quarta-feira, 26 de outubro de 2011

o macaco ornamental

Entusiasmado com o bom livro de crônicas "Nós passaremos em branco", de Luís Henrique Pellanda, resolvi procurar outras coisas dele. Encontrei esse "O macaco ornamental", publicado em 2009, onde estão reunidos 13 contos e um microconto. São histórias nas quais um narrador não-nominado quase sempre se dirige diretamente ao leitor, como se as histórias fossem cartas, testemunhos, conversas de bar, registros de uma impressão particular, de um entendimento específico das coisas que esse narrador experimentou e viveu. Várias histórias parecem fixar aventuras e loucuras de carnaval, lembranças alcoólicas da primeira juventude ou adolescência. Há uma violência surda e contida nelas, até naquelas que são mais líricas. Gostei mais das longas. Em "Caldônia Beach" um sujeito procura uma garota que serviu de modelo vivo para ele quando era ainda eram ambos muito jovens; em "Chaleira" acompanhamos os sucessos de uma noite de bebedeira e conversas amalucadas vividas por um rapaz; em "Duas cartas" Pellanda destrincha os eventuais porquês de um suicídio. Mas as histórias curtas também têm seu valor. Alguns dos contos são muito inventivos, como a biografia de "São Menécio", o encontro especular dos fantasmas de "Amigo vivo, amigo morto" ou o turbilhão de mentiras de "Ursa". Luís Pellanda é mesmo um bom observador e sabe encontrar o registro certo para cada história que oferece ao leitor. Vamos a ver se encontro mais alguma outra cousa dele no futuro. [início 14/10/2011 - fim 17/10/2011] 

"O macaco ornamental", Luís Henrique Pellanda, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2009), brochura 13,5x21 cm, 192 págs. ISBN: 978-85-286-1405-3

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

o motivo

Encontrei esse pequeno livro por acaso. "O motivo" é um dos contos incluídos no primeiro livro que Javier Cercas publicou. E é o único que ele não renegou (os demais ele suprimiu por serem "frutos de certas leituras e experiências pobremente assimiladas, bem como de uma ridícula vaidade de demonstrar que eu era escritor"). Divertido. Nem sempre nossas progressivas encarnações costumam elaborar tão bem as deficiências da juventude. Lê-se esse conto quase com um fôlego só. Trata-se de uma história que brinca com o ofício de escrever ficção, de inventar coisas. Lembra um tanto o "La asesina ilustrada", de Enrique Vila-Matas. O narrador de Javier Cercas conta a história de um sujeito, Álvaro, que inventa um outro Álvaro que será o escritor de um livro (que é o autor do livro que estamos a ler). Esse sujeito é ambicioso, imagina que vai revolucionar a história da literatura de seu tempo. Como todo candidato a gênio, idealiza demasiadamente seu ofício e imagina que é de sua vida, de suas experiências, que vão surgir as idéias e os fatos que registrará em sua ficção. Camadas de ficção e de realidade se alternam na construção de Cercas, tornando o resultado impactante mesmo. O leitor acaba compartilhando com o narrador das dificuldades de decidir-se entre vida e literatura. E, como todo conto ou romance forte, de alguma forma a narrativa de Cercas adquire vida própria, segue um caminho diferente daquele imaginado inicialmente por seu autor. Parece ser esse o surpreendente caso de "O motivo". Encontrei uma surpresa extra e feliz nas páginas finais do livro: um posfácio generoso de Francisco Rico, o filólogo e professor Rico, da Real Academia Española, personagem habitual dos livros de Javier Marías. Rico destrincha o conto de Javier Cercas. Leituras muito divertidas. [início 08/10/2011 - fim 09/10/2011] 
"O motivo", Javier Cercas, tradução de Bárbara Guimarães, São Paulo: editora Francis, 1a. edição (2005), brochura 14x21 cm, 118 págs. ISBN: 85-89362-56-6 [edição original: El móvil (Tusquets editores) Barcelona 1987]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

