quarta-feira, 25 de abril de 2012

as coisas

Primeiro livro publicado de Georges Perec, "As coisas" não é interessante como "Vida: modo de usar", nem tem as curiosidades linguísticas caras ao OuLiPo, como "A disparition" ou "Les revenentes", mas é o tipo de narrativa que vale o tempo de um sujeito. É um livro pequeno, pouco mais de cem páginas, que lembra o "Bouvard e Pécuchet", de Flaubert, mas que não disfarça uma leitura marxista da história, algo esquemática demais para o meu gosto. Perec descreve uma sociedade de consumo ainda incipiente, mas que já no tempo da narrativa, início dos anos 1960, domina as ações, projetos e desejos de um jovem casal. Jérôme e Sylvie abandonam os estudos universitários e passam a trabalhar no ramo da publicidade, com pesquisas de opinião. Flertam com uma vida pequeno-burguesa, alternando períodos de ganhos financeiros expressivos e aborrecimentos; viagens caras e gasto de tempo ou dinheiro com futilidades; preocupações com o futuro e sonhos imbecis (que só completos idiotas, mas felizes, sabem ter). Perec parece antecipar o mundo em que vivemos, onde dificilmente um sujeito escapa da sedução do consumismo e das aparências. Não há surpresas no desfecho da história de Jérôme e Sylvie. Após uma temporada difícil nas colônias africanas eles voltam à França e ao conforto material que só o mundo do dinheiro sabe oferecer. Perec (que era um sujeito muito bem humorado e irônico) iria se divertir á beça neste adorável mundo novo em que vivemos, onde a estupidez é mesmo uma poderosa moeda de troca. [início 20/04/2012 - fim 24/04/2012]
"As coisas: uma história dos anos sessenta", Georges Perec, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, São Paulo: Companhia das Letras , 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 116 págs. ISBN: 978-85-359-2021-5 [edição original: Les Choses: Une histoire des années soixante (Paris: Éditions René Julliard) 1965]

segunda-feira, 23 de abril de 2012

e foram todos para paris


Boa parte do material que encontramos em "E foram todos para Paris" foi publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em julho de 1990, em uma edição comemorativa do bicentenário da revolução francesa. Apesar de ser apresentado como um tipo de guia de viagem, acho que este livro serve somente para estimular um sujeito a flanar por Paris, pouco incluindo de um guia verdadeiramente útil. Sérgio Augusto faz um censo dos lugares na capital francesa onde moraram dezenas de americanos, principalmente nas primeiras quatro décadas do século XX. Ele leva o leitor a passear pelos arrondisements e quarties de Paris e conta causos divertidos daquela geração de escritores, jornalistas, compositores, fotógrafos e artistas que fizeram bom uso do câmbio favorável daquela época e viviam ali como príncipes desterrados. O livro inclui muitas ilustrações e uma generosa bibliografia. O leitor interessado poderá encontrar ali boas indicações (sempre é bom ler sobre Paris). Os vários mapas incluídos no livro ajudam aqueles interessados em peregrinações às antigas moradias descritas por Sérgio Augusto, mas faz falta um mapa panorâmico do centro da cidade, que auxilie o leitor não familiarizado com as distâncias e a posição dos bairros, a organizar seus roteiros pessoais. Sérgio Augusto brinca dizendo que este livro inclui tudo o que o editor do jornal à época não incluiu. Pois esta é justamente a fragilidade do livro: incluir detalhes bobos ou irrelevantes demais, em detrimento da concisão de um genuíno guia de viagem. Paciência. [início 14/04/2012 - fim 15/04/2012]
"E foram todos para Paris -  um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia", Sérgio Augusto, Rio de Janeiro: editora Casa da Palavra, 1a. edição (2011), brochura 12,5x21 cm, 126 págs. ISBN: 978-85-7734-225-9

