quinta-feira, 9 de maio de 2019

terra e paz

Yehuda Amichai foi um dos mais importantes poetas israelenses de seu tempo, e é celebrado sempre pela força de seus poemas e perene lucidez de suas reflexões. Nesta antologia, assinada pelo professor da USP e especialista em literatura hebraica, Moacir Amâncio, encontramos 79 poemas. Quase todos os poemas são curtos, cantam a cidade de Jerusalém, a família, o mistério das palavras, as diferenças entre os homens, o amor pelo seu país, as festas e dias de celebração, os personagens da história judaica, a passagem do tempo no humor e na vida do poeta e de seus concidadãos, a força de sua história e seu idioma. Três poemas são mais longos, e prendem o leitor num redemoinho de emoções: um em que o narrador explica como não foi um dos muitos milhões de mortos no Shoá, um que fala de um menino que se perde na história de seu país inventado, um em que fala do filho que parte para a guerra. O narrador fala sobre o cotidiano, a vida, as coisas que experimenta. Percorre as ruas da cidade e captura fragmentos de memória e espantos. São poemas que se deixam ler com calma, que provocam reflexões e surpreendem todo aquele que se aproximar do livro com o coração leve, sem restrições, sem compromissos ideológicos. O último poema escolhido por Moacir Amâncio em sua antologia diz: "Dentro do museu novo em folha / uma sinagoga antiga. / Dentro da sinagoga / eu. / Dentro de mim / meu coração. / Dentro do meu coração / um museu. / Dentro do museu / uma sinagoga, / dentro dela / eu, / dentro de mim / meu coração, / dentro do meu coração / museu." Esse poema infinito explica Yehuda Amichai, que viveu para registrar as maravilhas e a fortaleza da cultura judaica. Vale!
Registro #1396 (poesia #111)
[início: 01/04/2019 - fim: 29/04/2019]
"Terra e paz: antologia poética", Yehuda Amichai, tradução de Moacir Amâncio, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-85-69924-45-6

quarta-feira, 8 de maio de 2019

o sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas

De Joca Reiners Terron só havia lido livros de ficção, quatro densos e provocativos bons romances: "Não há nada lá", "Guia de ruas sem saída" e "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves" e "Noite dentro da noite". Recentemente ele publicou um livro de poesias, "O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas". No miolo do livro estão 63 poemas e na capa, contracapa e orelhas 12 belas fotografias e um último poema. São poemas onde sempre um urbano, incógnito e algo preocupado narrador fala de seus afazeres, libera reflexões, canta seu cotidiano e dúvidas, narra fragmentos de memória. Um poema apresenta os demais: quatro conjuntos de poemas quase sempre curtos e dois longos, separados. Nos dois poemas mais longos o narrador queima ou vê queimar seu passado, os registros fotográficos de uma vida, numa espécie de inventário maldito, ou imagina se sua vida poderia ser emulada em um outro planeta, que orbita um estrela, parecida com o nosso Sol, distante. Nos poemas curtos o narrador fala da vida, de uma filha, de um casamento, faz sociologia selvagem e interpreta notícias, acontecimentos, com sarcasmo, vê pessoas de longe e imagina seus destinos, acompanha o burburinho da noite em sua cidade como se fosse um dramaturgo cruel e cínico. Talvez, talvez não, certamente, essa minha tentativa de enfeixar os poemas em temas, ritmos, musas, seja uma bobagem sem fim. Cada poema se defende sozinho, encontrará seu leitor, tocará uma fibra mental, provocará um efeito literário em alguém disposto a enfrentar os monstros alheios. Não mais que isso um bom e honesto poeta pode esperar. Evoé Terron, evoé. Vale!
Registro #1395 (poesia #110)
[início: 01/04/2019 - fim: 19/04/2019]
"O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas", Joca Reiners Terron, São Paulo: Pedra Papel Tesoura Editora, 1a. edição (2018), brochura 19,5x25 cm, 120 págs. ISBN: 978-85-907516-7-0

