terça-feira, 15 de outubro de 2013

fingidores

Seguro que Rodrigo Rosp deve ter se divertido no processo de invenção deste seu "Fingidores" (ele incluiu o subtítulo "comédia em nove cenas" nele, mas como uso um número limitado de tags em meus registros de leitura, classificarei seu livro de outra forma). O ritmo e o tema da história lembra um tanto as peças curtas de Woody Allen (como, por exemplo, aquelas reunidas em Adultérios), ou daqueles sketchs antigos do grupo inglês Monty Python. Trata-se de uma peça de teatro quase pronta para ser encenada. Não é exatamente fácil sustentar o tom certo de uma comédia, nem ao vivo, nem num texto. Mas Rosp, talvez lembrando de Edmund Gwenn (que disse: "Dying is easy, comedy is difficult."), alcança manter um bom ritmo (e, com isso, o interesse do leitor). Ri-se um bocado do humor que Rosp extraí da morte, do ciúme, do sexo, do medo e da traição. O protagonista da história é Caio, que parece morrer e experimentar uma sucessão de epifanias post mortem (através das quais faz um balanço do que viveu mais intensamente antes de aceitar seu destino). O texto de Rosp tem força e originalidade, e leva o leitor, cena a cena, por certos dilemas que todos experimentamos na vida (mundana ou espiritual). Caio é um cético clássico, arquétipo, o tipo do sujeito que amamos ter como amigo, como uma espécie de consciência canalha, que nos purga de nossa fácil hipocrisia. Acho que ainda verei trechos deste livro encenados. Vale.
[início: 09/10/2013 - fim: 10/10/2013]
"Fingidores: comédia em nove cenas", Rodrigo Rosp, Porto Alegre: Não editora, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-61249-46-5

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

carta sobre a felicidade

Esta pequena plaquete contém apenas uma carta, a do filósofo grego Epicuro a um de seus discípulos, Meneceu. A edição é bilíngue e inclui uma pequena apresentação, que contextualiza o que é discutido na carta frente ao conjunto da obra de Epicuro (a tradução e a apresentação são assinadas em dupla, por Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore). Resolvi lê-lo agora pois justamente esse texto é citado em um outro com o qual estou envolvido nestes dias: "Federico en su balcón", de Carlos Fuentes. Achei que era uma boa coincidência encontrá-lo e que valeria a pena entender um tanto mais sobre Epicuro antes de voltar às invenções de Fuentes. Em sua carta Epicuro apresenta basicamente o que poderíamos chamar de instruções, como a de que a prática da filosofia deve ser sempre cultivada; que não há nada a se temer sobre os deuses ou sobre a morte; que a felicidade é algo que pode ser alcançado; que a dor é suportável; que a prudência e o hedonismo são valores supremos. Claro que a filosofia de Epicuro deve ser algo muito mais complexo do que se depreende destas poucas instruções (que de resto são suficientemente genéricas para serem aplicadas às mais variadas situações). Interessante (mas viver no Brasil já é suficientemente terrível, cruel e aborrecido para que a busca pela felicidade possa ter alguma chance de sucesso como Epicuro parece defender tão alegremente). Talvez eu devesse ser um tanto mais disciplinado e estudar mais os gregos, conhecer melhor os filósofos, voltar aos clássicos, mas o quê fazer com os outros projetos? Paciência. Vamos em frente. 
[início - fim:04/10/2013]
"Carta sobre a felicidade: (a Meneceu)", Epicuro, tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, São Paulo: editora UNESP, 1a. edição (1997), brochura 10x14,5 cm., 52 págs., ISBN: 978-85-7139-397-4 [edição original: Ἐπίκουρος (300 a.c.), tradução para o português baseado na edição de Graziano Arrighetti 'Epicuro - Opere, Introduzione, testo critico, traduzione e note" (Classici della Filosofia) Turin: Einaudi, 1960]

