sábado, 10 de novembro de 2012

arranhões e outras feridas

Conheci o Cassionei Petry primeiro virtualmente, por conta de cousas que ele escrevia em seu blog, e só depois pessoalmente, na ocasião do lançamento deste seu livro, Arranhões e outras feridas, na feira do livro de Santa Cruz do Sul, ainda no final de agosto. Mas não li o livro naquela época, outros foram se empilhando por cima dele (talvez acrescentando a ele outras feridas). São vinte histórias curtas, que lemos quase sempre num fôlego só. Há contos onde se narra em primeira pessoa e outros em terceira pessoa. Acho que Cassionei se dá melhor nestes últimos, onde tudo é mais direto e verossímil. São histórias curiosas. Em geral elas registram situações de desconforto; relações prestes a se transformar; revelações que chocam, mudando radicalmente o entendimento das coisas; melancolias entranhadas; esperanças tênues; o cansaço daqueles que já se aborreceram demais com a vida e apenas, algo estóicos, deixam o tempo passar. Não é exatamente um livro sombrio, mas as histórias são algo amargas, algo avinagradas. Percebe-se que o autor é um bom leitor. Cada uma das histórias incluí uma epígrafe, que provocam um efeito interessante na recepção dos contos. E nos textos frequentemente encontramos menções a escritores e livros, sobre o exercício da literatura. O primeiro livro de alguém sempre é um mistério. Para alguns será o ponto alto da carreira, para outros algo a ser futuramente escondido, reescrito ou renegado, para outros, ainda, o exercício corajoso, ainda que amador, que viabilizou ambições literárias mais robustas. É impossível sabermos agora o destino deste "Arranhões e outras feridas", mas acredito que Cassionei sempre terá carinho por ele, pelo que há nestes contos curtos muito de sincero e vívido. Vamos a ver. 
[início 14/10/2012 - fim: 15/10/2012] 
"Arranhões e outras feridas", Cassionei Niches Petry, Rio de Janeiro: editora Multifoco, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 73 págs. ISBN: 978-85-7961-991-5

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

bonsai

em junho ou julho, a bem da verdade, havia eu decidido não ler esse livro, pois a agitação algo adolescente da crítica nos jornais e as repetitivas resenhas de alguns blogs até respeitáveis só alcançaram previnir-me mentalmente dele. Mas em outubro consegui um exemplar de No leer, um livro de crônicas e ensaios literários de Zambra, que li com alegria. Pensei que um sujeito capaz de produzir reflexões tão consistentes sobre literatura e arte também deveria ser capaz de oferecer ficção com estofo. De fato Bonsai é um bom livro, não um portento, não um cânone, mas algo onde uma boa história é contada, com engenho e concisão. O fato de ser algo que mais apropriadamente deveria ser chamado de conto e não ser vendido como o romance latino-americano da década (talvez do século, açodaram-se alguns em dizer) irrita um tanto o leitor. Sabemos ao apenas folhear o livro que trata-se de um produto de engenharia editorial, um livro feito para aqueles que têm pretensões literárias, para jornalistas e críticos literários sentirem que sua inteligência e/ou cultura serão finalmente dedicadas a um livro edificante, realmente importante. Como Zambra é antes um acadêmico, um professor de literatura, deve ter se divertido especialmente com a agitação que formou-se ao redor de seu livro, como um mágico que sorri discreto e enigmático ou executar seus números. Mas o texto (que é a coisa que realmente importa) se defende sozinho. A ironia do narrador e a crueldade com que descreve seus personagens é o que distingue Bonsai do flerte fácil com a banalidade. Zambra também usa uma cota generosa de truques metaliterários para forçar o leitor a pensar (toda uma lista de leituras é por ele sugerida, o que deve fazer a festa daqueles que gostam de ter suas obsessões e escolhas literárias compartilhadas com os outros). Acompanhamos a história de amor de um jovem casal chileno. Todo aquele que já experimentou alguma paixão sabe da cota bizarra de tolices que somos capazes de fazer (e a péssima clarividência sobre os desdobramentos de nossos atos).  O protagonista se apaixona para ser logo abandonado por uma garota. O leitor sabe desde o início que o sujeito não vai deixar de sentir-se emocionalmente dependente dela. Todas as histórias de amor são ridículas e livros que as descrevem são produzidos aos montes, certamente desde que o homo sapiens sapiens aprendeu a registrar o que sente. O que Alejandro Zambra oferece são pequenos recortes de uma história de amor, fazendo com que o leitor preencha (com sua eventual capacidade de invenção e síntese) as muitas lacunas, tudo aquilo que não é explicitado por ele. Talvez seja assim ele alcança envolver o leitor com sua criação e seduzir tanto com tão poucos recursos. O personagem principal imagina escrever um livro, confunde a vida e seu projeto ficcional, entende mal o que dizem e fazem a seu redor amigos e empregadores. Assim, bem antes do final do primeiro parágrafo do livro, onde Zambra, após resumir sua história (garoto e garota se apaixonam, garota morrre, garoto continua sozinho), diz: o resto é literatura, o leitor sabe que não é exatamente assim, pois além da literatura que Zambra promete para os demais parágrafos de seu livro há toda uma metaliteratura ironicamente implícita nele: os inevitáveis traços do rastilho de opiniões favoráveis; das resenhas laudatórias; do eco de tudo o que se ensina em oficinas de criação literária; dos truques de sedução utilizados por jornalistas que são amigos dos escritores; dos professores e críticos que invejam (nem sempre silenciosamente) o sucesso dos escritores. Tudo que seu personagem não alcança na ficção, mas ele, Zambra, alcança na vida.
[início 20/10/2012 - fim: 21/10/2012] 
"Bonsai", Alejandro Zambra, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2012), brochura 16x22 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-405-0188-1 [edição original: Bonsai (Santiago do Chile: editorial Anagrama) 2006]

