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sexta-feira, 20 de julho de 2018

lira argenta

Nesse poderoso volume estão reunidos poemas de 37 autores, escritos originalmente em 14 línguas e traduzidos por 25 pessoas. Cabe registrar que um trigésimo oitavo autor, Étienne Dolet, também está presente no livro, já que um texto curto dele ("O modo de bem traduzir de uma língua a outra") é utilizado para apresentar o volume, fazendo as vezes de carta de intenções do projeto. Quem assina a edição/organização é o também poeta Vanderley Mendonça. Se há algo a se lamentar neste volume é a falta de indicação de como tal produção foi engendrada e reunida por ele. No cólofon do livro está dito que "a edição reúne as plaquetes impressas e editadas no ateliê do Hussardos Clube Literário, entre 2013 e 2014", mas não consegui encontrar muita informação sobre esse grupo/projeto (o tempo anda ligeiro). Claro, isso é uma bobagem, os poemas se defendem sozinhos. A edição é sempre bilíngue, apresentando lado a lado os poemas nas línguas originais e em português. Encontramos poemas em francês, inglês, catalão, alemão, italiano, latim, espanhol, provençal, friulano, russo, hebraico, romeno, polonês e grego. Os 25 tradutores são Álvaro Faleiros, Augusto de Campos, Claudio Willer, Cide Piquet, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Fernando Klabin, Guilherme Gontijo Flores, Idalia Morejón López, Juliana Di Fiori Pondian, Larissa Peron, Maíra Mendes Galvão, Marcelo Ariel, Matheus Guménin, Monique Maion, Omar Pérez López, Piotr Kilanowski, Reynaldo Damazio, Ricardo Domeneck, Roberto Zular, Ruy Proença, Tatiana Lima Faria, Vanderley Mendonça, Walter Vetor, Willian Zeytounlian. O resultado é muito bom. Claro, não se trata de um livro que o sujeito precise ler respeitando a ordem da edição. No meu caso fui errante, deambulando por eles, primeiro por aqueles dos quais já conhecia alguma coisa (Paul Valéry, Emily Dickinson, Czeskaw Milosz, Wislawa Szymborska, André Breton, Derek Walcott, e.e. cummings, Guido Cavalcanti, Zbigniew Herbert, Vladimir Maikovski, Yehuda Amichai, Paul Celan, Ovídio, Sor Juana Inés de la Cruz, Charles Bukowski, William Faulkner) depois por aqueles de quem mal havia ouvido falar ou, ao menos, não suspeitava terem produzido poesias (Alda Merini, Arthur Cravan, Basil Bunting, Boris Vian, François Rabelais, David Lynch, Denise Levertov, Hans Harp, Meleagro de Gadara, Roberto Juarroz, Vitor Hugo, Mina Loy, Mitos Micleusanu, Maria Mercè Marçal, Heiner Muller, Ingeborg Bachmann, Joan Salvat-Papasseit, Nara Mansur Cao, Peire Vidal, Pier Paolo Pasolini, Robert Desnos). A edição inclui uma brevíssima biografia de cada um dos autores e eventualmente também uma pequena caricatura deles. Quase todos os poemas parecem ter sido vertidos a partir da língua original, mas uns poucos o foram a partir do inglês, num exercício cruzado. Aprende-se um bocado. Esse tem sido mesmo o tempo dos poetas e dos poemas. Nada mais adequado nestes tempos bicudos. Vale! 
Registro #1295 (poesia #97) 
[início: 12/05/2018 - fim: 18/07/2018]
"Lira argenta: Poesia em tradução", Vanderley Mendonça (organizador), São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-66423-34-1

quinta-feira, 19 de julho de 2018

de amor tenho vivivo

Nesse pequeno livro estão reunidos 50 poemas inspirados pelo amor, cousa que a autora deles viveu plenamente, sem amarras, sem pudor, sem afetação. Hilda Hilst sempre estará numa coletânea dos mais importantes poetas brasileiros de todo e qualquer tempo. Esse livrinho dá uma pequena mostra da técnica e capacidade alegórica de Hilda, funciona como uma porta de entrada para seu universo mágico. Os poemas foram produzidos e publicados em um largo período de tempo, os mais antigos em "Presságio", livro seu de 1950, os mais recentes no "Cantares do sem nome e de partidas", de 1995. A edição é caprichada (foi produzida por conta da homenagem que neste ano a FLIP faz a Hilda), oferece ao leitor ilustrações belíssimas de Ana Prata (cousas engendradas a partir de pinturas a óleo, encomendadas e inspiradas nesse projeto, nos poemas reunidos nele). Cada poema guarda uma alegria e uma dor, imagens sempre potentes e um rigor formal qualificado. Como todos poemas de amor já escritos pelos homo sapiens sapiens há lirismo no limite do patético e iras colossais, sanguíneas, coalescidas pela dor. Num curto posfácio se conta algo da agitada biografia de Hilda Hilst e se listam os livros de onde brotaram os 50 poemas nele reunidos: Presságio; Balada de Alzira; Balada do festival; Roteiro do silêncio; Trovas de muito amor para um amado senhor; Ode fragmentária; Trajetória poética do ser; Memória, noviciado da paixão; Da morte. Odes Mínimas; Cantares de perda e predileção; Poemas malditos, gozosos e devotos; Sobre a tua grande face; Amavisse; Do desejo; Da noite; Cantares do sem nome e de partidas. Não é possível que eu leia Hilda Hilst e não lembre da Misa e do Péricles, daqueles dias em que vivíamos todos "drowing in honey, stingless". Estes poemas não foram feitos para serem lidos em dias sombrios. O sujeito leitor precisaria ser obrigado a guardá-los para dias alegres, estivais, plenos. Vale! 
Registro #1294 (poesia #96) 
[início: 12/05/2018 - fim: 16/07/2018]
"De amor tenho vivido: 50 poemas", Hilda Hilst, ilustrações de Ana Prata, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), capa-dura 15,5x20,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-359-3089-4

quarta-feira, 11 de julho de 2018

paraphoesia

Claudio Portella é poeta, mas também editor, divulgador, distribuidor, mascate de si mesmo. Ele produz seus livros com esmero, acho que já editou  uns quinze pelo menos (li dele o "Fraturas de relações amorosas", um romance cáustico). As edições CP são bem cuidadas. "Paraphoesia" é de 2017.  São 37 propostas poéticas, que falam de um narrador antenado, um sujeito de seu tempo, que transforma comezinhas cousas em matéria poética. Armindo Trevisan, que assina a orelha do livro, diz que Portella se disfarça neste livro, ora se faz divertido, zombeteiro, ora ferino. É isso mesmo. Ele cita ou emula seus precursores afetivos, seus gurus poéticos: Rimbaud, Pessoa, Ponge, Cassia Eller, dentre outros; fala de cultura pop; de eleições; de papos-cabeça, de cinema e televisão. Parece ser um sujeito que domina não só a técnica, mas também sabe expressar sentimentos genuínos, não de almanaque, que não se furta expor-se e experimentar. Há uma sutil sensualidade nos poemas, algo visceral, fluido. Li "Paraphoesia" junto com os livros de outros poetas: Jean Moura, Ricardo Aleixo, Marcelo Tápia, Sergio Medeiros, Cássio Pantaleoni, o velho e bom Marcial, os da seminal antologia "Lira Argenta" organizada pelo Vanderley Mendonça. Ulalá. Haverá mais poesia por aqui, seguro que sim. Vale! 
Registro #1286 (poesia #95) 
[início: 08/04/2018 - fim: 10/04/2018]
"Paraphoesia", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2017), brochura 12x19 cm., 52 págs., ISBN: 978-85-420-1050-3

