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sábado, 14 de julho de 2018

mac y su contratiempo

Noutro dia falávamos, Marcio Renato dos Santos e eu, sobre Enrique Vila-Matas. Ele dizia que há leitores que o cultuam e há os que o detestam. Disse também que ele havia emprestado vários volumes de Vila-Matas para um jovem amigo que tinha ambição literária, mas que a abandonou (junto com os livros do Marcio, acontece). Já eu disse a ele que havia lido um livro de Vila-Matas ainda em dezembro e não sabia como registrá-lo aqui. Ainda acho que é o tipo de livro que nos encanta porém  também nos rechaça. Preferimos ficar com nossos entendimentos e incertezas mais que as compartilhar com os amigos ou demais leitores. Semana passada, lendo um conto de McEwan, que já registrei aqui, veio-me uma chave desse possível registro. Vila-Matas trata em "Mac y su contratiempo" da vaidade e da inveja, irmãs siamesas da literatura e dos escritores (esse era justamente o tema do conto de McEwan). Vila-Matas advoga também em seu livro que escrever ficção e inventar mundos é um método particular de loucura. Se para James Joyce seu leitor ideal era um insone que dedicasse toda sua vida a decifrar seus livros, para Enrique Vila-Matas o leitor ideal é um esquizofrênico, um sujeito incapaz de distinguir o quê é ou não real, um sujeito que seja capaz de entender um romance tanto ou mais que os narradores, tanto ou mais que o próprio autor. Parece sim ser esse o ensinamento que "Mac y su contratiempo" nos oferece. O leitor é apresentado a reconstrução de um  conjunto de contos (que são, na verdade, episódios ou fragmentos de histórias do próprio Enrique Vila-Matas publicadas no volume "Una casa para siempre", de 1988). Mac, um neófito barcelonês, senhor aposentado que aparentemente vive do dinheiro de sua mulher, Carmem, resolve reescrever um livro antigo e esquecido de um sujeito famoso de seu bairro, chamado Sánchez, um alter ego de Vila-Matas. Mac se metamorfoseia, deixa de ser apenas mais um louco de bar, aquele tipo de sujeito que gasta sua energia criativa e ideias bebendo em bares, e passa a ser o ativo escritor de um diário que se tornará uma nova versão de um livro já publicado, ou seja, se tornará um plagiador, um falsário, mas continuará anônimo. O livro é dividido em capitulos curtos, numerados, superpostos a dois tipos de inserções, denominadas "Puthoroscopo" e "&", esse último o registro dos sonhos amalucados do narrador, Mac, aquele registros ainda mais amalucados, onde se emula um método de Beckett para entender textos alheios (se é que entendi bem "Whoroscope" é o nome do primeiro livro de poemas de Beckett). Os personagens do livro frequentam os bares do Raval e parecem procurar um autor a disposição de fixá-los em uma ficção. Acompanhamos o transe quase tóxico da vida de Mac e dos demais personagens que, afinal, brotaram de um outro livro, aquele de Vila-Matas de 1988. Na primeira metade do livro o narrador resume o que entendeu de "Una casa para siempre" para a seguir reescrever essas histórias como se fossem suas. Ao final Mac parece esgotado, sonhador, viajando (apenas em sua mente talvez), saindo da mesa de seu bar, saindo de seu bairro, do Raval, e vendo-se em Lisboa, Marrocos, Túnez, oriente médio, como se fosse por fim um personagem dos contos das mil e uma noites. Acostumado ao vórtice de citações de Vila-Matas comecei de brincadeira a anotar os nomes que surgiam, como escolhos num rio. Parei na página 50 (das 300 do livro) quando já listava 25: de Barthes a Bowie, de Zambra a Gogol, de Duchamp a Benjamim, de Kubrick a Cervantes, de Diderot a Mallarmé, de Schweblin a Foster Wallace, de Dinensen a Hemingway, de Walser a Nietzsche, dentre outros tantos. É fácil se afogar no mar de referências cruzadas com que Vila-Matas povoa seus livros. Mas, afinal, do que se trata "Mac y su contratiempo"? Da vaidade? Do abismo que é a folha em branco? Do comprometimento que um sujeito tem que ter com sua vida antes de ter com seus projetos literários? Vai saber! Segue o baile. Vale!
Registro #1289 (romance #340) 
[início: 25/11/2017 - fim: 09/12/2018]
"Mac y su contratiempo", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2017), brochura 13,5x23 cm., 303 págs., ISBN: 978-84-322-2988-6

terça-feira, 10 de julho de 2018

augustus

Essa capa é ridícula, uma das mais feias que já vi, ganha até das cousas amalucadas da Martin Claret, mas a edição é caprichada e o texto, o livro em si, muito bom. John Williams é um autor que publicou pouco (quatro romances e dois livros de poesia), foi professor universitário e é ainda respeitado. "Augustus" foi seu último livro, publicado originalmente em 1972 e ganhou o prestigioso "National Book Awards" no ano seguinte. Trata-se de um romance epistolar, onde são apresentadas o que seriam cartas, diários e registros pessoais de vários personagens históricos que falam do primeiro dos grandes imperadores romanos, sobrinho e herdeiro de Júlio César, Caio Octávio, posteriormente divinizado como Augusto César. Ele governou Roma em seu apogeu, pelo maior período de tempo, mais de quarenta anos, e viveu sucessos sem conta. Williams divide seu romance em três grandes blocos. O primeiro vai do momento em que Júlio César decide adotá-lo e prepará-lo como sucessor (em 45 a.C.) até sua vitória sobre Marco Antônio e ascensão ao trono (em 32 a.C). O segundo bloco segue até 4 d.C, quando aos 66 anos envia para o exílio sua única filha, Júlia e escolhe como sucessor seu genro Tibério. O terceiro bloco continua até a morte de Augusto durante uma viagem em Capri, aos 76 anos, em 14 d.C. O Augusto reconstruído por Williams é um homem amargurado, que sempre confia em seu frio instinto de sobrevivência e em sua capacidade de compreender o caráter das pessoas que o cercam, mas que é capaz de idealizar e sonhar uma Roma menos corrupta, a acreditar na possibilidade de uma vida mais justa para todo o povo romano. Apesar de no livro dezenas de narradores terem a função de contar a história de Augusto o único que alcançamos compreender bem é ele mesmo. É um livro muito fácil de ler, o sujeito não precisa ser um especialista em história romana para acompanhar os sucessos da narrativa, a polifonia de vozes e personagens, a ascensão e queda dos amigos e inimigos do imperador, o desenvolvimento de seu caráter, de sua vida interior, do acúmulo de atos cruéis, por mais bem intencionados que fossem. "Augustus" lembra muito o ritmo de "A morte de Virgílio", de Hermann Broch, publicado em 1945, "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, de 1951 e também "Juliano", de Gore Vidal, que é de 1964, livros que li naqueles mágicos anos 1980, onde parecia haver tempo para se ler tudo o que era publicado, ai de mim! Bueno, terminei noutro dia "Stoner", o romance anterior de John Williams, publicado em 1964, portanto em breve haverá algum registro sobre ele aqui. Vale! 
Registro #1285 (romance #339) 
[início: 06/04/2018 - fim: 10/04/2018]
"Augustus", John Williams, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Rio de Janeiro: Editora Radio Londres, 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 378 págs., ISBN: 978-85-67861-23-4 [edição original: Augustus (New York: Viking Press / Penguin Random House Group) 1972]

