sábado, 30 de junho de 2018

trio pagão

Em "Trio pagão" Sérgio Medeiros enfeixa três propostas poéticas distintas e  complementares: "Esculturas de caligrafias", "Enrique Flor, o novo" e "[O] Rio perdido". Cada proposta do tríptico poético é acompanhada por uma pequena nota introdutória do autor, onde ele detalha a gênese de suas invenções, e uma apresentação, cada uma delas assinadas, respectivamente, por Gonzalo Aguilar, eu mesmo e Odile Cisneiros. "Esculturas de caligrafias" é um conjunto de vinte e três poemas visuais, desenhos como aquele que é reproduzido na capa do livro, nos quais a mão do poeta emula garatujas similares aquelas que uma vez ele viu um índio xavante produzir no final dos anos 1980. Esse índio, Jerônimo Tsawé, respeitado pelos seus, tornou-se uma espécie de guru do autor e é citado em outros trabalhos seus. Essa parte do livro se encerra com a reprodução de um artigo de Sérgio Medeiros, publicado originalmente em um jornal paulista, em 2011, onde ele explica as circunstâncias dos encontros que teve com aquele seu mestre xavante e traça paralelos entre os sonhos de Tsawé e as experiências da Alice de Lewis Carroll. Como fiz a apresentação da segunda proposta, "Enrique Flor, o novo", reproduzo-a aqui para melhor esclarecer o que entendi dela: “Enrique Flor”, o poema, é uma proposta refinada, sutil, onde inspiração e referências eruditas se plasmam. Nele encontramos novas aventuras de Enrique Flor e também algo sobre a evolução de sua música vegetal, de sua arte vegetal. Mas quem é afinal Enrique Flor? Quando lemos o “Ulysses”, de James Joyce, encontramos primeiro Bloom, depois Flower e depois Flor. Leopold Bloom e Henry Flower aparecem quase juntos no quarto episódio do livro, no início da manhã, e são na verdade a mesma pessoa, pois Bloom só vive suas breves metamorfoses como Flower quando troca cartas e flerta com uma amiga virtual. Já Enrique Flor o leitor só conhecerá brevemente no décimo segundo episódio, já no final da tarde, após muitos e variados sucessos de Bloom. Pois esse Enrique Flor é citado como o músico que tocou órgão com notória habilidade em uma missa de núpcias, no dia anterior ao dia de Bloom, o Bloomsday. As cenas deste décimo segundo episódio do “Ulysses” são paródicas, tudo é exagerado, hiperbólico, retórico, típico de conversas irrelevantes e risíveis de bar (os personagens estão em um pub, o “Barney Kiernan”). A curta passagem em que encontramos Enrique Flor, parte de um relato sobre um casamento arbóreo, contrapõe, à sua música de inspiração vegetal, o desmatamento da Irlanda provocado pelos invasores ingleses. Em 2012, no “Totens”, também editado pela Iluminuras, Sergio Medeiros imaginou uma deliciosa biografia desse músico português radicado em Dublin e citado por James Joyce, contando-nos algo daquelas notórias habilidades musicais que ele praticava. Medeiros recria o espírito de sua obra musical e composições, fala de seus concertos, de suas preocupações ecológicas e ambientais. Preocupações que o fizeram sair de Dublin, voltar a sua querida e igualmente desmatada pátria, Portugal, não antes de uma curiosa visita às selvas da América, onde deixa um discípulo brasileiro, que posteriormente adotaria seu nome, mas multiplicando-o, quando passa a chamar-se Henrique Flores. Nesse novo livro, que inclui um apêndice visual, “O olhar das plantas”, formado por quinze pranchas em branco onde é registrado o surreal ato botânico de plantas fitarem poemas não escritos, telas em branco. Enfim. Sergio Medeiros