quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

hungry ghosts

"Hungry Ghosts" foi um dos últimos trabalhos de Anthony Bourdain, o prolífico chef, escritor, apresentador de tv, produtor e, também, autor de histórias em quadrinhos. Anthony Bourdain cometeu suicidio em junho deste ano. Um assombro, uma notícia ruim, uma grande perda. Tinha uma vida invejável em muitos e variados sentidos, mas os cães negros da depressão não perdoam ninguém. A Casa del Libro avisou-me que a versão espanhola do livro estava disponível, então encomendei-a o mais rápido que pude. Essa não é a primeira incursão de Bourdain no mundo dos quadrinhos. Já registrei aqui o divertido "Get Jiro!", no qual ele produz uma fusão entre gastronomia, Japão, o mundo dos gângsters e dos westerns americanos. Em "Hungry Ghost" ele repete a parceria com Joel Rose, assinando juntos um roteiro com nove histórias curtas. A criação da parte gráfica das histórias foi dada a oito renomados cartunistas: Sebastian Cabrol, Vanesa Del Rey, Ferancesco Francavilla, Irene Koc, Leonardo Manco, Alberto Ponticelli, Paul Pope, Mateus Santolouco. Sal Cipriano assina  a tipografia e José Villarubia é o responsável pelas cores do álbum. Todas as histórias gravitam o mundo dos fantasmas e espíritos da mitologia budista, histórias do folclore japonês e chinês nas quais todos os seres após a morte experimentam uma espécie de sobrevida animalesca, alimentando-se de emoções e medos daqueles que ainda vivem. Eles tem nomes estranhos: Yokai, Yurei, Obake, Kappa e vários outros. As histórias tratam de obsessões culinárias, de hábitos de alimentação, de regras de etiqueta gastronômica. Apesar do bom tratamento gráfico o resultado é muito irregular. Algumas histórias são de fato algo assustadoras, mas são curtas demais, acabam antes que a narrativa produza um devido clima de encantamento e magia. O livro inclui cinco receitas assinadas por Bourdain, pratos com os quais alguns dos fantasmas famintos poderiam se fartar. Não cheguei a experimentar nenhuma das receitas. Vamos a ver se me animo a fazê-lo um dia destes. Bueno. Grande Bourdain. Era mesmo divertido acompanhá-lo em suas viagens mundo afora. Good night sweet Prince!
Registro #1350 (graphic novel #72)
[início 15/11/2018 - fim: 17/11/2018]
"Hungry Ghosts", Anthony Bourdain e Joel Rose (roteiro), Sebastian Cabrol, Vanesa Del Rey, Ferancesco Francavilla, Irene Koc, Leonardo Manco, Alberto Ponticelli, Paul Pope, Mateus Santolouco. Sal Cipriano, José Villarrubia (colorista), Madrid: Medusa Cómics (Editorial Hidra), 1a. edição (2018), capa-dura 17,5x26,5cm, 128 pág. ISBN: 978-84-17390-72-31-401-22827-9 [edição original: Anthoy Bourdain's Hungry Ghosts (New York: Berger Books) 2018]