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

giacomo joyce

"Giacomo Joyce" é um conjunto de dezesseis poemas em prosa (se é que se pode classificar tão facilmente assim essa jóia joyceana), sobre um enamoramento dele, experimentado em favor de uma aluna de seus tempos de Trieste, uma espécie de Beatrice Portinari revivida, entre 1911 e 1914. Deve ter sido escrita em 1914, mas só foi publicada postumamente, em 1968, por conta dos esforços do industrioso Richard Ellmann. Lembro-me da primeira vez que li esse texto, nos anos 1980, numa edição muito boa da Brasiliense. A tradução era do Paulo Leminski e a edição incluía fac-símiles das dezesseis páginas manuscritas originais. Anos depois a Iluminuras publicou uma outra tradução, assinada por José Antônio Arantes. Por um acaso dos diabos descobri esta terceira tradução. Nessa última feira do livro de Porto Alegre eis que vi Cida, querida amiga, conversamos um tanto, mas logo depois, qual um homem pernilongo (como aquele descrito por Thomas Mann no Tonio Kröger) serpenteando entre as gentes fui cumprimentar o Zeca, depois o Dilan, também o Rosp, e logo a Denise, o Élvio e o Romar, que foi quem por fim apresentou-me Majela Colares, um poeta nascido no Ceará (de quem ainda vou resenhar algo aqui). E foi o generoso Majela quem mostrou-me um livro do Joyce que eu não conhecia (...traduzido por um amigo meu, disse Majela). Os livros sabem mesmo usar caminhos tortuosos para procurar quem os ame. Essa nova tradução é assinada por Roberto Schmitt-Prym, um gaúcho de Pananbi que é fotógrafo experiente e que já havia traduzido de Joyce ao menos um dos contos do Dublinenses. A edição é bilíngue, da gaúcha Bestiário. Eles incluiram umas boas notas no final (o texto não é particularmente hermético, mas alguma ajuda com cousas cifradas sempre é bem vinda). Numa das orelhas do livro há uma pequena biografia de Joyce (que acho ruim, a única cousa mal feita no livro). "Giacomo Joyce" é para se ler com calma, saboreando as imagens, os sons, a concisão e os efeitos, além de tudo aquilo que não é dito, apenas inspirado pelo texto. Fiquei tão feliz em encontrar esse livro que o registrei aqui antes de tantos outros. Há livros que esperam estóicos um registro, uma memória, represados que estão por minhas viagens e vagabundagens. É tempo de trabalhar, e com mais afinco.
[início - fim: 03/11/2012] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Roberto Schmitt-Prym, Porto Alegre: editora Bestiário, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 47 págs. ISBN: 978-85-98802-04-6 [edição original: Giacomo Joyce (Londres: Faber and Faber) 1968]