domingo, 22 de abril de 2012

a criança no tempo

Ambientado principalmente na Londres dos anos 1970, "A criança no tempo" parte de um fato violento e trágico, mas o que interessa e prende a atenção do leitor não é a solução do enigma ou crime associado a este fato, mas antes a habilidade de Ian McEwan de manipular o tempo das histórias que narra, de apresentar simultaneamente causas e efeitos, contrariando o que geralmente associamos à correta ordem temporal das coisas. A descrição de processos quase inconscientes, a relação destes com o tempo que se dilata nos pensamentos dos personagens também são utilizados de forma muito original por McEwan. O protagonista da história é Stephen, um escritor de livros infanto-juvenis de algum sucesso. Numa manhã de sábado ele vai ao supermercado com sua filha de três anos e se perde dela. O leitor nunca ficará sabendo se ela foi simplesmente sequestrada ou morta, nem se houve uma motivação específica para seu desaparecimento. Ele e sua mulher reagem à perda com dor e depressão. Separam-se. O leitor é apresentado a tudo isto em umas poucas páginas, menos que um quinto do livro. A criança (Kate) fica congelada no tempo, na memória dos demais, mas o livro segue. Há muito mais para o deleite do leitor. Stepehn faz parte de uma comissão governamental que objetiva escrever um documento orientador das políticas governamentais sobre cuidados de saúde e de educação das crianças inglesas. As reuniões são monótonas e burocráticas, mas servem ao propósito de afastar a filha desaparecida de suas lembranças. McEwan contrasta o papel ordenador do estado com a realidade caótica das famílias. Há uma ironia terrível na leitura de McEwan dos trabalhos desta comissão. A pediatria e a pedagogia parecem apenas exercícios patéticos de manipulação de massas. McEwan fala das relações de Stephen com o curioso casal formado por uma física quântica e o mentor literário e político de Stephen, um sujeito complexo chamado Charles Drake. As memórias dos pais de Stephen, nos anos duros do pós-guerra, povoam a história, pontuando as reações dele à perda da filha e seu processo depressivo. Ainda mais curioso é o papel protagonizado pelo primeiro-ministro inglês, personagem que parece apaixonado pelo amigo de Charles e que procura em Stephen uma forma de se relacionar com ele. McEwan apresenta várias questões interessantes: sobre loucura e bipolaridade; sobre a contenção emocional inglesa; sobre o papel das ciências na sociedade civil; sobre os contrastes entre a cidade e o campo inglês; sobre a irreversibilidade de todas as decisões, mesmo as mais irrelevantes. Os deslocamentos dos personagens parecem jogar com as contrações da distância e dilatação do tempo da teoria da relatividade, mas isto não é forçado no livro, nem soa artificial em momento algum. O humor, ou antes, os vários trechos da narrativa que são bem humorados, parecem indicar ao leitor que é preciso relaxar dos assuntos áridos antes de seguir a leitura. Devemos refletir sobre o que é dito pelos personagens. Livro muito interessante mesmo. [início 16/04/2012 - fim 19/04/2012]
"A criança no tempo", Ian McEwan, tradução de Geni Hirata, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm, 151 págs. ISBN: 85-325-0732-8 [edição original: The child in time (Londres: Jonathan Cape) 1987]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

