quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

el puente de los asesinos

“El puente de los asesinos” é o sétimo volume das aventuras do capitão Alatriste. É o antepenúltimo dos livros prometidos por Arturo Pérez-Reverte para a saga de seu personagem mais famoso. A narrativa segue quase imediatamente os sucessos de “Corsários de Levante”. Alatriste, Íñigo, Copons e Gurriato, ainda se recuperando dos acidentes de sua última aventura, estão vagabundeando na licenciosa Nápoles quando são recrutados para uma expedição militar muito arriscada: matar o doge da sereníssima república de Veneza, no preciso instante em que ele estivesse sozinho na gloriosa basílica de são Marcos, na noite da missa do galo do natal de 1627. A empresa é mirabolante e inverossímil, claro, mas o leitor não tem porque duvidar da possibilidade de Alatriste e seus comandados chegarem a bom termo em seus propósitos. O fator complicador (e apresentado logo do início do romance) é a presença de Gualterio Malatesta, o sinistro espadachim italiano, antagonista de Alatriste, que havíamos visto, pela última vez, acorrentado pela milícia do rei Felipe IV, rumo a torturas e segura morte logo após o que é descrito no “El cabellero del jubóm amarillo”. Apesar do risco absurdo Alatriste, como todo bom herói trágico, resolve participar do projeto, pois há pedidos para os quais não se pode dizer não (principalmente aqueles cuja origem é o poderoso conde-duque de Olivares, o valido do rei, importante figura do xadrez político do século de ouro espanhol). A narrativa (e a organização do ataque, que envolve três duzias de pessoas) segue de Nápoles a Roma, depois Milão e Veneza. Esse volume da série Alatriste deve muito aos romances de espionagem de John le Carré ou Ian Fleming. Os personagens/indivíduos se comportam como peças de um jogo maior, que não controlam, mas são disciplinados e tentam cumprir as tarefas a que foram designados. Íñigo está menos rebelde que no volume anterior. Alatriste um tanto mais soturno e cerebral do que o costume. As descrições dos palazzos, das igrejas, do poderoso Arsenale, dos canais e vielas, dos rio tera estreitos, dos bares repletos de indivíduos suspeitos hipnotizam o leitor. É sempre doce flanar e sentir saudades de Veneza. Após muitas escaramuças, traições, violência e combates singulares (e após o inevitável fracasso da empreitada) o grupo termina em uma pequena ilhota próxima ao Lido, esperando ser resgatado pelos espanhóis. Pérez-Reverte usa várias vezes um patois linguístico, que ele atribui ser a língua franca do mediterrâneo daqueles dias do século XVII. Apesar do inegável valor historiográfico destas histórias, a narrativa fica comprometida pela certeza que temos da invulnerabilidade dos personagens principais (sabemos que Alatriste sobreviverá para combater outras batalhas, que Íñigo viverá muitos anos até escrever as memórias que iremos ler). De qualquer forma, como diversão ligeira, o romance funciona, mas certamente não é dos melhores da série que li até aqui. Paciência. O livro inclui ilustrações muito boas assinadas por Juan Mundet e, como usualmente nos romances de Pérez-Reverte, sonetos e redondilhas que ele atribui a poetas e dramaturgos reais (Quevedo, Lope de Vega, Góngora) e inventados (o mais óbvio é o de Xavier Marías Franco, rey de Redonda). Estes jogos metaliterários funcionam quando são divertidos. [início 28/01/2012 - fim 31/01/2012]
"El puente de los asesinos", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones) , 1a. edição (2011), brochura 17,5x24 cm, 270 págs. ISBN: 978-84-204-0709-8