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

temporada de caça

"Temporada de caça" é um romance de Andrea Camilleri que não faz parte da série de histórias envolvendo o comissário Salvo Montalbano, o mais famoso de seus personagens. Entretanto a narrativa se passa no final do século XIX, no passado da mesma cidade imagináriaVigatà, onde Montalbano investiga seus rocambolescos casos policiais. "Temporada de caça" foi publicado originalmente em 1992, dois anos antes de sê-lo o primeiro dos livros da série Montalbano (A forma da água)Camilleri afirma que foram umas poucas linhas de um relatório técnico sobre as condições econômicas e sociais da Sicília no final do século XIX que o fizeram interessar-se em produzir sua história policial. Um rapaz chega a Vigatá e se estabelece como farmacêutico. Sua presença chama a atenção de todos na cidade, curiosos sobre seu passado. Discreto, ele acaba tornando-se o confidente e posteriormente o marido de uma jovem muito rica, cuja família experimenta uma sucessão de mortes aparentemente fortuitas (seu avô, seu tio, sua mãe e seu seu pai, entre tantos outros). A trama é confusa no início, onde Camilleri se esforça para apresentar um conjunto grande de personagens, cujo passado se enreda em sub-tramas que o leitor só vai entender completamente na segunda metade do livro. De qualquer forma ele consegue gerar e sustentar um bom suspense e produzir um desfecho bastante razoável, verossímil. Literatura ligeira, sem compromissos.
[início: 25/10/2012 - fim: 26/10/2012] 
"Temporada de caça", Andrea Camilleri, tradução de Giuseppe D'Angelo e Maria Helena Kühner, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2005), brochura 14x21 cm, 160 págs. ISBN: 85-286-1162-0 [edição original: La stagione della caccia (Palermo: Sellerio editore) 1992]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