domingo, 13 de outubro de 2013

sete fogos

Comprei esse livro ainda no início de 2012, um presente de aniversário. Li e experimentei algumas receitas (primeiro nuns dias divertidos em Itaara, quando Helga e eu para lá fomos descansar dos aborrecimentos do trabalho, depois ao adaptá-las à minha cozinha - uma quase heresia, comparada aos espaços amplos e a eterna luta contra o foto empreendida por Francis Mallmann). Em algum momento indiquei o volume para os amigos. Primeiro para don Robsón, senhor das hermenêuticas heideggerianas, depois para don Ronái, senhor dos caminhos e da luz pelo sul, e por fim a don Albano, dos pés ligeiros e filosóficos. Já em 2013, num dia glorioso, resolvemos visitar don Stein, em seu olimpo particular, lá nas terras altas de Morro Reuter e eis que o Robson levou junto exemplar, como presente. Mas fazia frio, e acabamos não assando nada ao estilo argentino naqueles dias. Agora com os dias mais quentes de primavera voltei a folhear este belo livro, em busca da inspiração certa para uma festa (que acabamos cancelando). Paciência. Francis Mallmann é um dos chefs mais famosos da Argentina. Mantém restaurantes em Mendoza e Buenos Aires, na Argentina, e em Gárzon, uma pequena cidade uruguaia (que Ronái, Robson e eu nos esforçamos para visitar, mas, ai de nós, tivemos de abandonar também esse projeto). Os livros de chefs famosos sempre são um enigma, já que alguns realmente inspiram o leitor, mas outros parecem artificiais, feitos por encomenda para aproveitar o desejo que todo neófito da culinária tem de ser tocado por alguma Musa glutona. Não é o caso deste belo volume. Repleto de imagens belíssimas, assinadas por vários fotógrafos: Santiago Soto Monllor (a maioria delas); Virginia Del Giudice, Miki Duisterhof, Peter Kaminsky, Jason Lowe e John Kernick (entre outros), tem a autoria é dividida com Peter Kaminsky, um americano especialista em escrever livros de culinária, exatamente em parceria com chefs famosos. As receitas não se limitam às carnes, diria até que enfatizam bastante o uso de vegetais e frutas, que não apenas acrescentam sabor e açucares aos pratos, mas também trazem um colorido ao processo, tornando o ofício do assador ainda mais mágico e luminoso. Talvez seja o caso de retomar aquele projeto, ir visitar Gárzon, fazer um desvio para o Uruguai em boa companhia, ir se inspirar nas travessuras gastronômicas argentinas sugeridas por Francis Mallmann. É tempo
[início: 04/03/2012 - fim: 12/10/2013]
"Sete fogos: Churrasco ao estilo argentino", Francis Mallmann, Peter Kaminsky, tradução de  Sandra Martha Dolinsky, São Paulo (Cotia): Vergara e Riba editoras, 1a edição (2011), capa-dura 22,5x26 cm., 278 págs., ISBN: 978-85- 7683-305-5 [edição original: Siete fuegos: mi cocina argentina (Buenos Aires: V/R editoras) 2011]

