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terça-feira, 7 de agosto de 2018

provas manipuladas

Esse é o décimo terceiro volume da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Brunetti em Veneza. Em "Provas manipuladas" acompanhamos a solução clássica de um crime que foi atribuído a uma pessoa inocente, por xenofobia, sexismo, racismo. Uma idosa e irascível senhora é encontrada morta e a polícia italiana resolve facilmente o caso ao verificar que uma mulher de origem romena que prestava serviços de faxina a ela havia saído apressadamente do país com uma soma considerável de euros (já estamos nos tempos da unificação monetária da Europa, Donna Leon sempre sincronizando a realidade com sua invenção). Apesar desta evidência, Brunetti é instado a envolver-se e investigar novamente o crime por um padre para quem ele devia alguns favores, ainda na juventude. A trama é bem elaborada, intrincada mesmo, todavia funciona. Mas o crime e a inventiva narrativa são na verdade apenas um artifício que Donna Leon criou para espezinhar mais uma vez a sociedade italiana, exemplificar o alcance perverso dos hábitos, dos infinitos recursos que a lei de lá permite aos muito ricos e muito culpados, dos costumes italianos, da cobiça dos incorporadores imobiliários, das leis trabalhistas fascistas, da inevitabilidade do confronto entre os cidadãos daquela sociedade e os imigrantes (seja do leste europeu, seja do mundo muçulmano, sejam latinos americanos). Apesar das críticas aos métodos alucinantes da burocracia italiana quem auxilia Brunetti na solução do caso é uma cidadã italiana, que mesmo contra pressões públicas defende a empregada romena e explica as circunstâncias de sua saída da Itália e o porquê dela estar com muito dinheiro. Brunetti é um detetive que sabe ouvir, que deixa fatos e evidências aflorarem do cipoal de meias verdades e mentiras completas. Esse volume explora as virtudes privadas, os vícios públicos e os pecados capitais, que coexistem e assombram qualquer sociedade contemporânea. Elettra e Vianello trabalham no limite da lei para contornar a crise que a interferência de seu chefe na investigação. Paola, nos agradáveis almoços e jantares em família, proporciona com sua sagacidade e até cinismo, uma espécie de bolha de tranquilidade, de paz, para Brunetti. Trata-se de um volume que reforça a importância de um círculo de amizades não tóxicas para a saúde mental de qualquer sujeito, de qualquer família. Assim como o anterior, "Assassínio na Academia", esse é dos mais amargos volumes da série. Como minha versão foi editada em Portugal tive um prazer complementar ao ler o livro, pois encontrei vários termos que não são rotineiramente utilizados aqui no Brasil, como comboio, assoalhada, se mo permitem, gelosias, forreta, coscuvilhar, entre tantos outros. Como é rico e vasto nosso português. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1304 (romance policial #73) 
[início: 21/02/2018 - fim: 24/02/2018]
"Provas manipuladas (Brunetti #13)", Donna Leon, tradução de Ana Lourenço, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2010), brochura 15,5x23,5 cm., 246 págs., ISBN: 978-989-657-066-8 [edição original: Doctored Evidence (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2004]

terça-feira, 17 de julho de 2018

un nido de víboras

Esse é o vigésimo-sexto livro da série Montalbano, de Andrea Camilleri. "Un nido de víboras" explora um tema que Camilleri abandonou quando publicou em 2008 seu nono romance da série: "La luna de papel", que é o do incesto. Se naquele volume sobrava apenas a insinuação de uma relação amorosa entre mãe e filho em "Un nido de víboras" toda a trama gravita pelos amores cruzados entre vários membros de uma família. De qualquer forma não é fácil para Montalbano chegar a entender a sequencia factual dos delitos e dos crimes que lhe cabe investigar e, sobretudo, separar o que é público, de ser desvendado, publicizado, constar dos autos do processo e o que é de foro íntimo e, por terrível que seja, deve ser mantido em segredo. Há um longo intervalo temporal entre dois crimes violentos, o afogamento de uma senhora e o assassinato de um pacato advogado de família. Os personagens secundários da série ganham importância aqui. Fazio e Mimi argumentam, enquanto Montalbano parece um Eáco, um Minos, um Radamanto, a julgar serenamente mortos e vivos. A cozinheira Adelina e Sílvia, a eterna amante de Montalbano, continuam se detestando e trocando farpas, mas de suas mútuas intrigas surge o caminho para entender algo dos crimes que esperam solução. Como em uma das comédias de Shakespeare ("Much Ado about Nothing") é um personagem menor e algo obtuso quem de fato resolve os crimes, identifica os culpados. Camilleri sempre faz bom uso da fantasia, dos sonhos, das técnicas do teatro, tanto na criação de cenários quanto no ritmo da narrativa. Agora que estou familiarizado com os romances policiais de Donna Leon, entendo melhor as referências cruzadas sobre as notáveis diferenças entre o povo e a cultura do Norte e do Sul italiano. Brunetti e Montalbano compartilham senso de dever e comportamento ético, mas se utilizam de ferramentas de dedução diferentes, Montalbano é sanguíneo, mercurial, quase dissoluto nos costumes, Brunetti metódico, regrado, introspecto. Já recebi o próximo volume da série, lançado no ínício deste 2018. Logo haverá mais Camilleri por aqui. Vale! 
Registro #1292 (romance policial #72) 
[início: 24/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Um nido de víboras", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 223 págs., ISBN: 978-84-9838-784-1 [edição original: Un covo di vipere (Palermo: Sellerio editore) 2013]