terça-feira, 7 de maio de 2019

sofrendo em paris

Athos Ronaldo Cunha é um sujeito que realmente acredita no poder da palavra, na possibilidade de indivíduos se entenderem literariamente. É engenheiro de formação, mas já publicou vários livros e é membro da Academia Santa-Mariense de Letras. Recentemente ele publicou este seu "Sofrendo em Paris". São 45 crônicas, dez delas finalistas ou premiadas em concursos literários dos quais participou Brasil afora. São narrativas curtas, que se resolvem quase sempre num susto, e são quase sempre otimistas, mesmo quando desnudam um erro, um ato vil, ou quando denunciam algo de nossas mazelas bem brasileiras.  Os temas não variam muito. Ele gosta de falar de política, de seu cotidiano em Santa Maria, de alguns sucessos relacionados ao futebol, de alguns fragmentos de memória, de seu passado e causos que experimentou quando era avaliador de penhor na Caixa Econômica Federal. Esse volume recebeu o primeiro prêmio de livros de crônicas não publicadas da UBE-RJ (Prêmio Alejandro Cabassa, União Brasileira dos Escritores), em 2017. Enfim, são crônicas que se deixam ler com calma, enfeixam reflexões de uma pessoa inquieta, que compartilha seus espantos e procura honestamente interlocutores, outros viventes que queiram entender um tanto melhor esse nosso complexo mundo. Não é pouco. Vale!
Registro #1394 (crônicas e ensaios #254)
[início: 27/04/2019 - fim: 02/05/2019]
"Sofrendo em Paris", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Guaratinguetá / SP : Editora Penalux, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-5833-456-3

segunda-feira, 6 de maio de 2019

wilcock

Juan Rodolfo Wilcock foi um escritor, crítico literário e tradutor argentino que radicou-se na Itália em meados dos anos 1950. Quando morava na Argentina era interlocutor de escritores do calibre de Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares, já na Itália frequentava círculos literários igualmente ilustres. Foi autor de quase duas dezenas de volumes, de poesia, ficção e ensaios, boa parte publicado postumamente (ele morreu em 1978). Kelvin Falcão Klein é gaúcho (acho), crítico literário, ensaísta e professor universitário. Está radicado no Rio de Janeiro, mantém um excelente blog literário, o "Um túnel no fim da luz", e publicou o bom "Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas", que já registrei aqui. Pois foi exatamente de suas leituras de Vila-Matas que brotou o interesse de Falcão Klein por Rodolfo Wilcock. Durante o período em que esteve envolvido em sua tese de doutoramento Falcão Klein consultou muito material publicado em jornais e revistas por Wilcock, nunca traduzido para o português. Como nem tudo relacionado a Wilcock pode ser incluído em sua tese (que pode ser consultada aqui: clicka!), ele resolveu publicar, neste pequeno volume, algo sobre seu envolvimento afetivo e intelectual com Wilcock e sua obra. São seis capítulos curtos, onde o leitor é apresentado a este invulgar autor italo-argentino, que traduziu portentos de T. S. Eliot, Willian Carlos Willians, James Joyce, Samuel Beckett e Wittgenstein; produziu uma obra que chama a atenção pela originalidade e virtuosismo; aparentemente se dedicava a "ridicularizar a razão, a tradição e seus instrumentos" e que é pouco conhecido no Brasil. Nunca li nada dele e fiquei curioso pela associação que Falcão Klein nota entre o projeto literário de Wilcock com o do artista plástico Marcel Duchamp, no interesse de ambos pela técnica de estereoscopia (algo mais que um desejo poeticamente justo de Falcão Klein é imaginar a possibilidade de Duchamp ser o pai de Wilcock!). A peregrinação de Falcão Klein à casa onde morou e morreu Wilcock, em Lubriano, que fica a pouco menos de 100 Km de Roma, dá conta de sua determinação. O registro dessas viagens sentimentais, fruto de um envolvimento profundo com a obra de um determinado autor, são sempre interessantes. Este livro faz parte de uma coleção chamada Micrograma, cuja ambição é oferecer ao público leitor obras de grande valor, de ensaio, crítica e narrativa, que dificilmente seriam publicadas por grandes corporações. De fato o resultado alcançado por Falcão Klein é notável. Não vejo a hora de conhecer melhor Wilcock. Logo veremos. Vale!
Registro #1393 (crônicas e ensaios #253)
[início: 27/03/2019 - fim: 10/04/2019]
"Wilcock: ficção e arquivo", Kelvin Falcão Klein, Rio de Janeiro: editora Papéis Selvagens, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 68 págs., ISBN: 978-85-92989-19-4

