terça-feira, 15 de outubro de 2019

a promessa

Foi a arte da capa que me fez comprar este volume, que reúne duas narrativas de Friedrich Dürrenmatt, respeitado escritor, dramaturgo e artista plástico suíço, morto em 1990 (vale registrar que a pintura da capa é dele mesmo, Dürrenmatt, e vale a pena consultar o portal Centre Dürrenmatt Neuchâtel, onde toda sua produção resta arquivada). Em algum ponto da leitura dei-me conta que "A promessa", a primeira das duas narrativas, era a versão original da história que resultou em um bom filme, "The Pledge", dirigido por Sean Penn e protagonizado por Jack Nicholson, que vi há quase vinte anos (o filme é de 2001). A trama é interessante, Matthäi, um diligente policial de um cantão suíço, prestes a ser enviado em uma missão oficial no oriente médio, resolve pedir demissão após dar-se conta que um sujeito, que havia cometido suicídio em virtude de acusações de assassinato, não poderia ser o autor dos crimes. A história de fato é bem engenhosa (o título original do livro tem como subtítulo "Réquiem para os romances policiais", o que explica um tanto das ambições do autor). O narrador é um policial aposentado, que conta os sucessos e obsessões daquele antigo subordinado seu, Matthäi, a um silente escritor de romances policiais, que recentemente havia proferido uma palestra sobre seu ofício e arte. Não pretendo aqui acrescentar mais pistas sobre o enredo do livro além das muitas que já registrei. Dürrenmatt alcança conduzir o leitor pelo transe heroico do personagem, que jamais descobrirá que a realidade é algo muito mais bizarro, ilógico e até surreal que o mundo dos livros, da invenção literária, dos esquemas formais consagrados de composição narrativa. Muito interessante. Neste volume há também uma novela, "A pane", que em breve registrarei aqui. Vale! 
Registro #1459 (romance policial #91) 
[início: 30/07/2019 - fim: 31/07/2019]
"A promessa", Friedrich Dürrenmatt, tradução de Petê Rissati, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 220 págs., ISBN: 978-85-7448-300-9 [edição original: Das Versprechen : Requiem auf den Kriminalroman (Zürick: Arche / Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 1958]

sábado, 12 de outubro de 2019

siete cuentos morales

Neste volume estão reunidas sete histórias curtas (quatro delas curtíssimas, coisa de quatro ou cinco páginas). "El perro" trata dos encontros tensos entre um cão e uma jovem ciclista, que não aceita a natureza feroz de seu antagonista; "Una historia" conta algo sobre uma mulher que trai sistematicamente seu marido, todas as vezes em que ele viaja, mas que não associa sua traição a ausência de amor ou carinho por ele; "Vanidad" retrata a censura que os filhos de uma velha senhora fazem de seu corte de cabelos, para eles moderno demais, não compatível com a idade dela; "Una mujer que envejece" conta as preocupações de dois filhos sobre a saúde e o destino da mãe, num encontro em que todos estão longe de casa, praticamente estranhos uns aos outros;  "La anciana y los gatos" trata do choque que as escolhas de uma velha senhora, que mora em uma cidadezinha isolada no sul espanhol, provoca em seu filho cosmopolita e prático, que não comunga das escolhas morais de sua mãe; em "Mentiras", um conto epistolar, um filho escreve a sua mulher sobre o acidente sofrido pela mãe, e das providências que é obrigado a tomar. No último conto, "El matadero de cristal", dividido em seis partes curtas, uma senhora pensa na possibilidade de provocar reflexão e eventualmente mudar a opinião dos cidadãos seus contemporâneos sobre os rituais de criação e abate de animais, assim como o consumo da carne, algo para ela condenável. Nos sete contos a figura da velha senhora sempre parece ser Elizabeth Costello, uma personagem conhecida dos leitores de J.M. Coetzee. Ele, que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2003, a fez aparecer pela primeira vez em "A vida dos animais", publicado em 1999, depois em "Elizabeth Costello", em 2003 e também em "Homem lento, em 2005. A Costello personagem é uma escritora de opiniões fortes, provocante até a exasperação, que sempre se posiciona, discute temas complexos, como a vida dos animais, a censura e a fé, filosofa sobre a sexualidade, a moral e o mal entranhado nas pessoas. Além do veganismo Coetzee faz seus personagens digressar também sobre o ofício de escrever ficção, a velhice, a relação entre pais e filhos, o destino, o amor e o dever, refletir sobre as consequências de nossas decisões, da dificuldade de topar partido em questões éticas no dia a dia. "A vida não se resume a uma eterna sucessão de criação e solução de problemas", afirma a senhora Costello, em uma das histórias de Coetzee. Talvez esta frase resuma as questões morais discutidas nos sete contos. Nós, homo sapiens, devemos fazer valer mais o nosso tempo de vida, os dias que nos cabem. Sempre provocador o velho e bom Coetzee. Em tempo. Consegui encontrar links para gravações onde o próprio Coetzee lê "El perro",  "La anciana y los gatos" e "El matadero de cristal". Achei também links para o texto original de dois contos: "Una mujer que envejece" e "Mentiras" (publicados anteriormente na revista americana The New York Review of Books). "Una historia" e "Vanidad" parecem ser singularmente inéditos, mesmo em inglês. Vale! 
Registro #1458 (contos #167) 
[início - fim : 25/09/2019]
"Siete cuentos morales", J.M. Coetzee, tradução de Elena Marengo, Barcelona/Buenos Aires: El Hilo de Ariadna (Penguin Random House Grupo Editorial), 3a. edição (2019), brochura, 13,5x22,5 cm., 123 págs., ISBN: 978-84-397-3466-6 [edição original: Moral Tales 2017]