segunda-feira, 9 de julho de 2018

assassínio na academia

Li "Assassínio na academia" há quase um ano, em julho passado, mas como havia resolvido só publicar meus registros de leitura dos livros de Donna Leon cronologicamente, eis que somente agora tenha a oportunidade de fazê-lo (não tenho ainda os vinte e oito volumes de aventuras do comissário Brunetti publicados por ela, mas estou perto, já que fui comprando edições portuguesas, espanholas e inglesas de suas obras). Vamos a ver. Neste volume Donna Leon embaralha, como sempre faz, vários temas, enfatizando um deles quando se prepara para finalizar a narrativa. O jovem filho de um médico, antigo e incorruptível deputado veneziano é morto na academia militar que frequentava. Esse deputado, membro de uma tradicional família de venezianos, havia produzido relatórios sobre sistemáticos desvios de dinheiro do exército italiano, mas acabou se afastando da política após a morte da mulher em um suposto acidente de caça. Brunetti começa a investigar o caso, mas Patta, particularmente insuportável nesse volume, tenta controlá-lo, justamente pelos interesses cruzados da máfia e pela secular corrupção entranhada na política italiana. Os temas importantes são apresentados rapidamente: a leniência do povo do Sul da Itália, os problemas com imigrantes, a corrupção e o controle político nas eleições (estamos nos tempos em que Silvio Berlusconi é primeiro ministro, cuja ascensão ao poder é resultado colateral da operação "Mãos limpas", a investigação judicial de grande envergadura que provocou profundas mudanças no quadro partidário italiano no início dos anos 1990, algo bem parecido com o que está acontecendo agora com a operação "Lava a jato"). Nesse volume também somos apresentados a novas facetas de Paola, que ajuda o marido com sua perspicácia, e descobrimos um Brunetti não tão olímpico, perfeito, mas sim um sujeito que num acesso de raiva e por falta de paciência põe tudo a perder. Ele sabe (como sabemos bem também nós, brasileiros) que um escândalo têm o mesmo prazo de validade que o de um peixe fresco, pois após três dias ambos são inúteis, ninguém mais se importa. Donna Leon sabe fazer seu protagonista e seus personagens secundários evoluírem, tornarem-se mais humanos e críveis. Esse talvez seja o mais amargo dos volumes que li desta série. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1284 (romance policial #71) 
[início: 17/07/2017 - fim: 19/07/2017]
"Assassínio na academia (Brunetti #12)", Donna Leon, tradução de Maria José Santos, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2009), brochura 15,5x23,5 cm., 268 págs., ISBN: 978-989-657-018-7 [edição original: Uniform Justice (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2003]

sexta-feira, 22 de junho de 2018

o estranho caso ford

Li esse "O estranho caso Ford" ainda em 2017, mas só faço agora um registro, pois inventei de fazê-los na ordem cronológica em que Donna Leon publicou seus livros e não na ordem que os encontrei (esse volume é uma edição portuguesa, lançada num hoje distante 2002). Os sucessos de agora passam-se numa primavera, os personagens estão próximos do final do ano letivo, da chegada dos turistas, das férias. A trama envolve questões de gênero; o ofício do ensino, sobre ser ou não um bom professor; técnicas de investigação e interrogatórios; a corrupção endêmica do estado italiano; o amor aos livros e a inteligência; o terrível e negado passado fascista italiano; questões de ordem moral. Uma garota, aluna de Paola, muito inteligente e culta, pede a Brunetti sua opinião em um hipotético caso de herança que acaba materializando-se quando ela aparece morta. Brunetti e Paola, Elettra e Vianelo precisarão juntar esforços e engenho para descobrir a origem da fortuna em imóveis e do dinheiro que a garota recebia, vindo do exterior, bem como dos interesses cruzados nas mortes dela e de sua protetora, uma excêntrica senhor alemã, já bastante idosa. Romance bastante intrincado e bem escrito. Mais bem resolvido que o quase aborrecido "Um mar de problemas", volume anterior da série. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1271 (romance policial #70) 
[início: 20/11/2017 - fim: 30/12/2017]
"O estranho caso Ford (Brunetti #11)", Donna Leon, tradução de Maria João Freire de Andrade, Lisboa: Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2009), brochura 12,5x19 cm., 311 págs., ISBN: 978-989-657-316-4 [edição original: Wilful Behavior (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2002]

quinta-feira, 14 de junho de 2018

un mar de problemas

É maio, alta primavera, o calor já excita a imaginação dos venezianos. Uma boa ideia seria aproveitar que os turistas ainda não tomaram conta da cidade, ir as praias, descansar, mas, é inevitável, estamos em um romance policial, um crime acontece. Nesta aventura o comissário Brunetti é forçado a se deslocar ao sul, a Pellestrina, a ilha que junto com a muito mais famosa Lido (a Lido das praias e do festival de cinema), parecem proteger Veneza e sua laguna das águas serpeantes do Mar Adriático. Dois pescadores, pai e filho, são mortos em seu barco. Os ilhéus de Pellestrina são xenófobos demais para permitir que um investigar estrangeiro, de Veneza, alcance descobrir as razões do assassinato. Neste volume o leitor acompanha mais uma metamorfose de Elettra, a secretária  multi-meios de Brunetti, desta feita artífice dos movimentos que levarão a elucidação do crime e do desfecho da trama do livro, que envolve a influência silenciosa da máfia, a tensão penere entre o Norte e o Sul italiano, os compromissos atávicos que obrigam os sujeitos a comportamentos por vezes condenáveis. Nesse volume fiquei algo incomodado com os clichês e as citações, excessivos aqueles e frouxas demais essas, mas talvez seja meu mal humor de plantão que censure com demasia a fórmula narrativa de Donna Leon, sempre tão constante e previsível afinal de contas. Eu disse que Elettra passa por uma metamorfose, mas o certo seria registrar que todos os personagens parecem experimentar a passagem do tempo, o medo da morte, algum tipo de confronto moral, numa antecipação do balanço final que esperam poder fazer todos os prosélitos de algum porvir. Curioso. Tirei esse primeiro semestre para ler Donna Leon com disciplina, portanto haverá mais cousas desta senhora por aqui. Vale!
Registro #1264 (romance policial #69)
[início: 27/01/2018 - fim: 05/02/2018]
"Un mar de problemas (Brunetti #10)", Donna Leon, tradução de Ana Maria de La Fuente, Barcelona: Editora Seix Barral (booket, coleção Crymen y Misterio) , 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 287 págs., ISBN: 978-84-322-1769-2 [edição original: A Sea of Troubles (London: William Heinemann / Penguin Randon House Group) 2001]

