terça-feira, 10 de julho de 2018

augustus

Essa capa é ridícula, uma das mais feias que já vi, ganha até das cousas amalucadas da Martin Claret, mas a edição é caprichada e o texto, o livro em si, muito bom. John Williams é um autor que publicou pouco (quatro romances e dois livros de poesia), foi professor universitário e é ainda respeitado. "Augustus" foi seu último livro, publicado originalmente em 1972 e ganhou o prestigioso "National Book Awards" no ano seguinte. Trata-se de um romance epistolar, onde são apresentadas o que seriam cartas, diários e registros pessoais de vários personagens históricos que falam do primeiro dos grandes imperadores romanos, sobrinho e herdeiro de Júlio César, Caio Octávio, posteriormente divinizado como Augusto César. Ele governou Roma em seu apogeu, pelo maior período de tempo, mais de quarenta anos, e viveu sucessos sem conta. Williams divide seu romance em três grandes blocos. O primeiro vai do momento em que Júlio César decide adotá-lo e prepará-lo como sucessor (em 45 a.C.) até sua vitória sobre Marco Antônio e ascensão ao trono (em 32 a.C). O segundo bloco segue até 4 d.C, quando aos 66 anos envia para o exílio sua única filha, Júlia e escolhe como sucessor seu genro Tibério. O terceiro bloco continua até a morte de Augusto durante uma viagem em Capri, aos 76 anos, em 14 d.C. O Augusto reconstruído por Williams é um homem amargurado, que sempre confia em seu frio instinto de sobrevivência e em sua capacidade de compreender o caráter das pessoas que o cercam, mas que é capaz de idealizar e sonhar uma Roma menos corrupta, a acreditar na possibilidade de uma vida mais justa para todo o povo romano. Apesar de no livro dezenas de narradores terem a função de contar a história de Augusto o único que alcançamos compreender bem é ele mesmo. É um livro muito fácil de ler, o sujeito não precisa ser um especialista em história romana para acompanhar os sucessos da narrativa, a polifonia de vozes e personagens, a ascensão e queda dos amigos e inimigos do imperador, o desenvolvimento de seu caráter, de sua vida interior, do acúmulo de atos cruéis, por mais bem intencionados que fossem. "Augustus" lembra muito o ritmo de "A morte de Virgílio", de Hermann Broch, publicado em 1945, "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, de 1951 e também "Juliano", de Gore Vidal, que é de 1964, livros que li naqueles mágicos anos 1980, onde parecia haver tempo para se ler tudo o que era publicado, ai de mim! Bueno, terminei noutro dia "Stoner", o romance anterior de John Williams, publicado em 1964, portanto em breve haverá algum registro sobre ele aqui. Vale! 
Registro #1285 (romance #339) 
[início: 06/04/2018 - fim: 10/04/2018]
"Augustus", John Williams, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Rio de Janeiro: Editora Radio Londres, 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 378 págs., ISBN: 978-85-67861-23-4 [edição original: Augustus (New York: Viking Press / Penguin Random House Group) 1972]

