quinta-feira, 9 de agosto de 2018

escalpo

Em algum momento das férias comprei esse livro, mas logo, com o início das aulas, o perdi nos guardados, ai de mim. Há poucas semanas o reencontrei e retomei a leitura. Terminei rápido, como sempre deve ser. Trata-se de um bom, como eu poderia dizer isso sinteticamente?, um bom "Road trip book político-sociológico-sexual pela América Latina", ou uma grande viagem dos sentidos, uma experiência limite, uma odisséia latina, um sonho que brota de um trauma. O narrador de Ronaldo Bressane neste seu livro mais recente, "Escalpo", deambula acompanhando seus personagens de São Paulo (desde a ubíqua Vila Buarque, cara aos livros descolados desses últimos tempos) a Punta del Diablo, de New York a Angoulême (na França do Zapico), de Santiago a Bogotá, e logo Montevidéu, Cabo Polônio, Porto Alegre e outras cidades mil até chegar a Paraty, no sul do Rio de Janeiro, para sua vertigem final. Um quadrinista premiado e arrogante, Ian, amalucado em virtude de um complicado processo de separação e uma inquestionável acusação de plágio, após passar anos incensado, badalado pela mídia, procura um apartamento barato para morar na região do Largo do Arouche, em São Paulo. Em uma das visitas que faz ao procurar apartamentos conhece um velho escritor de origem chilena, Miguel Ángel Flores, que vive paraplégico, preso a uma cadeira de rodas, com dois papagaios e a lembrança de um livro seu que fez algum sucesso. Poucas horas após ter visitado esse apartamento (e seduzido ou ter sido seduzido por uma outra provável locatária do lugar), Ian acaba participando de uma das passeatas que aconteceram no Brasil no inverno/primavera de 2013, onde acaba sofrendo uma concussão. A partir daí o livro torna-se o tal "Road trip book" que sugeri acima. Bressane digressa sobre vários temas: as tais manifestações de 2013, o destino dos filhos sequestrados pela ditadura Chilena de Pinochet, a violência que tomou conta das periferias de qualquer cidade brasileira, o ofício da literatura, o abuso e as delícias do sexo e das drogas, a política brasileira, política cultural e sei lá mais quantos outros pequenos temas. O ritmo do livro é mesmo rápido. O leitor quer saber até onde seguirá a busca de Ian pelos filhos perdidos de Miguel Ángelo Flores, se é mesmo que eles existem. O ritmo atordoante e folhetinesco do livro lembra o de "Medo e delírio em Los Angeles", de Hunter S. Thompson. As passagens onde Ian transa e trepa sem pudor são o ponto alto do livro, lembram o melhor de Philip Roth (sempre sou exagerado, mas eu vivo de fazer associações e forçar sinapses, fazer o quê?). O livro é resultado de uma residência literária (de três meses, concedida pela Sesc), mas isso não é exatamente um problema. Ronaldo Bressane explica em um curto posfácio que ele sabe cumprir prazos, não importa o quão complicada seja a experiência de escrever por encomenda. O leitor encontra bons momentos no livro (já falei das cenas de sexo, mas a emulação da linguagem ou registros de fala de distintos personagens, brasileiros e latino-americanos, também é algo que se destaca no livro). A bem da verdade nunca havia lido nada de Bressane. Vamos a ver se encontro algo antigo dele por aí. Vale! 
Registro #1306 (romance #346) 
[início 10/02/2018 - fim: 15/07/2018]
"Escalpo", Ronaldo Bressane, São Paulo: Editora Reformatório, 1.a edição (2015), brochura 14x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-85-66887-33-4