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

remédios mortais

Em "Remédios mortais", oitavo romance da série de volumes dedicados aos sucessos do detetive Guido Brunetti, Donna Leon nos apresenta uma questão sobretudo moral. A exemplo dos volumes anteriores a trama é bem organizada; as digressões pela alta cultura interessantes; os personagens, complexos; os desdobramentos do crime, críveis; a ilusão da presença física de Veneza em nossa imaginação, notável. Paola decide seguir seu instinto e cometer um crime menor para combater a sua maneira um crime maior. Mas os cidadãos podem fazer escolhas assim, agir segundo seus particulares critérios morais? Os mitos gregos voltam a povoar magistralmente a narrativa de Donna Leon. As regras de convivência entre mulheres e homens quando casados ou vivendo juntos ganham relevo, conduzem a trama mais mundana, rasa, dos crimes que são investigados. Trata-se de um volume calmo, camerístico, de sombras que se acumulam. Os sucessos acontecem no início de novembro, faz frio, a celebração do dia de finados contamina os humores dos protagonistas. Brunetti sonha com a possibilidade dos livros o levarem para longe dos problemas, mantê-lo afastado do sentimentalismo barato  do final de século, da alucinação do milenarismo. Pobre Brunetti, não sabe que quase vinte anos se passaram desde o início de um novo século, e os problemas continuam exatamente os mesmos, tanto em seu país quanto no mundo, somente ganharam novas roupagens, novos atores, nova cenografia. Envelhecer, ele bem sabe, é um exercício de resignação, de estoicismo. Vale! 
Registro #1254 (romance policial #68)
[início: 02/11/2017 - fim: 03/11/2017]
"Remédios mortais (Brunetti #8)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2012), brochura 12x18 cm., 258 págs., ISBN: 978-85-359-2188-5 [edição original: Fatal remedies (London: William Heinemann / Penguin Randon House Group) 1999]

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

o fardo da nobreza

Se no volume anterior, "Enquanto eles dormiam", a ausência de crimes em Veneza permitiu ao comissário Guido Brunetti tempo livre o suficiente para fazer uma investigação quase privada, particular, eis que em "O fardo da nobreza" suas planejadas férias de primavera são canceladas quase na véspera da partida, devido a descoberta de um cadáver. A cidade está insuportável, já repleta de turistas; Paola, Chiara e Raffi não cancelam os dias de descanso e viajam para Bolzano, no sopé das Dolomitas; o crime nem é exatamente veneziano, pois o corpo foi encontrado na província de Belluno, longe dali, mas todos os comissários de lá já estão em férias ou impossibilitados de investigar. A trama é intrincada, envolve o colapso da URSS, a ascensão das máfias no leste europeu, a corrupção dos italianos, os hábitos das pessoas muito ricas e poderosas, a geopolítica estranha das universidades, questões de honra. Citações eruditas, sobretudo de Cícero, sobre questões morais e de Sófocles, extraídas de sua "Antígona", são mescladas a reflexões interessantes sobre a sedução da linguagem, sobre os benefícios da polidez e da firmeza, sobre nossos humores e o fato notável de sempre entendermos melhor como opera a psiquê dos outros, antes da nossa. A secretária Elettra tem papel fundamental nesta trama, mostra seus dotes de musa condutora, quase como uma Bond-girl, emprestando sua agilidade mental e redes de contatos a Brunetti. O sogro de Brunetti, Orazio Fallier, mostra-se um sujeito tão culto quanto poderoso, e, para surpresa de Brunetti, feliz de tê-lo como genro. A trama sutilmente remete à mitologia grega, exemplificando como uma nódoa familiar, um crime terrível, necessariamente se transmite geração a geração, implicando em punições e tragédias a todos os descendentes. Donna Leon desnuda um tanto a cumplicidade de algumas aristocráticas famílias venezianas com a perseguição sofrida por judeus italianos durante o período fascista, na primeira metade do século passado. Melhor livro que já li de Donna Leon. Mas sigamos, é tempo. Vale! 
Registro #1240 (romance policial #67)
[início: 14/07/2017 - fim: 02/09/2017]
"O fardo da nobreza (Brunetti #7)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2012), brochura 12x18 cm., 249 págs., ISBN: 978-85-359-2056-7 [edição original: A noble radiance (London: Pan Books (Macmillan Publisher) 1998]

sábado, 4 de novembro de 2017

enquanto eles dormiam

Depois das águas altas e do frio no volume anterior que li de Donna Leon (Acqua alta) eis que estamos agora na primavera. Brunetti investiga um caso não oficial, nas suas horas vagas, por sorte em um período sem crimes em Veneza. Só com o verão e os turistas os crimes voltarão à cidade. Uma jovem mulher, que costumava cuidar da mãe de Brunetti, condenada pela idade e pelo Alzheimer a viver em um asilo mantido por uma ordem religiosa, abandona os votos de monja e pede ajuda ao comissário, pois acredita que os anciãos daquele asilo estão sendo mortos e não morrendo por acaso. Brunetti e seus fieis comandados, Brunello e Vianello, sagazes e sedutores (primeira vez em que exibem seus talentos de investigadores independentes do chefe comissário) alcançam vencer a hipocrisia e demais práticas venais e condenáveis da igreja para chegarem a uma solução adequada para o problema da jovem ex-freira. A trama envolve o sempre complexo mercado imobiliário veneziano e o comportamento de inescrupulosos advogados que usam o direito e o abstrato conceito de justiça da população apenas para bem fazer suas negociatas e chicanas. Aprendemos algo mais sobre Brunetti. Sobre o fato dele ler os clássicos (Marco Aurélio, Tertuliano, Plínio) e conhecer bem a Bíblia. Acompanhamos sua surpresa ao descobrir a erudição e hábitos de leitura de sua sogra, a contessa Falier; sobre sua sagacidade ao trilhar caminho de segredos e mentiras que afetam o poder da igreja e de organizações pararreligiosas, como a Opus Dei. A secretaria Electra se mostra fundamental na trama. Certamente veremos mais cousas dela por aqui. Uns pedófilos, que sempre aparecem quando se fala da igreja cristã, acabam sendo punidos, mas os verdadeiros artífices de negociatas e crimes, as grandes ordens religiosas, a Opus Dei e a própria igreja, sempre serão preservados. Já disse como esses detalhes  me alegram quando leio os livros de Donna Leon. A engrenagem da vida é mais complexa do que os romances policiais comuns emulam. Nada pode ser totalmente resolvido na vida real, sempre haverá alguém prejudicado, um fato continuará nebuloso ou impune, uma certa pena jamais será aplicada. O direito é apenas um caro e lento exercício de enganação. Como um dos personagens do livro diz: "Os hipócritas nunca imaginam que os outros possam ser tão falsos quanto eles são". Só num país majoritariamente de indigentes mentais, como nesse nosso Brasil, questões de gênero e pedofilia são tratados com igual leniência e derrisão (no mundo da ficção de Donna Leon as pessoas são mais sérias e mais críveis). Mas não há porque se perder mais tempo com esse desgraçado pais. Vamos em frente. Mudemos de tema. 
Registro #1234 (romance policial #66)
[início: 18/08/2017 - fim: 24/08/2017]
"Enquanto eles dormiam (Brunetti #6)", Donna Leon, tradução de Carlos Alberto Bárbaro, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2010), brochura 12x18 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-359-1779-6 [edição original: The death of faith, aka Quietly in their sleep (London: Pan Books (Macmillan Publisher) 1997]

