quarta-feira, 29 de maio de 2019

cartas a harriet

Neste pequeno volume encontramos 62 das muitas cartas ou cartões postais que James Joyce enviou entre 11/11/1914 e 19/06/1939 para Harriet Shaw Weaver, sua amiga, editora, executora literária e também sua mecenas quase particular por muitos e muitos anos. É bobagem especular cousas assim, mas acredito ser bastante improvável que Joyce alcançasse publicar - da forma que publicou - seus três grandes romances: "Retrato de um artista quando jovem", "Ulysses" e "Finnegans Wake", sem a ajuda dela. E mais, seria muito improvável até que sua vida material - o pagamento de sua moradia, alimentação, cuidados da família e das muitas operações nos olhos que fez ao longo da vida - tivessem acontecido da forma que aconteceram. Edna O'brien, famosa especialista em Joyce, escreveu em um artigo que provavelmente Harriet Weaver transferiu (em dinheiro de hoje) mais de um milhão de dólares, dos quais jamais pediu compensação exata na forma de direitos autorais ou coisa que o valha. Joyce enviava-lhe seus manuscritos, mas isso jamais foi uma condição dela para as remessas de dinheiro. Mesmo depois da morte de Joyce, Harriet, que sobreviveu a ele quase vinte anos, continuou apoiando sua família, tendo sido responsável pelos funerais de Nora Joyce e os muitos cuidados hospitalares dedicados a Lucia Joyce. Aprende-se um bocado sobre o caráter e a biografia de Joyce lendo as cartas. Ele era um sujeito irascível e parte de suas obsessões restam registradas nas cartas. A organização do volume e tradução das cartas e cartões postais é de um casal industrioso lá de Santa Catarina, os professores universitários Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros (deles já registrei aqui vários livros e ainda tenho vários outros para ainda registrar, ai de mim). À edição eles acrescentaram um conjunto de mais de duzentas boas notas curtas e dois ensaios robustos, que contam algo da biografia e contextualizam as circunstâncias da troca de cartas entre Harriet Weaver e James Joyce. As cartas foram compiladas de quatro portentos editados nos anos 1950, 1960 e 1970 por Richard Ellmann, o seminal biógrafo de Joyce: os três volumes do "Letters of James Joyce" e o volume "Select Letters of James Joyce". É pena que nenhuma das cartas enviadas à Joyce por Harriet Weaver tenha sido incluída na seleção, mas trata-se obviamente de uma decisão autoral e editorial que se sustenta de várias formas. As cartas e postais dão conta de como Joyce circulava pela Europa e revelam doses mais ou menos equivalentes de generosidade, cumplicidade, lamentos, demandas e exploração, pura e simples. O leitor curioso pode aprender algo sobre esta notável mulher aqui: clika!, ou conferir um artigo de Edna O'Brien publicado na New York Review of Books: clika aqui!. Bueno. Em poucos dias estaremos a comemorar mais um Bloomsday, aqui em Santa Maria, em Dublin e em centenas de outras cidades ao redor do mundo. Nenhuma destas comemorações deveria existir sem que ao menos uma citação de louvor a Harriet Weaver fosse feita. Haverá mais registros sobre livros dedicados as cousas de James Jocye, muito em breve. Você já está preparado para o Bloomsday 2019? Vamos em frente. Vale!
Registro #1406 (cartas #9)
[início:12/05/2019 - fim: 16/05/2019]
"Cartas a Harriet", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-7321-589-2

