sexta-feira, 23 de novembro de 2012

bananas podres

Neste livro encontramos cinco poemas longos chamados "Bananas podres". Os dois primeiros são de 1980 e os três últimos de 2010. Ferreira Gullar os apresenta aqui manuscritos, com uma caligrafia muito peculiar,  juntamente com colagens e pinturas produzidas por ele mesmo. Os poemas falam da infância de Gullar em São Luís, no Maranhão; dos fragmentos de memórias da quitanda de seu pai; da geografia da cidade; dos hábitos e costumes da época; das discussões e piadas dos fregueses que ouvia; dos ecos da história do Brasil (e da grande guerra que acontecia na Europa) reverberando no ambiente; enquanto bananas apodreciam no balcão, vagarosas. É um livro que se deixa ler com calma, que evoca as memórias do leitor. Ao mesmo tempo trata-se de um livro de arte. As colagens, os recortes de jornal, as pinturas de Gullar enfeixam os poemas. Maravilha. Haverá mais poesia por aqui, ainda neste ano. Logo veremos.
[início 12/11/2012 - fim 21/11/2012] 
"Bananas podres", Ferreira Gullar, Rio de Janeiro: editora Casa da Palavra, 1a. edição (2011) brochura 25x23cm, 64 pág. ISBN: 978-85-7734-228-0 [edição original: Bananas podres, Bananas podres II (Na vertigem do dia, editora José Olympio, 1980), Bananas podres III, IV e V (Em alguma parte alguma, editora José Olympio, 2010)]

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

epifanias

Para os cristãos epifania é a revelação divina de Jesus, a visita que ele recebeu dos três reis magos, evento comemorado no dia de reis, o seis de janeiro de cada ano. Já secularmente e/ou literariamente falando epifania é uma forma não divina de revelação, a súbita percepção de uma verdade, uma associação inusitada de idéias, um insight ou intuição sobre algo, ainda que não verbalizável. Joyce não inventou o conceito. Talvez o uso da palavra epifania para o conceito tenha sido uma escolha original dele (mas há quem diga que Ralph Waldo Emerson já o havia feito), enquanto Gerard Mankey Hopkins, William Wordsworth, além de místicos, como Hildegard of Binge e Marguerite Porete, também fizeram uso deste procedimento em suas produções poéticas. Joyce apresenta sua teoria pela primeira vez no inacabado "Stephen Hero" (em parte adaptado no romance "Retrato do artista quando jovem") numa passagem na qual descreve a conversa de uma moça com seu namorado e associa a hesitação da moça com a paralisia incorrigível da Irlanda. Joyce passou a  registrar o que ele entendia por epifanias em um caderno (e certamente utilizou parte delas no Ulysses e no Finnegans Wake). Dentre as prováveis 71 epifanias originais produzidas por Joyce descobriu-se os manuscritos de 40, que foram publicadas em livro no início dos anos 1990 [James Joyce: Poems and Shorter Writings, editors: Richard Ellmann, A. Walton Litz and John Whittier-Ferguson (Londres: Faber and Faber) 1991]. Comprei o livro com entusiasmo, mas não gostei muito do resultado. É mesmo uma pena, mas um leitor não familiarizado com a obra de James Joyce (e talvez também aquele não familiarizado com o aparato crítico sobre sua obra) pode até ter ouvido falar sobre epifanias, mas não vai entender nada sobre elas lendo esse livro. Claro, as 40 epifanias remanescentes estão ali, traduzidas e lado a lado com os originais. O livro oferece isso, óbvio, mas o eventual (e neófito) leitor dificilmente vai entender o que há nelas de belo e fundamental (ou o que há de revelador e questionador nelas). A apresentação assinada por Dirce Waltrick do Amarante, incluída nas orelhas, é boa, e ajuda um tanto ao convidar o leitor para aventurar-se com o livro, apontando para seu valor, mas o ensaio assinado pelo tradutor Piero Eyben é maçante demais, técnico e acadêmico demais, para que o leitor passe por ele antes de chegar às epifanias e tenha ainda algum ânimo. Paciência. Talvez a proposta editorial fosse esta mesmo. Apresentar as epifanias e deixar ao leitor o exercício de reconstruir o sentido de cada uma delas, forçando-o a fazer suas próprias associações. Sabe-se lá. Eu, vou em frente.
[início 16/11/2012 - fim 19/11/2012] 
"Epifanias", James Joyce, tradução de Piero Eyben, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 42 pág. ISBN: 978-85-7321-397-3 [edição original: James Joyce: Poems and Shorter Writings, editors: Richard Ellmann, A. Walton Litz and John Whittier-Ferguson (Londres: Faber and Faber) 1991]