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

acqua alta

Esse é o quinto volume da série de romances policiais assinados por Donna Leon dedicados aos sucessos do Comissário Guido Brunetti. Neste volume são novamente escaladas na trama duas personagens que apareceram originalmente no primeiro livro dela, "Morte no teatro La Fenice", a cantora lírica Flávia Petrelli e a americana especialista em arte Brett Lynch. As histórias de Donna Leon seguem o ritmo das estações. O leitor encontra Brunetti num fevereiro frio e ventoso, época em que não há muitos turistas em Veneza, pois a cidade experimenta o perene fenômeno de "Acqua alta", as marés altas que invadem a laguna e anunciam a proximidade do início da primavera. Lynch, que ao final do "Morte no teatro La Fenice" prometia viajar a China para o início de uma missão de escavações arqueológicas, está de volta a Veneza. Num domingo vagaroso, que seria aparentemente calmo, hedonista, Lynch ouve displicente o canto de sua amiga Petrelli, que na cozinha, preparando o almoço delas, também exercita sua voz, pois a temporada de ópera, a da primavera, no Scala de Milão, logo começará. Ao atender inadvertidamente a porta, dois homens entram em seu apartamento e logo passam a agredi-la com bastante violência, só interrompidos pela presença firme de Petrelli, que saiu da cozinha com uma faca na mão. Brunetti só se envolverá na investigação das motivações desta agressão muitos dias depois e acaba chamando para si a responsabilidade por fazer justiça. Curtos episódios biográficos dos familiares e colegas de trabalho de Brunetti são incorporados à narrativa puramente de suspense. O leitor entende um tanto melhor os humores e a personalidade da secretária Elettra, do policial Vianello, da esposa Paola e dos filhos, Chiara e Raffi. E quem já esteve em Veneza num inverno entende as repetidas descrições do clima e dos muitos desvios que os personagens devem fazer devido às inundações. O livro trata de contrabando de arte, mas também fala da soberba, do orgulho, da arrogância. O caso se resolve, mas como nos livros anteriores dela, não completamente. A vida não é como um jogo, como um quebra-cabeças que montamos e recuperamos de sua desordem. Sempre algo se perde, fica ao sabor da lentidão da justiça e da burocracia, da corrupção e do tédio dos homens. O diabo sempre está nos detalhes. Não há o que fazer. A vida sempre segue. 
Registro #1220 (romance policial #65)
[início: 25/07/2017 - fim: 26/07/2017]
"Acqua alta (Brunetti #5)", Donna Leon, tradução de Celso Mauro Paciornik, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2009), brochura 12x18 cm., 296 págs., ISBN: 978-85-359-1439-9 [edição original: Acqua alta / aka Death in High Water (New York: Harper Collins) 1996]

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

morte e julgamento

No quarto volume da série de romances policiais dedicados aos sucessos do Comissário Brunetti, "Morte e julgamento", se fala sobre o tráfico humano e a exploração do sexo. Homens e mulheres inescrupulosos mantém uma complexa operação, um negócio sujo, que envolve dezenas de pessoas e muito dinheiro, mas cuja rentabilidade é altíssima. São implacáveis as forcas invisíveis do mercado, a lei de oferta e procura, a cupidez humana. Donna Leon situa sua história nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlin e do consequente fluxo de imigrantes do leste europeu para as grandes e ricas cidades do continente, no caso deste volume, do fluxo de imigrantes romenos (quem já leu os livros de Herta Müller sabe do desastre irreversível que foi a ditadura comunista romena). Brunetti precisa resolver um crime que acontece em sua jurisdição, Veneza, correlato a um outro, acontecido em Padoa. Sua sagacidade e capacidade de trabalhar em equipe são testadas (e nesse volume descobrimos o quão dissimulado e bom ator ele sabe ser). Além da prostituição, Donna Leon acrescenta à trama uma outra camada de ignominia, ao descrever uma faceta inusitada, porém crível, do cenário de horrores da Guerra dos Balcãs. A solução dos crimes reside em uma questão puramente moral de um indivíduo, que Brunetti, sempre escravo de  sua retidão, resolverá, mas já sabendo ou antecipando que a grande  máquina de hipocrisia e poder italiana saberá blindar os verdadeiros culpados, as pessoas influentes demais para chegar a pagar por seus deslizes. Se ao longo do livro o leitor encontra momentos de alegria e hedonismo (os jantares familiares, a cumplicidade entre pai e filha, os passeios calmos pelas ruelas venezianas, as citações dos livros clássicos que os personagens lêem), seu desfecho, a exemplo dos demais que já li dela, deixam um travo amargo, uma nota duramente cinica, que obriga o leitor a reconhecer que não há remissão para o homo sapiens sapiens, espécie sempre capaz de sempre tentar esconder seus crimes e vileza, seu caráter dúbio e vocação para destruição e morte. O Brasil aparece na trama, mas da pior maneira possível (prova da verossimilhança que a autora dá a seus livros). Entre as prostitutas arrimentadas pelo tráfico há varias brasileiras, e quando uma pessoa quer fugir para justiça, obviamente tenta fugir para o Brasil. Bom livro, de uma poderosa escritora (que parece se vingar, por meio da literatura, de aborrecimentos que experimentou nos anos em que viveu na Itália).
Registro #1215 (romance policial #64)
[início: 01/08/2017 - fim: 08/08/2017]
"Morte e julgamento (Brunetti #4)", Donna Leon, tradução de Luiz Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2008), brochura 12x18 cm., 267 págs., ISBN: 978-85-359-1163-3 [edição original: Death and Judgment / aka A Venetian Reckoning (New York: Harper Collins) 1995]