segunda-feira, 27 de maio de 2019

las aguas de la eterna juventud

Neste volume, o vigésimo quinto da série dedicada ao comissário Brunetti, já é outono, os dias começam a ficar mais curtos, as turbulentas águas de Veneza começam a subir. Donna Leon faz Brunetti interagir bastante com sua colega comissária, a eficiente Claudia Griffoni. Paola e os filhos, Elettra e Vianello, Scarpa e Patta, também aparecem episodicamente, mas os momentos chaves da trama são protagonizados pelos dois. Eles se envolvem na investigação sobre as circunstâncias que levaram uma garota veneziana, neta de uma influente contessa, a quase morrer afogada e a ficar com severas sequelas físicas. Como esse acidente ocorreu há mais de quinze anos há poucos registros confiáveis. A única testemunha do caso é um alcoólatra, cuja memória esfumou-se com o tempo. Elettra, sempre útil quando Brunetti necessita contornar a burocracia, a lentidão das repartições públicas e até das leis italianas, vê-se impossibilitada de ajudar, pois hackers parecem estar bisbilhotando seu computador. Enquanto faz seus personagens buscarem a solução para aquele enigma, Donna Leon  faz desvios pela sociedade italiana, fala dos projetos de restauração urbana que são utilizados para desviar dinheiro público, da ocupação desordenada dos espaços privados da cidade, da invasão sazonal de turistas, dos crimes do cotidiano, que se resolvem sozinhos. Esse volume é calmo, não há muitas reviravoltas, sobressaltos. Claro, repete-se a dose costumeira de sarcasmo de Donna Leon dirigida aos italianos, os mimos literários e de alta cultura oferecidos aos leitores, a cota de digressões sobre culinária, bons vinhos e a mundanidade dos cafés. Vamos em frente. Vale!
Registro #1405 (romance policial #83)
[início: 02/05/2019 - fim: 06/05/2019]
"Las aguas de la eterna juventud" (Brunetti #25), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2711 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 333 págs., ISBN: 978-84-322-2994-7 [edição original: The Waters of the Eternal Youth (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2016]

sábado, 25 de maio de 2019

peregrinando rumo a finisterra

Já li alguns livros de pessoas que fizeram o mítico Caminho de Santiago (não, o do Paulo Coelho, definitivamente não). Cada experiência destes autores é muito particular, apesar de todos compartilharem a mesma esperança em algum tipo de iluminação, epifania, encontro, descoberta de si ou da realidade última das cousas. [Preciso fazer um reparo aqui. Meu amigo pernambucano Paulo Rafael lembrou-me que é possível fazer esse passeio apenas por diversão, sem pretensão qualquer e que até dá para ler Paulo Coelho só por curiosidade]. Bueno, meu livro sobre o Caminho de Santiago favorito é seguramente "Caminhos para Santiago", do Cees Nooteboom, que não trata exatamente de uma caminhada, mas do encontro afetivo de Nooteboom com a cultura espanhola. "Peregrinando rumo a Finisterra", do gaúcho e produtor rural Belquer Lopes, é um bom e honesto registro de uma caminhada convencional. Ele e Julieta Dal Castel, sua mulher, fizeram em 2013 um dos muitos ramos portugueses do caminho rumo a Santiago de Compostela. Partiram do Porto, em Portugal e chegaram ao cabo Finisterra, na costa do Atlântico, ponto mais ocidental da Espanha. Fizeram mais ou menos 300 Km, em pouco menos de duas semanas. O livro é muito bonito de se ver, cheio de reproduções fotográficas e de descrições bem escritas. Ele fala do cansaço, dos encontros com outros peregrinos, das pousadas e restaurantes, das cidades e dos vinhos, dos momentos felizes. Segundo ele seu desejo de viajar foi gestado por mais de trinta anos, mas a longa espera justificou o impacto da experiência, a aventura. Seu registro é realmente especial e digno. Vale a pena ler este livro. Em tempo: Incluo aqui hoje, 31/05, um link para a precisa descrição do Paulo Rafael de uma cicloviagem, que ele e uns amigos fizeram, de Bordeaux a Santiago de Compostela, e dali até o Porto, de onde saíram Belquer e Julieta. Fecha-se um ciclo, portanto. De alguma forma o belo livro do Belquer e o registro do Paulo precisavam ficar juntos. Viva. E seguimos o baile. Vale!
Registro #1404 (perfis e memórias #87)
[início: 02/03/2019 - fim: 12/03/2019]
"Peregrinando rumo a Finisterra", Belquer Ubirajara da Silva Lopes, Santa Maria / RS: Editora Rio das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x21 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-65172-40-0

