"
Graal" é uma peça dramática, uma bufotragédia mefistofélica ou mefistofarsa bufotrágica, nas palavras do autor, Haroldo de Campos. Foi escrita em 1952, nunca havia sido publicada em livro. Era conhecida por uns poucos, filhos e amigos somente, gente que privava da intimidade e da generosidade de Haroldo. Em duas oportunidades, em 2014 e 2016, cenas da peça chegaram a ser lidas nas edições do
Hora H, evento já tradicional que acontece na Casa das Rosas paulistana, em homenagem ao poeta. Pois um grupo de valorosos cavaleiros saiu em busca deste cálice poético, há
muito deixado esquecido entre os guardados do grande Haroldo,
trazendo-o à luz, ao papel, ao público leitor, aos afortunados e crentes na fé dos Campos. A organização é do ator e diretor teatral Carlos Antônio Rahal, mas o livro conta com a colaboração do venerável crítico Jacob Guinsburg, e dos multitalentosos poetas Lucio Agra e Claudio Daniel. Em quatro robustos ensaios críticos eles exploram as muitas experiências provocadas pela leitura de "
Graal" e contextualizam a peça não apenas no panorama poético da sempre instigante e seminal produção de Haroldo, mas também em sua interlocução com o teatro brasileiro (desde seu interesse pela obra do Padre Anchieta, passando pela peças de Oswald de Andrade e chegando a suas contribuições nas encenações de Gerald Thomas e Bia Lessa, já nos anos 1980). Outro bom poeta da távola haroldina, Marcelo Tápia, assina uma curta nota na contracapa. O livro inclui também uma reprodução
fac-símile do original datilografado da peça, e que contém esparsas anotações e correções manuscritas. "
Graal" é uma peça em dois atos, curta, não sei avaliar quanto tempo duraria caso encenada. Cada ato é dividido em quatro cenas. A cenografia é sempre precisa: jornais e recortes de jornais, peças de carne e sangue, dinheiro em maços e avulso, cifrões metálicos. Há por vezes o som de muitas máquinas de escrever e o alarido dos homens, na rua. Três coros conduzem a peça (um dos iguais, um dos sem cabeça e um dos sem braços, para mim um dos hipócritas, um dos que não pensam e um dos que não trabalham). Do texto brotam citações mil e ironias a granel, miríades de associações são possíveis a partir do que é dito. A fusão de palavras e a musicalidade lembram claramente Joyce. Por vezes parecia ouvir
a voz de Haroldo ao longe, ou na cantilena das
Galáxias, ou declamando aqueles fragmentos do
Finnegans Wake que tão bem traduziu. Na primeira cena do primeiro ato nasce o protagonista da peça,
Graal, dito arquivista, anunciado pelos três coros; na segunda, talvez cem anos à frente,
Graal trabalha e recebe uma sibila ou moira funesta, memória dos tempos, dita
Dame Mémoire, sua mãe; na terceira um sujeito,
Messine Le Mot, faz à
Graal uma proposta de negócios indecente; na quarta e última cena do primeiro ato,
Tinnula, uma criança, e dois dos coros, anunciam que é hora de
Graal sair para uma festa, com
Aureamusa/Áurea (a primeira é a que ele vê, a segunda é o que ela é, mulher sempre bifronte). Na primeira cena do segundo ato Graal está só, tentado por
Todaluz/Luciphalus, como tantos outros deuses e homens também já foram tentados; na segunda cena
Dame Mémoire parece fazer o tempo recuar (o arquivo é filho da memória, nos lembra o poeta) e lembra
Graal, como boa mãe, que ele já foi tentado antes a tornar-se popular e bem querido, a aceitar
Vox Populi, mas renegou a ambos (como Stephen renegou a igreja e a mãe, no "
Retrato de um artista quando jovem"); na terceira cena recuamos ainda mais no tempo, talvez para o momento em que
Graal e
Aureamusarondinaalúvia acordam após terem descoberto o sexo, num amor aprendiz, como Tristão e Isolda; na última cena o casal (e os coros, e os demais personagens) estão em uma mesa de banquete e fausto, dirigem-se ao público, como no final de uma
Commedia della'arte medieval, agradecendo a audiência, lembrando que o amor é primo da morte (como já disse Carlos Drummond de Andrade). Terá
Graal se consubstanciado naquele último repasto, numa última metamorfose? Cada leitor é o juiz. A beleza da linguagem é perene na peça. Haroldo inventa e encanta. Há imagens muito bonitas, imagens que certamente encontrariam boas soluções nas mãos de bons cenógrafos (para além das determinantes indicações do autor, sempre preciso). Eu, menor dos anões desta província, as imaginei como brotando exóticas como as das páginas de "
Às avessas", do Huysmans, impressionantes e facetadas, como nas telas de um Francis Bacon. Que beleza esse livro. Evoé Haroldo, evoé!