aire de dylan

Em "Aire de Dylan" Enrique Vila-Matas conta uma história especialmente cara a todos que já vagaram com calma pelas ruas simétricas do Eixample, em Barcelona. Boa parte do que é narrado no livro acontece pelos carrers e nas pequenas lojas, cafés, hotéis, livrarias, bares e restaurantes daquele bairro. O leitor encontra nestas páginas até a Filmoteca de la Generalitat, que fica na Avinguda Sarriá, um lugar maravilhoso. "Aire de Dylan" funciona como uma espécie de volta à Ítaca, ou seja, uma volta racional para casa (para o bairro barcelonês), após os sucessos nos labirintos de Dublin em seu livro anterior, o divertido "Dublinesca", no qual um editor, Samuel Riba, organiza um funeral para a "Era de Gutenberg". O narrador de "Aire de Dylan" não é nominado e em muito pode ser obviamente identificado com o Vila-Matas real, se é que isto ajuda em alguma coisa (afinal, de que adianta seu personagem estar em São Paulo nas mesmas datas que Vila-Matas visitou-a?). Após uma longa carreira literária ele decide não mais escrever livros. Decide isso logo após ser convidado para participar de um congresso literário sobre o fracasso (o início de todos os livros dele que já li sempre são absurdamente inventivos e mesmo as coisas mais amalucadas acabam funcionando). Lá ele conhece um jovem compatriota seu (dono de um improvável nome, Vilnius) que apresenta um relato sobre o fracasso no lugar de seu pai, um escritor barcelonês morto recentemente, que havia sido convidado para o congresso. O inusitado relato biográfico de Vilnius aproxima-o do veterano escritor/narrador. A partir daí Vila-Matas alterna sketches dramáticos, onde Vilnius continua a descrever o tenso relacionamento que mantinha com seu pai, com as reflexões do narrador sobre o comportamento de seu jovem amigo. Há um paralelismo óbvio com o Hamlet de Shakespeare, principalmente na dificuldade de Vilnus em tomar uma decisão quando fica sabendo que a morte de seu pai não foi acidental. Ao mesmo tempo o livro descreve com sarcasmo como editores, escritores e leitores compartilham versões de um projeto editorial. Vila-Matas parece apresentar ao leitor um contraste entre o poder de síntese narrativa de um velho escritor e o uso algo artificial de técnicas metalinguísticas na construção das histórias do jovem. Enquanto um parece cansado e entediado das repetições do mundo literário (mas não obstante continua a escrever, prova é o livro que o leitor tem nas mãos), o outro se recusa a agir, a produzir ele mesmo um relato biográfico válido das aventuras de seu pai (apenas as narra, em seus blocos teatrais, delegando a tarefa de grafar ao velho narrador). Enquanto um personagem é disciplinado (e escreve o livro que lemos) o outro opta voluntariamente por deixar o tempo passar (Vila-Matas afirma que pessoas assim são discípulos de Oblomov, um personagem do escritor russo Ivan Goncharov). A ironia de Vila-Matas é mesmo poderosa. Ele parece alertar o leitor para a facilidade aparente que um texto pode ter (coisa muito corrente nestes dias, onde os manuais de lixeratura e cursos rápidos de escrita criativa dão a entender que qualquer sujeito pode se transformar em um escritor num passe de mágica). Há muito mais referentes neste livro: a obsessão cinematográfica de Vilnius com um filme obscuro cujo roteirista foi Scott Fitzgerald; o flerte de Vila-Matas com a literatura policial descompromissada, como nos romances de Agatha Christie; a vida como sonho - como aquele imaginado por Calderón de la Barca; as delícias do dolce far niente invocados por uma música de um filme de 007 (o satânico Dr. No); um fim de mundo antecipado por Bob Dylan durante o festival de Newport; a versão de james Joyce para o dilema de Hamlet; uma eventual inspiração em um livro de Nabokov (aprendi isso no bom blog El lamento de Portnoy). Quem gosta dos jogos metaliterários de Vila-Matas se diverte um bocado. Por fim, dentre os livros de Vila-Matas que já li, este é dos que mais me agradou. [início 28/03/2012 - fim 10/04/2012] 

"Aire de Dylan", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral (Biblioteca Breve), 1a. edição (2012), brochura 13,5x23 cm, 327 págs. ISBN: 978-84-322-0964-2

quarta-feira, 11 de abril de 2012

guia de ruas sem saída

Num romance onde texto e  desenhos se alternam, Joca Reiners Terron conta uma história curiosa. Trata-se de uma reflexão sobre a morte. Algo dela lembra coisas do Naked Lunch (do livro de Burroughs e do filme do Cronenberg). Se é que eu entendi bem um sujeito sai da cadeia e no ônibus que o leva para uma grande cidade tem uma idéia original. Para entreter os dois filhos de uma mulher que está sentada a seu lado ele inventa um super-herói, um personagem de histórias em quadrinhos, que ele chama de homem escada. A idéia se revela promissora. Ele consegue editar um livro com este personagem por uma editora importante. Faz muito sucesso, torna-se uma celebridade, casa-se com uma mulher bonita, tem uma filha e cuida de um gato. Um dia, ao voltar para casa após ficar vagabundeando por bares da cidade, vê um prédio em chamas e assiste, aterrorizado, a morte daquela mulher e os dois filhos que ele conheceu quando saiu da cadeia (e que lhe inspiraram seu super-herói). Ele torna-se uma pessoa violenta, abusa da bebida e de sexo casual. Acaba sendo abandonado pela mulher. Já bastante debilitado ele descobre que está com problemas sérios de saúde (ele expele chips de computador junto com as fezes). O que escrevi acima corresponde apenas a um quarto do romance. As outras três quartas parte da história envolvem a narrativa da consciência de um outro sujeito, que está a espera de um transplante de fígado no exterior. Ficamos sabendo que o cartunista da primeira parte é o doador do fígado, não exatamente um doador voluntário. Aparentemente ele foi enganado por médicos e levado a uma clínica que torna sujeitos idiotas como ele matéria prima do mercado de tráfico de orgãos. A consciência deste cartunista volta a se manifestar através da lembrança de suas misérias e desgraças, enquanto seu corpo é preparado para o transplante. Outros orgãos de seu corpo são retirados, veremos depois. A memória do super-herói, homem escada, se esvai com ele. Descobrimos que o antigo empregador do cartunista (o dono da editora) é provavelmente dono da clínica onde foi feito o transplante (e provavelmente se relaciona com sua ex-mulher e sua filha). Os bandidos sempre ficam com a mocinha no final dos bons filmes. O sujeito transplantado (se é que o foi), morre. É cremado, suas cinzas esquecidas pela mulher em um parque. Sua mulher lamenta-se um tanto, cumpre bem o papel de viúva inconsolável, mas suas lágrimas secam depressa, a perda do marido não é exatamente um fardo. É possível encontrar graça na morte (principalmente se não é a sua). A história de Joca Terron se defende bem e leva o leitor a pensar. Curiosamente, ontem mesmo ele publicou um texto (que também é parte de um romance) corajoso e nada piegas sobre seus problemas de saúde. Parece que de alguma forma as vicissitudes de seus personagens já o assombravam de alguma forma. Talvez ele, diferentemente de seus protagonistas, antecipasse o quanto ficção e realidade podem trocar de sinais, pois seu narrador grafa logo no início do livro: "Somente se aquilo que foi imaginado aconteceu realmente", em resposta a uma pergunta sobre as lembranças serem ou não matéria inventada. Também a realidade tem de ser inventada (já nos disse a gloriosa Isak Dinesen - aprendi isso com Javier Marías). Espero que Joca Terron continue em forma e pronto para nos oferecer mais de seus instigantes livros. [início 23/03/2012 - fim 25/03/2012]
"Guia de ruas sem saída", Joca Reiners Terron, desenhos de André Ducci, São Paulo: Selo Edith, 1a. edição (2011), brochura 15x20,5 cm, 256 págs. ISBN: 978-859039358-0