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ni se les ocurra disparar

Javier Marías reúne em "Ni se les ocurra disparar" 97 crônicas, publicadas originalmente na revista El País Semanal entre fevereiro de 2009 e fevereiro de 2011. A leitura dessas séries de artigos para jornal tornou-se ainda mais interessante assim que conheci o bom "The companion of Javier Marías". O autor deste livro, David Herzberger, descreve muito bem como Marías criou uma persona que assina esses artigos, ora se confundindo com o escritor e cidadão Javier Marías, mas noutras vezes atuando como uma das personagens de seus romances, com uma liberdade que permite comentários mais dramáticos e impactantes. De fato nesta coleção de artigos há textos factuais, que descrevem seu entendimento imediato da realidade espanhola (ele é um dos sujeitos mais argutos e convincentes que conheço, além de ter uma coragem inusual), mas também há textos onde são as reflexões sobre a memória que servem de elementos para construção de peças muito inventivas. Sua capacidade de análise e sua lógica são mesmo surpreendentes e de certa forma ele antecipa o recrudescimento e os desdobramentos mais terríveis da crise econômica da sociedade espanhola. Há quanto tempo já li Marías falando do franquismo redivivo de seus dias?; de como o espírito e comportamentos fascistas tem contaminado sociedades democráticas mundo afora? Ele também se preocupa muito com questões de linguagem, com os usos da língua espanhola; de como não sabemos ver e entender a vida real com a mesma transparência com que vemos coisas no cinema ou lemos nos livros. Dosando com rara habilidade ironia e emoção seus comentários ácidos, que podem por vezes parecerem diatribes de um casmurro, de um pessimista, demonstram ser crônicas de vida de alguém que sabe mesmo como se comportam os homens. Grande sujeito. Para quem quer conhecer algo mais recomendo sem medo a leitura de Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, e Demasiada nieve alrededor. [início 09/02/2012 - fim 16/02/2012]
"Ni se les ocurra disparar"", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2011), brochura 14x22 cm, 348 págs. ISBN: 978-84-204-0849-1

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

a companion to javier marías

Ler Javier Marías é das coisas mais gratificantes que fiz nos últimos anos. Além do encantamento provocado por seu estilo e vocabulário, cada um de seus livros fez-me refletir sobre assuntos sobre os quais talvez eu não atentaria, caso não tivesse a fortuna de encontrá-los (devo isto a doña Cristina Gomez-Polo, amiga madrileña que vive agora nas terras altas de Navarra). "A companion to Javier Marías" é um livro para quem já leu a obra ficcional de Marías e quer partilhar das impressões de um especialista, no caso, David Herzberger, professor de um departamento de estudos espanhóis na Universidade da California. Herzberger discute toda a obra ficcional de Marías, com a exceção do último de seus romances, Los enamoramientos. Também ficam de fora os livros onde estão compilados sua produção jornalística, suas contribuições dominicais publicadas em jornais espanhóis, atividade a qual ele se dedica ininterruptamente desde o início dos anos 1990. A apresentação é praticamente cronológica, como talvez um leitor neófito devesse mesmo abordar o conjunto de romances de Marías. A introdução é realmente muito boa, pois não apenas fala do estilo, influências, técnicas e procedimentos literários utilizadas por Marías, mas também um tanto sobre a sociedade espanhola da segunda metade do século passado (interessante para contextualizar o trabalho de Marías no conjunto da literatura espanhola produzida neste período). Como em todo bom "Companion book", os livros são analisados estruturalmente, de forma a simultaneamente destrinchar a narrativa e desnudar a técnica. Herzberger faz isto muito bem. As citações que ele escolhe provocam no leitor já familiarizado com os originais o desejo de voltar a eles. Os comentários sobre os romances são apresentados por blocos: Los domínios del lobo e Travesía del horizonte; El siglo e El hombre sentimental; Todas las almas e La negra espalda del tiempo; Corazón tan blanco e Manãna em la batalla piensa em mí; Tu rostro mañana. Isto ajuda um leitor que queira informações de volumes específicos a se localizar mais facilmente. A descrição da psicologia dos personagens que frequentam volumes distintos da obra de Marías e a análise de seus Leitmotivs (tempo e memória, imaginação e realidade, justiça e vingança, o acaso, cinema, Shakespeare) me pareceram muito pertinentes. Cito três que todos os leitores de Marías devem conhecer e/ou reconhecer de alguma forma: (i) que seus personagens são sempre muito observadores e usualmente tem uma compreensão nítida da realidade objetiva; (ii) que nas obras de Marías a metalinguagem e a intertextualidade não são meros artifícios; (iii) que para ele também a realidade deve ser imaginada, pois a narrativa ficcional não reproduz a realidade, antes sim produz distorções e transformações que contingenciam a própria realidade. Herzberger incluí também digressões sobre Vidas escritas e Miramientos; Mientras ellas duermen, Cuando fui mortal e El monarca del tiempo (breves biografias os dois primeiros, conjuntos de contos os dois seguintes e um romance híbrido, o último). O leitor também não vai poder reclamar da completa bibliografia, que inclui toda a fortuna crítica existente (em inglês) sobre sua obra. Grande livro. [início 17/01/2010 - fim 09/02/2010]
"A companion to Javier Marías", David E. Herzberger, Woodbridge (Suffolk, UK): Tamesis books (Boydell & Brewer), 1a. edição (2011), capa-dura 16x24 cm, 244 págs. ISBN: 978-1-85566-230-8