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

entre as estrelas: aquiles

Marcílio Moraes é escritor e dramaturgo experimentado, co-autor ou autor de várias novelas, minisséries e outros programas de televisão, tendo também produzido cousas para o teatro e o cinema. "Entre as estrelas: Aquiles" é seu segundo romance publicado (o primeiro foi "O crime da Gávea", adaptado para o cinema no ano passado). Dá leitura desse seu "Entre as estrelas" percebe-se que Marcílio escreve sobre o que conhece muito bem. O romance gravita o mundo da produção de telenovelas, as disputas de poder e os egos em fúria de roteiristas, diretores, empresários e atores, as fofocas de jornal, as intrigas dos funcionários que ambicionam prejudicar ou se envolver com os atores. Há um jogo bacana no livro, que é a progressiva confusão entre o que é ficção, invenção, e o que é realidade, espelhando aquilo que todos aqueles que um dia se interessaram por novelas sabem muito bem. O cenário é obviamente o Rio de Janeiro, mas a cidade não chega a aparecer muito, é um personagem coadjuvante, que se não faz feio, não é devidamente explorada. O romance é escrito basicamente na forma de diálogos rápidos, sem muita descrição. Claro, o narrador faz com o que o leitor saiba tudo o que importa sobre os sucessos da trama. O protagonista é João Carlos, um autor de telenovelas que entra em conflito com o diretor da produção e demais superiores por conta de uma atriz. Aprendemos algo sobre a rotina e o ritmo das produções televisivas, os bastidores obviamente nada glamourizado deste ofício. João já escreveu uns vinte capítulos e as filmagens já começaram, mas a atriz com quem ele esperava flertar através da novela é escalada para uma outra, que está com problemas de audiência. Desta situação a narrativa se resolve cronológica e rapidamente, em pouco mais de cinco dias (há um avanço temporal no final do livro, mas apenas para amarrar as pontas soltas da história. Apesar de previsível o romance é bem escrito. Marcílio faz seu João bastante cabotino, afetado, que não disfarça uma cultura que se já foi sofisticada afogou-se nas profundezas do entretenimento popular, onde fórmulas, clichês e situações previsíveis são as que fazem mais sucesso. Isso humaniza o personagem e dá verossimilhança ao livro. Enfim, o romance de Marcílio tem força por conta deste sarcasmo velado, como se ele estivesse piscando o olho para o leitor, fazendo-o cúmplice deste deboche. De qualquer forma,  trata-se de um romance honesto, que oferece entretenimento e boas horas de diversão, como toda boa novela (mas se você realmente gostar de novelas vai divertir-se mais). Vale!
Registro #1349 (romance #353)
[início 11/09/2018 - fim: 13/09/2018]
"Entre as estrelas: Aquiles", Marcílio Moraes, Rio de Janeiro: 7Letras1a. edição (2018), brochura 14x21, 140 pág. ISBN: 978-84-421-0639-8

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

os embaixadores

Em uma avenida de Porto Alegre, de cujo nome não quero lembrar-me, vivem, não há muito, um casal de amáveis anfitriões que costumam conjurar, de tempos em tempos, encantamentos e alegrias para seus convidados, enredando-os em maravilhas, inebriando seus sentidos, cercando-os de mimos, fazendo com que cada um e todos ao mesmo tempo, sintam-se ali especialmente acolhidos, com se estivessem em um palácio das mil e uma noites, em um altar de fábula. Pois esse ritual repetiu-se na noite do último oito de novembro, quando o Luiz-Olyntho e a Glória receberam um petit groupe em sua casa, logo após o lançamento de "Os embaixadores", livro mais recente de Luiz-Olyntho, que havia acontecido na Feira do Livro de Porto Alegre. Trata-se de um livro de ensaios, sobre onze autores gaúchos que são identificados como diplomatas das letras, embaixadores da boa literatura que se pratica no Rio Grande do Sul. No total o livro enfeixa dezessete ensaios. Acho que quase todos podem ser encontrados no  site tellesdasilva.com.br, mas sete deles já haviam sido publicados em livro, jornais ou revistas acadêmicas. De qualquer forma, para essa edição, todos os textos foram reescritos. O livro funciona como um guia de leituras de autores gaúchos fundamentais, autores que em algum momento chamaram sua atenção. Não são reflexões ligeiras, superficiais. O leitor encontra ponderações refinadas, ricas exegeses, minuciosa crítica. Antes de descrições definitivas dos livros sobre os quais fala, ele parece convidar os próprios autores e os eventuais leitores à interlocução, como em uma tertúlia espiritual. Quem já está familiarizado com o estilo habilidoso de hermeneuta que Luiz-Olyntho é, voltará a encontrar sua costumeira miríade de associações, não apenas entre os textos que lê e compara com o mundo dos livros, da ficção, mas também com os mundos da psicanálise e da clínica, da mitologia, filologia e história. De fragmentos e detalhes que ele resgata de seu passado brotam provocações, esclarecimentos, ideias, verdadeiras iluminações. Aprende-se um bocado. Enfim, os embaixadores do título são Luiz Antonio de Assis Brasil, Maria Carpi, Berenice Sica Lamas, Hilda Simões Lopes, Ana Mariano, Lenir de Miranda, João Simões Lopes Neto, Aldyr Garcia Schlee, Donaldo Schüler, Armindo Trevisan e Erico Veríssimo. Todavia, é certo que o Luiz-Olyntho pode também ele ser considerado um senhor embaixador, que bem apresenta seus colegas aos demais leitores. Evoé LOTS, EvoéVale!
Registro #1348 (crônicas e ensaios #238)
[início 08/11/2018 - fim: 15/12/2018]
"Os embaixadores", Luiz-Olyntho Telles da Silva, Porto Alegre: Editora Movimento, 1a. edição (2018), brochura 14x21, 296 pág. ISBN: 978-85-7195-283-6

