segunda-feira, 9 de julho de 2012

outono transfigurado

Neste pequeno livro encontramos onze conjuntos de poemas e quatro narrativas curtas (ditas poemas em prosa) de Georg Trakl. Austríaco, Trakl nasceu no final do século XIX e suicidou-se muito jovem, aos 27 anos, no início da primeira grande guerra. A edição é bilíngue (mas o português de Portugal parece aumentar o estranhamento do leitor com os temas soturnos de Trakl). A compilação, tradução e um bom prefácio incluídos no livro são assinados por João Barrento. Os poemas são melancólicos, mas não piegas. Suas influências mais óbvias vem dos poetas simbolistas franceses, especialmente Rimbaud e Baudelaire. Aprendi no prefácio que Trakl teve uma vida atormentada por uma experiência incestuosa com a irmã e pela utilização de drogas pesadas como estímulo criativo, vivendo sempre obcecado com a morte. Lendo os poemas verificamos que quase sempre há um contraste entre opostos: luz e escuridão; contemplação e vivacidade; frio e calor. Encontramos também uma espécie de resgate de ritos pagãos, de culto a lua, ao sol, as florestas, as pedras e os rios. Os poemas em prosa são bem expressionistas, revelam a opinião de Trakl sobre o lado mais sombrio e terrível dos atos humanos. A edição inclui duas fotografias de Trakl, que parecem querer dialogar com o leitor. Na primeira Trakl está sentado, mãos cruzadas, olhando fixamente a cãmara fotográfica. Não parece incomodado, antes parece desafiar quem está a fotografá-lo. Já na segunda ele está em pé, usando uma farda, corte de cabelo militar, espada. Olha obliquamente a direção da fotografia. Uma de suas mãos está com o punho fechado, pronta para ser utilizada contra alguém. A outra mão está escorada no cinto, demonstrando um certo desdém com a situação. A obra de um sujeito sempre tem que se defender sozinha, mas estas duas fotos de Trakl tornam a experiência de ler seus poemas algo mais pessoal, diminuindo a angústia que sobra e vaza deles. Sigamos. [início 01/07/2012 - fim 03/07/2012]
"Outono transfigurado: Ciclos e poemas em prosa", Georg Trakl, tradução de João Barrento, Lisboa: editora Assírio & Alvim, 1a. edição (1992), brochura 13,5x20,5 cm, 113 págs. ISBN: 978-97-2370-297-2 [edição original: Dichtungen und Briefe, Walter Killy e Hans Szklenar (Otto Müller: Salzburg), 1969]

sábado, 7 de julho de 2012

a primeira pessoa

Apesar de ter comprado este livro com um certo entusiasmo, por conta de uma indicação confiável e por saber que o tradutor era o industrioso Caetano Galindo, eis que sua leitura me pareceu muito irregular. São doze contos curtos. Inegavelmente todos são bem escritos e originais, mas Ali Smith abusa de uns truques metaliterários e de situações auto-referentes que acabam por irritar o leitor (ao menos este velho e cansado leitor). Em uma das histórias uma criança faz as vezes da consciência algo culpada de um personagem; noutra um casal discute suas diferenças enquanto falam de Gershwin e Beethoven; num dos contos uma garota tenta esconder a vergonha que tem de sua mãe algo extravagante, quase louca; noutro é sobre a possibilidade banal de alguém ficar preso nos fundos de um cinema que um casal anima a conversação; o recebimento de um pacote enviado para o endereço errado gera uma discussão besta; o entendimento distinto do valor de uma música de Ella Fitzgerald outra; um porteiro trambiqueiro inventa historias para mitigar a culpa de seus patrões em uma noite de Natal; um rapaz doente faz com que sua mãe acredite em uma dupla de estelionatários; o protagonista de uma história discute decisões e escolhas de sua encarnação mais jovem; duas mulheres falam do que as aproximam e do que não gostam uma da outra; o narrador de uma história digressa sobre o poder da literatura (e sobre a força do uso da terceira pessoa num texto); uma mulher discute com outra uma teoria bizarra sobre as diferenças entre contos e romances que ouviu em um bar. A originalidade das histórias engana o leitor, assim como iludem em um circo ou a habilidade de um bom malabarista ou a rapidez de um mágico bem adestrado. Ao final nenhuma das situações criadas por Ali Smith parecem de fato decalcadas da realidade, pois acabam expondo cedo demais seu artificialismo, e servem apenas para entreter o leitor um par de horas. Lembrei várias vezes de uma frase de Bob Fosse no "All that Jazz": "treatral demais Joe!". Estarei sendo pouco indulgente? Talvez. Paciência. Talvez seja o caso de ler outras narrativas dela, experimentar outras propostas de sua prosa com mais calma e aí afirmar mais coisas sobre ela. Logo veremos, mas já é tempo. Sigamos pois. [início 12/06/2012 - fim 30/06/2012]
"A primeira pessoa e outros contos", Ali Smith, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 148 págs. ISBN: 978-85-359-2074-1 [edição original: The first person and other stories (London: Hamish Hamilton / Penguin Group) 2008]

