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segunda-feira, 24 de junho de 2013

bichos no lixo

Se há um sujeito que eu respeito é o Ferreira Gullar. Não apenas gosto do poeta, do crítico de arte e cultura, do artista plástico multitalentoso, mas também do sujeito que escreve suas crônicas em jornais. Gullar tem a coragem daqueles que não se importam com o poder daqueles que critica (a maioria dos escritores, músicos, atores e artistas plásticos brasileiros tem sempre aquela velha mania de serem logo corrompidos pelos poderosos de plantão - ou são apenas uns tontos, acontece muito também). Gullar pratica também a clarividência e a memória dos sábios (os Tirésias e as Cassandras desta vida sempre tem um destino funesto, mas antes lembrar das coisas e fazer previsões que ninguém acredita que juntar-se ao coro canalha de hipócritas e oportunistas). Ele tem um estilo literário claro, econômico e objetivo, sempre implacável com a mentira, o roubo e a corrupção, sempre observador das belezas, das musas e dos assombros. Para quem não conhece, suas crônicas na Folha de São Paulo podem ser encontradas aqui. "Bichos do lixo" é algo totalmente diferente, uma proposta visual antes que literária. Lembra um tanto aquele teste de avaliação psicológica (Rorscharch) ou o antigo hábito infantil de passar horas de sol interpretando as nuvens e enxergando nelas tudo aquilo que queremos ver (farão isso as crianças hoje em dia?). Trata-se enfim de um livro-arte, dedicado ao público infantojuvenil. Ele propõe um jogo, reunindo aleatoriamente pedaços de papel (principalmente de jornais velhos, propaganda e envelopes de cartas que recebe) e os recortando e colando em miríades de pedaços que, depois, reúne com calma e cola, metamorfoseando as cores e formas que encontra em animais, insetos e aves. As palavras sintetizam o que o poeta vê, mas é o leitor que é convidado a também ele brincar com a imaginação. Concordaria ele com o que vê? Cabe ainda um registro. Digo que ele reúne aleatoriamente, mas isso não é exatamente verdade. Ele deve preparar o material previamente, talvez deixando a mão fazer automaticamente os cortes, talvez seguindo esboços que faz antes no papel. De qualquer forma com paciência e zelo ele prepara as formas e daí começa o jogo de fixação das imagens que consegue ver. Livro divertido, para entreter todo aquele que ainda tiver uma cabeça jovem e fresca (coisa difícil nestes tempos bicudos). 
[início - fim: 20/06/2013]
"Bichos do lixo", Ferreira Gullar (texto e ilustrações), Rio de Janeiro: Casa da Palavra Produção Editorial (editora Leya), 1a. edição (2013), brochura 25x21 cm., 86 págs., ISBN: 978-85-7734-330-0

terça-feira, 9 de abril de 2013

cine bijou

O tempo passa rapidamente. Falar como se vivia em meados dos anos 1970 parece algo remoto, inusitado, anacrônico. Marcelo Coelho registra em "Cine Bijou" suas memórias afetivas com o cinema, o teatro, com bares e boates, enfim, com a vida noturna de São Paulo daquela época. A ditadura militar ainda seguia violenta e terrível. Mas Coelho, um jovem estudante, com menos de vinte anos, pouco entende o quê de fato acontece na política. Ele passa a frequentar o Cine Bijou, ali na praça Roosevelt, um dos poucos lugares da cidade onde filmes de arte podiam ser encontrados. Dos filmes pouco entende, mas sabe que algum valor as histórias amalucadas e experimentais devem ter, já que eram tão cultuadas. Junto ao aprendizado com o cinema vem o aprendizado com a vida, as colegas de escola que se tornam amigas, os porquês de alguns professores serem perseguidos pela ditadura (enquanto outros não) tornam-se menos áridos, os códigos de sedução tornam-se mais visíveis (e óbvios). Eu, que morava longe, em são Bernardo do Campo, também fiz naquela época minhas caminhadas solitárias por aquelas quadras, algo curioso sobre aquele mundo tão diferente e inspirador (mas só fui entrar na Kilt muitos e muitos anos depois). É um registro de época (curto na verdade), mas também oferece alguma invenção e humor. As ilustrações incluídas no livro, de Caco Galhardo, são muito boas. Trata-se de um livro da coleção Ópera Urbana da Cosac Naify, dedicada ao público infanto-juvenil. Já li e/ou dei de presente o "A cidade dos deitados", de Heloisa Prieto, e "Av. Paulista", de Carla Caffé. Neles São Paulo é apresentada e contada sempre com generosidade, destacando o quão acolhedora, pujante e mágica ela sabe ser, apesar das toneladas de cimento e cinza, dos quilômetros de congestionamento e lágrimas, da miríade de agressões e sonhos baldados. Mas, afinal, haverá alguém que não se apaixone por São Paulo no momento mesmo em que a conheça? Duvido.
[início - fim: 08/04/2013]
"Cine Bijou", Marcelo Coelho, ilustrações de Caco Galhardo, São Paulo: editora Cosac Naify (coleção Ópera Urbana), 1a. edição (2012), capa-dura 16,5x22,5 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-405-0253-6