segunda-feira, 9 de julho de 2018

assassínio na academia

Li "Assassínio na academia" há quase um ano, em julho passado, mas como havia resolvido só publicar meus registros de leitura dos livros de Donna Leon cronologicamente, eis que somente agora tenha a oportunidade de fazê-lo (não tenho ainda os vinte e oito volumes de aventuras do comissário Brunetti publicados por ela, mas estou perto, já que fui comprando edições portuguesas, espanholas e inglesas de suas obras). Vamos a ver. Neste volume Donna Leon embaralha, como sempre faz, vários temas, enfatizando um deles quando se prepara para finalizar a narrativa. O jovem filho de um médico, antigo e incorruptível deputado veneziano é morto na academia militar que frequentava. Esse deputado, membro de uma tradicional família de venezianos, havia produzido relatórios sobre sistemáticos desvios de dinheiro do exército italiano, mas acabou se afastando da política após a morte da mulher em um suposto acidente de caça. Brunetti começa a investigar o caso, mas Patta, particularmente insuportável nesse volume, tenta controlá-lo, justamente pelos interesses cruzados da máfia e pela secular corrupção entranhada na política italiana. Os temas importantes são apresentados rapidamente: a leniência do povo do Sul da Itália, os problemas com imigrantes, a corrupção e o controle político nas eleições (estamos nos tempos em que Silvio Berlusconi é primeiro ministro, cuja ascensão ao poder é resultado colateral da operação "Mãos limpas", a investigação judicial de grande envergadura que provocou profundas mudanças no quadro partidário italiano no início dos anos 1990, algo bem parecido com o que está acontecendo agora com a operação "Lava a jato"). Nesse volume também somos apresentados a novas facetas de Paola, que ajuda o marido com sua perspicácia, e descobrimos um Brunetti não tão olímpico, perfeito, mas sim um sujeito que num acesso de raiva e por falta de paciência põe tudo a perder. Ele sabe (como sabemos bem também nós, brasileiros) que um escândalo têm o mesmo prazo de validade que o de um peixe fresco, pois após três dias ambos são inúteis, ninguém mais se importa. Donna Leon sabe fazer seu protagonista e seus personagens secundários evoluírem, tornarem-se mais humanos e críveis. Esse talvez seja o mais amargo dos volumes que li desta série. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1284 (romance policial #71) 
[início: 17/07/2017 - fim: 19/07/2017]
"Assassínio na academia (Brunetti #12)", Donna Leon, tradução de Maria José Santos, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2009), brochura 15,5x23,5 cm., 268 págs., ISBN: 978-989-657-018-7 [edição original: Uniform Justice (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2003]

domingo, 8 de julho de 2018

puto el que lee

Quando chega Maio e com ele a Feira dos Livros de Santa Maria sempre me preparo para reencontrar don Miguel Gómez, da porto-alegrense Calle Corrientes, senhor argentino dos livros, abrasileirado mascate dos bons. Dentre os portentos que garimpei este ano em sua banca estava esse divertido "Puto el que lee", subtitulado "Diccionario argentino de insultos, injurias y improperios". Mas antes de falar do livro deixe-me contar uma história. Quando mudei-me aqui para a fronteira, para Santa Maria, no já distante 1994, num dia contei uma piada, pois à época entendia que contar piadas era um instrumento válido e universal de acolhimento. Bueno. A ideia era contrastar o comportamento de um judeu, de um negro e de um argentino em virtude de uma confusão em uma maternidade. Pouco importa o desfecho da piada, mas após ouvi-la um de meu anfitriões disse: "se tu trocar (sic) o argentino desta piada por um paulistano sou capaz de rir". Foi bom o reparo dele, pois entendi rápido que aqui no Sul os argentinos não eram tão estigmatizados como em São Paulo, povo mais afeito a manifestar suas diferenças com os portenhos, e que algo dos gáuchos argentinos era caro aos gaúchos do Rio Grande. Pois no livro de Pablo Marchetti encontramos uma miríade de acepções algo chulas e provocativas utilizadas pelos argentinos no dia a dia. A ficha catalográfica do livro o chama de Dicionário de Lunfardo, que é exatamente a popular gíria dos malandros de Buenos Aires. Marchetti, jornalista e também músico, produtor de audiovisuais, editor e escritor, entrega o que promete no título do livro. As palavras estão ali, prontas para expressar raiva, desagradado, indignação, ódio, atacar e defender, rir e achincalhar, provocar sem culpa. Nas palavras do autor, "El insulto es liberador. El insulto es la última estación del combate dialéctico. El insulto nos conecta con la infancia. El insulto nos define. Por eso escribí este diccionario de insultos". Como todo dicionário não se trata de um livro para ser lido de capa a capa. Fiquei com eles ao lado da cama por semanas, treinando e escolhendo os insultos mais apropriados a meu estilo verbal e comportamento: quem me conhece sabe que não preciso de muito incentivo para me envolver em altercações, principalmente quando meu interlocutor é um solene canalha, um odioso escravo mental, um patético lorpa, sempre orgulhoso de sua ativa estupidez. Todavia a chance de eu usar os ensinamentos esse livro na vida prática são mínimos. Também sei ser cortês e não saio de casa para arrumar brigas de caso pensado. Inegável valor, principalmente nestes tempos de estupidez politicamente correta, o arsenal retórico compilado por Pablo Marchetti. Vale! 
Registro #1283 (dicionário #2) 
[início: 17/05/2018 - fim: 07/07/2018]
"Puto el que lee: Diccionario argentino de insultos, injurias y improperios", Pablo Marchetti, ilustrações de Jorge Fantoni, Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Grupo Editorial Planeta, 2a. edição (2017), brochura 15x21 cm., 370 págs., ISBN: 978-950-49-5752-2 [edição original: Puto el que lee (Buenos Aires: Revista Barcelona) 2006]