sábado, 7 de julho de 2018

a filha perdida

Ainda nas férias de verão li esse "A filha perdida", de Elena Ferrante. Mas como, vagabundo, fiquei meses sem registrar minhas leituras, estou conseguindo apenas muito lentamente, aos poucos, organizar as cousas. Na verdade li no início do ano, simultaneamente, três livros de Elena Ferrante: de "Um amor incômodo" já falei aqui ainda em janeiro e de "Uma noite na praia", há poucos dias. Assim como no caso de "Um amor incômodo" em "A filha perdida" encontramos uma história que equilibra dois tipos de registro, um suficientemente lírico, leve e estival, contrastado a outro, amargo, denso e cruel. Uma professora universitária ainda jovem, com menos de cinquenta anos, divorciada já há muitos anos e com duas filhas já adultas e morando com o pai no exterior, decide tirar um mês de férias em uma praia do sul italiano, numa região em que ninguém a conhece. Nesse mês ela experimenta descobertas sobre si, e reflete sobre questões que de alguma maneira já a incomodavam: sua inadaptação para a maternidade; o porquê da tensão, nem sempre apenas sexual, entre homens e mulheres; o contraste gritante entre os italianos do norte e do sul; a rudeza dos napolitanos (que é sua ascendência, coisa que ela ou nega ou esconde); a rotina besta da vida universitária; as dificuldades de entender a linguagem e o comportamento das filhas; a oposição inconciliável entre cultura acadêmica e cultura popular; a impossibilidade de ser fiel simultaneamente a si mesma e aos outros. Por vários dias em que fica ao sol tentando ler algo na praia ela vê ao longe como um grupo familiar se comporta. Ela os crítica mentalmente, ri das confusões que eles provocam no ambiente, porém fica curiosa. Nesse grupo, de homens e mulheres jovens, crianças pequenas, idosos algo deslocados, chama a atenção da narradora uma jovem mãe, que cuida de uma menina que brinca com uma boneca de pano. Ela lembra de várias passagens de sua vida de casada, mãe com filhas pequenas, e contrasta sua experiência com aquilo que vê de longe. Apesar de ter aprendido com o Coetzee que pouco importa incluir ou não spoilers em um registro como esse, uma resenha de um livro bastante lido, não vou registrar aqui exatamente o que faz a narradora para se aproximar e tornar-se uma espécie de confidente daquela jovem mãe. De qualquer forma, após essa aproximação o leitor é apresentado a desdobramentos em série, como se a narradora nos tornasse detetives de sua vida, ou ao menos detetives que precisam desvendar aquele recorte de sua vida, aquela trama. Lembro de ter terminado o livro sentindo-me cúmplice da narradora, com aquele sentimento que experimentamos ao ouvir histórias amalucadas de um grande amigo ou de uma grande amiga. Sabemos serem íntimos demais e talvez algo romanceados, até o limite da invenção, mas sabemos também que não devemos contar aquilo para mais ninguém, não por ser o acaso daquela confidência um segredo valioso ou cousa que o valha, mas por ser o símbolo perene de uma especial cumplicidade e entendimento mútuo. Interessante mesmo. Vamos a ver o que essa curiosa e reclusa escritora irá produzir no futuro. Vale! 
Registro #1282 (romance #338)
[início: 17/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"A filha perdida)", Elena Ferrante, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-510-0032-8 [edição original: La Figlia Oscura (Roma: Edizioni e/o) 2006]

terça-feira, 3 de julho de 2018

aqui de dentro

"Aqui de dentro" é o penúltimo dos livros publicados de Sam Shepard, morto em meados de 2017. O livro foi publicado originalmente no início do ano passado, mas no final do ano, após sua morte, foi publicado o que é considerado seu réquiem autobiográfico, "Spy of the First Person". Um dia destes falo sobre ele aqui. Mas hoje vamos falar de "Aqui de dentro". São 56 registros curtos, mais ou menos autônomos, que vão completando aos poucos um mosaico complexo, um quebra-cabeças que não necessariamente precisa ser finalizado. Um narrador, que facilmente podemos pensar ser um alter ego de Sheppard, parece estar nas altas montanhas "Sangre de Cristo", no Novo México, não muito longe da fronteira com o México. Faz frio, o lugar é remoto, isolado, a solidão preenche o tempo livre de um sujeito/narrador que lembra do pai, de uma namorada do pai que acabou seduzindo-o  (e lhe trouxe prazer e aborrecimentos). Lembra de outras namoradas ou ex-mulheres, de seus filhos, de seu ofício de ator, da rotina e do medo. O relacionamento mal resolvido com seu pai e a ex-mulher do pai são contrastantes. Também  há ambiguidade no seu relacionamento com uma mulher que o visita, ex-mulher ou ex-namorada, com quem ainda e possível algum carinho e convivência pacífica. O sujeito é mesmo um ator o tempo todo, fala dos textos que deve ler e talvez produzir, a rotina das locações onde as filmagens são feitas, lugares e ambientes de vidas provisórias, de gente que aprende a ser nômade e se entranha de despojamento, de desapego. Quando criança ela imaginava poder ser golfista ou veterinário, como foi possível tornar-se ator? Ele fala da experiência com drogas (há uma passagem no livro envolvendo overdose e fuga que é bem bacana). Cada episódio ou registro termina e começa como no cinema clássico, com fade ins e fade outs, nos quais imagens desaparecem por completo, escurecendo a sala de cinema, antes que outras imagens voltem à tela. Uma garota aparece, tentando chantageá-lo. Sua velha caminhonete e seus cães parecer ser os únicos por quem ele tem algum carinho e respeito. O sujeito se embriaga e sonha, sonhos que parecem realistas demais, complicados demais. Sabe de uma amiga que cometeu suicídio, lamenta-se disto, pensa na morte e no amor. Passado e presente se fundem. E um crime precisa ser desvendado. O livro inclui uma apresentação de Patti Smith, multitalentosa artista americana que o conhecia muito bem. Romance algo teatral, que fala de sentimentos entranhados, que parecem precisar da experiência do leitor para serem devidamente escavados. Vale! 
Registro #1278 (romance #337)
[início: 19/02/2018 - fim: 21/02/2018]
"Aqui de dentro", Sam Sheppard, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-7448-286-6 [edição original: The One Inside (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2017]

quinta-feira, 21 de junho de 2018

brava serena

"Brava Serena" é o segundo romance de Eduardo Krause. Li dele o primeiro, o bom "Pasta senza vino", em 2015. Em "Brava Serena", contrariando aquela frase feita que nos ensina nunca retornar a um lugar onde um dia fomos felizes, Roberto Bevilacqua, um brasileiro aposentado, resolve emigrar para a Itália e lá viver seus últimos anos. Roberto é um escravo dos hábitos, de sua rotina de remédios e controle alimentar, subprodutos de uma vida dedicada a cálculos de risco, especialista em seguros que era. É um sujeito que teve uma única filha, Clara, de quem se distanciou irreversivelmente e que ficou viúvo e solitário ainda jovem. O leitor acompanha sua chegada a Roma, onde retoma aulas de italiano e rememora os dias em que viveu ali em sua viagem de núpcias. Krause organiza a narrativa do contraste entre a rigidez algo inusitada desse brasileiro setentão e a vivacidade da filha da proprietária da pensão onde ele passa a viver em Roma, a Serena do título do livro. Serena é uma jovem italiana cuja alegria de viver, hedonismo e vitalidade transbordam por todo o livro. Vários temas são explorados por Krause: diferenças entre gerações, questões de gênero, estereótipos culturais, cinema e entretenimento popular, dificuldades de comunicação, memória e afeto, amor e morte. Trata-se de um livro leve, contido até, fruto de um olhar otimista sobre o envelhecimento,  da expectativa que temos do futuro e do entendimento prático que podemos ter da passagem do tempo sobre nós mesmos. Em algum momento da leitura senti falta de um tom mais trágico na existência daqueles personagens, algo mais próximo ao clima do neorrealismo italiano. Imaginei que algo verdadeiramente infausto pudesse tornar os personagens mais humanos, mais críveis. Mas ao final aceitei a proposta do Krause, que, invertendo o aforismo de Tolstoy, faz de seus personagens felizes cada um a sua maneira e talvez só essas particulares felicidades seja aquilo mesmo que cada um de nós merece ambicionar, esperar, receber, da vida. Belo romance. Viva Krause. E já espero o próximo volume de teu "il trittico". Vale!
Registro #1270 (romance #336) 
[início: 18/05/2018 - fim: 04/06/2018]
"Brava Serena", Eduardo Krause, Porto Alegre: Não Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-61249-65-6