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

vestido para morrer

Esse é o terceiro volume da série de romances policiais assinados por Donna Leon dedicados aos sucessos do Comissário Guido Brunetti. Para além da trama essencialmente policial de seus romances, Donna Leon sempre acrescenta a eles um tema forte e contemporâneo. No "Morte no teatro La Fenice" descreve-se algo sobre questões de gênero e o papel das mulheres na sociedade italiana; em "Morte em terra estrangeira" se fala de questões ambientais, das injunções políticas que limitam o debate franco sobre o meio ambiente; já em "Nada como ter amigos influentes" se fala da corrupção doméstica, do dia a dia, em contraste com aquela sistematizada, das grandes corporações (como qualquer governo ou a máfia). Nesse "Vestido para morrer" o tema que aparece lentamente na trama é a hipocrisia das ligas morais, dos grupos ou instituições que em nome de alguma fé se apresentam para ajudar a população. É verão, a contragosto Paola e os filhos adolescentes deixam Brunetti só, em uma Veneza impossível, repleta de turistas, investigando a morte de um travesti, pois todos os demais comissários da cidade estão impossibilitados. Já que as férias foram estragadas e a morte é sempre o único fator que importa, Brunetti, com esforço e engenho, conseguirá identificar os responsáveis e as razões do crime. Neste volume somos apresentados a Elettra, a diligente secretária do procurador Patta. E vê-se que Brunneti se apresenta algo mais conservador, refratário a presença de turistas mal educados e mal vestidos, mas que sabe usar suas raras habilidades para extrair de cada um que se apresente a informação que o ajudará a comprovar as suspeitas que tem desde o início da trama. Em algum momento o narrador lembra da morte recente do juiz Falcone (um dos responsáveis pela operação "Mãos Limpas", investigação judicial que varreu o mapa político italiano nos anos 1990). Noutro se fala da expansão econômica europeia; da aids; da onisciência que os italianos parecem zelar como qualidade básica de seu caráter; dos prazeres da boa comida. Boa trama, bom livro. Vale.
Registro #1213 (romance policial #63)
[início: 09/08/2017 - fim: 12/08/2017]
"Vestido para matar (Brunetti #3)", Donna Leon, tradução de Luiz A. de Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2006), brochura 12x18 cm., 286 págs., ISBN: 978-85-359-0877-3 [edição original: Dressed to death (New York: Harper Collins) 1994]

terça-feira, 5 de setembro de 2017

pássaros pretos

De Mirian Mambrini só conhecia o bom "A bela Helena", que li por sugestão da Heloísa Mesquita, amiga querida, lá de São Paulo, mas que não vejo há mais de um ano, ai de mim. Como estará grande sua pequenina Inês?, e a adolescente Rebeca?, e como estará o Samuca em seus combates? Logo veremos, espero. Esse "Pássaros pretos" é um romance policial canônico. Um crime acontece e o leitor é levado a acompanhar os caminhos que identificarão o assassino. Mirian Mambrini faz uma garota, uma jovem que pretendia passar um tempo de estudos em Paris, voltar para o Brasil por conta da morte violenta de seu pai, poucos dias após sua viagem rumo à Europa. Essa garota, dona de um inusitado nome, Íris Flora, reunirá em Cabo Frio, região praiana à leste do Rio de Janeiro, uma confraria de investigadores (um ex-namorado, um policial, um escritor), que com as informações colhidas com seu irmão, sua mãe, sua tia e outros indivíduos da população do lugar) a ajudarão descobrir as circunstâncias do crime. É um livro que se defende bem e oferece descrições interessantes, tanto de alguns personagens, quanto da paisagem natural ou da passagem do tempo, mas é um livro preso à forma, ao formato, ao gênero. Nada que deprecie o livro, mas o leitor precisa entrar no jogo da investigação rapidamente para realmente gostar do livro. Acho que há uns personagens que têm estofo para outras aventuras. Vamos a ver o que Mirian Mambrini nos reservará no futuro. Evoé. 
Registro #1212 (romance policial #62)
[Início: 16/08/2017 - fim: 31/08/2017]
"Pássaros Pretos", Mirian Mambrini, Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 197 págs., ISBN: 978-85-412-0557-5

terça-feira, 22 de agosto de 2017

morte em terra estrangeira

Depois de ler o nono volume da série de Donna Leon dedicada as aventuras de seu comissário Guido Brunetti ("Nada como ter amigos influentes") resolvi ler preferencialmente os demais na ordem cronológica de sua publicação. O primeiro volume, "Morte no teatro La Fenice", já registrei aqui na semana passada. O segundo é esse "Morte em terra estrangeira". Assim como o anterior não é um romance policial convencional. O texto é longo, as digressões bem variadas e o desfecho não tem nada de heroico e brilhante, antes verossímil e falho, como na vida real costumam ser os desfechos dos crimes e seus desdobramentos mundanos. Brunetti investiga as circunstâncias da morte de um militar americano em Veneza. O que poderia parecer apenas latrocínio mostra-se algo bem mais complexo e sutil. A história envolve questões ambientais; a presença de militares americanos (milhares deles) em território italiano, como num mundo à parte; as diferenças entre o norte e o sul italiano; a influência da máfia na sociedade; os caminhos do dinheiro e do poder. Os detalhes curiosos da vida de um casal de venezianos, o comportamento de seus filhos adolescentes assim como as reflexões sobre as variantes dialetais da população e as regras de convivência entre as classes sociais dão estofo à narrativa puramente policial, de mistério, que se conduz no livro. A geografia da cidade, o labirinto movente suspenso nas águas, é como um personagem a mais na trama. Os diálogos entre os personagens são muito bons e a descrição do clima, da arquitetura e dos estados de espírito dos protagonistas igualmente bem construídas. Sim, haverá mais volumes desta curiosa escritora em breve. Vale.
Registro #1205 (romance policial #61)
[início: 26/07/2017 - fim: 28/07/2017]
"Morte em terra estrangeira (Brunetti #2)", Donna Leon, tradução de Luiz A. de Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2004), brochura 12x18 cm., 339 págs., ISBN: 978-85-359-0585-5 [edição original: Death in a strange country (New York: Harper Collins) 1993]