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a fugitiva

Ainda em janeiro do ano passado eu havia decidido reler o ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, como forma de comemorar meus cinquenta anos. Comecei pelos volumes bens reeditados pela editora Globo a partir de 2006. Todavia eles não conseguiram até agora produzir - sabe-se lá por quê - os dois últimos volumes (este A Fugitiva e O tempo redescoberto). Voltei então a meus surrados volumes de vinte e cinco anos atrás. Eles estão bem amarelados, as folhas quase teimando em se soltar, mas ainda se prestam aos prazeres da leitura. Metade de "A fugitiva" segue quase imediatamente os sucessos de "A prisioneira". Após a intempestiva fuga de Albertine o narrador passa a alternar dois sentimentos contraditórios: lamenta a perda dos prazeres de sua companhia e se alegra com o tempo que poderá dedicar a seus projetos literários. Mas como o hábito é um amigo cruel logo faz com que o ciúme fale mais alto e o narrador passa a se esforçar por reencontrá-la. Infelizmente, com o tempo, ele acaba tendo uma surpresa ainda mais atroz que a confirmação de suas suspeitas em relação aos relacionamentos amorosos de Albertine. A segunda metade do livro tem três capítulos curtos que antecipam as revelações do último volume do ciclo. No primeiro reecontramos Gilberte Swann, por quem um dia o narrador foi um devoto apaixonado. Ela tornou-se uma herdeira muito rica, sutilmente disputada por aristocratas, apesar dos preconceitos em relação a sua ascendência judaica e do passado duvidoso de sua mãe. No segundo destes capítulos o narrador finalmente visita Veneza com sua mãe, afastando-se dos aborrecimentos mundanos e sofrimentos que a lembrança de Albertine provocavam. Aparecem os primeiros argumentos sobre a implacável passagem do tempo nos personagens (que serão explorados no volume final do ciclo). Descobrimos que a velhice só não retira o desejo das pessoas. A geografia desta parte é algo confusa, mas qualquer pessoa que já tenha tido a fortuna por flanar por Veneza suspirá seus ais junto com o narrador. O capítulo final também apresenta surpresas. Robert de Saint-Loup se casa com Gilberte Swann, de certa forma unindo os dois caminhos da infância do narrador em Combray (os caminhos de Swann e de Guermantes). Mas o Saint-Loup que reencontramos é um personagem diferente. Mas sobre metamorfoses como esta, que mais de surpreendentes são habilmente descritas pelo narrador, escreverei só após reler "O tempo redescoberto". Comparado com todos os volumes anteriores este tem um ritmo frenético, mas não pela movimentação dos personagens e sim por toda a realidade que é imaginada. Com o material que acumulou nos volumes anteriores Proust parece construir todo um mundo novo em poucas páginas. Impossível não ficar encantado com o poder de sua imaginação. [início 02/02/2012 - fim 09/02/2012]
"Em busca do tempo perdido: A fugitiva (vol.6)", Marcel Proust, tradução de Carlos Drummond de Andrade, Porto Alegre: editora Globo, 6a. edição (1983), brochura 14x21 cm, 214 págs. sem ISBN [edição original: Albertine Desparue (éditions Gallimard), 1927]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