domingo, 5 de maio de 2019

escrever ficção

Luiz Antonio de Assis Brasil, premiado autor gaúcho, mantém há mais de três décadas uma Oficina de criação literária (sempre vinculada ao curso de letras e a programas de pós-graduação da PUC-RS). Esta experiência na formação de novos escritores, aliada a sua expertise como autor de duas dezenas de peças de ficção, levou-o a editar recentemente esse seu "Escrever ficção", que como o subtítulo já denuncia, é um manual de criação literária. São nove capítulos temáticos, que tratam da identificação de quem tem - ou pode ter - a vocação de ficcionista; de como se constrói um personagem; de como se trata a questão do conflito nas narrativas; da gênese do enredo e sua estrutura; dos pontos focais que todo texto deve ter, ou seja, das vozes e tempos verbais possíveis dos textos; do lugar onde os sucessos acontecem, ou seja, do entorno das ações e eventos da trama; do tempo, sempre fugidio, onde o autor deve povoar seus personagens; dos estilos possíveis, da habilidade que pode ser cobrada de um autor; e, por fim, termina oferecendo um roteiro básico para a construção de um romance. Não são soluções ou recomendações fechadas, intransigentes, dogmáticas. Assis Brasil tenta emular aquilo que acontece com método em suas aulas, tenta resumir no livro os acertos e erros mais frequentemente observados nestas aulas e na trajetória profissional de seus ex-alunos. Para sustentar seus argumentos, Assis Brasil faz uso de muitas citações de trechos de obras de autores cujas obras são exemplares. E também dá exemplos retirados da experiência ou da obra daqueles ex-alunos. O livro enfeixa também várias, vamos dizer assim, "retrancas", que são parágrafos destacados, que sintetizam um determinado tema, como se fossem conclusões do que foi discutido sobre um assunto com uma turma ao final das aulas (óbvio, trata-se de um resumo de 30 anos de conclusões e experimentos). Essa peças, a meu juízo, de menor anão desta província, ágrafo romancista, até poderiam ser editadas à parte, numa espécie de "guia rápido de criação literária". De qualquer forma, como Assis Brasil bem lembra várias vezes ao longo de seu manual, nada substitui o tempo de leitura, e acrescento, numa ênfase minha: seja de clássicos, de obras menores, de best-sellers, de autores de quem nunca ouvimos falar, de livros tolos e mal escritos, de obras geniais e imprescindíveis. Mais uma cousa: ele lembra que seu livro oferece aos escritores em formação, seus interlocutores ideais, leitores deste volume, apenas recomendações, sugestões estilísticas e alertas generalistas. O adestramento à prática inventiva da ficção parece ser a ele uma real possibilidade. Oká. Sabemos que um escritor que se recusa a ler livros sempre estará enredado em uma prisão mental, pois terá acessíveis a si apenas um punhado de ideias e experiências. A educação literária é algo necessário, mas eu mesmo pouco acredito na ideia de que qualquer indivíduo possa escrever romances dignos de nota, por mais oficinas e cursos que faça, por mais livros que leia, palestras que ouça. Paciência. Chega dessa esquivança. Este livro do Assis Brasil é ouro puro e fino para quem quer sim entender-se com sua vocação de escritor. Vale a pena conferir. E mais não digo. Vale!
Registro #1392 (crônicas e ensaios #252)
[início: 07/04/2019 - fim: 01/05/2019]
"Escrever ficção: Um manual de criação literária", Luiz Antonio de Assis Brasil, colaboração de Luís Roberto Amabile, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 396 págs., ISBN: 978-85-359-3207-2