sexta-feira, 6 de julho de 2018

ojo de monje

Nos meses em que vagabundo me abstive de registrar sobre o que lia encontrei muitos livros de poesia. Um deles em particular é por demais poderoso para que eu o lesse sem muito refletir, sem atenção e cuidado, por isso mesmo demorei bons meses para finalizá-lo (se é que se pode dizer que terminamos um livro de poesias, já que elas ficam ecoando em nós, profundamente). Cees Nooteboom é o sujeito que não canso de recomendar, que produz ensaios belíssimos (quase sempre sobre a dupla e bifronte arte de viver e desgraça de sobreviver nestes tempos bicudos). Ele é também poeta (já registrei aqui dele a antologia "Luz por todas as partes" e o volume "autorretrato do otro"). "Ojo de monje" é um conjunto de 33 poemas. A forma poética deles é fixa: três estrofes de quatro versos e uma quarta estrofe com um único verso. Na dedicatória - a Remco Campert, também ele escritor holandês quase nonagenário - Nooteboom diz: "las viejas amistades no se oxidan". Lembrei do Cohen e do Landgraf, do Melo e do Frank, do Péricles e do Oscar, do Sander, da Sibele. Ai de mim, grande vinagre. Os poemas são apresentados no original e impenetrável holandês lado a lado com o mais familiar para mim espanhol, muito embora eu não seja o mais versátil dos leitores do espanhol quando se trata de poesia e sim um sujeito que se esforça, se anima a aprender sempre algo novo.Do que falam os 33 poemas? Sabemos da história de Nooteboom, de sua eduçacão em colégios religiosos (franciscanos, agostinos), de sua curiosidade, de seus livros sobre Zurbarán, sobre El Bosco, sobre arte. Os símbolos são importantes para ele, sempre, como não. Há algo de breviário nos poemas, de livro de horas. As imagens são poderosas, o ritmo lento, as palavras ecoam sugerindo um mundo que termina, num crepúsculo pesado. A palavra "tenebrae", em latim, aparece várias vezes. É assim que se diz da missa da sexta feira santa, quando o Christo ainda está morto. Nooteboom fala também de uma ilha no mar Frísio, da mãe, dos amigos mortos, das viagens e das estrelas no céu, da vida calcificada nas conchas, da areia que pouco guarda registros da presença dos homens, sempre renovada pelas águas do mar, dos mestres gregos, sobretudo Sócrates em seu Fedro. Natureza e vida citadina se fundem. Você pode se afastar do mundo, abraçar o campo e a solidão de uma ilha, mas a realidade dos sujeitos que vivem na cidade irão te perseguir, como os cães perseguiram Actéon um dia. Somos todos como ele, por conta de vislumbrar a deusa, condenados a sermos dilacerados por nosso próprios cães. Tudo é metafórico e mítico na vida, tudo já foi escrito, pensado, vivido, experimentado. Como pode o velho poeta suportar o tédio disto tudo e seguir? Na semana passada don Daniel Dago me avisou que em outubro sairá um livro dele dedicado a Veneza. Saber que em dois ou três anos uma versão espanhola dele deverá ser publicada dá sentido a vida, justifica a espera, garante uma sonhadora vilegiatura. Vale!
Registro #1281 (poesia #94)
[início 23/03/2018 -  fim: 13/06/2018]
"Ojo de monje", Cees Nooteboom, Fernando García de la Banda, Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía), 1a. edição (2017), brochura 12,5x19,5 cm., 86 págs., ISBN: 978-84-9895-317-6 [edição original:  Monniksoog (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2016]

quarta-feira, 4 de julho de 2018

retratos imateriais

"Retratos imateriais" reúne 48 poemas curtos, curtíssimos até. Os versos são livres como se é possível ser livre na vida. Os temas são variados: o tempo; a musa fugidia com quem o poeta conversa; a escala do mundo; o cosmos e o infinito; as confessas influências; a perspectiva do olhar e do ofício; o rigor do artista. O poeta se apresenta nos versos, registra fragmentos da vida e do mundo como se fosse um médico a fazer anamnese de um paciente. Jean Narciso Bispo Moura é jovem, um baiano radicado em São Paulo já há tempos e que já publicou vários outros livros. "Retratos imateriais" inclui um posfácio longo, assinado pelo poeta e professor Fabiano Garcez, que analisa em detalhe não apenas esse volume, mas também os trabalhos anteriores de Jean Moura. Não se aprende muito lendo apenas um livro de um determinado autor. Vamos a ver se um dia acabo encontrando outras propostas poéticas deste sujeito. Vale! 
Registro #1279 (poesia #93)
[início: 12/05/2018 - fim: 18/05/2018]
"Retratos imateriais", Jean Narciso Bispo Moura, São Paulo: Editora Singularidade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 68 págs., ISBN: 978-85-94086-04-4

