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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

filoctetes

Filoctetes (Φιλοkτήτης) é uma peça que tem 2.500 anos e ainda é capaz de impressionar um sujeito. Este livro publicado recentemente pela editora 34 é verdadeiramente completo. Além da peça de Sófocles (em edição bilíngue) encontramos caudalosas notas, sugestões bibliográficas e um generoso posfácio assinado pelo tradutor, Trajano Vieira. Além disto encontramos a reprodução de um poderoso ensaio de Edmundo Wilson, um crítico norte-americano (de quem me lembro ter lido com prazer "Memórias do condado Hecate", mas esta é outra história). Lendo o livro aprendi que os três grandes poetas trágicos da literatura grega clássica (Ésquilo, Eurípides e Sófocles) produziram versões da história de Filoctetes. As versões de Ésquilo e Eurípides se perderam na poeira do tempo. Já a versão de Sófocles sobreviveu aos perigos e chegou até nós (curiosamente uma das solitárias 7 dentre as 123 peças que ele teria escrito). Aqueles familiarizados com os mitos gregos hão de lembrar da menção ao herói grego que fora picado por uma cobra e abandonado pelos colegas em uma ilha deserta. Após dez anos de infrutífero cerco, a queda de Tróia necessariamente depende da volta deste sujeito à frente de batalha, empunhando a arma (um arco invencível) que um dia pertenceu ao poderoso Hércules. A peça se inicia com as instruções que Odisseu (Ulysses) dá a Neoptólemo (filho de Aquiles), com o intuito de resgatar as armas invencíveis de Filoctetes. Odisseu fora um dos responsáveis pelo abandono deste e na prática pretende enganá-lo uma vez mais e apoderar-se das armas. Ele convence Neoptólemo da necessidade deste subterfúgio, fazendo-o mentir, dizendo-se perseguido pelos irmãos Agamemnon e Menelau que, conjuntamente com Odisseu, aprisionaram Filoctetes na ilha. Aliviado, inicialmente Filoctetes fica feliz em poder voltar a sua cidade, mas quando descobre que o plano é levá-lo à força até Tróia ele se revolta e não aceita mais sair da ilha, resignando-se a continuar ali em seu imerecido sofrimento. Odisseu ainda tenta convencer Neoptólemo a ficar apenas com as armas de Filoctetes e rumarem para Tróia, mas este - mostrando-se valoroso e digno - tenta uma vez mais convencer Filoctetes da necessidade de sua volta ao convívio dos aqueus, apesar da traição e dos sofrimentos que padeceu. A peça se resolve através daquele procedimento conhecido como "deus ex machina", muito utilizado no teatro grego, no qual, de forma deliberadamente artificial, um personagem (no caso o próprio deus Hércules, dono original das armas invencíveis de Filoctetes) é introduzido na trama para resolver a situação. Hércules convence Filoctetes a voltar a guerra e ajudar os gregos a derrotar os troianos. No início a leitura é penosa, mas aos poucos nos acostumamos com o ritmo. É um texto bastante interessante. Gostaria de ter a chance de vê-lo representado um dia. [início 11/12/2009 - fim 22/12/2009]
"Filoctetes", Sófocles, tradução de Trajano Vieira, editora 34, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 216 págs. ISBN: 978-85-7326-417-3

