terça-feira, 31 de outubro de 2017

em louvor da sombra

De Junichiro Tanizaki já havia lido quatro novelas reunidas nos volumes "A gata, um homem e duas mulheres" e "A vida secreta do senhor de Musashi". Recentemente encontrei esse curto ensaio dele, publicado originalmente em 1933. Tanizaki discorre sobre estética, sobre os contrastes entre luz e sombra, exemplificando suas ideias por meio da arquitetura, da culinária, do artesanato, da jardinagem, cores, vestuário e maquiagem utilizados no teatro Nô, do tom da pele das pessoas (entre tantos outros exemplos). Ele contrasta também a cultura oriental e a ocidental, ou aquilo que ele entende por cultura ocidental. Seu elogio (seu louvor) é por objetos que guardem vestígios da passagem do tempo: o piso cujos veios e nós se desgastam pelo uso seletivo que fazemos dos espaços; os utensílios de cozinha que engorduram e enferrujam, escurecendo-se; os painéis que esmaecem pela ação do sol. Ele fala também do brilho perolado que um grão de arroz deve ter se corretamente preparado ("Que japonês digno desse nome não se comove quando, removida de golpe a tampa da terrina, vê o cálido vapor subir do arroz recém preparado, cada grão reluzir como pérola em gota?", diz ele) e das vantagens da madeira laqueada chinesa sobre a porcelana ocidental. Fiquei tão impressionado que fui atrás de informações sobre o urushi-e, a técnica milenar japonesa de laqueamento. Que beleza. Em suas reflexões Tanizaki lembra que no passado os ambientes eram pouco iluminados, sempre imersos na fraca e bruxuleante luz produzida por velas. O efeito da pouca luz nos detalhes dourados e reflexivos produziam uma espécie de encantamento, seja nos ambientes domésticos, nas recepções públicas ou no teatro. Em algum momento ele se pergunta se seria possível estender os princípios estéticos japoneses para a ciência, que naturalmente seria uma ciência diferente da ocidental, hegemônica e utilitarista, prática. De certa maneira ele antecipa o fascínio japonês pelo neon, a inundação de luz que associamos hoje às grandes cidades japonesas, em contraste com a escuridão e o silêncio dos jardins e dos templos ancestrais. Ele sabe que não há como retardar os avanços tecnológicos, conter a modernidade, mas sabe que a força da cultura japonesa prevalecerá sutilmente a qualquer gadgets que seja inventado (essa palavra obviamente ele não antecipa, mas sim defende a ideia de que qualquer técnica ou instrumento possa ser "japonizado", adaptado às tradições japonesas). Ensaio muito bom, para se ler com calma, num dia de inverno, ouvindo Koto e Shamisen. Em algum momento lembrei-me de um restaurante japonês muito antigo que frequentava no início dos anos 1980, ali no final da Cardeal Arcoverde, bem próximo ao largo da batata. Ficava no segundo piso, subíamos por uma escada estreita, bem gasta. O proprietário e sushi-man era um idoso senhor, de rosto com uma miríade de marcas de varíola, que aparentava ser forte, mal falava o português, atendia os clientes em silêncio, oferecendo chá fumegante para quem se sentava no balcão. Era um restaurante bem escuro mesmo, repleto de antigos calendários e objetos empoeirados. A luz era filtrada por painéis e por alguma mágica mal ouvíamos o alarido da rua, dos ônibus que continuamente fluíam abaixo de nós. Um dia levei lá meu orientador, o Frank Missell, e ele lembrou de uns velhos restaurantes japoneses de Cambridge e Boston, que frequentava quando era estudante. Aquele foi sim um dia especial. O velho Tanizaki soube mesmo neste ensaio fixar o que experimentamos quando recebemos a epifania da luz e da sombra. Kampai!
Registro #1231 (crônicas e ensaios #218)
[início: 01/10/2017 - fim: 17/10/2017]
"Em louvor da sombra", Junichiro Tanizaki, tradução de Leiko Gotada, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-8285-059-6 [edição original: In'ei raisan 陰翳礼讃 (Tokyo 1933]