sábado, 30 de junho de 2018

trio pagão

Em "Trio pagão" Sérgio Medeiros enfeixa três propostas poéticas distintas e  complementares: "Esculturas de caligrafias", "Enrique Flor, o novo" e "[O] Rio perdido". Cada proposta do tríptico poético é acompanhada por uma pequena nota introdutória do autor, onde ele detalha a gênese de suas invenções, e uma apresentação, cada uma delas assinadas, respectivamente, por Gonzalo Aguilar, eu mesmo e Odile Cisneiros. "Esculturas de caligrafias" é um conjunto de vinte e três poemas visuais, desenhos como aquele que é reproduzido na capa do livro, nos quais a mão do poeta emula garatujas similares aquelas que uma vez ele viu um índio xavante produzir no final dos anos 1980. Esse índio, Jerônimo Tsawé, respeitado pelos seus, tornou-se uma espécie de guru do autor e é citado em outros trabalhos seus. Essa parte do livro se encerra com a reprodução de um artigo de Sérgio Medeiros, publicado originalmente em um jornal paulista, em 2011, onde ele explica as circunstâncias dos encontros que teve com aquele seu mestre xavante e traça paralelos entre os sonhos de Tsawé e as experiências da Alice de Lewis Carroll. Como fiz a apresentação da segunda proposta, "Enrique Flor, o novo", reproduzo-a aqui para melhor esclarecer o que entendi dela: “Enrique Flor”, o poema, é uma proposta refinada, sutil, onde inspiração e referências eruditas se plasmam. Nele encontramos novas aventuras de Enrique Flor e também algo sobre a evolução de sua música vegetal, de sua arte vegetal. Mas quem é afinal Enrique Flor? Quando lemos o “Ulysses”, de James Joyce, encontramos primeiro Bloom, depois Flower e depois Flor. Leopold Bloom e Henry Flower aparecem quase juntos no quarto episódio do livro, no início da manhã, e são na verdade a mesma pessoa, pois Bloom só vive suas breves metamorfoses como Flower quando troca cartas e flerta com uma amiga virtual. Já Enrique Flor o leitor só conhecerá brevemente no décimo segundo episódio, já no final da tarde, após muitos e variados sucessos de Bloom. Pois esse Enrique Flor é citado como o músico que tocou órgão com notória habilidade em uma missa de núpcias, no dia anterior ao dia de Bloom, o Bloomsday. As cenas deste décimo segundo episódio do “Ulysses” são paródicas, tudo é exagerado, hiperbólico, retórico, típico de conversas irrelevantes e risíveis de bar (os personagens estão em um pub, o “Barney Kiernan”). A curta passagem em que encontramos Enrique Flor, parte de um relato sobre um casamento arbóreo, contrapõe, à sua música de inspiração vegetal, o desmatamento da Irlanda provocado pelos invasores ingleses. Em 2012, no “Totens”, também editado pela Iluminuras, Sergio Medeiros imaginou uma deliciosa biografia desse músico português radicado em Dublin e citado por James Joyce, contando-nos algo daquelas notórias habilidades musicais que ele praticava. Medeiros recria o espírito de sua obra musical e composições, fala de seus concertos, de suas preocupações ecológicas e ambientais. Preocupações que o fizeram sair de Dublin, voltar a sua querida e igualmente desmatada pátria, Portugal, não antes de uma curiosa visita às selvas da América, onde deixa um discípulo brasileiro, que posteriormente adotaria seu nome, mas multiplicando-o, quando passa a chamar-se Henrique Flores. Nesse novo livro, que inclui um apêndice visual, “O olhar das plantas”, formado por quinze pranchas em branco onde é registrado o surreal ato botânico de plantas fitarem poemas não escritos, telas em branco. Enfim. Sergio Medeiros é um poeta que experimenta o mundo, sempre curioso e com método. Um poeta antenado, que parece não ter medo de testar as possibilidades de seu ofício, de criar sua própria vanguarda, de provocar – concretamente – o leitor. Ele procura entendimento e expressão na linguagem, tanto a linguagem que pode ser vocalizada e é mais cerebral, construída, quanto outra, que parece brotar diretamente do mundo sensível a nossa volta, a linguagem do mundo físico, natural, o mundo das formas, sons e cores, o mundo material que se irradia e preenche o espaço, o mundo das árvores e das flores, dos elementos. Um humor, joyceano (na falta de outra palavra), preenche o livro, conduz o poema. Nele o leitor encontra o novo Enrique Flor em Dublin, ora metamorfoseado nas festividades do Bloomsday, talvez o mais sofisticado “Cosplay” de nossos tempos, ora em chamas, junto com as árvores do incêndio de Pedrógão Grande, em Portugal. O poema alterna episódios que tratam da nova encarnação de Enrique Flor e outros que marcam as horas do dia, horas que funcionam como estásimos corais de uma tragédia grega e cantam as deambulações de uma família de turistas num Bloomsday. O Enrique Flor que refloresta o mundo, que distribui sementes, sementes que brotam pela cidade, bloomzeiros em flor, será sacrificado em Portugal, num sonho, como aquele de Molly Bloom, no final de Ulysses. Após incêndios a vegetação devastada naturalmente se recupera. O solo, fertilizado pelas cinzas, fará brotar novos botões e ramos nas árvores calcinadas, fará eclodir as sementes para repovoar a terra. Não é improvável que outro Enrique Flor desabroche no futuro no jardim poético de Sergio Medeiros. Logo veremos. A terceira e última proposta, "[O] Rio perdido", é dito ser uma prosopopéia pagã, ou seja, é um poema (ou peça de teatro - o próprio autor explicita não ser fácil distinguir entre os gêneros) em que sentimentos humanos são como que vocalizados por seres inanimados. Medeiros dá voz a uma rocha do Rio perdido, um rio que corre pelo Mato Grosso do Sul, no Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Essa rocha fala da ação do tempo, desde quando era ígnea, depois retangular, lentamente esculpida pela ação das águas e finalmente grafitada por algum vivente. O "marulho" que se ouve quando nos aproximamos das águas é a voz desta pedra. O grafite na rocha também é uma encarnação de uma ninfa das águas, Dona Primitiva. O poema conversa obviamente com o Finnegans Wake de Joyce, com Anna Livia Plurabelle, a personificação do Rio Liffey que corta Dublin. Ao contrário do que disse um dia Proust sobre o mar ("La Mer  ne  porte  pas  comme  la  terre  les  traces  des  travaux des  hommes  et  de  la  vie  humaine"), os vestígios dos trabalhos dos homens não apenas deixam traços como destroem tudo inexoravelmente, inclusive os rios, como o Rio perdido e inclusive a paciência de suas ninfas, como Dona Primitiva. Esse registro já ficou enorme, portanto pouco importa se eu acrescentar umas linhas. Semanas atrás, em São Paulo, por uma coincidência dos diabos comprei esse livro para presentear Heloísa, mulher de um grande amigo, que descobri que Claudia, irmã da Heloísa, conhecia bem don Sérgio Medeiros e sua mulher, Dirce. Essa aldeia é mesmo muito pequena. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1276 (poesia #92) 
[início: 25/04/2018 - fim: 28/06/2018]
"Trio pagão", Sérgio Medeiros, Florianópolis: Editora Iluminuras,1a. edição (2018), brochura 13,5x19 cm., 216 págs., ISBN: 978-85-7321-576-2