segunda-feira, 2 de julho de 2012

as entrevistas da paris review 2

Encontramos neste "As entrevistas da Paris Review - vol. 2" exatamente o que o título promete: uma (pequena) amostra das quase 350 seminais entrevistas já publicadas pela The Paris Review. Assim como no volume anterior, publicado em 2011, as escolhas aqui são aleatórias, certamente um capricho do editor, que faz suas apostas sobre quais nomes ainda têm ressonância no público leitor e algum valor literário caro aos críticos. A reputação literária é algo sempre fugaz e só uns poucos de fato vão sobreviver no apreço das futuras gerações (ao menos dos leitores não profissionais). As entrevistas mais antigas são dos anos 1960 (Arthur Miller e Vladimir Nabokov), as mais recentes dos anos 2000 (Hunter Thompson, Louis Begley e Salman Rushdie).  Encontramos também John Cheever e Joseph Brodsky (anos 1970), Tennessee Williams, Elizabeth Bishop, Julio Cortázar, Milan Kundera e Maguerite Yourcenar (anos 1980) e Martin Amis, um solitário representante dos anos 1990. Na verdade este registro não tem muito valor, pois foi o filtro original dos editores da The Paris Review quem gerou a ordem e a oportunidade das entrevistas, certamente movidos por miríades de conveniências cruzadas. Paciência. A entrevista com Elizabeth Bishop é curiosa, por conta de referências ao Brasil que obviamente não seriam tão neutras se conduzidas por uma jornalista brasileira; a de Joseph Brodsky é algo caótica, mas faz com que o leitor procure um livro ou poema dele para ler; Nabokov, que só respondeu por escrito, é controlador e duro nas respostas; Cortázar abusa na defesa de seu engajamento político; a de Milan Kundera boa, por conta do registro de suas preocupações teóricas e estéticas; Arthur Miller e Martin Amis são cerebrais demais, racionalizando tudo o que dizem; John Cheever parece desdenhar de seu próprio valor ou imanência literária; Marguerite Yourcenar contida e ambivalente demais; na de Salman Rushdie o leitor encontra um bom exemplo do quanto de acaso existe no ofício de escritor; Louis Begley revela ser zeloso demais com a reputação de seus personagens; a de Hunter Thompson (afinal, mais jornalista que bom escritor) uma egotrip dispensável. Algumas entrevistas refletem linearmente a conversação, noutras encontramos resumos temáticos do que foi abordado diretamente ou dirimido em contatos telefônicos, e ainda há aquelas que se arrastam, monótonas. Apesar desta intrínsica heterogeneidade o leitor consegue apreciar o quão díspares são os entendimentos do ofício entre cada um dos entrevistados. Cortázar e Nabokov parecem extremos. Enquanto são os personagens das histórias do primeiro que "descobrem" o que vai ser narrado, o segundo afirma que os seus são operários, escravos nas galés. Leitura tranquila. Como acontece quando conhecemos melhor uma pessoa certas entrevistas nos fazem querer ler algo dos autores, enquanto outras definitivamente nos previnem deles. E assim segue a vida. [início 19/06/2012 - fim 29/06/2012]
"As entrevistas da Paris Review - vol. 2", Arthur Miller, Vladimir Nabokov, John Cheever, Elizabeth Bishop, Tennessee Williams, Joseph Brodsky, Julio Cortázar, Milan Kundera, Marguerite Yourcenar, Martin Amis, Hunter Thompson, Louis Begley, Salman Rushdie, tradução de George Schlesinger, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 451 págs. ISBN: 978-85-359-2095-6 [edição original: The Paris Review Interviews (New York), 1966, 1967, 1976, 1979, 1981, 1983, 1984, 1998, 2000, 2002, 2005]