sexta-feira, 15 de junho de 2018

inquérito policial família tobias

Não havia me interessado em ler esse volume de Ricardo Lísias quando foi lançado, com certo e calculado alarde, em 2016. Entretanto Helga, senhora dos livros arte, das gravuras e das colagens, encontrou-o na Feira de arte gráfica ReTina, no início de junho e acabei lendo. Trata-se de um jogo metaliterário, uma proposta de discussão sobre os limites entre ficção e realidade. Na verdade esse volume (na falta de uma palavra melhor para descrever o apanhado de folhas e plaquetes reunidas em uma pasta arquivo) é o subproduto de uma série de cinco e-books que Lísias publicou de forma seriada desde setembro de 2014. Nos e-books se conta a história de um escritor chamado Ricardo Lísias e da subsequente investigação capitaneada por um sujeito/personagem dito Delegado Tobias. No jogo proposto por Lísias uma camada de ficção soma-se a primeira, a partir do momento em que ele inventa que um Delegado Tobias real o teria denunciado ao Ministério Público Federal, instando a procuradoria a conduzir uma investigação de eventual falsificação de documentos públicos. Tudo falso, obviamente, mas a coisa é escrita com o intuito de deixar o leitor sempre em dúvida sobre o que eventualmente poderia ser real ou ficcional. Dezenas de jornalistas e/ou críticos literários e/ou blogueiros de plantão parecem ter voluntariamente se unido a Lísias na divulgação de que a Polícia Federal real o teria intimado, numa crítica explícita aos vagos critérios utilizados pela polícia para gastar recursos e tempo, enfim, dando eco a crítica generalizada das fragilidades de todo sistema judicial brasileiro. Paciência. O que importa aqui é que como peça de ficção esse "Inquérito policial família Tobias" é fraco, para dizer o mínimo, já que o volume nada mais é de que uma coleção de desastradas histórias familiares dos Tobias, gente incapaz de entender adequadamente a realidade, e que eventualmente morrem ou fracassam em função desta inabilidade. A brincadeira sobre se foi real ou não a tal denúncia e consequente inquérito do autor Lísias é frouxa demais. Vivemos em um país onde tudo que pode ser bizarro e inusitado prospera, alcança a categoria de insultos generalizados à inteligência, visto que se sabe que somente aqui é possível que criminosos condenados imaginem ser candidatos a presidência da república, que criminosos condenados continuem a legislar no parlamento federal, voltando ao cárcere após o expediente, que investigados de toda a sorte de crimes se apresentem como candidatos a cargos públicos sendo alegremente apoiados por legiões de escravos mentais e indigentes morais, de todos os estratos sociais. Enfim, Lísias só é um escritor cabotino demais, um escritor que deve imaginar que todos seus eventuais leitores são completos idiotas, é alguém incapaz de escrever algo que realmente empolgue e pague o tempo investido por seus leitores. Paciência. A vida é breve, o tempo de leitura curto. Vamos em frente. Nem como livro arte essa joça parece interessaante. Vale! 
Registro #1265 (romance #335)
[início: 07/06/2018 - fim: 09/06/2018]
"Inquérito policial família Tobias", Ricardo Lísias, São Paulo: Editora Lote 42, 1a. edição (2016), pasta com ferragem de garras 22,5x30 cm., 116 págs., ISBN: 978-85-66740-18-9

quarta-feira, 13 de junho de 2018

karen

Ana Teresa Pereira é uma escritora portuguesa experiente (publicou dezenas de livros desde 1989). É também uma escritora respeitada e premiada. Seu romance mais recente, "Karen", recebeu o prêmio Oceanos do ano passado. Publicado originalmente em 2016 ganhou esse ano uma versão brasileira, editado pela Todavia. É um romance psicológico, minimalista, um quebra cabeças sem solução explícita. É de fato muito bem escrito, em capítulos curtos, num clima de contos de fada, de fantasia, do vivido por alguém permanentemente intoxicado, de cinema de mistério. O leitor acompanha o desconcerto de uma mulher que acorda em uma casa do interior inglês, é identificada e reconhecida como sendo Karen, senhora de um casarão decrépito, mulher de um sujeito enigmático e recluso, e que é servida por duas mulheres, uma velha governanta e uma jovem de uma aldeia próxima, que faz a limpeza da casa. Todavia, ela desconhece essa realidade, tem consciência de não ser e não reconhecer uma mulher chamada Karen, muito embora tenha afinidade com o gosto estético por livros, cinema e galerias de arte reputado a ela. Não é o tipo de livro sobre o qual gostaríamos que alguém contasse o final, apesar de que pode-se imaginar várias possibilidades narrativas para explicar esse final. Assim como em nossas jornadas e escolhas pessoais, que são intransferíveis, a solução do enigma vivido por Karen só pode ser alcançada por ela mesma. Somente alguém perverso, que tenha prazer no sofrimento alheio, poderia dar continuidade a crise de identidade vivida por ela, mas quem sabe ser mais perverso e cruel que nós mesmos, limitados homo sapiens, que aprendemos a nos controlar, vigiar e punir. Os demais personagens, o narrador e até nós leitores, pouco saberão sobre a natureza e as justificativas para a imersão na escuridão e na intimidade que Karen vivencia (e que se não tem retorno, pois parece ser cíclica, permite um contínuo exercício intelectual, de auto investigação, até de aprimoramento). Interessante. Talvez seja o caso de conhecer outras narrativas dessa prolífica portuguesa. Vale! 
Registro #1263 (romance #334) 
[início: 13/02/2018 - fim: 15/02/2018]
"Karen", Ana Teresa Pereira, São Paulo:Todavia livros, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-93828-44-7 [edição original: Karen (Lisboa:Relógio D'Água editores) 2016]