sábado, 4 de maio de 2019

eu vou matar maximillian sheldon

Genuíno representante dos escritores com disciplinada vocação para seu ofício é Leonardo Brasiliense, gaúcho de São Gabriel, radicado em Santa Maria, autor já premiado, e que já publicou uma dezena de bons livros. Recentemente ele lançou "Eu vou matar Maximilian Sheldon". Trata-se de um livro de contos (já li contos dele reunidos em "Corpos sem pressa", "Whatever", "Olhos de morcego" e "Adeus contos de fada", mas não de outros dois: "Des(a)tino" e "Meu sonho acaba tarde"). São dez propostas, dez histórias curtas. Há um truque confesso neles, nos contos, que é o de contar histórias cujos narradores ou buscam cumplicidade afetiva ou agridem o leitor, em busca de um efeito igualmente cúmplice, que é o da negação automática de um padrão de comportamento que poderíamos acreditar nossos, de nós leitores. Os personagens dos contos estão envolvidos atividades bem humanas, envolvidos em coisas como a expiação de culpas; o hedonismo torto das classes trabalhadoras; os fragmentos bobos que brotam dos interstícios da memória; na perda da identidade, como aquela de alguém que se vê só num hospital; a solidão entranhada de alguém que se imagina povoado por um ser que o consome e justifica seus erros; a perda de tempo que é conviver com alguém que se despreza, mas que não se quer perder; a atividades bizarras, como a de querer transar logo após tentar salvar a vida de alguém que morre; a ilusão provocada por advinhos e outros charlatães em nossas vidas, desde a infância até a velhice; o censo cotidiano de nossas misérias, perdas, erros; a  busca por uma expiação ou ajuda profissional que não mitigará o fracasso inerente de uma relação. São dez bons contos, contos inventivos, muito bem escritos, de alguém que sabe o quê está fazendo de seu talento e arte. Evoé don Leonardo, evoé. Longa vida a esse livro de estreia da editora Coralina, que é lá da terra do arroz, Cachoeira do Sul. Vale!
Registro #1391 (contos #161) 
[início: 19/04/2019 - fim: 21/04/2019]
"Eu vou matar Maximillian Sheldon", Leonardo Brasiliense, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-80360-01-7

sexta-feira, 3 de maio de 2019

carvalho, problemas de identidad

Carlos Zanón é escritor e roteirista espanhol, autor premiado de romances policiais. Recentemente o poderoso grupo editorial Planeta o convidou para escrever um romance que desse continuidade às aventuras do mítico detetive Carvalho, invenção genial de Manuel Vázquez Montalbán, que morreu em 2003. Quem já leu algum dos livros de Montalbán sabe do tamanho da responsabilidade. Carvalho surge em 1972, ainda sem muitos dos predicados que acostumamos associar a ele, em "Yo maté a Kennedy". É protagonista de pelo menos vinte e cinco romances ou livros de contos de Montalbán, até seu encantamento em "Milênio", de 2004, e algumas reencarnações recompiladas de jornais e publicadas nos "Cuentos negros", de 2011. Zanón opta por imaginar em seu livro um outro Pepe Carvalho, um detetive real cuja expertise foi utilizada por Montalbán na gênese do Carvalho original. Trata-se de uma espécie de jogo: o Carvalho de Montalbán perdeu-se como personagem em "Milênio", após sua volta ao mundo fugindo da Interpol, e o Carvalho de Zanón continua a viver em Barcelona, lembrando episodicamente de como "El escritor", ou seja, Montalbán, usava suas histórias reais nas narrativas ficcionais que publicava. Os sentimentos são ambíguos. Apesar de feliz por não mais ler seu nome associado a um personagem de ficção e precisar dar explicações a gente curiosa, ele sente saudades das conversas que tinha com o homem Montalbán, o jornalista e intelectual dinâmico que era. Enfim, funciona como explicação para essa nova metamorfose do personagem. De qualquer forma "Carvalho: problemas de identidad" demora um pouco para prender o leitor. Estamos no verão de 2017, às vésperas do plebiscito pela separação da Catalunya que tantos desdobramentos já experimentou, e que de certa forma fraturou toda a Espanha (as eleições da semana passada estão aí como exemplo). As obsessões e temas de Montalbán aparecem como em uma pátina ou palimpsesto: os turistas que passeiam pelas Ramblas catalanas, Biscuter e sua ambição gastronômica, a cresecente presença de chineses em sua Barcelona fundamental, a queima ritual de livros, as saudades de Charo, as relações com a comunidade européia, as relações autofágicas entre direita e esquerda, a rivalidade entre Madrid e Barcelona, os contatos com a polícia e o submundo, as receitas, as citações eruditas disfarçadas, o separatismo catalão, as preocupações com o destino político e econômico da Espanha. O Carvalho de Zanón continua sarcástico, amargo, abusando do cinismo, talvez com menos vigor físico e mais problemas de saúde, enredado em relações amorosas confusas e desgastantes. Os crimes que ele investiga são, a exemplo dos romances originais, o que menos importam na narrativa, são peças acessórias que servem para conduzir o ritmo do livro, mas que não são foco de real interesse. Carvalho precisa entender as razões para a morte de uma velha senhora e sua neta ao mesmo tempo que investiga o desaparecimento de uma prostituta em Montjüic. Afinal, o livro funciona como homenagem a Vázquez Montalbán e também funciona como romance policial independente. Vamos a ver se esse projeto terá continuidade, se haverá outros Carvalhos no futuro. Em tempo: Sempre vale a pena atualizar-se nas cousas de Montalbán acompanhando o site Vespito. Vale!
Registro #1390 (romance policial #82) 
[início: 13/03/2019 - fim: 23/03/2019]
"Carvalho: problemas de identidad", Carlos Zanón, Barcelona: Editorial Planeta, 3a. edição (2019), capa-dura 16x24 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-08-20148-9