sábado, 30 de junho de 2012

o man e o brother

Li este pequeno livro de contos ainda no início de maio. O Dilan Camargo iria lançá-lo aqui em Santa Maria (na boa livraria Athena) e eu havia me programado para conversar com ele sobre suas histórias. Mas naquele dia mesmo Dilan sofreu um acidente sério e tudo teve de ser cancelado. Ele está bem agora, mas sabe-se lá quando virá para uma outra manhã de livros e festa. Logo veremos. "O man e o brother" é um livro pensado para o público adolescente. Os contos são morais, mas não com a moral tola daqueles que pensam em impingir regras, mas sim de um sujeito que sabe viver em uma sociedade complexa e acredita poder contribuir com idéias e propostas para fazer dela um lugar melhor.  Os pequenos contos são uniformes, narram a inaptidão e o estranhamento mútuo entre pais e filhos, ou melhor, entre pessoas mais velhas e pessoas mais jovens. Cinco deles parecem reflexões de filhos sobre as pessoas mais velhas que as cercam: acompanhamos registros das memórias sobre um pai ausente; de uma mãe que sabe ser ética e transmitir esta ética ao filho; do desespero esmagador de um pai; das limitações tecnológicas de um outro; do comportamento excêntrico de um tio distante. Em outros cinco o registro parece ser o de filhos que não vêem nas pessoas mais velhas (sejam seus pais ou não) nada digno de orgulho ou valor: Dilan nos apresenta um garoto que decide se afastar de uns bandidos; uma garota mimada e estúpida (quase sinônimos neste conto); uma outra, delirante e lasciva em uma clínica psiquiátrica; um grupo de garotos que joga bola, alheio ao mundo (como sempre deve ser); e por fim um garoto que tenta entender o comportamento de um mendigo soturno, calado. A linguagem é muito bem cuidada, os contos, nem sempre previsíveis (como costuma acontecer com histórias pensadas para o público infanto-juvenil) no limite do lirismo, mas sem ofender nunca a inteligência do leitor. A edição é muito boa. Vamos a ver se noutro dia consigo um autógrafo dele neste meu exemplar. [início 07/05/2012 - fim 08/05/2012]
"o man e o brother", Dilan Camargo, Porto Alegre: 8Inverso, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-62696-11-4

quarta-feira, 27 de junho de 2012

a superfície da sombra

No início deste movimentado junho, por um lance de sorte, eis que consegui participar da alegre festa de lançamento do romance "A superfície da sombra", de Tailor Diniz. Comecei a ler o livro naquela noite mesmo, na já invernal Porto Alegre, mas os dias que havia passado recentemente na vaporosa Manaus, somados à aborrecida viagem de volta para casa acabaram me cobrando logo algum descanso. Só retomei o livro um par de dias depois e terminei de lê-lo feliz, sem atropelos ou interrupções. Tailor conta uma história curiosa, que se passa na fronteira física entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, mas também está na fronteira entre vigília e sonho. Um sujeito se desloca a uma pequena cidade para visitar uma amiga que ele sabia adoentada, mas somente chega a tempo de participar de seu enterro. Hospeda-se na casa da filha desta amiga e passa a experimentar situações progressivamente bizarras. O texto incluí um punhado de registros em castelhano e a cidade parece serpentear pela fronteira, como se a cidade, o narrador e os personagens que povoam o livro se dissociassem ao cruzá-la. Tailor narra sua história alternando blocos em primeira e em terceira pessoa, uma técnica que permite ao leitor acompanhar o que poderia ser entendido como factual, verdadeiro, e o que é interpretado conscientemente pelo narrador como factual, mas que pode ser fruto de um lento, mas inevitável, deslocamento da realidade. Claro, o leitor nunca poderá ficar seguro sobre o que se passa realmente na mente do personagem e esta ambiguidade faz bem ao livro. Tailor habilmente inclui no texto referências literárias (Borges, Poe, Rubem Fonseca) e mitológicas (um tipo de "Caixa de Pandora" e uma espécie de "Noite de Walpurgis" campeira). Coisas assim fazem a fortuna dos leitores mais cerebrais, mas ao mesmo tempo ele mantém com maestria o suspense típico, mas descompromissado, de romances de mistério ou policiais, que tornam a leitura ágil. "A superfície da sombra" lembrou-me uma história de Arthur Schnitzler (o excelente Traumnovelle, que virou um filme muito bom de Stanley Kubrick: De olhos bem fechados). O protagonista de Tailor parece ser tangido pelas circunstâncias e cabe ao leitor se deliciar com isto. Bom livro de um bom escritor. [início 06/06/2012 - fim 09/06/2012]
"A superfície da sombra", Tailor Diniz, São Paulo: editora Grua livros, 1a. edição (2012), brochura 14x20 cm, 159 págs. ISBN: 978-85-61578-21-3