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

refusões

"Refusões", de Marcelo Tápia, é o maior portento poético que li no ano (o maior portento que li em prosa foi "Berta Isla", de Javier Marías). "Refusões" desdobra-se em seis volumes, reunindo a produção poética de Tápia, de 1982 a 2017. Trinta e cinco anos de boa poesia é para poucos. Tápia fez girar sua roda da fortuna, acrescentando a "Primitipo" (1982), "O Bagatelista" (1985), "Rótulo" (1990), "Pedra Volátil" (1996) e "Valor de Uso" (2009), um novíssimo e estimulante volume, "Expirais". Conhecia já quase todos desde os tempos de minha encarnação paulista, quando frequentava a USP e os Bloomsday paulistanos, capitaneados por Haroldo de Campos e secundados pelos cavaleiros da távola haroldina, Tápia dentre eles sempre o mais industrioso. Sobre "Valor de Uso", de 2009, já registrei algo aqui (clica!). Foi um bom exercício voltar a cada um dos volumes, sair do "Expirais" e lentamente acompanhar o corsi e ricorsi marcelotapiano. Na curta e seminal introdução, Tápia explica tudo o que precisa ser dito com a chave da inteligência sobre o "Refusões". Ele precisa seu procedimento, informando que nem todos os poemas originais foram republicados, que alguns foram alterados, cortados, ilustrando que após nossas contínuas metamorfoses eventualmente temos a fortuna de nos tornar mais sábios e melhores leitores de nós mesmos, compreendendo melhor com as cãs da experiência aquilo  que forjamos no tempo. Tápia, também um Janus redivivo, nos diz em sua introdução como vê a gênese e a lógica de sua produção do passado e decifra algo daquilo que agora entende como seu projeto (ele chama esse procedimento de emancipação de "uma 'fórmula' antes enunciada"). Para usar um símile da mecânica, Tápia parece aplicar o princípio de Hamilton à seu ofício, encontrando nesse conjunto de livros/poemas antigos e no novo "Expirais" a trajetória artística que sempre alcançou o valor extremo de sua ação, sua poesia. A refinada edição da Perspectiva inclui textos críticos de Jaa Torrano, Susana Busato, Antonio Vicente Pietroforte,  Aurora Bernardini e Rodrigo Bravo. Cada um desses textos oferece ao leitor ferramentas de entendimento e apreciação à poesia do Tápia. E o leitor não pode deixar de acessar a página do livro no site da editora Perspectiva. Tápia lê trinta de seus poemas. Vale a pena conferir e desfrutar da dicção e entonação dele: Clica!. Enfim, não será nesse curto registro de leitura que alcançarei apresentar a potência e riqueza de soluções poéticas de cada um dos seis livros reunidos. Na falta de um registro próprio para cada um dos livros, só sintetizo aqui: (i) que no último poema de "Primitipo",  seu primeiro livro, o poeta já cantava que "expira espirais do tempo / que rola no rio d'infância", remetendo o leitor à ideia geral de seu livro mais recente; (ii) que no "O Bagatelista" encontramos poemas visuais à la Bossa, à la e.e. cummings, poemas signo; (iii) que "Rótulo" é um livro de ismos, de um homem sociológico que usa as ferramentas de ofício e ironia bruta, para perscrutar verdades e mentiras; (iv) que em "Pedra Volátil" se fala da paisagem urbana, de causos históricos e políticos, explicita o Tápia forte, leitor de outros poetas fortes; (v) que "Valor de uso" talvez seja o mais musical, é o que mais gosto de ler em voz alta; (vi) que "Expirais" é puro deleite, em imagens, invocações, sínteses. O aedo procura uma musa perdida, é menos explícito quanto às fontes e inspirações, labuta para não deixar oxidados poemas, faz anamnese da vida inteira, faz brotar a memória caipira, concretiza tudo, sai a navegar, mediterrâneo e genealogia afora. Que conjunto, que alegria. Evoé Marcelo, Evoé. ÔBeleza. E Vale! 
Registro #1250 (poesia #91)
[início: 16/06/2016 - fim: 19/12/2017]
"Refusões: poesia reunida 2017-1982", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 448 págs., ISBN: 978-85-273-1099-4
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Balanço final 2017
Em 2017 entendi na prática as palavras de Flaubert que li há tantos anos: "Meu coração está se transformando numa necrópole". À morte de minha mãe, no final de dezembro de 2016, seguiu-se a de meu pai, no meio de junho. Perdemos também uma de nossas gatas, a Niham. Que praga! Enterrei alguns amigos, perdi-me de outros. Acontece. Li bastante poesia e peças de teatro em 2017. De fato, desde o início de 2007, quando esse "Livros que eu li" fez-se às ondas do rumoroso mar digital, só em 2012 li tantos e bons volumes de poesia. Bueno. Em 2017 fiz 125 registros de leitura, aumentando um tanto a media dos dez anos do blog. Foram 28 romances (22% do total), 19 livros de crônicas ou de ensaios (15%), 19 de contos, 10 de poesia, 10 romances policiais, 7 livros de arte, 6 novelas, 6 peças de teatro, 4 de perfis e memórias, 4 histórias em quadrinhos, 3 infantojuvenis, 3 de turismo, 2 de gastronomia, e um mais ou menos dentro da seguinte classificação: de fotografias, de cartas, catálogo de uma exposição de arte e de aforismos (talvez o mais fundamental deles, o do Ambrose Bierce). Já disse que li bastante boa poesia (Tápia, Medeiros e Aleixo, entre outros) e bons dramas (Shakespeare, nas estimulantes traduções de Botelho, Lawrence e O'Shea; Sófocles, na da Kathrin ); li cousas boas japas (Tanizaki, Kafu, Buson, Murakami); li a excelente biografia de Von Hunboldt; oito bons romances policiais de Donna Leon, 4 belas plaquetes do povo da At it Again. Li os quatro volumes da Série Napolitana de Elena Ferrante. Li o bom Pamuk mais recente. Li poucos livros em inglês (só 5% do total) e em espanhol (6%), talvez meu pior registro histórico. Paciência. Isso se deu pois nunca havia lido tantos autores nacionais. Foram 40 volumes, 32% do total. Alguns foram gratas surpresas, outros merecem uma releitura, mas não me entusiasmaram tanto assim. Aqueles que deixei de 2016 para ler em 2017 continuaram no limbo das promessas e dos planos, aquela zona fantasma, muito embora eu tenha avançado um bocado no Tristram Shandy traduzido pelo Javier Marías. Foram 0,35 livros por dia, 2,46 por semana, 10,5 por mês. Foram aproximadamente 2/3 livros de ficção, 1/5 de não ficção e 1/5 de bons divertimentos, seguindo o bom conselho do Montaigne. Ajudei minimamente o industrioso Abdon Grillo a editar seu estudo sobre o Ulysses, que será lançado no início de fevereiro, no dia de aniversário do Joyce. Que alegria. Acompanhei os sucessos das meninas da famiglia, Helga e Natália, que receberá seu título de bacharelado em Psicologia em breve, no próximo dia 06. Viajei bastante, conheci alguns lugares realmente interessantes do interior do Brasil. Em 2018 haverá mais boa poesia, haverá os haikus do Bachô editados em Portugal, os novos livros de Sérgio Medeiros e Ricardo Aleixo, a leitura do Finnegans Wake da Dirce do Amarante, as novas transcrições caetnogalindescas, a sempre postergada biografia do Johnson. Haverá mais Donna Leon, gostei do estilo dela. O Javier Marías deverá lançar mais um livro com suas crônicas semanais reunidas. Haverá mais biografias e coisas musicais. Pretendo voltar aos gregos e aos mitos. Talvez irei seguir o conselho de um amigo de longe, para fazer registros das leituras antigas, prévias a existência do blog. É uma ideia ainda bruxuleante. Haverá Copa do mundo de futebol, eleições, um Bloomsday Santa Maria novo. Talvez eu volte para a Irlanda, desta vez com a Helga. Logo veremos. É isso. Vale!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

antologia da poesia clássica chinesa

No 19 de dezembro do ano passado, funesto dia, morreu doña Victória Medici Severino, minha mãe. Era fim de primavera e ela, como as flores que amava, sempre prática, porém cansada, não quis suportar as intermitências de mais um abrasivo verão. Em uma das viagens que fiz a São Paulo para vê-la, nos dias que antecederam sua morte, comprei esse "Antologia da poesia clássica chinesa". Assim como fiz com a antologia de poemas do Sebald, que comprei na mesma época, fui lendo esses poemas aos poucos, numa ração diária, aleatória, que acontecia quando chegava em casa, ainda aborrecido com o rumor e a indigência das ruas. Doña Vic, não nasceu chinesa, nem zen, era brasileira e católica, mas viveu seus quase 87 anos serena, rodeada de flores, propagando carinho e gentilezas, como só algumas pessoas alcançam aprender a fazer. Os 204 poemas reunidos nessa antologia foram vertidos para o português por Ricardo Primo Portugal e Tan Xao, patrocinados pelo Instituto Confúcio, organização que promove a língua e cultura chinesa. Há pelo menos dez institutos Confúcio instalados no Brasil, sediados junto a instituições de ensino superior. No caso desse volume, os tradutores contaram com o apoio do Instituto Confúcio na UNESP.  São 34 os autores reunidos na antologia, viventes do período conhecido por Dinastia Tang, entre 618 e 907. Os tradutores lembram que Haroldo de Campos louvava a poesia deste período por sua "concisão, aforismático vigor, plasticidade visual, sustentada surpresa e sentimento de inacabado". Ele mesmo foi artífice de transcrições de poemas deste período, num volume precioso, o "Escrito sobre Jade", de 1996. A maior parte dos poemas reunidos nessa antologia foram criados nas métricas conhecidas como octetos regulares e quartetos regulares, mas também estão incluídos poemas que seguem um estilo mais antigo, da dinastia anterior, Han, algo mais eruditos, associados a canções populares. Pode-se dizer que esses poemas foram engendrados em versos livres, mas os tradutores lembram aquele aforismo de Eliot, que diz "nenhum verso é livre para aquele poeta que quer fazer um bom trabalho". O livro inclui uma longa introdução, assinada pelos tradutores, na qual dão conta dos elementos estruturais da poesia clássica chinesa; seus estilos, formas e metrificação; aspectos semântico-lexicais; regras de transliteração; bem como algo sobre a história da China e da Dinastia Tang. Dos 34 autores os mais conhecidos e seminais, segundo os tradutores, são Lu Bai, Du Fu, Meng Haoran, Wang Wei e Ban Juyi. Os poemas são acompanhados de notas, que falam da geografia chinesa, de aspectos mitológicos, questões religiosas, feitos bélicos (decorrentes das contínuas guerras entre os povos chineses nos séculos VII, VIII, IX e X.), questões semânticas e metafóricas (associadas aos procedimentos tradutórios), atentam às imagens criadas, à historia taoista. Os autores ganham uma pequena biografia, onde restam contextualizas obra e vida de cada um. Muitos eram funcionários públicos da sempre imensa burocracia chinesa, outros monges budistas, iluminados, em contínua reclusão, outros ainda, artistas completos, que também pintavam, dominavam a música e a caligrafia. Os poemas cantam os picos sagrados do taoísmo, celebram a placidez da águas dos lagos, festejam a chegada da lua cheia, falam de gansos e corvos, da vida campestre e das paisagens, dos salgueiros e do jade, das peônias e do lótus, do vento que sopra, dos sonhos e dos desejos, louvam a contemplação, o silêncio, os gestos medidos, fixam em versos as cores e a força que emana das mudanças de estação. O leitor curioso pode acompanhar algo do livro num curto vídeo feito quando do lançamento, em 2013: clica!. Enfim, dos 204 poemas da antologia transcrevo apenas um, de Zhang Jiuling: "Depois, senhora, que partiste, / nada mais cuido a esta vida. / Mudei, como a cheia lua: / cada noite diminuo." Boa noite doña Vic, que, em seu voo, os anjos continuem a cantar para teu descanso. 
Registro #1249 (poesia #90)
[início: 19/12/2016 - fim: 19/12/2017]
"Antologia da poesia clássica chinesa - Dinastia Tang", Ricardo Primo Portugal e Tan Xao (organizadores), São Paulo: Editora UNESP, 1a. edição (2013), capa-dura 16,5x24 cm., 310 págs., ISBN: 978-85-393-0399-1