procura do romance

Julián Fuks é jornalista e crítico literário. Em 2008 li dele o bom "Histórias de literatura e cegueira", um pequeno livro de ensaios e entrevistas onde mais que o jornalista e seus biografados eram eles, Jorge Luís Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce, que pareciam dialogar. "Procura do romance" é um romance sutilmente metaliterário. Sebastián, o narrador da história, chega a um apartamento de Buenos Aires onde morou quando era ainda criança, ainda nos primeiros anos da escola primária. O apartamento parece simultaneamente familiar e desconhecido, o narrador percorre cada cômodo experimentando pequenas lembranças que surgem da escuridão. Sebastián parece ter um projeto literário, escrever uma história baseada na fuga e exílio de seus país, mas também parece querer rememorar, entender melhor, um acidente que ele imagina ter provocado, obrigando sua mãe a ficar presa à cama naqueles anos bonaerenses (esta parte lembra - com sinais trocados - os encontros do narrador de Proust com sua mãe, no "Em busca do tempo perdido").  Os capítulos são mais ou menos uniformes em extensão. Alternados às lembranças esparsas do narrador o leitor encontra reflexões sobre a teoria do romance, de seus procedimentos técnicos, das relações entre a literatura e outras formas de arte, como a dança, a pintura e a fotografia, que também possibilitam captar o encantamento da vida e construir metáforas (gostei muito de uma delas, que contrasta ruas e neurônios). Citações e menções à escritores como Camus, Kafka, Joyce, Eduardo Barrios povoam o livro. Literatura é algo que o narrador de Fuks leva mesmo à sério. O narrador flana pela cidade, vai a um museu, vê as mães da praça de Maio, procura livros em sebos, mas é no apartamento que tem as sensações mais poderosas: a eclosão de um casulo no banheiro, a sinestesia provocada por uma foto, a conversa críptica com um primo e sua filha pequena. O ritmo do livro lembra "Quase memória", do Carlos Heitor Cony, onde a digressão retarda qualquer ação e desfecho possível. "Procura do romance" é um bom livro. Vamos a ver qual será a próxima aventura literária de Julián Fuks. [início 31/01/2012 - fim 02/02/2012]
"Procura do romance", Julián Fuks, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 142 págs. ISBN: 978-85-01-09474-2

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

corsarios de levante

A narrativa das aventuras do capitão Alatriste neste sexto volume, "Corsarios de Levante", se passa no início de 1627. Após salvarem o dia no final de "El caballero del jubón amarillo", evitando a grande conspiração contra a vida do rei Filipe IV, os dois heróis de Pérez-Reverte, Alatriste e Íñigo, saem de Madrid e se engajam em um galera espanhola pelas águas perigosas do Mar Mediterrêneo. São corsários, marinheiros autorizados por seu rei a combater navios dos países com quem a Espanha estava em guerra. Íñigo está um tanto mais velho e começa a confrontrar Alatriste, não obedecendo-o cegamente, como sempre fez nas aventuras anteriores. Na primeira parte da narrativa Pérez-Reverte faz Alatriste reencontrar um velho amigo seu, o aragonês Sebastian Copons, na cidade portuária de Orán (hoje na Argélia). Lá eles se aventuram em um saque contra os mouros e acabam se afeiçoando a um mogataz (um muçulmano à serviço das forças espanholas) chamado Gurriato. Esta primeira parte serve também para que Pérez-Reverte faça um pouco de sociologia e história, descrevendo a complexa estrutura dos grupos étnicos e culturais da Espanha do século XVII. Após este interlúdio nas terras quentes da África o leitor encontra uma sucessão de encarniçadas batalhas navais. Ao sairem de Orán e voltarem para o mar o grupo de Alatriste se envolve em arriscadas lutas no Mediterrêneo (sempre tendo como base a licenciosa cidade de Nápoles). Eles chegam a combater até as portas de Constantinopla, num arriscado ataque a uma fotilha turca, secundados por forças dos cavaleiros de Malta. As batalhas navais são muito realistas (Pérez-Reverte é reconhecidamente um especialista em marinharia antiga), vívidas e movimentadas como aquelas de Patrick O'Brian, não deixam o leitor abandonar o livro. Pérez-Reverte consegue adaptar com eficiência passagens históricas reais à sua narrativa ficcional. Os altos riscos enfrentados por Alatriste e seus amigos são proporcionais à fama e a riqueza que acabam alcançando, mas a sorte e a fortuna não costumam ser perenes. O final do livro não é exatamente surpreendente, pois o leitor sabe que os personagens principais sobreviverão para outras aventuras nos volumes seguintes da série. "Corsarios de Levante" é um livro divertido, serve para matar o tempo nestes dias vagabundos de férias, mas não é nada espetacular. [início 16/01/2012 - fim 30/01/2012]
"Corsarios de Levante (Las aventuras del capitán Alatriste) volume VI", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de lectura (grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2008), brochura 12,5x19 cm, 336 págs. ISBN: 978-84-663-2021-4 [edição original: Madrid: Alfaguara, 2006]

