quinta-feira, 13 de junho de 2019

finnegans wake, a plot summary

De toda a miríade de livros dedicados a decifrar o "Finnegans Wake", genial romance de James Joyce, esse é um dos mais convincentes. Lembro-me do assombro de encontrar nele tantas respostas às dúvidas que tinha quando comecei a tentar ler o Finnegans (e ao mesmo tempo de encontrar nele tantas outras perguntas novas e associações amalucadas - associações que até hoje tento entender). De qualquer forma, não é possível acreditar que em um único livro seja possível alcançar uma sinopse ou sumário definitivo. Há quem tente. Em seu "Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, professor já aposentado do Connecticut College, explica capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, linha a linha, o resultado de suas reflexões, considerações alcançadas após seus muitos anos de dedicação à obra de Joyce. Assim como no Ulysses acompanhamos algumas horas de um dia na vida de um sujeito, Leopold Bloom, no Finnegans Wake acompanhamos a noite e os sonhos de um outro sujeito, chamado Humphrey Chimpden Earwicker, uma noite e sonhos que resumem a história e os ciclos da humanidade, de todos homo sapiens. John Gordon fala do dia em que acontece esses sonhos (a noite de uma segunda-feira para terça-feira, a noite do 21 de março de 1938, dia do equinócio); o lugar (Chapelizod, subúrbio ao oeste de Dublin, nas margens do Liffey), fala da estrutura do livro; de HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), ALP (Anna Livia Plurabelle), os irmãos Shem e Shaun, dos demais personagens, todos em suas múltiplas metamorfoses; dos temas; das associações possíveis; das formas de tentar alcançar alguma compreensão sobre o livro. Falar de Finnegans Wake é falar da vida, das autobiografias possíveis, do fluxo de tudo que já foi experimentado por nós, homo sapiens, neste tempo em que povoamos o planeta, ai de nós. Para quem quiser experimentar o estilo de Gordon, ele oferece a qualquer leitor, em seu seminal blog, material que é continuamente retrabalhado, refletindo o estado da arte nas reflexões da comunidade dedicada aos estudos sobre James Joyce e sua obra. Ele promete um novo livro para 2020. Vamos a ver. E vamos lá nosotros. Domingo é 16 de junho, é dia de Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1415 (crônicas e ensaios #259)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, New York: Syracuse University Press, 1a. edição (1986), brochura 14x21,5 cm, 302 págs., ISBN: 0-8156-2396-8

terça-feira, 11 de junho de 2019

bloomsday festival

Robson Gonçalves, amigo querido, fez um passeio por Londres e Dublin, e trouxe na bagagens uns mimos que fazem festa nos sentidos. Um deles é esse catálogo, onde estão descritas todas as atividades relacionadas ao Bloomsday deste ano organizadas pelo The James Joyce Cultural Centre de Dublin. O Bloomsday é uma festa literária que é celebrada anualmente no dia 16 de junho, dia em que os sucessos do romance "Ulysses", de James Joyce, ficcionalmente acontecem. Pelo menos desde 1954 o Bloomsday é comemorado, seja por meio de caminhadas pela cidade, palestras, mini cursos, projeção de filmes e documentários, encenações dramáticas, encontros e festas gastronômicas. Em muitos lugares os participantes vestem roupas do período eduardiano, do início do século XX inglês, consomem aquilo que Joyce fez seus personagens consumir no livro, caminham pelas mesmas ruas e frequentam os mesmo lugares nele descritos. A lista de eventos é enorme (e este catálogo só registra o que o JJCC organiza, há eventos assim em dezenas de cidades no mundo). O leitor curioso pode verificar como estes eventos funcionam no site do JJCC. Resolvi fazer esse registro aqui pois acredito que aqueles que planejam organizar uma festa nestes moldes um dia podem encontrar neles inspiração, ter uma ideia do que pode ser feito. Basicamente: não há limites e regras. Deixo aqui também um vídeo de Sam Slote explicando porque você deve ler o Ulysses (Sam Slote no TED education).  Are you ready for Bloomsday? So this is Dyoublong?
Registro #1414 (catálogo #9) 
[início: 08/06/2019 - fim: 12/06/2019] 
"Bloomsday Festival", Jessica Pell-Yates (manager of the James Joyce Cultural Centre, organização), Dublin: James Joyce Cultural Centre, 1a. edição (2019), brochura 14x21, 60 págs, sem ISBN.

