo, 8 de junho de 2008

fútbol

Neste pequeno livro estão reunidas crônicas esportivas escritas por Montalbán em mais ou menos vinte e cinco anos como jornalista. São verdadeiras obssessões transcritas. A introdução informa que ele estava trabalhando na compilação destas histórias quando morreu em 2003. O resultado me parece muito irregular. Como não há indicação exata das datas de publicação temos de inferir o contexto exatamente pelo texto (óbvio). O livro é dividido em três grandes tópicos. O primeiro é uma espécie de ensaio sociológico, onde a história do futebol é contada rapidamente usando o prisma religioso e social. Vários jogadores são citados como verdadeiros apóstolos da anunciação de um deus futuro: di stéfano, pelé, cruyff, maradona, romário, rivaldo, ronaldo, beckham e ronaldinho têm seu papel nesta trama. O segundo contêm as crônicas que antecipavam os embates míticos entre Barcelona e Real Madrid nos tempos de Montalbán. Inimigos necessários e rivais fora de campo também, estes dois clubes fazem parte da mitologia própria da Espanha, da rivalidade entre a capital que é Madrid e a capital que perdeu sua majestade, Barcelona. Ambos são algo mais que clubes de futebol lembra sempre o autor. Mas muito se perde se não se é catalão ou madrileño, se não se é do barça ou do real madrid. A terceira parte do livro envolve crônicas ainda mais herméticas, como as que discutem os selecionados espanhóis em várias copas européias; as substituições de técnicos de clubes menores espanhóis; o uso político do esporte (especialmente o futebol) por fascistas como Berlusconi; o jogo de cena dos dirigentes e jornalistas ligados ao futebol, o interesse prático do grande capital internacional (inclusive os das várias máfias) nas transações de jogadores e técnicos. Este livro ficou me devendo algo. Gostei mais da ficção de "o delantero centro asesinado al atardecer" e espero mais da ficção de "la soledade del manager", que ainda não li. Veremos.
Fútbol, una religión en busca de un dios, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Debolsillo, 1a. edição (2006) brochura 13x19cm, 240 pág., ISBN: 987-566-188-0

domingo, 25 de maio de 2008

sabotaje olímpico

Este livro de Manuel Vázquez Montalbán foi publicado aproximadamente um ano depois dos jogos olímpicos de Barcelona. É uma ode crítica a toda organização dos jogos e do conceito mesmo de competição esportiva onde os interesses políticos e econômicos são os únicos que de fato estão em jogo. O livro é uma alegora livre sobre os vários personagens envolvidos nos jogos: o fanquista de primeira hora e presidente eterno do comitê olímpico internacional, Juan Samaranch; Ben Jonson, o recordista dopado do cem metros rasos; o rei Juan Carlos e seu manual do bom reinado debaixo do braço; Felipe González e os muitos políticos madrileños e catalães envolvidos nos jogos (como pano de fundo eleitoral no horizonte); os ricos empreendedores catalães como sempre contando o rico dinheirinho ganho com os projetos imobiliários; os arquitetos e arautos da modernidade que olham para suas obras como a rainha má de Branca de Neve olhava para seu espelho falante; os idealizadores do projeto que mitificaram a própria idéia do que uma Catalunya poderia ter sido ou ainda ser; Bush pai e sua guerra do golfo, sem saber se bombardeia e invade Bagdah ou Barcelona, afinal é tudo a mesma coisa para um caubói; o papa João Paulo II e suas amigas polonesas arremessadoras de dardo, prontas para fecundar todos os católicos deste mundo e aumentar a prole de fiéis. Para nós brasileiros que estamos as voltas com um bando de aventureiros espertalhões que vão organizar a copa do mundo de futebol em 2010 e ainda pretendem de lambuja ganhar a organização dos jogos olímpicos de 2016 é mesmo um livro curioso de se ler. Onde há uma cortina de fumaça adequada, seja ela religiosa, esportiva, afetiva, emocional, festiva, sempre vai existir um canalha de plantão pronto para roubar uns dinheiros, não importa quanto explícito o roubo possa ser executado no final. Talvez aqueles jogos teriam sido uma miragem, inventada para iludir a população mundial de suas mazelas. Talvez tenha sido sempre assim desde aqueles dias ensolarados na grécia, onde um punhado de rapazes nus, lambuzados de azeite de oliva, corriam, pulavam e lançavam para apenas ganhar ramos verdes entrelaçados como prêmio.
Sabotaje Olímpico, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 1a. edição (2005) brochura 15,5x23,5cm, 173 pág., ISBN: 978-84-08-05895-3

