domingo, 4 de março de 2012

recuerdos de una mujer de la generación del 98

Ganhei este livro de Cristina Polo. Ela o trouxe das terras altas de Pamplona, das prateleiras da librería "El parnasillo", que visitamos com Helga e Natália anos atrás. A memória inteligente pouco ajuda um sujeito nestas coisas, mas desde que comecei  a folhear o livro, antes mesmo de lê-lo, senti vividamente cousas daqueles dias adoráveis em Navarra. Carmen Baroja y Nessi foi irmã do respeitado escritor espanhol Pío Baroja, nasceu em Navarra, em 1883 e morreu em Madrid, em 1950. Foi uma mulher muito dinâmica e industriosa, mas nem a qualidade de seus livros sobre antropologia, nem sua habilidade como artista plástica (gravadora), nem sua capacidade gerencial, demonstradas tanto na organização de um clube de leitura feminino, muito atuante nos anos que antecederam a guerra civil espanhola, quanto na administração dos negócios de sua família, durante um longo período de tempo, trouxeram-lhe reconhecimento em vida (se o preconceito sexista e ideológico ainda são moeda corrente nos dias de hoje, pode-se imaginar como eram as coisas há setenta ou oitenta anos, principalmente na machista Espanha). As memórias de Carmen Baroja foram escritas provavelmente no início dos anos 1940, mas percorrem os aspectos mais fundamentais de sua vida, desde os anos de conforto material e intelectual, na Madrid do início do século XX até os anos terríveis da guerra civil (que ela passou sozinha, com os filhos, em Vera de Bidasoa, uma pequena cidade dos Pireneus espanhóis, que fica a pouco mais de um quilômetro da fronteira com a França). Aliás há uma passagem neste livro de memórias onde Carmen conta sua versão de como seu irmão famoso, Pío Baroja, cruzou a fronteira com a França para fugir dos falangistas de Franco (e eventualmente da morte, claro). É uma versão diferente daquela mais divertida e espirituosa que li recentemente em um livro de Enrique Vila-Matas ("El viajero más lento"). Bem que a Cristina havia me dito que eu me surpreenderia com a ironia e a coragem desta mulher. O livro inclui muitas fotografias. A compilação destas memórias e sua publicação foi feita pela filóloga e tradutora Amparo Hurtado, que assina um prólogo biográfico muito completo e um detalhado índice onomástico, que formam um panorama vívido da política e da literatura da Espanha na primeira metade do século XX. Aprendi um bocado com este livro e fiquei feliz em conhecer algo desta poderosa mulher (apesar da quase invisíbilidade que experimentou em seu tempo). [início 06/01/2012 - fim 03/03/2012]
"Recuerdos de una mujer de la generación del 98: memórias", Carmen Baroja y Nessi, prólogo, edición y notas de Amparo Hurtado, Barcelona: Tusquets editores (colección andanzas), 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm, 181 págs. ISBN: 84-8310-076-2

sábado, 3 de março de 2012

amsterdam

Após uma enfermidade muito debilitante uma mulher morre. Logo após seu funeral a vida de seu marido (George) e três de seus antigos amantes (Clive, Vernon, Julian) parece seguir dominada e enredada por ela. Há um jogo muito interessante neste curto romance de Ian McEwan. Ele alterna (mais do que opor ele contrasta) digressões sobre música clássica e jornalismo político, pragmatismo e arte, amizade e inveja, individualismo e altruísmo. Claro, apesar de algum humor contido, os temas abordados no livro são todos sombrios, o leitor percebe logo que não se trata de um livro para distração leve dos aborrecimentos do dia a dia. Sem ser maçante McEwan descreve algo do processo de construção de uma peça musical sofisticada (Clive é um compositor respeitado, comissionado pelo governo britânico para compor uma sinfonia). Para os melômanos este é mesmo um livro inspirador. Ao mesmo tempo McEwan dá uma idéia de como funciona a redação de um jornal sensacionalista. Cada personagem só se preocupa mesmo com seus problemas e agenda, eventuais pensamentos sobre os outros ocorrem apenas quando estes outros são necessários para seus objetivos imediatos. A frieza e as estratégias mentais que os indivíduos utilizam se justificam pelo hábito apenas. McEwan sabe desnudar a hipocrisia como poucos. O pacto de morte que parece unir todos (especialmente Clive e Vernon) apenas ilustra mais enfaticamente o enorme egoísmo deles. Bom livro. Ainda tenho um ou dois McEwan para ler. Cousa boa saber disto. [início 17/02/2012 - fim 02/03/2012]
"Amsterdam", Ian McEwan, tradução de Paulo Reis, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1999), brochura 14x21 cm, 181 págs. ISBN: 85-325-1049-3 [edição original: Amsterdam (Londres: Jonathan Cape) 1998]