segunda-feira, 11 de junho de 2018

la mujer de martin guerre

Publicado originalmente em 1941, "La mujer de Martin Guerre" é um romance histórico, não de sucessos icônicos, transformadores ou chaves da história da humanidade, mas inspirado num processo judicial bizarro que aconteceu no interior da França, em meados do século XVI. A história é mesmo curiosa, sendo que esse livro de Janet Lewis é apenas uma de suas muitas versões ficcionais, tanto literárias (de Alexandre Dumas, Honore de Balzac e Javier Marías, para apenas citar três) quanto cinematográficas. O texto original que inspirou esses autores foi publicado em 1561 por Jean de Coras, juiz da região de Toulouse, na Occitânia francesa. Duas das famílias que dominavam economicamente um vale afastado das rotas importantes dos Pirineus franceses resolvem uma antiga contenda fazendo casarem-se seus dois jovens herdeiros, nem pré-adolescentes ainda, Martin e Bertrande, crianças de pouco mais de onze anos. Quando completam quatorze as crianças consumam seu casamento e passam a morar juntas na propriedade dos pais de Martin, em Artigue, mas só oito anos depois deles nasce um filho, Sanxi. Logo depois, por conta de uma desavença com seu pai, Martin resolve viajar até um vilarejo próximo para comprar sementes e promete a mulher retornar em uma semana, mas isto não acontece. Ele fica ausente por quase oito anos e  é tido como morto, mas retorna, alquebrado e envelhecido, a seu vilarejo, reclamando seus direitos, como pai, marido e senhor das terras de seus pais, já mortos. Apesar de um estranhamento inicial Bertrande o aceita como seu desaparecido marido, retoma a rotina dos negócios da família e chega a ter uma filha com ele, pouco mais de um ano depois. Todavia esse revivido Martin é acusado por um tio de Bertrande de ser um impostor e é levado a julgamento, primeiro em Riex e logo, numa complexa apelação, em Tolouse. E nada mais conto da trama. O livro de Lewis é curto, escrito em uma linguagem direta, objetiva, restrita a fatos, como num relatório ou peça judicial, mas é rica em insinuações, provocações e reviravolta narrativas, digressões e reflexões sobre preceitos morais e éticos. O leitor acompanha como num transe o processo de investigação da identidade de Martin e os interesses cruzados no caso (que não apenas são econômicos, mas também religiosos, pois na época em que se passa a historia a França está dividida entre a fé católica e os prosélitos do protestantismo, lá e  naquela época conhecidos por Huguenotes). É um livro que se deixa ler com genuíno prazer, interessante mesmo. É sim um digno volume da editora Reino de Redonda, invenção genial de Javier Marías. Vale!
Registro #1261 (romance #333) 
[início: 08/03/2018 - fim: 11/03/2018]
"La mujer de Martin Guerre", Janet Lewis, tradução de Antonio Iriarte, prólogo de Manuel Rodríguez Rivero, Madrid: Reino de Redonda (1a. edição) 2016, capa-dura 14,5x23 cm., 180 págs., ISBN: 978-84-936887-8-3 [edição original: The Wife of Martin Guerre (San Francisco: Colt Press) 1941]

domingo, 28 de janeiro de 2018

a cidade de ulisses

Teolinda Gersão apresenta em "A cidade de Ulisses" uma história curiosa, que fala do amor, do companheirismo, da amizade e da cumplicidade que por vezes, mas não com frequência e certamente não para sempre, só por algum tempo, um casal pode alcançar. Para contar essa história de amor Teolinda canta a história de Ulisses e a história de Lisboa, as errâncias da vida de um sujeito (Pedro Vaz, o protagonista de sua história) se confundem com as errâncias de Ulisses em sua odisseia, de sua volta à Ítaca. O livro trata dos caminhos serpeantes de nossas vidas, das escolhas, azares, sucessos, das surpresas, boas e más, de como associamos nossa vida às cidades em  que vivemos, como se essas cidades fossem indivíduos, não lugares. Pedro Vaz, artista plástico respeitado, é convidado para produzir algo sobre Lisboa para uma exposição. Ao pensar em sua proposta ele lembra de um antigo projeto, que foi engendrado há muitos anos, nos tempos em que vivia com Cecília Branco, como ele, também uma artista plástica promissora. A partir desse ponto a narrativa se desdobra em reflexões muito interessantes sobre a história portuguesa, desde as variadas mitologias de sua fundação até as circunstâncias do refluxo migratório das pessoas que nasceram em países anteriormente colonizados por Portugal, de sua presença periférica na comunidade europeia. Narra-se também algo das biografias de Pedro e Cecília (que na prática funciona como um registro panorâmico sobre da sociedade portuguesa do último quarto do século passado). Fala-se das circunstâncias do encontro e separação entre eles; da contínua educação sentimental que experimentamos ao longo da vida; de como, nas separações, de alguma forma é necessário um fechamento adequado, após o quase luto da perda e do rancor. Belo livro. Vou procurar algo mais dessa curiosa e respeitadíssima escritora (que já havia sido indicada por um amigo de longe, lá do Porto, mas, ai de mim, de quem esqueci-me completamente até ver o livro com o nome dela exposto). Vale! 
Registro #1257 (romance #332)
[início: 13/01/2018 - fim: 20/01/2018]
"A cidade de Ulisses", Teolinda Gersão, Rio de Janeiro: Editora Oficina Raquel, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 254 págs., ISBN: 978-85-9500-011-7 [edição original: A cidade de Ulisses (Porto: Sextante Editora) 2011]

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

um amor incômodo

Nos meses em que me dedicava a ler a tetralogia napolitana de Elena Ferrante ("A amiga genial", "História do novo sobrenome", "História de quem foge e de quem fica" e "História da menina perdida"), comprei também outros livros dela, mas com os aborrecimentos do ano passado os esqueci em algum canto. Recentemente, no início desse 2018, os reencontrei. "Um amor incômodo" foi o livro de estreia de Ferrante, lançado em 1992 e ganhou imediata boa recepção (somada a curiosidade sobre a identidade sempre velada da autora). Trata-se de uma história muito especial, sofisticada e tocante, ao mesmo tempo cruel, trágica (na medida em que qualquer aventura humana tem sua cota de comédia e tragédia, de alegrias e descontentamentos). Assim como a protagonista da história o leitor acaba por refletir muito sobre si e suas próprias escolhas, conduzido pela trama. Imaginação e memória, velhas irmãs siamesas, parecem se fundir na narrativa. Delia, uma ilustradora de livros infantis de quarenta e poucos anos, conta algo dos desdobramentos da morte de sua mãe, Amália, que afogou-se quando estava em trânsito, com o objetivo de visitá-la (a mãe vivia no sul italiano, Délia em Roma). Ela refaz e tenta descobrir algo sobre os últimos dias da mãe, como se fosse a detetive de um romance policial, mas também se descobre, rememora sua história de família, à medida que uma série de epifanias se acumulam. Cada vez que conto algo da trama do livro para alguém enfatizo um aspecto diferente: ou os momentos que lembram os afloramentos de memória involuntária proustiana, ou os momentos chave da infância e da vida familiar psicologicamente sublimados, ou o registro dos diferentes estados emocionais por meio da linguagem, dos dialetos. Enquanto lia o livro lembrava-me ora em como Ferrante explora a experiência do sonho, similar a de Arthur Schnitzler, ora em como, à exemplo de Proust, naquela cena memorável na biblioteca da Princesa de Guermantes, faz sua protagonista experimentar uma cascata de associações e lembranças, que a intoxicam. Livro muito interessante. Vamos a ver se um dia reencontro a quase vovó Cíntia Pasa e, como fizemos com os volumes da tetralogia, conversamos também sobre esse "Um amor incômodo". Vale! 
Registro #1255 (romance #331)
[início: 03/01/2018 - fim: 04/01/2018]
"Um amor incômodo)", Elena Ferrante, tradução de Marcelo Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 174 págs., ISBN: 978-85-510-0137-0 [edição original: L'amore molesto (Roma: Edizioni e/o) 1992]