quinta-feira, 23 de maio de 2019

esta bruma insensata

Em "Esta bruma insensata", seu romance mais recente, Enrique Vila-Matas oferece uma vez mais uma narrativa onde importam antes as ideias, a discussão sobre o ofício da invenção literária, intertextualidade, metalinguagem ou o mundo diáfano dos livros e não necessariamente a trama, a história, os sucessos e aborrecimentos de personagens que, sabemos todos, só existem na imaginação de escritores e leitores. No livro acompanhamos três dias da vida de Simon Schneider, um sujeito algo misantropo, que vive isolado num casarão em ruínas de Cap de Creus, no ponto mais oriental da Península Ibérica, próximo à badalada Cadaqués, na Catalunya. Simon vive de traduções e também do curioso ofício que é compilar aforismos e frases feitas. Nos últimos vinte anos ele vendeu suas frases compiladas e aforismos sobretudo para um irmão mais novo, Rainer Schneider Reus, sujeito que era um medíocre escritor quando morava na Catalunha, mas que emigrou para os Estados Unidos e tornou-se um escritor respeitado, tanto por seus truques metaliterários quanto por sua reclusão, sua aversão a exposição pública, ao estilo de Thomas Pynchon ou J. D. Salinger. Simon entende que a força e o sucesso dos livros de Rainer deve muito a seu trabalho, às frases feitas que envia ao irmão. Ao mesmo tempo tem consciência do fracasso, sabe que a matéria prima da literatura sempre é algo que já foi contado e recontado infinitas vezes, que a originalidade é uma quimera, um sonho, esquecido entre "brumas insensatas", para aproveitar o título do livro. Vila-Matas situa temporalmente seu livro no final de outubro de 2017, nos dias em que massivas manifestações públicas aconteceram em Barcelona em função da declaração unilateral de independência anunciada pela Generalitat de Catalunya (e que tantos desdobramentos fez toda España experimentar desde então). Rainer e Simon funcionam como  Doppelgänger um do outro, são duplos, faces opostas e complementares, um do outro. A bem da verdade, entendi o relacionamento deles dois algo parecido com o de James Joyce e seu irmão Stanislaus, sempre tratado como um escravo particular, desde os tempos em que viviam em Trieste até o final da vida de Joyce, já em Zürich. Há momentos em que Simon e Rainer confessam fé cega na literatura, no poder das palavras, ja noutras, com sarcasmo, renunciam a ela, por sua natural impostura. O livro oscila entre estas duas ambições, louvar a literatura e renegá-la. Vila-Matas povoa seu livro com citações interessantes (de Elias Canetti, Raymond Queneau, Anthony Burgess, Ortega y Gasset, Winston Churchill e tantos outros). Ele faz seu personagem principal, Simon, deambular de Cap de Creus a Cadaqués, dali a Barcelona, justamente nos dias das manifestações contra ou a favor da independência da Catalunya, para encontrar, mas isso só nos últimos capítulos do livro, com seu famoso e dissimulado irmão. Esse encontro, em um hotel do Eixample barcelonês, funciona como um momento de auto-análise, uma sessão de psicanálise, uma interpretação do valor das palavras trocadas entre eles. Com bem diz um deles nestas seções finais do livro, "a paranóia é como o alho, deve ser usada com parcimônia". O livro termina enigmático, com uma palavra dita por Rainer para Simon, que lembra o final do "Cidadão Kane", de Orson Welles, e também termina com Simon perseguindo, pelas ruas coloridas de amarelo da Catalunha, uma esquiva Dorothy, que talvez fosse a mulher de Rainer, ou talvez não, vai saber. Vivemos todos sob um nevoeiro sem sentido. A literatura de ficção, Vila-Matas faz Simon enunciar: "gosta do passado e por isso corre o risco de não ser outra coisa que algo do passado". Sempre provocante, esse curioso e prolífico catalão. Vale! 
Registro #1403 (romance #356) 
[início: 11/05/2019 - fim: 22/05/2019]
"Esta bruma insensata", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 311 págs., ISBN: 978-84-322-3489-7