terça-feira, 13 de maio de 2008

roldán, ni vivo ni muerto

Este livro de Manuel Vázquez Montalbán foi publicado originalmente de forma seriada no jornal espanhol El País em meados de 1994. É fantásticamente inspirado em Luis Roldán Ibáñez, um político espanhol ligado ao PSOE e que foi durante um certo tempo diretor geral da "Guardia Civil Espanhola", o equivalente de nossa Polícia Federal. Ele foi conhecido por seu desempenho na luta contra o grupo terrorista ETA nos anos 1980 e também por um famoso escândalo de corrupção já no início dos anos 1990. No final do governo socialista de Felipe González (1982-1996) várias membros ativos e importantes do governo sofreram acusações por enriquecimento ilícito e mal uso de verbas públicas. Aparentemente Roldán usava as verbas secretas destinadas a luta contra o terrorismo (o que envolvia o não controle público de seu uso). Feita a denúncia contra Roldán, quando já havia provas irrefutáveis dos desvios praticados, este não comparece a uma audiência do julgamento e desaparece. Por cerca de três anos seu destino era desconhecido até que a Interpol o localiza na Tailândia e o entrega às autoridades espanholas. Aqui há uma coincidência com as coisas do Brasil, pois foi para lá que o glorioso testa de ferro do ex-presidente Collor refugiou-se. Cabe lembrar que nosso PC Farias foi preso, trazido ao Brasil mas logo depois foi convenientemente assassinado. Já Roldán amargou uma pena de 31 anos de prisão, foi multado e devolveu boa parte do dinheiro desviado, sua família e testas de ferro foram igualmente presos e condenados, sem perdão (e sem queima de arquivo, claro). Aliás ele continua preso até hoje. Manuel Vázquez Montalbán usa esta mirabolante história para fazer uma análise ficcional da história de Roldán e dos estertores do governo socialista espanhol da época. Até a publicação do último capítulo na forma seriada e mesmo quando eles foram publicados na forma de livro o paradeiro de Roldán ainda era desconhecido. Montalbán cria então uma fábula onde dezenas de sósias do sujeito são recrutados e espalhados pela Espanha (e até pelo oriente médio). Para os personagens o objetivo deste subterfúgio é confundir a opinião pública enquanto outros corruptos em escalões políticos mais altos, talvez mais experientes, apagassem as marcas de seus próprios desvios. Realidade e fucção se misturam, personalidades históricas conversam com o investigador e seu ajudante (e também com o leitor). Biscuter e Carvalho trilham pistas diferentes, caem em armadilhas mas ao final se encontram nos subterrâneos (talvez melhor dizendo, cloacas morais e éticas, mas subterrâneas) da plaza de Sant Jaume, no centro de Barcelona. Diferentes políticos, grupos econômicos, jornalistas, serviços secretos dos mais variados naipes têm interesse em que Roldán siga desaparecido, longe do olhar e da curiosidade do público. O fino é mais ou menos frouxo. Não é um livro espetacular, mas aprendi um tanto mais sobre a cultura política espanhola e sobre o estilo irônico de Montalbán. Nem tudo o que ele escreve pode ser tomado literalmente a sério. Há mais ironia neste sujeito que eu sabia até agora. Ainda tenho um par de livros da série Carvalho para ler e resenhar. Veremos. Há outra coincidência neste livro, pois ele faz-me lembrar de alguns gênios da raça brasucas que teimam em defender certos gastos públicos, como os generosos aportes financeiros utilizados pelo gabinete da atual presidência da república. Para estes curiosos vestais da "res pública" nosso atual guia genial deve ser blindado, pois sua vida é um segredo de estado secretíssimo e inviolável, mas esta é apenas mais uma triste história deste miserável Brasil acossado internamente por bárbaros.
Roldán, ni vivo ni muerto, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 1a. edi ção (1994) brochura 15x23cm, 173 pág., ISBN: 974-84-08-05957-8