sábado, 12 de outubro de 2013

água na boca

Esse pequeno livro foi pertence a categoria dos divertimentos. Dois escritores italianos de sucesso, o quase nonagenário Andrea Camilleri e Carlo Lucarelli (trinta e cinco anos mais jovem que o colega), resolveram aceitar o desafio literário de um astuto editor (Daniele di Gennaro, da "minimum fax"). Juntos eles produziram um romance onde estão reunidos seus dois personagens principais, o comissário Salvo Montalbano (de Camilleri) e a inspetora Grazia Negro (de Lucarelli). O resultado é bom. Por conta dos projetos individuais de cada um o formato escolhido foi a de um romance epistolar. Cada um produzia um capítulo e enviava ao outro, que passava a desenvolver a trama. Vê-se logo nos primeiros capítulos que o objetivo de cada um nunca foi facilitar a vida do outro, antes o contrário. Ambos inventam situações difíceis ao final de cada uma de suas partes, tornando a tarefa do colaborador um jogo intrincado de adequação e possibilidades criativas (onde cada um aparentemente tentava ser fiel ao "physique du rôle" de seu personagem, mas aceitava as propostas apresentadas que desviavam algo delas). Acho que ambos se divertiram muito neste projeto, que tomou-lhes pouco mais de três anos. Nunca havia lido nada de Lucarelli e pouco sabia das habilidades investigativas de sua Grazia Negro, mas gostei desta brincadeira metaliterária. A história envolve mortes e a mão pesada do serviço secreto italiano (que fazem serviço sujo para o histriônico antigo primeiro ministro italino, Sílvio Berlusconi). Camilleri faz alguns de seus coadjuvantes aparecerem (a discreta e eficiente Ingrid, além do desastrado e inoportuno Catarella) e inclue sua cota de invenções gastronômicas. Lucarelli apresenta Grazia como implacável, porém sedutora, obstinada, porém prática. O único problema deste livro é ser pequeno demais para que possamos comparar melhor estes dois curiosos personagens.
[início - fim: 07/09/2013]
"Água na boca", Andrea Camilleri, Carlo Lucarelli, tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 106 págs., ISBN: 978-85- 286-1706-1 [edição original: Acqua in Bocca (Roma: minimum fax editoriale) 2010]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

32 stories

Adrian Tomine nasceu em 1974 em Sacramento, California. No início dos anos 1990 mudou-se para Nova Iorque e entre 1991 e 1994, ou seja, entre os 17 e os 20 anos, produziu, editou e distribuiu os sete primeiros volumes de "Optic Nerve", mini-comics de tiragem limitada que tiveram grande repercussão, tanto de público quanto de crítica. Eram trabalhos quase artesanais, fanzines feitos a caneta e reproduzidos com xerox. Em 1995 ele passou a produzir seus trabalhos para a editora canadense de comics do circuito alternativo Drawn and Quarterly Publications. Posteriormente passou também a contribuir regularmente para jornais e revistas americanos, como a The New Yorker. Já tive chance de comentar aqui tanto os números de "Optic Nerve" produzidos para a Drawn and Quarterly ("Sleepwalk and Other Stories", que reúne os volumes 1 a 4; "Summer Blonde", volumes 5 a 8, e "Shortcomings", volumes 9 a 11) quanto os trabalhos produzidos para a The New Yorker ("New York Drawings"). Em "32 Stories" estão reunidos seus primeiros trabalhos. São histórias de iniciação, quase toscas muitas delas, onde vê-se claramente que trata-se de um autor que busca sua forma de expressão. A técnica vai se aprimorando, alguns temas são retomados, questões polêmicas são abandonadas. Em qualquer cidade centenas de garotos devem produzir todos os anos histórias assim. De alguma forma os trabalhos de Tomine se destacaram e ele conseguiu passar a ser editado regularmente. Em seus trabalhos iniciais nota-se algo da tensão entre aqueles que são mais fortes e ainda hoje interessantes (aqueles onde é feita apenas uma descrição da realidade, sem julgamentos de valor, exposição de teses sociológicas ou tentativas de antropologia selvagem) e aqueles que já restam rotulados (por estarem presos a alguma agenda política e/ou econômica da época). Apenas vinte anos se passaram desde a publicação original, mas o mundo parece ter sido varrido por transformações. A euforia dos anos que seguiram a queda do muro de Berlin e da redemocratização do Leste Europeu logo se esgotou. O controle tecnológico que experimentamos todos é pleno e poderoso, a espetacularização das vidas e da cultura é hoje completa e os problemas mais importantes continuam sendo os mesmos de sempre: a aparente inadequação do homem moderno para a vida em sociedade, a impossibilidade de compreendermos (ou aceitarmos) completamente os outros, a solidão, a dificuldade (ou antes a incapacidade) de amar. Tomine não me parece pretensioso a ponto de querer esgotar os temas, pontificar suas verdades como únicas. Há um humor discreto em seus trabalhos, por vezes os personagens parecem piscar para o leitor, algo cúmplices. Sujeito divertido esse Tomine.
[início: 04/10/2013 - fim: 06/10/2013]
"32 Stories: The Complete "Optic Nerve" mini-comics", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 3a. edição (1997), brochura 14x21,5 cm., 98 págs., ISBN: 978-1-896597-00-9