domingo, 16 de dezembro de 2018

vira-lata de raça

O admirável Ney Matogrosso conta sua história em um dos livros mais bacanas que li este ano. "Vira-lata de raça" é um livro de memórias, um conjunto de depoimentos, organizado por Ramon Nunes Mello, um jovem poeta e jornalista carioca. São nove capítulos. Nos quatro primeiros os depoimentos seguem numa ordem cronológica: (i) infância e juventude, em que acompanhava a família em constantes mudanças (ele nasceu em 1941 no Mato Grosso e seu pai era militar); (ii) os anos 1960, em que já emancipado viveu no Rio de Janeiro e em Brasília; (iii) os anos rápidos do sucesso com o grupo Secos e Molhados, no início dos anos 1970; e (iv), por último, os anos imediatamente posteriores a seu afastamento do grupo e o início de sua carreira solo. Os cinco capítulos restantes são aproximadamente temáticos: (v) um dedicado a seu relacionamento com Cazuza; (vi) um sobre a sexualidade, a AIDS, a perda de amigos; (vii)  um sobre autoconhecimento, religião, espiritualidade; (viii) um sobre política e seu apoio específico a causas sociais; e o último, (ix), sobre o tempo, a vida e a liberdade (valor que ele mais preza). Claro, há superposição de assuntos, informações, episódios de sua vida, mas o formato adotado pelo organizador na produção do livro realmente torna a leitura muito agradável e emocionante. O tom é confessional, mas o sujeito que fala o faz com segurança, posiciona-se, sabe ser bem humorado e debochado. O livro é muito bem editado, incluindo muitos mimos: dezenas ilustrações, várias delas coloridas; seis boas matérias publicadas originalmente em jornais em períodos marcantes de sua carreira, assinadas por sujeitos que conhecem muito bem sua vida e sua obra (Tárik de Souza, Nelson Motta, Vinícius Rangel Souza, Caio Fernando Abreu, Luiz Rosemberg Filho, Mauro Ferreira); uma detalhada discografia e uma generosa bibliografia. Os capítulos oferecem ao leitor várias epígrafes e aforismos retirados das canções mais conhecidas dele. Impressionante a clareza e a segurança com que ele fala de qualquer assunto, nada parece constrangê-lo, nenhum fragmento de memória soa artificial, falso, seja quando ele fala da vida pessoal, de questões sociais brasileiras, de dinheiro, drogas, sexo, amor, religião ou morte. Trata-se mesmo de um artista notável, de um brasileiro digno e talentoso, que merece o perene reconhecimento e o sucesso que alcançou nestes seus quase 80 anos. Vale!
Registro #1347 (perfis e memórias #84)
[início 05/11/2018 - fim: 07/11/2018]
"Ney Matogrosso: Vira-lata de raça", Ney Matogrosso, interlocução, pesquisa e organização de Ramon Nunes Mello, São Paulo: Tordesilhas (Alaúde editorial), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-8419-083-6