é um poeta que experimenta o mundo, sempre curioso e com método. Um poeta antenado, que parece não ter medo de testar as possibilidades de seu ofício, de criar sua própria vanguarda, de provocar – concretamente – o leitor. Ele procura entendimento e expressão na linguagem, tanto a linguagem que pode ser vocalizada e é mais cerebral, construída, quanto outra, que parece brotar diretamente do mundo sensível a nossa volta, a linguagem do mundo físico, natural, o mundo das formas, sons e cores, o mundo material que se irradia e preenche o espaço, o mundo das árvores e das flores, dos elementos. Um humor, joyceano (na falta de outra palavra), preenche o livro, conduz o poema. Nele o leitor encontra o novo Enrique Flor em Dublin, ora metamorfoseado nas festividades do Bloomsday, talvez o mais sofisticado “Cosplay” de nossos tempos, ora em chamas, junto com as árvores do incêndio de Pedrógão Grande, em Portugal. O poema alterna episódios que tratam da nova encarnação de Enrique Flor e outros que marcam as horas do dia, horas que funcionam como estásimos corais de uma tragédia grega e cantam as deambulações de uma família de turistas num Bloomsday. O Enrique Flor que refloresta o mundo, que distribui sementes, sementes que brotam pela cidade, bloomzeiros em flor, será sacrificado em Portugal, num sonho, como aquele de Molly Bloom, no final de Ulysses. Após incêndios a vegetação devastada naturalmente se recupera. O solo, fertilizado pelas cinzas, fará brotar novos botões e ramos nas árvores calcinadas, fará eclodir as sementes para repovoar a terra. Não é improvável que outro Enrique Flor desabroche no futuro no jardim poético de Sergio Medeiros. Logo veremos. A terceira e última proposta, "[O] Rio perdido", é dito ser uma prosopopéia pagã, ou seja, é um poema (ou peça de teatro - o próprio autor explicita não ser fácil distinguir entre os gêneros) em que sentimentos humanos são como que vocalizados por seres inanimados. Medeiros dá voz a uma rocha do Rio perdido, um rio que corre pelo Mato Grosso do Sul, no Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Essa rocha fala da ação do tempo, desde quando era ígnea, depois retangular, lentamente esculpida pela ação das águas e finalmente grafitada por algum vivente. O "marulho" que se ouve quando nos aproximamos das águas é a voz desta pedra. O grafite na rocha também é uma encarnação de uma ninfa das águas, Dona Primitiva. O poema conversa obviamente com o Finnegans Wake de Joyce, com Anna Livia Plurabelle, a personificação do Rio Liffey que corta Dublin. Ao contrário do que disse um dia Proust sobre o mar ("La Mer  ne  porte  pas  comme  la  terre  les  traces  des  travaux des  hommes  et  de  la  vie  humaine"), os vestígios dos trabalhos dos homens não apenas deixam traços como destroem tudo inexoravelmente, inclusive os rios, como o Rio perdido e inclusive a paciência de suas ninfas, como Dona Primitiva. Esse registro já ficou enorme, portanto pouco importa se eu acrescentar umas linhas. Semanas atrás, em São Paulo, por uma coincidência dos diabos comprei esse livro para presentear Heloísa, mulher de um grande amigo, que descobri que Claudia, irmã da Heloísa, conhecia bem don Sérgio Medeiros e sua mulher, Dirce. Essa aldeia é mesmo muito pequena. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1276 (poesia #92) 
[início: 25/04/2018 - fim: 28/06/2018]
"Trio pagão", Sérgio Medeiros, Florianópolis: Editora Iluminuras,1a. edição (2018), brochura 13,5x19 cm., 216 págs., ISBN: 978-85-7321-576-2