domingo, 29 de outubro de 2017

dicas da imensidão

De Margaret Atwood só havia lido um pequeno mas potente livro, "A Odisséia de Penélope", há mais de dez anos. Semanas atrás, por conta da agitação que sempre antecede a divulgação do prêmio Nobel de literatura, resolvi ler algo dela. Atwood está sempre presente nas listas de favoritos de uns anos para cá, mas, já se sabe, ganhou um outro favorito, Kazuo Ishiguro. Em "Dicas da imensidão" estão reunidos dez contos. São histórias realistas, que demonstram uma curiosidade por um certo tipo de pessoas, aquelas que viveram uma vida agitada, típica dos subúrbios de classe média, com relacionamentos, tempos de estudo  e de trabalho, eventualmente filhos e proezas, talvez menos sucessos que aborrecimentos, mas sempre não exatamente da forma com que sonharam em algum momento prévio de suas vidas. Os personagens são professores, advogados, jornalistas, gente de mundo da arte e da cultura, que olham para o passado e tentam encaixar uma narrativa para a vida que viveram e irão viver. As histórias acontecem quase sempre na região de Toronto, no Canadá, mas os personagens ora viajam para a Inglaterra, ora cruzam a fronteira próxima dos Estados Unidos e passam um tempo por lá. Os recortes de vida que Atwood apresenta ao leitor pertencem quase sempre ao período que vai da Segunda Grande Guerra até meados dos anos 1980. Os fatos históricos deste período, bem como as ações de pessoas reais até são citados vez ou outra, mas apenas incidentalmente, o que importa para o narrador dos contos é o impacto destes fatos e ações nos personagens ali inventados. Nos contos quase sempre é sobre uma mulher que se narra, mulheres geralmente fortes, emancipadas, seguras de si, mas que trazem no corpo certas feridas, vestígios de seus combates, sabem que a ausência de uma amiga que morreu, dos filhos que cresceram, das paixões que se foram é uma ausência que não será roubada delas, uma ausência que as alimentará no futuro. Quando um homem é o protagonista certo da história trata-se de um farrapo humano, um tolo ou um canalha. Mas o livro não é sexista, o tom é sempre claro, o leitor reconhece facilmente a verossimilhança daqueles personagens, pobres homo sapiens contemporâneos nossos. Os contos realmente são bem escritos. Interessante mesmo, mas vamos em frente.
Registro #1230 (contos #144)
[início: 01/10/2017 - fim: 16/10/2017]
"Dicas da imensidão", Margaret Atwood, tradução de Ana Deiró, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 238 págs., ISBN: 978-85-325-2991-6 [edição original: Wilderness tips (Toronto: McClelland & Stewart / Penguin Random House Canada) 1991]

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

pode não ser o que parece

"Pode não ser o que parece" deve algo ao Freaknomics, livro de sucesso popular sobre economia dos anos 2000, assinado por Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, mas tem predicados suficientes para ganhar sozinho seu espaço. Samy Dana e Sérgio Almeida são dois jovens e respeitados professores universitários, navegantes no mundo áspero das finanças, negócios, consultorias, educação e jornalismo, sempre fazendo uso de teorias econômicas (se é que elas se adaptam à realidade bizarra deste nosso Brasil). O livro deles discute alguns casos onde as escolhas que fazemos em nosso dia a dia, tanto aquelas em grande escala quanto aquelas de pouco valor, escondem na verdade fundamentos econômicos bem conhecidos, ou ao menos bastante estudados por pesquisadores atualmente. Eles alcançam fazer isso fazendo uso de linguagem simples e sem malabarismos teóricos impenetráveis a leigos. São apenas dez casos, dez propostas para argumentação. Primeiro um assunto é brevemente apresentado e então progressivamente discutido, num método socrático (mas sem diálogos). Funciona bem. Os temas são variados (como a vida, claro). Eles fazem considerações sobre drogas e regulação; sobre escolhas afetivas; sobre a educação dos filhos; a busca do santo graal da felicidade; a razão de termos amigos; o auto entendimento do que seja sucesso; a função do ambiente - agentes sociais e acasos naturais - em nossas ações; a capilaridade da opinião de terceiros, através das mídias sociais, na validação de nossos atos; sobre nossa condição humana, que intui, racionaliza, acerta, erra, se culpa e sublima, num "Nec spe nec metu" às avessas; sobre como somos competitivos e colaborativos, como alternamos grandeza e miséria (palavras minhas, não deles, bem mais otimistas e menos cínicos do que eu). Assim como no livro de Levitt e Dubner as argumentações de Dana e Almeida não são achismos simpáticos, opiniões validadas por egotrips e redes ideológicas, mas sim fruto de consolidado entendimento acadêmico sobre os temas. As referências bibliográficas estão ali no final do livro. São 75 dignos papers, mas eu duvido que 1% dos leitores leigos do livro tenham interesse de ir adiante e lê-los (alto lá!, novamente aqui é meu irascível humor falando). Livro fundamental para quem queira entender melhor o processo de tomada de decisões que fazemos cotidianamente (pois aqui é Brasil, pôrra!). Vale!
Registro #1229 (crônicas e ensaios #217)
[início: 20/10/2017 - fim: 25/10/2017]
"Pode não ser o que parece: o que traz felicidade, com quem se casar, quais amigos ter ou como a ciência ajuda você a tomar as melhores decisões", Samy Dana e Sérgio Almeida, Rio de Janeiro: Objetiva / Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 175 págs., ISBN: 978-85-470-0047-9