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

the cats of copenhagen

Para aqueles que gostam de James Joyce 2012 foi um ano particularmente importante, já que muito foi comemorado: os 90 anos da edição original do Ulysses (1922); os 130 anos da data de nascimento de James Joyce (1882); o lançamento de várias novas traduções do Ulysses (dentre elas a quarta tradução completa para a língua portuguesa, a de Caetano Galindo). Entretanto o mais auspicioso foi o fato de toda a obra de Joyce ter se tornado, desde janeiro de 2012, de domínio público. Os herdeiros de Joyce eram extremamente zelosos de sua obra e dificultavam seu uso em qualquer tipo de manifestação artística e/ou cultural. A realidade jurídica de não haver mais direitos de copyright sobre a obra de Joyce foi uma espécie de libertação, comemorada com alegria em todo o mundo. Além das várias traduções novas do Ulysses foram lançadas, vários outros livros de Joyce foram reeditados. O projeto literário mais rumoroso foi o lançamento de "The cats of Copenhagen", logo no início do ano passado, pela Ithys Press. Trata-se de uma carta manuscrita de Joyce, endereçada a seu neto Stephen, algo similar a uma outra que já havia sido transformada em livro nos anos 1960, The Cat and the Devil (e que já resenhei aqui). O problema é que a carta original "The cats of Copenhagen", datada de 5 de setembro de 1936, mas somente descoberta em 2006, fazia parte do acervo da Zürich James Joyce Fundation, que não tinha planos de editá-la em livro. Aproveitando o fato de não haver mais direitos de copyright a Ithys Press antecipou-se (numa manobra não exatamente correta e/ou ética) e transformou a carta em uma edição luxuosa (os exemplares foram comercializados por até 400 Euros). Fritz Senn, o diretor da Zurich James Joyce Fundation, certamente deve ter ficado muito aborrecido. Esse meu exemplar, publicado pela Simon and Schuster (Scribner) custou-me muito menos (uns 17 dólares), mesmo assim já é uma das jóias de meus guardados joyceanos. A tipografia é assinada por Michael Caine e as ilustrações pela designer Casey Sorrow. A história é curta, mas tem sua magia. Joyce descreve os gatos da capital dinamarquesa com seu humor particular, estimulando seu neto a acompanhar suas reflexões. Será que minhas pequenas sobrinhas, doñas Clara e Victória, irão gostar desta história? Logo veremos. Evoé!
[início - fim: 02/02/2013, James Joyce's 131st birthday]
"The cats of Copenhagen", James Joyce, ilustrações de Casey Sorrow, New York: Scribner (Simon and Schuster), 1a. edição (2012), capa-dura 24x16 cm, 32 págs. ISBN: 978-1-4767-0894-2 [edição original: Dublin: Itchys Press, 2012]

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

sr. bliss

Num dia tão absurdo, tão terrível, quando uma vez mais somos lembrados que a vida é mesmo breve, um sopro, um acaso; que pouco importa o futuro e o passado, restando-nos os eventuais prazeres e fardos de um dia como única cousa boa e memorável; que a morte seguirá sempre ceifando sua cota diária, sem critério, limite ou temor; que a estupidez, cupidez e incúria sempre cobrarão caro demais, afastadas das leis, punição e bom senso que estão, eis que continuar os projetos de leitura se torna algo patético e inútil. Pensei em começar o réquiem literário de Christopher Hitchens, "Últimas palavras", mas achei soturno demais para um dia que já se apresentava duro, mas encontrei nos guardados esse "Sr. Bliss", que havia separado para as delícias das férias e de dias mais preguiçosos. Tolkien nunca publicou essa espécie de capricho, uma historieta que produziu e ilustrou ainda nos anos 1930 mas que só foi publicada em livro, postumamente, em 1982. A edição brasileira é muito bem cuidada, reproduz em fac-símile os textos e ilustrações de Tolkien nas páginas ímpares e as espelha a uma tradução do texto original nas páginas pares. A história é curiosa, descreve um dia de um sujeito (o Sr. Bliss, amigo de uma impressionante girafa-coelho), que compra um carro amrelo e experimenta aventuras incríveis com seus vizinhos, com comerciantes e mascates de sua região, com um policial excêntrico, com ursos comedores de bananas e repolhos, e segue experimentando uma série de acidentes rodoviários, almoços elaborados e  passagens por florestas perigosas e escuras até um intrincado final. No início o livro parece uma brincadeira produzida apenas para entreter garotos entediados em um dia de chuva (como Tolkien realmente fez para seus filhos, originalmente), repleta de ilustrações coloridas e pouco texto, mas aos poucos um texto elaborado e vívido se apresenta, demonstrando que um escritor de verdade nunca trai suas habilidades, sua imaginação, sua arte. Acho que vou enviar esse divertido, estimulante, alegre, espirituoso e rico livro para doña Clara, minha sobrinha, vamos a ver.
[início 27/01/2013 - fim 28/01/2013]
"Sr. Bliss", J.R.R. Tolkien, tradução de Monica Stahel, São Paulo: editora WMF Martins Fontes, 1a. edição (2012), capa-dura 25,5x19,5 cm, 104 págs. ISBN: 978-85-7827-632-4 [edição original: Mr. Bliss (London: George Allen & Unwin) 1982]