sábado, 7 de julho de 2018

a filha perdida

Ainda nas férias de verão li esse "A filha perdida", de Elena Ferrante. Mas como, vagabundo, fiquei meses sem registrar minhas leituras, estou conseguindo apenas muito lentamente, aos poucos, organizar as cousas. Na verdade li no início do ano, simultaneamente, três livros de Elena Ferrante: de "Um amor incômodo" já falei aqui ainda em janeiro e de "Uma noite na praia", há poucos dias. Assim como no caso de "Um amor incômodo" em "A filha perdida" encontramos uma história que equilibra dois tipos de registro, um suficientemente lírico, leve e estival, contrastado a outro, amargo, denso e cruel. Uma professora universitária ainda jovem, com menos de cinquenta anos, divorciada já há muitos anos e com duas filhas já adultas e morando com o pai no exterior, decide tirar um mês de férias em uma praia do sul italiano, numa região em que ninguém a conhece. Nesse mês ela experimenta descobertas sobre si, e reflete sobre questões que de alguma maneira já a incomodavam: sua inadaptação para a maternidade; o porquê da tensão, nem sempre apenas sexual, entre homens e mulheres; o contraste gritante entre os italianos do norte e do sul; a rudeza dos napolitanos (que é sua ascendência, coisa que ela ou nega ou esconde); a rotina besta da vida universitária; as dificuldades de entender a linguagem e o comportamento das filhas; a oposição inconciliável entre cultura acadêmica e cultura popular; a impossibilidade de ser fiel simultaneamente a si mesma e aos outros. Por vários dias em que fica ao sol tentando ler algo na praia ela vê ao longe como um grupo familiar se comporta. Ela os crítica mentalmente, ri das confusões que eles provocam no ambiente, porém fica curiosa. Nesse grupo, de homens e mulheres jovens, crianças pequenas, idosos algo deslocados, chama a atenção da narradora uma jovem mãe, que cuida de uma menina que brinca com uma boneca de pano. Ela lembra de várias passagens de sua vida de casada, mãe com filhas pequenas, e contrasta sua experiência com aquilo que vê de longe. Apesar de ter aprendido com o Coetzee que pouco importa incluir ou não spoilers em um registro como esse, uma resenha de um livro bastante lido, não vou registrar aqui exatamente o que faz a narradora para se aproximar e tornar-se uma espécie de confidente daquela jovem mãe. De qualquer forma, após essa aproximação o leitor é apresentado a desdobramentos em série, como se a narradora nos tornasse detetives de sua vida, ou ao menos detetives que precisam desvendar aquele recorte de sua vida, aquela trama. Lembro de ter terminado o livro sentindo-me cúmplice da narradora, com aquele sentimento que experimentamos ao ouvir histórias amalucadas de um grande amigo ou de uma grande amiga. Sabemos serem íntimos demais e talvez algo romanceados, até o limite da invenção, mas sabemos também que não devemos contar aquilo para mais ninguém, não por ser o acaso daquela confidência um segredo valioso ou cousa que o valha, mas por ser o símbolo perene de uma especial cumplicidade e entendimento mútuo. Interessante mesmo. Vamos a ver o que essa curiosa e reclusa escritora irá produzir no futuro. Vale! 
Registro #1282 (romance #338)
[início: 17/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"A filha perdida)", Elena Ferrante, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-510-0032-8 [edição original: La Figlia Oscura (Roma: Edizioni e/o) 2006]