domingo, 6 de outubro de 2013

la sonrisa de angelica

"La sonrisa de Angelica" é o vigésimo-primeiro livro com as aventuras de Salvo Montalbano, o industrioso personagem inventado por Andrea Camilleri. O comissário Montalbano está quase com 60 anos, mas ainda é o gastrônomo e o sedutor adorável de sempre. Neste volume, que é inspirado e brota do "Orlando Furioso", de Ariosto, os jogos de paixão e ciúmes são explícitos. Camilleri nos apresenta uma série de crimes que assola a região de Vigáta, mas eles são elaborados demais - e concentrados demais em um grupo restrito de pessoas - para que Montalbano não imagine que eles sejam apenas distrações para um outro tipo de crime que deve estar sendo preparado. No curso das investigações ele conhece Angélica, uma mulher muito bonita (também ela vítima de um dos crimes cometidos), por quem o comissário imediatamente se apaixona (como Orlando se apaixonou a seu tempo). As mentiras adolescentes de um apaixonado sempre são cômicas, Montalbano se enreda nelas, afasta-se momentaneamente de Lívia, de seus comandados (Fazio, Catarella, Mimí Augello e os demais), de Ingrid (a amiga de ocasião, que já tantas vezes o ajudou) mas não perde sua extraordinária capacidade de investigação. Faz-se de bobo quando necessário, apura seu sentido de honra e alcança encontrar o nexo correto dos crimes. A trama é bem elaborada, mas crível (Camilleri surpreende com seu estoque inesgotável de truques - quase sempre cênicos, inspirados no ritmo do teatro, mas também com reviravoltas psicológicas, que brotam do mundo dos sonhos e do acaso e sempre se encaixam bem em suas histórias). Divertido, mas vamos em frente.
[início: 23/08/2013 - fim: 28/08/2013]
"La sonrisa de Angelica", Andrea Camilleri, tradução de Teresa Clavel Lledó, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-541-0 [edição original: Il sorriso di Angelica (Palermo: Sellerio editores) 2010]

sábado, 5 de outubro de 2013

pura picaretagem

Daniel Bezerra e Carlos Orsi, autores de "Pura picaretagem" (que tem o subtítulo "Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!" impresso explicitamente na capa) são dois otimistas inveterados. Não fosse assim não teriam a disposição de publicar um livro que fala o que deveria ser óbvio para qualquer pessoa minimamente educada, mas só sendo muito otimista para acreditar que um dia a população brasileira deixará de se iludir com bobagens esotéricas amalucadas. Mas devemos louvar esse otimismo deles. Neste pequeno livro eles explicam como nenhum dos conceitos da mecânica quântica pode ser utilizado, nem remotamente, para resolver problemas da vida prática das pessoas, como a busca de sorte no amor e nos negócios, ou a experiência da felicidade nos relacionamentos e nas viagens, ou a eficiência técnica em questões jurídicas apresentadas em tribunais ou mesmo em projetos mirabolantes para alcançar sucesso nas carreiras profissionais de cada um. Enfim, deveria ser fácil de entender que não há nexo causal entre física quântica e a cura de problemas de saúde ou entre ciência e o poder de uma pessoa fazer seus desejos mundanos se concretizarem. Infelizmente a maior parte da população prefere explicações mágicas e o malabarismo mental de trambiqueiros ao invés estudar ciências. Bezerra é físico, Orsi jornalista, ambos escrevem regularmente sobre ciências, sociedade e literatura em blogs e jornais impressos. Nos capítulos iniciais do livro eles apresentam uma versão condensada da história da física dos últimos quatrocentos anos. Descrevem os conceitos mais importantes da física moderna, especialmente as interpretações da mecânica quântica e as implicações filosóficas que advém delas. O texto é bem curto e escrito numa linguagem coloquial, sem tecnicidades intransponíveis,mesmo para os neófitos em ciências. Nos capítulos finais eles desconstroem os argumentos de místicos, escritores de livros de auto ajuda, arautos do pensamento positivo e outros picaretas profissionais que usam argumentos da mecânica quântica em seus eficientes projetos de retirar dinheiro da mão dos tolos. É um bom livro. Talvez eu não devesse ser tão pessimista e compartilhar com Bezerra e Orsi algo deste entusiasmo no poder de convencimento das ciências.
[início: 12/08/2013 - fim: 19/09/2013]
"Pura picaretagem: Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!, Daniel Bezerra, Carlos Orsi, São Paulo: editora LeYa, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-8044-826-9