terça-feira, 26 de junho de 2018

nem vem

Indicado com certo entusiasmo por um amigo querido, pensei que iria me envolver mais e apreciar esse "Nem vem", de Lydia Davis, mas não foi o caso. Talvez eu pudesse dizer a ele e ao eventual leitor, de forma elíptica e confortável, que trata-se de um livro interessante, acrescentar uma ou outra ambiguidade, mas não vai ser este o caso. Paciência. As 122 curtas narrativas que forma o livro estão divididos em cinco conjuntos, mas não há diferenças notáveis entre eles. Há algo de aleatório, monótono, idiossincrático nas histórias, que são bem escritas, mas logo cansam o sujeito, como exercícios fúteis que sabemos fazer e pouco acrescentar a nosso engenho. Talvez eu entenda o porquê. Praticamente todo o material já havia sido publicado originalmente em jornais e revistas. Lidos separadamente são potentes e instigantes, mas quando enfeixados num volume deixam explícita a irregularidade no acerto de cada um. Os relatos ou narrativas, contos enfim, na falta de uma palavra melhor, envolvem o registro cáustico de cousas banais do cotidiano, o olhar irônico sobre o hábito, a rotina e as convenções sociais. O leitor encontra o registro laborioso de sonhos bastante engenhosos, sonhos dela mesma e de amigos; invenções com verniz autobiográfico; cartas formais envolvendo questões práticas, direitos privados ou reclamações públicas; espantos com o inusitado da vida; fragmentos de memórias; mini contos amalucados; sociologia selvagem; tiradas de humor; conversas roubadas; epifanias artificiais; jogos verbais; uma falsa biografia de uma meia irmã mais velha. Há também várias reconstruções de passagens das famosas cartas que Flaubert escreveu para Louise Colet, nas quais ele fala sobre a gênese de seu romance Madame Bovary. São interessantes, reconheço, mas prefiro o resultado obtido por Julian Barnes em seu "O papagaio de Flaubert", derivado do mesmo assunto e material. É muita "angústia da influência" para um livro só. Paciência velho e cansado Guina, paciência. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1275 (contos #148) 
[início: 15/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Nem vem: ficções", Lydia Davis, tradução de Branca Vianna, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras),1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm., 302 págs., ISBN: 978-85-359-2962-1 [edição original: Can't and Won't (New York: Farrar, Straus and Giroux / MacMillan Publishers) 2014]


segunda-feira, 25 de junho de 2018

guía madrid diferente

Os guias de viagem costumam envelhecer mal, pois tudo de factual neles pode muito bem mudar (e certamente muda), mas eles também guardam para nós algo que foi vivido quase sempre com intensidade, com gozo e, talvez por conta disto, nos recusamos facilmente a desfazer-se deles. O caso desse "Guía Madrid diferente" não caberia ser apresentado assim. Afinal comprei esse volume apenas no início desse ano e não o utilizei efetivamente em uma viagem, ao menos não nessa sua metamorfose, a de um livro impresso. Na última vez em que estive em Madrid consultei sim sua versão digital, que foi muito útil e me facilitou descobrir cousas novas pela cidade (nunca conheceremos completamente nem a cidade onde nascemos, o que dizer daquelas que apenas visitamos brevemente ou nas quais vivemos por temporadas longas apenas depois de já cínicos e mal acostumados pelo hábito, fiel e cruel camareiro. Só sei que aprendi um bocado com esse guia. Ao alcance de seu celular ou num computador você encontra tudo o que precisa saber sobre a cidade: onde comer e fazer compras, hospedar-se, desfrutar de tudo com calma e sem culpa, encontrar a agenda de eventos e espetáculos, os serviços essenciais. Ótimo, entretanto a versão em livro oferece algo mais. Trata-se de um objeto mágico, um livro de arte, colorido e ilustrado, repleto de informações e histórias nas quais dificilmente prestamos atenção na versão digital, apressados que estamos. Claro, nada supera a realidade de uma viagem, daquela sensação que tão bem Josep Pla descreveu como um "milagre vivido". Esses escolhos na forma de livros que eventualmente distribuímos pela casa nos fazem voltar calmamente àqueles dias de magia e encantamento, de ansiedade e descobertas, de epifanias sem fim, em que vivemos "drowning in honey, stingless". Vale!
Registro #1274 (turismo #72) 
[início: 25/01/2018 - fim: 11/02/2018]
"Guía Madrid diferente: La cara más genuina de la ciudad", Martín López Cano, Madrid: Ediciones La Libreria (Madrid Diferente),1a. edição (2016), brochura 15x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-9873-340-2

