quarta-feira, 29 de maio de 2013

tudo o que tenho levo comigo

Só "É isso um homem?", de Primo Levi, pode ser comparado com "Tudo o que tenho levo comigo". Nem "Arquipélago Gulag", de Alexander Soljenitsin, que li quando era um aprendiz de trotskista, décadas atrás, é tão forte e poderoso (e nem é tão bem escrito). Se Levi fala dos horrores nos campos de concentração nazistas, Herta Müller, a exemplo de Soljenitsin, descreve os campos de trabalho na URSS, no pós segunda grande guerra. A exemplo de seu personagem, Leo Auberg, a mãe de Herta Müller foi uma das pessoas que pagaram uma cota de cinco anos de trabalhos forçados nos campos soviéticos. E a exemplo de toda sociedade romena as duas nunca falaram abertamente sobre o assunto, considerado tabu, e que deveria ser esquecido. Mas não por ela, que publicou esse livro em 2009 (no ano em que recebeu o prêmio Nobel). O livro foi concebido e trabalhado a quatro mãos, entre ela e um poeta romeno, Oskar Pastior, que também trabalhou nos campos, mas que morreu antes dos manuscritos alcançarem a forma de livro. Trata-se de algo singular. Não dá para dizer que é um livro maravilhoso, pois o que se discute (ficcionalmente) nele é tão terrível, tão angustiante, tão desagradável e medonho, que só mesmo o gênio de Herta Müller alcança permitir que nós o apreciemos como é devido (e necessário, cabe dizer). Herta Müller dá voz a um personagem já idoso, com quase ointenta anos, que relembra os anos de sua juventude, dos dezessete aos vinte e dois, quando foi deportado de sua Romênia natal para campos de trabalho forçado soviéticos. Todos os romenos descendentes de alemães, com idade entre 17 e 45 anos, deveriam contribuir para a reconstrução da URSS. Leo Augberg faz registros de seu dia a dia, conta detalhes absurdos da burocracia, canta a eterna luta contra a fome, a estupidificação e a morte, a ironia perversa daquilo tudo. Como num outro livro de Levi ("A tabela periódica") há um olhar científico sobre os materiais encontrados no campo, numa espécie de antropologia mineral: o cimento, o carvão, a cal, a escória de alto forno, o piche, as cinzas e o óleo convivem com os homens e mulheres dos campos. O narrador de Herta Müller fala também de zootecnia e botânica (para descobrir as coisas comestíveis do lugar), de psicologia e política (ferramentas de sobrevivência num lugar inóspito), teoria dos jogos (que dá conta do acaso nas possibilidades de viver e morrer). Eles têm nome, mas seus nomes como que não pertencem mais a eles, e sim a personagens de uma comédia macabra. A fome, o tédio, a morte e o medo dominam seus atos e pensamentos. Há cenas incríveis nesse livro. Difícil não se encantar com as imagens da mulher que se afoga num poço de cal; da echarpe de seda que é trocada por 273 batatas; do homem que rouba a sopa de sua mulher; das cores da vegetação que cerca o campo; das contínuas trocas de fatias de pão entre os internos; da mulher que tem um retardo mental mas parece arguta. Há frases curtas no livro, sintéticas e densas, que fazem o leitor parar e refletir: "O tédio é a paciência do medo"; "Cada turno de trabalho é uma obra de arte"; "Se você morrer, economizará lugar lá em casa". O livro segue pelos cinco anos de internação, até a volta de Leo para a Romênia. O mais incrível é que ao voltar para casa os deportados descobriam que voltavam para um país dominado pelo comunismo, onde a repressão política e controle social acrescentavam novas camadas de horror à suas vidas. Leo é homossexual, o que torna sua vida sob tal regime ainda mais arriscada. Não há interlocutor possível. Os antigos colegas de campo se evitam mutuamente. Pais e filhos se recusam a debater o assunto. A vergonha (que não existia nos campos, onde tudo era partilhado) os consome. O modelo stalinista de civilização é mesmo uma coisa doente, podre, assustadora e cruel. E é terrível saber que há aqueles que ainda hoje, 2013, ache que é este o modelo a ser imposto aos brasileiros. Ao invés de ler livros infantis e contos de fada para seus filhos, "Tudo o que tenho levo comigo" é que deveria ser lido por todo pai consciente deste país. De certos sonhos e da escravidão mental voluntária não se acorda nunca.
[início: 21/05/2013 - fim: 28/05/2013]
"Tudo o que tenho levo comigo", Herta Müller, tradução de Carola Saavedra, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm., 298 págs., ISBN: 978-85-359-1848-9 [edição original: Atemschaukel (München: Hanser) 2009]