quarta-feira, 9 de abril de 2008

un polaco en la corte

Recentemente um fato que já era mais ou menos corriqueiro para quem acompanha o mundo real ganhou destaque na mídia e virou questão nacional. Falo das não-admissões sistemáticas de brasileiros pelas autoridades aeroportuárias espanholas. O caso ganhou destaque depois que uma mestranda em física na usp paulista foi colocada de volta em um avião sem poder fazer uma conexão para Portugal, onde participaria de um congresso. Ulalá, alguém da classe média caiu na malha! Alguns agentes alfandegários brasucas deram o troco, o glorioso ministro das relações exteriores tergivisou como só ele sabe fazer (como se todos os outros fossemos mesmo pascóvios, como sempre), outros aspones mostraram porque a letargia é mesmo a coluna vertebral deste governo, e o negócio ganhou os minutos nobres da televisão. Mas eu não devia ficar comentando isto aqui pois esta questão vai muito mais longe ainda. Se é que cabe o registro acho que as barreiras alfandegárias ficarão muito mais rígidas do que são agora em todos os lugares do mundo e não apenas na Espanha, nos EUA, na Inglaterra, como agora. Na verdade a não-admissão não é o problema real: o problema real é se perguntar porque tantos brasileiros jovens, velhos, altos, baixos, gordos e magros, tentam se virar em outros lugares. Parece que está tudo muito bom, o futuro nos sorri, nunca antes neste país se viveu tão bem, mas mesmo assim milhares de brasileiros todos os anos preferem experiências como por exemplo lavar banheiros sujos de restaurantes de beira de estrada na Espanha, sem carteira assinada, sem direitos, sem segurança, correndo infinitos riscos, só pelo prazer de fazer isto longe do Brasil. Só na Espanha são uns 100 mil ilegais, vejam só. O Brasil não é mesmo um país para amadores, dizia o Antônio Carlos Brasileiro de Almeida. Presto! Para entender um tanto melhor estes azares e a alma espanhola resolvi ler mais da lavra de meu guru espanhol, o jornalista e escritor Manuel Vázquez Montalbán. "Un polaco en la corte del Rey Juan Carlos" eu achei em um sebo recentemente e deixei-o guardado na estante, como se um diabo tivesse me alertado para se preparar para um combate próximo. Nossos múltiplos ministros das relações exteriores estavam ainda combinando que desculpa esfarrapada dariam para os brasileiros barrados no baile europeu e eu já estava na página 100 deste tijolo de Montalbán, devorando-o. Neste livro ele descreve quase na forma de diário os dias que antecederam as eleições gerais espanholas de 1996, quando os socialistas, em uma crônica anunciada pelos fatos terríveis de então, perderam o poder para o partido popular, direitista como só os verdadeiros franquistas sabem ser (e pensar que o partido popular brasuca apoia o governo de plantão incondicionalmente, que piada!). Mas Montalbán usa estes momentos chaves do que ele chama de segunda transição espanhola para analisar o quadro político da época. É um livro precioso. Qualquer aprendiz de jornalismo político deveria lê-lo. Não conhecia a grande maioria dos entrevistados (políticos, empresários, intelectuais, juízes, profissionais liberais, escritores) mas cada um deles torna-se vívido pelo texto contundente de Montalbán. A meu juízo vejo muitos paralelos (as vezes com sinais cruzados, as vezes simétricos mesmo) entre esta transição e o caso brasileiro (tanto na transição entre os anos FHC para o governo lula, quando deste último para o imponderável que se avizinha). Marx já havia escrito no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, corrigindo um tanto Hegel, que a história se repete, mas como farsa. Nada mais adequado e atual. Será que nenhum grande jornalista brasileiro se interessa por estes temas? Claro, certamente haverá um pac do jornalismo chapa branca que vai gerar laudas laudatórias para nosso timoneiro anão, mas porque um jornalista de verdade não analisa o que acontece no Brasil de hoje com a mesma honestidade intelectual de Montalbán? O livro é extenso, mas muito agradável de se ler. Há um índice onomástico muito bom. A ironia e o bom gosto característicos de Montalbán tornam a leitura deste livro uma experiência instrutiva e verdadeiramente prazerosa. Bom divertimento.
"Un polaco en la corte del Rey Juan Carlos", Manuel Vazquez Montalban, editora Algagarra, 4a. edição (1996) brochura 15x24cm, 560 pág., ISBN: 84-204-8206-4

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

dieta

Já escrevi aqui que uma das minhas alegrias neste ano foi ter sido apresentado aos livros de Manuel Vázquez Montalbán. Este volume da série Carvalho garimpei no site de sebos estantevirtual, "barratinho, barratinho". Acredito que veio diretamente de algum balaio porteño, uma excelente edição da editora Planeta Argentina, com direito a um curto ensaio sobre a gastronomia sempre presente nos livros de Montalbán no final. Uma das coisas que me impressiona é a variedade de seus temas e a vívida imaginação deste sujeito: ele sabe mesmo como contar uma história, por mais inverossível que pareça. Isto o difere em muito do Garcia-Roza por exemplo, que te deixa brabo com umas coincidencias, uns desfechos, umas soluções, que são mesmo de amargar. Publicado originalmente em meados dos anos 80, El Balneario se localizano início da segunda metade da série de livros com o personagem Carvalho, ou seja, se o autor já havia se mostrado um mestre na prosa, ganho muitos prêmios literários e já era senhor de uma reflexão madura e inteligente sobre a Espanha, o personagem já devia estar um tanto acima do peso após a dezena de livros onde a gastronomia é um personagem de apoio, funcional e onipresente definitivamente. Desta vez o detetive Carvalho está de férias em um spa, um balneário, seguindo os conselhos de seu médico para se desintoxicar, perder peso, relaxar da vida dura em Barcelona. Curiosamente não há propriamente receitas neste livro (se é que as sopas ralas da dieta do balneario podem ser consideradas quitutes gastronômicos). Mas é a ausência de comida e as implicações das dietas em cada indivíduo que dá ritmo ao livro. Como diz o personagem principal do livro em um lugar como este nada acontece até o preciso momento em que algo acontece. Não um, mas uma série de crimes acontece e o autor fica a se perguntar se é possível convencer um leitor da verossimilhança disto tudo. O Balneario me parece uma metáfora da Espanha, ainda dividida entre a aproximação com a riqueza da Europa e do Mercado Comum e seu passado de Ouro (nos séculos XVI e XVII) e de crises (na Guerra Civil e no Franquismo). Há muita discussão sobre o papel da política, das greves, da história e da luta de classes, na vida das pessoas comuns, mais simples. No final uma outra metáfora: um baile de máscaras, no encerramento do período de tratamento de todos os internos do balneário. Gostei muito da trama, do tema, do tratamento. Este é mesmo um outro belo livro de Vázquez Montalbán. Junto com este volume recebi também da estantevirtual uma edição cubana de "La Soledad del Manager", e em breve também o resenharei aqui.
El Balneario, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta (Argentina), 1a. edição (1997) ISBN: 950-742-961-1