sexta-feira, 6 de julho de 2018

ojo de monje

Nos meses em que vagabundo me abstive de registrar sobre o que lia encontrei muitos livros de poesia. Um deles em particular é por demais poderoso para que eu o lesse sem muito refletir, sem atenção e cuidado, por isso mesmo demorei bons meses para finalizá-lo (se é que se pode dizer que terminamos um livro de poesias, já que elas ficam ecoando em nós, profundamente). Cees Nooteboom é o sujeito que não canso de recomendar, que produz ensaios belíssimos (quase sempre sobre a dupla e bifronte arte de viver e desgraça de sobreviver nestes tempos bicudos). Ele é também poeta (já registrei aqui dele a antologia "Luz por todas as partes" e o volume "autorretrato do otro"). "Ojo de monje" é um conjunto de 33 poemas. A forma poética deles é fixa: três estrofes de quatro versos e uma quarta estrofe com um único verso. Na dedicatória - a Remco Campert, também ele escritor holandês quase nonagenário - Nooteboom diz: "las viejas amistades no se oxidan". Lembrei do Cohen e do Landgraf, do Melo e do Frank, do Péricles e do Oscar, do Sander, da Sibele. Ai de mim, grande vinagre. Os poemas são apresentados no original e impenetrável holandês lado a lado com o mais familiar para mim espanhol, muito embora eu não seja o mais versátil dos leitores do espanhol quando se trata de poesia e sim um sujeito que se esforça, se anima a aprender sempre algo novo.Do que falam os 33 poemas? Sabemos da história de Nooteboom, de sua eduçacão em colégios religiosos (franciscanos, agostinos), de sua curiosidade, de seus livros sobre Zurbarán, sobre El Bosco, sobre arte. Os símbolos são importantes para ele, sempre, como não. Há algo de breviário nos poemas, de livro de horas. As imagens são poderosas, o ritmo lento, as palavras ecoam sugerindo um mundo que termina, num crepúsculo pesado. A palavra "tenebrae", em latim, aparece várias vezes. É assim que se diz da missa da sexta feira santa, quando o Christo ainda está morto. Nooteboom fala também de uma ilha no mar Frísio, da mãe, dos amigos mortos, das viagens e das estrelas no céu, da vida calcificada nas conchas, da areia que pouco guarda registros da presença dos homens, sempre renovada pelas águas do mar, dos mestres gregos, sobretudo Sócrates em seu Fedro. Natureza e vida citadina se fundem. Você pode se afastar do mundo, abraçar o campo e a solidão de uma ilha, mas a realidade dos sujeitos que vivem na cidade irão te perseguir, como os cães perseguiram Actéon um dia. Somos todos como ele, por conta de vislumbrar a deusa, condenados a sermos dilacerados por nosso próprios cães. Tudo é metafórico e mítico na vida, tudo já foi escrito, pensado, vivido, experimentado. Como pode o velho poeta suportar o tédio disto tudo e seguir? Na semana passada don Daniel Dago me avisou que em outubro sairá um livro dele dedicado a Veneza. Saber que em dois ou três anos uma versão espanhola dele deverá ser publicada dá sentido a vida, justifica a espera, garante uma sonhadora vilegiatura. Vale!
Registro #1281 (poesia #94)
[início 23/03/2018 -  fim: 13/06/2018]
"Ojo de monje", Cees Nooteboom, Fernando García de la Banda, Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía), 1a. edição (2017), brochura 12,5x19,5 cm., 86 págs., ISBN: 978-84-9895-317-6 [edição original:  Monniksoog (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2016]