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

antiboi

"Antiboi" reúne parte da produção poética mais recente de Ricardo Aleixo, engendrada entre 2013 e 2017. Digo "parte de sua produção" pois há cousas dele que só sabe quem o vê performando em um evento, quem alcança um vídeo de uma apresentação dele, quem participa de uma aulaoficina no Lira, seu laboratório de criação e pesquisa. Talvez um dia os gadgets tecnológicos possibilitarão o registro também desta sua faceta artística, mas por enquanto quem vive longe da rota de apresentações do Aleixo tem que se contentar com a obra física, aquilo que resta impresso, disponível num livro. Pois "Antiboi" reúne 33 poemas. A grande maioria é de propostas curtas, sintéticas, não exatamente crípticas, mas que cobram do leitor um esforço para entender as camadas no palimpsesto de signos, conceitos, ironias e jogo verbal. Uns poucos poemas são mais longos, incapazes de se reduzir àquela fórmula de concretude máxima dos demais e se esparramam por duas ou mais laudas, como se quisessem fazer-se entender melhor. Nestes o leitor encontra o Aleixo mais reflexivo, que se deixa navegar. O conjunto de poemas espelha preocupações ora políticas e ora afetivas. O sujeito vê o mundo, o denuncia e confronta, radicaliza num embate que sabe ser necessário. Todavia, se faz da poesia ferramenta de luta e provocação, não se esquece do homem que vive uma vida plena, que tem uma história, uma memória rica de ensinamentos familiares, que experimenta a benquerença, não se embrutece, como aconteceu com Fafner, por exemplo, naquela mitologia antiga. Alguns dos poemas curtos funcionam como statements, declarações, aforismos, gritos de rua, plataformas. Outros conjuram carinho e respeito a pessoas queridas, figuras públicas, como num tríptico sobre Milton Nascimento, Elza Soares e Luiz Melodia, ou anônimas, de seu círculo familiar e de amizades. O livro inclui um ensaio curto de Fábio Belo, que analisa certas implicações estéticas dos poemas à luz da psicanálise e fala sobre Antiboi como significante de resistência, de resistência ativa, que supera obstáculos. Interessante. E vamos em frente. Em tempo: dos demais livros dele que li deixei registros, então  clica!.
Registro #1230 (poesia #89) 
[início: 10/10/2017 - fim: 13/10/2017]
"Antiboi", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: editora Crisálida, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-87961-87-7

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

a idolatria poética

"A idolatria poética ou a febre de imagens" é um texto experimental de Sérgio Medeiros. Trata-se de um poema - ou de vários livros justapostos - que flerta(m) com o drama, uma provocação aos sentidos, uma legítima proposta literária, uma reinvenção dadaísta, uma inventiva forma narrativa, um jogo non-sense, tudo isso e mais um pouco. Li esse livro quase simultaneamente ao "Graal", de Haroldo de Campos, que já registrei aqui e com o "Antiboi", de Ricardo Aleixo, que em breve registrarei. Haroldo de Campos aparece citado por Sergio em uma curta passagem, como o sujeito que em Nova York perdeu um caderno de poemas, mas o recuperou, por sorte. Já os vários narradores de "idolatria poética", sujeitos obsessivos, temerosos de perderem seus cadernos de notas, cadernos em que anotam aquilo que chamam descritos, esperam a partir deles produzir um texto, uma narrativa, um livro, toda uma obra. O amor excessivo pelo que capturam com olhos e ouvidos e que plasmam em letras, palavras, narrativas, bem como o desejo de absorver toda a poesia da vida de seu entorno e a vertigem das imagens que pululam numa miríade de associações parece intoxicar esses narradores (sempre identificados como idólatras, numerados 1, 2, 3, e assim por diante, até um apostólico 12 final). Esses idólatras/narradores fingem estabelecer diálogos, concentrados sim em seus projetos individuais de escritura. Entre os diálogos encontramos três "livros rêmora", que correspondem a excertos que se grudam ao veio poético principal, como as rêmoras se grudam ao corpo de seus hospedeiros naturais, os tubarões. São "livros Barnacle", diria um cínico joyceano da gema. Outros livros do autor, Sergio Medeiros, se metamorfoseiam pelo poema, cobrando espaço, se autopoetanto um tanto. Entendo esses livros como o resultado do olhar febril de um autor. Um autor/narrador que, acamado um dia em sua casa na praia, ao invés de contemplar, como rotineiramente faz, apenas escunas e canoas ao longe,  vê desta vez pela janela de seu quarto os costumes e comportamento pernóstico de um grupo de turistas que alugou um apartamento próximo. Esses turistas escancaram suas misérias, cabotinos que são, mentem sobre literatura e viagens, dão engulhos ao autor, que se vinga incorporando-os à trama, tentando dar nexo naquilo tudo, deixando sua mente viajar. Sabe-se lá! Os experimentos originais e vanguardistas do Sérgio sempre provocam o leitor. O convite para o entendimento resta impresso, cabe a cada leitor trilhar sozinho essa aventura da linguagem. Whither? Para onde? Vamos a ver o que o Sérgio nos oferecerá na sequência.
Registro #1225 (poesia #88) 
[início: 13/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"A idolatria poética ou a febre de imagens", Sérgio Medeiros, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7321-565-6

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

a roda do mundo

Esse curioso livro reúne dois conjuntos de dez poemas, "Nos, os bianos" e "Orikis", de dois autores da mesma geração e igualmente fortes, Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo. Do Aleixo já li vários livros ("Modelos vivos", "Impossível como nunca ter tido um rosto", "Máquina zero"), do Edmilson nunca havia lido nada. Como o antropólogo e também poeta Antonio Risério explica em uma breve introdução ao livro, os dois poetas retrabalham coisas e espíritos muito antigos, característicos de lugares distintos do continente africano, dando-lhes a roupagem para que sejam incluídos no repertório cultural contemporâneo brasileiro. Edmilson é tributário da etnolinguística Banto e Aleixo das culturas Jeje e Nagô. Os dez poemas de "Nos, os bianos", de Edimilson, parecem cânticos, letras de uma teogonia fragmentada, fundida a elementos de um sincretismo em construção. Nos dez de Aleixo, em "Orikis", faz-se um censo poético dos orixás, com o poeta - feito um Janus - olhando simultaneamente para os arquétipos desses ancestrais divinizados e para o leitor desse nosso tempo conturbado. O livro inclui um glossário de termos bantos e iorubás, além de uma pequena bibliografia. São vinte poemas brevíssimos, mas muito poderosos. Evoé.
Registro #1216 (poesia #87)
[início: 02/09/2017 - fim: 08/09/2017]
"A roda do mundo", Ricardo Aleixo, Edimilson de Almeida Pereira, Belo Horizonte: Objeto Livro / Segrac,  2a. edição (2004), brochura 11x20 cm., 48 págs., sem ISBN