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

duncan garibaldi

Primeiro volume de uma prometida e ambiciosa série, "Duncan Garibaldi (e a Ordem dos Bandeirantes)" garante bons momentos de leitura. André Cordenonsi criou uma história movimentada, onde se equilibram bem ação e mistério, fantasia e história. O livro me parece direcionado para o público infanto-juvenil, mas um sujeito curioso sobre a história do Rio Grande do Sul também pode vir a se interessar. A história é ambientada na região central deste estado, em Santa Maria, nos entornos de um velho (e antigamente importante) entroncamento ferroviário, e de um conjunto de casas conhecido como Vila Belga. Dois garotos assistem a morte de uma garota e começam a viver uma série de aventuras. Há criaturas mágicas, sociedades secretas, artefatos misteriosos, perseguições de trem, combates singulares, lutas do bem contra o mal. O texto segue o roteiro conhecido de histórias deste tipo: por um lance do acaso um herói é chamado para uma aventura, após fraquejar inicialmente reúne um grupo de associados, passa por uma série de provações, e conta com a sorte (e sua predestinação) para vencer num final épico. Claro, livros assim sempre foram escritos e tem um inegável apelo popular. Fórmulas deste tipo foram rejuvenecidas - se é que se pode dizer uma coisa destas - por J.K. Rowling com sua série Harry Potter, e Stephenie Meyer, com sua série Crepúsculo, que geraram dezenas de obras parecidas, inclusive no Brasil. Há quem acredite que o leitor destas sagas jamais passará a ler sistematicamente livros de adultos quando for adulto, mas isso é algo que apenas uma futura sociologia da literatura nos poderá dizer. O diferencial oferecido por Cordenonsi é que não há apenas invenção e fantasia em seu texto, o sujeito fez um bom trabalho de pesquisa histórica para fundamentar o que apresenta, além de conseguir sustentar o interesse por seu texto até o final do volume. Divertido. Vamos a ver o que ele nos apresentará nos próximos. 
[início 27/10/2012 - fim 31/11/2012]
"Duncan Garibaldi e a Ordem dos Bandeirantes", A.Z. Cordenonsi, Baependi/MG: editora Underworld, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 235 pág. ISBN: 978-85-64025-36-6

terça-feira, 10 de julho de 2012

o gato e o diabo

Este é um ano particularmente importante para quem se interessa pela obra de James Joyce. Além dos noventa anos da edição original do Ulysses (1922) e dos cento e trinta anos da data de nascimento de James Joyce (1882), comemoramos também o fato auspicioso de toda a obra dele estar agora em domínio público, setenta anos após sua morte (1941). Os herdeiros de Joyce eram extremamente zelosos de sua obra e dificultavam seu uso direto ou adaptado em qualquer tipo de manifestação artística e/ou cultural. A realidade jurídica de não haver mais direitos de copyright sobre a obra de Joyce é uma espécie de libertação e está sendo celebrada com alegria em todo o mundo. Também no Brasil muita coisa foi publicada. Além da muito aguardada tradução de Caetano Galindo do Ulysses (Penguin / Companhia das Letras), estão também nas prateleiras a primeira tradução para o português de Stephen Hero (Hedra), feita por José Roberto O'Shea (que também republicou uma antiga tradução sua do Dublinenses, Hedra) e a totalidade dos ensaios estéticos e políticos de Joyce, traduzidos por Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante (De santos e sábios, Iluminuras). Mas o livro de Joyce desta safra comemorativa mais bonito de se ver ou ler é um livro infantil, "O gato e o diabo". Trata-se de uma carta que Joyce enviou a seu neto Stephen em 1936 e que foi transformada em um livro ilustrado pela primeira vez em 1964. Esta carta/livro infantil já havia sido publicada no Brasil em 1980 (traduzido por Antônio Houaiss e reproduzindo as ilustrações da edição francesa, de 1978, produzidas por Roger Blanchon). Esta nova edição tem o padrão de qualidade da Cosac Naify. A tradução é assinada por Lygia Bojunga, respeitada escritora, principalmente por sua dedicação à literatura infantil (ela já ganhou o prestigiado prêmio Hans Christian Andersen). As ilustrações sáo de Lelis (Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira), ilustrador e quadrinista mineiro. A história tem o frescor típico das coisas que os avós contam para entreter os netos. Mas claro, também o sarcasmo e erudição de Joyce estão ali, escondidos na narrativa. Este é o tipo de livro que faz leitores jovens e adultos passarem juntos bons momentos, de alegria e ilusão, como sempre deve ser. [início - fim 08/07/2012] 
"O gato e o diabo", James Joyce, tradução de Lygia Bojunga, ilustrações de Lelis, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2012), capa-dura 28,5x22 cm, 32 págs. ISBN: 978-85-7503-235-0 [edição original: The Cat and the Devil (Letters of James Joyce, edited by Stuart Gilbert) London: Faber and Faber, 1957]

sábado, 9 de julho de 2011

o silêncio da água

Este é o tipo de livro para ser desfrutado com alguma criança, para ser compartilhado com algum jovenzinho, para ser lido em voz alta para o filho de algum amigo, principalmente aqueles meninos e meninas que ainda não passaram pelos primeiros aborrecimentos desta vida. José Saramago nos conta uma pequena história, onde ilustra como até nas perdas se aprende algo (lembra uma frase de Shakespeare, no Othello: "O homem roubado que sorri, rouba alguma coisa do ladrão"). No caso da história dele um rapaz pesca, vagabundo e feliz, nas margens do grande rio Tejo. Quando está quase a conseguir pescar um grande peixe ele escapa. Procura um novo anzol, uma linha mais forte. Conta sua perda para a avó. Quando volta ao rio e tenta uma segunda vez o peixe não vem. O rapaz se põe a pensar nos sucessos da vida. A história é ilustrada pelo espanhol Manuel Estrada, que utiliza várias técnicas (colagem, aguada, aquarela, grafismos digitais, pastel, óleo) para produzir imagens poderosas. O texto original pertence ao livro infantil "As pequenas memórias", onde Saramago reune lembranças de sua infância e adolescência. Livro bom para estes dias vagabundos de inverno. [início - fim 08/07/2011]
"O silêncio da água", José Saramago, ilustrações de Manuel Estrada, São Paulo: editora Companhia das Letrinhas, 1a. edição (2011), capa-dura 21,5x29 cm, 24 págs. ISBN 978-85-7406-468-0 [edição original: El silencio del agua (Barcelona: Libros del Zorro Rojo) 2011]