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

duncan garibaldi

Primeiro volume de uma prometida e ambiciosa série, "Duncan Garibaldi (e a Ordem dos Bandeirantes)" garante bons momentos de leitura. André Cordenonsi criou uma história movimentada, onde se equilibram bem ação e mistério, fantasia e história. O livro me parece direcionado para o público infanto-juvenil, mas um sujeito curioso sobre a história do Rio Grande do Sul também pode vir a se interessar. A história é ambientada na região central deste estado, em Santa Maria, nos entornos de um velho (e antigamente importante) entroncamento ferroviário, e de um conjunto de casas conhecido como Vila Belga. Dois garotos assistem a morte de uma garota e começam a viver uma série de aventuras. Há criaturas mágicas, sociedades secretas, artefatos misteriosos, perseguições de trem, combates singulares, lutas do bem contra o mal. O texto segue o roteiro conhecido de histórias deste tipo: por um lance do acaso um herói é chamado para uma aventura, após fraquejar inicialmente reúne um grupo de associados, passa por uma série de provações, e conta com a sorte (e sua predestinação) para vencer num final épico. Claro, livros assim sempre foram escritos e tem um inegável apelo popular. Fórmulas deste tipo foram rejuvenecidas - se é que se pode dizer uma coisa destas - por J.K. Rowling com sua série Harry Potter, e Stephenie Meyer, com sua série Crepúsculo, que geraram dezenas de obras parecidas, inclusive no Brasil. Há quem acredite que o leitor destas sagas jamais passará a ler sistematicamente livros de adultos quando for adulto, mas isso é algo que apenas uma futura sociologia da literatura nos poderá dizer. O diferencial oferecido por Cordenonsi é que não há apenas invenção e fantasia em seu texto, o sujeito fez um bom trabalho de pesquisa histórica para fundamentar o que apresenta, além de conseguir sustentar o interesse por seu texto até o final do volume. Divertido. Vamos a ver o que ele nos apresentará nos próximos. 
[início 27/10/2012 - fim 31/11/2012]
"Duncan Garibaldi e a Ordem dos Bandeirantes", A.Z. Cordenonsi, Baependi/MG: editora Underworld, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 235 pág. ISBN: 978-85-64025-36-6

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

mala índole 2

Ler Javier Marías não é tudo o que um sujeito pode fazer na vida, mas não ler Javier Marías é insuportável. Que felicidade receber este livro dele e reler seus contos uma vez mais. Na nobre arte do conto Javier Marías também tem como afirmar suas habilidades. São trinta histórias. Quase todas podem ser encontrados em volumes que foram publicados há muito tempo (Mientras ellas duermen, em 1990, e Cuando fui mortal, em 1996). Há quatro exceções. O conto que dá nome ao livro, Mala índole, foi publicado solitário em um pequeno volume da Plaza y Janés, em 1998. Outros três são mais recentes e inéditos em livro. Ele classifica os trinta contos como "aceptados" e "aceptables", ironias de um sujeito que sabe rir de si mesmo, claro. Boa parte delas são histórias de fantasmas; histórias de duplos; tratam do inevitável absurdo da vida; contam o encontro de homens com seu destino; usam as dificuldades de tradução, os limites da compreensão de outra cultura, para explicar os males humanos; descrevem o fatalismo que persegue um sujeito, como nas tragédias gregas. Reencontrei algumas de minhas histórias favoritas: Gualta; Una noche de amor; Mientras ellas duermen; Lo que dijo el mayordomo; Prismáticos rotos; Cuando fui mortal; Menos escrúpulos; Sangre de lanza; Mala índole; El viaje de Isaac (para citar só um terço deles, difícil escolher entre tantas histórias boas). Agora que conheço relativamente bem sua obra foi possível apreciar melhor algumas histórias. Há contos nos quais aparecem personagens de seus poderosos romances. O pintor/falsificador Custardoy (que acompanhamos em Tu rostro mañana e no Corazón tan blanco) é um deles, aparece em Figuras inacabadas e em Un inmenso favor. O gângster - na falta de um outro qualificativo - Ruibérriz de Torres (de Los enamoramientos) é outro, o encontramos em Sangre de lanza e no excelente Mala índole, já citado. Grande Javier Marías. Esses últimos dias imerso em sua prosa tornaram tudo o mais irrelevante e tedioso. Pena que até os bons momentos, as boas leituras, acabem, inexoravelmente. Vamos em frente. 
[início 31/10/2012 - fim 14/11/2012] 
"Mala índole: Cuentos aceptados y aceptables", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Santillana ediciones generales), 1a. edição (2012) brochura 14x23cm, 433 pág. ISBN: 978-84-204-0280-2