quinta-feira, 5 de julho de 2018

uma noite na praia

"Uma noite na praia" é um conto de fadas. Trata-se de uma versão dirigida ao público infantil de "A filha perdida", um complexo livro de Elena Ferrante que já li há tempos, ainda nas férias de verão, mas, ai de mim, não registrei aqui. Se em "A filha perdida" a narrativa é conduzida por uma mulher madura e sofisticada, aqui, em "Uma noite na praia" Ferrante faz uma boneca de pano contar sua versão da experiência do abandono, de ser esquecida na praia por sua dona após um dia de verão, jogos e alegrias. É uma história que poderia ser inventada por qualquer mãe ou pai que precisasse embalar o sono de uma criança que perdeu ou esqueceu algo de que gostava muito, e se recusa a dormir. No escuro da noite a boneca vê-se rodeada por seres assustadores, areia úmida, um gato, os marulhos das ondas, alguém que limpa a praia dos destroços abandonados pelos turistas, preparando-a para um novo dia. Leitura divertida, que nos faz lembrar dos dias de verão, das praias, da infância e das crianças. Domani vou falar da versão adulta desta história. Logo veremos. Vale! 
Registro #1280 (infanto-juvenil #45)
[início -  fim: 13/02/2018]
"Uma noite na praia", Elena Ferrante, ilustrações de Mara Cerri, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Autêntica, 1a. edição (2016), brochura 16,5x21 cm., 40 págs., ISBN: 978-85-510-0036-6 [edição original:  La spiaggia di notte (Roma: Edizioni e/o) 2007]

quarta-feira, 4 de julho de 2018

retratos imateriais

"Retratos imateriais" reúne 48 poemas curtos, curtíssimos até. Os versos são livres como se é possível ser livre na vida. Os temas são variados: o tempo; a musa fugidia com quem o poeta conversa; a escala do mundo; o cosmos e o infinito; as confessas influências; a perspectiva do olhar e do ofício; o rigor do artista. O poeta se apresenta nos versos, registra fragmentos da vida e do mundo como se fosse um médico a fazer anamnese de um paciente. Jean Narciso Bispo Moura é jovem, um baiano radicado em São Paulo já há tempos e que já publicou vários outros livros. "Retratos imateriais" inclui um posfácio longo, assinado pelo poeta e professor Fabiano Garcez, que analisa em detalhe não apenas esse volume, mas também os trabalhos anteriores de Jean Moura. Não se aprende muito lendo apenas um livro de um determinado autor. Vamos a ver se um dia acabo encontrando outras propostas poéticas deste sujeito. Vale! 
Registro #1279 (poesia #93)
[início: 12/05/2018 - fim: 18/05/2018]
"Retratos imateriais", Jean Narciso Bispo Moura, São Paulo: Editora Singularidade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 68 págs., ISBN: 978-85-94086-04-4

terça-feira, 3 de julho de 2018

aqui de dentro

"Aqui de dentro" é o penúltimo dos livros publicados de Sam Shepard, morto em meados de 2017. O livro foi publicado originalmente no início do ano passado, mas no final do ano, após sua morte, foi publicado o que é considerado seu réquiem autobiográfico, "Spy of the First Person". Um dia destes falo sobre ele aqui. Mas hoje vamos falar de "Aqui de dentro". São 56 registros curtos, mais ou menos autônomos, que vão completando aos poucos um mosaico complexo, um quebra-cabeças que não necessariamente precisa ser finalizado. Um narrador, que facilmente podemos pensar ser um alter ego de Sheppard, parece estar nas altas montanhas "Sangre de Cristo", no Novo México, não muito longe da fronteira com o México. Faz frio, o lugar é remoto, isolado, a solidão preenche o tempo livre de um sujeito/narrador que lembra do pai, de uma namorada do pai que acabou seduzindo-o  (e lhe trouxe prazer e aborrecimentos). Lembra de outras namoradas ou ex-mulheres, de seus filhos, de seu ofício de ator, da rotina e do medo. O relacionamento mal resolvido com seu pai e a ex-mulher do pai são contrastantes. Também  há ambiguidade no seu relacionamento com uma mulher que o visita, ex-mulher ou ex-namorada, com quem ainda e possível algum carinho e convivência pacífica. O sujeito é mesmo um ator o tempo todo, fala dos textos que deve ler e talvez produzir, a rotina das locações onde as filmagens são feitas, lugares e ambientes de vidas provisórias, de gente que aprende a ser nômade e se entranha de despojamento, de desapego. Quando criança ela imaginava poder ser golfista ou veterinário, como foi possível tornar-se ator? Ele fala da experiência com drogas (há uma passagem no livro envolvendo overdose e fuga que é bem bacana). Cada episódio ou registro termina e começa como no cinema clássico, com fade ins e fade outs, nos quais imagens desaparecem por completo, escurecendo a sala de cinema, antes que outras imagens voltem à tela. Uma garota aparece, tentando chantageá-lo. Sua velha caminhonete e seus cães parecer ser os únicos por quem ele tem algum carinho e respeito. O sujeito se embriaga e sonha, sonhos que parecem realistas demais, complicados demais. Sabe de uma amiga que cometeu suicídio, lamenta-se disto, pensa na morte e no amor. Passado e presente se fundem. E um crime precisa ser desvendado. O livro inclui uma apresentação de Patti Smith, multitalentosa artista americana que o conhecia muito bem. Romance algo teatral, que fala de sentimentos entranhados, que parecem precisar da experiência do leitor para serem devidamente escavados. Vale! 
Registro #1278 (romance #337)
[início: 19/02/2018 - fim: 21/02/2018]
"Aqui de dentro", Sam Sheppard, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-7448-286-6 [edição original: The One Inside (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2017]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