poemas : adonis

Este é um livro que apresenta Adonis (Ali Ahamed Said Esber) ao leitor de língua portuguesa, aquele não familiarizado com o árabe original de sua produção ou com as eventuais traduções dele para outras línguas. Adonis nasceu na Síria em 1930, viveu no Líbano muitos anos (adotou a cidadania libanesa em 1962) e desde os anos 1980 está radicado em Paris. É dos mais respeitados poetas contemporâneos, mas também um versátil ensaísta, editor de revistas  e um experiente tradutor, tanto do francês e do inglês quanto do grego. Traduzidos diretamente do árabe, encontramos aqui poemas publicados por toda uma vida, de 1957 até 2003. O tradutor, Michel Sleiman, faz um trabalho de seleção em que explicita a proposta estética de cada um dos livros de Adonis. Apesar de serem apenas fragmentos, com isso o leitor tem uma mostra do que Adonis apresenta a cada livro que publica, fica sabendo quais eram as motivações e as circunstâncias básicas de sua vida (um tanto nômade, forçado ao exílio por seus posicionamentos políticos). Milton Hatoum assina uma apresentação biográfica de Adonis e Michel Sleiman explica em um prefácio os pressupostos de sua organização do volume. O livro inclui umas poucas ilustrações com manuscritos de poemas (a caligrafia árabe é algo que sempre impressiona por sua beleza). Incluí também uma lista de todas as obras de Adonis. Estou com esse livro à mão desde meados de julho. No início estranhei um tanto o ritmo e as construções (as metáforas, os símiles, as vozes, parecem pertencer a um outro mundo), mas depois aprendi a desfrutar deles (digamos assim: acho que passei a lê-los sem muita inteligência, seguindo antes a intuição que outra faculdade). Adonis apresenta temas mitológicos, fala da mulher e do mundo feminino, tem a lucidez dos profetas a quem ninguém dá ouvidos. Sua descrição poética da guerra civil no Líbano é igualmente forte e lírica; ironia e originalidade em seus poemas. Há também espaço para algum ensinamento, como no excelente "Tumba para Nova York", onde ele diz: "Me dizem, 'Procura a ação. A palavra está morta'. A palavra morreu porque a língua de vocês trocou o hábito da fala pelo hábito do gesto. A palavra? Vocês querem descobrir seu fogo? Então escrevam. Eu digo 'escrevam', não digo 'gesticulem', nem digo 'copiem'. Escrevam - do Atlântico ao Golfo não escuto nenhuma língua, não leio nenhuma palavra. Escuto gritaria. Por isso não vejo nenhum lançador de fogo. A palavra é a coisa mais leve e no entanto carrega tudo. A ação é lugar, é instante. A palavra são os lugares todos, é o tempo todo. A palavra - a mão; a mão - o sonho. Eu te descubro, ó fogo, seu protetor. Eu te descubro, poesia." A poesia é a arte do quase inefável, mas talvez seja apenas através da poesia que os homens (e os povos, e as gentes) conseguem se entender (e se surpreender, um tanto mais, e se estranhar, um tanto menos). Grande escritor esse sujeito.
[início: 09/07/2012 - fim: 28/10/2012] 
"Poemas: Adonis", Adonis, organização e tradução de Michel Sleiman, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 253 págs. ISBN: 978-85-359-2124-3 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

el mismo mar

"El mismo mar" é uma maravilha. Não se trata de um romance, nem de um poema, mas ora se apresenta como narrativa, ora como algo musical, lírico. Talvez romance em versos seja uma definição adequada. É mesmo um livro muito especial. Amos Oz conta uma história que começa em uma praia do mar mediterrâneo, o balneário de Bat Yam, perto de Tel Aviv, mas também percorre as terras altas do Himalaia e muitos vales e praias do extremo oriente. Em Bat Yam o leitor encontra Albert, um velho senhor que ainda lamenta a morte de sua mulher, Nadia. O filho único deles, Rico, viaja ao oriente, numa jornada de autoconhecimento. Dita, a mulher de Rico, espera o marido, mas vela pelo sogro, escreve um roteiro para um filme, se envolve com um produtor cinematográfico, Dubi, e um investidor, Giggy. Albert por sua vez se envolve com uma colega de profissão também viúva, Bettine. Em capítulos que são como flashes, como cenas de um filme, cada personagem narra ou experimenta uma parte do mosaico que Amos Oz vai montando aos poucos. A metaliteratura não é um artifício bobo para Oz, não é um exercício pós-moderno de estilística. O narrador interage com os personagens, ouve suas críticas sobre o desenrolar da trama, discute resumos do livro com o leitor; o escritor Amos Oz também invader a narrativa com seus fantasmas pessoais (trazendo a história de seus pais, o suicídio de sua mãe, algo de suas relações com as mulheres, da repercussão de suas idéias nos jornais). Há passagens muito boas no livro ("... al joven que se fue a buscar en las montañas el mar que está enfrente de sua casa" é a que mais gostei, mas há coisas realmente poderosas nele). Fiquei muito tempo ser ler coisas de Oz (lembro-me de ter lido quase simultaneamente vários livros dele: Fima, Conhecer uma mulher, A caixa preta, Pantera no porão, mas de repente perdi o interesse). Talvez seja a hora de voltar a eles. Logo veremos.
 [início: 07/10/2012 - fim: 15/10/2012] 
"El mismo mar", Amos Oz, tradução de Raquel García Lozano, Barcelona: ediciones Siruela (Coleccíon Contemporânea - De Bolsillo), 1a. edição (2006), brochura 12,5x19 cm, 280 págs. ISBN: 978-84-8346-000-9 [edição original: 'Oto ha-yam (אותו הים) (Jerusalém: Keter) 1999]