terça-feira, 13 de novembro de 2012

essa coisa brilhante que é a chuva

Os nove contos deste pequeno livro são como episódios de uma festa das luzes particular, festa que Cíntia Moscovich fez por bem dividir com seus leitores. Um leitor calmo leria cada um deles a cada noite, como num Chanucá, mas açodados como hoje somos todos, não o conseguimos, e certamente lemos os contos enfileirados (talvez uma solução seja voltar a eles com calma a cada dia e repetir o deleite). O título, Essa coisa brilhante que é a chuva, ilumina os nove contos, como um Shamash, mas não nomina nenhum deles, uma ideia interessante. Também não há um índice no livro para nos guiar até cada um dos contos, como se Cíntia preferisse que seguíssemos simplesmente a ordem em que ela os colocou. Gatos adoram peixe, mas odeiam molhar as patas trata das tribulações de um cinquentão, as voltas com sua mãe, sua oficina e seu gato; Mare nostrum fala da emoção contida de uma menina, que vê o mar pela primeira vez, com os pais; Caminho torto para uma linha reta conta do apego de um casal a um cachorro enjeitado, de como é o instinto que funciona nas coisas do amor; A balada de Avigdor é uma espécie de conto de fadas moderno, no qual duas crianças trocam o papel que seus pais imaginaram para elas; O brilho de todas as estrelas canta o luto de um sujeito que vai visitar o túmulo da mulher, acompanhado de seu cachorro e seu cavalo; Um coração de mãe é o mais sombrio, ao falar da solidão, de como a vida é mesmo um sopro, da angústia de tentar postergar a morte; Aos sessenta e quatro faz um contraponto com o anterior, mostrando que alguma sorte torna possível contornarmos as adversidades, que nem tudo é fixo e definitivo; Tempo de voo fala da impotência de um sujeito em cadeira de rodas ao presenciar um acidente; Uma forma de herança narra a longa e complicada reforma de uma casa, como se Cíntia quisesse fazer uma espécie tributo às tradições, à memória de uma família e de um tipo de vizinhança, coisas e valores que descartamos facilmente hoje em dia. São contos de uma falsa leveza, que parecem apenas entreter, mas levam o leitor a pensar naquilo que há de mais fundamental na vida (aquilo que há de importante para cada um de nós). Apesar do risco inerente, não há espaço para sentimentalismos bestas nas histórias dela, antes um bom humor entranhado, mesmo nos assuntos que merecem solenidade. Sabe-se lá porque nunca havia lido nada dela antes, mas foi divertido encontrar esse livro em particular e participar desta festa iluminada por Cíntia Moscovich.
[início 03/11/2012 - fim 04/11/2012] 
"Essa coisa brilhante que é a chuva", Cíntia Moscovich, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 140 pág. ISBN: 978-85-01-40127-4