quarta-feira, 18 de maio de 2011

fabular

Dez jovens ilustradores e/ou designers resolveram mostrar as garras, não esperaram um lance de sorte ou um convite do acaso e editaram um livro eles mesmos. O resultado é "Fabular", lançado na última Feira do Livro de Santa Maria (bueno, perdi o dia do lançamento por um dos compromissos da vida e não pude cumprimentá-los pessoalmente, mas posso fazê-lo aqui: parabéns!) Cada um deles usou quatro páginas para contar sua história ilustrada, todas elas gravitando em torno da relação dos homens com a natureza. Nas palavras deles a idéia do projeto é oferecer aos leitores um passeio por um universo inventado, onde se fundem belezas naturais e imaginação. As técnicas de cada um são distintas: da aquarela e do grafite a tinta acrílica e ao gouache, da colagem e o lápis de cor as ferramentas digitais. Claro, é um espaço pequeno para se desenvolver uma idéia, já que o formato engessa um tanto a potência de cada um. Entretanto o leitor é apresentado aos distintos traços e técnicas e pode sim usar sua imaginação para expandir as histórias (não é assim que fazemos quando contamos histórias para os outros?) Tirando a limitação intrínsica de espaço no projeto não há muitos reparos a se fazer. É um bom livro. No dia do lançamento o livro não tinha ainda um ISBN. Soube depois que eles estão etiquetando os livros com o ISBN e dando asas a eles. Assim eles podem alçar vôos mais altos e eventualmente encontrar as grandes livrarias e as grandes redes de distribuição de livros (Estou seguro que "Fabular" não se intimidará na companhia dos bons livros infanto-juvenis editados no Brasil). Digo isto pois talvez seja este o setor da produção literária brasileira onde notadamente se produz coisas inovadoras e bem acabadas, com profissionalismo e qualidade (mas em um outro post, quando comentar um livro ilustrado pelo Eloar Guazzelli que acabei de ler, volto a este tema). Podemos imaginar o que seria se cada um dos autores (Bárbara Furian Rolim, Letícia Zancan, Marcus Vinicius Sarturi, Orlando Fonseca Jr., Ricardo Winter Bess, Filipe Furian Rolim, Marcus de Moura, Mathias Townsend, Rafael Sarmento, Thiago Moura) tivesse um livro todo só para si. Cabe dizer por fim que eles produziram um blog onde contam um tanto sobre o projeto. Bom divertimento. [início - fim 16/05/2011]
"Fabular: Histórias pela natureza", Bárbara Furian Rolim, Letícia Zancan, Marcus Vinicius Sarturi, Orlando Fonseca Jr., Ricardo Winter Bess, Filipe Furian Rolim, Marcus de Moura, Mathias Townsend, Rafael Sarmento, Thiago Moura, Santa Maria: editora Manuzio, 1a. edição (2010), brochura 20x20 cm, 49 págs. ISBN 978-85-6464-200-3

terça-feira, 26 de abril de 2011

ven a buscarme

"Los enamoramientos", último romance de Javier Marías, foi lançado no dia 06 de abril. Ao encomendá-lo eis que vi este pequeno livro, "Ven a buscarme", parte de uma coleção da Alfaguara espanhola organizada por Arturo Pérez-Reverte. É um livro para crianças, mas que tem ao menos uma das marcas indeléveis de Marías: as histórias de fantasmas. Vejo também algo do fatalismo (grego, mas com tons shakesperianos, caros à Marías). Um jovem chamado Héctor e sua irmã menor, Marina, passam os dias de verão no campo, na casa de seus avós. A avó marca uma árvore na mata próxima a sua casa e indica que além dela os dois não poderiam brincar. Héctor ultrapassa este limite (este métron) e encontra uma caixa de metal enterrada na mata. A caixa guarda uma foto antiga de uma menina e uma carta onde esta menina, Celia, pede ajuda, pede um resgate, pois não quer abandonar o campo e ir viver na cidade. Héctor e Marina passam a procurá-la, com a ajuda da avó. O texto é inspirador, mas claro, curto, pois é pensado mesmo para crianças bem pequenas. As ilustrações do livro são muito bonitas, feitas por uma jovem madrilleña, Marina Seoane Pascual. O único defeito deste livro é ser curto. Paciência. Nota breve: Recebi este e outros livros via DHL e não pelos correios. Foram cinco dias úteis entre Madrid e Santa Maria. Incrível a eficiência. Enquanto isto os terríveis correios brasileiros teimam em nos impingir um serviço pedestre, primitivo, medíocre, que piora dia a dia. Este governo patético não entende mesmo nada de trabalho eficiente. Insuportável tudo isto. [início - fim 14/04/2011]
"Ven a buscarme: Mi primer Javier Marías", Javier Marías, ilustrações de Marina Seoane Pascual, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones) , 1a. edição (2011), brochura 25x23 cm, 33 págs. ISBN: 978-84-20-40733-3