sábado, 15 de dezembro de 2018

uma mensagem para o século xxi

Se há uma coisa que Isaiah Berlin nos ensina é que um indivíduo que estude algum assunto e pretende produzir reflexões sobre esse assunto necessariamente precisa ser honesto intelectualmente. Não com os demais, os leitores, mas honesto consigo mesmo. Os dogmas, as utopias e distopias autoinduzidas, a escravidão mental, não ajudam ninguém a entender verdadeiramente o quê é o ser humano. O leitor encontra no volume dois ensaios curtos. No primeiro, The Pursuit of the Ideal, Berlin fala de sua biografia, de sua jornada pelo mundo do conhecimento. Sua curiosidade intelectual levou-o ao estudo da variabilidade das idéias sobre as visões de mundo que incorporam valores (valores como a descoberta da verdade, os objetivos e razões que justificam as ações humanas, a evolução e a essência da ética aplica a sociedade). Berlin fala de crenças humanas que mostraram-se limitadas: a de que havia soluções para os problemas humanos através da aplicação de métodos racionais, que a essência de cada sociedade pudesse ser transformada, fala do ideal platônico (a de que todas as perguntas genuínas deveriam ter uma única resposta verdadeira), do sonho da razão, da noção de progresso. Depois falar dos gregos também fala de Maquiavel, de Vico, de Herder, entre tantos outros, autores que articulam pensamentos que progressivamente demonstram a incompatibilidade entre valores de distintas culturas e entre distintos momentos históricos. Há uma pluralidade de valores tão grande quanto o há de civilizações ele diz, mas é possível entender racionalmente os valores de outras culturas e até respeitá-los. Valores necessariamente devem ser entendidos para que seja possível a comunicação. Enfim, os valores podem ser verdadeiros porém incompatíveis, não existe equanimidade automática entre eles. De fato o choque entre valores e a essência deles é a nossa própria essência como homo sapiens. Cada escolha implica em perdas. Objeções intelectuais a uma ideia de perfeição são exaustivas, mas há objeções psicológicas que são ainda mais limitantes. Uma solução nova pode gerar problemas novos, ainda maiores. O otimismo metafísico dos marxistas é injustificável, incoerente, impraticável. O futuro não nos sorri automaticamente ou por nosso desejo, diz ele (invertendo o aforismo do Manifesto Comunista). A fé cega em totalitarismos só produziu uma montanha de cadáveres, mas há aqueles que parecem padeçer de uma espécie de Alzheimer moral que os impede de enxergar e aceitar a responsabilidade dos regimes totalitários por essa sempre crescente montanha de cadáveres (e há até aqueles que os justifique, como se tortura de esquerda, por exemplo, não produzisse desconforto físico e morte). Claro, ele lembra do necessário processo de adestramento que devemos ter para - como por exemplo, no caso da luta contra o nazismo ou qualquer outra ditadura - nos tornar profetas armados e praticar o mal. Igualmente forte é sua denúncia dos altares abstratos onde são sacrificados milhões de seres humanos, altares totalitários que só produziram agonia e morte. Apesar do tom pessimista, ele verdadeiramente acredita na capacidade humana de aprender (desde que seja honesta consigo mesmo). O segundo texto, A Message to the Twenty-First Century, é uma ode ao futuro. Berlin, nascido em 1909, homem que experimentou quase tudo na vida ao longo do século XX lamenta não poder conhecer dos espantos que certamente o século XXI produziria. Neste texto faz-se um balanço do século XX. Para ele duas coisas o marcaram especialmente. Ele louva os avanços da tecnologia, da técnica, das Ciências Naturais e condena o mundo que desdobrou-se a partir da Revolução Soviética de 1917. A sombra da tirania e da morte que seguiu se ao exercício do socialismo na União Soviética marcou indelevelmente o século. Países inteiros, tiranetes de infinitos matizes, gerações de militantes que mais parecem escravos mentais, reproduziram e justificaram toda a sorte de assassinatos e violência. Liberdade e busca da felicidade nem sempre podem ser simultaneamente alcançadas. Todavia, mesmo confessando-se um pessimista profissional há tantas décadas, acredita que devemos ser otimistas com as possibilidades do alvorecer do novo século, não apenas com devido as novas tecnologias, mas também por conta dos avanços no pensamento gerado nas áreas humanas. Livro importante e seminal. Eu, mais pessimista que ele penso que o pobre homem talvez não estivesse preparado para a  legião de escravos mentais que povoariam esse planeta.nos vinte anos que já se passaram desde sua morte (em 1997). Paciência. Vale!
Registro #1346 (crônicas e ensaios #237)
[início 01/10/2018 - fim: 31/10/2018]
"Uma mensagem para o Século XXI", Isaiah Berlin, tradução de Pedro Fonseca, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #01), 1a. edição (2016), brochura 12x18 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-92649-01-29-6 [edição original: A Message to the Twenty-First Century e On the Pursuit of the Ideal (New York: The New York Review of Books) 1988 e 1994]