quinta-feira, 1 de março de 2012

o tempo redescoberto

Ler Proust não representa a felicidade, mas não ler Proust é insuportável. Bem disse isso uma vez don Renato Cohen, que partilhou comigo sua leitura dos volumes do ciclo "Em busca do tempo perdido". Nestas últimas semanas reli "O tempo redescoberto", vinte e cinco anos após a primeira vez, como vi anotado no surrado volume que retirei de meus guardados. Reli imerso em sensações boas, desfrutando cada parágrafo, refletindo sobre as idéias, lendo passagens em voz alta para doña Helga, retardando a inevitável chegada a página final, como quem lamenta antecipadamente a perda de um grande bem, de uma jóia rara.  Os aborrecimentos da vida pareceram mais toleráveis, tolos, desprezíveis. Cronologicamente este deve ter sido o primeiro dos livros imaginado por Proust, já que dá conta da gênese dos romances do ciclo. Tão devastadora é a passagem do tempo sobre as personagens e sobre os valores mundanos da sociedade descrita por ele que pouco resta ao leitor, a não ser refletir sobre suas próprias histórias, seus amores, seu comportamento, suas vitórias e derrotas, suas mazelas e diatribes cotidianas. Proust divide este livro em três capítulos, mas os dois primeiros são bem curtos, formam peças que complementam, retrospectivamente, os sucessos daquilo que lemos nos dois volumes anteriores, "A prisioneira" e "A fugitiva" (e também algo dos demais: Sodoma e Gomorra, No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes). O narrador descreve inicialmente como ficou impossibilitado de frequentar as recepções e festas durante um longo período de tempo, por conta de problemas de saúde. No primeiro capítulo ele fala de seus dias em Tansonville, nos anos que antecedem a primeira grande guerra, sendo recebido por Gilberte, com quem relembra os anos de infância e primeira juventude. A metamorfose pela qual passa Saint-Loup é algo inesperado (lembro-me que Paulo Francis defendia ser injustificado), mas se encaixa bem no projeto global do ciclo. O narrador reconhece finalmente sua incapacidade de conceber um projeto literário, como almejava desde muito jovem. No segundo capítulo, já nos anos finais da grande guerra, ele descreve um encontro com o Sr. de Charlus, metamorfeado por sua vez em uma espécie de rei Lear, um homem cujo corpo decrépito encerra uma mente ainda ágil e inteligente, que quase inspira compaixão do leitor. Mas é no terceiro capítulo, onde o narrador descreve sua ida a uma grande recepção na casa dos príncipes de Guermantes, após sua segunda longa internação em um sanatório, que domina o volume. Este capítulo é ao mesmo tempo uma síntese do projeto literário que o narrador programa empreender e um desfecho de todas as histórias mundanas que foram desenvolvidas nos volumes anteriores. Ao se deslocar para a festa o narrador experimenta uma série de epifanias (há um pequeno ensaio de Samuel Beckett onde ele fala do acumulo de sensações que estas epifanias provocam no leitor). Estimulado por estas sensações, que o fazem entender as diferenças entre o valor da memória voluntária, inteligente e o da memória involuntária, ele, ao ser finalmente admitido ao salão principal da recepção, já tem a concepção completa de seu longo romance, que enfeixará miríades de histórias, como nos contos árabes das mil e uma noites. As camadas de entendimento possível sobre cada personagem, sobre o papel de cada personagem no mosaico social a que pertence, sobre a forma como cada indivíduo é lembrado pelas gerações que advêm sucessivamente exemplificam para o leitor o efeito da passagem do tempo. A idéia da morte assusta o narrador, pois ele imagina que talvez não tenha tempo de colocar no papel tudo o que já idealizou, mas a idéia da morte não é um obstáculo, mas sim justamente o contrário, um catalisador do processo criativo. Livros como este emparedam de alguma forma o coração de um sujeito, aprendemos que não há nas relações sociais valores intrínsicos e/ou imutáveis, que a vida é mesmo um sopro, que a energia que depreendemos para manter uma posição social, um papel na sociedade, não vale muita coisa. Um leitor preguiçoso talvez pudesse apenas ler este capítulo. Claro, ele perderia infinitas maravilhas, inúmeros prazeres, incontáveis momentos de alegria, mas poderia dizer que entende qual é o projeto do livro, do que é mesmo que se trata na obra de Proust. Talvez eu tenha a sorte de viver uns outros vinte e cinco anos e tenha a sorte de reler os volumes deste ciclo. Gostaria de saber como será a encarnação do velho e cansado Guina aos setenta e cinco anos (um senil consumido pelo Alzheimer, incapaz de compreender as sutilezas das histórias ou um senhor de longas cãs e bonachão, já menos amargo, que desfruta novamente o jardim de delícias criado por Proust). Logo veremos. [início 17/02/2012 - fim 29/02/2012]
"Em busca do tempo perdido: O tempo redescoberto (vol.7)", Marcel Proust, tradução de Lúcia Miguel Pereira, Porto Alegre: editora Globo, 7a. edição (1983), brochura 14x21 cm, 252 págs. sem ISBN [edição original: Le Temps retrouvé (éditions Gallimard), 1927]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