terça-feira, 8 de agosto de 2017

morte no teatro la fenice

Impressionado com a boa prosa de Donna Leon, após ter lido "Nada como ter amigos influentes" resolvi procurar outros livros dela. Encontrei entre tantos seu primeiro livro da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Benetti, "Morte no teatro La Fenice". Não é um romance policial convencional, daquele tipo em que um problema é apresentado e rapidamente os passos lógicos da dedução do crime se seguem, com um ou outro pequeno desvio narrativo (ou uma questão política, sociológica, moral ou até mítica). O texto é longo, quase quatrocentas páginas. Donna Leon descreve os estados de humor, fisionomia e caráter dos personagens em detalhe e não se furta fazê-los divagar de quando em quando, abandonando completamente o problema ou crime a ser resolvido. Neste volume o leitor é apresentado a morte de um famoso maestro alemão durante os atos de uma peça no teatro La Fenice, emVeneza (uma joia sereníssima, que vale uma visita se o sujeito está por lá). A geografia da cidade e sua arquitetura dominam o livro. Brunetti cruza várias vezes os canais entre as ilhas da cidade para estabelecer o nexo entre às circunstâncias da morte do sujeito e sua história, que remonta os tempos da ascensão do nazismo, seus casamentos, seus admiradores e detratores. Como usualmente acontece neste tipo de livro, mesmo os suspeitos mais óbvios são afinal suspeitos que devem ser investigados. Brunetti conta com a colaboração de um eficiente médico legista, Rizzardi, o apoio de sua mulher, Paola, uma professora universitária e com a pressão de um cabotino procurador, Patta. Preciso ler mais livros dela para completar esse elenco, mas esse tipo de personagens são caricatos ao limite nos romances policiais. Brunetti não, parece ser um personagem com estofo, com invulgares qualidades morais e habilidades próprias de seu ofício. Ao contrário de seu congênere ficcional, o comissário Montalbano, de Andrea Camilleri, Brunetti nunca se exalta, é cordato e educado, porém firme em suas decisões. O livro aborda muito bem uma questão de gênero, ou melhor, as várias facetas das relações entre homens e mulheres no século XX. Acho que continuarei sim a ler livros desta "grande senhora do crime", como seus editores costumam chamá-la. Logo veremos. 
[início: 08/07/2017 - fim: 13/07/2017]
"Morte no teatro La Fenice (Brunetti #1)", Donna Leon, tradução de Lídia Geer, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), brochura 12,5x19 cm., 365 págs., ISBN: 978-989-657-198-2 [edição original: Death at La Fenice (New York: Harper Collins) 1992]

sábado, 24 de junho de 2017

nada como ter amigos influentes

Nunca havia lido nada de Donna Leon, mas conhecia algo de sua fama, dos mais de vinte romances policiais que já havia escrito, dos prêmios que havia recebido (ela ganhou o Pepe Carvalho, dedicado exatamente à literatura policial, em 2015). Quando vi a capa deste "Nada como ter amigos influentes", justamente num dia em que planejava uma viagem de volta à Veneza, não tive dúvidas que estava na hora de conhecer sua prosa. Trata-se mesmo de um bom romance policial. Claro, preciso ler mais cousas dela para entender melhor psicologia, manias e método de seu protagonista, o Comissário Guido Brunetti, mas esta primeira incursão agradou-me bastante. Assim como o Montalbano de Andrea Camilleri, Brunetti é o tipo de sujeito que combina  um entendimento prático de como funciona a complexa sociedade italiana, sobretudo nas diferentes concepções de justiça partilhadas pelos cidadãos, e de como opera a psiquê daqueles que usualmente cometem crimes, sobretudo os crimes menos notórios, de difícil condenação. Não se trata de uma narrativa onde se espelha o mundo contemporâneo, os sucessos dos dias que correm. Ao menos neste volume o comissário Brunetti fala de uma Veneza dos tempos anteriores a implantação do Euro como moeda corrente (a edição original é de 2000). Ele é casado com uma professora universitária, fato curioso, pois sabe-se que professores e policiais têm ao menos uma coisa importante em comum, já que ambos convivem com a decadência, os primeiros da capacidade de cognição das novas gerações, os últimos da moral pública praticada por quase todos atualmente. Brunetti também tem dois filhos adolescentes, mas eles pouco influenciaram a trama deste volume. O medo, ou antes, a ignorância sobre a AIDS, serve de chave para a solução de um dos problemas apresentados na história. Já o entendimento da engrenagem da corrupção institucionalizada e o uso da violência, nunca novidade para os italianos, ajuda a solucionar outro. As descrições da sociedade veneziana, o zêlo por seus segredos centenários e o cabotinismo da população parecem exemplificar muito daquilo que encontrei no bom guia histórico sobre Veneza, que li há tempos, assinado por Jan Morris. Donna Leon usa um artifício típico dos romances policiais clássicos, que é o de alternar a investigação sobre duas histórias, dois crimes, para no desfecho do livro fazer com que seu protagonista apresente a solução dos enigmas quase simultaneamente. Assim como nas histórias de Camilleri o comissário Brunetti tem em seus ajudantes personagens bem interessantes: uma secretaria  diligente, Elettra; um braço direito sempre pronto para o combate, Vianello; um médico-legista sarcástico, Bocchese; um promotor venal, Patta; um jornalista que o ajuda quando necessário. As duas histórias que se alternam tratam de drogas (o vício em heroína) e da corrupção que brota dos problemas financeiros dos indivíduos. É certo. Vou procurar mais livros desta senhora.
[início: 19/06/2017 - fim: 21/06/2017]
"Nada como ter amigos influentes (Brunetti #9)", Donna Leon, tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 13x21 cm., 261 págs., ISBN: 978-85-359-2915-7 [edição original: Friends in High Places (New York: Penguin Books) 2000]