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

antiboi

"Antiboi" reúne parte da produção poética mais recente de Ricardo Aleixo, engendrada entre 2013 e 2017. Digo "parte de sua produção" pois há cousas dele que só sabe quem o vê performando em um evento, quem alcança um vídeo de uma apresentação dele, quem participa de uma aulaoficina no Lira, seu laboratório de criação e pesquisa. Talvez um dia os gadgets tecnológicos possibilitarão o registro também desta sua faceta artística, mas por enquanto quem vive longe da rota de apresentações do Aleixo tem que se contentar com a obra física, aquilo que resta impresso, disponível num livro. Pois "Antiboi" reúne 33 poemas. A grande maioria é de propostas curtas, sintéticas, não exatamente crípticas, mas que cobram do leitor um esforço para entender as camadas no palimpsesto de signos, conceitos, ironias e jogo verbal. Uns poucos poemas são mais longos, incapazes de se reduzir àquela fórmula de concretude máxima dos demais e se esparramam por duas ou mais laudas, como se quisessem fazer-se entender melhor. Nestes o leitor encontra o Aleixo mais reflexivo, que se deixa navegar. O conjunto de poemas espelha preocupações ora políticas e ora afetivas. O sujeito vê o mundo, o denuncia e confronta, radicaliza num embate que sabe ser necessário. Todavia, se faz da poesia ferramenta de luta e provocação, não se esquece do homem que vive uma vida plena, que tem uma história, uma memória rica de ensinamentos familiares, que experimenta a benquerença, não se embrutece, como aconteceu com Fafner, por exemplo, naquela mitologia antiga. Alguns dos poemas curtos funcionam como statements, declarações, aforismos, gritos de rua, plataformas. Outros conjuram carinho e respeito a pessoas queridas, figuras públicas, como num tríptico sobre Milton Nascimento, Elza Soares e Luiz Melodia, ou anônimas, de seu círculo familiar e de amizades. O livro inclui um ensaio curto de Fábio Belo, que analisa certas implicações estéticas dos poemas à luz da psicanálise e fala sobre Antiboi como significante de resistência, de resistência ativa, que supera obstáculos. Interessante. E vamos em frente. Em tempo: dos demais livros dele que li deixei registros, então  clica!.
Registro #1230 (poesia #89) 
[início: 10/10/2017 - fim: 13/10/2017]
"Antiboi", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: editora Crisálida, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-87961-87-7