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ler e escrever

Nesse pequeno livro estão reunidos três ensaios curtos de V.S. Naipaul, prêmio Nobel de literatura de 2001. Um dos ensaios corresponde ao discurso de aceitação do premio Nobel (Two Worlds), outro foi produzido por encomenda, em homenagem a um amigo de Naipaul, Charles Douglas-Home (Ler e escrever). O terceiro ensaio não está identificado na edição, mas encontrei nos francos domínios da internet que à exemplo do anterior foi publicado em uma edição de 1999 do "The New York Review of Books" (The Writer in India). Pois no ensaio que dá nome ao livro, Ler e escrever,  Naipaul apresenta uma biografia sintética, fala de sua história de vida, de como tornou-se escritor, sobre o processo de sua educação e emancipação familiar, suas primeiras viagens e o impacto da recepção de seus primeiros livros publicados. Naipaul nasceu em Trinidad, quando essa ilha do Caribe era possessão do império britânico, em uma família de imigrantes hindus. Posteriormente emigrou para a Inglaterra e lá viveu até sua morte, em agosto deste funesto 2018. Apesar do autobiográfico, com menções sobre a influência literária de seu pai, que ambicionava tornar-se escritor ao tentar contar algo de seu passado na Índia, Naipaul fala objetivamente de seu oficio, do processo de invenção de suas primeiras histórias, de sua busca de uma voz literária que fosse potente o suficiente para criar algo genuinamente humano, fala das metamorfoses que todo escritor precisa experimentar para manter-se honesto, criativo e forte. O segundo ensaio, O escritor na Índia, continua o anterior e trata de um segundo momento de sua carreira literária, Naipaul quer conhecer algo de seu passado, à exemplo do pai. Parte em longas viagens pelas cidades e regiões anteriormente dominadas pelo império britânico que tinham relação com sua vida. Trata-se de um olhar para o passado, o passado da Índia colonial, da estranheza entre hindus e muçulmanos, mas ele fala da particular força da forma romance, único gênero que é potente o suficiente para explicar os homens contemporâneos. Fala também sobre o poder do cinema em sua formação literária, na forma como ele aprendeu a criar narrativas. O terceiro e último texto corresponde ao discurso de aceitação do prêmio Nobel.  É uma peça devidamente solene, mas um discreto bom humor aparece nas entrelinhas. Ele usa idéias originais de Proust sobre o oficio da escrita para explicar suas escolhas literárias, fala que um escritor necessariamente só pode escrever sobre algo que conheça muito bem, ou que tenha produzido impactos psicológicos e até físicos importantes. Escrever superficialmente é caminho seguro para o fracasso. "Para cada tipo de experiência existe uma forma literária adequada", diz ele. Perto do final do discurso, que louva os caminhos de entendimento do tempo alcançados por Proust (que ele contrasta com a quebra de seu relógio de pulso), Naipaul fala dos perigos que o uso literário/jornalístico de fórmulas e jargões acaba transformando questões importantes e reais da vida das pessoas em abstrações, em conceitos inúteis, fazendo com que as pessoas passem a não ter causas propriamente, mas sim apenas inimigos. Há uma solene sabedoria nestas palavras. Ao terminar o pequeno livro lembrei da Sibele e da viagem que ela fez para a Índia, com um de seus filhos adolescentes, que havia escolhido como presente de 15 anos conhecer o continente indiano. De ter sido uma experiência dos diabos. Grande Sibele. Vale!
Registro #1345 (crônicas e ensaios #236)
[início 17/10/2018 - fim: 20/10/2018]
"Ler e escrever", V.S. Naipaul, tradução de Rogério Galindo e Sandra Martha Dolinsky, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #24), 1a. edição (2017), brochura 12x18 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-92649-29-6 [edição original: "Reading and Writing - a personal account" e " The Writer and India (New York: The New York Review of Books) 1999 / "Two Words" - Acceptance Speech 'The Nobel prizes, editor Wilhelm Odelbert (Stockholm: Nobel Foundation) 2001 ]