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

o pato, a morte e a tulipa

Este será o último livro que resenharei este ano. Li ainda em julho ou agosto, não me lembro mais, todavia decidi ainda naquela época que deixaria este pequeno livro para ser resenhado por último. Acontece que neste ano vários amigos e/ou conhecidos próximos morreram. Alguns eram mortes anunciadas, estavam doentes há tempos e sinalizando este desfecho. Outros se foram mesmo numa surpresa. Não posso dizer como Flaubert que "meu coração está transformado em uma necrópole", pois minha relação com estes amigos não era exatamente íntima, mas fiquei realmente aborrecido com estas perdas, como se a materialidade da morte se entranhasse numa camada ainda inacessível de mim mesmo. Surpreendi-me com meu distanciamento e frieza. Será que este comportamento é perene? Sentirei o mesmo quando pessoas ainda mais próximas morrerem? Não sei dizer. Pois "O pato, a morte e a tulipa" é um livro para crianças que conta um tanto sobre a morte, que apresenta a morte ao leitor (não necessariamente apenas aos leitores jovens, pois também os adultos podem gostar desta morte - que fala com ironia, que se diverte em acompanhar o pato em suas últimas semanas). O traço de Erlbruch é muito bonito, o texto curto, sem sobressaltos. A filosofia e a cultura amarram o texto. O pato conversa com a morte sobre sua natureza. Entende que quando estiver morto haverá um vazio, um "lá", sem ele, mas que será para o pato também um "não lá", algo que existe a despeito dele, mas está entranhado e definido por ele. É só uma associação besta, mas este belo livro fez-me lembrar de um poema de Wystan Auden onde ele perguntava: "Whither? Where does this journey look which the watcher upon the quay, standing under his evil star, so bitterly envies, as the mountain swim away with slow calm strokes, and the gulls abandon their vow? Does it promise a juster life?" Afinal, para onde aponta esta jornada? É isso o que cada um de nós leva uma vida inteira para descobrir. O livro é bonito, mas este foi um ano ruim. [início 01/06/2010 - fim 24/12/2010]
"O pato, a morte e a tulipa", Wolf Erlbruch, tradução de José Marcos Macedo, editora Cosac Naify (1a. edição) 2009, brochura 24x29,5, 32 págs., ISBN: 978-85-7503-831-4
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Balanço final [31.12.2010]
Este foi um ano complicado, mas ler marcou sempre os melhores momentos, algum descanso na loucura, algum descanso dos aborrecimentos. Li coisas realmente boas, fortes. Li uns seis ou sete bons livros de Javier Marías, notadamente de crônicas, o sujeito sabe ser convincente; encontrei as últimas cositas do Manolo Vazquez Montalbán e do Cees Nooteboom; descobri o poder da prosa de Enrique Vila-Matas; li bons livros de Ian McEwan, Cormac McCarthy e Alejo Carpentier; diverti-me com a prosa descompromissada de Andrea Camilleri e seu adorável comissário Montalbano. Este foi um ano em que li muitos livros em espanhol (29% do total) e que voltei a ler romances policiais (mas os livros de Camilleri oferecem algo mais ao leitor que apenas escapismo). Foi o ano que passei a usar os portais de sebos Abebooks e Iberlibros para garimpar o que me falta na biblioteca, que cousa boa! E foi o ano do lançamento de Arquimedes, um romance coletivo que produzimos cá em Santa Maria, que vendeu e vai vender bem mais ainda. Eis que em 2010 foram 130 livros lidos, quase o mesmo que no ano passado. Foram 28 romances, 18 de crônicas ou ensaios, 14 de perfis ou memórias, 12 romances policiais, 11 novelas, 11 de contos, 9 cartuns ou mangás, 7 de poesia, 6 de gastronomia, 5 infanto-juvenis, 3 didáticos, 3 de aforismos, 2 livros de arte e 1 drama poético (o seminal Filoctetes de Sófocles, que belo livro). No ano que vem quero reler alguns clássicos, como as Metamorfoses, a Ilíada e a Odisséia; voltar a passear pela Mancha com Don Quixote; retomar algum Shakespeare; mergulhar em alguma mitologia, celeiro dos homens; reaprender algo com Joyce, claro; e voltar aos caminhos de Swann e Guermantes, com Proust. É tempo! São projetos de comemoração de meus cinquenta anos. Veremos. Se é que você me acompanhou até aqui boas festas, felicidades mil. Vamos a ver o que se passará de verdade em 2011. Vale.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

o pequeno fascista

Este livro usa a clássica psicologia inversa (se é que alguma criança ainda se convence de algo com um truque deste calibre). Fernando Bonassi conta a história de uma criança que do útero aos primeiros contatos na pré-escola só é capaz de pensar em si mesmo. Não importa quem é o prejudicado: seus pais, seus irmãos, os parentes, os vizinhos, os colegas da escola, já que o pequeno fascista sempre vai tentar governar as vontades dos demais. Trata-se de um livro bem humorado, onde o autor conversa com o leitor tentando explicar como opera um sujeito assim, explicitando didaticamente boa parte de seus truques. Da forma como ele apresenta o fenômeno fica-se com a impressão que ser fascista é algo inato, mas o certo seria pensar em uma maior influência da educação e do meio no caráter de nossos filhos. Claro, podemos ler o livro como uma ferramenta contra a ilusão em que a maioria das pessoas embarca: a de que as crianças são seres angelicais, amorosos, boníssimos, quando é exatamente o contrário, o que um jovem homo sapiens sapiens faz é reclamar sua prescedência sobre todos os demais, sempre. O homo sapiens sapiens é mesmo cruel, agressivo, inconstante, egoísta, covarde, mentiroso, preconceituoso e torpe, e foi por isto que sobreviveu neste planeta inóspito. O livro é muito bem ilustrado por um sujeito chamado Daniel Bueno. Dar este livro de presente para o filho pode trazer aborrecimentos, já que dificilmente pais aceitam a idéia de que estão criando um pequeno fascista. Talvez o certo fosse presentear diretamente eles, os pais, e esperar que o livro cumprar sua função saneadora. Interessante livro, bom mesmo, principalmente em um país de analfabetos que atualmente é governado, e mal, por um legião de fascistas. [início 27/04/2010 - fim 27/04/2010]
"O pequeno fascista", Fernando Bonassi, ilustrações de Daniel Bueno, editora CosacNaify, 1a. edição (2005), brochura 16x23 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7503-373-5