domingo, 8 de abril de 2012

a crônica dos wapshot

"A crônica dos Wapshot" é o primeiro romance de John Cheever. Foi premiado com o National Book Awards de 1958. Fazia tempo que não lia um livro tão divertido. Todavia há algo de perverso neste divertimento. John Cheever parece zombar de seus personagens, apresentando-os ao leitor sempre com sarcasmo. Cheever conduz sua narrativa num ritmo frenético, acumulando histórias e pequenos causos que se encaixam num crítico e complexo panorama da decadência de uma família da região nordeste dos Estados Unidos. O mais patético dos curiosos personagens de Cheever é Leander Wapshot. Ele comanda um pequeno navio de cabotagem, organizando passeios e algum transporte comercial pelo delta de uma região que está longe das rotas de navegação importantes e economicamente viáveis. Leander e sua família são dependentes economicamente de uma prima sua, uma velha senhora chamada Honora. Leander espera fazer de seus filhos, Moses e Coverly, herdeiros dela. O livro é organizado em três grandes blocos de histórias. A primeira parte é basicamente linear, onde acompanhamos a genealogia e o cotidiano dos Wapshot até a saída algo abrupta dos irmãos Moses e Coverly da cidade onde se passa a história (também ela uma espécie de personagem, St. Botolphs). Na segunda parte Cheever fragmenta sua narrativa, alternando capítulos com as memórias de juventude (algo inventadas) de Leander e o cotidiano dos irmãos em Nova Iorque e em Washington. Difícil dizer qual dos dois é mais inepto e desafortunado, tanto na vida profissional quanto em seus envolvimentos afetivos. Na terceira parte do livro acompanhamos a vida conjugal de Moses e Coverly com duas mulheres tão amalucadas quanto eles. Ficamos sabendo também que Leander sobreviveu ao naufrágio de seu barco (provocado por sua própria inaptidão) e que Sarah, sua mulher, montou um promissor negócio de presentes e turismo (usando os destroços do navio de seu marido) deixando-o bastante contrariado. O nascimento dos filhos de Moses e Coverly os reconcilia com a matriarca Honora, a única que parece ter dinheiro na família. Cheever reserva duas boas passagens cômicas para o final, uma no funeral de Leander e outra na descoberta dos últimos apontamentos de seu livro de memórias. Como sou dado a fazer associações amalucadas entre tudo o que leio não me furto de registrar que "A crônica dos Wapshot" parece ser uma versão arquetípica do "Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Márquez. Claro, Cheever é bastante realista e não contamina seu livro com surrealismos e invenções mágicas, nem multiplica seus personagens à exaustão, como faz Garcia Márquez, mas o sentido trágico da narrativa, a ironia e o humor, a espiral de decadência, a repetição dos erros cometidos pelos personagens e o estoicismo com que eles aceitam suas misérias, parece aproximar de alguma forma estes dois livros. Seguro que vou procurar mais livros desde sujeito. [início 08/03/2012 - fim 21/03/2012]
"A crônica dos Wapshot", John Cheever, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, São Paulo: editora Companhia das Letras (Companhia de Bolso), 1a. edição (2011), brochura 12,5x18 cm, 309 págs. ISBN: 978-85-359-1941-7 [edição original: The Wapshot Chronicle (New York: Harper) 1957]