austerlitz

Foi Fernando Landgraf quem apresentou-me "Austerlitz". Ele, mais corajoso que eu, chegou quase ao final do livro e reencetou a leitura, tamanho era seu encantamento. Depois ele escreveu aos amigos recomendando-o, e eu, curioso como sempre, resolvi conhecer Sebald afinal. Se é para fazer comparações espúrias acho que "Os anéis de Saturno" é mais poderoso, talvez por ser mais racional, mais ancorado na tentativa humana de classificar as cousas da vida, mas isso é, claro, totalmente irrelevante, apenas uma impressão e ok, eu sei que essa tentativa é vã e tola. Em "Austerlitz" o narrador de Sebald, como sempre enigmático, amorfo e ambíguo, encontra, já no final dos anos 1960, um sujeito chamado Austerlitz em uma grande estação de trens de Antuérpia. Ambos partilham de curiosidade intelectual com aspectos arquitetônicos e históricos do lugar. A afinidade é sutil, mas imediata e definitiva. Após essa primeira vez Austerlitz e o narrador voltarão a se encontrar somente após quase três décadas. A partir desse reencontro eles manterão contato frequente, algumas vezes por acaso, noutras por conta da vontade explícita de um dos dois. O longo monólogo de Austerlitz, que é a história que está sendo narrada, segue como um mantra pelo romance. Os encontros tem um formato curioso, como se o narrador fosse um psicólogo ou analista que ouve seu paciente sem julgá-lo, em reiteradas sessões clínicas. Austerlitz ora confessa coisas, ora pratica uma espécie de auto-análise, exercitando sua memória, narrando sua vida e suas obsessões. Na verdade Austerlitz passa por uma metamorfose na narrativa. No início do livro ele é calado, objetivo e professoral. Mas nos encontros posteriores com o narrador passa a praticar uma quase-verborragia, um misto de memorialista de si mesmo, de detetive de sua biografia. A influência de Proust e a idéia de memória involuntária sobre os homens é perene nesse livro. Mas Sebald não parece tão seguro como Proust em afirmar que a memória voluntária não tem valor. Sebald se distingue nas descrições dos hábitos e procedimentos que homens e mulheres praticam na vida cotidiana, nas suas relações mundanas. Ele apresenta lentamente a evolução e transformação de seu personagem, sem sobressaltos. Os colapsos que pontualmente afetam Austerlitz (e que no fundo o fazem recuperar seu passado enterrado) são como as epifanias proustianas (o guardanapo engomado, o martelar nas rodas do trem, o calçamento irregular das pedras de Veneza, o sabor da madeleine embebida no chá de tília, a visão oblíqua das agulhas das torres dos campanários de Martinville). Mas se no caso de Proust o que emerge é um entedimento pleno de como opera a vida, no que há de belo e sublime nela, mas também no que há de grotesco e anacrônico, Sebald faz com que seu personagem saia à tona carregando o fardo das misérias de seu tempo, tornando-o um arauto das atrocidades da segunda grande guerra, dos procedimentos utilizados para o encarceramento e a morte de milhões de indivíduos. Se é que me lembro bem Fernando chamou de "camadas de carma" o que se vê na arquitetura da estação central de trens de Antuérpia. Talvez sejam de fato essas camadas (e não os aspectos técnicos) os reais atratores do olhar de Austerlitz e do narrador. E, da mesma forma, não é conhecimento dos detalhes de como operou a máquina de guerra nazista que melhor explica o destino de cada um dos muitos que foram afetados por ela. Como bem observa Austerlitz ao descrever a moderna biblioteca nacional francesa (uma construção bizarra que praticamente impede o contato entre livros e leitores), existe uma arquitetura na destruição. Entendo o Fernando e seu desejo de continar a leitura por mais tempo, "Austerlitz" é mesmo um livro impactante, mas o velho Guina vai serguir por outros caminhos. [início 04/10/2011 - fim 08/10/2011] 
"Austerlitz", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm, 287 págs. ISBN: 978-85-359-1201-2 [edição original:  Austerlitz (Carl Hanser Verlag, München/Deutschland), 2001]