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

sin brunetti

O título original deste livro ("On Venice: Music, People and Books") explica melhor que encontramos nele: ensaios sobre música (sobretudo erudita), pessoas (que vivem em Veneza) e livros (que Donna Leon leu, por prazer ou por encargo). O "Brunetti" do título desta edição espanhola é um óbvio chamariz para os leitores aficionados de seu famoso personagem. Paciência. São cinquenta e dois relatos, a grande maioria publicados em jornais ou revistas (a edição original é de 2005, mas o livro não dá indicações de quando exatamente os artigos foram escritos e publicados). Todos os relatos são curtos, crônicas de encomenda talvez, digressões não muito extensivas acerca de algo específico, objetivo (ela não dá saltos aleatórios, não muda de tema rapidamente, nem tenta mostrar sua bem provável vasta erudição). Para ser mais detalhista que o título original cabe registrar que o livro é de fato dividido em seis conjuntos. Vamos a ver. Os doze ensaios reunidos em "Sobre Veneza" são de reflexões panorâmicas da cidade, onde ela fala da história mais remota e também da contemporânea, dos problemas contemporâneos. A cronologia acompanha a de sua familiarização com os costumes do lugar, desde a primeira visita, turista deslumbrada como qualquer outra, até os eventuais dias nos quais o tédio se superpõe ao encantamento. "Sobre a música" reúne seis críticas profissionais sobre apresentações líricas, montagens que ela cobriu profissionalmente ou entrevistas com cantores líricos e diretores. Trata-se de um trabalho acurado, coisa de melômano, especialista. Enfim, como quase todo escritor Donna Leon deve ter sido obrigada a fazer trabalhos deste tipo antes de poder viver apenas dos direitos literários de sua obra. "De humanos e animais" é o conjunto menos interessante. São onze ensaios legítimos, ou seja, uma forma de prospecção d verdades e conceitos, mas os exemplos que ela utiliza e o sarcasmo discreto que recai sobre os indivíduos sobre os quais digressa são frouxos e nada específicos de Veneza, poderiam ser ditos de qualquer lugar. "Dos homens" enfeixa onze ensaios sobre as relações entre homens e mulheres. Não há neles um feminismo militante, explícito, de almanaque, porém as posições firmes e os argumentos sólidos demonstram que ela sabe defender-se e defender seu sexo, sem malabarismos retóricos. Sua descrição dos dias em que foi professora em uma universidade saudita deveria ser lida por qualquer mulher que tenha a pretensão de falar sobre a condição humana, como um todo, e da condição da mulher na sociedade, em particular. Nos seis relatos reunidos em "Sobre os Estados Unidos da América" sabemos algo das razões que a levaram a um auto exílio europeu, apesar de nunca ter renunciado a cidadania americana. Trata-se de um rosário de críticas, aos políticos, aos americanos "médios", ou seja, a ignorância média dos americanos, à mídia, ao sistema de saúde, ao mercado editorial. Por fim, em "Sobre os livros" Donna Leon dá seis lições práticas de como um neófito pode aventurar-se ao mundo da criação literária, especificamente a construção de romances policiais. Não são exatamente aulas de escrita criativa, antes são reparos que antecipam os erros mais comuns que um jovem escritor comete, sugestões para o aperfeiçoamento da técnica e da necessária obsessão para bem exercer este ofício. O quê acrescentar? Donna Leon é obviamente uma mulher muito inteligente e muito prática, que antes de inventar mundos, criar suas histórias de detetive, viveu (e vive) algo pleno, viajou pelo mundo, deu aulas (no Irã, na China, na Arábia Saudita, nos EUA, na Itália), conheceu pessoas, leu muito, estudou com disciplina, conversou com amigos, amou e foi amada. O Brasil, ai de nós, aparece rapidamente em uma das crônicas, quando ela escarnece de um livro qualquer comparando-o a um roteiro de novelas brasileiras, encerrando a crítica dizendo algo do tipo: "qualificar este livro de barato, sórdido, é coroar e louvar sua autora". Muito divertido. Vale! 
Registro #1305 (crônicas e ensaios #228) 
[início: 13/04/2018 - fim: 16/04/2018]
"Sin Brunetti", Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 4a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 261 págs., ISBN: 978-84-322-2800-1 [edicão original: On Venice: Music, People and Books (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2005]