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

roupas sujas

Leonardo Brasiliense é um sujeito que conhece bem seu ofício e não repete fórmulas que já deram certo. Já publicou novelas curtas, contos, histórias dirigidas ao público infantojuvenil, mini-contos. Cada novo livro dele oferece ao leitor algo que realmente surpreende. Neste "Roupas sujas" encontramos uma história compacta, que alcança fixar em tons quase líricos algo de terrível, triste, de vidas que parecem já fadadas à destruição, maculadas de tal forma que punições e tragédias serão repartidas por todos os descendentes de alguém que comete um ato vil (os ecos gregos dessa história são sutis, porém inequívocos). A trama se passa no interior do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século passado. A morte de uma mulher ao dar a luz de seu filho caçula, Pedro, provoca rearranjos na estrutura familiar de um grupo de agricultores bastante modestos, que passam por dificuldades e contam com o clima e a sorte para prosperar. Os sete filhos órfãos (de Geni, já com vinte anos anos, a Antônio, com oito) assumem responsabilidades que estão acima de suas capacidades, todos se esforçam para fugir de um modo de vida estagnado, tóxico, todos parecem não saber exatamente o que devem fazer para de fato ajudarem uns aos outros. O pai é um estorvo, alguém incapaz de se reinventar após a morte da mulher, alguém que engendra suas próprias Erínias. A história é contada pelos três irmãos mais novos (Antônio, no tempo presente da trama, com os olhos de criança - como Henry James já nos ensinou; Valentina, após vinte e cinco anos dos sucessos vividos pelos irmãos, já com sua cota de aborrecimentos pessoais e brevemente por Pedro, o caçula, quando já bem velho, já tendo sublimado o que ele entende como sua culpa, ter nascido ao mesmo tempo que sua mãe morre). "Roupas sujas" é um romance que convence. É curto, deixa-se ler rapidamente, mas as reflexões dos narradores acompanham o leitor por dias. Interessante mesmo. Leonardo sabe falar sobre sentimentos, estranhamentos, escolhas, coisas que normalmente evitamos fazer, como, por exemplo, quando temos notícia de uma desgraça pessoal ou familiar alheia às nossas, e não sabendo como tragar aquilo tudo, sacudimos a cabeça tentando espantar o mal estar, o desconforto. Ele alcança nos fazer tomar todo o cálice de dor de seus personagens. O gosto é amargo, mas nele há alguma sabedoria. Vale! 
Registro #1253 (romance #330)
[início: 03/12/2017 - fim: 04/12/2017]
"Roupas sujas", Leonardo Brasiliense, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhias das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-359-2999-7

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

falcó

Primeiro volume de uma prometida série, "Falcó" garante momentos de diversão descompromissada para o leitor curioso sobre a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte é um mestre na arte de escrever já pensando em uma possível adaptação cinematográfica. Claro, ele abusa sem dó dos clichês de livros de espionagem, do cinema noir, dos romances de aventuras e mistério, onde homens duros flertam com mulheres fatais, mas sabe povoar seu livro com um bom conjunto de protagonistas, produz diálogos inteligentes e controla o desenvolvimento das ações de seu folhetim até levá-lo a um insuspeitado final (a coisa não fica longe de ser caricata, mas quem se importa, se acabamos nos divertindo e aproveitando os truques narrativos que ele distribui pelo livro). Lorenzo Falcó é uma espécie de contraponto cínico ao heroico e valoroso Capitão Alatriste, personagem já consagrado de Pérez-Reverte. Reconhecido especialista em termos militares, Pérez-Reverte identifica sempre que possivel os modelos das armas, os tipos de granada e morteiros, caminhões de transporte, navios e indumentária utilizada pelos personagens. Falcó, um ex-contrabandista de armas, é um agente dos nacionalistas, grupo daquele que viria a tornar-se o ditador da Espanha por trinta e cinco anos, Francisco Franco. Acostumado a infiltrar-se nas linhas inimigas, a dos republicanos, ele sabe torturar e aguentar tortura, matar e escapar da morte. A trama envolve um possivel resgate de José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, grupo que apóia Franco, mas é um tanto mais radical, à direita, e está preso em Alicante. O livro é curto. Lê-se facilmente em poucas horas. O leitor não precisa saber detalhes da guerra civil espanhola para acompanhar a narrativa. Soube que há pouco mais de um mês Pérez-Reverte lançou o segundo volume da série, "Eva", onde reecontraremos Falcó em mais aventuras. Dificil dizer se esse personagem cairá no gosto do grande público, a exemplo de Alatristre. A Espanha é um país em que as marcas das divisões ideológicas daquela época ainda são visíveis e reepercutem na política contemporânea. Nem só de hipocrisia vive uma sociedade (sabemos bem nós, brasileiros, aferrados hipocritamente até a morte às nossas mazelas, narrativas históricas tortas e tontas, mentiras públicas, vícios privados, auto-enganos e ilusões coroadas). Arre. Vamos em frente. Vale!
Registro #1247 (romances #329)
[início: 23/11/2017 - fim: 25/11/2017]
"Falcó", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2016), capa-dura 16x24,5 cm., 294 págs., ISBN: 978-84-204-1968-8

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

a coleção privada de acácio nobre

"A coleção privada de Acácio Nobre" nasceu como peça de teatro, encenada em Lisboa, em 2010 (um trecho da peça pode ser visto aqui: clica!). Patrícia Portela, cenógrafa de formação, assinava sua criação e direção. Recentemente, a exemplo do que fez com outras peças suas, ela transformou aquele roteiro em um romance, publicado, quase simultaneamente, pela lisboeta Caminho, em 2016, e pela porto-alegrense Dublinense, em 2017. Cabe registrar o bom trabalho que nos últimos anos a Dublinense tem feito ao dedicar-se pela publicação de outros dois autores portugueses: José Luis Peixoto e Gonçalo Tavares. Como bem registra Reginaldo Pujol Filho nas orelhas do livro trata-se de um jogo, em que autora brinca com a ideia de ter achado um baú repleto de guardados de um sujeito excêntrico, supostamente multitalentoso, uma espécie de gênio da raça português hoje completamente esquecido, nascido em Lisboa na segunda metade do século XIX e que teria vivido mais de cem anos. Esse tipo de jogo criativo lembrou-me algo dos livros de Enrique Vila-Matas, sobretudo os mais antigos e experimentais, como "Historia abrevida de la literatura portátil", "París no se acaba nunca", "Una casa para siempre", por exemplo. A criação de Patrícia Portela elenca parte dos objetos encontrados no baú, transcreve algumas cartas, reproduz fotografias de objetos, desenhos, esquemas de quebra-cabeças. O romance reproduz também a transcrição de algumas entrevistas que a narradora/autora teria feito com uma musa inspiradora de Acácio, uma mulher chamada Alma. A proposta é curiosa. A ideia de que tudo o que um autor diga que seja verdade é absolutamente verdadeiro entre capa e contracapa de um livro, certamente válida. Entretanto o resultado me parece aquém desta ambição. Talvez, a exemplo de um outro livro que li recentemente, "Laços", de Domenico Starnone, o efeito produzido em um teatro seja mais impactante e eficiente que aquele que se alcança por meio das palavras, num livro. Enfim, nem todo mundo precisa gostar dos mesmo jogos. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1243 (romance #328)
[início: 08/11/2017 - fim: 10/11/2017]
"A coleção privada de Acácio Nobre", Patrícia Portela, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2017), brochura 13x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-8318-099-9 [edição original: A colecção privada de Acácio Nobre (Lisboa: Editorial Caminho / Grupo Leya) 2016]