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

a maçã envenenada

Michel Laub apresenta em "A maçã envenenada" a história de um sujeito de quarenta anos, jornalista, que por alguma razão localiza num dilema moral, em um acontecimento fortuito de sua juventude, a origem de seu desconforto com a vida. Ao entrevistar uma ativista tútsi, sobrevivente do massacre de Ruanda (ocorrido início dos anos 1990), ele lembra que na mesma época do massacre um de seus ídolos, Kurt Cobain, o líder da banda Nirvana, havia cometido suicídio. O sujeito passa então a narrar seu conturbado relacionamento com uma garota, seu primeiro amor, um típico amor adolescente que desde o início está condenado ao fracasso. A garota é também vocalista de sua banda de rock, na Porto Alegre provinciana daqueles dias. O dilema moral que o narrador experimentou quando era jovem envolvia ir ou não com a namorada ver um show do Nirvana, em São Paulo, ao mesmo tempo que deveria decidir se aceitava ou não a extorsão pecuniária de um colega de sua turma do serviço militar, por conta de uma transgressão boba (que ele imaginava capaz de eventualmente destruir sua carreira profissional). Laub contrasta o suicídio de Cobain com o estoicismo e força da ativista tútsi e, simultaneamente, oferece ao leitor fragmentos da história do narrador, de sua namorada e da mãe dela, onde encontramos simetrias (trágicas simetrias) com aquelas duas histórias. A exemplo do que sempre acontece no mundo real, na história inventada por Laub os irrelevantes dilemas do narrador se evaporam (talvez não exatamente por acaso, mas de qualquer forma sua vida segue por novos caminhos). O narrador, em 2013, parece não estar convencido da eficácia efêmera do desgosto e continua aborrecido e culpado, preso ao passado. É um livro fácil de ler. E é de fato bem escrito, mas não empolga muito (as histórias de aprendizado raramente empolgam). Todavia Laub tem o mérito de exemplificar num bom texto que não há nada a se invejar da juventude (época dos milagres, como lembra divertido Josep Pla, mas que é boa e memorável exatamente porque acaba, quando todos nos metamorfoseamos um dia, afinal, em um adulto). Paciência. "Diário da queda" agradou-me muito mais. Aparentemente "A maçã envenenada" é o segundo volume de uma trilogia. Vamos esperar, e ler. Trivia: Laub enumera trechos de seu livro, de 1 a 101. Talvez seja uma bobagem, mas não há como deixar de pensar que a história que se narra é uma história de iniciação, de exercícios - como nos cursos 101 das universidades americanas.
[início: 06/09/2013 - fim: 07/09/2013]
"A maçã envenenada", Michel Laub, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 119 págs., ISBN: 978-85-359-2311-7