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

dicionário do diabo

Conhecia esse "Dicionário do diabo" apenas por citações de terceiros, comentários feitos em revistas literárias e artigos de jornais antigos (textos do Paulo Francis, do Tarso de Castro, do Ruy Castro, do Arthur Piza, por exemplo, que lia ainda nos anos 1970). A Carambaia publicou essa edição em novembro do ano passado, mas foi apenas em março que consegui meu exemplar (o de numero 794 de uma edição de mil exemplares, adoro esses mimos paratextuais das editoras que valorizam o produto que vendem). Fiquei com o volume sempre à mão por meses, consultando os verbetes ao acaso. Afinal, não se trata de um livro para se ler de um só fôlego, de capa a capa, sem interrupções. É divertido abri-lo aleatoriamente e encontrar nele, um verbete, um aforismo, que parece oferecer a solução para os aborrecimentos do dia. Ambrose Bierce escreveu-o ao longo de muitos anos, talvez ainda no inicio dos anos 1870, comprovadamente na revista "The Wasp", da qual foi editor, até uma primeira versão em livro, em 1906, ainda chamado "Dicionário do cínico", e depois chegar a versão definitiva, em 1911, já como "Dicionário do diabo". O livro inclui verbetes, de A a Z, que têm sempre um tom aforístico e também poemas. Bierce era um mestre da ironia e os verbetes registram isso muito bem. Nada é venerável o suficiente para não ser achincalhado por ele. A edição é belíssima. O projeto gráfico inverte as cores das páginas e das letras, dando ao livro um aspecto solene e soturno (uma galhofa extra, compatível com o espírito do livro). Divertido. 
Registro #1227 (aforismos #9) 
[início: 13/04/2017 - fim: 11/10/2017]
"O dicionário do diabo", Ambrose Bierce, tradução de Rogério W. Galindo, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2016), capa-dura 13,5x19 cm, 306 págs. ISBN: 978-85-69002-20-8 [edição original: The Devil's Dictionary (London: Arthur F. Bird) 1906]

sábado, 21 de outubro de 2017

minha estrada real

Paulo Mendes reúne em "Minha Estrada Real" o registro detalhado de sua experiência em uma de suas aventuras ciclísticas, que ele chama de cicloviagens. Como ele mesmo diz "Foram 1.860 km bem pedalados, boa parte por estradas de terra. Segui a Estrada Real, mas fiz desvios e ajustes da forma que pensei ser melhor e mais interessante". Portanto neste livro encontramos o relato dos quarenta e cinco dias e dos 1.860 Km entre o aeroporto de Confins, em Minas Gerais e o aeroporto de Campinas, em São Paulo. Ele vai de Confins a Diamantina, de lá para Ouro Preto, segue o Caminho no Ouro até Paraty e de lá sobe a Serra da Mantiqueira até Campinas. Boa parte do trajeto  percorre essas trilhas da Estrada Real, que descobri agora ser a maior rota turística do Brasil desta natureza, com infraestrutura adequada, pousadas bem identificadas, restaurantes, cartografia, roteiros e pacotes de viagem muito bem organizados. Milhares de turistas, muitos deles estrangeiros, aventuram-se por ali há tempos. Como é grande e surpreendente esse Brasil. Paulo cruza os montes míticos da Serra do Cipó, da Serra do Caraça (lembrei do Pedro Nava, claro), da Serra de Carrancas, da Serra da Mantiqueira, da Serra da Bocaina, da Serra do Mar. Quase sempre ele passa apenas por vilarejos pequenos, de dois, três mil habitantes, evitando quando possível as grandes cidades e as estradas muito movimentadas, asfaltadas. Paulo é um ciclista experiente, já fez várias outras longas viagens (e as registrou em blogs sempre muito bons), sabe dos segredos da preparação, do condicionamento físico, de como é estar o menos só possível que é estar a sós consigo mesmo (como já disse um dia Catão, ensinou-nos Hannah Arendt). Essa sua viagem pela Estrada Real registrada no livro pode ser acompanhada ipsis litteris no blog "Aventuras de Bicicleta", com a vantagem que o leitor ter lá a disposição um conjunto enorme de fotografias que ilustram os assombros dele. Paulo fala de seus avanços diários, do tipo de terreno que encontra, dos animais que fotografa, do dinheiro que gasta, das pousadas em que se hospeda, da gastronomia mineira, do linguajar das gentes e das cervejas que toma, mas sua boa prosa se destaca no registro das pessoas com quem conversa, da usual generosidade do interlocutores, das trocas de experiências, da segurança absoluta que sentiu em todo o trajeto. Esse livro me lembrou imediatamente a experiência de Robert Louis Stevenson nas Cèvennes e as histórias de viagem de Josep Pla. Vale a pena ler também sua boa prosa e ver suas impressionantes fotografias das outras cicloviagens: por quatro países europeus (em 2015, e que ele publicou em um livro eletrônico pela Amazon, nas versões em português e em inglês); ao litoral do nordeste brasileiro (em 2016) e a mais recente, recém terminada, pelo centro e sul da Itália (em 2017). O Paulo também mantém um blog de registros literários (o sujeito sabe mesmo surpreender), o Kindle Babel. Evoé Paulo, evoé! Beleza acompanhar tuas aventuras. Que texto bem escrito. Grande abraço. 
Registro #1226 (crônicas e ensaios #216) 
[início: 09/10/2017 - fim: 14/10/2017]
"Minha Estrada Real: Diário de Viagem", Paulo Mendes, Recife:Editora Muribara (Cartonera Aberta), 1a. edição (2017), Cartonera 15,5x21 cm, 144 págs., sem ISBN