domingo, 9 de outubro de 2011

da origem e propagação do café

Entusiasta dos poderes do café me interessei por esse "Da origem e propagação do café" assim que soube de sua existência. Consegui um exemplar graças ao industrioso Télcio, da CESMA. A editora, Octavo, é jovem e pequena, mas os caminhos são curtos nestes tempos de globalização. A edição é muito bonita e bem cuidada. Logo ao abrir o pequeno livro, uma alegria. A Octavo tem sede na rua em que morei durante anos, a Rua dos Franceses. Pela numeração logo entendi sua localização e imaginei o livro sendo produzido em uma daquelas casinhas geminadas que enxergava da janela de meu quarto. Nada como uma memória afetiva para aguçar os sentidos e a atenção de um sujeito. E nada como um café para começar a navegar por um bom livro. O texto é antiquíssimo. Antoine Galland, orientalista e arqueologista francês, foi o primeiro tradutor europeu dos contos das mil e um noites. Em 1696 ele traduziu e publicou, na forma de carta, um ensaio baseado no conjunto de textos da biblioteca real francesa que contam a propagação do café pelo mundo árabe. O original árabe é de um sujeito de Medina (na Arábia Saudita) chamado Abdalcader e foi produzido no Egito em 1587, descrevendo sucessos ocorridos séculos antes disso. O texto árabe original procura discutir "aquilo que se deve acreditar ser o mais preciso e mais sincero com relação ao café, ou seja, se é permitido aos muçulmanos usá-lo". Originário das terras altas da Etiópia, o café difundiu-se rapidamente através do Egito, península arábica e Turquia, até chegar a Europa e suas colônias, onde passou a ser produzido em grande escala. Galland descreve as recorrentes controvérsias sobre os benefícios medicinais do café. Aparentemente a preocupação com a excitação e alterações de consciência provocadas pelo consumo do café (alterações associadas aos mesmos efeitos devidos aos vinhos e demais bebidas alcoólicas) não causavam tanto incômodo aos líderes religiosos e doutores da lei (responsáveis por interdições e autorizações alimentares) quanto o tumulto provocado nos lugares onde as pessoas se reuniam para tomá-lo. O texto de Galland é muito agradável e cheio de digressões divertidas. Impossível ler esse livro e não sentir vontade de tomar um bom expresso. [início 25/09/2011 - fim 30/09/2011]
"Da origem e propagação do café: extraído de um manuscrito árabe da biblioteca do rei", Antoine Galland, tradução de Cristina Cupertino, São Paulo: editora Octavo, 1a. edição (2011), capa-dura 12,5x18 cm, 109 págs. ISBN: 978-85-63739-05-6 [edição original: De l'origine et du progrès du café: extrait d'un manuscrit arabe de la bibliotheque du roi (Paris, France) 1699]