sábado, 28 de janeiro de 2012

medeia

Medeia (Μήδεια) é uma peça de Eurípides que foi apresentada pela primeira vez no ano 431 AC. A história é terrível e já inspirou muitos autores nesses quase 2.500 anos (boa parte dos mitos gregos já estão tão amalgamados à cultura popular que um sujeito pode até saber algo do que se narra em uma história sem saber das fontes originais). A edição (bilíngue) da editora 34 é impecável. O industrioso Trajano Vieira assina a tradução, um bom posfácio e generosas notas. Um pequeno texto de Otto Maria Carpeaux, que descreve possíveis leituras possíveis do drama, é incluído na edição. Não é uma leitura fácil, mas o texto ainda é capaz de impressionar um sujeito. Medeia é uma princesa/feiticeira que destrói tudo a seu redor ao menos duas vezes. A primeira é por amor, quanto ajuda Jasão e os argonautas na Cólquida (mais ou menos onde hoje é a Geórgia, ex-república soviética). Mas o que é descrito na peça de Eurípides se passa uns dez anos depois dos sucessos da busca de Jasão pelo velocino de ouro (Robert Graves já nos ensinou que este mito deve estar relacionado com pelegos de ovelha que eram utilizados no garimpo de ouro nos rios da região da Cólquida, mas esta é outra história). No texto de Eurípides Jasão é recebido pelo rei de Corinto, repudia seu relacionamento com Medeia e promete se casar com Glauce, a filha do rei Creon. A fúria de uma mulher desprezada nunca pode ser subestimada (principalmente de uma que é sobrinha da feiticeira Circe). Medeia vinga-se da injúria de Jasão matando Glauce, Creon e os dois filhos que teve com ele, fugindo de Corinto e se fixando em Atenas, onde se casa com o rei Egeu. Como em todo mito poderoso a leitura pode gerar muitas interpretações. Medeia não está louca ou transtornada quando mata os filhos. Tudo é premeditado e calculado, como parte de sua vingança. Jasão tenta ser pragmático, político, só vê os aspectos positivos de sua aliança com o rei Creon, até imagina um arranjo onde Medeia continuaria como sua concubina (quando um homo sapiens sapiens se imagina moderno neste início de século XXI eis que um mito qualquer o lembra do quão perene são as vaidades e pulsões humanas). Gostei muito dos personagens secundários, Nutriz (uma ama-de-leite), Pedagogo (o preceptor dos filhos de Medeia) e Coro (que faz a mediação entre o que está fora da peça com o que é descrito nela). Medeia é uma peça sombria, plena de um feminismo militante, incrivelmente adaptável à atualidade. Os gregos sempre tem algo a dizer para um sujeito. Em breve vou experimentar o Agamêmnon, de Ésquilo. Vamos em frente. [início 02/01/2010 - fim 27/01/2010]
"Medeia", Eurípides, tradução de Trajano Vieira, editora 34, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 191 págs. ISBN: 978-85-7326-449-4 [edição original: Μήδεια Atenas (Grécia) 431AC]