escrito em el cielo

Houve um período em que morei em Madrid, ali na calle Fuencarral, numa pensão chamada Sonsoles, próxima ao edificio Telefónica, que fica na Gran Via. A proprietária e minha anfitriã era Victoria, que por coincidência era o nome de minha mãe, dueña Vic, sempre preocupada com minhas distâncias. Quando soube da edição deste volume não demorei em encomendá-lo. "Escrito em el cielo" é um livro de difícil classificação, preferi escolher a classificação do afeto e registrá-lo como livro de arte. Trata-se de um conjunto de trechos de romances ou ensaios que falam de Madrid. Os editores Antón Casariego, Martin Casariego e Fernando Lafuente escolheram 154 autores que publicaram livros nos quais Madrid é o cenário dos sucessos das narrativas, muito embora há vezes em que a cidade quase se personifica, se não como protagonista, pelo menos como a feiticeira que encanta ou o narrador, ou os demais personagens e ou leitor. Eles optaram por um recorte particular, aquele correspondente aos anos de redemocratização espanhola, após a morte do ditador Francisco Franco e promulgação das leis de reforma política, em 1977. Assim, os textos correspondem a quarenta anos, de 1977 a 2017, ano de edição deste belo livro. Digo belo pois o livro oferece ao leitor mimos que tornam sua leitura prazerosa: o formato, a capa dura, a miríade de fotografias e ilustrações, o mapa da cidade indicando em que local se passam os trechos citados de cada obra. Cada autor ganha uma única pagina, nas quais encontramos o trecho citado e uma curta analise de como narrativa e cidade se plasmam ali. Não há detalhes biográficos dos autores além da data de nascimento de cada um, afinal o importante no livro é Madrid e não eles. Nem todos são espanhóis, nem tampouco madrilenos. Há pelo menos um inglês e quatro dezenas nascidos na América espanhola: peruanos, mexicanos, cubanos, colombianos, chilenos, venezuelanos, uruguaios e bolivianos (curiosamente não há nenhum argentino). Há também muitas fotografias panorâmicas da cidade, belíssimas, que simplesmente encantam. Li os trechos aleatoriamente. Muitos autores e livros eu já conhecia: Camilo José Cela, Maria Dueñas, Belén Gopegui, Almudema Grandes, Antônio Muñoz Molina, Arturo Pérez-Reverte, Carmem Posadas, Juan Carlos Onetti, Manuel Rivas, Mário Vargas Llosa e Javier Marías, claro. A maioria nunca li, nem tampouco conhecia. Não será um único trecho de livro que nos explicitará as qualidades ou deficiências de um autor, mas o livro se presta para esse tipo de prospecção, de descoberta, de novos caminhos de leitura. Aprendi lendo há mais de cinquenta anos que são os livros e os diabretes incorporados neles que nos encontram e não o contrário. Vamos a ver o quê da literatura ambientada em Madrid me encontrará no futuro.Vale! 
Registro #1277 (livro de arte #23) 
[início: 09/03/2018 - fim: 29/06/2018]
"Escrito en el cielo: Madrid imaginada en la literatura 1977/2017", Antón Casariego, Martín Casariego, Fernando Lafuente (editores), Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2017), capa-dura 20x26,5 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-204-3288-5