sexta-feira, 31 de agosto de 2018

o leitor como metáfora

Ler Alberto Manguel sempre é uma aventura pelo mundo dos livros, das bibliotecas, das obsessões literárias. Não é diferente neste "O leitor como metáfora". Somos apresentados a reflexões que remetem a ideia da leitura, ao contrato afetivo que se estabelece entre leitores e livros, ao vocabulário que lentamente se criou para identificar essa atividade, esse ofício, essa deliciosa sina. É um livro compacto, lê-se com folga em um bom final de semana. O volume é fartamente ilustrado, como para dar também uma ideia visual ao leitor da fortuna iconográfica, distinta daquela outra, original, que é a fortuna crítica dos investigadores dos hábitos de leitura dos homens. Manguel se concentra em três das muitas metáforas que podem ser associadas aos homens que leem: a do viajante, aquele que descobre o mundo mesmo estando a sós com as letras de um livro; a da torre, o claustro daqueles que preferem a solidão compartilhada com os livros que as viagens; a da traça, a dos ratos de biblioteca, daqueles que não se importam mais que exista um mundo e outras vidas acontecendo fora dos livros. A linguagem de Manguel não é empolada, artificial, entretanto o livro é formatado como num texto acadêmico, povoado por citações muito precisas, especialmente das ilustrações, epígrafes e referências. Quando lemos livros assim somos transportados à infância, aos tempos dos primeiros encantamentos com os livros, as primeiras descobertas, àquela sensação de cumplicidade, entre autor e leitor, que parecia brotar dos livros, e que parece continuar brotando, por sorte nossa. Belo livro. Vale! 
Registro #1319 (crônicas e ensaios #231) 
[início 24/08/2018 - fim: 26/08/2018]
"O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça", Alberto Manguel, tradução de José Geraldo Couto, São Paulo:  Edições Sesc São Paulo, 1a. edição (2017), brochura 16,5x23 cm., 148 págs., ISBN: 978-85-9493-056-9 [edição original: The Traveler, the Tower and the Worm: The Reader as Metaphor (Philadelphia/USA: University of Pennsylvania Press) 2013]

domingo, 26 de agosto de 2018

runa

Nunca havia lido nada de Rodolfo Fogwill, respeitado escritor e professor universitário argentino. "Runa" é um de seus últimos livros (ele morreu em 2010). Trata-se de uma fábula, uma espécie de história fragmentada dos primórdios da humanidade, bastante inventiva. A bem da verdade não necessariamente da nossa humanidade. Em algum momento o leitor pode pensar que se trata de um mundo pós-apocalíptico, que volta a ser povoado por homens que pouco guardam do passado, estão a se reinventar, divididos em tribos pelo território. A narrativa é composta por 62 blocos ou capítulos. Num fragmentado monólogo o narrador é um homem parece explicar para outro, de uma outra tribo, que talvez nem entenda sua língua, e talvez seja prisioneiro dele, sobre como é a sociedade em que vive. Ele conta algo da história daquela tribo; de seus hábitos e costumes; da linguagem; de como são escolhidos coletores e guerreiros; de como os chefes são eleitos pelos deuses; sobre os cantores, as danças, os filósofos, os curandeiros e os profetas; das normas de convivência social; das diferenças entre aquela tribo e as demais: o povo das ramas, o povo dos fogos, aqueles que veem do país das neves, do país das areias, do lugar das águas azuis, o povo das planícies. Lembra de batalhas, mortes, movimentos migratórios, do assombro de existir quem seja capaz de montar num cavalo. Há vezes em que a curiosidade do narrador é sobre técnicas de manufatura (de flechas, de pedras de cortar), noutras o interesse é pela linguagem do sujeito que ouve, sobre como ele atribui sons para as coisas materiais e os conceitos abstratos, noutras ainda os questionamentos são sobre a cor da pele, dos olhos, sobre eventos remotos que talvez aquele sujeito tenha ouvido falar. O livro inclui também, distribuídos entre os capítulos, de uma série de reproduções de ilustrações rupestres, de povos primitivos da Escandinávia, Brasil, Argentina, Rússia, Austrália, Índia, Alasca, Etiópia e outros tantos países do mundo. Muito interessante. Vamos a ver se encontro outras coisas de Fogwill.Vale! 
Registro #1318 (romance #347) 
[início 17/07/2018 - fim: 23/08/2018]
"Runa", Rodolfo Enrique Fogwill, Buenos Aires: Interzona Editora, 1a. edição (2011), brochura 13x22 cm., 128 págs., ISBN: 978-987-1180-81-3