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

laços

"Laços", de Domenico Starnone, parece brotar daquele aforismo - hoje um belo clichê, convenhamos - de Tolstói no Anna Kariênina: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". O leitor acompanha alguns episódios da vida de um casal italiano na segunda metade do século XX. Vanda e Aldo, ambos com vinte e poucos anos, casam-se nos inicio dos anos 1960. Após doze anos de casamento e dois filhos, Aldo tem um caso com uma mulher mais jovem e abandona a família. A primeira parte do livro, curta, reúne a série de cartas que por quatro anos Vanda envia a Aldo cobrando dele justificativas ou explicações (ilustrando um outro aforismo, agora do dramaturgo inglês William Congreve: ...nor hell a fury, like a woman scorned, ou seja, "não existe no inferno fúria comparável a de uma mulher desprezada"). Starnone poderia continuar sua história usando o artifício das cartas, mas antes que o leitor se aborreça (e inevitavelmente se aborreceria) ele nos leva a Itália contemporânea, já no início dos anos 2010. Vanda e Aldo são já septuagenários, se preparam para uns dias de férias de verão na praia. Como e porque eles voltaram a viver juntos o leitor só saberá depois de umas cinquenta páginas, muito embora já no final da primeira parte o leitor já imagina que o livro trata do destino desse casal que se separa. Nessa segunda parte acompanhamos a versão retrospectiva de Aldo, agora comentador daqueles fatos relatados nas cartas de Vanda. Todavia alguém já casado há cinquenta anos tem demasiadas camadas de memória para alcançar exatidão e validade nelas (falar sobre si mesmo sempre é inventar memórias e narrativas críveis). O livro é curto demais para que eu possa descrevê-lo mais sem roubar do leitor a descoberta dos mistérios contidos nele. "Laços" é bem escrito, a trama engenhosa e tem lá seu charme, mas nele, ao contrário da vida, tudo parece bem explicado demais, quase justificado, ou, ao menos, os personagens parecem se satisfazer com as explicações detalhadas que imaginam para seus atos. Talvez funcione melhor num palco, numa peça de teatro, onde tudo fica mais velado. Nunca havia lido nada de Starnone. Descobri que ele é bastante respeitado, já publicou mais de vinte romances, escreve roteiros para o cinema e televisão, foi professor, escreve regularmente em jornais italianos. Curioso. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1238 (romance #327) 
[início: 31/10/2017 - fim: 01/11/2017]
"Laços", Domenico Starnone, tradução de Maurício Dantas Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 144 págs. ISBN: 978-84-93828-08-9 [edição original: Lacci (Torino: Giulio Eunaudi Editore / Gruppo Mondadori) 2014]

sábado, 30 de setembro de 2017

berta isla

É pouco provável que seja verdade, mas nos acostumamos a identificar em um homem, Homero, o autor de duas das maiores criações da espécie humana, que são os poemas épicos que chamamos Ilíada e Odisseia. Se no primeiro poema se canta a ira de Aquiles, um breve episódio da longa guerra entre gregos e troianos, no segundo se conta as aventuras de Ulisses/Odisseu em sua longa jornada de volta à Ítaca. Pois ao terminar esse notável "Berta Isla", livro mais recente de Javier Marías, senti-me como um efebo grego do século VIII antes do inicio desta nossa era (in)comum, que ao redor de uma fogueira, após terminada a frugal refeição do cair da noite, pede a um velho aedo que conte uma vez mais os sucessos daqueles heróis que alternavam batalhas sangrentas com holocaustos e libações aos deuses. Javier Marías, venerável aedo contemporâneo nosso, com seu engenho inventou um novo portento, tão bom e instigante quanto seu "Tu rostro mañana", de forma que para mim "Berta Isla" está para a Odisseia como Tu rostro mañana está para a Ilíada. Vamos a ver. "Berta Isla" é longo, quase 550 páginas, dividido em dez cantos/capítulos, ora narrados por um observador onisciente, em terceira pessoa, ora pela heroína da historia, Berta, em primeira pessoa. O que o leitor encontra no livro são as lembranças de Berta (lembranças contemporâneas, de 2016, 2017), sobre as circunstâncias de como conheceu nos anos 1960 um rapaz, Tomás Nevinson, casou-se e teve um casal de filhos com ele, nos anos 1970, e ficou treze anos, de 1982 a 1994, sem ter a certeza se esse seu marido estava morto ou vivo. Trata-se, como o próprio Marías diz em um teaser, da história de uma espera, uma espera como a de Penélope na Odisseia. Tomás (ou Thomas ou Tom) é daquela estirpe de protagonistas de Marías que tem um especial talento para línguas, para imitação de acentos e comportamentos, posturas, para interpretar rapidamente o caráter de seus interlocutores (como Jaime Deza em Tu rostro mañana ou narrador sem nome de Todas as almas, entre tantos outros). Após conhecer Berta em um colégio interno na Madrid franquista, na segunda metade dos anos 1960, Tomás, filho de uma espanhola com um cidadão inglês, viaja para a Inglaterra para seus estudos universitários, onde acaba conhecendo Peter Wheeler (o grande hispanista, professor de Oxford, que já conhecemos de Tu rostro mañana) e, por um desvio do destino, que define todo o livro, o diabólico Bertram Tupra, também personagem daquele livro e que talvez seja mesmo o alter ego ideal de Javier Marías (sempre imagino Marías dizendo para mim don't linger or delay, toda vez que postergo uma tarefa ou decisão). Ao voltar para Madrid e casar-se Tomás assume um posto importante na embaixada inglesa, mas suas viagens recorrentes e ausências logo fazem Berta entender que seu marido atua não em tarefas burocráticas, mas em algo relacionado a espionagem, ligado ao serviço secreto inglês. Não me atrevo a descrever mais detalhadamente o livro, pois estaria roubando do leitor o prazer de uma miríade de descobertas. Não se trata de um romance de época, onde se fala da sociedade espanhola ou europeia dos anos 1970, 1980 ou 1990, que retrate panoramicamente estes anos, o ambiente e acontecimentos destes anos. Todavia, ao acompanharmos as reflexões e digressões de Marías, aprendemos algo sobre como o destino dos indivíduos é aleatório e único, como é impossível que uma acepção simples, como "anos 1980", por exemplo, identifique algo que seja válido para não mais do que apenas um punhado de pessoas que viveram naquela época ou estudaram detalhadamente sobre aqueles tempos. Enfim, mesmo a lembrança dos fatos que vivemos é construída. Talvez eu volte a esse registro e escreva mais. Escreva sobre Little Gidding, poema de Eliot, tão presente no romance; sobre as metamorfoses de Tomás Nevinson; sobre o caráter de Tupra; sobre como Lord Wheeler lembra as Moiras gregas; sobre Eric Southworth, amigo real de Marías, inserido no livro, como já vimos Marias fazer com Francisco Rico em "Los enamoramientos"; sobre o papel do cinema na imaginação de Marías; sobre uma passagem retirada do Henry V, de Shakespeare; sobre a figura dos fantasmas; sobre a manipulação, de indivíduos e de toda a sociedade, em todos os tempos; sobre o fato de também Ulisses ter ido a guerra de Tróia por força de um ardil; sobre a força da frase: "Desde cuándo la gente ha elegido sus vidas?"; sobre os livros que há em Berta Ilsa (há uma boa compilação deles no Librotea); e sobre tantas outras coisas. Mas não consigo fazer isso agora. Paciência. Preciso e vou reler o livro. Não consegui conter-me e o li quase de um fôlego só, um longo fôlego de quatro dias. Marías terminou de escrever "Berta Isla" em abril deste ano, o livro foi impresso em agosto e lançado oficialmente no 02 deste setembro que hoje termina. Recebi o livro na manhã do dia 10 (não pelo inútil serviço dos correios brasileiros, claro, mas pela DHL, graças aos esforços da Casa del Libro espanhola), comecei a ler naquele dia mesmo e terminei na quarta-feira, dia 13. Que dias felizes! Termino de escrever esse registro hoje, 30 de setembro, véspera do plebiscito que poderá definir a independência da Catalunya e uns poucos dias antes do anúncio do prêmio Nobel de literatura (e eu sempre aposto no Marías, claro). Evoé Marías, evoé!
Registro #1218 (romance #326)
[início: 10/09/2017 - fim: 13/09/2017]
"Berta Isla", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2017), brochura 15x24 cm, 544 págs. ISBN: 978-84-204-2736-2