quarta-feira, 21 de março de 2012

lección pasada de moda

Os quarentas e nove textos deste "Lección pasada de moda" são ouro puro, muito bons mesmo. O mais antigo é de 1987 e os mais recentes de 2011. O leitor pode encontrá-los dispersos por dez volumes de artigos de Marías, como por exemplo  Mano de sombra, Harán de mí un criminal ou Ni se les ocurra disparar, mas reunidos aqui eles ganham maior potência e funcionam como um quase-ensaio de filologia (um sujeito fica até envergonhado de escrever qualquer coisa logo após terminar o livro, tamanha a vertigem). Nestes textos Marías fala sobre o uso (sobretudo o mal uso) da língua espanhola. Filósofo de formação, professor e tradutor experimentado, escritor muito inventivo e premiado, além de membro da Real Academia (de la Lengua) Española,  Javier Marías é um sujeito que sabe argumentar e convencer. Suas preocupações são pertinentes e vastas. A forma como o livro foi organizado ajuda o leitor a entender seus pontos de vista. Há textos onde ele enfatiza aspectos relacionados à escrita, onde ele fala dos erros de gramática que encontra nos jornais espanhóis; há aqueles relacionados à fala (principalmente sobre o quão mal seus conterrâneos falam no dia-a-dia, em contraste com o uso mais objetivo e claro, segundo ele, dos mexicanos e latino-americanos em geral); noutros Marías se escandaliza com os erros absurdos de tradução, seja técnica ou literária, que já parecem incorporados à lingua, por conta de reiterado mal uso por jornalistas ou escritores menores; os textos onde ele fala de tolas tentativas de impor, através de legislação específica, algum controle sobre o uso do espanhol são especialmente bons; naqueles onde ele denuncia a vulgarização, a perda de sentido e clareza de sua língua, Marías é brutalmente irônico, não demonstrando medo ao desnudar todas as imbecilidades que lê e ouve. Seu principal argumento é que uma sociedade que perde a capacidade de reconhecer as sutilezas da língua que utiliza é incapaz, no fundo, de pensar de forma independente, de associar e distinguir idéias, tornando-se massa de manobra dos manipuladores sociais de nosso tempo (sobretudo ditadores, fascistas, xenófobos, religiosos, políticos, poderosos de plantão). Para ele o uso correto da linguagem revela muito sobre as pessoas e é uma ferramenta útil para detetar farsantes. O que mais me impressiona nestes artigos (que reli na verdade, pois já havia encontrado cada um deles nos outros livros) é o quanto os problemas detetados por Marías podem ser observados também aqui no Brasil, com o português. Não é tão difícil encontrar hoje em dia quem defenda, como ferramenta de inclusão social, "formas alternativas de grafia e fala do português" (como se fosse possível orgulhar-se de ser idiota ou analfabeto). Qualquer leitor interessado na lingua espanhola, em tradução, ou em fenômenos linguísticos associados à cultura tem muito a aproveitar neste livro. Grande Javier Marías! Para aqueles que não tem a chance de conseguir este volume com facilidade vale a pena visitar, ao menos semanalmente, o http://javiermariasblog.wordpress.com/. [início 10/03/2012 - fim 19/03/2012]
"Lección pasada de moda - Letras de lengua", Javier Marías, Selección de textos de Alexis Grohmann, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Circulo de Lectores), 1a. edição (2012), capa-dura 13x21 cm, 189 págs. ISBN: 978-84-8109-964-5