sábado, 8 de outubro de 2011

o duplo

São numerosas na literatura aparições de personagens que se duplicam, personagens que encontram e passam a ser assombrados por um sósia, um outro eu, um "Doppelgänger". Claro, não se trata apenas um fenômeno restrito à literatura. Também no folclore, nas mitologias (como por exemplo a germânica e a escandinava), ou na cultura popular de muitos países é recorrente a idéia de um espírito que antecipa notícias funestas ou personifica a morte. Fiódor Dostoiévski, logo em seu segundo livro, "O duplo", trata desse tema curioso. O resultado é um poderoso romance psicológico, onde acompanhamos o processo de dissociação mental do funcionário público Yakov Petrovich Golyadkin. Dostoiévski descreve como operam transtornos mentais, esquizofrenias, paranóias e alucinações. Seu personagem principal, Golyadkin, nos é apresentado no início do romance preparando-se para ir a um jantar de gala, uma recepção, oferecida em homenagem a filha de seu antigo preceptor. Logo ao sair se aborrece ao encontrar um colega de trabalho que aparentemente também irá a mesma recepção. Indignado ele resolve consultar seu médico. Esse médico insiste na necessidade de Golyadkin diversificar sua vida social, entreter-se com regularidade e continuar tomando seus medicamentos como já havia sido prescrito. Acompanhamos como Golyadkin se desloca até a recepção e é inicialmente barrado, mal chega às escadarias, mas consegue, após muito esperar em uma porta lateral, misturar-se com os convidados. Ato contínuo ele tenta se aproximar da filha de seu preceptor e dançar com ela, mas é expulso do local. O que se segue é uma vertigem, uma sucessão de capítulos densos e movimentados, que sufocam o leitor. Podemos entender que a partir desse ponto lê-se as fantasias de um sujeito enlouquecido, preso em algum sanatório, divagando sobre sua condição. Ou podemos continuar a leitura linearmente e acompanhar como a esquizofrenia progressivamente se manifesta, na forma de um duplo de Golyadkin. Esse sujeito é idêntico a ele (na verdade é ele mesmo, claro), mas é um sujeito que opera maravilhosamente bem as regras e a etiqueta das relações sociais. Como se estivesse comprometido com sua destruição, seu olvido, o duplo assume todas as suas funções, se apropia de todas suas relações pessoais e profissionais, mostrando-se eficiente, solícito, prestativo, até divertido. Alcança por fim a intimidade de toda a hierarquia ao qual está subordinado. O final do livro obviamente é terrível, assustador. Mas eu já escrevi demais. Leitura indispensável, muito inspiradora. Poucas coisas substituem o verdadeiro prazer que os textos clássicos, de um autor forte, podem proporcionar. O livro inclui ilustrações (desenhos) intensas, expressionistas, produzidas ainda no início do século passado por Alfred Kubin. Há um pequeno ensaio de Samuel Titan Jr. descrevendo o contexto histórico dessas ilustrações, feitas especificamente para "O duplo" e estabelecendo com o texto do livro uma associação realmente poderosa. Por fim encontramos um posfácio muito bom, escrito por Paulo Bezerra, o tradutor do livro afinal de contas, que ilumina as passagens mais estranhas e obscuras. Haverá mais cousas de Dostoiévski aqui nesse ano. [início 14/09/2011 - fim 29/09/2011] 
"O duplo", Fiódor Dostoiévski, tradução de Paulo Bezerra, desenhos de Alfred Kubin, São Paulo: editora 34, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 255 págs. ISBN: 978-85-7326-472-2 [edição original:  Dvoinik (Двойник. Петербургская поэма) «Отечественные записки» São Petersburgo (Russia) (1846)]

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

xiru lautério

Byrata é cartunista dos bons, um cara industrioso. Sempre está envolvido com oficinas de histórias em quadrinhos, com projetos de divulgação do patrimônio paleontológico, ferroviário e aeronáutico da região de Santa Maria ou com a produção, edição e ilustração de livros. No meio disso tudo mantém a produção regular das suas histórias em quadrinhos. Ele inventou o personagem "Xiru Lautério" em meados dos anos 1970. O Xiru é um gaúcho adestrado à lida no campo, ao trato com os cavalos, os elementos, o clima. Não é arquétipo como um "Don Segundo Sombra", mas leva jeito. Há uns cinco anos Byrata publicou a primeira parte de uma aventura do Xiru com dinossauros. Um gaudério de almanaque, típico, pilchado na alma, envolvido com dinossauros extintos há 65 milhões de anos? Sim. É o inusitado da coisa que chama a atenção, mas a história se sustenta por conta do domínio que Byrata tem do formato, da narrativa, do traço. Segundo ele a produção dessa segunda parte envolveu quase quatrocentas tiras e oitocentos desenhos. Como ele é meticuloso e perfeccionista os esboços descartados devem ser contados na escala dos milhares. A história é divertida, fala de tecnologia e das tradições gaúchas. A surpresa foi encontrar ali uma consistente homenagem à música regional, campeira, num registro realmente forte. Haverá ainda histórias para contar com o Xiru e seu tordilho? Vamos a ver. Certamente Byrata irá produzir algo no futuro, mas por agora o Xiru vai é pelear solito no mercado dos livros e das letras. [início - fim 28/09/2011] 
"Xirú Lautério e os dinossauros (parte 2 de 2)", Byrata (Jorge Ubiratã da Silva Lopes), Santa Maria: editora Rio das Letras, 1a. edição (2011), brochura 21x30 cm, 104 págs., sem ISBN