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

heitor

Foi Heloísa, querida amiga, quem me fez conhecer esse pequeno livro. Sylvia Loeb conta uma história potente e concisa. Ela usa no livro alguns artifícios literários: trechos de jornais e revistas, um poema de Mário de Sá Carneiro, uma ilustração curiosa, de uma tamareira milenar. Esses artifícios enfatizam sobretudo a banalidade e preponderância do mal, a natureza potencialmente cruel e vingativa de todos os homens (na verdade todos os personagens do livro são cruéis e vingativos, amargurados e duros, com eles mesmo e com os outros). Diferentemente do herói grego, o glorioso domador de cavalos, filho de Príamo, defensor valoroso das muralhas de Tróia, o Heitor personagem de Sylvia Loeb é mau pai, mau marido, mau chefe, mau filho, mau amigo. Felizmente o livro é curto. Em um livro longo um protagonista como o Heitor que a autora nos apresenta tornaria nossos dias de leitura insuportáveis. As vozes da narração são multiplicadas, um artificio que ajuda a tolerar o convívio que o leitor experimenta com personagens tão medonhos, doentes, sofridos. Claro, há uma truque ingênuo no livro, aquele em que todos os personagens fazem seu relato do que viveram e todos acabem aceitando de alguma forma sua cota de azares e sorte, como se fosse possivel que na vida todos pudéssemos simultaneamente nos conformar com os destinos que trilhamos (acredito que é sempre uma minoria - que se medica, se ilustra ou, simplesmente, que tem sorte - alcança algum descanso perene na loucura dessa vida). Vou procurar outros livros dela, pois passei poucas horas a ler "Heitor", mas continuo com algo dele comigo. Não é pouco.
[início: 18/10/2012 - fim: 19/10/2012] 
"Heitor", Sylvia Loeb, São Paulo: editora Terceiro Nome, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 102 págs. ISBN: 978-85-7816-089-0

sábado, 20 de outubro de 2012

corto viaje sentimental

Italo Svevo (ou Aron Hector Schmitz, ou Ettore Schmitz) é conhecido e respeitado por três poderosos romances: Una Vita e Senilità (que publicados ainda no final do século XIX foram muito mal recebidos pelo público e crítica) e La Coscienza di Zeno, de 1923, que um entusiasmado James Joyce, de quem Svevo era aluno de inglês, na Escola Berlitz de Trieste, fez esforços para que fosse publicado e traduzido. Svevo pouco aproveitou o bom acolhimento de La Coscienza di Zeno, morreu em 1928, em um acidente automobilístico. Há quem diga que Joyce usou algumas características de Svevo em seu Leopold Bloom, o protagonista do seminal Ulysses. Mas vamos ao livro. Em "Corto viaje sentimental" estão reunidas quatro narrativas publicadas quase trinta anos depois da morte de Svevo. Três delas (Las confesiones del viejo, Umbertino e Mi ocio) são aparentadas. Na primeira delas o narrador é um velho senhor, algo ranzinza e maniático, que reflete sobre seus hábitos, sua família, a morte de seu filho, a coabitação difícil com sua nora; na segunda ele descreve seu amor pelo neto e algumas conversas que tem com sua mulher, seu médico e seus amigos; no último ele fala de uma experiência amorosa da velhice, da alegria de viver essa aventura (talvez mais cerebral que física), mesmo sabendo ser enganado e explorado pela amante. O relato mais longo (e que dá nome ao livro) envolve um outro personagem, o senhor Aghios, um homem de meia idade. Ele viaja para compromissos de negócios, de trem, entre Milão e Veneza. No início está algo animado por se afastar da mulher e ter a chance de flanar e flertar. Observa seus companheiros de viagem como se fosse um escritor em busca de personagens. Faz o censo das manias e dos gestos de um gordo e falador comerciante, de uma jovenzinha que acompanha um parente vigilante, de um soturno rapaz que suspira e dorme, de um casal de pessoas pobres que erra o vagão em que deveriam estar. Por uma coincidência (e por sua vocação para se intrometer na vida dos outros) Aghios acaba convidando o rapaz a ir com ele até o praça São Marcos, no centro de Veneza (ambos tem que esperar algumas horas por um outro trem que os levará até Gorizia. Quem já esteve por lá sabe o quão impactante é viajar pelo Canal Grande veneziano, principalmente a noitinha, principalmente de gôndola. O garoto conta sua rocambolesca história de amor e fala de suas dificuldades financeiras. Aghios e o condutor da gôndola, velhos senhores, no fundo invejam a ingenuidade do rapaz. Nessa última (assim como nas demais histórias, cabe dizer) o que se narra é menos importante que a forma, que a construção ondulante e vagarosa das frases, que enfeitiçam o leitor. Os ritmos serpeantes do trem e da gôndola se confundem. Aghios pensa ser um bom observador da alma humana, mas o leitor sabe que ele sempre tem uma percepção errada das coisas e do caráter dos outros. Talvez Svevo não tenha publicado estes textos em vida por não considerá-los bons o suficente, sabe-se lá. O leitor percebe que falta robustez a trama, que a história carece de mais atrativos, mas a qualidade da prosa vale o tempo que investimos nela. E vamos em frente. 
[início: 25/08/2012 - fim: 18/10/2012] 
"Corto viaje sentimental", Italo Svevo, traducción de Carmen Martín Gaite, Madrid: Alianza editorial (libro de bolsillo, literatura contemporáneos), 1a. edição (2008), brochura 11x17,5 cm, 263 págs. ISBN: 978-84-206-6248-0 [edição original: Corto viaggio sentimentale e altri racconti inediti (Milano: Mondadori editore), 1957]