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

a idolatria poética

"A idolatria poética ou a febre de imagens" é um texto experimental de Sérgio Medeiros. Trata-se de um poema - ou de vários livros justapostos - que flerta(m) com o drama, uma provocação aos sentidos, uma legítima proposta literária, uma reinvenção dadaísta, uma inventiva forma narrativa, um jogo non-sense, tudo isso e mais um pouco. Li esse livro quase simultaneamente ao "Graal", de Haroldo de Campos, que já registrei aqui e com o "Antiboi", de Ricardo Aleixo, que em breve registrarei. Haroldo de Campos aparece citado por Sergio em uma curta passagem, como o sujeito que em Nova York perdeu um caderno de poemas, mas o recuperou, por sorte. Já os vários narradores de "idolatria poética", sujeitos obsessivos, temerosos de perderem seus cadernos de notas, cadernos em que anotam aquilo que chamam descritos, esperam a partir deles produzir um texto, uma narrativa, um livro, toda uma obra. O amor excessivo pelo que capturam com olhos e ouvidos e que plasmam em letras, palavras, narrativas, bem como o desejo de absorver toda a poesia da vida de seu entorno e a vertigem das imagens que pululam numa miríade de associações parece intoxicar esses narradores (sempre identificados como idólatras, numerados 1, 2, 3, e assim por diante, até um apostólico 12 final). Esses idólatras/narradores fingem estabelecer diálogos, concentrados sim em seus projetos individuais de escritura. Entre os diálogos encontramos três "livros rêmora", que correspondem a excertos que se grudam ao veio poético principal, como as rêmoras se grudam ao corpo de seus hospedeiros naturais, os tubarões. São "livros Barnacle", diria um cínico joyceano da gema. Outros livros do autor, Sergio Medeiros, se metamorfoseiam pelo poema, cobrando espaço, se autopoetanto um tanto. Entendo esses livros como o resultado do olhar febril de um autor. Um autor/narrador que, acamado um dia em sua casa na praia, ao invés de contemplar, como rotineiramente faz, apenas escunas e canoas ao longe,  vê desta vez pela janela de seu quarto os costumes e comportamento pernóstico de um grupo de turistas que alugou um apartamento próximo. Esses turistas escancaram suas misérias, cabotinos que são, mentem sobre literatura e viagens, dão engulhos ao autor, que se vinga incorporando-os à trama, tentando dar nexo naquilo tudo, deixando sua mente viajar. Sabe-se lá! Os experimentos originais e vanguardistas do Sérgio sempre provocam o leitor. O convite para o entendimento resta impresso, cabe a cada leitor trilhar sozinho essa aventura da linguagem. Whither? Para onde? Vamos a ver o que o Sérgio nos oferecerá na sequência.
Registro #1225 (poesia #88) 
[início: 13/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"A idolatria poética ou a febre de imagens", Sérgio Medeiros, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7321-565-6