terça-feira, 4 de maio de 2010

o sonhador

Este é o tipo de livro infanto-juvenil que não insulta a inteligência dos jovens e das crianças (nem dos adultos tampouco). São sete contos (como as vidas de um gato) onde acompanhamos os sonhos bastante realistas de um garoto, Peter. Nestes sonhos, um misto de magia e invenção, imaginação, mergulhamos no mundo interior de um rapaz que se sabe crescendo em um mundo que não é exatamente acolhedor. As histórias são comuns, como aquelas que partilhamos com os amigos quando relembramos nosso passado e percebemos de pronto quão similares elas são. Peter pensa falar com as bonecas de plástico de sua irmã; pensa trocar de corpo com o velho gato da família, que tem uma última experiência felina, com a alma renovada pelo garoto; pensa encontrar um creme de invisibilidade; pensa confrontar e vencer mentalmente o garoto forte e agressivo de sua escola; pensa ser um detetive que resolve o mistério de furtos na vizinhança de sua casa; num lance de mágica troca o corpo de um primo chato com o de um bebê dos vizinhos; reencontra amigos na praia que serão seus amigos na vida adulta e se percebe subitamente mais velho, realmente adulto. Tudo acontece neste mundo de fantasia, mas McEwan sabe recuperar estas experiências bem juvenis, estas memórias que brincam com o real, de uma forma realmente inovadora. É um belo livro para se presentear aos filhos dos amigos, aquelas criaturas maravilhosas que ainda sabem sorrir e se divertir sem culpa, criativos sonhadores que são. [início 15/04/2010 - fim 19/04/2010]
"O sonhador", Ian McEwan, ilustrações de Anthony Browne, tradução de Roberto Grey, editora Rocco, 1a. edição (1998), brochura 16x23 cm, 103 págs. ISBN: 85-325-0860-X

sábado, 10 de abril de 2010

carta das ilhas andarilhas

Quem me falou deste livro foi sua tradutora, Lara Christina, num dia em que éramos os felizes convidados de Heloísa e Samuel (o prato principal era um legítimo Cioppino, que Heloísa, capitã de longo curso na cozinha, ficou feliz em compartilhar conosco). Ainda em São Paulo encontrei o livro (uma bela produção da editora 34), mas só recentemente consegui alguma calma para lê-lo (é certo que há livros que não se deixam ler quando estamos doentes, tensos ou mesmo mal humorados). O livro é um belo volume, com ilustrações belíssimas de um sujeito chamado André François (um romeno que morreu há pouco mais que cinco anos). É um livro muito divertido, que talvez um sujeito adulto e que já tenha passado por alguns aborrecimentos goste mais que um jovem, mesmo aqueles com ainda alguma capacidade de ilusão. Digo isto pois o livro é uma ode à liberdade e talvez uma pessoa que valorize a liberdade e outras virtudes possa entender mais o seu valor. Pais e filhos que eventualmente leiam este livro juntos vão ter momentos de raro prazer. O texto conta a história de como os habitantes de uma ilha são temporariamente ameaçados pela cobiça daqueles que vivem no continente (hipócritas, falsos, inconstantes, traidores, agressivos, cruéis), mas que conseguem (mais em função do acaso que de algum planejamento) voltar à alegria, à felicidade, à seus afazeres, sua rotina. Eu, que li livros terríveis recentemente, livros que falam das desgraças de países que foram colonizados da forma mais perversa possível (Haiti, República Dominicana, Angola, México), amenizei um tanto minha bile, desfrutei dos jogos verbais, do humor, da cadência e da alegria de um texto que encanta do começo ao fim. Jacques Prévert foi um grande poeta francês (morreu há quase 35 anos já) e este é de seus raros livros em prosa. Gostaria de encontrar algo de sua poesia um dia destes. Nada como uma boa dica recebida em um dia adorável para fazer à alma um grande bem. [início 01/03/2010 - fim 29/03/2010]
"Cartas das ilhas andarilhas", Jacques Prévert, ilustrações e desenhos de André François, tradução de Lara Christina de Malimpensa, editora 34, 1a. edição (2008), brochura 22,5x15,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7326-402-9