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

múltipla escolha

"Múltipla escolha" é uma espécie de acerto de contas de Alejandro Zambra com o Chile de sua infância e juventude, aquele da ditadura de Augusto Pinochet). Vou classificá-lo aqui como romance na falta de uma definição melhor. É um livro totalmente dispensável, que não vale o esforço de ser lido, nem os trinta e poucos dinheiros que se paga por ele. Lixo puro. Há um jogo irônico entre seu livro e a prova de aptidão verbal chilena, modelo de seleção utilizado para ascensão ao ensino superior de lá, entre 1966 e 2002. Tratava-se de um conjunto de testes de múltipla escolha, progressivamente mais longos e complexos (e ambíguos, e irrelevantes, e amalucados). Mas essa ironia, que explicita a estupidez e mediocridade do governo que patrocinava tal processo seletivo, esgota-se logo no primeiro conjunto de testes. O leitor entende o bizarro da coisa e fica a perguntar-se se não há ao alcance da mão um outro livro para dedicar-se a ler. Claro, Zambra não reutiliza os testes reais das provas, ele cria enunciados, conjuntos de asserções, argumentos, silogismos e pequenos contos, onde se fala algo do Chile daquela época (e certamente também sobre o Chile contemporâneo), mas aquilo que resta a ser decifrado no livro não me convenceu nem um pouco. Paciência. Seu livro anterior, de contos, "mis documentos", que é de 2014, já tinha me aborrecido um pouco; seu segundo  romance "la vida privada de los árboles", de 2007, era um tédio só; "bonsai", de 2006 e "formas de volver a casa" de 2011, defendem-se bem, mas não são nenhum portento. O livro dele que mais me interessou foi "no leer", de 2012, ensaios poderosos sobre literatura e arte, talvez essa seja mesmo sua boa vocação. Vou esperar um bocado antes de procurar alguma coisa nova dele. E segue o baile, a "Múltipla escolha" só resta ser esquecido em alguma esquina, para que tenha melhor sorte com um outro leitor, um leitor mais generoso do que eu posso ser.
Registro #1208 (romance #325)
[início: 22/07/2017 - fim: 01/08/2017]
"Múltipla escolha", Alejandro Zambra, tradução de Miguel Del Castillo, São Paulo: Editora Planeta, 1a. edição (2017), brochura 15x22,5 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-422-0829-0 [edição original: Facsímil (Ñuñoa/Santiago/Chile: Editorial Hueders) 2015]

domingo, 20 de agosto de 2017

fraturas de relações amorosas

Acho que foi o Weaver Lima quem me falou do Cláudio Portella, mas não estou certo. Será que inventei uma amizade entre eles apenas pelo fato de ambos serem de Fortaleza e da mesma geração? Não sei dizer. De qualquer forma, um dia comprei esse "Fraturas de relações amorosas" e deixei-o numa pilha de guardados para ler mais tarde. Esqueci-me do livro, claro, mas reencontrei-o por acaso no mês passado, quando tirei uns dias para só viajar e ler, sem aborrecimentos. Trata-se de uma narrativa experimental, um monólogo teatral, um jogo dramático. Vou identificar o livro aqui nestes registros como romance, mas talvez o Portella o classifique de outra forma. São 417 cantos curtos, numerados em algarismos romanos, onde se faz um censo dos dias do relacionamento entre dois sujeitos, das metamorfoses pelas quais passam seus corpos, das facetas do amor entre eles. O narrador (Felipe) vive amasiado com um travesti, Marcelo, que depois torna-se Cassandra. Entretanto Felipe também vive com uma mulher, Aparecida, com que tem um filho, que em algum momento morrerá. Marcelo não tem ciúme de Aparecida ou das outras mulheres com quem Felipe se relaciona, mas não suporta a ideia de que ele se envolva com um outro travesti. O narrador a quem Portella dá voz não tem pudor, diz como Felipe e Marcelo fazem sexo e amam, afinal sexo e amor são o sal da vida, precisam ser praticados para que a vida tenha sentido. O narrador conta sem medo sua odisseia particular, se desnuda, expõe-se, faz uma autoanálise selvagem de si e de seus atos, garimpa sua memória e a mistura com aquilo que parece inventar. Seu monólogo é uma forma de suportar os desastres desta vida. No livro não há julgamento, cabotinismo, hipocrisia, moralismos bestas. Apenas uma realidade lírica. No mundo selvagem, fragmentado e doido que o Portella nos apresenta, reinam sim o amor e a vontade. Sujeito curioso esse Portella. Há outros livros dele por aí. Vou procurar. 
Registro #1204 (romance #324)
[início: 06/06/2017 - fim: 02/08/2017]
"Fraturas de relações amorosas", Cláudio Portella, Fortaleza: Edições CP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-420-0767-1

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

acre

Flanando por São Paulo nestes dias de intervalo entre semestres letivos, eis que soube do lançamento de "Acre", segundo romance de Lucrecia Zappi e um dos primeiros livros editados pela recém fundada todavia, spin-off da cia das letras, digamos assim. A sessão de autógrafos do livro, lá na boa livraria da vila (madalena), foi precedida por um bate papo rápido entre a autora e Michel Laub, autor dos bons "Diário da queda" e Tribunal da quinta-feira. Ele soube perguntar, extrair de Lucrecia algo da gênese do livro, de seu processo inventivo e ambição, deixar a audiência curiosa sobre a narrativa. O livro é curto e se deixa ler com calma. Nele se contrastam questões ambientais e transformações na paisagem urbana; a violência mais natural do campo com aquela que se preferiria fosse invisível numa grande cidade; o tolo cabotinismo da classe média com os ardis de quem acostumou-se com a aspereza da vida; a memória idílica de uma juventude em Santos (uma Santos provinciana dos anos 1980) com a realidade da São Paulo contemporânea, cidade que talvez não tenha mais a capacidade de devorar deserdados sem regurgitar uma grande maioria. Uma sequência de coincidências percorre os capítulos (e se você não gosta de spoilers abandone agora mesmo esse registro): um sujeito volta para São Paulo após quase trinta anos justamente para o apartamento lindeiro ao de um casal que ele conheceu muito bem na juventude; esse sujeito presencia um crime que lhe granjeará uma vantagem indevida na relação com esse casal; sempre há alguém no livro que oportunamente torna-se uma espécie de coro grego, esclarecendo o protagonista do que se passa na trama (no seu drama, afinal). "Acre" é de fato um livro bem escrito, notadamente pela forma de fundir os diálogos no corpo do texto, mas me senti incomodado em vários momentos (e não pelos temas  que surgem na trama, mas sim por uma frouxidão constante que talvez se corrigisse esclarecendo menos, tornando as escolhas dos personagens mais ambíguas, menos previsíveis). Talvez o que o livro mais acertadamente nos lembre é que ninguém fica casado trinta anos impunemente. Ojo, vamos a ver o que essa curiosa autora nos preparará no futuro.
Registro #1201 (romance #323)
[Inicio: 01/08/2017 - fim: 03/08/2017]
"Acre", Lucrecia Zappi, São Paulo: editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 13,5x21 cm., 204 págs., ISBN: 978-85-93828-00-3