quinta-feira, 21 de junho de 2012

guapo, rico y distinguido

Quando percebo que meu humor está se tornando intratável, que minha intolerância começa vergastar sem dó os viventes a meu redor, sei que está na hora de usar um lenitivo literário potente. Poucos livros são tão adequados para este fim quanto as invenções de P.G. Wodehouse. As histórias amalucadas, cheias de diálogos rápidos e engraçados, plenas de ironia e alegria de viver são impagáveis. Claro, há milhares de livros irrelevantes ou tolos que podemos ler para esquecer dos aborrecimentos da vida, mas os de Wodehouse têm a seu favor o fato de serem muito bem escritos. Procurei nos meus guardados algum livro dele com seu personagem mais famoso, o criado/mordomo Jeeves, cuja inteligência salva sempre seu patrão, o patético Bertie Wooster, de inúmeros problemas. Mas acabei encontrando este "Guapo, rico y distinguido", que pertence a outro conjunto de livros de Woodehouse. A história tem o ritmo daquelas peças espirituosas de Oscar Wilde e percebi logo que o enredo deve algo a uma peça romana muito antiga, de Plauto, intitulada "Os gêmeos", onde dois pares de gêmeos, um muito rico e outro muito pobre, são trocados ainda bebês, gerando quando adultos confusões e situações divertidas. Wodehouse povoa sua história com uma dezena de personagens fortes, atraídos a um rico balneário francês: um senador americano e sua filha; um entediado herdeiro americano; dois golpistas ingleses; um jovem escritor; um visconde francês falido, duas trambiqueiras inglesas (antigas amantes dos golpistas); um cansado dândi; uma rica senhora. Todos estão de alguma forma interessados no conteúdo do cofre que a rica senhora mantém em seu quarto. Em meio a farsescos casos de amor, trocas de identidade, alianças de ocasião, jogos mentais e surpresas, a história segue freneticamente a um final onde não há exatamente nem finais felizes, nem julgamentos morais. Definitivamente não há desafio literário algum em um livro como este, mas o bom humor, a prosa rica, as metáforas inteligentes e as soluções originais de Wodehouse salvam o tempo de leitura. [início 23/05/2012 - fim 03/06/2012]  

"Guapo, rico y distinguido", P.G. Wodehouse, tradução de Luis Ignacio Bertrán, 4a. edição (2009), brochura 13,5x20,5 cm, 259 págs. ISBN: 978-84-339-2069-0 [edição original: Hot Water (Inglaterra: Herbert Jenkins) 1932]