domingo, 19 de maio de 2019

torquato neto

Torquato Neto foi dos mais inventivos poetas de seu tempo, um tempo que ele mesmo abreviou, talvez por não suportar os terríveis anos que se sucederam a instalação do regime militar no Brasil, nos anos 1960, talvez por ser um depressivo crônico, talvez por ser o mundo um lugar revoltante para qualquer pessoa sensível, talvez por alcoolismo, vai saber. Muitas canções de sucesso de Gilberto Gil, Jards Macalé, Caetano Veloso, Edu Lobo, Titãs e tantos outros foram concebidas a partir de poemas seus. Cláudio Portella, poeta cearense e produtor/agitador cultural dos bons, organizou uma seleção de poemas de Torquato Neto para a Global, competente editora paulista. Dele, Portella, já havia lido o potente "Paraphoesia" e o provocante "Fraturas de relações amorosas". Do Torquato li minha cota selvagem nos anos 1980, mas acho que só lembrava das lendas e sucessos associados a ele que de sua produção poética. A bem da verdade fazia duas décadas que não lia algo dele. O resultado da seleção de Portella é um livro bem bacana, bem editado, que apresenta ao neófito leitor aqueles poemas viscerais de Torquato, que misturavam concretismo, jornalismo, forma, olhar privilegiado da realidade, denúncia, raiva, contracultura e genuíno amor pelas cousas do Brasil. São 113 poemas, livres e soltos, nem um pouco convencionais, supérfluos, nem um pouco malemolentes. O leitor é obrigado a gastar um tanto de tempo nos poemas, não são fáceis de ler. O livro inclui uma apresentação de Cláudio Portella e uma cronologia biográfica que pode ser lida no site Dicionário Cravo Albin da MPB, projeto bacana da UNIRIO. Vale!
Registro #1402 (poesia #113) 
[início: 19/01/2019 - fim: 21/03/2019]
"Melhores poemas: Torquato Neto", Torquato Neto, seleção de Cláudio Portella, São Paulo: Global Editora (Pocket / coleção Melhores Poemas),1a. edição (2018), brochura 13,5x18 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-260-2380-2

sexta-feira, 17 de maio de 2019

poesia religiosa

Achtung! Não posso dizer que li esse livro completamente, mas li sim os poemas incluídos nele e algo esparso do rico material que Marcus de Martini acrescentou aos poemas religiosos de John Donne que traduziu. Acontece que esse volume da UFSC reúne pelo menos quatro portentos: a edição bilíngue de poemas religiosos de John Donne; uma exaustiva análise das circunstâncias e importância destes poemas (um robusto paper); uma miríade de notas de tradução, que dão conta dos critérios utilizados pelo tradutor e um "Excurso", uma digressão sobre a Poesia e a Teologia de John Donne, a recepção dos poemas ao longo do tempo (Donne é um poeta do século XVII). De resto também encontramos no livro uma apresentação de Lawrence Pereira, premiado tradutor e professor. Marcus de Martins é um jovem pesquisador, defendeu seu doutoramento em 2011 e é professor da UFSM. Em 2017 ele ganhou o Concurso Cleber Teixeira de Tradução de Poesia da UFSC. Isso possibilitou sua edição deste belo volume. Ao leitor é oferecido todo um aparato técnico de como deu-se a tradução dos poemas. Ojo. Vamos ver o que mais sairá da lavra deste jovem pesquisador. Enfim. Os poemas que de fato li são 26 sonetos, 3 hinos e 1 outro, de métrica diferente, também de inspiração religiosa, de tema religioso. Mesmo o mais ferrenho e endurecido coração ateu, como parece ser o meu, acompanha as belas propostas, imagens e o deslumbramento captado por Donne, com genuíno prazer. Comprei este livro na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado e só lembrei, ai de mim, que devia registrar algo sobre ele aqui, por estes dias, quando a Feira deste ano também já terminou. Bom divertimento. Vale!
Registro #1401 (poesia #112)
[início: 16/05/2018 - fim: 19/04/2019]
"Poesia religiosa: Antologia", John Donne, tradução, seleção e notas de Marcus de Martini, Florianópolis: Editora da UFSC, 1a. edição (2017), brochura 12x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-85-328-0809-7