quarta-feira, 12 de julho de 2017

história da menina perdida

Vamos a ver. A tetralogia napolitana de Elena Ferrante, iniciada com "A amiga genial" e continuada com "História do novo sobrenome" e "História de quem foge e de quem fica" se encerra com a "História da menina perdida". Esses quatro volumes formam um projeto literário ambicioso, muito bem escrito, e que granjeou sucesso com o público leitor e reconhecimento da crítica literária especializada, cousa não muito fácil de ser simultaneamente alcançada. Nas quase 500 páginas de "História da menina perdida" tudo que estava em suspense na narrativa resta resolvido, todas as circunstâncias e sucessos são explicados, ao leitor é oferecido um rosário de detalhes que contextualizam as transformações pelas quais passam as duas protagonistas da historia (Elena e Rafaella, Lenu e Lila) e todos os demais personagens relevantes. Há uma grande sacada na tal historia da menina perdida, porém mais não posso falar. Cabe ao leitor curioso procurar o volume (ou o google) e ler. Ferrante descreve os anos  maturidade e velhice de Lenu e Lina. A Itália em transformação é confrontada com seus fantasmas (a corrupção entranhada no Estado, o terrorismo, as ações das brigadas vermelhas, a onipresença da máfia). O país purga (ou não purga) juridicamente esses crimes coletivos (mas apenas prendendo os suspeitos de sempre, livrando da cadeia os canalhas de sempre). O contraste entre os papeis dos homens e mulheres na sociedade italiana continua o tema relevante do livro. Não há explicitamente juízo de valor, mas uma exposição realista sobre a condição feminina na Itália da segunda metade do século XX. Elena e sua amiga Rafaella criam suas filhas pequenas, veem e interferem nas transformações pelas quais passam Itália e Nápoles, amigos e inimigos, os parentes e a natureza (até sobre um grande terremoto, o de 1980, a narradora tem tempo de falar na trama). O volume começa com a volta de Elena à Nápoles, em 1979, no início de sua escalada para tornar-se de fato uma escritora respeitada, cheia de compromissos. Segue até 2010, fechando o ciclo, quando as duas amigas alcançam seus 66 anos. É muita informação para se incluir em 500 páginas. Ao contrário do que faz Proust (oká, bem sei que é covardia comparar o ciclo de Elena Ferrante com o ciclo de Marcel Proust, mas releve um pouco a assimetria entre os dois e me acompanhe, se for o caso) Nesse ultimo volume a narrativa é acelerada demais para o meu gosto. São tantos anos de metamorfoses comprimidos, tantos causos e reviravoltas, tantas discussões, mudanças de opinião, surpresas e acasos, quanto a soma dos anos descritos nos três primeiros volumes (que corresponde a mais ou menos trinta anos). Claro, o leitor, já enfeitiçado pela boa prosa de Ferrante percorrerá alegremente os caminhos trilhados pelo livro, mas muito dificilmente terá a oportunidade absorver todo o processo de composição e invenção. E é exatamente essa experiência mágica o que Proust nos dá, ao nos impregnar lentamente com a passagem do tempo, preparando-nos nos dois volumes finais de seu ciclo, para no sétimo e último nos forçar ao choque de revelações em cascata, quase simultaneamente, em uma espécie de câmara lenta. Não quero dizer com isso tudo que esse quarto volume de Elena Ferrante seja ruim. Só não vejo a utilidade de detalhar tantas irrelevâncias apenas para postergar um final digno para aquilo que realmente da força ao livro, ou seja, o contínuo embate, rivalidade, competição e estranhamento mútuo entre as duas amigas. Assim como todos nós, que vivemos nossas vidas apenas com entendimentos provisórios sobre as pessoas que amamos ou odiamos, compreendemos apenas parcialmente o caráter dos sujeitos com quem estudamos ou trabalhamos ao longo da vida, experimentamos apenas a camada mais superficial e mutante da persona daqueles que nos cercam e com os quais convivemos, Lenu e Lila talvez nunca tenham se conhecido completamente. É essa para mim a constatação final e cruel, porem necessária, do livro. Jamais entenderemos as motivações e atos de quem quer que seja, a menos que seja preferível para nos mesmos vivermos continuamente nos iludindo. E é essa exatamente a magia e a potência da vida, a magia e a potência da literatura, aquilo que nos faz continuar. Vale.
[início: 12/06/2017 - fim: 18/06/2017]
"História da menina perdida: maturidade, velhice", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 480 págs., ISBN: 978-85-250-6310-6 [edição original: Storia della bambina perduta (Roma: Edizione E/O) 2014]

sábado, 8 de julho de 2017

mergulho na região do espanto

"Mergulho na região do espanto" é o terceiro volume de um ciclo sobre Ouro Preto, tendo sido precedido por "Boca de chafariz" e "Quando os demônios descem o morro". Nunca havia lido nada escrito por Rui Mourão, romancista e professor universitário mineiro, mas os livros tem lá seus caminhos para me encontrar e este, mais açodado que os demais, chegou-me antes que os irmãos mais velhos. Muito bem escrito, o livro oferece ao leitor ao menos duas camadas de leitura. A primeira é aquela da proposta inicial do livro, mágica, que apresenta a convocação fantasmagórica recebida pelo narrador do livro para partir de Belo Horizonte para Ouro Preto, onde estava sendo aguardado. Esse narrador é um solteirão, já aposentado, que na juventude envolveu-se com livros, mas que trocou essa ambição literária pelo pragmatismo da contabilidade, as responsabilidades filiais e a respeitabilidade da vida como bancário. Após a morte da mãe, enterrada em Ouro Preto, ele havia voltado a morar em Belo Horizonte. Hospedado em um hotel da cidade, cujas ladeiras e maravilhas já conhecia bem, o narrador é visitado quatro noites seguidas por fantasmas de antigas encarnações suas, sujeitos ligados ao ciclo de ouro de Minas Gerais (ou, como já nos ensinou o Nava, do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais). Esses relatos, que terminam sempre em violência, são bastante engenhosos e de certa forma independentes. Lembram a estrutura de "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, onde partindo de um poleiro das almas personagens se apresentam para contar algo de sua história de vida. Todavia, após o leitor ter vencido mais de um terço do livro, quando já acredita que seguiria até o fim em sua toada de narrativas históricas, cada uma com sutis variações linguísticas e temporais, eis que o narrador oferece a segunda forma de rastrearmos o entendimento do que estamos a ler. O narrador volta a Belo Horizonte. Agora o leitor percebe que o livro não trata somente do ouro e de um período da história de Minas Gerais, mas sim do processo criativo de um escritor, da literatura como terapia, do amor pela linguagem como um descanso da loucura (um pouquinho de saúde, já disse o Guimarães Rosa). Assim o livro passa, a exemplo de seu narrador, por uma metamorfose, tornando-se um romance psicológico, policial, onde o analista ou detetive é o alter ego do autor que parte em busca de seus personagens e de sua história. Eu poderia detalhar o que acontece a seguir, as outras viagens do narrador à Ouro Preto, as novas aparições fantasmagóricas, mas privaria o leitor deste registro do encantamento provocado pela boa prosa de Rui Mourão. Muito interessante mesmo. Vamos a ver se um dia encontro outros livros dele. 
[início: 29/04/2017 - fim: 02/07/2017]
"Mergulho na região do espanto", Rui Mourão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 1a. edição (2015), brochura 14x20 cm., 341 págs., ISBN: 978-85-423-0142-7