domingo, 9 de junho de 2019

la pirámide de fango

Lívia ainda está de luto pela morte de François (como foi relatado em "Un filo de luz") e Guido Montalbano algo lento, cansado, sem ânimo, talvez com problemas de audição. Já velho demais para a profissão? Chove sobre a Itália, o mar está encrespado, sujeira e lama se acumulam. Mas nos sucessos narrados por Andrea Camilleri neste seu "La pirámide de fango" a lama é metafórica, pois ele fala sobre corrupção, lavagem de dinheiro e assassinatos. O corpo do contador de uma grande empresa de construção civil é encontrado. A mulher deste sujeito desaparece, para surgir vagamente já distante, na Alemanha. Um misterioso senhor que talvez estivesse hospedado com eles também não deixa pistas de seu paradeiro, mas Montalbano alcança descobrir uma caixa forte na casa do contador morto, um cofre que poderia conter milhões de euros em espécie. A investigação segue os procedimentos usuais de Camilleri, alternando descrições do estado de ânimo de Montalbano, sua inspiração rediviva após os almoços preparados por Adelina ou os jantares na cantina de Enzo. Camilleri volta a usar os truques típicos do teatro em sua trama. Os advogados dos dois grupos mafiosos envolvidos nos crimes espalham inventivas pistas falsas, tentam obstruir o trabalho de investigação. Todavia Montalbano recupera seu tino e força mental, consegue deslindar as mirabolantes histórias que advogados canalhas e jornalistas venais criaram, levando ao menos um dos empresários corruptos para a cadeia. Haverá mais Montalbanos por aqui. Vale!
Registro #1413 (romance policial #84)
[início: 22/05/2019 - fim: 23/05/2019]
"La pirámide de fango", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-840-4 [edição original: La piramide di fango (Palermo: Sellerio editore) 2014]

sexta-feira, 7 de junho de 2019

haroldo de campos, para sempre

Há livros que não precisam ser extensos para alcançarem a categoria de fundamentais. Pois neste seu "Haroldo de Campos: para sempre" Lucia Santaella apresenta em poucas páginas um panorama rico da personalidade e obra de seu amigo, colega e mestre. Trata-se de uma justa homenagem a Haroldo de Campos, que morreu precocemente, já há mais de quinze anos, em 2003. Em seis breves capítulos Santaella nos ensina o quão completo e seminal foi Haroldo, tanto para o mundo da cultura, da literatura e da arte, quanto para o mundo da educação, da formação de novas gerações de pensadores e praticantes das artes poéticas. No primeiro capítulo ela fala da formação intelectual e acadêmica de seu biografado e da gênese da composição e publicação de toda sua obra. Nos demais Santaella complementa esse capítulo inaugural e passa a nos apresentar as várias facetas de um legítimo e digno Il miglior fabbro de seu tempo: simultaneamente poeta, crítico, ensaísta, tradutor, teórico, professor e amigo. Não são peças simplesmente laudatórias. Ela fundamenta suas reflexões e situa com vastas referências as muitas contribuições de Haroldo, sejam as mais teóricas, para o campo da tradução e/ou transcriação, sejam as especialmente poéticas, que dão conta de sua original invenção poética. Uma completa bibliografia e uma robusta lista de referências orienta o eventual leitor para onde rumar caso queira mais informações sobre Haroldo de Campos, mais sabedoria, mais luz haroldiana. No portal da Casa das Rosas e no portal do Itaú Cultural há bons textos curtos sobre ele. Santaella dá destaque a qualidade de uma tese defendida por Thelma Médici Nóbrega em 2005, sobre a biografia intelectual de Haroldo, mas descobri que apenas do abstract desta tese está disponível digitalmente. Eu cá sugiro o bom Signâncias, Festchrift publicado em 2011. Enfim, em agosto Haroldo de Campos completaria 90 anos. Talvez seja o caso de ler alguma coisa dele, celebrar uma vez mais sua obra e vida. Talvez seja a hora de reler os fragmentos do Finnegans Wake que ele e seu irmão  Augusto traduziram, afinal o Bloomsday a caminho está. Evoé Haroldo, evoé. Vale! 
Registro #1412 (crônicas e ensaios #258)
[início: 27/05/2019 - fim: 29/05/2019]
"Haroldo de Campos: para sempre", Lucia Santaella, São Paulo: EDUC, 1a. edição (2019), brochura 14x18 cm, 80 págs., ISBN: 978-85-283-0626-2