terça-feira, 17 de outubro de 2017

millor: obra gráfica

"millôr: obra gráfica" é um mimo produzido pelo Instituto Moreira Salles como catálogo de uma exposição onde foram reunidos 500 desenhos originais de Millôr Fernandes (que correspondem apenas a uma parte bem pequena da produção plástica dele, cabe lembrar). Essa exposição aconteceu no período entre abril e agosto de 2016, no Rio de Janeiro. Caso tivesse tido ciência deste livro antes o teria comprado e enviado a meu pai, grande admirador do Millôr, mas meu pai, eu sei, morreu há quatro meses. O original Aguinaldo Severino era um homem de manias, comprava regularmente jornais e revistas. Uma das que comprou até sua extinção foi a Revista O Cruzeiro, que lembro-me folhear desde muito pequeno, equilibrando-a nas mãos (era uma revista grande). Pois foi na Revista Cruzeiro que Millôr publicou boa parte do material da exposição do IMS e resta agora reproduzido neste belo catálogo. Artista autodidata, de muitos talentos, pois foi jornalista, dramaturgo, humorista, tradutor, editor, gravador, artista gráfico e plástico. O livro inclui três curtos ensaios críticos, assinados por Agnaldo Farias, Paulo Roberto Pires e Julia Kovensky. Inclui também uma cronologia biográfica (assinada por Jovita Santos de Mendonça) e indicações sobre a publicação original dos 500 desenhos reunidos na exposição. Os trabalhos estão divididos em cinco grandes conjuntos temáticos, não cronológicos: "Millôr por Millôr", autorreferentes, marca registrada dele; os trabalhos do caderno "Pif-Paf", da revista O Cruzeiro, entre 1945 e 1963, sobretudo leiautes, ainda com as indicações sobre o tamanho da mancha da edição; "Brasil", esse tema obsessivo dele, sempre numa relação de amor e ódio, com humor mas com sarcasmo; "Condição humana", trabalhos mais líricos, filosóficos, contidos; e "À mão livre", os mais autorais, no sentido em que fala neles não o cronista de costumes e de política, mas o artista plástico, o autor criativo que experimenta técnicas, materiais, cores e formas. Trata-se de um livro fartamente ilustrado, com reproduções fotográficas de seu estúdio/atelier (uma cobertura que ele ocupou por quatro décadas, em Ipanema). Os textos rendem homenagem ao sujeito complexo e irrequieto, inventivo e mestre do humor, curioso sobre as técnicas que surgiam (foi um dos primeiros artistas gráficos a incorporar a computação em sua produção). A edição é muito bem cuidada e destaca toda a força de Millôr na preparação dos originais, na equilíbrio das cores, na reinvenção de alfabetos e tipografias, nos grafismos. Poderia classificar esse livro aqui como um genuíno livro de arte, mas vou me render a classificação original do IMS, como catálogo. Esse sim é um livro para se folhear com calma e sem critério, sem pressa. Na falta dele, o quê fazer? Bueno. Desde 2013 o IMS é mantenedor do acervo original de mais de seis mil desenhos, impressos e gravuras de Millôr (os trabalhos e objetos de outra natureza - obras teatrais, obra literária, biblioteca - foi dividido entre outras instituições). Essa exposição não existe mais, mas o leitor curioso pode dar uma espiada em alguns registros do acervo no site do IMS. Assim sendo, vá rá, bom divertimento. E Evoé Millôr, evoé!
Registro #1224 (catálogo #7) 
[início: 11/06/2016 - fim: 11/10/2017]
"millôr: obra gráfica", Millôr Fernandes, São Paulo: Editora Instituto Moreira Salles, 1a. edição (2016), brochura 23,5x30 cm, 288 págs. ISBN: 978-85-8346-033-6