el puente de los asesinos

“El puente de los asesinos” é o sétimo volume das aventuras do capitão Alatriste. É o antepenúltimo dos livros prometidos por Arturo Pérez-Reverte para a saga de seu personagem mais famoso. A narrativa segue quase imediatamente os sucessos de “Corsários de Levante”. Alatriste, Íñigo, Copons e Gurriato, ainda se recuperando dos acidentes de sua última aventura, estão vagabundeando na licenciosa Nápoles quando são recrutados para uma expedição militar muito arriscada: matar o doge da sereníssima república de Veneza, no preciso instante em que ele estivesse sozinho na gloriosa basílica de são Marcos, na noite da missa do galo do natal de 1627. A empresa é mirabolante e inverossímil, claro, mas o leitor não tem porque duvidar da possibilidade de Alatriste e seus comandados chegarem a bom termo em seus propósitos. O fator complicador (e apresentado logo do início do romance) é a presença de Gualterio Malatesta, o sinistro espadachim italiano, antagonista de Alatriste, que havíamos visto, pela última vez, acorrentado pela milícia do rei Felipe IV, rumo a torturas e segura morte logo após o que é descrito no “El cabellero del jubóm amarillo”. Apesar do risco absurdo Alatriste, como todo bom herói trágico, resolve participar do projeto, pois há pedidos para os quais não se pode dizer não (principalmente aqueles cuja origem é o poderoso conde-duque de Olivares, o valido do rei, importante figura do xadrez político do século de ouro espanhol). A narrativa (e a organização do ataque, que envolve três duzias de pessoas) segue de Nápoles a Roma, depois Milão e Veneza. Esse volume da série Alatriste deve muito aos romances de espionagem de John le Carré ou Ian Fleming. Os personagens/indivíduos se comportam como peças de um jogo maior, que não controlam, mas são disciplinados e tentam cumprir as tarefas a que foram designados. Íñigo está menos rebelde que no volume anterior. Alatriste um tanto mais soturno e cerebral do que o costume. As descrições dos palazzos, das igrejas, do poderoso Arsenale, dos canais e vielas, dos rio tera estreitos, dos bares repletos de indivíduos suspeitos hipnotizam o leitor. É sempre doce flanar e sentir saudades de Veneza. Após muitas escaramuças, traições, violência e combates singulares (e após o inevitável fracasso da empreitada) o grupo termina em uma pequena ilhota próxima ao Lido, esperando ser resgatado pelos espanhóis. Pérez-Reverte usa várias vezes um patois linguístico, que ele atribui ser a língua franca do mediterrâneo daqueles dias do século XVII. Apesar do inegável valor historiográfico destas histórias, a narrativa fica comprometida pela certeza que temos da invulnerabilidade dos personagens principais (sabemos que Alatriste sobreviverá para combater outras batalhas, que Íñigo viverá muitos anos até escrever as memórias que iremos ler). De qualquer forma, como diversão ligeira, o