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

poesia vista

Ler e ver os poemas de Joan Brossa sempre é um assombro. Já registrei aqui os "99 poemas" traduzidos por Ronald Polito e editado pela Demônio Negro. Nesta seleção, organizada por Vanderley Mendonça, que é também o tradutor, encontramos 23 poemas visuais; 31 poemas escritos (acompanhados dos originais em catalão) e 17 poemas-objeto. O que são "poemas escritos" não precisa ser explicado, muito embora sempre pode ser controversa a interpretação de um poeta sobre a natureza de seu jogo, seu ofício, sua leitura da realidade, sua interpretação do mundo. Grosso modo pode-se dizer que nos "poemas visuais" texto, imagens e símbolos são organizados de tal forma que é o elemento visual que tem função organizacional na obra, eventualmente até prescindindo de símbolos de escrita para sua caracterização como poesia, afastando-se da linguagem que pode ser vocalizada. E, por fim, "poemas-objeto" são, na acepção de Brossa, poemas que não geram linguagem, que suprimem completamente a linguagem, uma variante mais selvagem dos poemas visuais. A edição incluí ainda dois bons prefácios. Um é assinado por Haroldo de Campos. Ele conta como foi que João Cabral de Melo Neto fez a poesia de Brossa ser conhecida no Brasil e de como os poetas concretistas brasileiros mantiveram produtivo contato com ele até sua morte, em 1998. O segundo é assinado por Glòria Bordons, especialista em sua obra, organizadora de vários livros sobre ele e por um período responsável pelos guardados da Fundació Joan Brossa. Ela apresenta uma curta biografia do poeta catalão e explica algo de seu caráter único, heterodoxo, não comprometido com modismos e tendências, louva sua poesia e atitude, canta o quão irrelevante para ele eram definições de gênero, de fronteira entre as artes, a classificação das formas. Vale a pena gastar um tempo e apreciar sua poesias visuais nesta aba do site da Fundació. Visca Brossa! Visca Catalunya! 
Registro #1210 (poesia #86)
[início: 10/07/2017 - fim: 05/08/2017]
"Poesia vista", Joan Brossa, tradução de Vanderley Mendonça, São Paulo: Ateliê Editorial, 1a. edição (2005), capa-dura 14,5x21,5 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-7480-290-5 [edição original: Glòria Bordons / Poemes escollits (Barcelona: Edicions 62) 1995]

sábado, 12 de agosto de 2017

across the land and the water

Os poemas reunidos em "Across the Land and the Water" foram escritos por W.G. Sebald entre 1964 e 2001. Trata-se de um livro de 2008, publicado postumamente, organizado pelo editor Sven Meyer. Estão nele reunidos tanto poemas que já haviam sido incluídos em produções anteriores, como material inédito, hoje depositado nos arquivos Sebald da "Deutsche Literaturarchiv Marbach". Os dois livros de poemas dele que já registrei aqui: o pequeno e belo "Sin contar / Unerzählt", de 2003, e o longo e ambicioso "Del natural / Nacht der Natur", de 1988, não fazem parte desta seleção. Os poemas foram traduzidos, do alemão para o inglês, por Iain Gaibraith. Os quatro conjuntos de poemas (Poemtrees, School Latin, Across the Land and the Water, The Year Before Last) falam de fronteiras, viagens e paisagens, de leituras e registros do passado, do tempo e da memória, de mitos, lendas e tradições alemãs, do conforto da erudição, da experiência do exílio. Alguns destes poemas foram publicados em revistas e jornais anteriormente, mas nunca em livro. É difícil dizer se há um padrão neles (vamos combinar: sou o menor dos anões quando se fala em ler sistematicamente poesia; li esses poemas traduzidos e meu inglês é apenas regular; não se aprende muito das sutilezas de uma proposta poética apenas com a leitura ligeira que meu método de leitura utiliza; como sintetizar quarenta anos de produção poética, considerando que todos nos metamorfoseamos continuamente?). Todavia foi com a inteligência afetiva (em termos proustianos) que me aproximei destes versos. Os 88 poemas deixam-se ler e encantam. Estão distribuídos cronologicamente. Ora o narrador fixa nos versos uma epifania, cerebral ou mágica, ora uma bobagem qualquer, corriqueira, que nós, os não-poetas, nunca somos capazes de sentir, e ver, e escrever, mas entendemos quando lemos, como se fosse algo preso dentro de nós, subitamente revelado. Sempre só e curioso, fala do mundo e de si, congelando o tempo. Os poemas crescem em tamanho ao longo do tempo: os mais antigos são curtos, crípticos; os mais longos acadêmicos, intrincados sim, mas com sutis chaves de leitura. O título, retirado de um dos conjuntos de poemas, provavelmente escrito ainda nos anos 1980, dá conta daquela experiência que temos ao viajar sobretudo em trens, quando a paisagem se movimenta relativamente a nós em grande velocidade, tirando o foco de quase tudo, mas preservando uns pontos de referência, cinzas, verdes e azuis quase sempre, escolhos da vegetação e das águas que cortamos, como o deus Mercúrio corta o ar. O livro inclui um longo apêndice onde as alusões mais crípticas dos poemas são explicadas pelo tradutor. Um leitor verdadeiramente interessado na obra poética de Sebald tem nestas notas farto material de interpretação. Um Ulisses brota de um poema, a memória de umas férias em Marienbad doutro; o passageiro em trânsito vê da janela um mundo que passa veloz e pensa, inventa mundos, faz associações. O mundo mágico de Sebald é elástico, contém multidões whitimanianas, surpreeende sempre o leitor. Num poema, talvez em um erro tipográfico, aparece Saõ Paulo, ao invés de São Paulo, quando ele faz o censo das tribos viajantes de um aeroporto. Saõ Paulo, eh, Saõ Paulo, mas que diabo quer dizer isso?. Quando soube da morte de meu pai, o legítimo Aguinaldo Severino, no último 11 de julho, um domingo aziago, às 21h30min, fiz os preparativos de viagem, levando na bagagem até São Paulo apenas esse Sebald para ler. Logo após o sepultamento, há exatos dois meses, num início de tarde, como agora, 14 horas mais ou menos, do 12 de junho, eu repetia mentalmente, como um mantra, as palavras de Sebald: "Life is beautiful, but my day is truly wrecked".
Registro #1200 (poesia #85)
[início: 19/12/2016 - fim: 11/07/2017]
"Across the Land and the Water: Select poems, 1964-2001", W.G. Sebald, tradução de Iain Galbraith (do alemão para o inglês), London: Penguin Books, 1a. edição (2012), brochura 13x20 cm., 213 págs., ISBN: 978-0-141-04486-6 [edição original: Über das Land und das Wasser. Ausgewählte Gedichte 1964–2001 (München: Carl Hanser Verlag) 2008]