domingo, 16 de abril de 2017

ninféias negras

Não lia um romance policial há meses. Em março, no dia de meu aniversário, ganhei de um casal amigo e querido, o Koff e a Fleig, esse "Ninfeias negras", de Michel Bussi. O entusiasmo deles me contagiou a princípio, mas a solução - ou antes, a proposta - que o autor escolheu para seu livro, não me agradou muito. Bussi faz uso de uma técnica há muito conhecida e explorada, a de iniciar sua história indicando que alguém dentre um pequeno grupo de personagens será a vítima ou o criminoso. O leitor é arrastado pelas regras de composição das histórias policiais (como Umberto Eco já nos ensinou) e apenas paramos de ler o livro quando somos apresentados a seu desfecho. Bussi compõe sua história em Giverny, santuário impressionista que Monet mandou construir e que tornou-se uma espécie de Meca das artes plásticas francesa, que atrai turistas sem fim há décadas para dentro de seus domínios, como uma diligente aranha arrasta presas a sua teia. O resultado final me pareceu frouxo, talvez por ser engenhoso demais. Aquilo que apreciamos no livro parece ser apenas um bom truque de composição. Não é possível que eu adiante aqui qualquer detalhe da trama do livro. Os leitores curiosos que se envolverão com a narrativa merecem tentar antecipar a descoberta de quem é vítima e quem é criminoso. Que cada um aproveite em paz seu naco de alegrias. Há outras cousas do Bussi por aí. Vamos a ver se me impressionam mais. 
[início: 26/03/2017 - fim: 28/03/2017]
"Ninfeias negras", Michel Bussi, tradução de Fernanda Abreu, São Paulo: editora Arqueiro, 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 352 págs., ISBN: 978-85-8041-632-9 [edição original: Nymphéas Noirs (Paris: Presses de la Cité) 2011]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

a pedido do embaixador

Desde meados dos anos 1970, quando comecei a ler com método e disciplina, nunca me preocupei muito com o gênero, extensão, idade ou nacionalidade dos livros que me caem às mãos. Claro, aprendi cedo (e foi com a Dorothy Parker) que há livros que ao invés de serem abandonados displicentemente na estante e esquecidos merecem sim ser jogados pela janela, com fúria. Neste "Livros que eu li" é raro que eu fale muito mal de algum livro, pois desde o momento em que decido continuar com a leitura e terminá-la, sei que há algo neles que pode ser registrado, por mais ruim que tenha sido a experiência. Não é o caso deste "A pedido do embaixador". Que livro absurdo.  Fernando Perdigão deve ter ficado algo intoxicado após assistir muitas séries policiais na televisão ou lido toda uma coleção de romances policiais e resolveu escrever o seu. Inventou um protagonista, um detetive ("incorrigível" diz ele, informação que o editor achou importante incluir na capa). Todavia, o que o leitor encontra no tal detetive Andrade é uma caricatura patética, um personagem sem nenhum vestígio de verossimilhança e que não se presta nem para fazer o leitor dar boas risadas do absurdo da coisa toda. O elenco de personagens coadjuvantes brota completo de um manual de fórmulas para o gênero: um aprendiz (no caso uma aprendiz, uma inspetora recém promovida); um chefe que despreza seu comandado; um informante com contatos tão decisivos quanto improváveis; uma empregada cínica que é boa cozinheira; uma namorada que é prostituta nas horas vagas. Tudo é previsível, a trama é repetida e resumida para o leitor várias vezes, mas é frouxa e mirabolante demais. O narrador arrasta o leitor por páginas sem fim apenas para dar oportunidade e palco para o detetive pontificar com seu rosário de comentários homofóbicos, racistas e misóginos, xenófobos e machistas; repetir piadas de duplo sentido; disparar ameaças em todas as direções; explicitar mil vezes seus preconceitos, intratabilidade, truculência e inadequação social. Acho as iniciativas e leis politicamente corretas uma marca negativa de nosso tempo, sobretudo no Brasil, onde qualquer tentativa de uniformização social está fadada ao fracasso. Paciência. O mundo real e o mundo dos livros estão repletos de lorpas, de pessoas grosseiras e irascíveis, selvagens ou abobalhadas, limitadas e patéticas com as quais é possível conviver, porém o que Fernando Perdigão criou é apenas um pastiche que serve para nos lembrar das muitas vantagens da boa educação. E é só por isso que registro seu livro aqui. Vamos em frente (afinal o Nabokov já nos ensinou que não devemos nunca levar personagens literários a sério).
[início: 30/06/2016 - fim: 18/07/2016]
"A pedido do embaixador: Um caso ordinário do incorrigível detetive Andrade", Fernando Perdigão, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 13,5x20,5 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-01-10479-3