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

fútebol

Don Cataldo encontrou este livro em um centro catalão de reciclagem e o trouxe consigo para o Brasil. Antes mesmo de ler foi generoso e emprestou-me. Os curtos dias em que esteve em Santa Maria foram suficientes para que eu lesse o livrinho e conseguisse devolvê-lo antes da sua partida para Porto Alegre. Este é um Montalbán do final dos anos 80 (1988 para ser exato). Corresponde a algo imediatamente antes do "Labirinto Grego", que eu já resenhei por aqui. Como o projeto literário de Montalbán envolvia fazer um panorama da Espanha da transição para a democracia seguro que um tema como fútebol, caro aos espanhóis, teria de ser abordado por ele. Neste curto livrinho Carvalho é contratado para descobrir quem são os sujeitos que estão a ameaçar um centroavante recém contratado (por um time que é a própria alma da Catalunha, o Barcelona, apesar de não nominá-lo explicitamente). O mundo da política, do futebol e da especulação imobiliária, às vésperas das olimpíadas, se entrelaçam. Para descrever como não há competição esportiva separada de interesses econômicos terríveis, um outro time catalão, da medíocre terceira divisão, é invocado, e um outro centroavante faz par ao primeiro, aquele ameaçado de morte. Ao redor deste segundo centroavante, um antigo ídolo da cidade, há o mundo dos drogaditos da movida espanhola, o mundo dos deserdados pela modernidade. O futebol pode maravilhar a muitos mas é apenas uma máquina de fazer dinheiro para uns poucos, parece dizer-nos Montalbán, não pleno de razão. Enquanto Carvalho teima em entender o que há de comum (e de diferente) entre os dois centroavantes seu principal infomante das ruas, espécie de faz-tudo do submundo catalão, o engraxate Bromuro, um antigo combatente da divisão franquista Condor nas estepes russas, padece de uma doença terminal. O velho engraxate divide as atenções de Carvalho com o complexo mundo do futebol profissional. O que dizer de mais este Carvalho: literatura da melhor qualidade. Lê-se mesmo com genuíno prazer. Em tempo: desta vez há poucas receitas, mas o tema do livro vai se tornando indigesto demais para lembrar-mos destes bárbaros rituais gastronômicos.
El Delantero Centro Fue Asesinado al Atardecer, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 3a. edição (1997) ISBN: 978-84-0802-087-5

sábado, 4 de agosto de 2007

recetas

Este é um dos livros que eu fiquei na dúvida se deveria ou não incluir aqui. Acontece que é praticamente um livro de receitas e um livro de receitas nunca é lido de capa a capa. Todavia o formato deste "delicioso" livro o transforma em muito mais que um porto seguro de receitas. Carvalho é o personagem principal das novelas policiais de Montalbán. Ele escreveu ao longo de trinta anos 22 livros policiais onde o povo espanhol e seus hábitos nós é contado através de personagens de ficção, como Carvalho, Biscuter, Charo, Fuster, Bromuro e tantos outros, incluindo, como não, a própria cidade de Barcelona, a grande feiticeira. Eu já resenhei ao menos uns oito livros de Montalbán aqui e boa parte deles são da Série Carvalho. Além da prosa bem construída, dos roteiros enxutos, das frases lapidares, há sempre uma receita escondida nos livros. Ora o personagem prepara algo para algum amigo, ora é convidado para um restaurante e passa a teorizar sobre os melhores acompanhamentos e os melhores vinhos. É verdade que muitas vezes é Biscuter, seu ajudante e secretário, quem prepara as mais surpreendentes e realmente mágicas alquimias gastronômicas. Sempre é uma grata surpresa encontrar uma receitas nestes instigantes livros. O que diferencia este "Las Recetas de Carvalho" de um mero livro de receitas é o fato deste trazer sempre um generoso trecho dos volumes originais onde cada uma das receitas aparece. Assim o leitor passeia pela obra policial de Montalbán e pode avaliar sim avaliar se aquele estilo sarcástico e cortante é mesmo algo que deve-se começar a experimentar. A edição original deste livro é de 1988 portanto só há receitas dos livros da série Carvalho publicados até então. Há um outro volume também editado por Planeta onde as demais receitas são igualmente compiladas. Bom. Li todas as passagens destacadas dos livros, mesmo daqueles que ainda não encontrei, já aguçando a curiosidade. Quem sabe um dia não ponho as mãos nos outros volumes? Quanto as receitas namorei várias, comparei uma dúzia de outras, mas preparei apenas um prato: Bacalao al pil-pil, cuja sonoridade desde os tempos de Barcelona eu já ensaiava experimentar, apesar do prato ser originalmente basco e não catalão como o personagem. O preparo é realmente simples mas envolve um movimento para obter a emulsão que é meio chato de fazer. O resultado é muito bom. Acho que este livrinho de receitas não ficará tímido na companhia dos outros de minha biblioteca que já foram mais testados e justificados. Bom apetite.
Las Recetas de Carvalho, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 1a. edi ção (2004) ISBN: 974-84-08-05505-1