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

sobre pessoas velhas e coisas que passam...

Logo depois de terminar "Confissão póstuma", de Marcellus Emants, comecei  o,  esse "Sobre pessoas velhas e coisas que passam...", de Louis Couperus. O livro foi publicado originalmente em 1906. Trata-se de uma história sobre segredos familiares e como carregamos o fardo de nossos atos até o fim da vida, mesmo escondendo-os sob camadas de mentiras, culpa ou isolamento. Por isto mesmo não posso contar muito da trama, para não roubar muito do prazer de um eventual leitor. Couperus, a bem da verdade, não esconde por muito tempo a gênese daquilo que provoca todos os desdobramentos do livro. Ele até repete-se várias vezes, faz seus personagens voltarem várias vezes àquele assunto, talvez tentando emular literariamente os diversos processos de nosso inconsciente envolvidos na negação, dos variados mecanismos de defesa de nossa economia psíquica. Charles Pauws, um escritor de quase quarenta anos, e Elly Takma, uma jovem de vinte e três, resolvem casar-se. Esta decisão afeta três mulheres chamadas Ottilie (a avó, a mãe e a irmã de Charles), assim como de mais três dezenas de personagens (tios, primos, amigos da família, agregados, empregados, a memória de gente já morta há décadas). O livro é dividido em duas partes, que funcionam como dois atos de um drama, que por sua vez são divididos mais ou menos esquematicamente em três cenas cada um. As cenas da primeira parte correspondem, respectivamente, a uns poucos meses antes do casamento de Charles e Elly, a véspera do enlace deles e uns dias depois, durante a viagem de lua de mel do casal. Por sua vez, as cenas da segunda parte correspondem a três períodos curtos que gravitam a morte de três personagens: a avó Ottilie, o vovô Takma e o velho médico Roelofsz. Além de descrever o arquétipo de uma família holandesa do início do século XX, Couperus trata das relações dos holandeses com seu passado colonial, de questões religiosas, da relação das pessoas com o dinheiro, do "sotaque" indonésio, das diferenças de temperamento entre o Norte e o Sul europeu, de nossa capacidade de amar, de como a vida de cada um de nós corresponde apenas a um fragmento, a uma dentre milhares de possibilidades, ao resultado de infinitos acasos, cousas inevitáveis, por mais racionais que possamos nos imaginar. Há uma discreta presença grega nesta história. Lembrei da trilogia malaia do Anthony Burgess, mas talvez esta seja apenas uma de minhas associações amalucadas. Em breve haverá Multatuli por aqui, e também alguma poesia holandesa, mais cousas dos filões de ouro puro e fino que brotam da lavra do Daniel Dago. Vale!
Registro  #1457 (romance #368)
[início: 16/09/2019 - fim: 19/09/2019]
"Sobre pessoas velhas e coisas que passam", Louis Couperus, tradução de Daniel Dago, Porto Alegre: editora Zouk, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 280 págs., ISBN: 978-85-8049-084-8 [edição original: "Van oude mensen, de dingen, die voorbijgaan..." (Amsterdam: L.J. Veen) 1906]