segunda-feira, 27 de maio de 2013

um rio circunferencial

Carlos Gianotti é físico como eu, mas nunca tivemos a chance de nos conhecer nos grandes encontros da SBF (em seus dias de físico ele atuava em Porto Alegre e eu morava em São Paulo). Lendo suas histórias fiquei com a impressão que compartilhamos um entendimento do mundo e da vida algo parecido (mas sabe-se lá quanto dele e de seus valores ou ideias está mesmo fixado no narrador de suas histórias?). Os livros têm formas curiosas de encontrar leitores e este passou pelo Culleton e pela Suzana, amigos queridos, antes de chegar até mim. "Um rio circunferencial" reúne 47 contos. Eles registram, quase sempre com bom humor e ironia, reflexões descompromissadas sobre cenas urbanas, digressões sobre as coisas da vida que um narrador curioso faz e vê. As experiências e causos quase sempre são banais e corriqueiros mas alcançam provocar no leitor além de espanto, cumplicidade. Não é pouco. A contenção é marca significativa dos contos, que são bem curtos, como se Gianotti não tivesse paciência para construir enredos longos e intrincados que justificassem aqueles pequenos momentos que consegue fixar literariamente. Talvez, por um vício editorial - área em que atua profissionalmente hoje em dia, ele se obrigue a desbastar sem dó textos maiores até concentrar uma ideia ou conceito, talvez, por hábito e ritmo, ele parta do que há de seminal nas ideias que tem e inventa enredos que as acolha (só ele poderá dizer a gênese mesma de suas histórias). O livro é ilustrado com imagens fotográficas, que se não foram adrede produzidas para juntarem-se aos contos, foram escolhidas com critério para este fim. Elas são assinadas por Renata Stoduto. Vamos a ver se um dia o conhecerei, se vamos ter coragem de falar de física ou de livros, e se terei a chance de ouvir suas histórias. Vale.
[início: 05/05/2013 - fim: 14/05/2013]
"Um rio circunferencial: contos curtos", Carlos Alberto Gianotti, Porto Alegre: WS editor, 1a. edição (2012), brochura 15,5x22,5 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-7599-141-1

sábado, 25 de maio de 2013

a infância de jesus

O sul-africano J.M. Coetzee recebeu o Nobel de literatura em 2003. Seus livros, que já eram admirados e discutidos naquela época, tornaram-se best-sellers desde então. Trata-se sim de um grande escritor e ensaista (seus ensaios reunidos em "Inner workings" e "Costas Estrañas" são mesmo poderosos e seminais). Já li vários romances dele. Meus favoritos são "Disgrace", "The Master of Petersburg", e a trilogia "Boyhood", "Youth" e "Summertime", mas esta lista já é demasiado longa para merecer algum valor. "A infância de Jesus" é o livro mais recente dele, publicado neste 2013 mesmo, pois hoje em dia as grandes corporações editoriais trabalham sempre otimizando esforços, inclusive os de divulgação, global, maciça e imediata, quase sempre. Em "A infância de Jesus" Coetzee nos apresenta um lugar inominado, uma distopia amalucada, onde um sujeito de meia idade (Simão) tem sobre seus cuidados um garoto (David) que perdeu-se dos pais. Neste lugar a sociedade está organizada como numa coletividade socialista, mas sem violência física, grades ou repressão. De qualquer forma o dia a dia das pessoas é monótono, a alimentação repetitiva, o trabalho irrelevante, as leis e a burocracia ininteligíveis, o passado de cada indivíduo obrigatoriamente esquecido. Há paralelismos com "O admirável mundo novo", de Huxley, mas a influência maior me parece ser  "Cândido", de Voltaire. Um "Cândido" às avessas na verdade, apesar da sátira ser também dirigida contra o otimismo (ou antes a alegria) das admiráveis criaturas que vivem naquele lugar inventado por ele. Com essas influências Coetzee produziu uma alegoria, um mágico realismo, um enigmático romance de fantasia. Nele faz releituras de passagens bíblicas e literárias (algo do Don Quijote e de alguns contos de fada), discute temas filosóficos importantes (a natureza do mal, a origem da cognição, a lei do terceiro excluído), prende o leitor ao destino daqueles personagens tão bizarros. Não é exatamente o livro dele que mais me impressionou, mas não se pode negar ser algo muito bem escrito, que se deixa ler rapidamente e nos faz refletir sobre temas interessantes. No melhor dos mundos possíveis de Coetzee o leitor acompanha cenas das agruras do aprendizado do garoto (que já sabe tudo, como qualquer criança imagina saber), do ilógico amor materno que se instala em uma mulher (como na concepção imaculada de Maria, óbvio), da abnegação com que Simão experimenta sua paternidade postiça, da irracionalidade dos feitos e comportamento de todos os personagens. O mantra final de Coetzee parece sugerir que somente a fuga pode dar algum sentido à vida. Mas esta fuga deverá ser permanente, pois a boçalidade humana sempre nos acompanhará, é mesmo algo intrinsicamente nosso.
[início: 19/05/2013 - fim: 21/05/2013]
"A infância de Jesus", J.M.Coetzee, tradução de José Rubens Siqueira, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., págs. ISBN: 978-85-359-2257-7 [edição original: The Childhood of Jesus (London: Jonathan Cape/Random House) 2013]