sexta-feira, 14 de abril de 2017

pequena madrugada antes da meia-noite

Semanas atrás estive no sertão pernambucano, em Serra Talhada, em uma missão acadêmica. Foram dias de muito trabalho, mas como a viagem era longa levei vários livros para ler. Um deles foi o "Máquina zero", do Ricardo Aleixo, que já registrei aqui. Outro foi esse "Pequena madrugada antes da meia-noite", do Marco de Menezes. Como das maravilhas que encontrei no livro do Aleixo já falei, é hora de me dedicar a tentar descrever o outro fino da lavra do Menezes. Ele nos apresenta quatro séries de poemas, quatro como as estações e as principais direções de uma rosa dos ventos. Os poemas são variados em temática e forma. Alguns deles poderíamos chamar de aforismos ou mesmo de sintéticos haikus. Os conjuntos são: manchúria (13), goleiro-linha (17), nada retira no silêncio (14), gabardine (13). Em "manchúria" os poemas tratam de fragmentos de lembranças, memórias da fronteira e do campo, registros de uma criança que olha, mas tudo é calmo, não há arrependimento, culpa ou dor. "goleiro-linha" reúne coisas urbanas, viagens, desabafos, saudades entranhadas, a lembrança de um outro poeta, que já foi muito amigo, mas não parece ser mais. "nada retira do silêncio" faz com o leitor um jogo de luz e sombra, mostra um poeta que enfrenta o abismo, tateia a natureza viva dos insetos e plantas, observa objetos e ausências como natureza morta. "gabardine" é o conjunto mais invernal, mais fúnebre, onde um narrador fala da morte de um amigo, da depressão e do suicídio, de um passado que oprime mas acaba por libertar. Não há nada frouxo nos poemas de Menezes, não há poemas fáceis, malabarismos e jogos verbais que iludem o leitor. A única ilusão que Marco de Menezes cria é aquela onde acreditamos que até parece fácil fazer poesia, poetar, escrever versos e publicá-los. Evoé Marco, Evoé.
[início: 27/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Pequena madrugada antes da meia-noite", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 1a. edição (2016) brochura 12x18 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-81743-46-2


quarta-feira, 12 de abril de 2017

máquina zero

São doze poemas. Quase todos curtos, quase todos hiper destilados, potentes e cortantes, férteis em propostas e associações. Ricardo Aleixo os publicou no início destes anos 2000 (e fez a capa, projetou, editou, fabbro que é). Os poemas têm títulos, títulos-valise: (i) Máquina zero; (ii) Labirinto; (iii) Confidência; (iv) Paupéria revisitada; (v) Teofagia; (vi) Antropofagia; (vii) Autofagia; (viii) Como realmente é; (ix) Dois exercícios de língua pária; (x) O Belomorte; (xi) Exercícios de lira maldizente e (xii) Anti-ode: Belorizonte. Nos curtíssimos primeiros sete o poeta (i) deambula por Berlin e vê as gentes (se perde e se acha, entre sons, imagens e ideias); (ii) caminha como um grego por uma cidade que conhece como a sola de seus pés (mas sabe que o homem que nunca se perde nunca se acha); (iii) empresta do Machado sarcasmo e palavras duras para um poeta rival; (iv) volta a tomar emprestado, desta vez uma ironia, do e.e. cummings, sobre as dificuldades da poesia original ser entendida e publicada; (v) engole hóstia e passado mineiro, como um Chronos mirim; (vi) flerta e repasta os modernos, Oswald à frente; (vii) como velho putanheiro, perde conas mas não a verve. Os três seguintes (oitavo, nono e décimo) mostram: (viii) como o poeta usa sua arte como chave, como ferramenta para entender melhor os mecanismos do mundo e atuar: no oitavo para continuar uma reflexão importante de onde a Wislawa parou (faz um bicho homem vomitar seu ódio, humanizando-o); (ix) como provocar um outro tipo de terrorista, aquele que parece colega e igualmente usa a palavra, mas em vão e com eivada mão; (x) como deixar vazar da memória um primo mentiroso, cheio de imaginação. O penúltimo poema (xi) é o mais longo, e aquele onde o poeta descreve o mundo das letras, da literatura, fala de como seu ofício é corrompido por maus artífices (ou canalhas mesmo), onde disserta ativista e crítico, torna-se muso de si mesmo, inspira-se na aridez e não se furta acusar, apontar erros. No último (xii) ele confronta duramente sua cidade, sua belo horizonte fundamental, com um rabo do olho longe, lá na Alexandria de Kaváfis. Li o livro várias vezes, umas tentando contar quantas vezes a ideia de ofício aparecia, noutras conferindo citações e associações, por vezes só apreciando as ilustrações (capa, duas ou três reproduções fotográficas, duas ou três pequenas vinhetas/retrancas) e os aforismos do verso da capa. "Máquina zero", o livro, parece uma coisa só, onde forma e texto se amalgamaram tão completamente que cada detalhe explica o todo reunido, enfeixado nele. O livro inclui ainda dois bons textos de apoio: um curto ensaio assinado por Sebastião Nunes e uma apresentação de Marçal Aquino. Ô beleza. Evoé Aleixo, Evoé.
[início: 28/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Máquina zero", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Scriptum Livros (coleção Zaúm), 1a. edição (2004) brochura 12x18 cm., 64 págs., ISBN: 85-89044-06-8

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

a borboleta e o sino

Há livros que são peças quase únicas, obras de arte rara, mimos travestidos em papel e tinta. Esses objetos são especiais, pois os colocamos nas prateleiras das estantes sempre em um lugar onde é fácil vê-los novamente, para um renovado fragmento de deleite bobo, cabotinos que inevitavelmente somos. É o caso do que farei com este "A borboleta e o sino", antologia de haikus de Yosa Buson, importante poeta e também pintor japonês do século XVIII, recentemente publicado pela editora catarinense Cultura e Barbárie. Sérgio Medeiros assina a seleção dos haikus e sua tradução (ele diz que os poemas foram "mudados" para o português). Os poemas estão agrupados em séries dedicadas às estações do ano: primavera (23 haikus), verão (49), outono (45) e inverno (34). Cada conjunto inclui reproduções de imagens muito bonitas do austríaco Egon Schiele e do próprio Yosa Buson (o belo projeto gráfico do livro é assinado pela designer Marina Moros). O leitor acompanha Buson pelo ano e seus muitos sucessos: a chuva e o terremoto; o desabrochar das flores e as folhas que caem; o cinza das brasas e da neve; o monge irritado na rua e o vendedor que boceja; o edredom curto e a lua refletida num lago; um arrebol e salmões empilhados. Tudo o que se sente, se vê, se ouve e se cheira é matéria para um poema. Numa introdução e num posfácio (ambos curtos), Sergio Medeiros fala algo de seu ofício, de seu interesse pelo idioma japonês, do quão exemplarmente os versos de Buson são objetivos e belos. Lembrei-me daquela velha história zen na qual se narra como um jardineiro retira do jardin que preparou para seu imperador a rocha que este tinha mais admirado do conjunto (para "torná-lo perfeito", reza a lenda). Como o habilidoso artífice do jardim de palavras de Buson em português, Sergio Medeiros opta por uma solução diferente daquela do jardineiro zen. Para finalizar seu livro ele não retira, mas escolhe incluir um poema mais, aquele que dá nome a sua antologia: "A borboleta e o sino". Agora sim, parece ele nos dizer, tudo está perfeito! 
[início: 08/12/2016 - fim: 06/01/2017]
"A borboleta e o sino: uma antologia de haikus", Yosa Buson, tradução de Sergio Medeiros, Desterro/Florianópolis: editora Cultura e Barbárie (selo Armazém), 1a. edição (2016), brochura 11,5x20,5 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-63003-35-5