domingo, 24 de junho de 2018

a certeza das coisas impossíveis

Marcio Renato dos Santos é o senhor das histórias curtas, curtíssimas. De sua imaginação brotam coisas inusitadas que a princípio resistimos a aceitar, talvez por algum mecanismo de defesa, já que somos todos parecidos com aqueles homens ocos e bizarros que ele descreve, em histórias que se resolvem num sopro, como na vida. "A certeza das coisas impossíveis" é seu sétimo volume de contos publicados (os anteriores são, pela ordem, "Minda-au", "Golegolegolegolegah!", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites"). Nesse estão reunidas onze histórias recortadas, nas quais saberemos apenas um fragmento epifânico da vida de alguém: de uma mulher que imagina o homem certo que deve entrar em sua vida; de um sujeito que por ansiedade sonha uma situação amalucada; da cinéfila que vê seu mundo de fantasias ruir; do solitário que publica sobre si em classificados de jornal; de uma deusa grega metamorfoseada e revivida no mundo moderno; do vendedor que acorda ao lado de uma amante morta; de um militar corrupto que imagina poder repetir o mito de Odisseu; de dois rapazes que discutem sua relação após a morte de um amigo; de um sujeito que sonha poder higienizar seu caminho para o trabalho. Algumas histórias são melhor resolvidas que outras, mas o conjunto é bom. Gostei particularmente de "Vertigo [Passo a passo]", uma espécie de "Vidas paralelas" de Plutarco adaptado para contar os sucessos de dois curiosos anônimos curitibanos. Há humor nas histórias, mas as parcas parecem velar silentes por todos contos, terríveis e inevitáveis que são. Vale! 
Registro #1273 (contos #147) 
[início-fim: 19/06/2018]
"A certeza das coisas impossíveis", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2018), brochura 11,5x18,5 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-917171-7-0

sábado, 23 de junho de 2018

noite escura

Apesar de pequeno esse "Noite escura" é poderoso. São apenas 72 páginas no formato A6, o tamanho de um cartão postal (para quem não se lembra, cartões postais eram uma forma de mídia que utilizávamos para nos comunicar, mas essa é outra história). Rodrigo Ungaretti Tavares, que assina literariamente R. Tavares, nos conta os sucessos de uma noite, desde pouco antes da meia noite até o arrebol da manhã seguinte. Marco, um matador de aluguel, precisa resolver um trabalho que não foi bem finalizado e, junto com seu ajudante Juvêncio, toma rumo a uma fazenda na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Nada mais escrevo para não furtar do leitor o encanto de acompanhar como a questão prática e profissional daquele matador acaba se resolvendo. O texto é limpo, objetivo, sem muitas digressões. O ritmo é cinematográfico, lembra obviamente westerns antigos, revistas Tex, as cousas reinventadas por Quentin Tarantino, sobretudo pela estilização da violência, sempre gratuita, mesmo quando é pura ficção. Tavares não cai em armadilhas morais, nem oferece ao leitor o lenitivo de, por exemplo, uma redenção mítica. Baita livro, diria um gaúcho do campo, da fronteira, tão bem cantada por Tavares neste pequenino livro. Ojo, seguro que se ouvirá falar deste sujeito por aí. Em tempo: quase esqueço de dizer que o sujeito é apadrinhado literariamente por Alcy Cheuiche, que assina um prefácio. Só isso já vale uma missa, mas descobri que ele é primo do Botelho! Só me faltava agora ele ser parente do Giuseppe. Aí sim. Vale! 
Registro #1272 (novela #71) 
[início-fim: 17/06/2018]
"Noite escura", Rodrigo Ungaretti Tavares, Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 2a. edição (2018), brochura 10x15 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7537-272-2

sexta-feira, 22 de junho de 2018

o estranho caso ford

Li esse "O estranho caso Ford" ainda em 2017, mas só faço agora um registro, pois inventei de fazê-los na ordem cronológica em que Donna Leon publicou seus livros e não na ordem que os encontrei (esse volume é uma edição portuguesa, lançada num hoje distante 2002). Os sucessos de agora passam-se numa primavera, os personagens estão próximos do final do ano letivo, da chegada dos turistas, das férias. A trama envolve questões de gênero; o ofício do ensino, sobre ser ou não um bom professor; técnicas de investigação e interrogatórios; a corrupção endêmica do estado italiano; o amor aos livros e a inteligência; o terrível e negado passado fascista italiano; questões de ordem moral. Uma garota, aluna de Paola, muito inteligente e culta, pede a Brunetti sua opinião em um hipotético caso de herança que acaba materializando-se quando ela aparece morta. Brunetti e Paola, Elettra e Vianelo precisarão juntar esforços e engenho para descobrir a origem da fortuna em imóveis e do dinheiro que a garota recebia, vindo do exterior, bem como dos interesses cruzados nas mortes dela e de sua protetora, uma excêntrica senhor alemã, já bastante idosa. Romance bastante intrincado e bem escrito. Mais bem resolvido que o quase aborrecido "Um mar de problemas", volume anterior da série. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1271 (romance policial #70) 
[início: 20/11/2017 - fim: 30/12/2017]
"O estranho caso Ford (Brunetti #11)", Donna Leon, tradução de Maria João Freire de Andrade, Lisboa: Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2009), brochura 12,5x19 cm., 311 págs., ISBN: 978-989-657-316-4 [edição original: Wilful Behavior (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2002]