terça-feira, 7 de agosto de 2018

provas manipuladas

Esse é o décimo terceiro volume da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Brunetti em Veneza. Em "Provas manipuladas" acompanhamos a solução clássica de um crime que foi atribuído a uma pessoa inocente, por xenofobia, sexismo, racismo. Uma idosa e irascível senhora é encontrada morta e a polícia italiana resolve facilmente o caso ao verificar que uma mulher de origem romena que prestava serviços de faxina a ela havia saído apressadamente do país com uma soma considerável de euros (já estamos nos tempos da unificação monetária da Europa, Donna Leon sempre sincronizando a realidade com sua invenção). Apesar desta evidência, Brunetti é instado a envolver-se e investigar novamente o crime por um padre para quem ele devia alguns favores, ainda na juventude. A trama é bem elaborada, intrincada mesmo, todavia funciona. Mas o crime e a inventiva narrativa são na verdade apenas um artifício que Donna Leon criou para espezinhar mais uma vez a sociedade italiana, exemplificar o alcance perverso dos hábitos, dos infinitos recursos que a lei de lá permite aos muito ricos e muito culpados, dos costumes italianos, da cobiça dos incorporadores imobiliários, das leis trabalhistas fascistas, da inevitabilidade do confronto entre os cidadãos daquela sociedade e os imigrantes (seja do leste europeu, seja do mundo muçulmano, sejam latinos americanos). Apesar das críticas aos métodos alucinantes da burocracia italiana quem auxilia Brunetti na solução do caso é uma cidadã italiana, que mesmo contra pressões públicas defende a empregada romena e explica as circunstâncias de sua saída da Itália e o porquê dela estar com muito dinheiro. Brunetti é um detetive que sabe ouvir, que deixa fatos e evidências aflorarem do cipoal de meias verdades e mentiras completas. Esse volume explora as virtudes privadas, os vícios públicos e os pecados capitais, que coexistem e assombram qualquer sociedade contemporânea. Elettra e Vianello trabalham no limite da lei para contornar a crise que a interferência de seu chefe na investigação. Paola, nos agradáveis almoços e jantares em família, proporciona com sua sagacidade e até cinismo, uma espécie de bolha de tranquilidade, de paz, para Brunetti. Trata-se de um volume que reforça a importância de um círculo de amizades não tóxicas para a saúde mental de qualquer sujeito, de qualquer família. Assim como o anterior, "Assassínio na Academia", esse é dos mais amargos volumes da série. Como minha versão foi editada em Portugal tive um prazer complementar ao ler o livro, pois encontrei vários termos que não são rotineiramente utilizados aqui no Brasil, como comboio, assoalhada, se mo permitem, gelosias, forreta, coscuvilhar, entre tantos outros. Como é rico e vasto nosso português. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1304 (romance policial #73) 
[início: 21/02/2018 - fim: 24/02/2018]
"Provas manipuladas (Brunetti #13)", Donna Leon, tradução de Ana Lourenço, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2010), brochura 15,5x23,5 cm., 246 págs., ISBN: 978-989-657-066-8 [edição original: Doctored Evidence (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2004]

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

las puentes de moscú

Ler as histórias de Alfonso Zapico sempre implica em um envolvimento emocional, como se ele apostasse em uma ligação afetiva para comunicar ideias e reflexões sobre assuntos nem sempre fáceis. Percebe-se isso em "Café Budapest", no qual ele trata do conflito árabe-israelense; em "El otro mar", em que fala da conquista espanhola das Américas; em "Cuadernos d'Itaca", que discute a experiência do quase exílio, de um estrangeiro como ele vivendo entre franceses e viajando pelo mundo, saudoso de sua Espanha e de seu asturiano fundamental. Nos seus volumes dedicados a obra de James Joyce ("Dublinés" e "La ruta Joyce"), esse mesmo registro afetivo é utilizado para descrever como ele se envolveu um um tema complexo, difícil de classificar e reduzir-se à forma de Graphic Novel. Enfim, em suas próprias palavras ele se considera "um dibujante de conflictos". "Los puentes de Moscú" é seu livro mais recente. Não se trata das pontes da Moscou russa, mas sim das pontes metafóricas de uma praça em Irún, Guipúzcoa, no país basco espanhol, conhecida como praça vermelha. Zapico desenha e adapta para o formato de história gráfica um encontro que teve em Guipúzcoa com dois amigos, Eduardo Madina e Fermin Muguruza. Madina é um político espanhol de origem basca, foi secretário geral do partido socialista, sofreu um atentado do grupo terrorista e independentista ETA e atualmente é professor universitário. Muguruza é cantor, instrumentista e produtor musical basco, muito respeitado em sua região e que mantém colaboração com músicos de todo o mundo. É também um sujeito comprometido (a seu modo) com o projeto independentista do País Vasco. Zapico e Madina são quase da mesma idade (quase quarenta ou quarenta e poucos, respectivamente), Muguruza um pouco mais velho (tem cinquenta e cinco anos). Zapico registra os vários encontros entre eles, conta suas biografias, os feitos mais decisivos de cada um, as controvérsias e polêmicas nas quais se envolveram, momentos tristes e também alegres de suas vidas. Das conversas, sempre ao redor de mesas de bar, de café, vinho ou pratos típicos bascos, brotam reflexões sobre um conflito que é difícil de compreender e mais difícil ainda de explicar. Não há conclusão possível. O que Zapico propõe é estabelecer pontes entre os indivíduos, discutir como cada um pode contribuir para esse complexo debate. Afinal, o tempo continua fluindo, como as águas dos rios que seguem para o mar próximo a Irún, as vidas seguem sendo vividas, e algum convívio pacífico entre membros de cada grupo (os nacionalistas e os idependentistas) possível. Vale! 
Registro #1303 (graphic novel #70) 
[início: 21/05/2018 - fim: 23/05/2018]
"Los pontes de Moscú", Alfonso Zapico, Bilbao: Astiberri Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 17x24 cm., 200 págs., ISBN: 978-84-96815-51-5