sexta-feira, 24 de maio de 2013

andorinhas e outros enganos

Há livros que nos surpreendem de tal forma que só nos resta lamentar tê-los abandonado tão miseravelmente em nossos guardados. Foi o que aconteceu com este "Andorinhas e outros enganos". Comprei-o ainda no final de 2012, em meio a festejos e alegrias, mas, ai de mim, só me disciplinei para de fato começar a ler no exato dia de seu relançamento, na última Feira do Livro de Santa Maria. Conhecia o Sidnei de um evento da gloriosa e porto-alegrense Festipoa literária, de um par de anos atrás, mas nunca havia lido nada dele. Em "Andorinhas e outros enganos" estão reunidos doze contos produzidos por ele num período grande de tempo. O mais antigo é de 1995 e o mais recente é de 2009. Cinco deles já haviam sido publicados, sete são inéditos. São histórias curiosas, algumas fortemente ligadas aos registros da memória de imigrantes alemães no estado do Rio Grande do Sul, mas a maioria alcança uma robusta universalidade, pois poderiam descrever qualquer grupo social, qualquer etnia, qualquer tempo e lugar. Há uns exercícios metaliterários neles, mas nada artificial ou forçado, e há também certa concisão que cativa o leitor. Gostei particularmente do sarcasmo de "Comida...", que parece irmão de algo produzido por Rubem Fonseca; "Crônica de Natal... ", uma poderosa descrição de cenas urbanas e de "Proposta de casamento...", que tem um registro gáucho, campeiro, mas suficientemente sofisticado para não nos aborrecermos dele. Belo livro.
[início: 04/05/2013 - fim: 14/05/2013]
"Andorinhas e outros enganos", Sidnei Belmur Schneider, Porto Alegre: editora Dahmer, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 111 págs., ISBN: 978-85-900941-3-5

quinta-feira, 23 de maio de 2013

fantasmas na biblioteca

Interrompi um tanto minha divertida leitura de "La vida y las opiniones del caballero Tristram Shandy", de Laurence Sterne (e traduzido por Javier Marías, um mimo a mais para os sentidos) para assim conseguir postar registros dos vários livros ligeiros que li neste atribulado mês. E há tanta coisa ainda acumulada, já lida e esperando seu devido momento de aparecer. Logo veremos. "Fantasmas na biblioteca" pertence aquela categoria de livros que estimula a vaidade dos bibliófilos, dos acumuladores de livros, dos amantes da leitura. Qual de nós não gostaria de exibir suas preciosidades, contar suas histórias de encontros com os livros? Lemos com o mesmo prazer que encontramos nos livros de Alberto Manguel (como "A biblioteca à noite"), Umberto Eco (antes o instigante "Não contem com o fim do livro" que o aborrecido "A memória vegetal") ou José Mindlin (como "O mundo dos livros"), todos herdeiros de Ricardo de Bury (o autor do seminal "Philobiblon"). Jacques Bonnet é um grande colecionador, sua biblioteca reúne mais de trinta mil volumes. Entretanto mesmo o mais modesto dos colecionadores facilmente reconhece como parecidos com seus os comentários de Bonnet. Ele fala das ramificações infinitas que nossas bibliotecas adquirem com o tempo; da surpresa com as mudanças em nosso gosto literário; das inofensivas porém caras patologias, como a de não suportar falhas em nossas coleções; das facilidades que a internet (e a miríade de sebos à disposição pelo mundo) trouxe aos bibliófilos; conta divertidos - e também trágicos - causos sobre o mundo dos livros; reflete sobre o passado e o futuro deles; descreve a legião de habitantes imateriais de sua grande biblioteca. É sim um bom livro, que será recebido com cúmplice alegria em meus guardados, acolhido como um confrade que é reconhecido por outro, mesmo de longe. Evoé!
[início: 16/05/2013 - fim: 20/05/2013]
"Fantasmas na bilioteca: A arte de viver entre livros", Jacques Bonnet, tradução de Jorge Coli, Rio de Janeiro: editora Civilização Brasileira (José Olympio), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-200-1000-6 [edição original: Des Bibliothèques Plines de Fantômes (Paris: Éditions Denoël) 2008]