romance funciona, mas certamente não é dos melhores da série que li até aqui. Paciência. O livro inclui ilustrações muito boas assinadas por Juan Mundet e, como usualmente nos romances de Pérez-Reverte, sonetos e redondilhas que ele atribui a poetas e dramaturgos reais (Quevedo, Lope de Vega, Góngora) e inventados (o mais óbvio é o de Xavier Marías Franco, rey de Redonda). Estes jogos metaliterários funcionam quando são divertidos. [início 28/01/2012 - fim 31/01/2012]
"El puente de los asesinos", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones) , 1a. edição (2011), brochura 17,5x24 cm, 270 págs. ISBN: 978-84-204-0709-8

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ni se les ocurra disparar

Javier Marías reúne em "Ni se les ocurra disparar" 97 crônicas, publicadas originalmente na revista El País Semanal entre fevereiro de 2009 e fevereiro de 2011. A leitura dessas séries de artigos para jornal tornou-se ainda mais interessante assim que conheci o bom "The companion of Javier Marías". O autor deste livro, David Herzberger, descreve muito bem como Marías criou uma persona que assina esses artigos, ora se confundindo com o escritor e cidadão Javier Marías, mas noutras vezes atuando como uma das personagens de seus romances, com uma liberdade que permite comentários mais dramáticos e impactantes. De fato nesta coleção de artigos há textos factuais, que descrevem seu entendimento imediato da realidade espanhola (ele é um dos sujeitos mais argutos e convincentes que conheço, além de ter uma coragem inusual), mas também há textos onde são as reflexões sobre a memória que servem de elementos para construção de peças muito inventivas. Sua capacidade de análise e sua lógica são mesmo surpreendentes e de certa forma ele antecipa o recrudescimento e os desdobramentos mais terríveis da crise econômica da sociedade espanhola. Há quanto tempo já li Marías falando do franquismo redivivo de seus dias?; de como o espírito e comportamentos fascistas tem contaminado sociedades democráticas mundo afora? Ele também se preocupa muito com questões de linguagem, com os usos da língua espanhola; de como não sabemos ver e entender a vida real com a mesma transparência com que vemos coisas no cinema ou lemos nos livros. Dosando com rara habilidade ironia e emoção seus comentários ácidos, que podem por vezes parecerem diatribes de um casmurro, de um pessimista, demonstram ser crônicas de vida de alguém que sabe mesmo como se comportam os homens. Grande sujeito. Para quem quer conhecer algo mais recomendo sem medo a leitura de Mano de sombra, Seré amado cuando falte, A veces un caballero, Harán de mí un criminal, El oficio de oír llover, e Demasiada nieve alrededor. [início 09/02/2012 - fim 16/02/2012]
"Ni se les ocurra disparar"", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2011), brochura 14x22 cm, 348 págs. ISBN: 978-84-204-0849-1