quinta-feira, 21 de junho de 2018

brava serena

"Brava Serena" é o segundo romance de Eduardo Krause. Li dele o primeiro, o bom "Pasta senza vino", em 2015. Em "Brava Serena", contrariando aquela frase feita que nos ensina nunca retornar a um lugar onde um dia fomos felizes, Roberto Bevilacqua, um brasileiro aposentado, resolve emigrar para a Itália e lá viver seus últimos anos. Roberto é um escravo dos hábitos, de sua rotina de remédios e controle alimentar, subprodutos de uma vida dedicada a cálculos de risco, especialista em seguros que era. É um sujeito que teve uma única filha, Clara, de quem se distanciou irreversivelmente e que ficou viúvo e solitário ainda jovem. O leitor acompanha sua chegada a Roma, onde retoma aulas de italiano e rememora os dias em que viveu ali em sua viagem de núpcias. Krause organiza a narrativa do contraste entre a rigidez algo inusitada desse brasileiro setentão e a vivacidade da filha da proprietária da pensão onde ele passa a viver em Roma, a Serena do título do livro. Serena é uma jovem italiana cuja alegria de viver, hedonismo e vitalidade transbordam por todo o livro. Vários temas são explorados por Krause: diferenças entre gerações, questões de gênero, estereótipos culturais, cinema e entretenimento popular, dificuldades de comunicação, memória e afeto, amor e morte. Trata-se de um livro leve, contido até, fruto de um olhar otimista sobre o envelhecimento,  da expectativa que temos do futuro e do entendimento prático que podemos ter da passagem do tempo sobre nós mesmos. Em algum momento da leitura senti falta de um tom mais trágico na existência daqueles personagens, algo mais próximo ao clima do neorrealismo italiano. Imaginei que algo verdadeiramente infausto pudesse tornar os personagens mais humanos, mais críveis. Mas ao final aceitei a proposta do Krause, que, invertendo o aforismo de Tolstoy, faz de seus personagens felizes cada um a sua maneira e talvez só essas particulares felicidades seja aquilo mesmo que cada um de nós merece ambicionar, esperar, receber, da vida. Belo romance. Viva Krause. E já espero o próximo volume de teu "il trittico". Vale!
Registro #1270 (romance #336) 
[início: 18/05/2018 - fim: 04/06/2018]
"Brava Serena", Eduardo Krause, Porto Alegre: Não Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-61249-65-6

quarta-feira, 20 de junho de 2018

paseos por venecia

Já enfeitiçado por Donna Leon e seus romances policiais, encomendei esse livro de Toni Sepeda. Nele estão descritos os caminhos trilhados por Guido Brunetti e os demais personagens dos livros de Leon, que sempre exploram a mítica Veneza. "Paseos por Venecia" entrega ao leitor exatamente aquilo que o título promete: são descritos doze passeios que um entusiasta dos livros de Donna Leon poderá percorrer a pé por Veneza, cada um deles em uma ou duas horas, assim como a indicação de como se deslocar até as ilhas da laguna veneziana: San Michele, Murano, Burano, Le Vignole, Lido, San Servolo e Pellestrina. Nos mapas correspondentes a cada passeio são apresentados os pontos principais que podem interessar o leitor: os palácios, restaurantes e bares, os museus, praças e pontes, os mercados, lojas e igrejas, os canais, cafés e monumentos públicos. Cerca de metade do livro corresponde a transcrições de passagens dos originais de Donna Leon, inseridas ao longo das rotas que a autora (Sepeda) oferece ao leitor. A edição original é de 2008, portanto estão incluídas nestas rotas transcrições dos primeiros dezessete livros (que somam hoje vinte e oito, Donna Leon sabe ser prolífica). Mas não são as transcrições o que mais interessam neste livro. O leitor acompanha o caminho de um afeto, o de Toni Sepeda pelos livros de Donna Leon, todavia cada leitor poderá inventar o seu, propondo outros cruzamentos, outras aventuras, afinal nem tudo é objetivo nas viagens, nem tudo segue o roteiro imaginado antes delas, e o melhor meio de conhecer uma cidade é perder-se nela, reencontrando-se apenas horas depois. Muito interessante. Vale! 
Registro #1269 (turismo #11) 
[início: 03/05/2018 - fim: 15/05/2018]
"Paseos por Venecia con Guido Brunetti", Toni Sepeda, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 326 págs., ISBN: 978-84-322-3183-4 [edicão original: Brunetti's Venice (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2008]