quinta-feira, 16 de maio de 2019

o valor das ideias

Pedro da Silva Nava, o melhor dos memorialistas brasileiros, disse num dia dos anos 1980, em uma famosa entrevista: "A experiência é um automóvel com os faróis virados para trás, (...) só serve para o sujeito dizer 'fiz bem', 'fiz mal' ". Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, bem mais jovens e otimistas que o velho Nava, parecem não acreditar na eficiência desta sentença. Neste "O valor das ideias" eles oferecem ao leitor algo das reflexões e experiências deles sobre o passado recente do Brasil e dos brasileiros, e acreditam que os possíveis futuros do Brasil poderão ser gestados a partir de diálogos, debates, interlocução inteligente. São ensaios que tratam do mundo das ideias, da economia e da política. Quase todos os 23 textos reunidos neste volume foram anteriormente publicados em jornal (Folha de São Paulo) e em uma revista (Piauí), por eles dois e outros 11 intelectuais brasileiros. Alguns textos foram publicados e podem ser acessados em um blog do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV). Os ensaios estão organizados em quatro conjuntos, correspondendo a debates (ou a diálogos, como preferem os autores), que aconteceram em 2016, 2017 e 2018. Os diálogos foram travados sempre com vigor, algumas vezes no limite da fúria, mas sempre com civilidade, autocontenção (para usar um termo caro a todos os sujeitos que deles participaram). O mais longo dos quatro conjuntos de diálogos, que ocupa 40% do livro, foi entre Ruy Fausto e Samuel Pessôa, merecendo contribuições de Marcelo Coelho e de Marcos Lisboa. Trata-se de discussões sobre o papel das esquerdas na sociedade brasileira contemporânea, se as estratégias e as práticas deste grande conjunto de agremiações nos últimos anos devem ser modificadas ou mantidas. Dois outros conjuntos de ensaios, de igual extensão e que juntos somam 50% do livro, correspondem ao debate entre Fernando Haddad e Marcos Lisboa (sobre os quatorze anos de governos petistas em contraste com os oito anos de governo FHC) e ao debate entre Celso Rocha de Barros, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa (sobre "comedimento", ou "senso de medida", ou como a "virtude que nos protege da tragédia", nas palavras de um interlocutor deles três, Helio Gurovitz, que pode ser acessado aqui: clika!). Um quarto e último conjunto, que é o menor de todos, é também o mais antigo e o mais frouxo deles, acho eu. Trata-se de ensaios onde são contrastadas as práticas de economistas políticos ortodoxos e heterodoxos. Com a exceção dos ensaios publicados no blog do IBRE, acho que já havia lido quase todos os demais, quando foram originalmente publicados. Relendo-os agora não é muito difícil de aceitar que naquela época ainda havia tempo para evitar a tragédia absoluta que experimentamos hoje, 2019, em todos os setores da sociedade. Agora parece tarde demais para tudo, serão décadas e décadas perdidas, em sucessão, antes que alguma inteligência volte a administrar as coisas por aqui. Todavia, a se acreditar no otimismo deles dois, e de boa parte de seus interlocutores, talvez seja possível que em algum momento o Brasil saia do absoluto atoleiro em que se encontra. Em tempo: Esse é o registro número 1400 deste Livros que eu li, 1400 leituras feitas desde janeiro de 2007. Foram 0,30 livros por dia, 2,2 por semana, 9,5 por mês, 117 por ano. Quantos mais terei a paciência de fazer? Não muitos mais, eu suponho. Vamos a ver. Vale!
Registro #1400 (crônicas e ensaios #256)
[início:01/05/2019 - fim: 15/05/2019]
"O valor das ideias: debates em tempos turbulentos", Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, diálogos com Ruy Fausto, Fernando Haddad, Marcelo Coelho, Celso Rocha de Barros, Helio Gurovitz, Luiz Fernando de Paula, Elias M. Khalil Jabbour, José Luis Oreiro, Paulo Gala, Pedro Paula Zahluth Bastos, Luiz Gonzaga Belluzzo, prefácio de Renato Janine Ribeiro, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 459 págs., ISBN: 978-85-359-3215-7

quarta-feira, 15 de maio de 2019

guia fantástico de são paulo

Ángela Léon é uma ilustradora e designer espanhola. Durante um período longo ela morou em São Paulo e pelo jeito aprendeu a amar aquela cidade superlativa, de maravilhas e mistérios, de oportunidades sem fim e de inutilidades bizarras. Neste seu "Guia fantástico de São Paulo" ela oferece ao leitor uma centena de desenhos que retratam algo da arquitetura, das gentes, dos mercados, do cotidiano, feiras livres, bares e orografia da cidade. São peças que certamente foram produzidas ao ar livre, não em um atelier ou estúdio, são trabalhos impregnados da vida pulsante dos paulistanos e demais viventes daquela infinita urbe. Ela divide os desenhos em dois grandes conjuntos, o das paisagens (dos rios, prédios, ruas e espaços públicos) e o das expressões culturais (ilustrando a passagem do tempo e das estações, os eventos e festas, registros da variedade ética da cidade). Uns curtos textos, fragmentos de reflexões sobre a cidade, complementam as ilustrações. Trata-se de um livro de arte, um volume ao qual podemos voltar displicentemente todas as vezes que as saudades de São Paulo se tornarem opressivas, tóxicas, insuportáveis. Só se cansa de São Paulo quem antes já se cansou da vida. Acho que a Ángela León soube bem disto. Vale!
Registro #1399 (livro de arte #29)
[início - fim: 22/02/2019]
"Guia fantástico de São Paulo", Ángela León, São Paulo: editora Lote 42, 2a. edição (2015), brochura 17x24 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-66740-38-7