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

a arte culinária na bahia

Mais que culinária e receitas esse pequeno livro serve-se como registro antropológico de um tempo. Já na apresentação, assinada pelo antropólogo Raul Lody, aprendemos que vamos ler sobre as memórias e permanências de uma Bahia africana em receitas e sabores. E é isso mesmo que encontramos. São notas breves, que descrevem como cada prato deve ser preparado e consumido, mas acrescentam algo mais ao leitor. Manuel Raimundo Querino foi líder abolicionista, um dos pioneiros na defesa da cultura africana no Brasil e autor de vários livros. Nesse seu "A arte culinária na Bahia", publicado postumamente, em 1928, encontramos notas que sempre são concisas e sintéticas sobre os alimentos especificamente africanos de nosso culinária, notas que dão noções de como é o sistema alimentar na Bahia (no sentido em que descreve as circunstâncias em que cada prato foi incorporado ao dia a dia das pessoas). Querino dá atenção especial aos licores e às sobremesas. A edição é bem cuidada, com um papel brilhante que valoriza o conteúdo, ilustrações não exatamente padronizadas e um bom prefácio. Há demasiado etnocentrismo nos textos (principalmente no prefácio), mas isso não estraga o prazer de acompanhar a leitura. [início 12/09/2011 - fim 29/09/2011] 
"A arte culinária da Bahia", Manuel Querino, São Paulo: editora WMF Martins Fontes (3a. edição) 2011, brochura 14x18, 86 págs. ISBN: 978-85-7827-325-5 [edição original: Salvador: Livraria Progresso Editora, 1928]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

dones

De Angeles Mastretta só conhecia "Arranca-me a vida", uma reflexão ficcional interessante sobre a complexa sociedade mexicana. Noutro dia encontrei esse pequeno "Dones", da boa coleção "Mini letras" da H.A. Kliczkowski, e não hesitei em comprá-lo. São sete contos curtos, que não foram escritos na mesma época (há coisas de 1986 e outras de 1993), mas que encontram uma unidade nesse livro. Os contos falam de dons que são particularmente caros às mulheres, segundo a abordagem de Mastretta. Ela inventa histórias suaves, sensíveis, mas não piegas. Em uma fala da facilidade de alguns em conversar; em outra do poder que a linguagem tem, para o bem e para o mal, para ferir e para consolar; em uma terceira descreve como aprendemos a chorar e a esquecer de chorar (um provérbio judaico diz que deus conta as lágrimas das mulheres, é sempre bom lembrar). Mastretta também fala da beleza, da experiência e do medo que todos temos com a passagem do tempo; noutra história fala de uma avó e suas agruras na revolução mexicana, seus disfarces, sua coragem. Uma das histórias descreve a carta italiana de uma improvável amante de seu pai. Seria um affair ligeiro dos tempos da segunda grande guerra ou algo mais sério? A última história fala que devemos por vezes esquecer é fundamental, tanto as dores e os problemas quanto os medos e os aborrecimentos. Se possível até a realidade, antes de sucumbir. Parece bobo, mas não há nada de artificial ou canhestro nas histórias. Talvez os gloriosos brasileiros e brasileiras que se dedicam a produzir livros ligeiros de auto-ajuda poderiam se inspirar em uma autora com mais tino e estofo como parece ser o caso de Angeles Mastretta. Vamos em frente. [início 27/09/2011 - fim 28/09/2011]
"Dones", Angeles Mastretta, Madrid: editorial Hugo Kliczkowski - Onlybook, 2a. edição (2006) brochura 13.5x20cm, 64 pág. ISBN: 978-84-96304-78-7