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

a companion to javier marías

Ler Javier Marías é das coisas mais gratificantes que fiz nos últimos anos. Além do encantamento provocado por seu estilo e vocabulário, cada um de seus livros fez-me refletir sobre assuntos sobre os quais talvez eu não atentaria, caso não tivesse a fortuna de encontrá-los (devo isto a doña Cristina Gomez-Polo, amiga madrileña que vive agora nas terras altas de Navarra). "A companion to Javier Marías" é um livro para quem já leu a obra ficcional de Marías e quer partilhar das impressões de um especialista, no caso, David Herzberger, professor de um departamento de estudos espanhóis na Universidade da California. Herzberger discute toda a obra ficcional de Marías, com a exceção do último de seus romances, Los enamoramientos. Também ficam de fora os livros onde estão compilados sua produção jornalística, suas contribuições dominicais publicadas em jornais espanhóis, atividade a qual ele se dedica ininterruptamente desde o início dos anos 1990. A apresentação é praticamente cronológica, como talvez um leitor neófito devesse mesmo abordar o conjunto de romances de Marías. A introdução é realmente muito boa, pois não apenas fala do estilo, influências, técnicas e procedimentos literários utilizadas por Marías, mas também um tanto sobre a sociedade espanhola da segunda metade do século passado (interessante para contextualizar o trabalho de Marías no conjunto da literatura espanhola produzida neste período). Como em todo bom "Companion book", os livros são analisados estruturalmente, de forma a simultaneamente destrinchar a narrativa e desnudar a técnica. Herzberger faz isto muito bem. As citações que ele escolhe provocam no leitor já familiarizado com os originais o desejo de voltar a eles. Os comentários sobre os romances são apresentados por blocos: Los domínios del lobo e Travesía del horizonte; El siglo e El hombre sentimental; Todas las almas e La negra espalda del tiempo; Corazón tan blanco e Manãna em la batalla piensa em mí; Tu rostro mañana. Isto ajuda um leitor que queira informações de volumes específicos a se localizar mais facilmente. A descrição da psicologia dos personagens que frequentam volumes distintos da obra de Marías e a análise de seus Leitmotivs (tempo e memória, imaginação e realidade, justiça e vingança, o acaso, cinema, Shakespeare) me pareceram muito pertinentes. Cito três que todos os leitores de Marías devem conhecer e/ou reconhecer de alguma forma: (i) que seus personagens são sempre muito observadores e usualmente tem uma compreensão nítida da realidade objetiva; (ii) que nas obras de Marías a metalinguagem e a intertextualidade não são meros artifícios; (iii) que para ele também a realidade deve ser imaginada, pois a narrativa ficcional não reproduz a realidade, antes sim produz distorções e transformações que contingenciam a própria realidade. Herzberger incluí também digressões sobre Vidas escritas e Miramientos; Mientras ellas duermen, Cuando fui mortal e El monarca del tiempo (breves biografias os dois primeiros, conjuntos de contos os dois seguintes e um romance híbrido, o último). O leitor também não vai poder reclamar da completa bibliografia, que inclui toda a fortuna crítica existente (em inglês) sobre sua obra. Grande livro. [início 17/01/2010 - fim 09/02/2010]
"A companion to Javier Marías", David E. Herzberger, Woodbridge (Suffolk, UK): Tamesis books (Boydell & Brewer), 1a. edição (2011), capa-dura 16x24 cm, 244 págs. ISBN: 978-1-85566-230-8