domingo, 5 de agosto de 2018

andarilhos

Assim que terminei o bom "Noite escura", procurei esse outro volume de Rodrigo Tavares, um romance que ele publicou no ano passado, "Andarilhos". O cenário é o mesmo, a fronteira difusa entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, mas o período histórico é diferente. Desta vez somos apresentados a personagens que vivem seus sucessos no início do século passado, num mundo à parte, imune as circunstâncias do país e do mundo, com regras de conduta bem particulares, hábitos devidamente entranhados e indiscutíveis. Tavares conta a história da rivalidade entre dois sujeitos, o domador de cavalos Pedro Guarany e o tropeiro João Fóia. Se o ambiente do pampa gaúcho lembra as pradarias dos westerns, onde homens fortes forjam o seu destino à força bruta, como nos filmes de John Ford, a desavença entre os dois homens ecoa os muito mitos gregos associados ao fatalismo das cousas, ao acaso, as maldições familiares, a hybris. Todos são andarilhos no campo gaúcho, mas Tavares se interessa mesmo pelo destino de seus dois protagonistas e de um curioso francês, Alphonse Saint Dominguet, um escritor que deambula fazendo registros do mundo físico e dos costumes da gente que habita aquele exótico lugar (ele chega inclusive a visitar o famoso Castelo de Pedras Altas, lugar onde um diplomata chamado Assis Brasil implantou, ainda no início do século passado, modernas técnicas agrícolas e de manejo animal). Saint Dominguet também funciona como um provável alter ego do autor, espionando o destino de seus protagonistas. Os andarilhos do livro são também duplos, pessoas que passaram por alguma metamorfose em suas vidas, foram obrigados a se reinventar, encarnar novas personas. O livro é muito bem escrito, incorporando o registro das formas de comunicação que fogem um bocado da norma culta, ou seja, da linguagem como é de fato praticada por gaúchos do Rio Grande e do Uruguai, indistintamente, até hoje. Claro, um leitor de fora do Rio Grande do Sul vai perder uma ou outra informação, mas nada que um pouco de esforço não resolva. Livro invernal, para ser lido tomando mate, próximo a um fogo de chão, sentindo a brisa de um ríspido minuano no rosto. Vamos a ver o que o Tavares engendrará no futuro. Vale! 
Registro #1302 (romance #345) 
[início: 02/07/2018 - fim: 03/07/2018] 
"Andarilhos", Rodrigo Ungaretti Tavares, Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 202 págs., ISBN: 978-85-7537-256-2