sábado, 25 de agosto de 2018

viagem na rússia

Noutro dia mesmo li o excelente "Judeus errantes", de Joseph Roth. No último capítulo Roth falava da situação dos judeus na Rússia, observações fidedignas, recolhidas em uma viagem que ele havia feito à Rússia, no segundo semestre de 1926. Esta viagem foi planejada de forma a permitir que Roth enviasse matérias curtas que fossem publicadas em um jornal na Alemanha, à medida em que percorria o país. Posteriormente todo o material foi reunido, reescrito em livro e é agora também parte da boa coleção antagonista da editora Âyiné. Em "Viagem na Rússia" encontramos registros de um país em construção, que ainda se assombra com as rápidas transformações decorrentes da revolução de 1917. O jornalista que cruza a fronteira russa no equinócio de outono de 1926 voltará otimista em dezembro, mas Roth não teria como antecipar as metamorfoses ainda mais terríveis pelas quais passaria o povo e a sociedade russa nas décadas seguintes. Em 1926 a Rússia soviética ainda era um enigma para os europeus ocidentais. Viajar pelo país não era difícil, apesar da discreta vigilância. Roth parte de Paris, não antes de falar dos russos emigrados que ali viviam, russos que fugiram da revolução, quase todos arruinados, ainda iludidos com a possibilidade de uma volta que jamais se materializaria. Visita várias cidades, da fronteira até Moscou, de lá até Samara (no Volga), a Astracã (no Mar Cáspio), a Baku (onde hoje é o Azerbaijão). Vai a centros urbanos e também ao campo, conversa com gente poderosa (os novos burgueses, que enriqueciam com o programa econômico bolchevique daqueles tempos, o NEP) e com gente simples, em bares e estações de trem. Vai a museus, igrejas, redações de jornal. Cada capítulo trata de um assunto diferente, aborda algo curioso e intrigante sobre o país em transformação. Roth fala da agitação urbana e da força produtiva no campo, dos judeus e do antissemitismo, das práticas de engenharia social, da revolução sexual, das mudanças no papel da mulher na sociedade, no sentido religioso do povo, dos camponeses (mujiques, libertados da servidão dos tempos do Tsar). Vê as paradas militares comemorativas dos dez anos da revolução. No último artigo ele fala do uso da propaganda, da massificação da opinião pública, da censura. Acusa a imprensa soviética de parcial, de não ter independência e, sobretudo, conhecimento factual do mundo. Fala da esterilidade que resulta da censura. Sábio homem. Poucos anos depois Stalin concentraria em si todo o poder, organizaria os expurgos e massacres que definiriam a União Soviética por pelo menos mais trinta anos. Roth em breve estaria morto, deprimido e alcoolizado, talvez vendo o sem sentido do crepúsculo final da Europa daqueles tempos. Lembrei-me de quando, quase ainda adolescente, no final dos anos 1970, li os três poderosos volumes de Trotsky sobre a revolução russa. Aquela massa de informações ajudou-me um bocado, blindando-me de ser tão manipulável nos anos seguintes, imberbe aluno no IFUSP, algo abobalhado nos furiosos debates pela redemocratização do Brasil. Pena não ter conhecido o lirismo e a capacidade de síntese crítica de Joseph Roth naquela época. Vale! 
Registro #1317 (crônicas e ensaios #230) 
[início 19/08/2018 - fim: 22/08/2018]
"Viagem na Rússia", Joseph Roth, tradução de Alice Leal e Simone Pereira Gonçalves, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção antagonista #18), 1a. edição (2017), brochura 10,5x15 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-92649-23-4 [edição original: Reisen in Russland (Berlin: Verlag Die Schmiede) 1927]