terça-feira, 25 de outubro de 2016

um amor feliz

Da Wislawa Szymborska já li duas boas antologias de poesia, o "Poemas", lançado em 2011 pela Companhia das Letras, e o "Paisagem com grão de areia", da portuguesa Relógio D'Água. Recentemente a tradutora Regina Przybycien produziu uma seleção de poemas, desta vez reunindo cousas desde o primeiro livro publicado pela Wislawa (Wolanie do Yeti, de 1957) até o último (o póstumo Wystarczy, de 2012). São 85 poemas, retirados de onze livros (Wolanie do Yeti, 1957; Sól, 1962; Sto Pociech,1967; Wszelki Wypadek, 1972; Wielka Liczba, 1976; Ludzie na Moscie, 1986; Koniec i Poczatek, 1993; Chwila, 2002; Dwukropek, 2006; Tutaj, 2009; Wystarczy, 2012). Os temas são bastante variados. A tradutora chama a atenção pelo interesse da poeta por temas científicos, pela astronomia, matemática e biologia, mas também encontramos investigações curiosas sobre o mundo das coisas inanimadas (pedras, areia, água, terreno) e dos conceitos puros (beleza, consciência, ausência, risos, cores). E há também as relações humanas, as coisas boas e más que fazemos todos, nós homo sapiens sapiens. Não é o tipo de livro para se ler de capa a capa. Folheamos vagabundos o livro e encontramos prováveis verdades, enigmas sem solução, perguntas que se esquivam de respostas, vestígios de memórias sepultadas pelo tempo, que se metamorfosearam em algo mais puro (será isso a poesia?). A poeta se orgulha de ser mulher, num mundo misógino e duro; controla a ironia que verte em gotas nos olhos do leitor. O livro inclui também o curto discurso de aceitação do prêmio Nobel de literatura de 1996, onde ela louva a potência infinita que guardam duas palavras que todos deveríamos prezar: "não sei". Grande poeta. Evoé Szymborska, evoé.
[início: 23/09/2016 - fim: 18/10/2016]
"Um amor feliz", Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2016, brochura 14x21, 327 págs. ISBN: 978-85-359-2788-7 [edição original: The Wislawa Szymborska Foundation]

terça-feira, 20 de setembro de 2016

kaos total

No final de julho senti um friúme ao saber que o Jorge Mautner tinha sido hospitalizado por conta de um infarto. Já fazia um par de semanas que lia devagar um livro que três jovens organizaram para celebrar os 75 anos dele, um livro onde estão reunidas praticamente todas as letras de suas composições e também muito material inédito, uma miscelânea dos diabos. Segundo os organizadores (João Paulo Reys, Maria Borba e Natasha Felizi) o arquivo pessoal de Mautner foi vasculhado durante anos. Lá eles garimparam anotações feitas em cadernos, margens de jornal, cadernetas de telefone e no verso de notas fiscais; livros inteiros prontos; narrativas ficcionais inacabadas, esboços de projetos políticos e reflexões filosóficas; pinturas à óleo, desenhos à lápis e colagens. São aproximadamente 150 letras, só umas poucas inéditas. Quase todas foram musicadas por ele mesmo, mas há também canções musicadas por  Nélson Jacobina, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Jards Macalé, Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, entre vários outros. As composições foram gravadas por ele, entre 1970 e 2014, e também por dezenas de outros intérpretes. Ao ler o livro várias vezes usei o YouTube ou ao Spotify para conferir a música dos poemas e tentar lembrar algo delas. Confesso que não conhecia a maioria das canções, mas a poesia delas se defende sozinha (as musas da poesia e da música eram boas irmãs, ensinaram os gregos). O livro inclui também nove poemas não musicados; um projeto de musical (infanto-juvenil); um proto programa político partidário de seu PRK (Partido Revolucionário do Kaos); uma proposta de constituinte cultural para o Brasil; reflexões mais abstratas, filosóficas; registros da memória, da história de sua família. Trata-se de um sujeito verdadeiramente original, multitalentoso, que sempre segue seu instinto artístico. Grande sujeito. Lembro de uma intoxicada noite na FAU (a faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), lá no início dos anos 1980, em que fizeram um show que não terminava nunca, para sorte de uma legião de fãs, ele e seu parceiro mais frequente naquela época, o Nélson Jacobina (que morreu há pouco mais de quatro anos). Longa e memorável noite. Cabe dizer que o Mautner se recuperou do infarto, barganhou mais tempo da morte, cousa boa, e que está a prometer livro e revelações quase messiânicas. Vamos a ver. Evoé, Mautner, evoé. 
[início: 23/06/2016 - fim: 17/09/2016]
"Kaos Total", Jorge Mautner, organização de João Paulo Reys, Maria Borba, Natasha Felizi, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 414 págs., ISBN: 978-85-359-2673-6

quinta-feira, 28 de julho de 2016

fim das coisas velhas

Com a confusão da mudança dos livros para o novo apartamento perdi/escondi coisas mas encontrei outras tantas que já computava inapelavelmente perdidas. Uma delas foi esse pequeno livro de poemas (que comprei num dia em que estive visitando don Frank e doña Valquíria em Caxias, já há tantos anos). Em 2010 Marco de Menezes ganhou o Prêmio Açorianos de livro do ano com esse seu "Fim das coisas velhas". Estão nele reunidos sessenta e um poemas divididos em quatro conjuntos. Os dezesseis de "torvelinho" são reflexões sobre o ofício do poeta, suas leituras e influências, exercícios de forma e ritmo; os onze de "os pátios" são poemas em geral mais curtos, sintéticos, onde cenas urbanas e simbólicas se alternam; já os dezessete de "como um peixe de parede" são versos que cantam a memória de quem vive numa cidade que não é aquela em que nasceu e que se esforça por guardar cousas de seu passado; por fim, em "ítaca, itaqui", estão reunidos os dezessete versos mais fortes (mais eruditos digo eu, na falta de uma definição melhor), que ecoam algo dos gregos, algo da dor e da morte. O efeito de todo o conjunto é realmente agradável. Marco de Menezes parece sem pressa, presta atenção a coisas simples que conta, do campo e da cidade, dos objetos do cotidiano, das gentes. É bom estar com tempo e calma para aproveitar livros assim. Vale.
[início: 16/05/2016 - fim: 17/07/2016]
"Fim das coisas velhas", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem (editora Belas Letras), 1a. edição (2009), 11,5x18,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-63-05700-6

sábado, 16 de julho de 2016

pomes penyeach

Neste último mês tive sim uma cota generosa de aborrecimentos, mas também pude descansar da loucura imergindo em meus livros, sem medo, sem temor. Logo após o Bloomsday, no último 16 de junho, resolvi continuar com as cousas do Joyce e ler os poemas reunidos em "Pomes penyeach". São treze pequenos achados, produzidos em Trieste, Dublin, Zürich e Paris, entre 1904 e 1924 (publicados originalmente em livro em 1927 pela icônica "Shakespeare and Company", de Sylvia Beach). Os poemas se deixam ler sem muitas dificuldades, as imagens que Joyce cria revelam um bom observador, mas não daquilo que está na superfície das coisas, antes sim do que é potência, possibilidade, destino. São poemas ligados a eventos de sua vida (a morte da mãe, a vitória do irmão em um evento náutico, sua vida difícil em Triste) mas o tom deles não é autobiográfico. Ele fala de uma flor que dá a sua filha; de alguém que chora um amor perdido; das águas calmas de uma fonte; de seus olhos glaucos, consumidos por uma inflamação; da solidão; de um pregador que grita na rua; de um pastor que leva seu rebanho pela colina. Nesta edição da Faber and faber (originalmente publicada em 1933) estão incluídos três outros poemas de Joyce: seu orgulhoso registro do nascimento do neto, Stephen Joyce, ("Ecce Puer", de 1932); uma sátira cruel sobre a Dublin literária ("The Holy Office", de 1904) e sua reação violenta à destruição da primeira edição de seu livro de contos, Dublinenses, ("Gas from a Burner", de 1912, onde ele não poupa vitupérios ao editor George Roberts, ao impressor John Falconer e a vários escritores irlandeses da época). Livros assim sempre fazem à alma um grande bem. Vale.
[início: 16/06/2016 - fim: 15/07/2016]
"Pomes penyeach", James Joyce, London: Faber and faber, 1a. edição (1991), brochura 12,5x20 cm., 32 págs., ISBN: 0-571-06630-3 [edição original: (Paris: Shakespeare & Co) 1927]