terça-feira, 4 de outubro de 2011

todo começo é involuntário

Em "Todo começo é involuntário" encontramos trabalhos de trinta e cinco poetas, organizados e selecionados por Claudio Daniel. Demorei meses para terminar esse livro, mas foi de caso pensado, não por tédio ou preguiça. Digo isso pois as impressões e o eventual impacto que uma série de poemas  de um autor me provocavam teimavam por ecoar na leitura dos trabalhos subsequentes, como se houvesse um ruído de fundo em todo o livro. Foi por conta disso que interrompi diversas vezes a leitura, um tanto para esquecer dos nomes dos autores e dos poemas (esquecer como Beckett, falando sobre Proust, nos ensinou: "O homem que nunca se esquece de nada, nunca se lembra de nada"), e um outro tanto para deixá-los comigo sem tanta intoxicação, para livrá-los da eficácia efêmera de uma leitura feita às pressas. O organizador, Claudio Daniel, que é poeta, tem por franco acaso o sobrenome de um grande poeta, assina dois ensaios (uma boa apresentação e um bom posfácio) mas não incluiu nada seu - correto ele afinal de contas. Daniel incluiu também uma breve biografia de cada um dos autores que escolheu. São trinta e cinco poetas, que contribuem, cada um, com um punhado de sua produção. Dezessete são mulheres (Adriana Versiani, Adriana Zapparoli, Ana Maria Ramiro, Andréa Catrópa, Camila Vardarac, Carol Marossi, Daniela Osvald Ramos, Florbela de Itamambuca, Gabriela Marcondes, Greta Benitez, Izabela Leal, Jacineide Travassos, Lígia Dabul, Marília Kubota, Micheliny Verunschk, Simone Homem de Mello, Virna Teixeira). Dezoito são homens (André Dick, Carlos Besen, Daniel Sampaio de Azevedo, Danilo Bueno, Delmo Montenegro, Diego Vinhas, Donny Correa, Douglas Diegues, Eduardo Jorge, Leonardo Gandolfim, Marcelo Montenegro, Marcelo Sahea, Márcio-André, Niccolas Ranieri, Pablo Araújo, Rodrigo de Souza Leão, Sérgio Medeiros, Thiago Ponce de Moraes). Quase nada sabia da maioria deles antes de encontrar esse livro. Talvez não seja em uma antologia assim a melhor forma de conhecer um poeta novo. Como em qualquer seleção dessa natureza há uma certa heterogeneidade no que é oferecido. São poemas em prosa, quase aforismos, poesias visuais, elegias, sonetos, versos brancos, versos que não sei classificar (se é que isso é necessário). Alguns são de pessoas realmente jovens, outros já quarentões (isso é irrelevante, sei, afinal só mesmo no Brasil é possível se imaginar uma lei - como a recentemente aprovada no congresso - que define o final da juventude a anódinos 29 anos, mas serve para ilustrar que estamos falando de trinta e cinco sujeitos bem diferentes entre si). Alguns me pareceram bissextos, mas quem sou eu para pontificar. Vez ou outra intui uma influência, uma relação entre precursores e epígonos, mas são poucos os poemas de cada um para se fazer o censo correto deles todos. São afinal, antes as diferenças que as afinidades que possibilitaram a reunião desses poetas. A única síntese possível afirmar que não é possível um síntese. [início 03/05/2011 - fim 27/09/2011] 

"Todo começo é involuntário: a poesia brasileira no início do século 21", Claudio Daniel (organizador), São Paulo: Lumme editor, 1a. edição (2010), brochura 15x23 cm, 323 págs. ISBN: 978-85-62441-39-4