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

gastão debreix

Foi o Luciano Bitencourt, generoso, quem presenteou-me com esse livro, ainda em meados de 2016, uma edição muito bonita e bem cuidada da Dgraus Design. Mas os aborrecimentos dos últimos anos, a mudança de apartamento, a revolta e fúria dos guardados que só se encontram por acaso e o hábito, aquele senhor que sabe ser fiel camareiro mas também sabe ser brincalhão, esconderam-no de mim. Noutro dia, rearranjando os livros na biblioteca, justo mesmo onde deveria estar, na sessão dos livros de arte, reencontrei-o, espremido entre um poderoso volume de gravuras do Rembrandt e um não menos grosso volume de histórias do Orotava, um antiquíssimo bar que existia em Barcelona, sobre o qual em breve também escreverei aqui. Bueno. Já conhecia algumas obras de Gastão Debreix, que vi em uma exposição no SESC, há muitos anos. Ele é um artista plástico, designer e professor que vive no interior do Estado de São Paulo, na região de Bauru. Em sua produção plástica utiliza várias técnicas: serigrafia, marchetaria, computadores, fotografia e colagens, mas sua linguagem e intuição são mesmo as de um bom poeta visual. O livro inclui textos de Janira Fainer Bastos, Omar Khuri e Oscar D'Ambrósio, além de fragmentos de biografia, assinados pelo Luciano Bitencourt (que sempre sabe ser poeta), e uma boa entrevista com o Debreix, produzida pela TV UNESP em 2012. O leitor pode apreciar todo o material deste livro em um site, vale mesmo a pena acessá-lo: https://www.gastaodebreix.com.br/. Ainda mais expressivo é o site do Atelier Lapispau, mantido por Debreix. Há um bocado de jogos bacanas ali, cousas produzidas com madeiras nobres, que são comercializados por ele em galerias de arte e lojas de decoração. Noutro dia fiquei sabendo que haverá uma exposição de seus trabalhos em São Paulo, no final deste 2018. Ulalá. Vou ver. Viva Debreix, viva! Vale! 
Registro #1316 (livro de arte #27) 
[início: 10/08/2017 - fim: 20/08/2018]
"Gastão Debreix: razão e sensibilidade", Janira Fainer Bastos, Luciano Bitencourt, Omar Khuri, Oscar D'Ambrósio, São Paulo: Dgraus Editora, 1a. edição (2011), brochura 22,5x30 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-65272-00-1

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

o sol da meia-noite

Depois de uma temporada de férias, em que dediquei-me a ver maratonas de séries "étnicas" (vi umas quantas coreanas, algumas indianas e australianas, muitas escandinavas), recebi a indicação de um amigo para ler "Macbeth", do norueguês Jo Nesbo. Dias depois outro amigo, o Erwin, também citou o mesmo Nesbo, em outro contexto. Como estava fechando a compra de um pacote de livros espanhóis resolvi incluir o tal "Macbeth" nele. Quando o livro chegou (sempre eficientíssimos a Casa del Libro e a DHL) vi que se tratava de um tijolo impossível de ser carregado por aí. Para me adestrar no estilo do sujeito resolvi ler antes um outro livro dele, "O sol da meia-noite", editado aqui pela Record. A história é movimentada e prende o leitor, mas a bem da verdade o resultado não me agradou muito. Claro, o exotismo do cenário da narrativa, as latitudes extremas do círculo polar ártico, no nordeste norueguês, próximo a fronteira com a Rússia, garante alguma curiosidade, mas a trama é apenas um conto de fadas adaptado aos tempos modernos. Um pequeno traficante de Oslo, Jon, vê-se enredado nos negócios do grande mafioso do lugar, um sujeito conhecido como "Pescador". Para fugir dele, Jon foge até a Lapônia norueguesa, onde a maioria da população pratica uma espécie de luteranismo apostólico, conservador. Jon sabe que em algum momento assassinos de aluguel a serviço do "Pescador" o alcançarão, que não há lugar onde ele possa assentar-se a salvo. O leitor é apresentado a personagens arquétipos do lugar: o líder religioso, o louco da aldeia, a mulher sedutora, a jovem viúva com um filho pré-adolescente. O livro trata basicamente da redenção de um pecador; as associações bíblicas e religiosas são bastante óbvias, e dominam todo o livro. Enfim, legítimo best-seller descartável. Espero que "Macbeth" tenha mais estofo. Logo veremos. Vale! 
Registro #1315 (romance policial #76) 
[início: 20/08/2018 - fim: 21/08/2018]
"O sol da meia-noite", Jo Nesbo, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2018), brochura 15,5x23 cm., 223 págs., ISBN: 978-85-01-11379-5 [edição original: Mere Blod (Oslo: Aschehoug Forlag) 2015]