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

sangue, ossos & manteiga

Sempre generosa, foi Sibele, amiga querida, quem emprestou-me esse livro. Quando conversávamos sobre "Sangue, ossos e manteiga" pensei que se tratava de uma versão feminina dos livros do Anthony Bourdain, principalmente seu "Cozinha confidencial", mas ao terminá-lo sei que é algo diferente (acho que a Sibele já sabia disto quando me emprestou o livro e deve ter se divertido com minhas tentativas de entendê-lo antes de sequer abri-lo). Não é um livro de gastronomia, mas sim um livro de memórias, um livro onde Gabrielle Hamilton registra (e ficcionaliza) suas experiências, sua vida. Mas quem diabos é Gabrielle Hamilton? Ficamos sabendo que ela é proprietária, além de chef, de um pequeno restaurante em New York, aberto no final de 1999. Aos poucos alcançou respeito e admiração, primeiro de sua clientela, depois de seus colegas cozinheiros, a despeito de não ter uma formação clássica em culinária, não ter frequentado escolas especializadas, não fazer parte de uma turma de amigos cozinheiros descolados. Claro, há um bocado de digressões sobre culinária, sobre hábitos de consumo, sobre a realidade da vida nos restaurantes (nada glamuroso, já se sabe). Gabrielle Hamilton sabe contar causos sem ser caricata. O que há de factual em sua vida pode ser resumido mais ou menos assim: nasce na segunda metade dos anos 1960, em uma família de classe média (baixa); os pais - uma francesa que gostava de cozinhar e um pai artista que gostava de sonhar - se divorciam quando Gabrielle tem uns 12 anos; termina o ensino médio e vai para New York; trabalha em um bar de yuppies no início dos anos 1980, ganha uma fortuna e gasta tudo em drogas; é demitida, quase presa, entra para uma faculdade - de letras, feminista e marxista - em Massachusetts, onde fica seus três anos de graduação; resolve viajar, passa uma temporada como mochileira, na Europa e na Ásia, frequentemente passando fome; de volta aos Estados Unidos passa a trabalhar em buffets e empresas de catering; resolve fazer um curso de pós-graduação em escrita criativa; volta a New York e a trabalhar com comida, como free-lancer; no final dos anos 1990, quase por acaso, resolve abrir um restaurante; apesar de só mencionar namoradas até metade do livro eis que se casa com um médico italiano; o casamento não é convencional, não parece que é exatamente amor o que os une; de qualquer forma Gabrielle Hamilton faz sucesso com seu restaurante; tem dois filhos, viaja periodicamente à Itália, para visitar a mãe de seu marido, com quem se identifica. O fato do livro não ser escrito linearmente, mas avançar e retroceder no tempo, como se ela tentasse demonstrar causas e consequencias em sua vida é a grande força do livro (ela sabe escrever bem e dosar o tom do que é confecional - e poderia soar piegas). "Sangue, ossos e manteiga" deve muito a dois autores: Max Weber ("A ética protestante e o espírito do capitalismo" deve ser o livro de cabeceira de Hamilton) e Sigmund Freud (se eu levasse a sério o que há de pajelanças na psicanálise diria que a vida de Hamilton tem facetas que mereceriam legiões de analistas, por décadas, para interpretá-las). Mas minha intuição me diz (mas não tenho paciência para comprovar) que o livro está mal traduzido. O texto é movimentado, ligeiro, mas frequentemente há umas construções totalmente obscuras, como se o tradutor não tivesse o tino de fazer entender o que se dizia no texto original. De qualquer forma nenhum leitor pode dizer que não se aprende um bocado, e não tem horas de prazer, ao se envolver com as aventuras de Gabrielle Hamilton.
[início 21/10/2012 - fim: 01/11/2012] 
"Sangue, ossos & manteiga: a educação involuntária de uma chef relutante", Gabrielle Hamilton, tradução de Lucas Murtinho, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 381 págs. ISBN: 978-85-325-2704-2 [edição original: Blood, bones & butter: The inadvertent education of a reluctant chef  (New York: Random House) 2011]