quinta-feira, 16 de maio de 2013

para uma nova didática do olhar

"Para uma nova didática do olhar" reúne três ciclos de cinco poemas ("Ilíada", "Navigare Necesse" e "Panis et Circences"). São quinze peças poéticas muito delicadas, curtas mas potentes, férteis em associações, ricas em imagens. Um mundo grego e o mar parecem brotar de um circo, de um campo de futebol, de um cinema de cidade pequena. Odemir Tex Jr. registra o mundo das grandes descobertas infantis, da camaradagem dos que se sabem iguais, daqueles que crescem juntos e vivem, plenamente, sem temor. Mas quem escreve não é um menino, um jovem, nem um saudosista de afetos infantis, mas sim um autor muito seguro de si, que denuncia em seus versos ser um leitor rigoroso de clássicos (Homero, Melville, Borges, Pessoa), de conhecer muito da tradição de seu ofício. Os poemas sabem se defender sozinhos (e vários deles já foram premiados ou publicados anteriormente em antologias). A forma em que são apresentados os poemas, o livro que os enfeixa, faz parte de um projeto muito interessante. Trata-se de uma "edição cartonera", um formato de edição artesanal onde a encadernação é feita com capas de papelão trabalhadas artisticamente, o que torna cada exemplar uma peça única (meu exemplar é numerado 85/176 e pode ser rastreado pela editora - não sei exatamente como, mas sei que ao menos a editora sabe que este exemplar foi comprado por mim, o que nos torna algo cúmplices, Tex, a editora Estrela Cartonera, o volume que acolhi em meus guardados e eu). Este processo editorial surgiu há cerca de dez anos, na Argentina, e tem sido utilizado por artistas plásticos, fotógrafos e escritores - sobretudo na América Latina, como alternativa aos meios tradicionais de publicação. Não sei se cada exemplar poderia mesmo ser definido como um "livro de artista", mas o método de produção do livro lembra algo daquele formato. Poesia de primeira num livro-objeto de primeira, o quê mais faria um leitor feliz?
[início - fim: 23/04/2013]
"Para uma nova didática do olhar", Odemir Tex Jr., Santa Maria: editora Estrela Cartonera, 1a. edição (2013) capa de papelão 15x21,5cm., 42 págs., ISBN: 978-85-66301-08-3