terça-feira, 21 de agosto de 2018

descobrindo a cada passo

Esse é o segundo volume de uma coleção dedicada ao ensino de Matemática dirigida sobretudo ao público jovem, mas que pode ser lido com deleite por qualquer indivíduo que não tem medo de aprender. Já falei aqui do primeiro volume, "Brincando com o conta-gotas", e do terceiro, "Calculando com fatias". Recentemente achei o segundo volume da série, esse "Descobrindo a cada passo". Desta vez Antonio Rodrigues Neto fala sobre a matemática como ferramenta fundamental para o cálculo de distâncias, para a noção de escala, para entender os sistemas de conversão de unidades, para não se assombrar com as relações entre tempo e espaço. A linguagem é simples, objetiva, mas absolutamente rigorosa, correta, ou seja, o Neto não faz uso de malabarismo tontos para empurrar abstrações matemáticas na mente dos estudantes, antes sim os provoca a deambular junto com ele por vários assuntos, assuntos pelos quais sozinhos talvez neles se perdessem, ou simplesmente, se entediassem, como costuma acontecer com as ciências e, ai de nós, com qualquer assunto árido hoje em dia. Já disse que o Antonio Neto é mestre em escolher bons exemplos do cotidiano para ilustrar conceitos chave em Matemática, reproduzir em bom português situações que todos experimentamos no dia a dia. Sim, os livros desta coleção do Sesi-SP ficam bem em qualquer biblioteca de pais que têm filhos. Vamos a ver se o Sesi-SP publica logo as demais aventuras matemáticas do Toninho Neto. Pelo que entendi são prometidos pelo menos mais três volumes. Logo veremos. Vale! 
Registro #1314 (didático #11) 
[início: 03/08/2018 - fim: 05/08/2018]
"Descobrindo a cada passo", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2016), brochura 12x18 cm., 76 págs., ISBN: 978-85-8205-514-4