sábado, 10 de novembro de 2012

arranhões e outras feridas

Conheci o Cassionei Petry primeiro virtualmente, por conta de cousas que ele escrevia em seu blog, e só depois pessoalmente, na ocasião do lançamento deste seu livro, Arranhões e outras feridas, na feira do livro de Santa Cruz do Sul, ainda no final de agosto. Mas não li o livro naquela época, outros foram se empilhando por cima dele (talvez acrescentando a ele outras feridas). São vinte histórias curtas, que lemos quase sempre num fôlego só. Há contos onde se narra em primeira pessoa e outros em terceira pessoa. Acho que Cassionei se dá melhor nestes últimos, onde tudo é mais direto e verossímil. São histórias curiosas. Em geral elas registram situações de desconforto; relações prestes a se transformar; revelações que chocam, mudando radicalmente o entendimento das coisas; melancolias entranhadas; esperanças tênues; o cansaço daqueles que já se aborreceram demais com a vida e apenas, algo estóicos, deixam o tempo passar. Não é exatamente um livro sombrio, mas as histórias são algo amargas, algo avinagradas. Percebe-se que o autor é um bom leitor. Cada uma das histórias incluí uma epígrafe, que provocam um efeito interessante na recepção dos contos. E nos textos frequentemente encontramos menções a escritores e livros, sobre o exercício da literatura. O primeiro livro de alguém sempre é um mistério. Para alguns será o ponto alto da carreira, para outros algo a ser futuramente escondido, reescrito ou renegado, para outros, ainda, o exercício corajoso, ainda que amador, que viabilizou ambições literárias mais robustas. É impossível sabermos agora o destino deste "Arranhões e outras feridas", mas acredito que Cassionei sempre terá carinho por ele, pelo que há nestes contos curtos muito de sincero e vívido. Vamos a ver. 
[início 14/10/2012 - fim: 15/10/2012] 
"Arranhões e outras feridas", Cassionei Niches Petry, Rio de Janeiro: editora Multifoco, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 73 págs. ISBN: 978-85-7961-991-5

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

bonsai

em junho ou julho, a bem da verdade, havia eu decidido não ler esse livro, pois a agitação algo adolescente da crítica nos jornais e as repetitivas resenhas de alguns blogs até respeitáveis só alcançaram previnir-me mentalmente dele. Mas em outubro consegui um exemplar de No leer, um livro de crônicas e ensaios literários de Zambra, que li com alegria. Pensei que um sujeito capaz de produzir reflexões tão consistentes sobre literatura e arte também deveria ser capaz de oferecer ficção com estofo. De fato Bonsai é um bom livro, não um portento, não um cânone, mas algo onde uma boa história é contada, com engenho e concisão. O fato de ser algo que mais apropriadamente deveria ser chamado de conto e não ser vendido como o romance latino-americano da década (talvez do século, açodaram-se alguns em dizer) irrita um tanto o leitor. Sabemos ao apenas folhear o livro que trata-se de um produto de engenharia editorial, um livro feito para aqueles que têm pretensões literárias, para jornalistas e críticos literários sentirem que sua inteligência e/ou cultura serão finalmente dedicadas a um livro edificante, realmente importante. Como Zambra é antes um acadêmico, um professor de literatura, deve ter se divertido especialmente com a agitação que formou-se ao redor de seu livro, como um mágico que sorri discreto e enigmático ou executar seus números. Mas o texto (que é a coisa que realmente importa) se defende sozinho. A ironia do narrador e a crueldade com que descreve seus personagens é o que distingue Bonsai do flerte fácil com a banalidade. Zambra também usa uma cota generosa de truques metaliterários para forçar o leitor a pensar (toda uma lista de leituras é por ele sugerida, o que deve fazer a festa daqueles que gostam de ter suas obsessões e escolhas literárias compartilhadas com os outros). Acompanhamos a história de amor de um jovem casal chileno. Todo aquele que já experimentou alguma paixão sabe da cota bizarra de tolices que somos capazes de fazer (e a péssima clarividência sobre os desdobramentos de nossos atos).  O protagonista se apaixona para ser logo abandonado por uma garota. O leitor sabe desde o início que o sujeito não vai deixar de sentir-se emocionalmente dependente dela. Todas as histórias de amor são ridículas e livros que as descrevem são produzidos aos montes, certamente desde que o homo sapiens sapiens aprendeu a registrar o que sente. O que Alejandro Zambra oferece são pequenos recortes de uma história de amor, fazendo com que o leitor preencha (com sua eventual capacidade de invenção e síntese) as muitas lacunas, tudo aquilo que não é explicitado por ele. Talvez seja assim ele alcança envolver o leitor com sua criação e seduzir tanto com tão poucos recursos. O personagem principal imagina escrever um livro, confunde a vida e seu projeto ficcional, entende mal o que dizem e fazem a seu redor amigos e empregadores. Assim, bem antes do final do primeiro parágrafo do livro, onde Zambra, após resumir sua história (garoto e garota se apaixonam, garota morrre, garoto continua sozinho), diz: o resto é literatura, o leitor sabe que não é exatamente assim, pois além da literatura que Zambra promete para os demais parágrafos de seu livro há toda uma metaliteratura ironicamente implícita nele: os inevitáveis traços do rastilho de opiniões favoráveis; das resenhas laudatórias; do eco de tudo o que se ensina em oficinas de criação literária; dos truques de sedução utilizados por jornalistas que são amigos dos escritores; dos professores e críticos que invejam (nem sempre silenciosamente) o sucesso dos escritores. Tudo que seu personagem não alcança na ficção, mas ele, Zambra, alcança na vida.
[início 20/10/2012 - fim: 21/10/2012] 
"Bonsai", Alejandro Zambra, tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2012), brochura 16x22 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-405-0188-1 [edição original: Bonsai (Santiago do Chile: editorial Anagrama) 2006]