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a fugitiva

Ainda em janeiro do ano passado eu havia decidido reler o ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, como forma de comemorar meus cinquenta anos. Comecei pelos volumes bens reeditados pela editora Globo a partir de 2006. Todavia eles não conseguiram até agora produzir - sabe-se lá por quê - os dois últimos volumes (este A Fugitiva e O tempo redescoberto). Voltei então a meus surrados volumes de vinte e cinco anos atrás. Eles estão bem amarelados, as folhas quase teimando em se soltar, mas ainda se prestam aos prazeres da leitura. Metade de "A fugitiva" segue quase imediatamente os sucessos de "A prisioneira". Após a intempestiva fuga de Albertine o narrador passa a alternar dois sentimentos contraditórios: lamenta a perda dos prazeres de sua companhia e se alegra com o tempo que poderá dedicar a seus projetos literários. Mas como o hábito é um amigo cruel logo faz com que o ciúme fale mais alto e o narrador passa a se esforçar por reencontrá-la. Infelizmente, com o tempo, ele acaba tendo uma surpresa ainda mais atroz que a confirmação de suas suspeitas em relação aos relacionamentos amorosos de Albertine. A segunda metade do livro tem três capítulos curtos que antecipam as revelações do último volume do ciclo. No primeiro reecontramos Gilberte Swann, por quem um dia o narrador foi um devoto apaixonado. Ela tornou-se uma herdeira muito rica, sutilmente disputada por aristocratas, apesar dos preconceitos em relação a sua ascendência judaica e do passado duvidoso de sua mãe. No segundo destes capítulos o narrador finalmente visita Veneza com sua mãe, afastando-se dos aborrecimentos mundanos e sofrimentos que a lembrança de Albertine provocavam. Aparecem os primeiros argumentos sobre a implacável passagem do tempo nos personagens (que serão explorados no volume final do ciclo). Descobrimos que a velhice só não retira o desejo das pessoas. A geografia desta parte é algo confusa, mas qualquer pessoa que já tenha tido a fortuna por flanar por Veneza suspirá seus ais junto com o narrador. O capítulo final também apresenta surpresas. Robert de Saint-Loup se casa com Gilberte Swann, de certa forma unindo os dois caminhos da infância do narrador em Combray (os caminhos de Swann e de Guermantes). Mas o Saint-Loup que reencontramos é um personagem diferente. Mas sobre metamorfoses como esta, que mais de surpreendentes são habilmente descritas pelo narrador, escreverei só após reler "O tempo redescoberto". Comparado com todos os volumes anteriores este tem um ritmo frenético, mas não pela movimentação dos personagens e sim por toda a realidade que é imaginada. Com o material que acumulou nos volumes anteriores Proust parece construir todo um mundo novo em poucas páginas. Impossível não ficar encantado com o poder de sua imaginação. [início 02/02/2012 - fim 09/02/2012]
"Em busca do tempo perdido: A fugitiva (vol.6)", Marcel Proust, tradução de Carlos Drummond de Andrade, Porto Alegre: editora Globo, 6a. edição (1983), brochura 14x21 cm, 214 págs. sem ISBN [edição original: Albertine Desparue (éditions Gallimard), 1927]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