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

pesado demais para a ventania

Mário de Andrade já nos ensinou que "há uma gota de sangue em cada poema". Já Ricardo Aleixo nos ensina que neles além de sangue há dor, revolta, angústia e memória de crimes, assim como também inteligência, estratégia, técnica e ação. Nesta poderosa antologia o leitor encontrará muitos exemplos do ouro fino que Aleixo tem garimpado na lavra das Musas desde o início dos anos 1990. Já registrei aqui vários dos livros nos quais esses poemas foram publicados originalmente: "A roda do mundo", de 2004; "Máquina zero", de 2004; "Modelos vivos", de 2010; "Impossível como nunca ter tido um rosto", de 2015 e "Antiboi", de 2017. Mas como não conheço todos seus livros anteriores, deve haver poemas coligidos de "Festim", de 1992; "Trívio", de 2002 e "Mundo palavreado", de 2013. A antologia "Pesado demais para a ventania" reúne 105 poemas distribuídos em seis conjuntos, envelopados por dois outros, soltos, um que abre o volume, como numa invocação, "Língua lengua", e outro que o encerra, "Meu negro", uma vibrante e potente coda. O que registrar dos seis conjuntos, sem falar muita bobagem, sem os macular com leituras tortas? Vamos a ver: (i) Em "Desde e para sempre" fala-se de família, de mitologia africana, de memórias de infância, genealogias, faz-se homenagens; (ii) Em "Outros, o mesmo" o poeta brinca e joga para valer com tipografia, com as palavras, com a métrica, registra certos espantos; (iii) Em "Ter escrito ainda não existe" reúne concretos jogos poéticos, reflexões sobre o ofício de poetar, nos conduz pelo caminho da gênese de conceitos, ideias, poemas e fragmentos da memória do autor; (iv) "O coração, meu limite" sensualiza o verso, fala-se de amor, consciência do corpo, musas mulheres, sexo; (v) Em "Multidão nenhuma" o poeta se metamorfoseia num ente noturno que caminha pela cidade, flana por ela, confronta sua belo horizonte fundamental, tenta olhar de longe e de perto as coisas, ajustando o foco da vida; (vi) Em "Queridos dias difíceis" o poeta rosna para o mundo, pisca bravo para a crítica, doma sua fera cidadã, fala dos caminhos sem volta, mostra-se pronto para um combate, pergunta-se. Os poemas quase sempre parecem brotar de algo marcante, da memória, da vida, do sangue, mas possuem, como num palimpsesto, camadas superpostas de técnica, erudição, intuição poética, influências, apuro, espantos. Sorte de quem ler esse livro, ler esses poemas, tentar decifrar esse negro enigma. Evoé Aleixo, evoé. Vale! 
Registro #1313 (poesia #98) 
[início: 10/06/2018 - fim: 15/08/2018]
"Pesado demais para a ventania", Ricardo Aleixo, São Paulo:Todavia livros, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-93828-66-9

domingo, 19 de agosto de 2018

veneno de cristal

"Veneno de cristal" é o décimo quinto volume com os sucessos do comissário Guido Brunetti, invenção da sereníssima Donna Leon. Desta vez a investigação é algo informal, um favor para um amigo do inspetor Vianello que enredou-se numa trama na qual se fundem a cobiça dos homens por poder e riqueza com a soberba daqueles que possuem um dom raro que não querem compartilhar com ninguém. O cenário muda um tanto. Brunetti e Vianello precisam ir mais ao norte de Veneza, ao pequeno arquipélago de Murano, ilha onde se concentram os sopradores de vidro,  fabricantes de cristal, artífices do fogo. O ritmo é lento, primaveril. Dificilmente, nos livros de Donna Leon, o crime acontece na primeira página e resolvido na última. Neste caso a única morte que precisa ser investigada acontece mesmo já na segunda metade do livro. O que se investiga mais atentamente é a poluição da laguna, os métodos que pessoas inescrupulosas utilizam para não seguir normas da comunidade europeia de proteção ambiental. Vianello mostra mais de seus matizes: leitor de artigos científicos, quase vegano, solidário à questões sociais, hábil hacker de computadores, cético sobre a união europeia, um livre pensador que respeita as mulheres. O ritmo tranquilo de almoços familiares e jantares onde comer, beber e desfrutar da companhia um do outro vividos por Paola, Brunetti e seus filhos sempre é invejável, muito embora saibamos que não se pode emular uma vida assim, fazê-la facilmente brotar desde um livro. O livro rediscute também temas já conhecidos do leitor da série: questões linguísticas, o problema crônico do turismo, as transformações urbanas da cidade, os "carteiristas não-comunitários", a sutil arte da etiqueta veneziana. Os crimes se resolvem por um detalhe, lugar onde o diabo mora, sempre. Falar em solução do crime talvez não seja apropriado. Os casos não são exatamente solucionados nos livros de Donna Leon. Quando muito sabemos a motivação, o como, quando, quem e porque de algo, mas nunca os mecanismos implacáveis da justiça em ação (isso é para otimistas ou ingênuos). Só o sarcasmo salva um sujeito da depressão, caso espere correção e ordem nas engrenagens do sistema de poder e no aparato judicial (de qualquer país e lugar, em qualquer tempo). Esse é o último dos livros dela que li fora da ordem cronológica, há mais de um ano. Agora os próximos volumes serão lidos e registrados na ordem certa. Outro bom e honesto volume esse "Veneno de Cristal". Vale! 
Registro #1312 (romance policial #75) 
[início: 18/07/2017 - fim: 24/07/2017]
"Veneno de cristal (Brunetti #15"), Donna Leon, tradução de António Carlos Carvalho, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2011), brochura 15,5x23,5 cm., 278 págs., ISBN: 978-989-657-173-3 [edição original: Though a Glass, Darkly (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2006]