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

a leitura das cinzas

Li os poemas de Jerzy Ficowski reunidos em "A leitura das cinzas" na mesma época em que lia o impressionante ensaio de Joseph Czapski, "Proust contra a degradação". Esses dois senhores poloneses, cada um a seu modo e com suas distintas nobres artes, engrandeceram seu país. Czapski lutou nas forças regulares polonesas e foi prisioneiro dos russos durante a segunda grande guerra; Ficowski lutou como membro da resistência polonesa neste período e foi prisioneiro dos nazistas. Sobreviveram por acaso. Poderiam ter sido somados a milhões de mortos. Com a ascensão do comunismo na Polônia ambos foram censurados e perseguidos. No caso de Ficowski sua obra poética, ensaística e tradutória granjeou a ele respeito e admiração oficial na Polônia apenas já no final de sua vida (ele morreu no inicio deste século XXI), muito embora era reconhecido fora de seu país desde os anos 1980. Ficowski suportou o antissemitismo por décadas e é especialmente conhecido por ter produzido poemas sobre o Shoah, o extermínio dos judeus nos campos de concentração nazistas, e também por ter salvo do esquecimento a obra de Bruno Shulz, admirável escritor e pintor polonês. Os poemas reunidos em "A leitura casa cinzas" tratam exatamente do Shoah. São 25 peças poéticas, que demonstram um poeta que transforma uma das cousas mais abomináveis já perpetradas pelo homo sapiens em arte sublime, em um registro que evita um segundo assassinato, um segundo holocausto, que seria o da memória. Testemunha da tragédia e capaz de dar sentido poético a toda aquela selvageria, Ficowski nos fala das crianças judias no gueto, dos infinitos instantâneos da morte, dos vestígios que restam da cultura judaica na Polônia comunista, das cinzas que calcinaram aquele povo. A edição é bilingue e a tradução assinada por Piotr Kilanowski, polonês radicado no Brasil há 30 anos. Em uma boa introdução Piotr nos ensina sobre as dificuldades tradutórias que enfrentou, as escolhas que fez. Cada poema é acompanhado de notas curtas porém muito ricas, que explicam para o leitor a razão de certos assombros e eventuais enigmas. Gostei dos poemas, mas o que mais me tocou foi um sem título, que segue assim: "Muranów se ergue / sobre camadas do morrer / a fundação apoiada em osso / os porões nas valas esvaziadas de gritos // Foi ou não foi está como está // Há uma calmaria de gemidos removidos / halo negro do fogo defunto / Muranów firmemente plantado / na sepultura da memória / a maioria das cartas chega // Foi ou não foi está como está // E eu como ele elevado / até a superfície das cinzas / sob as estrelas de vidro estilhaçado // Foi ou não foi está como está // eu queria apenas calar / mas calado minto / eu queria apenas andar / mas andando pisoteio."  Cabe registrar que Muranów é um bairro de Varsóvia, no qual se encontrava grande parte do terreno do gueto judaico, totalmente destruído após o levante de 1943 e deliberadamente reconstruído após a grande guerra de forma a não permitir que os vestígios da vida no gueto e da matança ali acontecida fossem um dia recuperados. Impressionante e forte livro. Vale!
Registro #1344 (poesia #102)
[início 28/10/2018 - fim: 08/11/2018]
"A leitura das cinzas", Jerzy Ficowski", tradução de Piotr Kilanowski, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #4), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-92649-34-0 [edição original: "Odczytanie popiolow" (London: Association of Jews of Polisch Origin in Great Britain) 1979]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