quinta-feira, 6 de junho de 2019

primavera

Em "Primavera" Tania Lopes oferece ao leitor 25 contos curtos, narrativas afetivas, historietas líricas. Ela chama suas histórias de cronicontos, um híbrido de inspiração e registro do cotidiano. Nas histórias se destacam as cousas do campo, na fronteira sul do Brasil, o imenso pampa gaúcho. Navegamos pelos saberes e costumes das gentes que ali vivem, pois ao contar suas histórias Tania registra algo da vida campeira, da culinária, das técnicas agrícolas, dos truques de doma, da liturgia dos ofícios que talvez existam mesmo apenas na memória de um país inventado ou de um tempo que já se foi. Ela fala de destinos quase gregos, das forças da natureza que definem as escolhas dos homens, de tradições e hábitos, das gerações que se sucedem, eventualmente contrasta a cidade grande e os povoados. Li estas histórias num dia só, o dia de aniversário de Santa Maria, 17 de maio, um dia ensolarado e calmo, tranquilo, como sempre deve ser. Cousa boa. Vale! 
Registro #1411 (contos #163) 
[início-fim:017/05/2019]
"Primavera: Cronicontos", Tania Lopes, Santa Maria / RS: Editora Rio das Letras, 1a. edição (2019), brochura 10,5x17 cm, 104 págs. ISBN: 978-85-65172-61-5

terça-feira, 4 de junho de 2019

trieste

De Jan Morris já havia lido dois livros bem antigos: os adoráveis "Venice", que é de 1955 e "Spain", que é de 1964.  "Trieste" é bem mais recente, foi publicado originalmente em 2001. Jan Morris fala de Trieste, cidade italiana do nordeste, na costa do Mar Adriático, na fronteira dos Bálcãs. Mas ela também fala de si, de sua longa vida e das metamorfoses pelas quais passou. Quando esteve pela primeira vez em Trieste, em 1946, ela era um homem, um jovem soldado do exército britânico. Em 2001, quando o livro foi publicado, tem 75 anos, já é mulher há mais de quarenta anos. Neste longo intervalo Morris visitou Trieste várias vezes. O livro não é longo, mas contém uma miríade de informações. Aprendi um bocado. Ela fala num tom melancólico (bem diferente do tom que encontramos em seus livros sobre Veneza e Espanha). Trieste era nos tempos romanos uma colônia quase irrelevante, mas atingiu seu apogeu quando tornou-se o porto mais importante do Império Austro-Húngaro, estratégico ponto de conexão com o Mar Mediterrâneo e o extremo Oriente. Na pequena cidade conviviam pessoas de diferentes culturas, línguas, religiões, origens e status social. Em dez curtos capítulos Morris fala da história, geografia, arquitetura da cidade; dos muitos senhores do lugar (romanos, Bizâncio, francos, austríacos, nazistas; e Trieste só voltou a ser italiana em 1954, quase dez anos após o final da segunda grande guerra); fala das montanhas, mar e florestas que a cercam; de sua vocação como ponto de passagem, de lugar de exílio; faz especulações sobre a influência eslava, judaica, cristã e moura na psique dos cidadãos que viviam lá na época em que o livro foi escrito; reflete sobre a não vocação para o turismo, apesar dos muitos bares e cafés, das igrejas e prostíbulos, da presença de importantes laboratórios científicos na cidade, da especial vida mundana, citadina; canta a nostalgia de seus anos de esplendor. Há seções biográficas no livro dedicadas a James Joyce, Italo Svevo, Rainer Rilke, Richard Burton, D.H. Lawrence, Stendhal, Maximiliano (que história a do azarado imperador do México, irmão mais novo do imperador Francisco José) e vários outros sujeitos que viveram ali, "no limite oriental da latinidade, no extremo sul do germanos". No capítulo final ela propõe que Trieste seja nomeada a capital de um país imaginário, onde todo aquele cuja vida já passou por aborrecimentos sem conta, e sente-se apátrida, enfim, todos cidadãos de nenhuma parte do título do livro, possam desfrutá-la em paz, como em uma Citera espiritual. É sim um livro muito especial. Jan Morris me lembra Tirésias, aquele adivinho grego que também foi homem e mulher, e era especialmente sábio. Vale!
Registro #1410 (perfis e memórias #90)
[início:01/05/2019 - fim: 17/05/2019]
"Trieste, o el sentido de ninguna parte", Jan Morris, tradução de Lucía Barahona Lorenzo, Madrid: Gallo Nero ediciones, 1a. edição (2017), brochura 14x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-84-1652943-8 [edição original: Trieste and the meaning of nowhere (Faber and Faber) 2001]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