procura do romance

Julián Fuks é jornalista e crítico literário. Em 2008 li dele o bom "Histórias de literatura e cegueira", um pequeno livro de ensaios e entrevistas onde mais que o jornalista e seus biografados eram eles, Jorge Luís Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce, que pareciam dialogar. "Procura do romance" é um romance sutilmente metaliterário. Sebastián, o narrador da história, chega a um apartamento de Buenos Aires onde morou quando era ainda criança, ainda nos primeiros anos da escola primária. O apartamento parece simultaneamente familiar e desconhecido, o narrador percorre cada cômodo experimentando pequenas lembranças que surgem da escuridão. Sebastián parece ter um projeto literário, escrever uma história baseada na fuga e exílio de seus país, mas também parece querer rememorar, entender melhor, um acidente que ele imagina ter provocado, obrigando sua mãe a ficar presa à cama naqueles anos bonaerenses (esta parte lembra - com sinais trocados - os encontros do narrador de Proust com sua mãe, no "Em busca do tempo perdido").  Os capítulos são mais ou menos uniformes em extensão. Alternados às lembranças esparsas do narrador o leitor encontra reflexões sobre a teoria do romance, de seus procedimentos técnicos, das relações entre a literatura e outras formas de arte, como a dança, a pintura e a fotografia, que também possibilitam captar o encantamento da vida e construir metáforas (gostei muito de uma delas, que contrasta ruas e neurônios). Citações e menções à escritores como Camus, Kafka, Joyce, Eduardo Barrios povoam o livro. Literatura é algo que o narrador de Fuks leva mesmo à sério. O narrador flana pela cidade, vai a um museu, vê as mães da praça de Maio, procura livros em sebos, mas é no apartamento que tem as sensações mais poderosas: a eclosão de um casulo no banheiro, a sinestesia provocada por uma foto, a conversa críptica com um primo e sua filha pequena. O ritmo do livro lembra "Quase memória", do Carlos Heitor Cony, onde a digressão retarda qualquer ação e desfecho possível. "Procura do romance" é um bom livro. Vamos a ver qual será a próxima aventura literária de Julián Fuks. [início 31/01/2012 - fim 02/02/2012]
"Procura do romance", Julián Fuks, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 142 págs. ISBN: 978-85-01-09474-2

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

corsarios de levante

A narrativa das aventuras do capitão Alatriste neste sexto volume, "Corsarios de Levante", se passa no início de 1627. Após salvarem o dia no final de "El caballero del jubón amarillo", evitando a grande conspiração contra a vida do rei Filipe IV, os dois heróis de Pérez-Reverte, Alatriste e Íñigo, saem de Madrid e se engajam em um galera espanhola pelas águas perigosas do Mar Mediterrêneo. São corsários, marinheiros autorizados por seu rei a combater navios dos países com quem a Espanha estava em guerra. Íñigo está um tanto mais velho e começa a confrontrar Alatriste, não obedecendo-o cegamente, como sempre fez nas aventuras anteriores. Na primeira parte da narrativa Pérez-Reverte faz Alatriste reencontrar um velho amigo seu, o aragonês Sebastian Copons, na cidade portuária de Orán (hoje na Argélia). Lá eles se aventuram em um saque contra os mouros e acabam se afeiçoando a um mogataz (um muçulmano à serviço das forças espanholas) chamado Gurriato. Esta primeira parte serve também para que Pérez-Reverte faça um pouco de sociologia e história, descrevendo a complexa estrutura dos grupos étnicos e culturais da Espanha do século XVII. Após este interlúdio nas terras quentes da África o leitor encontra uma sucessão de encarniçadas batalhas navais. Ao sairem de Orán e voltarem para o mar o grupo de Alatriste se envolve em arriscadas lutas no Mediterrêneo (sempre tendo como base a licenciosa cidade de Nápoles). Eles chegam a combater até as portas de Constantinopla, num arriscado ataque a uma fotilha turca, secundados por forças dos cavaleiros de Malta. As batalhas navais são muito realistas (Pérez-Reverte é reconhecidamente um especialista em marinharia antiga), vívidas e movimentadas como aquelas de Patrick O'Brian, não deixam o leitor abandonar o livro. Pérez-Reverte consegue adaptar com eficiência passagens históricas reais à sua narrativa ficcional. Os altos riscos enfrentados por Alatriste e seus amigos são proporcionais à fama e a riqueza que acabam alcançando, mas a sorte e a fortuna não costumam ser perenes. O final do livro não é exatamente surpreendente, pois o leitor sabe que os personagens principais sobreviverão para outras aventuras nos volumes seguintes da série. "Corsarios de Levante" é um livro divertido, serve para matar o tempo nestes dias vagabundos de férias, mas não é nada espetacular. [início 16/01/2012 - fim 30/01/2012]
"Corsarios de Levante (Las aventuras del capitán Alatriste) volume VI", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de lectura (grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2008), brochura 12,5x19 cm, 336 págs. ISBN: 978-84-663-2021-4 [edição original: Madrid: Alfaguara, 2006]