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

almuerzos


Publicado em 1984 "Mis Almuerzos con Gente Inquietante" é um livro de jornalismo da melhor qualidade. São 21 entrevistas com espanhóis que de uma forma ou outra serviram ao autor (o sempre instigante Manuel Vazquez Montalbán) como mote para contar um tanto sobre o período de transição para a democracia na Espanha, desde os anos imediatamente posteriores a morte do ditador Francisco Franco em 1975 até os primeiros anos do governo socialista de Felipe Gonzáles (eleito quase surpreendentemente em 1982). A Espanha que transparece neste livro talvez não exista mais, ao menos não para um leitor estrangeiro desavisado como eu. De toda a lista de entrevistados conhecia dois nomes: Bibí Andersen, por conta dos filmes da primeira fase de Pedro Almodóvar, e Jesus Quintero, el louco de la colina, que vejo à noite de vez em quando da tv espanhola pela net. Os outros soavam estranhos: quem seriam Roca Junyent, Xavier Vinader, Fraga Iribarne, Antonio Asensio, Julio Anguita e todos os demais? Fácil. Em rápidas frases Montalbán consegue apresentar personalidades fortes para o leitor sem deixar de opinar sobre elas. São personagens bem variados: políticos a maioria deles, mas também financistas, militares, empresários, jornalistas. A única mulher descobri depois foi casada com o primeiro ministro à época Felipe Gonzáles. O único travesti era o Bibí Andersen dos já citados filmes do Almodovar. Os demais, homens que certamente tiveram seu quinhão nos momentos decisivos desta transição política curiosamente complexa. Montalbán não deixa de vazar seu passado de comunisata engajado, mas entrevista civilizadamente e com bastante cortesia desde grandes reacionários ex-ministros de Franco até elípticos advogados dos militantes armados do país basco ou empresarios catalães plenos de "seny", o bom senso liberal . Algumas entrevistas são menos focadas nos muitos pactos que necessariamente o povo espanhol teve de fazer por conta da transição, mas nenhuma delas é perfunctória. Há um excelente índice onomástico que ajuda o leitor a localizar os personagens deste curioso livro. O formato encontrado por Montalbán tem seu aspecto curioso. Ele sempre encontra seus entrevistados ao redor de uma mesa, durante um almoço, onde quase sempre é o entrevistado que escolhe o cardápio e as bebidas. Gastrônomo que é Montalbán usa este artifício para analisar a personalidade dos entrevistados, afinal desde que saímos de uma caverna e aprendemos os primeiros rudimentos de convívio social os hábitos à mesa definem necessariamente o que somos e o que fazemos. Como lembra sempre Montalbán, citando Marx, se queres conhecer um povo deves conhecer seu pão e seu vinho. Estes instiganges almoços de entrevista são bons de acompanhar mesmo após estes vinte e tantos anos e os quase dez mil quilômetros que nos separam, leitores deste ainda mais complexo século 21.
Mis almuerzos con gente inquietante, Manuel Vázquez Montalbán, Editora Randon House Mondadori, 1a. edi ção (2004) ISBN: 84-9793-459-8

sexta-feira, 13 de julho de 2007

homens-bonsais

Vi este livrinho na CESMA, na sessão de livros infantis, e estranhei o nome do autor. Descobri que o Manolo Montalbán também se aventurou pela literatura infantil. Li em uma viagem sossegada de ônibus pensando nos paralelos possíveis com seus livros para adultos e para aborrecidos contumazes como eu. No livro um grupo de jovens estranha a presença de um criador de bonsais na cidade e seus hábitos de recluso. Aos poucos eles descobrem que além de bonsais típicos ele utiliza a mesma técnica utilizada nas árvores para tentar obter versões em miniatura de cachorros e seres humanos. Expulso o dr. Moreau de Montalbán um outro sujeito estranho ocupa o terreno de sua casa e constrói ali um castelo de vidro. A curiosidade dos jovens faz com que eles novamente enfrentem o desconhecido. Trata-se mesmo de um esforço por apresentar aos jovens leitores alternativas à massificação do mundo moderno, onde de fato todos estão sujeitos à miniaturização de seus cérebros, embotados por demandas artificiais, bobagens, mitos e multiplicação de ignorância. Não sei avaliar se esta abordagem toca um jovem leitor, pouco familiarizado com o contexto e os protagonistas que governam os temas da vida moderna. De qualquer forma é um livro que leva o leitor a pensar na sua vida e nos seus hábitos. A metáfora dos homens-bonsais é muito boa mesmo. Em tempos menos politicamente corretos já usei o termo anão-mental para descrever estes escravos da estupidez e estultice que graçam nestes pagos tupiniquins. Estamos mesmo rodeados de néscios, sandeus, abúlicos de toda sorte, pascóvios incapazes de completar uma frase com algum significado que seja. Millôr Fernandes estava certo quando criou o neologismo "idioletice" para descrever o comportamento dos milhões de idioletas deste Brasil, de homens que têm um vocabulário pessoal único e incompreensível para os demais. Montalbán descreve como a juventude pode eliminar os criadores de homens-bonsais, e nisto devemos partilhar um tanto seu otimismo.
“O Senhor dos Bonsais”, Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, Editora Companhia das Letrinhas, 1a. edição (2002) ISBN: 978-85-359-0029-2