domingo, 28 de abril de 2013

cartas pônticas

Recentemente, ao ler o impressionante "Danúbio" encontrei uma menção ao exílio de Ovídio. "Augusto soube escolher sua vingança", escreve Claudio Magris, ao comentar o lugar do desterro do poeta. Foi em Tomis, a atual Constança, na Romênia, perto do delta do rio Danúbio, onde Ovídio viveu seus últimos anos, os longos dez anos desde do banimento imposto por Augusto. Tomis havia sido fundada pelos gregos e à época de Ovídio (no início do século I) era uma fortificação da fronteira oriental do Império romano. Ovídio lá viveu assustado com os constantes ataques dos povos ditos bárbaros daquela região, incomodado pelo frio intenso, os ventos gélidos e as más acomodações do lugar, saudoso da vida boêmia, das amizades e das delícias de Roma. Nestas "Cartas Pônticas" estão reunidas cartas que ele escreveu solicitando a intervenção de amigos junto a Augusto (e depois depois da morte deste, a Tibério) ao menos por sua transferência para um lugar de exílio não tão penoso (aos poucos ele se convence da inutilidade de seus pedidos). As primeiras cartas deixam o leitor um tanto incomodado, pois soam como aborrecidos e repetidos exercícios de adulação (é uma associação besta, mas acho que muitas das cartas que o narrador de "Em busca do tempo perdido" escreve devem algo ao estilo das de Ovídio). Mas aos poucos experimentamos um outro efeito, como se o gênio de Ovídio se despejasse de uma vez só. Compreendemos de súbito o quão grande pode ser a dor do sujeito que se sabe impotente frente as circunstâncias da vida (que acontece serem terríveis quase sempre, apesar de nossos esforços em nos iludir com as mirradas maravilhas que encontramos). Qualquer sujeito que esteja para assumir um cargo importante, sinta-se orgulhoso de sua fama momentânea ou do sucesso em sua atividade, deveria ler um par destas cartas. Aprendemos com ele como num sopro aquilo que nos valorava pode tornar-se a prova de nossos crimes, que nossas habilidades podem tornar-se exatamente o nosso fardo, que é fácil ser esquecido por quem não conta mais com nossos favores e mimos. Não se sabe exatamente o porquê da decisão de Augusto, mas provavelmente Ovídio foi traído por coisas que ele mesmo escreveu e defendeu em seus poemas. Há sabedoria nas cartas, mas uma sabedoria esgotada, cansada, quase inerte. Em umas poucas cartas ele deixa de lamentar suas desgraças e consola genuinamente alguém em luto ou adoentado, por amizade ou por educação. Noutras ele convoca sua Musa e espera que seu talento não se extinga de vez. Mas nem tudo é dor, nos anos de exílio Ovídio aprendeu a língua do lugar (a língua dos Getas, das diversas tribos Trácias e Dácias do baixo Danúbio) e chegou a escrever versos nela. Num mar de estupidez, o conhecimento e a erudição são os únicos remédios realmente eficazes ao alcance dos homens. As cartas foram originalmente escritas como poemas, os versos medidos e contados, mas o tradutor optou por fazer uma versão em prosa das cartas. O livro inclui uma detalhada introdução crítica sobre a vida e obra do poeta, além de uma bibliografia. E, por fim, o livro termina num lamento poderoso: "Se me for permitido dizê-lo, minha Musa, entre tão grandes autores, tinha um nome preclaro e encontrava leitores. Deixa, portanto, Inveja, de insultar um homem banido de sua pátria e não disperses, cruel, as minhas cinzas. Tudo perdi, só me foi deixada a vida para oferecer sentido e matéria à minha desgraça. De que adianta cravar o ferro em membros extintos? Não há mais em mim lugar para uma nova ferida". Será possível maior clareza?
[início: 12/04/2013 - fim: 27/04/2013]
"Cartas Pônticas", Ovídio (Públio Ovídio Naso), tradução de Geraldo José Albino, São Paulo: editora WMF Martins Fontes, 1a. edição (2009), brochura 13,5x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-85-7827-043-8 [edição original: Epistulae ex Ponto, (Tomis / Mar Negro) anos 12 a 16]