segunda-feira, 19 de março de 2012

a dama do lago

Saudoso de um bom romance policial (desde minha intoxicação no ano passado, já que Simenon em demasia sabe mesmo aborrecer um sujeito) resolvi ler este "A dama do lago", de Raymond Chandler. A motivação que me faltava encontrei na epígrafe do bom "Los zorros vienen de noche", de Cees Nooteboom, que dizia: 'You might have got yourself a story', I said. 'Sure. But up here we're just people.' Acho que Nooteboom queria dizer que nem sempre o material bruto da vida real se transforma em boa ficção, em bons personagens. Li "A dama do lago" nas duas ensolaradas tardes deste último final de semana de verão, mas não consegui encontrar a passagem da epígrafe. Precisei ir ao texto original e voltar ao pequeno volume da LP&M para finalmente localizá-la. Todavia, fiquei sabendo, simultaneamente, que o tradutor inventou de acrescentar umas palavras ao texto, tornando-o direto e claro demais (destruíndo toda eventual ambiguidade possível, como apontada por Nooteboom). Sabe-se lá quantas palavras mais o tradutor acrescentou (ou retirou) para tornar o texto mais legível em português. Há coisas que é melhor um sujeito não ficar sabendo para não se aborrecer de uma vez. Paciência. A história de Chandler é movimentada. Philip Marlowe é contratado para encontrar uma mulher desaparecida. Acaba descobrindo o corpo de uma outra mulher e uma série de coincidências atrelando a história de uma à outra. Há um punhado de bons diálogos neste livro. Philip Marlowe é irônico, valente e meticuloso em suas investigações. Mas como em todo romance noir chega uma hora que um desfecho mirabolante tem de acontecer e os responsáveis por mortes ou roubos justiçados de alguma forma. As sutilezas de Nooteboom têm mais estofo e inspiram o leitor com mais eficiência, mas, inegavelmente, esta pequena história policial até que é bem engenhosa. [início 15/03/2012 - fim 17/03/2012]
"A dama do lago", Raymond Chandler, tradução de William Lagos, Porto Alegre: editora LP&M (coleção Pocket, v.265), 1a. edição (2011), brochura 10,5x18 cm, 272 págs. ISBN: 978-85-254-1177-8 [edição original: The lady in the lake (Alfred A. Knopf) 1943]

quinta-feira, 15 de março de 2012

los zorros vienen de noche

Cees Nooteboom ganhou o prêmio belga Gouden Uil de 2009 por este livro. Trata-se de um pequeno conjunto de contos (que impressionam pelo encantamento que provocam). Como ficar indiferente a boa mistura de histórias interessantes, originais mesmo, com o uso provocativo de metalinguagem (uso que não chega a intoxicar com referências ou digressões demasiado elípticas, mas que atiçam a vaidade intelectual de quem as lê)? Os contos flertam com o sombrio, com a zombeteira presença da morte, com o enganador poder da memória afetiva sobre nossos atos. Há uma presença grega nos contos de "Los zorros vienen de noche" (na medida em que sempre estamos perto do mar e das tormentas; que os narradores sempre são viajantes, algo desterrados, que experimentam ou confrontam hábitos extrangeiros; que a mitologia sempre pode se confundir com a história). O narrador de Nooteboom louva sempre o leitor, este sujeito que para ele (o narrador e talvez o próprio Nooteboom) é o complemento indispensável dos poetas, aquele que experimenta a forma menos óbvia de felicidade (a do anonimato), aquele que nenhum autor consegue surpreender facilmente, pois demasiada literatura os tornou demasiado exigentes. Os contos são bem inventivos: um velho senhor vê uma fotografia e relembra uma antiga paixão; um casal almoça na praia e experimenta a fúria dos elementos; o narrador de uma das histórias conta os sucessos biográficos de um holandês errante, desterrado (na mais longa das histórias e também a melhor delas, a meu juízo); uma velha senhora vive seus dias com alguma lascívia; um sujeito faz o censo de seus dias cúmplices com companheiros de jogatina e vagabundagem; uma moça fala de seu estado pós-morte e ajusta contas com um amante algo tonto (trata-se de uma teoria da morte, Nooteboom tem 78 anos, já deve estar a pensar mais nestas coisas); um narrador diz (com o mesmo esgar que Orlando usa quando fala de Sasha em um livro de Virginia Woolf - ao perceber-se abandonado): "Fui feliz, mas já não há ninguém a quem eu possa contar esta felicidade". Cees Nooteboom é o tipo de escritor que admiro e que sempre leio com prazer, renovado e reiterado prazer, pois ele sempre é original demais para nos aborrecer. Como encontrar mais coisas deste sujeito se o holandês é impenetrável demais para este velho e cansado Guina, que mal domina o português? Paciência. [início 09/03/2012 - fim 13/03/2012]
"Los zorros vienen de noche", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal, ediciones Siruela (Nuevos Tiempos), 1a. edição (2011), brochura 14x21,5 cm, 138 págs. ISBN: 978-84-9841-530-8 [edição original: 's Nachts komen de vossen (Amsterdam: De Bezige Bij) 2009]