cavalos de cronos

Foi só no inicio de 2018 que li "A árvore que falava aramaico", excelente livro de contos de J. F. Botelho, que havia ganho o prêmio Açorianos de contos em 2012 e do qual nunca havia tido notícia. Lembro-me da surpresa de encontrar no livro histórias bastante inventivas e uma linguagem cheia de mimos, exuberância, cousas difíceis de serem bem enfeixadas na literatura brasileira contemporânea. Recentemente Botelho publicou uma nova coleção de contos: "Cavalos de Cronos". Ele divide sua proposta em dois conjuntos, um dito "A  terra soturna", outro chamado "Os encontros infernais". Em ambos novamente se destacam uma imaginação dos diabos e uma linguagem riquíssima. Ojo! Talvez haja um excesso no dedilhado barroco da linguagem, mas já sabemos que é possível mesmo por esse caminho alcançar o bom palácio da sabedoria. Faço esse reparo pois talvez um neófito leitor se afogue no texto, embriagado pela vertigem de imagens, figuras de linguagem, associações ricas e potentes, léxico vasto e inusual. Os quatro contos do primeiro conjunto (A terra soturna) têm como orografia os campos neutrais entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. São quatro narrativas curiosas: "Uma história bem contada", na qual um casal segue pistas de um texto mítico (e a mulher parece uma musa encarnada ou uma metáfora do ofício criativo envolvido na ficção); "Cavalos de Cronos", que dá nome ao livro e envolve três jovens, que após terem fugido de uma batalha são emboscados por um traidor (e dão chance para que um digno cavalo faça uma escolha moral); "O silêncio dos campos", no qual um casal enfrenta os cães negros da depressão numa tapera perdida no pampa; e "Coturba dos Ermos", no qual pai e filho se reencontram para novamente se separarem, após uma espécie de travessia, que lembra algo do ritmo de Cormac Mccarthy). Pois nestas quatro historias o pampa faz as vezes de um mar, no qual os personagens de Botelho singram e passam por provações. Os seis contos reunidos no segundo conjunto (Os encontros infernais) são mais mágicos, ambientados em cidades imaginárias ou distantes, espacial e/ou temporalmente, fazendo o leitor viajar à China do imperador Wu, no século II a.C. (O imperador de bambu); ao Oriente Médio de Simão Estilita, no século V (Simeão do Deserto); a uma cidade duplicada, Mirador, onde dois destinos possíveis parecem coabitar e se comunicar por meio de um criado mudo, devidamente destruído numa espécie de Auto-de-Fé canettiano (Neste mundo); a uma ilha distópica, onde tudo é regrado e proibido - e que lembra os mundos de Jonathan Swift (Os deuses de Tingitana); ao Mediterrâneo dos tempos das cruzadas (Romance do Cativo e da Mourisca); à Roma dos tempos das guerras púnicas (O sonho de Catão). Botelho da pistas de sua Yoknapatawpha fundamental, que ele chama de Mirador, o lugar imaginado de onde brotam parte de suas histórias (valeria a pena discutir com ele uma eventual camada psicanalítica desta criação: a cidade, que vê a passagem dos homens, e o narrador, que observa e cria os destinos deles). Uma "Sesmaria dos Lopes", não muito distante desta cidade imaginada, amplia o horizonte onde habitam seus personagens, sendo que os Lopes, citados em vários contos, lembram os Snopes faulknerianos. Dois contos,"Romance do Cativo e da Mourisca" e "Simeão do Deserto", parecem ser cantos de um projeto maior e futuro, dito "A Jangada de Caronte", um poema épico talvez, que enfeixe as influências literárias e estéticas de Botelho. Já falei do barroco da ourivesaria dos contos, mas cabe acrescentar o rosário de mitos literários, a notável linguística campeira, o compêndio dos hábitos e regras mundanas gaúchas, os vaticínios bíblicos incorporados às narrativas, o surgimento recorrente de duplos, espelhos, bibliotecas, o elogio aos livros e à leitura. Difícil dizer qual dos contos é o mais bem resolvido. Cada leitor encontrará o seu. Vale!
Registro #1343 (contos #148)
[início: 22/11/2018 - fim: 28/11/2018]
"Cavalos de Cronos", José Francisco Botelho, Porto Alegre: Zouk editora, 1a. edição (2018), rochura 14x21 cm., 192 págs., ISBN: 978-85-8049-073-2