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

la religión de un médico

Esse volume reúne três textos de Sir Thomas Browne e um apêndice (divertido, cabe dizer) assinado por Javier Marías, também tradutor e editor dos textos (por sua diminuta porém seminal Reino de Redonda). "Religio Medici - La religión de un médico" é o texto mais longo (e o mais importante, chegou a ser colocado no index papal de obras proibidas). Publicado originalmente em 1643 Religio Medici reúne reflexões sobre a fé cristã, mas longe de ser um manual de cristianismo oferece ao leitor boas digressões sobre a prática da medicina, o estudo da filosofia, da astrologia e da alquimia. Browne é basicamente um cientista natural de seu tempo, que adequa seu ofício às conveniências religiosas da Inglaterra do século XVII, mas cuja curiosidade intelectual o faz explorar com algum rigor fenômenos físicos, claro, no limite do esoterismo se comparamos sua prática com o que se entende por ciência hoje em dia. Hydriotaphia (Urn Burial, or a Discourse of the Sepulchral urns lately found in Norfolk) é de 1658. Trata-se de um texto onde Browne descreve urnas funerárias (que ele imaginava serem de romanos, mas sabemos hoje serem de saxões) e dos hábitos de sepultamento (a queima ritual do corpo e o enterramento das cinzas e dos ossos - procedimento utilizado pelos povos antigos - em contraposição ao enterramento do corpo - prática mais comumente utilizada pelos homens de seu tempo). Browne discute basicamente a questão da mortalidade (ou não) dos corpos e das almas, além de propor curiosas reflexões sobre a melancolia - antecipando algo da psicologia (clínica) necessária para entender este estado de espírito. "On Dreams - De los sueños" é um opúsculo na forma de carta, publicado postumamente, em 1682. Browne digressa sobre a função dos sonhos. Defende um ponto de vista racionalista, retirando dos sonhos qualquer poder de influir no mundo real vivido pelos homens. Ele exemplifica (a partir dos registros de textos bíblicos e clássicos) o quão aleatórios e indomáveis são os sonhos. Fala também da passagem inexorável do tempo, que retira de nossos atos corriqueiros qualquer valor ou importância. Sua prosa é muito rica, repleta de citações e associações interessantes. As extensas notas que estão incluídas na edição ajudam o leitor a acompanhar o texto. A imaginação que brota dos texto é vasta e poderosa. Seu estilo e humor são inspiradores. Sua retórica propicia ao leitor partilhar de suas dúvidas (antes de suas certezas), o quê é sempre bom que um autor faça. Talvez seja o caso de não nos surpreendermos do fato que um sujeito do século XVII alcance reunir reflexões ainda importantes sobre a psicologia humana, afinal de contas estamos sempre as voltas com os mesmos temas e conceitos (e os homens são mesmo uns tolos, que pouco aprendem, pouco lembram e pouco sabem, ai de nós). Javier Marías publicou originalmente estas traduções em 1986. No apêndice ele descreve a divertida confusão que provocou (com uma das notas da primeira edição de sua tradução) ao citar a provável invenção de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, também eles tradutores de Browne, de um trecho de Hydriotaphia. Comecei a ler este livro ainda no ano passado, mas após terminar Religio Medici achei que precisa decantar aquelas idéias e associações por uns tempos. Não tinha ciência que o retomaria somente tanto tempo depois. Sorte minha.
[início: 30/08/2012 - fim: 27/09/2013]
"La religión de un médico, El enterramiento en urnas", Sir Thomas Browne, tradução de Javier Marías, Barcelona: Editorial Reino de Redonda (coleccíon Debolsillo Clásica), 1a. edição (2012), brochura 12,5x19 cm., 287 págs. ISBN: 978-84-9989-753-0 [edição original Religio Medici (Londres, 1643); Hydriotaphia (Londres, 1658); On Dreams (Londres, 1682)]