quarta-feira, 13 de junho de 2012

o pai da branca de neve

Foi Jesús González, amigo de Tres Cantos, perto de Madrid, na Espanha, quem me falou de Belén Gopegui pela primeira vez. Já faz um bom par de anos que isso aconteceu. Comprei dois livros dela (Tocarnos la cara e A escala de los mapas) mas, ai de mim, claro que deixei nos guardados para ler um outro dia e esqueci deles. Noutro dia encontrei este "O pai da Branca de Neve", uma edição robusta e bem cuidada da Minotauro e não me furtei em comprar e, desta vez, começei a ler de pronto. É um romance engajado, um romance político, em que se defende uma tese sobre o comportamento de uma sociedade complexa, como é o caso da espanhola. A abordagem (quase marxista, lembrando os temas, não a forma, daqueles vetustos romances do Jorge Amado, quando ainda era filiado ao partidão), a princípio me irritou, mas acabei me acostumando com o ritmo e com a narrativa. Acho mesmo que é a linguagem, a forma de apresentar o livro, que dá estofo a ele. Gopegui utiliza protótipos de cartas, diários, cadernos de notas, relatórios de trabalho, num mosaico de registros distintos daquilo que é vivido na história. Ao invés dela emular diálogos reais, Gopegui parece registrar aquilo que pensamos e preparamos antecipadamente para falar com alguém mas acabamos não falando e sim guardando conosco. Ela dá voz até a um coletivo de organismos, algas microscópicas, em contraste com indivíduos, homo sapiens sapiens, que convivem ora harmoniosamente, ora conflituosamente, na turbulenta Madrid de meados dos anos 2000. Seu livro foi publicado às vésperas da grande crise financeira americana de 2008, cujos desdobramentos escancaram os problemas espanhóis (bolha imobiliária, crédito barato mal administrado, baixa produtividade, educação deficiente, desemprego estrutural, conservadorismo entranhado), que podemos acompanhar facilmente pelos jornais hoje em dia. Até que ponto um artista consegue emular de fato uma realidade? Os personagens de Gopegui (duas famílias mais ou menos comuns, de classe média) se envolvem em um processo de produção de algas comestíveis e fixação de carbono. As preocupações ecológicas, a rotina de assembléias dos grupos de discussão, lembram um tanto aquilo que vemos ativamente nas redes sociais de comunicação contemporâneas, uma espécie de militancia revisitada, menos orgânica e marcial que as experiências utópicas do século XX. Na utopia inventada por Gopegui o personagem mais torturado, dilacerado, é o "Pai da Branca de Neve", ou seja, um sujeito sobre o qual nada sabemos, mas sobre o qual, como no conto de fadas original, podemos depositar toda a culpa pelos aborrecimentos e perigos pelos quais passam os demais personagens do livro (os voluntariosos ecologistas que se esforçam por dar sua cota de trabalho e tempo para tornar o mundo um lugar melhor), papel talvez similar a heroína do conto de fadas, a "Branca de Neve". Não sei se a literatura tem este poder de transformar o mundo diretamente, servindo de modelo de comportamento. De qualquer forma a proposta de Gopegui não é piegas. O livro se deixa ler com prazer. As propostas de transformação social, que são públicas, e os medos privados dos indivíduos, que são apenas homens afinal de contas, covardes passíveis de pena quase sempre, são discutidos em grande estilo e invenção. Ainda voltarei aos demais livros dela que escondi na minha prateleira. É tempo. [início 21/04/2012 - fim 23/05/2012]
"O pai da Branca de Neve", Belén Gopegui, tradução de Miguel Serras Pereira, São Paulo: editora Minotauro (edições 70, grupo Almedina), 1a. edição (2011), capa-dura 14,5x22 cm, 378 págs. ISBN: 978-85-63920-03-4 [edição original: El Padre de Blancanieves (Madrid: editorial Anagrama) 2007]

segunda-feira, 11 de junho de 2012

vaya país

Neste livro estão reunidos dezoito textos do tipo que eu costumo chamar de "sociologia selvagem". São impressões de quem experimenta vividamente uma situação, mas que não têm rigor científico e/ou metodológico para serem realmente válidas como análise de uma cultura complexa. Claro, são gostosas de ler, já que todos gostamos de generalizar comportamentos e valores alheios após uma viagem qualquer. Cabe dizer que jornalistas costumam produzir livros assim às dúzias. Pois em "Vaya País" estão registradas exatamente as impressões de jornalistas que trabalham como correspondentes de imprensa na Espanha. O organizador é um suíço, homônimo de um grande cineasta, Werner Herzog, radicado em Madrid há mais de trinta anos. Os demais são cinco alemães (Peter Burghardt, Martin Dahms, Paul Ingendaay, Barbara Schwarwälder e Reiner Wandler); dois franceses (Martine Silber e Cécile Thibaud), dois holandeses (Gerrit Jan Hoek e Henk Boom) e dois ingleses (Elisabeth Nash e Edward Owen); e uma mexicana (Patricia Alvarado Mendoza), um português (Nuno Ribeiro), um finlandês (Jyrki Palo), uma americana (Carlta Vitzthum), uma italiana (Michela Coricelli) e uma japonesa (Masako Ishibashi). Todos eles vivem e trabalham na Espanha (em Madrid e em Barcelona sobretudo) ao menos há vinte anos, muitos já tendo se casado e/ou separado por lá. As preocupações são distintas, apesar do que vários repetem o que é mais visível para qualquer turista aprendiz em terras espanholas: o estranhamento com os horários de trabalho e lazer; a lentidão dos rituais burocráticos, em qualquer situação; a incompreensão inicial com o tom de voz e a entonação dos falantes do espanhol, já que podem ser sutis as diferenças entre a alegria fraterna e a estupidez de um xingamento; a rapidez como os espanhóis podem evoluir da típica paciência bovina às explosões de fúria taurina; o fato irrefutável da Espanha possuir uma marcante riqueza gastronômica. O relato do organizador, Herzog, é o que mais gostei. Apesar de despretencioso ele fala com propriedade e riqueza de detalhes sobre as diferenças linguísticas entre o espanhol e as demais linguas latinas, ou entre o espanhol, o alemão e o inglês. Os textos da italiana Coricelli, que trata dos contrastes entre a forma de se vestir entre italianos e espanhóis; do alemão Ingendaay, que descreve o ridículo no comportamento dos novos - e velhos - ricos espanhóis; da também alemã Schwarzwälder, que fala do mosaico cultural e linguístico espanhol, fonte de muita rivalidade entre eles; e o da francesa Thibaud, que contrasta a inserção das crianças nas séries iniciais das escolas francesas e espanholas, também são muito bons. Os demais incluem curiosidades que tem algum sabor literário e irrelevâncias terríveis, quase no limite do achincalhe. Publicado em 2007 o livro não é datado, mas seria interessante a inclusão no futuro de alguns relatos onde se refletisse sobre a crise terrível (econômica, financeira e de valores) por que passa a sociedade espanhola nos últimos anos. Vale. [início 14/05/2012 - fim 18/05/2012]
 "Vaya País: Cómo nos ven los corresponsales de prensa estranjera", Werner Herzog (coord.), Madrid: Puncto de Lectura (Santillana ediciones generales), 1a. edição (2007), brochura 12,5x19 cm, 244 págs. ISBN: 978-84-663-6889-6