spain

Vou registrar este volume com o marcador "perfis e memórias" e não "crônicas", "ensaios", "turismo" ou "viagens", pois ele evoca uma Espanha que passou por várias metamorfoses desde que foi escrito. Jan Morris, de quem já registrei aqui o adorável "Venice", publicou-o originalmente em 1964 e fez algumas alterações em 1979, após a morte de Franco e a redemocratização do país. Ela diz textualmente: "this book died with him (Franco)", com prudência. Mas não, acredito que o leitor contemporâneo pode aproveitar muitas das reflexões de Morris sobre a Espanha. Claro, as transformações sociais que o país experimentou nos quase 60 anos desde a publicação original são tremendas, todavia o olhar de Morris conduz o leitor aos temas que definem perfeitamente a Espanha. Meus gurus quando se trata da história e da sociologia espanhola são sempre Cees Nooteboom, Arturo Pérez-Reverte, Javier Marías, Julio Llamazares, Josep Pla, Manuel Vázquez Montalbán. Acho que esse pequeno livro de Morris não deve muito a nenhum deles (na medida em que suas palavras podem ser debatidas, julgadas, contrastadas com a experiência pessoal do eventual leitor que já deambulou por aquele país). Os dez capítulos tratam da "alma" espanhola, das paixões que a definem; dos múltiplos povos que lá viveram e ali se fundiram; das manifestações artísticas únicas do país; da orografia; da vocação militar; da onipresença da igreja; dos mitos; das diferentes línguas e diferentes comunidades autonômicas; da religiosidade; da literatura, de Cervantes, Lope de Vega, e tantos outros; das aventuras; da culinária variada e rica. Num dos capítulos finais ela fala de cidades icônicas do país: Salamanca e sua antiga universidade; Segóvia e seu casario romano; Ávila e suas muralhas; Toledo, a forja, o caldeirão étnico que definiu no passado o país, tornando-o complexo como toda nação digna de nome acaba se tornando. No último capítulo ela fala de Madrid, cidade inventada por Felipe II, e canta as metamorfoses que a cidade e o país experimentava após a morte de Franco. Li esse livro alternando melancolia e curiosidade, experimentando algumas memórias bacanas e alguns aborrecimentos; com a certeza que há algo realmente singular ali, ao alcance de todo aquele que se permita conhecer cousas raras, belas, instigantes. Vamos em frente. Vale!
Registro #1409 (perfis e memórias #89)
[início:01/04/2019 - fim: 30/05/2019]
"Spain", Jan Morris, London: Faber and Faber Limited, 1a. edição (2008), brochura 13x20 cm., 160 págs., ISBN: 978-0-571-24176-7 [edição original: James Morris, The presence of Spain (Faber and Faber) 1964; revised 1979]