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

giacomo joyce

"Giacomo Joyce" é um conjunto de dezesseis poemas em prosa (se é que se pode classificar tão facilmente assim essa jóia joyceana), sobre um enamoramento dele, experimentado em favor de uma aluna de seus tempos de Trieste, uma espécie de Beatrice Portinari revivida, entre 1911 e 1914. Deve ter sido escrita em 1914, mas só foi publicada postumamente, em 1968, por conta dos esforços do industrioso Richard Ellmann. Lembro-me da primeira vez que li esse texto, nos anos 1980, numa edição muito boa da Brasiliense. A tradução era do Paulo Leminski e a edição incluía fac-símiles das dezesseis páginas manuscritas originais. Anos depois a Iluminuras publicou uma outra tradução, assinada por José Antônio Arantes. Por um acaso dos diabos descobri esta terceira tradução. Nessa última feira do livro de Porto Alegre eis que vi Cida, querida amiga, conversamos um tanto, mas logo depois, qual um homem pernilongo (como aquele descrito por Thomas Mann no Tonio Kröger) serpenteando entre as gentes fui cumprimentar o Zeca, depois o Dilan, também o Rosp, e logo a Denise, o Élvio e o Romar, que foi quem por fim apresentou-me Majela Colares, um poeta nascido no Ceará (de quem ainda vou resenhar algo aqui). E foi o generoso Majela quem mostrou-me um livro do Joyce que eu não conhecia (...traduzido por um amigo meu, disse Majela). Os livros sabem mesmo usar caminhos tortuosos para procurar quem os ame. Essa nova tradução é assinada por Roberto Schmitt-Prym, um gaúcho de Pananbi que é fotógrafo experiente e que já havia traduzido de Joyce ao menos um dos contos do Dublinenses. A edição é bilíngue, da gaúcha Bestiário. Eles incluiram umas boas notas no final (o texto não é particularmente hermético, mas alguma ajuda com cousas cifradas sempre é bem vinda). Numa das orelhas do livro há uma pequena biografia de Joyce (que acho ruim, a única cousa mal feita no livro). "Giacomo Joyce" é para se ler com calma, saboreando as imagens, os sons, a concisão e os efeitos, além de tudo aquilo que não é dito, apenas inspirado pelo texto. Fiquei tão feliz em encontrar esse livro que o registrei aqui antes de tantos outros. Há livros que esperam estóicos um registro, uma memória, represados que estão por minhas viagens e vagabundagens. É tempo de trabalhar, e com mais afinco.
[início - fim: 03/11/2012] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Roberto Schmitt-Prym, Porto Alegre: editora Bestiário, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 47 págs. ISBN: 978-85-98802-04-6 [edição original: Giacomo Joyce (Londres: Faber and Faber) 1968]