sábado, 2 de junho de 2012

formas do nada

Noutro dia, conversando com amigos em uma mesa de café improvisada na praça, em meio a algazarra de uma feira do livro morna e previsível, ouvi um punhado de histórias e reconheci aborrecido que o único pessimista ali era eu. Entre um sorriso hipócrita e o sarcasmo agressivo me perguntava: de onde tirar tal encantamento, alegria de viver, credulidade? Serão eles atores mais habilidosos que eu ou confrades de uma seita que alcançaram uma ilusão comum, porém satisfatória? Demorei um pouco para me recompor. Foi quando lembrei umas linhas que tinha lido já no primeiro dos poemas deste "Formas do nada", de Paulo Henriques Britto: "Ninguém busca a dor, e sim seu oposto, e todo consolo é metalinguístico". Ainda há pessimistas e hiper-realistas neste mundo, pensei, o pão que realmente nos alimenta também pode ser acre. Li e reli este livro várias vezes. É um volume pequeno, setenta e poucas páginas, mas cada poema é um assombro. São tantos os venenos, as aparições da morte, as frases que lembram da irrelevância da vida. Tudo isso está mesmo no livro ou em mim, no filtro de minha susceptibilidade? Ou será que o livro é o produto de alguém que transformou uma depressão silenciosa em arte fina? Em abril falei sobre o livro com o Galindo, il miglior fabbro, que conhece o Britto como poucos. Depois foi com a Maria Luiza, que recomendou-me o livro com entusiasmo. Já a Helga leu uns poucos poemas, mas parou logo, pois pensou haver algo de tóxico neles. Rimos um tanto quando lembrei do venerável Jorge de Burgos se envenenando ao folhear as páginas contaminadas da Poética de Aristótoles. A cada releitura encontrei mais vigor e potência nestes poemas. Paulo Henriques Britto fala das dificuldades do ofício: "Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma."; é irônico: "A realidade é um calhamaço insuportável? Tragam-me então resumos."; sarcástico: "O rancor é como um cão, melhor amigo do homem."; cruel: "Ao corpo, masmorra sem porta, pouco importa que você morra."; ainda mais que cruel: "Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega."; tradutor de si mesmo: "This new one sags like an empty purse, a bat of sorts, all clammy wings and squeals. And yet it flies. We could have done far worse."; e no último dos poemas ele termina dizendo: "- pois todo poema é murmúrio frente ao amor e sua fúria."  Cada livro de um autor forte tem sua lógica interna. E cada grande autor escreve um mesmo livro, lapida cada vez com mais precisão e esmero uma pedra bruta, arrancando dela cousas progressivamente mais preciosas e belas. Talvez seja esta espécie de proximidade com a perfeição que torne as soluções dele (as sínteses potentes que alcança) enebriantes como os vapores que inspiravam as Sibilas gregas nas suas previsões. É desta forma que Paulo Henriques Britto nos obriga a pensar, a escavar fundo em nossa sensibilidade. Muito bom mesmo este livro. Mas sigamos (crânios recheados de palha, ai de nós), sigamos. [início 16/04/2012 - fim 01/06/2012]
"Formas do nada", Paulo Henriques Britto, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (2012), brochura 13,5x21 cm, 75 págs. ISBN: 978-84-359-2053-6