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

alice no país das maravilhas

Quem não sabe uma história ou outra dos livros de Alice, mesmo sem nunca ter aberto qualquer um deles? Os personagens e o enredo fazem parte de um imaginário coletivo. Afinal não é verdade que muitos falam da guerra entre troianos e gregos, de complexos como o de Édipo, repetem frases de Shakespeare ou emulam dúvidas sobre Capitu, sem nunca terem enfrentado a Ilíada, Freud ou Sófocles, Hamlet ou Machado de Assis. Lembro-me de ter ganho quando pequeno, em uma espécie de quermesse na escola, de um exemplar do "Alice no país das maravilhas" que tinha belas ilustrações coloridas coladas ao livro. Elas estavam quase todas soltas e eu arriscava minhas versões rabiscadas nos espaçõs vazios (depois eu as colei todas de volta). Naquela época eu já havia lido a versão do Monteiro Lobato, mas aquelas gravuras coloridas mudaram meu encantamento com a história. Recentemente a Cosac Naify lançou uma nova edição deste Alice, com tradução de Nicolau Sevcenko e com ilustrações belíssimas de Luiz Zerbini. Ele utilizou vários tipos de baralhos, recortando-os e montando-0s em dioramas que acompanham as histórias. É mesmo um prazer voltar às histórias de Alice, não importa a idade do sujeito e o humor do momento. Aos poucos somos levados ao mundo mágico de Lewis Carroll, que mais que responder, faz perguntas instigantes ao leitor, tornando a experiência com o livro uma espécie de visita a um parque de diversões. Não sei avaliar se esta tradução é mais criativa ou equilibrada, como diz Ana Maria Machado na apresentação do livro, mas diverti-me muito nos dias vagabundos de final de ano, acompanhando Alice para o fundo da terra e além. O livro conta com uma bibliografia bastante completa e uma lista de todos os grandes ilustradores do livro. Que tempo divertido. Que leitura deslumbrante. [início 28/12/2009 - fim 31/12/2009]
"Alice no país das maravilhas", Lewis Carroll, tradução de Nicolau Sevcenko, editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), brochura 17x23 cm, 168 págs. ISBN: 978-85-7503-849-9

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

beringelo

Em "Beringelo" Orlando Fonseca dá voz a um cachorro. O resultado é um pequeno livro voltado para o público infanto-juvenil. Beringelo conta um tanto de suas venturas, seus nomes, sua personalidade, suas lembranças (que são vagas, segundo ele mesmo). Conta principalmente como conquistou o amor de um jovem dono e sua família. O pequeno cachorro tem até de se virar como cão-policial, quando usa seus dotes para ajudar um delegado a resolver o sequestro do garoto que virá a ser seu dono. Orlando gosta de jogos verbais e trocadilhos, então faz seu personagem usá-los o tempo todo. Li recentemente "Eu sou um gato" do escritor japones Natsume Soseki, publicado em 1905. Nele o único personagem que fala é um gato vagabundo dos bairros de classe média da Tóquio de cem anos atrás. Claro que o romance de Soseki tem mais fôlego, ou melhor dizendo, que o gato de Soseki tem mais fôlego que o cachorro de Orlando Fonseca, mas isto não é um problema. "Beringelo" é um romance bem escrito e divertido de se ler. Eu teria dado um tratamento gráfico melhor, aumentaria o corpo das letras (pequenas demais para atrair um jovem leitor, acho eu), incluiria ilustrações mais generosas que as divertidas patinhas que percorrem as páginas do livro, mas talvez o projeto desta coleção da editora Movimento não permita muitas variações no design. Paciência. Parabéns ao Orlando por mais esta aventura literária. [início 23/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Beringelo: uma au-autobiografia", Orlando Fonseca, editora Movimento (1a. edição) 2009, brochura 15,5x23, 21 págs., ISBN: 978-85-7195-145-7

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

wabi sabi

Comprei este livro para dar de presente à Helga. É um livro para quem gosta de gatos e gosta de arte e também um livro para quem gosta de refletir sobre a vida. Mostrei a ela pelo skype uns dias antes de seu aniversário. Transcrevi o texto, ao qual juntei algumas das belas ilustrações do livro (colagens e gravuras na verdade) que achei na internet. No livro conta-se uma curta história de uma gata curiosa sobre o significado de seu nome: "Wabi Sabi". Para a cultura japonesa Wabi Sabi é um conceito importante, associado à estética e ao modo mesmo como os japoneses vêem o mundo. Se é que eu entendi bem uma coisa para ser completamente bela (em termos japoneses) deve incluir em si uma imperfeição, uma incompletude, uma impermanência. É um termo emprestado do taoismo e do zen-budismo que pode ser usado por artistas, designers, arquitetos, poetas (por todos e por ninguém em particular). Todos os personagens que a gata encontra durante sua viagem de auto-conhecimento respondem à ela que seu nome "é um tanto difícil de explicar", coisa que a deixa progressivamente mais curiosa, mas ao final ela alcança uma compreensão. As colagens que enfeitam o livro são de fato belíssimas (Ed Young é o nome do sujeito que as produziu) e o tratamento gráfico do livro é muito bom. Talvez eu devesse incluí-lo na categoria de livro de arte e não como infanto-juvenil, como sugere o próprio editor. O livro inclui vários haicais. Acredito que Helga gostou desta nova gata que a espera por aqui. Feliz aniversário gata, uma vez mais. [início 14/10/2009 - fim 14/10/2009]
"Wabi Sabi", Mark Relbstein, tradução de Luzia Aparecida dos Santos e Monica Stahel (haicais), arte de Ed Young, Editora Martins Fontes (1a. edição) 2009, capa-dura 27,5x27,5, 40 págs., ISBN: 978-84-7827-164-0

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

cidade dos deitados

Comprei este livro para dar de presente, mas quem disse que eu consigo ter um livro em mãos e ao menos não folheá-lo? É um livro para jovens mais que para crianças e um livro que trata da morte com muito humor. As ilustrações são muito apropriadas. Elizabeth Tognato se apropriou da simbologia dos grupos góticos, punks e metaleiros de São Paulo (costumeiros frequentadores dos belos cemitérios que ficam na rua da Consolação, na Cardeal Arcoverde e na Doutor Arnaldo). Estes cemitérios são verdadeiros museus ao ar livre, repletos de esculturas representativas de vários estilos e épocas. Ao mesmo tempo passear por eles é passear um tanto pela história recente de São Paulo e do Brasil. Este livro faz parte de uma coleção de títulos voltados para o público infanto-juvenil chamada Ópera Urbana. São livros que vem acompanhados com libretos realmente didáticos, onde se pode aprender um pouco sobre um assunto sem os aborrecimentos de um processo pedagógico tradicional. A autora Heloisa Prieto se confessa uma admiradora de escritores sombrios (digamos assim) como Edgar Allan Poe, e consegue criar uma boa história (um curto conto na verdade) que se sustenta sem maiores problemas. Vou inventar mais motivos para presentear os filhos de meus amigos e ler os outros títulos desta coleção, assim mato um tanto as saudades da velha São Paulo dos campos de Piratininga e também aprendo algo novo. [início 18/08/2009 - fim 19/08/2009]
"A cidade dos deitados", Heloisa Prieto, ilustrações de Elizabeth Tognato, editora Cosac Naify e Edições Sesc SP (1a. edição) 2009, capa-dura 16,5x22, 60 págs. ISBN: 978-85-7503-296-1

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

uma letra puxa a outra

Noutro dia vi na televisão uma entrevista com o ilustrador Kiko Farkas e fiquei curioso em conhecer seu trabalho. Encomendei para dar de presente para o filho de um amigo meu mas claro que antes eu tinha de ler (e depois embrulhar como se fosse novo, paciência). Minha surpresa foi saber que o texto do livro é do poeta e tradutor José Paulo Paes, morto há uns dez anos, que eu conhecia de outros carnavais. Cousa boa. O livro é um abecedário muito divertido, feito para quem está mesmo na fronteira de entender as letras e os sons. José Paulo Paes construiu umas quadrinhas rimadas que certamente ajudam os pequenos (e aqueles que já frequentam a rua do Alzheimer) a memorizarem as letras. As ilustrações são bonitas e muito coloridas, de muito bom gosto mesmo. Editado em 1992, meu volume é da décima-oitava reimpressão, feito impressionante. O livro ganhou o prêmio Jabuti de melhor produção editorial infanto ou juvenil de 1993 (trata-se de um prêmio importante da Câmara Brasileira do Livro). Sempre fico com pena de me desfazer de livros, mas este vai mesmo ser mais útil nas mãos de um jovem leitor que esquecido nas prateleiras de minha povoada biblioteca. [início 19/08/2009 - fim 19/08/2009]
"Uma letra puxa a outra", José Paulo Paes, Kiko Farkas, editora Companhia das Letrinhas (1a. edição) 1992, brochura 23x25, 48 págs. ISBN: 978-85-85466-12-1

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

discurso do urso

O texto curto de "o discurso do urso" faz parte do maravilhoso "Histórias de Cronópios e de Famas", que o argentino Julio Cortázar publicou em 1962 e que todos, jovens, adultos ou anciãos, meninos e meninas de qualquer idade, deveriam ler uma vez ao menos na vida. Emilio Urberuaga, um artista plástico espanhol, ilustrou (e teve a idéia do livro), e Leo Cunha, um mineiro, o traduziu para o português. A editora Record o publicou em homenagem aos 25 anos de morte de Cortázar. Segundo consta na apresentação do livro o texto é o primeiro exercício do autor com temática infantil e foi dedicado ainda em 1952 aos filhos de um pintor francês chamado Eduardo Jonquières. Na história um urso vermelho conta suas andanças noturnas pelos canos dos prédios e sua relação com os seres humanos que percebem os ruídos que ele produz. É uma bela historieta para ser lida para as crianças antes de dormir nas noites frias de um inverno ou para discutir com estas mesmas crianças em tardes em que a chuva nos prende dentro de casa, sem ter mais o que fazer. Muito bonito mesmo. [início 16/08/2009 - fim 16/08/2009]
"O discurso do urso", Julio Cortázar, tradução de Leo Cunha, editora Record (1a. edição) 2009, capa-dura 21x28, 28 págs. ISBN: 978-85-01-08499-6

sexta-feira, 10 de julho de 2009

nos tempos da pedra

Vi uma entrevista com Abraão Aspis e resolvi ler algo dele. Escolhi este "Nos tempos da pedra" por encomenda, mas só ao recebê-lo é que percebi que não é bem um livro, mas um conto curtíssimo, de 38 páginas. No meu manual de edição publicações com menos de 50 páginas não são propriamente livros, paciência. No texto encontramos uma versão para os dias do homem da pedra, como alguns se especializam em caçar e outros em inventar novas ferramentas, novos instrumentos. Trata-se obviamente de uma visão idealizada e romantizada de como deveriam ser aqueles tempos duros em que o homo sapiens sapiens aprendia a sobreviver em condições extremas. Alguns dos personagens de Aspis já usam algo do método científico, ou seja, da capacidade da observação organizada ajudar um sujeito a entender melhor o mundo que o cerca. Já outros seguem dominados pelo misticismo e o medo. Não é um livro excepecional, mas uma tentativa honesta de contar em linguagem simples o poder de transformação do homem. Todavia talvez isto não seja uma coisa sobre a qual os jovens de hoje precisem ser lembrados. [início 27/06/2009 - fim 27/06/2009]
"Nos tempos da pedra", Abrão Aspis, editora Academia Gravatalense de Letras (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 38 pág., ISBN: 978-85-7727-137-5