sábado, 4 de agosto de 2018

não há amanhã

Em "Não há amanhã", de Gustavo Melo Czekster, estão reunidos 30 contos, quase todos bem curtos, porém potentes, bons mesmo. O tema das histórias parece acessório, pois o que impressiona no conjunto é a qualidade do texto, burilado, rico em figuras de linguagem, em metáforas, imagens, em modulações, provocações, em meditações, propostas. Num primeiro momento pensei em sintetizar o conjunto como um "livro de contos de fadas erudito", mas com isso talvez se perdesse algo do encantamento provocado pelos relatos. De qualquer forma, das histórias algo amalucadas inventadas por Czekster brotam, antes que preceitos morais ou ensinamentos para a vida prática, lições sobre a concretude das palavras, da potência intrínseca delas, do cuidado com que cada palavra ou conceito deve ser empregado para que uma ideia possa vestir-se de algum valor. Tudo parece novo, não há clichês, frases feitas, joguinhos metaliterários. Sim, o livro é povoado por ecos de histórias bíblicas e citações literárias, mas não como num exercício cabotino, e sim pela funcionalidade estética e reflexiva alcançada pela utilização deles. Há temas que frequentam mais de um conto: o silêncio, a obsessão, o transe e a vertigem, o sonho, a loucura e a morte. Gostei particularmente de "A passionalidade dos crimes", no qual um sujeito planeja uma elaborada forma de vingar-se de seu antigo mentor; "Os problemas de ser Cláudia", que brinca com a quase dissociação que experimentamos nas crises; "A ingrata tarefa das esfinges", uma metáfora sobre o deserto, o nada, de onde surgem todas as histórias, todos os mitos; "Mercúcio deve morrer", uma divertida história, à la Stoppard, do fardo que é a arte, o oficio ingrato de ser um personagem literário; "Um outro sentido", a crítica de uma bizarra peça, impossível de ser encenada e "Pelo vale dos sonhos incessantes", o quase congelamento do instante em que um sujeito morre. Cito esses sete, como poderia ter escolhido outros tantos. E cito também o conjunto de cinco contos chamados "Efemeridade", cinco variantes de uma mesma história, cinco perspectivas de uma metamorfose, de uma cena banal, porém terrível. O livro inclui um prefácio muito bom, assinado por José Francisco Botelho. Cabe registrar que diz uma lenda que Botelho havia apostado contra o próprio Czekster que ele, Czekster, ganharia o prêmio açorianos de literatura na categoria contos deste 2018, como de fato aconteceu. Botelho, para coroar os feitos (ganhar a aposta e saber da premiação do amigo), emitiu um uivo ginsbergiano que atordoou todos presentes na cerimônia de premiação. Deve ter sido divertido estar lá naquele dia. Vale! 
Registro #1301 (contos #151) 
[início: 25/07/2018 - fim: 29/07/2018]
"Não há amanhã", Gustavo Melo Czekster, Porto Alegre: Editora Zouk, 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 150 págs., ISBN: 978-85-8049-046-6