domingo, 13 de abril de 2008

boris godunov

Umas das coisas que eu mais gostava quando pequeno era folhear os fascículos da "Enciclopédia Trópico" de meu pai. Um dia descobri em uma das malas que ficavam na parte de cima do guarda roupa do "quarto das meninas" vários dos fascículos que estavam faltando na coleção e isto foi motivo de felicidade e comemoração. Minhas primeiras noções de mitologia eu aprendi ali, folheando os verbetes coloridos mas, convenhamos, mal organizados da enciclopédia. Bom. Uma das histórias que eu lembro muito bem era aquela em que o falso Tsar russo Dimitri toma o lugar do Tsar Boris Godunov. Logo destronado tem seu corpo disparado de volta a sua Polônia natal por um canhão. Eu sempre me impressionava com a possibilidade de se vingar de alguém desta forma, lançando seus ossos à canhonaços. Com o tempo confundi e misturei esta história com a do Tsar Ivan, o terrível, dos filmes do Serguei Eisenstein, e também com minhas associações livres malucas de sempre. Mas eis que encontro este "Boris Godunov" em uma livraria portoalegrense, bem editado pela Globo, com direito a uma tradução direta do russo, notas bem interessantes, apêndices e um posfácio generoso do tradutor. O poeta Aleksandr Púchkin fez esta versão dos sucessos da época de Godunov uns 200 anos depois e teve problemas com a censura do Tsar de plantão (Alexandre I), também as voltas com suas próprias rebeliões. Não estou certo se a peça foi mesmo escrita para ser encenada, mas há uma ópera de Mussorgsky baseada no texto que é executada com freqüência. A história é mais ou menos aquela que eu lembrava: Boris Godunov é levado ao trono no final do século 16 por meio de uma assembléia popular após seu cunhado ser considerado inapto (nada de novo, nosostros brasileiros sabemos muito bem que nada é mais fácil e rápido que comprar consciências de uma população semi-analfabeta, mas esta é outra história). Godunov foi o primeiro Tsar que alcançou o trono desta forma. Após uns dez anos de reinado conturbado um impostor que afirma ser o filho assassinado daquele que seria o herdeiro natural ao trono surge em um mosteiro polonês e logo ganha apoio popular, insurgindo-se conta Godunov. Este pateticamente não consegue desmascarar o impostor e acuado pelos fatos, acusado de ter assassinado o verdadeiro Dimitri, morre e é logo substituído pelo impostor. Mas este último não consegue manter sua aura por muito tempo e logo é igualmente destronado (e lançado a balaços de volta a Polônia, como são brabos e definitivos estes Russos). Achei o texto um tanto difícil de acompanhar. As passagens são fragmentárias. Há dezenas de personagens. A história vai se desenvolvendo lentamente. Não há propriamente uma divisão em atos, mas no início da segunda metade eu já estava mais ou menos acostumando ao ritmo. A peça termina com a morte de Godunov, sua mulher e seu filho. Nos apêndices e nas notas aparece enfim a tal história dos tiros de canhão. Experiência boa, mas acho que está na hora de ler mais coisas deste gênero literário, talvez treinar um pouco mais o ouvido, tentar ler em voz alta, tentar pensar mais no texto e menos na memória do assunto abordado. Na verdade preciso um dia ler os russos (don Renato me emprestou volumes que eu teimo em não ler). O tempo está passando.
"Boris Godunov", Aleksandr S. Púchkin, tradução de Irineu Franco Perpétuo, editora Globo, 1a. edição (2007) brochura 14x21cm, 180 pág., ISBN: 978-85-250-4351-1

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

adultérios

Neste livro da LP&M temos três peças curtas de Woody Allen, já representadas em teatros novaiorquinos, mas inéditas no Brasil. São histórias que têm parte daquilo que usualmente associamos a ele: humor, diálogos rápidos e ferinos, psicologia e judaismo, traições, metáforas sexuais, loucura, cabotinismo, o medo da velhice, a paranóia e a sofisticação, bem como o jogo arriscado entre realidade e ficção. A ação das peças se desenvolve rapidamente, cada personagem faz sua parte e o desfecho é sempre um tanto amargo (como de resto costuma acontecer na maioria dos filmes de Woody Allen). Todas envolvem triângulos (ou quartetos) amorosos que se modificam, entre acusações e chantagens, ao longo das peças. Em uma delas há um jogo metalinguístico, quando um dos personagens se confessa um personagem. Nada revolucionário, claro, mas divertido de ler. Apesar de ser um tanto suspeito para falar, pois gosto mesmo dos filmes (e dos livros) dele, acho que a leitura das peças funciona. Claro que a experiência de vê-las representadas é de outra natureza e deve proporcionar outra satisfação. Mas estamos muito longe de Manhattan (na verdade estamos muito longe da maioria dos produtos culturais dignos de nota, mas esta é outra história) para ficar esperando uma encenação destas peças por estes pagos. Paciência.
"Adultérios", Woody Allen, tradução de Cássia Zanon, editora LP&M, 1a. edição (2007) brochura 11x18cm, 198 pág., ISBN: 978-85-254-1696-4