segunda-feira, 9 de julho de 2007

tango


Acabei de terminar o Quinteto de Buenos Aires, livro do Vazquez Montalbán. O livro já estava esgotado apesar de ter sido publicado recentemente (já comentei este fenômeno editorial aqui). Encontrei em um sebo aqui mesmo de Santa Maria. Sorte grande a minha pois este é o último volume da série Carvalho que me faltava ler (isto é, dentre aqueles traduzidos para o português). O livro é na verdade um dos últimos da série, correspondendo à ação imediatamente anterior ao volume “O Homem de Minha Vida”, que já li e resenhei aqui há poucos meses. No “Quinteto” o detetive Carvalho se desloca para a Buenos Aires do governo Menen, em meados dos anos 90. Sua missão é encontrar um primo seu, filho de um tio catalão rabugento. Este primo, que já há muito tempo havia se radicado na Argentina, casou-se, e foi preso durante o golpe de estado dos anos setenta. Sua mulher foi morta. Sua filha sequestrada, desapareceu. A partir daí o livro discute muito dos problemas enfrentados pela Argentina na redemocratização, tímida ainda após os anos violentos do regime militar. Há muito o que falar sobre os mortos e desaparecidos; sobre a guerra idiota pelo controle das Malvinas/Falklands, que desencadeiou a queda do regime ditatorial; do processo de anistia, mal conduzido e não cicatrizado ainda hoje. Apesar do livro ser muito interessante, servindo para lembrarmos do ritmo portenho, das livrarias, dos cafés, das conversas sanguíneas com os argentinos, há um excesso de casos paralelos ao principal desta vez. Acredito que pelo fato da ação do livro envolver muitos meses, Montalbán tenha optado por fazer com que seu personagem principal, o detetive Carvalho, passasse a trabalhar regularmente na capital argentina em parceria de um velho detetive local. Estes “bicos” envolvem vários casos menores, cada um deles exemplificador de um aspecto da cultura argentina, ajudando o autor a descrever a paixão pelo boxe e pelo futebol, mitos da comunidade judaica ali radicada, os clubes de gastronomia portenhos, o peronismo, o tango, o dia a dia dos cafés, a presença imorredoura de Borges, os vestígios não removidos da guerra suja e do aparato policial de militares envolvidos na ditadura. Inegavelmente é bem escrito e há as inevitáveis receitas e combinações de vinhos de sempre. Há um excesso de mortes violentas desta vez, mas condizente com o exagero argentino no período militar. Li com prazer mas já um tanto saudoso do personagem. Tenho outros livros do Montalbán, mas são de ensaios e de crônicas. O ano Montalbán se encerrou mesmo, vamos partir para outros desafios (o Miles já está bem adiantado, o Robert Hughes e sua Barcelona também). Depois eu conto mais.
“O Quinteto de Buenos Aires”, Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Eduardo Brandão, Editora Companhia das Letras, 1a. edição (2000) ISBN: 85-359-0029-2

terça-feira, 19 de junho de 2007

gregos

Este é um livro da série Carvalho escrito à beira mar, perto da Barceloneta, com a estátua de Colón apontando a direção das américas ao fundo. O livro fala de gregos e falar de gregos é falar um tanto do mar e da relação dos homens com o mar. Há as inevitáveis e pantagruélicas receitas de Carvalho para seu amigo Fuster; há as choramingas de Charo e seus planos de se mudar para Andorra; há os lamentos pela morte recente de Bromuro; há dois casos em paralelo para serem resolvidos e duas mulheres a enrodilhar Carvalho. O livro se passa às vésperas das olimpíadas de Barcelona, a cidade repleta de obras e de seres humanos antecipando os lucros com a enxurrada de turistas. Como se trata do início dos anos 1990 há um pouco da decadência dos projetos socialistas, do enfrentamento com a agressividade da AIDS, do reposicionamento de todos frente a modernidade e do milênio que se aproxima. É um belo livrinho, com poucas reviravoltas desta vez, mostrando um detetiva Carvalho na crise da meia idade, chorando por perceber em si comportamento típico de um adolescente cansou de interpretar um papel mais cínico e auto-suficiente. O amor e o amor ao mar são os temas dominantes. Recomendado para todo aquele que não perdeu a capacidade de amar nestes tempos bicudos em que vivemos.
"O Labirinto Grego", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Bernardo Joffily, editora Companhia das Letras, 1a. edição (1992) ISBN: 85-7164-258-3

quinta-feira, 14 de junho de 2007

milênio

Mais um Montalbán. O quê fazer? O sujeito escreve bem, os livros estão à mão e me lembram as Ramblas e o bacalao, asssim eu sigo lendo, com renovado prazer. Este foi o último livro publicado dele. Trata-se de um volume que havia sido planejado 30 anos atrás, quando Montalbán e seu editor acertaram os detalhes do projeto de publicar romances policiais tendo a espanha pós-Franco como pano de fundo. Anos antes um personagem secundário de um de seus livros, Pepe Carvalho, havia chamado a atenção do público, que praticamente pediu desdobramentos e explicações sobre o curioso dedetive ex-comunista, gourmet e literato. Montalbán intuiu que havia lugar nas letras espanholas para um personagem deste tipo e consagrou-se, apesar do romance policial ser também na Espanha considerado um estilo menor. A idéia envolvia escrever o ciclo e terminá-lo na virada do século 20 para o século 21, acompanhando a entrada do estado espanhol na modernidade adindo a inserção no mercado comum europeu. O livro é um relato de viagens, confessadamente baseado no Bouvard e Pecuchet de Flaubert, no Don Quixote de Cervantes, no Robinson Crusoe de Defoe e no Volta ao Mundo em 80 dias de Julio Verne. Pepe Carvalho e seu ajudante Jordi Biscuter saem de Barcelona e vivem uma série de peripécias, reencontrando amigos e rivais, resolvendo pendengas e casos antigos ao longo de uma viagem pelos países mais afetados pela globalização e pelas crises deste início de século. Não é um passeio por hotéis cinco estrelas ou recheado de conversas em praias enluaradas. Acredito que Montalbán queria mesmo que refletissemos sobre os problemas contemporâneos. Não chega a ser um livro pessimista, pois já estamos acostumados com a ironia e a crueza dos comentários do detetive Carvalho. Montalbán morreu logo após de enviar os originais para sua editora, em uma viagem de férias no sudeste asiático, assim ficaremos sem saber se haveria ainda algum desfecho acrescentado à serie. Cabe dizer que apesar deste ser um romance policial o que menos importa no livro é descobrir o autor dos crimes. Acho que ainda vou ler uns pequenos volumes que tenho dele neste ano Montalbán, afinal de contas.
"Milênio", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Rosa Freire D'Aguiar, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-0957-9