domingo, 2 de junho de 2019

cuando la sociedad es el tirano

Neste volume estão reunidas 96 crônicas de Javier Marías que foram publicadas originalmente nos domingos entre 05/02/2017 e 27/01/2019, no suplemento El País Semanal. Quarenta e quatro são de 2017, quarenta e oito de 2018 e quatro já deste terrível 2019. Todas estas crônicas podem ser lidas também em seu blog: javiermariasblog. As crônicas não são monotemáticas, em geral ele enfeixa vários assuntos e propõe uma síntese, um ponto de vista original e sempre rico. De qualquer forma tentei organizá-las nos temas mais dominantes e as reduzi a quatro conjuntos: vinte e sete são basicamente sobre questões políticas (seja da madrilenha, catalã - viveu-se a tentativa de independência da catalunya nestes dias, espanhola ou europeia, mas também tratam de intolerância, terrorismo, o debate entre esquerda e direita no mundo); quarenta e três gravitam a sociologia (a vida em sociedade, comportamento, questões de gênero, o mundanismo, percepção da realidade, a boa educação); nove correspondem a registros ou fragmentos da memória (da família, dos amigos, do futebol, de experiências pessoais) e dezessete de questões culturais (do ofício da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, de questões linguísticas ecoadas na RAE, da estética, de ideias e ideais). Marías é um sujeito que percebe tendências, não se deixa enganar pelas aparências, pelo convencional. Ali de seu apartamento na Madrid de los Austrias, aquela região mítica do centro-oeste de Madrid, ele acompanha os sucessos do mundo e reflete, digita em sua vetusta Olympia Carre de Luxe suas seminais crônicas. Cada uma delas é um pequeno bálsamo semanal, um lenitivo aos aborrecimentos e surpresas da vida. Pouco importa se sua matéria prima cultural seja a Espanha, já que suas digressões falam do mundo contemporâneo, dos homo sapiens de hoje, daquilo que repercute em todo o globo. Ele não se furta de provocar tribos organizadas, de denunciar a estupidez daqueles que defendem temas ditos politicamente corretos, de lamentar o vitimismo e a absoluta falta de educação que grassa nestes dias. Ele aceita as limitações humanas, entende sua complexidade, acompanha as metamorfoses e o ritmo deste tempo. Lamentavelmente não há no Brasil nenhum articulista que emule uma fração de sua honestidade intelectual e argumentação clara. Nenhum registro substitui o genuíno prazer de ler sua prosa.  Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededor, Lo que no vengo a decir, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos, Cuando los tontos mandan e Juro no decir nunca la verdad. A bem da verdade recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus livros, há 50 registros deles aqui no Livros que eu liVale!
Registro #1408 (crônicas e ensaios #257)
[início: 22/05/2019 - fim: 25/05/2019]
"Cuando la sociedad es el tirano", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 304 págs. ISBN: 978-84-204-3781-1

sábado, 1 de junho de 2019

o seminário

Conheci don Altair Malacarne em agosto do ano passado, durante uma missão de trabalho que fiz no interior do Espírito Santo. Ele nasceu em Domingos do Norte, no Espírito Santo e é uma espécie de memória viva da região. É um sujeito que sabe bem das transformações pelas quais passou o norte daquele Estado, um bom contador de causos e vidas, que faz o garimpo da memória das gentes, e é autor de vários livros. Neste seu "O seminário" ele conta algo sobre uma escola salesiana, o Instituto Salesiano Anchieta, onde cursou os primeiros anos do que hoje corresponde o ensino médio. O livro é dividido em três partes. Na primeira conta-se algo sobre a história da região norte do Espírito Santo, sobre os migrantes italianos que ali se fixaram no final do século XIX e do esforço deles em apoiar a Paróquia de São João Batista de Jaciguá na criação de um colégio secular e um seminário católico. A segunda parte é composta por quase trinta curtas crônicas, onde são contados, um tanto factualmente, outro pelos atalhos da memória e dos sentimentos, momentos marcantes de seu tempo naquele seminário, nos anos 1953, 1954 e 1955. Há crônicas que são recortes biográficos de colegas estudantes, padres, professores ou visitantes ilustres do colégio; outras são registros bem humorados dos espantos e descobertas daqueles dias. A última parte é um posfácio triste, que dá conta do encerramento das atividades do seminário, ainda nos anos 1990 e da transferência das imponentes edificações e de seu entorno para o Estado. Histórias assim são bastante comuns. Coisas parecidas aconteceram em centenas de cidades, em centenas de escolas e seminários de confissão religiosa. Felizmente deve haver também centenas de sujeitos como don Altair Malacarne Brasil afora, que guardam algo do passado, eterniza esse passado em livro, dão ao passado a força da palavra escrita. Um viva então para don Altair. Vale!
Registro #1407 (perfis e memórias #88)
[início: 27/02/2019 - fim: 15/04/2019]
"O seminário: Jaciguá/Boa Esperança - 1953/55", Altair Malacarne, São Gabriel da Palha / ES: Edição do autor / Gráfica Gomieri, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 66 págs., sem ISBN: