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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

pato macho

Esse pequeno livro assinado por Claudio Ferlauto é muito especial. Trata-se de um registro da aventura que foi editar um jornal alternativo em  Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no início dos anos 1970 (como se trata de um registro sobretudo gráfico, vou marca-lo como "livro de arte"). "Pato macho" foi comercializado em bancas durante um curto período, de 14 de abril a 21 de julho de 1971. Suas quinze edições, em formato tablóide, chegaram a ter uma tiragem de 5.000 exemplares, com os mesmos anunciantes típicos da mídia tradicional da época. Quem tiver interesse sobre a história do jornal pode consultar os textos longos da Aline Strelow (acadêmica especialista no assunto, que já defendeu uma dissertação sobre o tema) ou acessar o conteúdo de todas as edições, que foram digitalizadas e depositadas no acervo do NUPECC (Núcleo de Pesquisa em Ciências da Comunicação da PUCRS). A história é curiosa. Durante o período militar centenas de jornais alternativos, com ou sem apelo humorístico, foram editados no Brasil ("O Pasquim" é de longe o mais conhecido deles), mas o grupo de jornalistas, arquitetos, fotógrafos, artistas plásticos e publicitários que editaram o "Pato macho" talvez tivessem como principal alvo apenas discutir o provincianismo de Porto Alegre, sua paralisia cultural e jogar Simandol, um jogo que vinha encartado no jornal e ensinava os caminhos para sair da cidade. Claro, um ou outro dos depoimentos incluídos neste livro salienta o papel do jornal frente a situação política do país, os desdobramentos terríveis da ditadura militar e os problemas que o jornal teve a partir do terceiro número, com a censura prévia de suas edições. Todavia o que Claudio Ferlauto oferece é uma espécie de instalação, um happening visual e literário, uma galeria de bolso na qual o leitor acessa uma miríade de informações sobre o jornal do qual foi um dos editores e idealizadores. Há depoimentos de mais de uma dezena de antigos colaboradores, reproduções do expediente e das capas das 15 edições do jornal, de entrevistas, cartuns, anúncios, cartazes, layouts de convites, material audiovisual de divulgação e de artigos de outros jornais onde a existência do "Pato macho" repercutiu. Sua abordagem enfatiza o interesse dos não jornalistas do grupo em aspectos semióticos, da teoria da informação, que poderiam (e foram) utilizados na produção do jornal. Ferlauto fala também das influências gráficas do jornal, de seus cartunistas, da ironia que alicerçava o time de colaboradores e inclui um bom conjunto de referências (além de uma divertida seção que ele chama de ficções e esquisitices da web, onde desnuda aquele povo que adora associar seus nomes a alguma glória passada ou falar sobre o que desconhece quase completamente). Parabéns ao Ferlauto, que não vejo há trinta anos, desde o fim daquelas minhas visitas rápidas à Itararé para roubar um café e prosa com a Sibele e o Gilson. Vale. 
[início: 05/08/2016 - 16/08/2016]
"Pato macho #16: Quinze semanas que abalaram a Província", Claudio Ferlauto, São Paulo: editora Rosari / Cachorro louco, 1a. edição (2016), brochura 13,5x17,5 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-8050-035-6

terça-feira, 9 de agosto de 2016

el bosco

Não se sabe quando exatamente Hieronymus Bosch nasceu (por volta de 1450 é o que se aceita), mas sabe-se que morreu há 500 anos, num 9 de agosto, como hoje. Diz-se que ele nunca saiu de 's-Hertogenbosch, sua cidade natal. Mesmo para quem não associa nome e obra seus quadros e gravuras são bastante conhecidos. Quem os vê um dia guarda sempre forte impressão. Foi o que aconteceu com Cees Nooteboom em 1954 quando esteve pela primeira vez em Madrid e visitou o Museu do Prado. O jovem Nooteboom continuava ali sua errância pelo mundo, desta vez para o mundo das artes plásticas em seus esforços por entender o enigma da luz. Num livro de ensaios que já registrei aqui, Nooteboom não se reconhece exatamente um crítico de artes, mas sabe descrever com muita objetividade e precisão a experiência única, súbita e completa, ao mesmo tempo racional e espiritual, que é recepção e percepção de uma proposta artística. Todo aquele que já tenha visitado o Prado sabe que não se pode eleger dali um único quadro como o melhor, o mais importante, o que inspira mais assombro e admiração. Pois lá o jovem Nooteboom viu Goya e Velázquez, El greco e Zúrbaran, Caravaggio e Botticelli, Tintoretto e Rafael, Picasso e Dali. E viu, claro, aqueles fantásticos e apocalípticos trípticos de Bosch. Sessenta anos depois ele volta com um objetivo ambicioso, começar ali uma série de viagens a museus para celebrar os 500 anos da morte de Bosch, definido por ele como o mais misterioso dos pintores. No Prado ele reencontra "A adoração dos magos", "O jardim das delícias" e "O carro de feno" e no Palácio Real de Madrid ele revê "Cristo carregando a cruz". Mas há, claro, quadros fundamentais de Bosch fora da Espanha. Ele vai até Lisboa (Portugal), no Museu Nacional de Arte Antiga, onde está "As tentações de santo Antônio"; a Ghent (Bélgica), no Museum voor Schone Kunsten, onde revisita "São Jerônimo em oração"; a Rotterdam (Holanda), no Museum Boijmans van Beuningen, onde reencontra "São Cristovão carregando o menino Jesus". Os ensaios são curtos, mas sempre seminais. Há lirismo e poesia em suas descrições. Sua capacidade de associações é sempre muito poderosa. Seus olhos capturam as imagens daquele seu conterrâneo habilidoso e genial, mas seu intelecto sabe que está numa Europa em crise, que novamente parece assombrada, como se mais uma vez (como no 1500 de Bosch) fosse inevitável a possibilidade de um Apocalipse. A edição é muito bem cuidada. A designer (Regine Kaiser) optou por uma solução muito boa: Dada a impossibilidade de poder oferecer num livro a mesma experiência que obtemos quando estamos próximos aos quadros, o livro inclui dezenas de detalhes deles. O leitor acompanha texto e imagens simultaneamente. Quem não tem a vocação para viajar para tantos lugares diferentes como Nooteboom pode aproveitar até 11 de setembro para ir a Madrid e ver a maior exposição de quadros de Bosch já reunida ou fazer apenas uma visita virtual à exposição, muito boa mesmo. Vale a pena conferir. Pois se Bosch está morto, longa vida a Bosch! 
[início: 01/08/2016 - 05/08/2016]
"El Bosco: Un oscuro presentimiento", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal, Madrid: Ediciones Siruela (coleccíon El ojo del tiempo #90), 1a. edição (2016), capa-dura 21x24 cm., 80 págs., ISBN: 978-84-16638-68-0 [edições originais (simultâneas): Een duister voorgevoel: Reizen naar Jheronimus Bosch (Amsterdam: De Bezige Bij) 2016 e Reisen zu Hieronymus Bosch. Eine düstere Vorahnung (München/Deutshland: Schirmel/Mosel Verlag) 2016]

quarta-feira, 18 de maio de 2016

guerra e spray

Comprei esse livro para presentear doña Helga, mas quem disse que não iria ler também. Banksy é um fenômeno da arte urbana, uma espécie de herói vivo de todo grafiteiro do planeta. Não se tem certeza sobre sua identidade, mas sabe-se que ele é britânico, nascido em Bristol em meados dos anos 1970, e que começou a produzir grafites no início dos anos 1990. Seu criativo e inovador trabalho, absolutamente anarquista e contestador, é reconhecido tanto pelo conteúdo, ou seja, pelo impacto político e social que provoca, quanto pela forma, pela qualidade artística, conceitual. "Guerra e Spray" foi publicado originalmente em 2005 (portanto é antigo, nos termos da efêmera arte de rua, popular). Nele estão reunidos trabalhos de algumas de suas séries famosas séries produzidas através da técnica de estêncil: a dos ratos, a dos macacos e a dos policiais, assim como as intervenções em vacas e touros (vivos), em museus e no mobiliário urbano. Seus trabalhos foram realizados em dezenas de cidades. O livro inclui vários textos e reflexões, relatos de experiências e diálogos, poemas e aforismos (todos, acredita-se, assinados por ele). Há muito humor nessas histórias (uma, em que ele desdenha da eficiência prática do uso de uma camiseta com a figura de Che Guevara é a minha favorita, mas aquela em que um sujeito o repreende por embelezar o muro que os israelenses construiram para cercar os palestinos também é ótima). Achei bem interessante suas indicações do tempo que utilizou para produzir as intervenções ao ar livre e também da série de fotografias que identificam o momento em que ele sorrateiramente coloca quadros seus em museus (Tate Gallery, Louvre e vários outros em New York). A maioria deles só ficou exposta algumas horas, mas alguns chegaram a ficar dias incorporados aos acervos. O livro termina com um manifesto (uma declaração de princípios) e também com um pequeno manual de como fazer bom uso da técnica de estêncil. Dificilmente alguém vivo neste início de século XXI deixou de ver uma reprodução de seus trabalhos. Registros deles podem ser encontramos em centenas de lugares, mas você pode começar usando esses links: Instagram, Facebook e sua página eletrônica. De qualquer forma a coleção mais completa e referenciada você encontra no Artsy (trata-se de uma galeria e casa de leilões virtual, de forma que muita coisa pode ser comprada lá caso você tenha o dinheiro certo). Bom divertimento. Vale.
[início: 13/05/2016 - fim: 16/05/2016]
"Guerra e Spray", Banksy, tradução de Rogério Dust, Rio de Janeiro: editora Intrínsica, 1a. edição (2012), brochura 21x26 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-8057-258-2 [edição original: Wall and Piece (London: The Random House Group Limited) 2005]

quinta-feira, 31 de março de 2016

vermeer of delft

No início de março, quando fiz aniversário, decidi me dar um presente. Escolhi ler algo realmente agradável, incontroverso, uma coisa com a qual poderia me envolver sem risco algum de aborrecimentos, que poderia folhear e ler sem medo ou temor de qualquer incômodo. Lembrei-me de uma das obsessões de Charles Swann e dos dias de alegria com meu bom Proust. Não foi preciso muitas associações para que eu lembrasse deste pequeno livro sobre Vermeer (que Helga trouxe em uma de suas viagens). Carreguei-o displicente, sempre ao alcance das mãos, nestas últimas três semanas. Claro, li outras coisas boas neste período: um Claudio Magris, um Cees Nooteboom, um Haruki Murakami, um Isaiah Berlin e um Mempo Giardinelli, mas esse pequeno volume sobre Vermeer serviu-me sempre como uma fonte de saúde, um real descanso da loucura em que mergulhamos todos neste desgraçado país. Trata-se de um livro de apresentação ligeira, não um estudo exaustivo, definitivo. No livro encontramos reproduções coloridas de todos os trabalhos conhecidos de Vermeer. Encontramos também um longo ensaio sobre o que se sabe de sua vida. De sua sua infância e juventude praticamente nada se sabe além de quem eram seus pais e da data em que foi registrado numa igreja em Delft (sua biografia é muito pouco conhecida quando comparada com a de contemporâneos seus, como Rembrandt ou Frans Hals). O texto é assinado por Michel van Maarseveen, um respeitado historiador da arte e atualmente diretor do Paleis Het Loo, um dos museus nacionais holandeses. Maarseveen descreve Delft como um local periférico no campo da arte e da pintura, mas que alcançou notabilidade na segunda metade do século XVII. Ele fala sobre aspectos técnicos do desenvolvimento artístico de Vermeer, eventuais influências e viagens de aprendizado, da importância da sua pintura. Vermeer pintava lentamente, somente duas ou três telas por ano e deve ter produzido no máximo 50 trabalhos (dos quais restam hoje apenas 31 indubitavelmente identificados como dele, além de outros 4 ou 5 a ele atribuídos). Ele morreu jovem, com 43 anos. O fato da maioria delas ter sido feita por encomenda para comerciantes e políticos de sua cidade fez com que o valor de sua obra só passasse a ser reconhecido no final do século XIX, quando começaram a circular, adquiridas por museus. Sabe-se também que no século XVIII ele foi praticamente esquecido e muitas obras suas haviam sido retocadas com a assinatura de outros pintores, mais famosos. Vermeer não foi exatamente um inovador ou alguém que tenha contribuído com novas técnicas de pintura, mas sim um sujeito cuja habilidade elevou em muito o padrão e a qualidade da arte produzidas em seu tempo (considerando suas notáveis soluções para perspectiva, transparências, luminosidade, equilíbrio e forma). Maarseveen percorre a cidade e localiza em sua arquitetura os pontos de referência utilizados pelo artista, os locais onde viveu, o local de sua tumba e as referências modernas dedicadas a ele. Maarseveem dedica duas longas seções a dois de seus quadros mais famosos: View of Delft e The Little Street, mas fala um tanto sobre cada um deles. Belo livro. Cabe dizer que o melhor site que conheço sobre Vermeer, onde seus quadros podem ser apreciados em detalhe é o The Essential Vermeer. Há de tudo ali. Vale mesmo a pena consultar (o site é mantido por um sujeito genial, Jonathan Janson).
[início: 04/03/2016 - fim: 30/03/2016]
"Vermeer of Delft: 1632 - 1675 / His life and times", Michel van Maarseveen, tradução de M.E. Bennet, Amersfoort/The Netherlands: Bekking & Blitz Uitgevers (Miniaturen Reeks, part 8), 2a. edição (2006), capa-dura 11x16,5 cm., 120 págs., ISBN: 90-6109-574-3 [edição original: Vermeer in Delft (Nederlands) 1996]

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

imagens cintilantes

Camille Paglia nos oferece neste "Imagens cintilantes" reflexões sobre arte. Trata-se uma proposta ambígua, ao mesmo tempo é confessadamente modesta ao tentar apresentar através de vinte e quatro reproduções fotográficas a história e os estilos da arte ocidental, contudo tem a enorme ambição de restaurar nossa capacidade de ver. A linguagem utilizada por ela tenta alcançar um público amplo, leigo, não familiarizado com o jargão utilizado tanto por artistas plásticos quanto acadêmicos. Ela justifica sua proposta argumentando inicialmente que neste início de século XXI nossos olhos estão inundados por um mar de imagens que mesmo o mais obstinado dos sujeitos jamais será capaz de registrar e processar. A esta miríade de dados acrescenta que a multiplicidade de estilos e formas de expressão artística não permite mais que uma pessoa, mesmo a mais educada, possa afirmar rapidamente o quê dentre aquilo que vê na produção artística contemporânea permanecerá e terá algum valor estético para as futuras gerações de homo sapiens sapiens. Argumenta também que a arte como fenômeno social jamais foi tão irrelevante e menosprezada. Como acadêmica militante (ela é uma respeitada professora da The University of the Arts) advoga que os estudos culturais relacionados à arte estão excessivamente contaminados por abordagens marxistas, abordagens que são incapazes de separar arte de ideologia, significado econômico ou político. Ela entende a expressão e a fruição artística como processos essencialmente libertários, que dão a cada indivíduo o entendimento do todo humano, de toda história da civilização, de todas as sutilezas de sua psique. As vinte e quatro imagens que usa para exemplificar ao leitor o desenvolvimento dos estilos de arte ocidental são arbitrárias, claro que milhares de outras também serviriam para o mesmo propósito. O que é importante em cada capítulo é sua argumentação, a forma com que desenvolve seus temas. Após algumas poucas imagens dedicadas as civilizações egípcia e grega (além de uma breve passagem pela arte religiosa, até o fim do primeiro milênio da era cristã) Paglia dedica-se aos estilos que floresceram nos últimos quinhentos anos, desde a escultura e pintura renascentista até a pop-art, a performance e o cinema. Em sua abordagem a arte mais expressiva e seminal sempre é aquela associada ou ao processo técnico mais moderno e eficiente de cada época ou ao entendimento mais preciso e aguçado, pelo artista, das transformações sociais pelas quais o homem passa a cada época. O artista sempre é ou o artesão mais refinado ou o "antena da raça" melhor preparado de seu tempo. Paglia fala também do quão enganadora pode ser a valorização da cultura de massas de nosso tempo e descreve como a manipulação digital e instantânea da realidade pode modificar para sempre nosso legado cultural. "Imagens cintilantes" é um livro de arte para quem gosta de ler sobre arte e, melhor ainda, faz o leitor pensar em consultar um livro de reproduções que tiver à mão, visitar o museu mais próximo, vagar pela cidade a exercitar o olhar por tudo o quê há de humano impresso nela. Não é pouco.
[início: 01/12/2014 - fim: 19/12/2014]
"Imagens cintilantes: Uma viagem através da arte desde o Egito a Star Wars", Camille Paglia, tradução de Roberto Leal Ferreira, Rio de Janeiro: editora Apicuri, 1a. edição (2014), capa-dura 19x24 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-8317-017-4 [edição original: Glittering Images - A journey through art from Egypt to Star Wars (New York: Vintage / Knopf Doubleday Publishing Group - Random House) 2013]

quinta-feira, 3 de abril de 2014

ulysses the manual

Dentre os muitos mimos joyceanos que consegui amealhar em 2013 o que veio de mais longe foi o "Bloomsday Survival Kit": livro/objeto/arte do coletivo (que é a palavra da moda para designar grupo) irlandês At it Again!. Trata-se de uma caixa com uns guardados que todo confrade que dispõe-se a participar de um legítimo Bloomsday dublinense precisa ter à mão e consultar. A caixa (o "Kit" propriamente dito) contém um bom mapa de Dublin, sugestões de passeios pela cidade (que se inspiram, claro, nas caminhadas de Leopold Bloom por lá), ítens variados que pretendem estimular o flâneur / leitor a fazer suas próprias associações com o Ulysses, um par de ilustrações muito bonitas e por fim um pequeno livro, um manual para se entender o Ulysses. Esse manual é muito bem produzido e informativo. Encontramos ali uma pequena biografia de James Joyce (que todo neófito rapidamente precisa decorar); um hiper resumo do livro; a localização em Dublin de cada um dos dezoito episódios do livro; descrições dos personagens principais; sugestões de adereços e roupas que podem ser usadas nas comemorações (sim, porque em Dublin centenas de pessoas vestem roupas do início do século XX para entrarem no ritmo certo da festa). O leitor é também estimulado a fazer suas anotações encontrar registros de Bloom e Joyce por Dublin  e eventualmente encontrar o povo do At ir Again! por lá. O bom humor, que dá a tônica trabalho teatral da turma do At it Again! (e que pode ser apreciado em vídeo), contamina o leitor. Claro. Cabe dizer por fim que foi don Thiago, jovem físico dos bons, joycista amador, gremista inveterado e dublinense honorário quem conseguiu me enviar, lá de Dublin, esse meu manual (que agora ninguém tira mais de mim). Sláinte Thiago!
[início: 01/10/2013 - fim: 31/03/2014]
"Romping through Dublin: Ulysses, The Manual", Maite López, Jessica Peel-Yates (text), Niall Laverty, James Joore (illustrations), Dublin: At it Again! (1a. edição) 2013, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-0-4

domingo, 2 de fevereiro de 2014

bloomsday, an interpretation

Há 132 anos, em um 02 de fevereiro, o de 1882, nasceu James Joyce. Por conta disto, talvez hoje seja o dia certo para começar a reler e rever coisas relacionadas a ele. Comprei "Bloomsday: An interpretation of James Joyce's Ulysses" como presente para o Bloomsday 2013. Já passei horas sem fim admirando-o e relendo-o, como quem guarda com as mãos e com os olhos um grande bem. As gravuras originais incluídas nele foram produzidas pelo artista plástico canadense Saul Field, morto em 1987. Elas foram produzidas originalmente em 1967 para um exposição intitulada "Bloomsday Suite", que faz parte hoje do acervo da "Biblioteca pública de Toronto, Canadá". As gravuras (que são primariamente gravuras em metal) foram produzidas por meio de um processo não-tóxico de gravação inventado por Saul Field e Jean Townsend chamado "compotina" (onde utiliza-se uma emulsão de acrílico e gesso em substituição ao ácido na preparação das gravuras). O livro inclui aproximadamente reproduções de 40 gravuras em cores e 15 estudos em preto e branco. São peças realmente bonitas e impactantes. Field superpõe camadas de elementos em seus trabalhos, como em uma colagem. O efeito obtido é muito bom. As ilustrações acompanham textos relativamente longos de Morton P. Levitt, um conhecido especialista em Joyce. Os textos contextualizam cada um dos episódios do livro e também analisam o impacto histórico e literário do Ulysses. Algumas pequenas passagens do livro também estão incluídas e servem para que o leitor localize exatamente a parte dele que está ilustrada nas imagens de Field. Belo trabalho. Como diz Levitt no livro, "Saul Field nos revela de Leopold Bloom tudo o que precisamos saber, na verdade tudo o que nós deveríamos saber dele o tempo todo." E assim, nesse glorioso 02 de fevereiro de 2014, a Nova Bloomusalem pode começar. Happy Birthday Jim.
[início: 16/06/2013 - fim: 02/02/2014]
"Bloomsday: an interpretation of James Joyce's Ulysses", Saul Field (engravings and illustrations) and Morton P. Levitt (text), Greenwich, Connecticut: New York Graphic Society, 1a. edição (1972), capa-dura 29x40 cm., 119 págs., ISBN: 8212-0451-3

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

... e depois a maluca sou eu

A partir de meados dos anos 1970 comecei a ler regularmente jornais (inspirado, claro, pelo velho Aachanald Severinovich, meu Papandreos, que lembrava ser de Hegel o ensinamento: "O jornal é a oração matinal do homem civilizado"). O cartunista que eu mais gostava na Folha de São Paulo era o Angeli, mas em algum momento meu olho começou a seguir também os trabalhos de uma outra pessoa, a Mariza Dias Costa. Lembro-me de uma ilustração dela para o Bloomsday de 1982 colocada ao lado de um texto muito bom do Ivan Lessa para o antigo Folhetim (e foi afinal esse texto do Lessa que convenceu-me a ler aquele tijolo que eu folheava displicentemente quando matava aulas no IFUSP). Naquela época Mariza já era a ilustradora oficial das colunas do Paulo Francis e era difícil não associá-la a quaisquer outros textos. Depois de 1990, quando o Francis mudou-se para o Estadão, ela sumiu dos jornais, voltando à Folha em 1999 para ilustrar a coluna do psicanalista Contardo Calligaris, o que faz até hoje. O estilo dela é inconfundível. Aos desenhos ela superpõe texturas, rabiscos, grafismos, colagens. Esse livro ("...e depois a maluca sou eu") inclui sobretudo os trabalhos da segunda fase de colaboração com a Folha, os trabalhos em cores produzidos para a coluna do Contardo Calligaris. São trabalhos realmente impressionantes, fortes mesmo. Mas gosto mais da potência que brota dos trabalhos em preto e branco, do período inicial (aquele em colaboração com o Francis). Quando lembramos que quase tudo aquilo pertence a uma época anterior aos computadores pessoais e eram produzidos através de desenhos, colagens e xerox (e muito past-up, fotolitos e retícula) eles ganham ainda mais potência. O livro inclui cinco textos: a orelha é assinada pelo psiquiatra Marcelo Ribeiro, no miolo encontramos uma apresentação assinada pelo artista gráfico Orlando Pedroso, um perfil biográfico assinado por Laura Capriglione (que também foi do IFUSP, mas um dia decidiu tornar-se jornalista), um registro amigo do colaborador Contardo Calligaris e um depoimento da própria Mariza, onde ela fala do período em que esteve internada em uma clínica. Todos os textos (e o título também, claro) de alguma forma correlacionam a genialidade artística com uma forma de loucura, como um limite da loucura. Enquanto projeto editorial o livro me parece dividido entre uma função quase terapêutica (pela crueza com que desnuda a vida particular da artista) e uma função acadêmica (de garantir através do registro em livro que a produção de uma das melhores ilustradores brasileiras dos últimos quarenta anos torne-se mais conhecida). O livro é muito bem editado, as cores vibram, as fontes e a composição são super bem feitas. Tudo isso torna este livro um mimo para os olhos. E é divertido afinal.
[início: 25/01/2014 - fim: 28/01/2014]
"...e depois a maluca sou eu", Mariza Dias Costa, São Paulo: editora Peixe Grande, 1a. edição (2013), brochura 21x28cm., 224 págs., ISBN: 978-85-89601-38-2

quarta-feira, 24 de julho de 2013

the works of master poldy

Há livros que jamais serão editados em uma versão eletrônica, pois isso seria um anacronismo (antes seria uma trapaça perversa com o leitor, uma camisa de força limitante). Livros assim só tem sentido ao serem folheados, ao transmitirem pelo contato algo da magia do impressor, ao possibilitarem que todos os detalhes sejam devidamente apreciados, ao trazerem consigo os ruídos e os cheiros das oficinas onde foi produzido, ao exporem o resultado da colagem, da costura, dos cortes, do acabamento. "The works of Master Poldy" é o resultado da colaboração do industrioso Stephen Cole, um ativista cultural americano, com Jamie Murphy, um habilidoso impressor gráfico irlandês. Steve e Jamie produziram um livro que brota do Ulysses de James Joyce (na verdade brota da própria Molly Bloom, quase no fim do livro, no último episódio, Penelope, quando ela diz: "I declare somebody ought to put him in the budget if I only could remember the one half of the things and write a book out of it the works of Master Poldy yes”). Assim, nele estão reunidas frases e aforismos, reflexões e observações, passagens curtas quase todas, mas seminais cada uma, recolhidas pacientemente do Ulysses. O livro inclui também uma apresentação de Anne Fogarty, que discute como algo da sabedoria de Leopold Bloom foi destilada nele, para alegria dos apreciadores da obra de Joyce (e da legião de neófitos que sempre são atraídos por sua poderosa e encantadora prosa). O livro foi impresso nas oficinas da Distillers Press, parte do departamento de artes visuais do "National College of Art and Design" de Dublin e editado pela The Salvage Press, editora irlandesa especializada em pequenas edições e livros artesanais. O resultado é uma obra de arte, pura tipografia, puro gravado, puro deleite. Para Steve Cole esse é um pequeno tributo à visão libertadora de Joyce traduzida no Ulysses (assim como à beleza da arte da impressão e a perenidade desse personagem que gostaríamos de ter conhecido, que aprendemos a amar, leopold Bloom). Há um vídeo no YouTube onde Steve e Jamie apresentam o livro (que ajuda a entender o projeto, mas, acredite em mim, nada supera o prazer táctil de ter o volume ao alcance das mãos). Por fim, se você quiser saber mais, dê uma espiada nele no site da Salvage Press e bom divertimento.
[início: 24/06/2013 - fim: 24/07/2013]
"The works of Master Poldy", James Joyce, Stephen Cole, Jamie Murphy, Dublin: The Salvage Press, 1a. edição (2013), capa-dura 27,5x39cm, 36 págs., sem ISBN

domingo, 6 de janeiro de 2013

zurbarán

Nestes últimos dias, vagabundo, aproveito para retomar leituras interrompidas, terminar os projetos antigos, consultar indicações dos amigos, passar os olhos pela biblioteca procurando algo novo. Claro, sempre aberto às surpresas, ao acaso, ao azar, como sempre deve ser. Um dos livros que estava a esperar dias assim é esse "Zurbarán", de Cees Nooteboom. Hoje é o dia de reis e o dia dos ointenta anos de minha mãe, doña Victória. Depois de falar com ela pelo telefone sabia que teria de dedicar-me a algo que traria lembranças de coisas caras a ela, imergir um tanto no mundo das artes, do epifânico, do mítico. E assim, com Nooteboom, Zurbarán e Vic passei um domingo realmente agradável. O texto de Cees Nooteboom é curto, mas seminal. Assim como sobre a vida em seus romances ele fala aqui sobre arte com exuberância, critério e propriedade (seu "O enigma de la luz" é uma daquelas maravilhas que demoramos para esquecer). Não me surpreendi com sua força. Nas descrições dos quadros ele usa passagens que já encontramos no seu "El desvío a Santiago" (naquele ele confessa que esse último foi pensado para justificar suas viagens por toda a Espnha até os quadros de Zurbarán). Os quadros de Zurbarán são sombrios, soturnos, pesados, carregados de simbolismo e dor. Nooteboom alcança transportar até às palavras a impressão estética que nossos olhos, neófitos e imperfeitos que são, captam, mas não sabem interpretar. Obviamente nada supera a experiência de ver os quadros, mas as pranchas com as reproduções, cinquenta delas (grandes e impressas em papel de boa qualidade) valorizam o projeto. Nunca pude viajar com doña Vic a Madrid, passearmos juntos num dia estival e mágico por lá, mas mostrar a ela livros e fotografias ao voltar das viagens sempre lhe fizeram um grande bem. Vale. Agora sim começou o ano bom. Parabéns uma vez mais minha cara. 
[início 05/01/2013 - fim 06/01/2013] 
"Zurbarán: El pintor del misticismo", Cees Nooteboom, tradução María Condor, Madrid: ediciones Siruela (La biblioteca azul - série Mayor #13), 1a. edição (2011) capa-dura 26,5x31cm, 132 pág. ISBN: 978-84-9841-561-2 [edição original: Zurbarán & Cees Nooteboom. (Essay) Amsterdam: Atlas, 1992 / Zurbarán: Schilderijen 1625-1664 / Zurbaránk (reisverhalen), Amsterdam: Schirmer/Mosel, 2011]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

venecia

"I was drowning in honey, stingless". Lembro-me de quando ouvi esta frase pela primeira vez: eu morava na Rua dos Franceses, em São Paulo. Nas noites de segunda-feira assistia na tv cultura a série produzida pela BBC "Brideshead Revisited". Ali aprendi, com Charles e Sebastian, que à Veneza sempre se deveria chegar "pelo mar" e com Marchmain e Cara que "There were three, to be precise" Bellinis, nos palazzos e galerias de lá. Tonterias, mas que Renato Cohen e eu repetimos tantas vezes desde então. Bueno, depois aprendi um bocado sobre Veneza, com Proust e Ruskin, óbvio, mas também com Joseph Brodsky e, mais recentemente, com Javier Marías. Achei este livro na galeria dell’Accademia. Um sujeito pode viajar por dias, meses, folheando este belo livro. Além da arquitetura, das igrejas e da paisagem, o livro fala dos mosaicos, das escolas de arte, dos três Bellinis, mas também de Canaletto, Tiepolo, Tintoretto e Tiziano. Claro, qualquer livro deste tipo tem algo de superficial, irrelevante, mas o texto não compromete, inclui muitas informações e as fotografias e reproduções são tão bonitas, que logo nos sentimos imersos novamente naquela Veneza que não afunda, mas flutua (como disse Brodsky um dia). A memória é mesmo algo que sabe ser doce, que nos envolve, "stingless", sem medo. [início 28/07/2010 - fim 13/09/2010]
"Venecia", Alessandra Morgagni e Graziano Arici, tradução de Dante Fiorenza, Editora Mondadori Electa, 1a. edição (1997), brochura 20x28 cm, 112 págs. ISBN: 978-88-435-5959-6

quinta-feira, 1 de julho de 2010

san paolo

Este livro é uma pequena jóia, um presente de Vincenzo Scarpellini aos paulistanos, aos brasileiros, e também a todos aqueles que gostam de boa arte. Pois este italiano chegou a São Paulo para trabalhar em um projeto gráfico e acabou tomando gosto. Viveu e trabalhou em São Paulo até sua morte, em 2006, com apenas 41 anos. Jornalista e designer de formação, Scarpellini também publicou livros (diz-se que era um bom editor) e montou uma exposição de artes plásticas. Pois este livro de desenhos (à carvão e lápis de cêra em sua maioria) foram originalmente publicados na Folha de São Paulo, em um canto escondido do caderno Cotidiano (é incrível que há dez anos se podia comprar a Folha em bancas de jornal em Santa Maria, e que hoje isto seja impossível - outra história esta, história patética, de uma cidade que teima em empobrecer de todas as formas). Junto com o seus desenhos vinha um pequeno texto, cinco ou seis frases curtas, sempre instigantes, sempre iluminando um aspecto ou outro do cotidiano da cidade que usualmente ignoramos, cegos que somos as cousas realmente importantes que nos cercam. Além de lirismo há muita ironia nestes textos, mas são os desenhos que arrebatam o leitor. Porque não olhamos daquele ângulo antes, porque não encontramos o belo e o inusitado na cidade como ele o fez, porque não experimentamos a cidade com a calma que Scarpellini implicitamente parecia recomendar? São Paulo sabe ser cruel, mas também encanta um sujeito como só as grandes cidades (e são realmente poucas neste mundo) sabem fazê-lo. A edição é bilíngue (tradução para o inglês de Regina Alfarano), muito bem cuidada, com direito a uma curta apresentação assinada por Gilberto Dimenstein. Arthur Nestrovski assina por sua vez uma breve nota editorial onde comenta o justo equilíbrio encontrado por Vincenzo Scarpellini entre a compaixão e a ironia. Os desenhos de Scarpellini se defendem sozinhos, mas estes detalhes, este belo acabamento do livro transforma-o em uma peça única, incrível! [início 21/05/2010 - fim 25/06/2010]
"San Paolo: desenhos e prosa da cidade", Vicenzo Scarpellini, editora Publifolha, 1a. edição (2009), capa-dura 22x16 cm, 176 págs. ISBN: 978-85-7914-051-8

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

gaudí

Livros sempre ajudam quando se quer conhecer um assunto novo. Pensei nisto mais cedo pois hoje, 02 de outubro, o Brasil ganhou o direito de sediar as olimpíadas de 2016. O sucesso turístico de Barcelona foi um dos argumentos ufanistas mas batidos para justificar a necessidade da vinda do evento para o Rio de Janeiro. Acontece que se você quer saber mesmo porque legiões de turistas se deslocam a Barcelona todos os anos não adianta dizer que foram as olimpíadas de 1992 sediadas ali que colocaram a cidade no mapa. Isto é de uma bobagem sem par. Um jeito especial de aprender algo é ler por exemplo "Barcelona", do Robert Hughes, onde ele conta uma história da cidade justamente até as vésperas da edição daquela olimpíada. Barcelona já tinha 2000 anos de implementos quando isto aconteceu. Um outro jeito de aprender um tanto sobre a cidade é ler sobre os grandes arquitetos do modernismo catalão: Gaudí, Cadafalch, Montaner. Outro é ir visitar a cidade e conviver com o povo (eles não são exatamente cordiais e hospitaleiros, mas esta é outra história, basta dizer que o nacionalismo é sempre o último refúgio dos velhacos e eles existem tanto lá quanto neste pobre Brasil). O que vou resenhar, pois acabei de ler e ver não é um livro sobre Barcelona, mas sim um conjunto de três livretos sobre as obras arquitetônicas de don Antoni Placid Gaudí i Cornet, ou simplesmente de Gaudí. Noutro dia vi na CESMA este conjunto de livrinhos sobre o Gaudí e não deixei para outro dia resolvi levá-los naquela hora mesmo. São livros de arte onde encontramos belíssimas fotografias de todas suas obras. Curtos textos contextualizam as condições da encomenda e da construção das casas, dos monumentos, dos parques, das igrejas. Os autores incluem também trajetos que podemos fazer pela Espanha para encontrar tudo que tem a marca dele. No primeiro volume o trajeto é oeste-leste: Finca Güell, Finca Miralles, Colegio de las Teresianas, Casa Vicens, Parc Güell, Bellesguard. O segundo volume apresenta aquele eixo monumental mais perto das Ramblas e do Eixemple: Igreja da Sagrada Familia, Casa Milá, Casa Batló, Casa Calvet e Palau Güell. Estes dois trajetos podem ser feitos em dias de longas caminhadas. O terceiro volume apresenta obras executadas no interior da Catalunha, em Santander, em Mallorca, em León: Bodegues Güell, Cripta de la colonia Güell, Catedral de Palma de Mallorca, jardins Artigas, Casa de los Botines, Palau Episcopal de Astorga, Vila Quijano El Capricho. Os três volumes cumprem o propósito de proporcionar um educativo primeiro contato com a obra de Gaudí. Entre a ficção ufanista dos velhacos que venderam as olimpiadas de 2016 e a realidade concreta da Barcelona deste cruel século XXI não há muito o que dizer. Talvez só lembrar que ela não foi feita em sete anos. [início 21/08/2009 - fim 12/09/2009]
"Gaudí: paso a paso", H. Kliczkowski e Paco Asensio, Loft Pulications (H.Kliczkowski-onlybook) 2003, brochura 13,5x20, 64 págs. ISBN: 84-96241-23-8 (vol.1), ISBN: 84-96241-24-6 (vol.2) , ISBN: 84-96241-25-4 (vol.3)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

av. paulista

Depois de ter lido "A cidade dos deitados" procurei os outros volumes da coleção "Ópera Urbana" editada pela Cosac Naify. Recebi este "Av. Paulista" em um final de tarde de sol e disfrutei-o plenamente. Tive de inventar um marcador novo para identificá-lo aqui, pois não é exatamente didático, nem cabe bem no rótulo infanto-juvenil de toda coleção. A autora não tem pretensões de produzir uma crônica ou um ensaio sobre a "mais paulista das avenidas", como um locutor de rádio do qual não me lembro o nome dizia muitos anos atrás. Ao menos não uma crônica utilizando palavras, talvez uma crônica visual. Para mim ele é um livro de arte, repleto de desenhos, fotografias e grafismos produzidos por Carla Caffé, uma arquiteta de formação que trabalha com direção de arte, cenografia, ilustração. O livro inclui um depoimento dado por ela a Augusto Massi, crítico literário, poeta e editor de livros de poetas muito bom (mas esta é outra história). O depoimento não compete com os desenhos. Eles tem vida própria. Mas ler o depoimento dela ajuda o leitor a compreender um tanto seu viés, seu envolvimento com o tema, o processo produtivo de sua arte. Como nos demais volumes da coleção os livros são acompanhados por libretos realmente didáticos, informativos, complementares. O libreto tem muitas informações factuais e também entrevistas curtas, depoimentos de habitantes daquela região da cidade. Tanto no livro quanto no libreto acopanhamos a evolução da avenida, detalhes dos edifícios principais, a marca das muitas tribos urbanas que interferem na avenida e deixam ali algo de seu. Que livro bonito! Quantas lembranças afloraram, quantas idéias voltaram. Lembrei vividamente dos dias em que saindo de casa pelo meu "caminho de guermantes" particular, flanava pela rua dos franceses parando aqui e acolá para comprar o jornal e tomar o café, seguia descendo e subindo a joaquim eugênio de lima, finalmente aportando na paulista 900, onde pegava o ônibus sempre de manhã bem cedo. A torre de transmissão no alto deste edifício fazia as vezes da minha igualmente particular "Igreja de Martinville". Bons tempos. Mesmo aqueles que desdenham dos paulistas e secretamente invejam a força de suas realizações vão encontrar neste livro (bem como no libreto) momentos de puro deleite e encantamento. [início 08/09/2009 - fim 11/09/2009]
"Av. Paulista", Carla Caffé, editora Cosac Naify e Edições Sesc SP (1a. edição) 2009, capa-dura 24x32, 48 págs. ISBN: 978-85-7503-261-9