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

los perros duros no bailan

"Los perros duros no bailan" é uma legítima fábula moderna. Arturo Pérez-Reverte só dá voz e protagonismo a cães, uma centena deles, cada um com suas idiossincrasias e suas circunstâncias. Utilizar animais para fazer analogias entre o comportamento dos homens e as histórias vivenciadas por personagens caninos é mesmo uma fórmula antiquíssima, mas acho que posso imaginar um outro motivo para Pérez-Reverte tê-la escolhido. Nesse nosso cotidiano bizarro, em que hordas de censores advogam políticas ditas "corretas", que se espalham como um câncer em todas as atividades humanas, inclusive na literatura, na ficção, um livro onde o que é dito pelos cães o fosse mais convencionalmente dito por humanos teria muita chance de cair em algum "index" de livros a serem combatidos, a serem censurados, a serem eventualmente queimados em praça pública (chegaremos lá, os homo sapiens sapiens parecem ser tóxicos a si mesmos, como em uma doença auto imune). Mas vamos voltar a literatura. Em "Los perros duros no bailam" acompanhamos a jornada de Negro, um cão que durante muito tempo foi adestrado para participar de lutas, frequentemente mortais. Por acaso Negro chegou a aposentar-se das lutas, passou a viver livre nas ruas, mesmo tendo uma função noturna de vigia, com direito a coleira, vacinas e alimentação farta. Negro, como um velho boxeador, tem seus lapsos de memória, alguma lentidão no pensar, mas manteve o instinto assassino de sua linhagem. Dois cães seus amigos, Teo e Boris, desaparecem. Negro decide resgatá-los, o quê, após muitas reviravoltas,  implica em voltar aos ringues de combate entre cães, voltar a ser instrumento para o deleite de humanos torpes, que fazem apostas, perdem e ganham dinheiro com as lutas. A narrativa é repleta de clichês e frases feitas adaptadas ao mundo canino (o leitor ri, mas é uma fórmula fácil demais). É também povoada por personagens caninos planos, que representam apenas uma virtude ou vício, apenas uma característica ou falha de caráter (há os covardes, os fracos, os lúbricos, os dissimulados, os heroicos, os cúmplices, os filosóficos). Trata-se afinal de um livro que valoriza o comportamento moral de alguns cães, modelares de uma espécie que não conhece a hipocrisia. O livro também deve muito ao mundo do cinema. Há uma miríade de citações cinematográficas neles. O roteiro lembra obviamente "Spartacus", do Kubrick, mas há ecos de Casablanca, de neorealismo italiano, de Hitchcock, de westerns, sobretudo os spaghetti (Sergio Leone à frente, claro). Apesar de ser esquemático e de certa forma ser previsível, pois a jornada de Negro para resgatar seus amigos é uma jornada do herói clássica, o livro funciona. Pérez-Reverte já tinha demonstrado o quanto é bom observador do mundo canino em suas crônicas reunidas em 'Perros y hijos de perra", que já registrei aqui. Diversão garantida. Vale! 
Registro #1300 (romance #344) 
[início: 27/07/2018 - fim: 28/07/2018]
"Los perros duros no bailan", Arturo Pérez-Reverte, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), brochura 13x21,5 cm., 168 págs., ISBN: 978-987-738-505-2

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

hedda gabler

No ano passado a editora Carambaia lançou reunidas, num belo projeto gráfico, quatro peças de Henrik Ibsen: "Espectros", "Um inimigo do povo", "Hedda Gabler" e "Solness, o construtor". As peças foram editadas em volumes separados, como se fossem os programas que as vezes são disponibilizados à plateia de um teatro. Acompanhadas de um volume extra, um curto posfácio assinado por Aimar Labaki, as quatro peças foram comercializadas juntas em uma caixa. As li ao longo do primeiro semestre deste ano. Pretendo agora fazer curtos registros separados de cada uma delas. Nunca vi uma montagem de "Hedda Gabler". Labaki nos ensina que já houve quatro montagens brasileiras da peça, a primeira em 1937 e a mais recente em 2006. Os eventos da peça ocorrem em dois dias. No primeiro ato o casal Gabler (Hedda e Jorgen) volta de uma longa viagem de núpcias e se instala em uma grande mansão, mas Jorgen ainda não tem uma posição financeira sólida, pois espera a nomeação para um cargo público em uma universidade. Hedda é uma mulher esnobe, afetada, de temperamento forte; Jorgen é um homem fraco, sonhador, endividado. No segundo ato, Brack, um juiz que é credor de Jorgen, assedia Hedda, e Lovborg, um antigo namorado dela, diz ter produzido um ensaio importante, mas que não ambiciona o cargo pretendido por seu marido. Jorgen, Brack e Lovborg saem para festejar, enquanto Hedda fica conversando com uma amiga, Thea, que é casada mas está enamorada de Lovborg e trabalha como sua secretária. No terceiro ato acompanhamos retrospectivamente descrições do tumultuado festejo noturno do qual participaram Jorgen, Brack e Lovborg, no qual esse último deu-se conta de ter perdido seu manuscrito. Hedda, sabe-se lá por qual razão (tédio, cupidez, vingança, estratégia, pura maldade), induz Lovborg a cometer suicídio e queima seu manuscrito. No quarto ato acompanhamos o desfecho da trama. Após o anúncio da morte de Lovborg, Hedda passa a ser chantageada por Brack, que sabe ser dela a arma utilizada por Lovborg para matar-se. Jorgen e Thea tentam reescrever o importante manuscrito, como homenagem ao amigo morto. Hedda, em transe, sabendo-se pela primeira vez incapaz de controlar seu destino e fazer valer suas vontades, comete também o suicídio. Deve ser uma experiência poderosa ver a peça encenada. Ibsen nos faz refletir sobre o alcance de nossos desejos, sobre a psique de homens e mulheres, sobre as relações de poder às quais estamos todos enredados. Haverá mais Ibsen por aqui. Vale! 
Registro #1299 (drama #14) 
[início: 04/03/2018 - fim: 06/03/2018]
"Hedda Gabler: Peça em quatro atos, 1890", Henrik Ibsen, tradução de Leonardo Pinto Silva, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2017), brochura 17x24 cm., 116 págs., ISBN: 978-85-69002-33-8 [edição original: Hedda Gabler (London: William Heinemann) e (Copenhagen / Christiania: Gyldendalske Boghandels Forlag) 1890]