domingo, 15 de outubro de 2017

graal

"Graal" é uma peça dramática, uma bufotragédia mefistofélica ou mefistofarsa bufotrágica, nas palavras do autor, Haroldo de Campos. Foi escrita em 1952, nunca havia sido publicada em livro. Era conhecida por uns poucos, filhos e amigos somente, gente que privava da intimidade e da generosidade de Haroldo. Em duas oportunidades, em 2014 e 2016, cenas da peça chegaram a ser lidas nas edições do Hora H, evento já tradicional que acontece na Casa das Rosas paulistana, em homenagem ao poeta. Pois um grupo de valorosos cavaleiros saiu em busca deste cálice poético, há muito deixado esquecido entre os guardados do grande Haroldo, trazendo-o à luz, ao papel, ao público leitor, aos afortunados e crentes na fé dos Campos. A organização é do ator e diretor teatral Carlos Antônio Rahal, mas o livro conta com a colaboração do venerável crítico Jacob Guinsburg, e dos multitalentosos poetas Lucio Agra e Claudio Daniel. Em quatro robustos ensaios críticos eles exploram as muitas experiências provocadas pela leitura de "Graal" e contextualizam a peça não apenas no panorama poético da sempre instigante e seminal produção de Haroldo, mas também em sua interlocução com o teatro brasileiro (desde seu interesse pela obra do Padre Anchieta, passando pela peças de Oswald de Andrade e chegando a suas contribuições nas encenações de Gerald Thomas e Bia Lessa, já nos anos 1980). Outro bom poeta da távola haroldina, Marcelo Tápia, assina uma curta nota na contracapa. O livro inclui também uma reprodução fac-símile do original datilografado da peça, e que contém esparsas anotações e correções manuscritas. "Graal" é uma peça em dois atos, curta, não sei avaliar quanto tempo duraria caso encenada. Cada ato é dividido em quatro cenas. A cenografia é sempre precisa: jornais e recortes de jornais, peças de carne e sangue, dinheiro em maços e avulso, cifrões metálicos. Há por vezes o som de muitas máquinas de escrever e o alarido dos homens, na rua. Três coros conduzem a peça (um dos iguais, um dos sem cabeça e um dos sem braços, para mim um dos hipócritas, um dos que não pensam e um dos que não trabalham). Do texto brotam citações mil e ironias a granel, miríades de associações são possíveis a partir do que é dito. A fusão de palavras e a musicalidade lembram claramente Joyce. Por vezes parecia ouvir a voz de Haroldo ao longe, ou na cantilena das Galáxias, ou declamando aqueles fragmentos do Finnegans Wake que tão bem traduziu. Na primeira cena do primeiro ato nasce o protagonista da peça, Graal, dito arquivista, anunciado pelos três coros; na segunda, talvez cem anos à frente, Graal trabalha e recebe uma sibila ou moira funesta, memória dos tempos, dita Dame Mémoire, sua mãe; na terceira um sujeito, Messine Le Mot, faz à Graal uma proposta de negócios indecente; na quarta e última cena do primeiro ato, Tinnula, uma criança, e dois dos coros, anunciam que é hora de Graal sair para uma festa, com Aureamusa/Áurea (a primeira é a que ele vê, a segunda é o que ela é, mulher sempre bifronte). Na primeira cena do segundo ato Graal está só, tentado por Todaluz/Luciphalus, como tantos outros deuses e homens também já foram tentados; na segunda cena Dame Mémoire parece fazer o tempo recuar (o arquivo é filho da memória, nos lembra o poeta) e lembra Graal, como boa mãe, que ele já foi tentado antes a tornar-se popular e bem querido, a aceitar Vox Populi, mas renegou a ambos (como Stephen renegou a igreja e a mãe, no "Retrato de um artista quando jovem"); na terceira cena recuamos ainda mais no tempo, talvez para o momento em que Graal e Aureamusarondinaalúvia acordam após terem descoberto o sexo, num amor aprendiz, como Tristão e Isolda; na última cena o casal (e os coros, e os demais personagens) estão em uma mesa de banquete e fausto, dirigem-se ao público, como no final de uma Commedia della'arte medieval, agradecendo a audiência, lembrando que o amor é primo da morte (como já disse Carlos Drummond de Andrade). Terá Graal se consubstanciado naquele último repasto, numa última metamorfose? Cada leitor é o juiz. A beleza da linguagem é perene na peça. Haroldo inventa e encanta. Há imagens muito bonitas, imagens que certamente encontrariam boas soluções nas mãos de bons cenógrafos (para além das determinantes indicações do autor, sempre preciso). Eu, menor dos anões desta província, as imaginei como brotando exóticas como as das páginas de "Às avessas", do Huysmans, impressionantes e facetadas, como nas telas de um Francis Bacon. Que beleza esse livro. Evoé Haroldo, evoé! 
Registro #1223 (drama #10) 
[início: 21/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"Graal, Legenda de um cálice", Haroldo de Campos, organização de Carlos Antônio Rahal, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm, 112 págs. ISBN: 978-85-273-1109-0