sábado, 18 de agosto de 2018

viagem ao volga

Resolvi registrar este volume como um livro de arte, mas poderia incluí-lo aqui como um livro de memórias, ou um relato de viagens, ou de crônicas. Mas o pequeno milagre que é sua existência merece alça-lo ao status de uma peça artística. Trata-se de um curto relato, coisa de 70 páginas, produzido por um árabe que viveu no início do século X, chamado Ahmad Ibn Fadlan, dando conta dos sucessos que viveu em uma viagem de 4000 Km, de Bagdá a uma região próxima a confluência dos rios Volga e Kama, antigamente o reino dos búlgaros do Volga, hoje território russo. Em algum momento o manuscrito original de sua viagem perdeu-se e apenas fragmentos dele eram conhecidos, como parte de um dicionário geográfico do século XIX. Posteriormente, no início do século XX, a versão atualmente conhecida, ainda incompleta, foi descoberta em uma biblioteca iraniana e editada em livro. Ibn Fadlan integrou uma comitiva oficial enviada por um califa islâmico - líder máximo da religião - rumo a Bulgária do Volga. O objetivo da viagem era responder o pedido de ajuda do rei eslavo de lá, recém convertido ao Islã, para a construção de uma mesquita e de um forte. Seus inimigos são os khazares, povo de origem turca convertido ao judaísmo que dominou extensas regiões entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Responsável pela entrega de presentes do califa ao rei e a produção de registros da viagem, Ibn Fadlan narra não apenas as tratativas oficiais, os ritos diplomáticos de passagem pelas fronteiras serpeantes daqueles dias, mas também muito sobre a natureza e os hábitos culturais dos diferentes povos que encontrou. Tudo o que lhe espantou foi registrado, de sorte que o livro não parece ser aos especialistas exatamente um documento oficial, para fins diplomáticos. Bom observador e refinado diplomata ele é capaz se expressar com clareza e objetividade, não fazendo uso de atalhos retóricos que inevitavelmente redundariam em relatos fantásticos ou de cunho mitológico. O comentários mais interessantes são sobre um povo que ele chama de Rus', que os especialistas associam ou aos russos primitivos ou aos vikings. As descrições dos habitos de higiene e do funeral de um líder deste povo são terríveis. A versão romantizada e lírica dos funerais vikings não guarda nada da força do relato de Ibn Fadlan, detalhista da série de estupros, torturas, matança e destruição que acompanhavam o rito. Muito interessante também é o relato sobre o que podemos entender hoje como aurora boreal, muito embora a latitude daquela região não seja tão alta para que esse fenômeno fosse visível facilmente. A edição é bilingüe e a tradução, diretamente do árabe, é assinada por Pedro Martins Criado. A capa é muito bonita, produzida por uma técnica (hot stamping holográfico) que produz reflexão da luz incidente sobre ela em uma miríade de cores. O leitor pode ter uma ideia desse efeito no site da gráfica responsavel pela publicação (clica aqui: hot stamping holográfico, Ipsis Gráfica). O livro inclui ainda mapas, uma breve cronologia do islamismo e uma apresentação, também assinada por Pedro Criado. Vale! 
Registro #1311 (livro de arte #25) 
[início: 12/08/2018 - fim: 13/08/2018]
"Viagem ao Volga: Relato do enviado de um califa ao rei dos eslavos", Ahmad Ibn Fadlan, tradução de Pedro Martins Criado, ilustrações de Bruno Algarve, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2018), capa-dura 12,5x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-69002-40-6 [edição original: Risalat Ibn Fadlan, (Bagdá) 921-922 d.C.]