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

eva

"Eva" é o segundo volume de uma série dedicada a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte fala panoramicamente dos anos 1930, os anos espanhóis de ascensão do franquismo. Essa série foi iniciada com o bom "Falcó", que já registrei aqui. Os sucessos de "Eva" correspondem ao oitavo mês da guerra civil, logo após a sangrenta Batalha de Jarama, no início de 1937. Mas a disputa narrada no livro não se dá em território espanhol, mas sim num enclave neutro, na cidade de Tánger, no Marrocos, sempre tão misteriosa, exótica, cara aos filmes em preto e branco que tinham a segunda grande guerra como tema. Falcó é enviado para Tánger, que naquela época tinha um estatuto especial, sendo administrada de forma conjunta por belgas, espanhóis, italianos, americanos, franceses, holandeses, ingleses, russos e portugueses (ou seja, erra uma terra de todos e de ninguém). Falcó precisa administrar uma questão delicada: impedir que um navio que leva um carregamento de ouro, originalmente parte do patrimônio espanhol que foi enviado para ser eufemisticamente guardado na União Soviética, aliada dos republicanos (que é o grupo que combate as forças de Franco na guerra civil). Os falangistas (apoiadores de Franco) obviamente não querem que o dinheiro cai nas mãos dos russos. Falcó reencontra sua Nêmesis, Eva, a espiã russa que atuava em território espanhol e que ele mesmo havia salvo das mãos dos falangistas, a contragosto de seu chefe direto, o Almirante. Como em todo bom folhetim, os sucessos se sucedem em ritmo acelerado. A narrativa segue a receita de sucesso de livros de aventura  e espionagem: um prólogo à la 007 (uma perseguição pelas ruas de Lisboa, uma morte violenta, a descoberta de uma pista, os planos de intervenção, as ordens que devem ser cumpridas); uma transição sóbria onde se descreve todo o excêntrico cenário e os personagens que serão coadjuvantes na trama, sobretudo dois capitães de navio e suas tripulações; e por fim o crescendo de diálogos e  sucessos que levarão o livro a seu desfecho. Não se pode esperar nada muito cerebral em livros deste tipo, trata-se de entretenimento ligeiro, mas Pérez-Reverte domina esta técnica como ninguém, seus livros garantem diversão pura (lê-se esse livro em um final de semana vagabundo, ao sol, caso o sujeito queira). Sabemos que nunca há só inocentes e vilões no mundo, só os muito ingênuos acreditam nos bons motivos e sobretudo nos métodos de qualquer tipo de revolução. Livro estival, alegre, leve, mas que leva o leitor a pensar (já me contradigo). Afinal qualquer pessoa curiosa sobre a guerra civil espanhola ganha algo com ele. Claro, Pérez-Reverte oferece também ao leitor mais exigente um pouco de verossimilhança, precisão histórica, alguma digressão sobre a clivagem radical experimentada na sociedade espanhola daquela época, dividida entre duas utopias/distopias inconciliáveis e terríveis. Os diálogos são repletos de ironia. Eva e Falcó voltam a ficar em lados opostos no jogo de espionagem, mas têm lá seu jeito de se atraírem e se respeitarem. Certamente haverá um terceiro volume nesta série, mas eu preferiria mesmo é que Pérez-Reverte lançasse o oitavo volume da série dedicada as aventuras do Capitão Alatriste. Isso sim. E vamos em frente. Vale! 
Registro #1298 (romance #343) 
[início: 11/03/2018 - fim: 13/03/2018]
"Eva", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2017), capa-dura 16x24,5 cm., 394 págs., ISBN: 978-84-204-1957-8