quinta-feira, 7 de julho de 2016

una voz en la noche

Vigésimo-quarto livro da série Montalbano, "Una voz en la noche" garante bons momentos de leitura. Os truques de Andrea Camilleri são conhecidos: Montalbano sempre está as voltas com as trapalhadas linguísticas de Catarella; com o transtorno obsessivo de Fazio com os detalhes biográficos dos criminosos; com as delícias gastronômicas produzidas por Adelina ou Enzo; sempre faz uso da amizade com um jornalista ético para se contrapor aos planos de um jornalista canalha que trabalha para a máfia; sempre alimenta a tortura psicológica que é seu relacionamento à distância com Lívia; sempre faz uso de um elemento teatral ou onírico na trama. Todavia não é apenas a repetição dos métodos e situações que conquista a fidelidade do leitor. A inventividade das descrições, a complexidade da trama e a riqueza dos diálogos que ele cria dão relevo a uma literatura que, afinal, é produzida para entreter sem compromisso. Montalbano, no dia de seu aniversário, 58 anos, precisa resolver dois crimes aparentemente distintos: o assassinato da garota de um político importante e o suicídio de um comerciante. Montalbano é sobretudo um investigador, que sabe enxergar as camadas de verdade e mentiras nas histórias que ouve de suspeitos e vítimas, mas também é um sujeito que esquece, comete erros, sente o corpo e a mente cansados. A máfia operacionaliza um judiciário corrupto (que dá a alguns suspeitos um impenetrável foro privilegiado, nada com que um brasileiro já não esteja familiarizado), mata ou compra o silêncio das testemunhas. Entretanto não há problema ou dificuldade que seja obstáculo à determinação de Montalbano para solucionar o mistério dos dois crimes. Em uma curta nota no final Camilleri diz que esse texto foi produzido há muito tempo (a publicação original é de 2012) e que ele reconhece que algumas situações não se encaixam bem na cronologia dos eventos descritos nos livros anteriores de seu protagonista (a culpa é dos editores, sempre, ele avisa). Divertido, as usual.
[início: 23/06/2016 - fim: 25/06/2016]
"Una voz en la noche", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 221 págs., ISBN: 978-84-9838-744-5 [edição original: Una voce di notte (Palermo: Sellerio editore) 2012]

segunda-feira, 9 de maio de 2016

mistério no centro histórico

"Mistério no centro histórico" é um divertido romance policial. No "Crime na feira do livro", publicado pelo Tailor Diniz em 2010, acompanhamos os sucessos do investigador Walter Jacquet e de seu amigo Joãozinho Macedônio nas movimentadas semanas de uma feira do livro num outono porto-alegrense. Já no "O assassino usava batom", de 1997, Jacquet ainda vivia fora do Brasil e resolvia um rocambolesco causo em New Orleans. Neste novo volume o leitor segue Jacquet e Macedônio pelo centro histórico de Porto Alegre, como o título promete, mas oferece escapadas para o Alegrete, no centro do estado, e também mais para o sul, na fronteira com o Uruguai (cabe lembrar que o Tailor ambientou na fronteira dois outros romances, o "Em linha reta" e o "A superfície da sombra" mas essa é outra história). Cronologicamente, este novo volume dá conta de sucessos acontecidos logo após a volta de Walter Jacquet de seu exílio norte-americano e um tanto antes do "Crime na feira do livro". A história envolve especulação imobiliária, ambições e campanhas políticas, a presença de árabes na fronteira do estado e o medo do terrorismo pós queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, em 2001. Macedônio (desta vez bem mais lúbrico e vagabundo) usa um recente caso policial para produzir uma novela, mas Jacquet percebe que a solução do crime não está tão bem contada na versão policial (o livro dentro do livro é uma brincadeira do Tailor sobre as possibilidades da auto-ficção, no caso a auto-ficção de um personagem seu). Entre baforadas de puros, goles de conhaques, comentários irônicos da cozinheira Inácia e degustação de pratos da culinária campeira Jacquet usa a lógica e sua capacidade de dedução para desvendar a realidade dos fatos do crime e a verossimilhança da trama do livro de Macedônio. Bom romance policial, que tem o ritmo das melhores histórias do Andrea Camilleri. Vale.
[início: 03/05/2016 - fim: 04/05/2016]
"Mistério no centro histórico", Tailor Diniz, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-8318-075-3

terça-feira, 2 de junho de 2015

un filo de luz

Esse é o vigésimo-terceiro romance policial de Andrea Camilleri com as aventuras de seu personagem Salvo Montalbano. Don Andrea, que fará noventa anos em setembro, continua ativo, disciplinado, incansável, produzindo vários livros por ano. Claro, são romances ligeiros, para se ler numa viagem curta de ônibus ou numa tarde ensolarada de vagabundagem, mas são histórias honestas e bem escritas. Nem todos são protagonizados por seu eficiente comissário. Camilleri escreveu ultimamente também sobre teatro, música, política e cinema, publicou sobretudo contos históricos e textos curtos. "Un filo de luz" é de 2012. O início do livro é divertidíssimo. Camilleri usa seu velho truque de mesclar sonho e realidade. Quando Montalbano acorda e a trama do livro começa de verdade o leitor já está satisfeito, rindo de um sonho amalucado que, já sabemos, vai se encaixar no desenvolvimento da história, em alguma súbita percepção ou associação de idéias (Camilleri sabe dar estofo psicológico a seus personagens). São dois os problemas a serem resolvidos por Montalbano desta vez: um caso de contrabando de armas e um caso de contrabando de obras de arte. Camilleri faz Montalbano usar a lógica infernal de Simenon (e de seu comissário Maigret)  e controlar o humor ácido e o cinismo típicos de Manuel Vázquez Montalbán (e de seu detetive Pepe Carvalho). As reviravoltas e os acasos da vida também acontecem nas invenções, na literatura. Os diálogos são o ponto alto do romance (Camilleri deve muito a sua experiência com teatro e roteiros cinematográficos). Assim como no "La pista de arena" (de 2007) e "La sonrisa de Angelica" (de 2010), Montalbano trabalha, investiga, comanda como nunca, mas está emocionalmente dividido, apaixonado por alguém que não é sua Lívia, mulher com quem se relaciona há vinte e cinco anos. Mas o que surpreende no livro não é isso, mas sim o retorno de um garoto (agora crescido), personagem de um dos primeiros livros da série, "O ladrão de merendas", que é de 1996. Bom livro. Triste é saber que apenas no ano que vem haverá um outro Montalbano por aqui (Ah!, se eu soubesse ler em italiano as cousas seriam mais fáceis, é assolutamente vero!).
[início: 11/05/2015 - fim: 13/05/2015]
"Un filo de luz", Andrea Camilleri, tradução de Teresa Clavel Lledó, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-654-7 [edição original: Una lama di luce (Palermo: Sellerio editore) 2012]