domingo, 12 de maio de 2019

una historia de españa

As 92 crônicas de Arturo Pérez-Reverte reunidas neste "Una historia de España" já haviam sido publicadas em jornal, na coluna "Patente de Corso" do XL Semanal. Elas foram produzidas aos poucos, publicadas ao longo de quatro anos, de maio de 2013 a agosto de 2017. Trata-se de "una visión muy personal de la historia de España", um projeto realmente ambicioso, certamente didático, acho que pensado originalmente para que os jovens espanhóis entendam um tanto melhor os fatos mais marcantes de aproximadamente 2000 e tantos anos da história de seu país. Revisadas apenas tipograficamente por ocasião desta edição em livro, as crônicas permitem a alguém que nunca se interessou pela história da Espanha ou que se aborreceu com ela nos bancos escolares, uma experiência realmente potente. Pérez-Reverte é senhor da linguagem jornalística, rápida, objetiva, precisa, substantiva. Ele nunca é hipócrita. Sempre escolhe um lado de qualquer questão espinhosa, sempre oferece ao leitor oportunidades de reflexão. Ele não se poupa de usar palavras fortes, ironias brutais, quase no limite da ofensa, mas as pessoas que ele achincalha ou já morreram há muitos anos ou vivem num justo ostracismo, por conta de seus crimes e atos vis. De fato são palavras duras e brincadeiras que antes facilitam o entendimento de temas que precisariam de parágrafos inteiros para serem bem explicados em tom solene. Pérez-Reverte navega pelos clichês que acostumamos a associar a Espanha e aos espanhóis ("A tierra de la paella, el flamenco y la mala leche"); por mitos históricos, lugares comuns e lendas urbanas ("nuestra siempre apasionante, lamentable y muy hispana historia"); por biografias romantizadas, invenções, personagens de romances e peças de teatro; esclarece temas mistificados por ideias feitas que frequentam tanto mesas de bar quanto gabinetes universitários ("España seria un país estupendo si no estuviera lleno de españoles"). Seu sarcasmo parece encantar até mesmo conservadores ou tradicionalistas, suas ironias devem por certo divertir a juventude apressada. Escritas cronologicamente, as crônicas tornam-se progressivamente mais amargas, mais cínicas, menos esperançosas. "Yo creo que esa pérdida - del control de la educación y la cultura - es irreparable, pues sin ellas somos incapazes de asentar un futuro", ele diz no parágrafo final. Talvez por isso mesmo ele pare de contar sua historia em meados dos anos 1980, quando da consolidação da redemocratização espanhola, da vitória do partido socialista nas eleições de 1982 e da entrada do país no Mercado Comum Europeu, em 1986. Talvez seu estilo jocoso não seja o mais adequado para falar dos dias que correm, de pruridos politicamente corretos. De qualquer forma ele não esgota nenhum assunto. O leitor só corre o risco de achar que fazer história (ou escrever sobre história) é fácil. Enfim, diversão e aprendizagem garantida. Em tempo: Ele incluiu, "a modo de prólogo", quase quarenta epígrafes mordazes, que parecem sintetizar com fúria a psique espanhola, desde autores clássicos gregos e romanos (Estrabón, Tito Lívio, Apiano), passando por Cervantes, Bartolomé de las Casas, Macaulay, Von Humboldt, Voltaire e Napoleão até autores e sujeitos do século XX, como Hitler, Ortega y Gasset, Garcia Lorca, Julián Marías. Impressionante compilação. Vale! 
Registro #1398 (crônicas e ensaios #255) 
[início: 18/04/2019 - fim: 08/05/2019]
"Una historia de España", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 3a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 254 págs., ISBN: 978-84-204-3817-7