quinta-feira, 2 de maio de 2019

cuestión de fé

Os sucessos de "Questión de fé", décimo-nono volume da série de Donna Leon onde é protagonista o comissário Guido Brunetti, se passam no início do verão, quando o calor parece mais forte e inclemente. Um velho amigo alerta Brunetti sobre crimes nos quais estão envolvidos membros do judiciário e do setor imobiliário veneziano. Oficialmente não há como ele investigar o assunto, mas quando um funcionário do tribunal onde os tais crimes acontecem é morto, Brunetti tem a oportunidade de denunciar corruptos e corruptores. Claro, não há exatamente justiça no processo, apenas uma interrupção, um recuo tático dos malfeitores, uma substituição dos agentes dos vários crimes. Talvez só o sistema judicial italiano seja mais podre e corrupto que o brasileiro. E é fato que onde há dinheiro e poder há canalhas, pessoas suficientemente venais e imunes a um fiapo de caráter. Em paralelo a esta investigação mais séria, Brunetti e a sempre eficiente secretária Elettra ajudam o investigador Vianello com um crime menor, que envolve uma de suas tias, enganada por um estelionatário especializado em fraudar pessoas idosas e com problemas de saúde. Brunetti, Paola e os filhos planejavam férias nos Alpes, em uma região mais fresca e afastada dos turistas, mas ele precisa ficar em Veneza por conta de dois crimes. Neste volume ganha destaque uma nova comissária, Claudia Griffoni, tão proba e diligente quanto Brunetti, um novo contraponto aos irresponsáveis vice-questor Patta e seu lugar tenente Scarpa. Há muitas cenas em bares, nos quais Brunetti e seus comandados refrescam-se e fazem refeições ligeiras, quase sempre os deliciosos tramezzini italianos. Com Paola, sempre cúmplice, Brunetti discute as circunstâncias dos crimes, os livros que estão a ler, ela sempre Henry James, ele os clássicos latinos, e também algo sobre o desemprego endêmico italiano, sobre o fato de milhões de jovens não alcançarem jamais um emprego fixo, um problema conjuntural e grave daquela sociedade. É sempre uma alegria ler Donna Leon. Mas vamos em frente. Vale!
Registro #1389 (romance policial #81) 
[início: 16/04/2019 - fim: 18/04/2019]
"Cuestión de fé" (Brunetti #19), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2340 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 315 págs., ISBN: 978-84-322-5094-1 [edição original: A Question of Belief (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2010]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

desenhos invisíveis

(Gervásio) Troche é um artista plástico uruguaio. Ele viveu em vários países, inclusive no Brasil, e publica em jornais e revistas mundo afora. Encontrei esse livro de ilustrações dele nas escadarias do viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre, em frente ao agitado Bar Justo, em uma feira gráfica de artista independentes. Os desenhos se defendem sozinhos. Não há palavras, e de fato elas não são necessárias, pois o resultado alcançado por Troche realmente é forte, convincente, que cobra reflexão do experimentador daquela linguagem. Ele descreve o cotidiano de uma cidade, olha frequentemente para o céu, para as estrelas, equilibra-se em um trapézio, empilha prédios, experimenta os elementos (a noite, a chuva, a luz e a sombra, os sons e a música, as folhas e as árvores). Os homo sapiens que ele desenha não são exatamente solitários, tristes, mas há uma solidão entranhada neles. Os desenhos parecem versões em preto e branco das pinturas mais icônicas de Edward Hopper. Um leitor curioso pode apreciar algo de sua produção plástica num blog (portroche blogspot) ou em sua página no instagran (portroche instagran). Vale a pena, mesmo. Vale!
Registro #1388 (hq´s cartuns e mangás #73)
[início - fim: 21/02/2019]
"Desenhos invisíveis", Troche, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2014), brochura 17x22 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-66740-07-3 [edição original: Dibujos (Buenos Aires: Editorial Sudamericana / Penguin Random House Mondadori) 2013]