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

a culinária caipira da paulistânia

Carlos Alberto Dória é doutor em sociologia e um dos maiores especialistas sobre a história rica e variada da culinária brasileira. Dele já li o pequeno porém poderoso Formação da culinária brasileira, livro que me foi sugerido pela Heloísa, amiga querida, já há tantos anos. Nesse volume, "A culinária caipira da Paulistânia",  recém publicado, ao leitor são oferecidas duas formas de familiarizar neste vasto assunto: o caminho da análise acadêmica e o caminho das receitas e produtos desta culinária. Na primeira abordagem Dória parte de sua tese central, que é a definição do que pode ser entendido como culinária caipira, para apresentar um panorâmico registro de sua história, evolução e os atributos quase míticos que hoje possui. Trata-se de uma espécie de arqueologia, a procura de registros de algo que em grande parte se perdeu, metamorfoseou-se, talvez seja melhor dizer. A Paulistânia é um enorme território, que abrange hoje a totalidade dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e partes dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. O elemento central e inicial desta culinária é o uso do milho e suas farinhas, em contraposição às farinhas de mandioca, que reinavam nas demais regiões do país. A maior facilidade de processamento das farinhas de milho possibilitou que indígenas autóctones da Paulistânia (sobretudo guaranis), depois os mamelucos, e ainda depois que os ditos bandeirantes, promovessem a lenta e grande expansão das fronteiras do Brasil, ainda na primeira fase colonial, definindo esta região como um território gastronômico. Dória fala da dieta indígena, cartografa a geografia desta culinária, fala de história e sociologia, define o sítio (que é algo diferente de uma fazenda), a casa e a comida que ali se produzia, fala dos produtos que eram utilizados e sua evolução. Apesar de ser um trabalho apresentado com todo um rigor acadêmico trata-se de um livro fácil de ler, é muito bem escrito e inventivo. O livro inclui extensas notas, vários mapas, uma robusta bibliografia e um fundamental índice, que ajuda o leitor a percorrer o livro em busca de conceitos e definições. A segunda parte do livro, a segunda abordagem que é oferecida ao leitor, é também assinada por Marcelo Corrêa Bastos, chef e proprietário de restaurantes em São Paulo. Carlos Dória apresenta um vasto conjunto de produtos e técnicas culinárias que são episodicamente comentadas por Marcelo Bastos em curtos parágrafos. Não se tratam propriamente de receitas, antes sim de registros sobre como se preparavam o desjejum, os cozidos e as caças; o milho, o arroz e o feijão; as conservas, os refogados e os mexidos; as farofas, as frituras e os empadões, biscoitos e pães. Além desses produtos os autores descrevem algo das tecnologias afeitas à culinária: a evolução dos fogões, as técnicas de refrigeração, as máquinas de processamento e moagem, a seleção de sementes, a logística, o sistema de vendas e distribuição de produtos. Na conclusão Dória produz uma coda amarga ao livro, aquela que identifica a cozinha realmente caipira como uma ilusão, uma miragem somente acessível por meio da arqueologia de algo que já se perdeu, que é conhecido e praticado por poucos. A explicação para este distanciamento é complexa, associada ao falso refinamento decorrente da rápida industrialização de São Paulo e a chegada de imigrantes europeus na segunda metade do século XIX, a pasteurização do gosto, a necessidade que qualquer povo tem de reinventar seu passado, idealizando-o. Bueno. Aprende-se um bocado neste livro. Um leitor curioso pode experimentar a prosa de Dória em seu blog (e-Boca livre). Vale! 
Registro #1342 (gastronomia #34) 
[início: 22/10/2018 - fim: 26/10/2018]
"A culinária caipira da Paulistânica", Carlos Alberto Dória, Marcelo Corrêa Bastos, São Paulo: Editora Três Estrelas (Grupo Folha), 1a. edição (2018), rochura 14x21 cm., 368 págs., ISBN: 978-85-68493-53-3