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

demasiada nieve alrededor

Javier Marías reúne em "Demasiada nieve alrededor" 96 crônicas, publicadas originalmente na revista El País Semanal entre fevereiro de 2005 e fevereiro de 2007. São um misto de crônicas, reflexões e ensaios (como sói acontecer com Marías), textos que respeitam, sobretudo, a inteligência do leitor, sua capacidade de análise e compreensão da realidade. O título sai de uma história muito boa, na qual Marías fala dos sucessos da vida de John Gawsworth (o terceiro rei do reino literário de Redonda, ilha do Caribe cujo rei literário atualmente é próprio Javier/Xavier Marías, mas esta é uma história intrincada demais para ser discutida aqui). Assim como nas séries de artigos dominicais anteriormente publicados (Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover) não há assunto que seja inadequado para ele. Há ponderações sobre os contumazes aborrecimentos na rotina de sua vida madrilleña; há o martelar incessante contra os desmandos dos poderosos de plantão (não apenas de seu país, mas de todo o orbe); há artigos que falam da nostalgia dos dias de juventude, dos amigos que se perderam - e que se perdem, a cada instante da vida, num sopro; há discussões etimológicas, sobre os usos da língua espanhola - sobretudo do mal uso dela praticado por seus concidadãos; há sua prosa envolvente e desafiadora; há vergastadas nos hipócritas e mentirosos de seu tempo. O Marías dos romances e contos é bem diferente deste Marías cronista, que compartilha conosco suas impressões sobre as coisas banais do dia a dia, mas não é menos convincente que aquele grande inventor de histórias e narrativas. O humor e a ironia dominam os textos e seus comentários parecem obrigar cada um de nós parar um pouco e pensar. Não é uma coisa ordinária ou menor. O que não me canso louvar em seus artigos é a lógica impecável das argumentações. Javier Marías sabe lembrar ao leitor que a realidade é insistente demais para que nos furtemos dela. [início 21/01/2012 - fim 26/01/2012]
"Demasiada nieve alrededor"", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2007), brochura 14x22 cm, 305 págs. ISBN: 978-84-204-7202-7

domingo, 22 de janeiro de 2012

kappa e o levante imaginário

Meses atrás don @hugocrema falou-me de Ryūnosuke Akutagawa, nome que eu desconhecia quase completamente. Já mais recentemente, no início deste ano, organizei um produtivo safari literário paulicéia adentro e lá acabei encontrando - entre outras maravilhas - "Kappa e o Levante imaginário". Akutagawa suicidou-se com 35 anos, em 1927, e chegou a publicar cerca de 150 contos. Descobri que ele é ainda hoje um autor muito respeitado no Japão. Este livro, bem editado pela Estação Liberdade, reúne onze contos, publicados originalmente entre 1915 e 1927 (Kappa, Rashomon, O nariz, Destino, Os salteadores, Inferno, Dragão, As laranjas, A mágica, No matagal, Rodas dentadas.  "No matagal" (Yabu no Naka) deve ser sua história mais conhecida, pois o premiado filme Roshomon, de Akira Kurosawa, é baseado nela. De fato é uma história contada com muita precisão (curiosamente não são os fatos terríveis que importam, mas sim a psicologia e o ânimo das personagens que conquistam o leitor). A seleção de contos é realmente muito boa. Gostei especialmente de "Inferno" (um conto que fala da soberba, vaidade e arte); "As laranjas" e "A mágica" (duas pequenas jóias, que constrastam realidade e sonho, tristeza e alegria, histórias tiradas de cousas cotidianas, que transcendem como por mágica) e "Os salteadores" (uma movimentada história guerreira, de traição e morte). Enfatizo esses, não que os demais sejam contos menores. "Dragão" e "O nariz" são divertidas parábolas morais, ; "Kappa" e "Rodas dentadas" são bastante inventivos, esse último por descrever (autobiograficamente talvez) uma profunda depressão, aquele por apresentar ao leitor um mundo imaginário que decalca a realidade; "Roshomon" e "Destino", são sufocantes, pois cobram leituras sem intervalos. Grande escritor. [início 10/01/2012 - fim 21/01/2012]
"Kappa e o Levante imaginário", Ryūnosuke Akutagawa, tradução de Shintaro Hayashi, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 346 págs. ISBN: 978-85-7448-193-7 [edição original: 河童 Kappa (Tokyo, Japão), 1927]