quinta-feira, 31 de maio de 2007

carvalho em madrid


Acabei de ler mais um livro do Manuel Vazquez Montalbán e justamente mais um da série Carvalho. Já escrevi anteriormente como sua narrativa é realmente bem apurada e suas descrições dos hábitos e costumes espanhóis são muito bem feitas. Neste volume o cenário muda bastante. Quase toda a ação se passa em Madrid, para onde o detetive Carvalho vai contratado para descobrir o autor do assassinato do secretário-geral do Partido Comunista Espanhol. O esquema é o clássico assassinato em uma sala fechada, muitas vezes utilizado em romances policiais. Apenas um dentre os membros de um grupo é o autor do crime, mas todos são igualmente suspeitos e têm motivação para cometer o crime. Carvalho faz uma investigação paralela à oficial, comandada por seu antigo algoz, do tempo do regime franquista, o comissário Fonseca, personagem muito interessante, apesar de obviamente odiável. Há muita ação, lutas, persiguições de automóveis pelas autopistas madrilhenhas. Aliás são as andanças pela a pé pela Madrid dos anos de redemocratização e as inevitáveis receitas e conversas bem afiadas sobre política, eurocentrismo, religião e gastronomia que dão estofo ao livro. A geografia de Madrid permite ao autor nos levar pelos monumentos, restaurantes, praças, museus e bares populares, como um atento guia durante uma excursão. O personagem principal já havia vivido ali vinte e cinco anos atrás e faz um balanço sentimental desta volta, após ter se radicado definitivamente na sua adorável Barcelona. Salvo melhor juízo este deve te sido um dos primeiros livros de Montalbán traduzidos para o português, ainda na década de 1980 (o livro é de 1981). Apesar de não ter o original espanhol para comparar posso afirmar que há erros aqui e acolá na tradução, nada muito absurdo, mas que gera ruídos estranhos na leitura. Por exemplo, um Bar de Sidras madrilenho virou um "bar sidrado", seja lá o significado deste neologismo; o Paseo de la Castellana virou avenida castelhana; o distinto jamón virou um presunto presunto ordinário, o personagem Bromuro foi traduzido por Bromato, como se fosse mesmo um íon BrO3- (paciência). A ação se dá nos anos de transição entre a ditadura de Franco e a entrada da Espanha no mercado comum europeu, época muito turbulenta da sociedade espanhola. Para quem já fez parte de partidos de esquerda ou conviveu com militantes na juventude, o livro propicia uma aventura especial, pois toda a desesperança que antecede a queda do comunismo na europa no final dos anos 1980 está ali retratada. É mesmo um belo livro.
"Assassinato no Comitê Central", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Flávio Moreira da Costa, editora Graal (coleção Local do Crime), 1a. edição (1986) ISBN: 85-7038-042-9

segunda-feira, 28 de maio de 2007

montalbán

Este vai ser um ano não muito difícil de definir literariamente, pois os livros do Montalbán vão se acumulando nas minhas leituras e minha admiração por ele só aumenta. Assim quando quiser lembrar de 2007 sempre poderei dizer que foi o ano da viagem à Barcelona e a descoberta de Montalbán (ao menos a primeira metade do ano que estamos quase a começar será definida assim). "Os mares do sul" ganhou vários prémios europeus logo após seu lançamento em 1986. A ossatura do livro é a típica dos romances policiais: um detetive sem ambigüidade moral e maniático têm um crime invulgar para investigar e ao longo do livro descreve as paixões humanas de seu tempo com muita argúcia e precisão (desnecessário dizer que no final ele descobre os detalhes escondidos de toda a trama e sai com seu polpudo cheque de pagamento pronto para ser descontado). Mas, como li de um outro resenhador recentemente, é mesmo difícil não se entusiasmar com a riqueza das descrições que Montalbán faz dos costumes e tradições, da política e da gastronomia catalãs, e a sutil crítica da sociedade onde viveu, demonstrando um conhecimento profundo dos homens de seu tempo. Nem todo catalão deveria gostar da rudeza de seus comentários pouco auto-indulgentes com "la vieja catalunya": tubarões em um mar de sardinhas!. O procedimento de queima de livros, hábito do personagem principal do livro, é algo que me exaspera menos sabendo-o ficcional. A forma como ele se faz entender com tiradas rápidas e irônicas quase transforma-o em um onisciente super-homem. As receitas espalhadas pelo livro são um convite a retomarmos a cozinha e abrirmos as janelas da imaginação. Como é curioso o acaso de meu encontro com este livro. Assim como no caso do Durrell, outro parceiro da memória literária desta primeira parte deste ano, não parece que são os livros que vêm e escolhem seus leitores? Em uma biblioteca então teríamos uma constante competição entre eles pela nossa atenção, dispersivos que somos. Esta é uma idéia para se pensar. Bom. Apesr de recomendar o livro sem reservas já gastei adjetivos demais com este sujeito. Tenho mais três livros dele para enfrentar, mas antes há outros três pelo menos: um livrinho de ensaios da Virginia Woolf que começei, um Enrique Vila-Matas recomendado pelo Luiz-Olyntho e um ensaio científico sobre a idade média que está lá pelo meio, mas já merecedor de uma resenha. Vamos a ver quem me escolhe primeiro desta vez. "Os Mares do Sul", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Cid Knipel Moreira, editora Companhia das Letras, 1a. reimpressão (2001) ISBN: 85-7164-750-X