terça-feira, 19 de junho de 2018

late essays: 2006-2017

Somente em Javier Marías encontro a capacidade de síntese e reflexão equilibrada, de estilística e generosas surpresas, de associações felizes e erudição absurda, completa, que são a norma dos textos de J.M. Coetzee. Nesse "Late essays: 2006-2017" estão reunidos seus ensaios mais recentes, 23 deles, produzidos após sua imigração definitiva para a Austrália e adoção de sua nova nacionalidade (lamentavelmente a África do Sul tornara-se demasiado tóxica para ele neste conturbado inicio de século). Não se trata de material inédito. Alguns ensaios foram publicados ao menos em uma versão abreviada na revista americana "New York Review of Books", outros publicados na forma de introdução a reedições de livros clássicos. O interesse manifesto nos ensaios quase sempre é o entendimento de uma obra especifica de um autor, mas há também analises do conjunto da obra de alguns. Coetzee reiterou um ensinamento dele que já havia percebido em seus demais livros de critica ("Inner workings", "Costas estrañas" e "Ensayos selectos"): preocupar-se com eventuais "spoilers" ao falar de uma obra é totalmente dispensável, uma perda de tempo, um zelo derivado e danoso desses tempos onde a obsessão com o politicamente correto como que nos tornou voluntariamente limitados. Ele analisa objetivamente tanto a narrativa ficcional, a invenção, quanto as motivações dos autores delas; avalia simultaneamente as intenções e os resultados alcançados pelos autores; especula sobre a verossimilhança dos personagens e as técnicas narrativas utilizadas; não tem paciência e nem oferece perdão a bizarrices autobiográficas, afeitas aos ditames em moda na sociedade e no mercado literário. Quando ele fala da vida dos autores o faz panoramicamente, não se atendo a fofocas ou a detalhes bobos sobre o comportamento e a psique dos sujeitos que analisa. Em geral ele aparenta ter lido tudo a respeito dos autores que investiga, como zeloso acadêmico que é (ele não parou de dar aulas e publicar artigos mesmo após ter ganho o financeiramente importante prêmio Nobel em 2003). Coetzee nunca fica preso a causos engraçados. Ele enfatiza em suas analises aspectos filosóficos, políticos, históricos relacionados as obras, sempre de forma fundamentada, factual. Enfim, mais que crítica literária o que encontramos aqui são aulas magnas de um professor experiente, um sábio que quase nos enfurece com seu absoluto domínio da matéria. Quando aponta as falhas específicas de cada livro ou autor que analisa, Coetzee oferece também indicações de como deve  preparar-se para seu ofício um sujeito que tenha a pretensão de tornar-se um bom escritor. Coetzee fala de Daniel Defoe, Nahaniel Hawthorne, Ford Madox Ford, Philip Roth, Goethe, Heinrich von Kleist, Flaubert, Irène Némirovsky, Juan Ramón Jiménez, Antonio Di Benedetto, Tolstoy, Zbigniew Herbert, Beckett, Patrick White, Les Murray, Gerald Murnane e Hendrik Witbooi, ou seja, não há espaço para cotas politicamente corretas e pruridos pós-colonialistas em suas escolhas, em seus objetos de crítica. Está certo ele, claro. Vale! 
Registro #1268 (crônicas e ensaios #227) 
[início: 22/04/2018 - fim: 15/05/2018]
"Late Essays: 2006-2017", J.M. Coetzee, New York: Viking Press (Penguin Randon House LLC), 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 297 págs., ISBN: 978-0-73522-391-2