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

un asunto de honor

Esta curta história foi pensada desde o início para se transformar em um roteiro e logo em um filme. Antonio Cardenal, produtor cinematográfico, amigo de Arturo Pérez-Reverte, encomendou a ele, um tanto brincando, um tanto falando sério, uma história ligeira que envolvesse "accíon y jovenes y música y cosas así". Pérez-Reverte relutou um bocado e tentou se afastar do projeto, mas acabou enfeitiçado pelos dois personagens que imaginou justamente no momento em que o amigo fez o convite. Sei disso pois Pérez-Reverte conta a história de como "Un asunto de honor" se converteu em "Cachito", filme produzido em 1996, em um curto e divertido posfácio incluído no livro. A história é mesmo descompromissada. Um ex-presidiário, Manolo, trabalha como caminhoneiro. Um dia para em um prostíbulo barato, onde se encontra com alguns conhecidos, e ouve a história de uma garota cuja virgindade foi negociada com um sujeito. Quando sai do prostíbulo descobre que a tal garota havia se escondido em seu caminhão. Seu primeiro impulso é levá-la de volta ao prostíbulo, o que acaba mesmo fazendo, seguro de que com isso estaria se afastando de um problema grave, mas seu sentido de honra acaba fazendo com que ele resgate a garota de seus captores, empreedendo uma fuga rocambolesca pelas estradas da Andaluzía, no sul da Espanha, rumo a Portugal. Não há muito mais o que falar. Há um punhado de personagens secundários, algo caricatos. O leitor sabe desde a primeira página que Manolo e Maria (ou antes, Trocito, o invulgar apelido que a garota ganha ao ficar com ele) irão se envolver de alguma forma. A narrativa é contada em curtos capítulos, que rapidamente levam o leitor a um desfecho realmente cinematográfico (mas de cinema comercial mesmo, sem pretensões intelectuais elevadas, já que não há mesmo nada de sofisticado no livro). Diversão ligeira, para se ler entre cousas mais poderosas.
[início: 04/10/2012 - fim: 06/10/2012]
"Un asunto de honor", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de lectura, 2a. edição (2006), brochura 12,5x19 cm, 110 págs. ISBN: 84-663-1902-6 [edição original: Madrid: editorial Santillana (Alfaguara), 1995]