sábado, 28 de abril de 2007

jogo rápido


Resolvi comprar este livro pois desde que começei o Quarteto de Alexandria estas duas palavras têm se apresentado em outros livros. Quarteto é mais um de Manuel Vázquez Montalbán que leio, mas não é da série com as aventuras do detetive e gastrônomo "Pep Carval.lo". Esta é uma novela curta onde um pequeno grupo tem sua vida afetada por um assassinato que lembra o suicídio de Ofélia no Hamlet: "Ali onde achareis um salgueiro crescendo à beira deste arroio, repetindo nas ondas cristalinas a imagem de suas pálidas folhas...". A apresentação crime, os desdobramentos e o desfecho rápido se sucedem em curtos quatro capítulos. Saber quem é o assassino não é um problema. Logo após a apresentação dos personagens já temos nosso candidato natural e o livro não nos tira o prazer de acertarmos a adivinhação. Apesar de curta esta novela é rica em descrições de comportamentos e aspectos da vida cotidiana das pessoas. O inevitável humor negro que preenche o livro de capa a capa é uma maravilha de se ler. Sentimos falta de Charo, de Biscuter e suas receitas mirabolantes, de Fuster, de Bromuro, do próprio Pepe, mas neste livro não há tempo para tramas paralelas. Se eu me estender mais acabo tirando boa parte das surpresas do livro (sim claro, há surpresas mesmo em livrinhos curtos como este). Além disto eu já estou quase a terminar um outro livro e vou escrever aí em cima algo sobre ele. Finito: Quarteto é um belo livro para se iniciar no estilo vibrante, de primeiríssima linha, deste finado catalão.
"Quarteto", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, editora Objetiva, 1a. edição (2006) ISBN: 85-7302-701-0

més una vegada


Descobri o Montalbán há pouco, mas já sou um entusiasta de seu estilo rápido e irônico. Ao ler "A Rosa de Alexandria" não tinha idéia de quão prolífico ele foi, nem como era tão respeitado no mundo da língua castelhana. "O homem da minha vida" é mais um livro da série Carvalho, seu alter ego, um detetive particular que tem uma cultura vastíssima e um sarcasmo natural igualmente imenso. Gosto destes livros pelas breves descrições de lugares e paisagens catalãs, que quero guardar melhor na memória. Há citações de restaurantes e as inevitáveis receitas da "vieja catalunya" que eu gostaria de já ter conhecido antes, pois teria tido a chance de visitá-los. Quem sabe em um outro dia. Neste volume, um dos últimos da série, publicado três anos antes da morte do autor, Pepe Carvalho está as voltas com um assassinato bizarro, promovido por uma seita religiosa aparentemente, e as injunções políticas disto em uma Catalunha às vésperas de eleições municipais. Os temas que estão na pauta da política espanhola atualmente: os novos estatutos de autodeterminação das comunicadades, o uso língua catalã como instrumento de identificação daquela região, a disputa pelos direitos e deveres de cada região. Todos eles estão antecipados no livro mas talvez estes temas sempre estivessem por lá e seja eu o desinformado. A análise econômica e política dos problemas é bastante original e leva o leitor a pensar no papel do homem comum, do indivíduo, neste início de século tão conturbado. Além desta crime para resolver o personagem principal tem de ajustar algumas pendências afetivas, o reencontro com duas antigas namoradas e seu estranhamento no retorno a Barcelona após uma temporada longa em Buenos Aires. Não fosse Manuel Vázquez Montalbán um catalão de quatro costados dificilmente ficaria sem críticas pelo seu franco deboche de temas muito caros aos catalães: a língua, o turismo, a história e as tradições. Em algum momento ele define ácido: "Bonita, mas sem alma", mas talvez fosse porque o narrador estava cansado demais e desesperado demais para avaliar com isenção. Noutra ele escreve: "Na época dos Jogos Olímpicos contruiram aqui um imenso teatro e agora nem sempre encontram espetáculos para ele". Igualmente cruel e ambíguo. Recomendo sem reservas. É um livro que se lê descansado, muito gostoso mesmo. Vou continuar garimpando mais coisas deste sujeito.
"O Homem da Minha Vida", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2003) ISBN: 85-359-0421-2