sábado, 27 de abril de 2013

o caderno rosa de lori lamby

"O caderno rosa de Lori Lamby" é um livro francamente pornográfico (e que livro maravilhosamente pornográfico ele é). Algo inebriado em doces lembranças o reli após encontrá-lo em meus guardados, curioso que fiquei por conta da notícia de uma peça sobre Hilda Hilst que estreava em São Paulo, dias atrás. Lembrei-me da festa de lançamento dele, num pequeno bar dos jardins, num maio já frio e úmido, há mais de vinte anos. Lembrei-me da Misa e do Péricles, dos desencontros (porque os corpos se encontram, mas as almas não), do punhado de vinho barato que bebi, de um Guina que de alguma forma já se esquivava daquela São Paulo dos campos de Piratininga. Mas meu exemplar de "O caderno rosa de Lori Lamby" não está autografado, pois naquele dia, algo arrogante e pudico, cabotino e tolo, resolvi que só levaria o outro livro que a Hilda autografava, seu belo conjunto de poemas, "Amavisse". Acho que eu já havia comprado este último no ano anterior, mas lembrar dos detalhes do que fiz em 1990 soa tão anacrônico como falar de histórias da época das cavernas, paciência. Proust já nos ensinou (foi o Elstir que nos ensinou a bem da verdade) que nossas encarnações prévias não podem ser censuradas pelo que eram, pelas decisões que tomaram, pelas tolices que fizeram. E ter esperado na fila apenas pelo autógrafo de um dos livros, e não dos dois, foi o menor do erros que cometi naquela noite. O livro de Hilda é delicioso. As ilustrações de Millôr Fernandes, que povoam o volume algo incontroláveis, traduzem para o leitor o mundo mágico inventado pela escritora. Lori Lamby é uma garota que escreve histórias bem picantes. Mas ela não o faz por uma estranha luxúria ou despudor, mas sim para ajudar seu pai escritor, pressionado por seu editor a abandonar seus livros sérios e escrever algo rentável para variar. Ao final do livro experimentamos a mesma surpresa que "O mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, provoca, quando descobrimos que a narradora não tem nada de alter ego ou de autobiográfico, mas sim é apenas uma personagem, uma inteligentíssima e rebelde invenção afinal de contas. Uma personagem através da qual Hilda plasma literariamente seus ressentimentos com o mercado editorial brasileiro da época (e acho que ela não pararia de vomitar, caso ainda fosse viva). Como toda literatura deste gênero as associações psicanalíticas são óbvias (o final, com os pais da menina internados em um sanatório, recuperando-se do choque em descobrir os talentos da menina, é engraçado à beça). O tempo passou, "Amavisse" não se tornou "seu último livro de poesias" (como ela ameaçava), nem "O caderno rosa de Lori Lamby" e os demais livros pornográficos dela não se tornaram "uma forma de conversão dos leitores para sua literatura séria" (como seus amigos - e ela mesma - esperavam). É um livro que envelheceu um tanto (envelheci também eu, claro), mas continua bem divertido e interessante. 
[início: 23/04/2013 - fim: 25/04/2013]
"O caderno rosa de Lori Lamby", Hilda Hilst, ilustrações de Millôr Fernandes, São Paulo: Masao Ohno editor, 1a. edição (1990), brochura 15x22 cm., 88 págs., sem ISBN.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

depressões

São quinze contos terríveis, contos que só serão tolerados e lidos sem medo, do primeiro ao último e sem interrupções, por um leitor bem humorado ou otimista, nem um pouco estressado, leitor que esteja de bem com a vida e seja suficientemente curioso, pois caso contrário é fácil abandoná-los sem dó. Trata-se de "Depressões", o primeiro livro publicado de Herta Müller. Ela o publicou em alemão, em 1982, quando ainda morava na Romênia. Uma segunda versão foi publicada em 1984, quando já havia emigrado para a Alemanha. Os contos quase sempre são curtos, duas, três ou quatro páginas, somente um deles é realmente longo. O conto que dá nome ao livro tem quase oitenta, conta a história de uma garota adolescente que se descobre no mundo, mas que aparentemetne não sabe que vive uma versão real do mito da caverna platônico. São páginas opressivas e cruéis, todas elas. O que salta evidente destas histórias são a estupidez do comunismo, o absurdo da escravidão que a experiência do totalitarismo gerou, as misérias de gerações inteiras condenadas aos desmandos de um grupo pequeno de indivíduos doentios. Herta Müller quase sempre usa frases curtas, algo monocórdias, como em uma litania infernal. Ela conta histórias simples, como a de crianças que mal entendem a opressão que as dominam; ou das relações consanguíneas nos vilarejos empobrecidos e controlados por sádicos comissários do povo; ou a de um dia de finados particularmente duro de aceitar; ou das lembranças de um piromaníaco; ou do censo dos passageiros de um ônibus de província; ou, numa espécie de autoanálise, sobre a fuga através do alcoolismo; ou do lamento de uma cansada moradora de rua. Não há concessões bestas ou escapismo nas histórias (não há esperança na realidade de um deus ex machina, ou em uma alternativa que são seja engendrada nos destroços daquela gente mesmo). "Depressões" é um livro bom de se ler pela qualidade do texto, pelas metáforas, pela beleza inusitada das construções, mas como aproveitar a beleza que brota das vísceras, lama, águas estagnadas, da solidão e sofrimento das pessoas? Os temas realmente cobram algo do conforto mental do leitor, mas Herta Müller é mesmo uma grande escritora. Impressionante.
[início: 11/04/2013 - fim: 15/04/2013]
"Depressões", Herta Müller, tradução de Ingrid Ani Assmann, posfácio de Ricardo Lísias, São Paulo: editora Globo, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm., 161 págs., ISBN: 978-85-250-4834-9 [edição original: Niederungen (Bukarest: Kriterion Hefte) 1982]