domingo, 6 de outubro de 2019

sangre o amor

Nesse volume Donna Leon está em seus domínios, fala de algo que conhece muito bem: o mundo da ópera, do canto lírico, dos concertos. Ela retoma uma de suas primeiras protagonistas, Flávia Petrelli, que aparece em seu romance de estreia, “Morteno teatro La Fenice”, de 1992, e também em “Acqua Alta”, de 1996, quinto volume da série dedicada aos sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti. Assim como neste nosso calendário real, mais de vinte anos se passam nos relógios imaginários dos personagens inventados por Donna Leon. Flávia Petrelli volta a se apresentar no sonante Teatro La Fenice e volta a se envolver em um caso de violência e assassinato. Petrelli é assediada por um fã, uma pessoa obcecada, incapaz de controlar o misto de admiração e inveja que sente pela famosa cantora lírica. Brunetti e seus comandados se unem na tarefa de proteger Petrelli e entender motivação e método do perseguidor, ao mesmo tempo em que se veem enredados na burocracia e ineficiência do governo italiano. Donna Leon vergasta, uma vez mais e sem dó, o governo italiano (os próceres de plantão sempre são igualmente venais, corruptos e limitados intelectualmente, pouco importa a matriz ideológica que obedecem, a cartilha de comportamento que seguem - algo muito parecido com que acontece neste desgraçado e inútil Brasil, terra de escravos mentais e gente canalha). Alvise, um pacato policial subordinado a Brunetti é falsamente acusado de violência contra civis, em uma manobra que busca prejudicar exatamente Brunetti. Elettra, a secretária do vice-questore Patta, ao solidarizar-se com Alvise, quase coloca tudo a perder ao envolver o comissário em suas trapaças digitais. Donna Leon faz longas digressões neste volume, aprendemos algo sobre Bochesse, o legista; Alvise, um policial; Patta, o vice-questore; o conde Fallier, sogro de Brunetti. A Veneza dos primeiros volumes da série é contrastada com a Veneza deste final de anos 2010. Trata-se de uma senhora que envelhece mal, sufocada por legiões de turistas, gigantescos navios de cruzeiro, batedores de carteira, políticos corruptos (um pleonasmo, já se sabe). Donna Leon fala também do valor da amizade, e de como as múltiplas metamorfoses vivenciadas pelos indivíduos ao longo do tempo podem até inverter o sentido e razão desta palavra. Em “Sangre o amor”, Donna Leon emula vários trechos da trama de Tosca, de Giacomo Puccini. Trata-se de um trabalho admirável. O leitor ganha muito se ler o libreto de Tosca ou ouvir algumas de suas famosas árias. Raramente um romance policial dela é fraco, mas este é realmente muito bom, trezentas páginas vibrantes. Depois de ter lido o sofrível “A última mulher”, de Alfredo Garcia-Roza, foi um alento encontrar neste volume algo com estofo e engenho. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1456 (romance policial #90) 
[início: 19/08/2019 - fim: 27/08/2019]
"Sangre o amor" (Brunetti #24), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2016), brochura 12,5x19 cm., 304 págs., ISBN: 978-84-322-2594-9 [edição original: Falling in Love (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2015]

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

a última mulher

Há doze anos li alguns livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza (O silêncio da chuva, Espinosa sem saída e Berenice procura), mas cansei, não conseguia entender o entusiasmo dedicado a seus romances policiais naquela época (ele chegou a ganhar um prêmio Jabuti). Recentemente topei com um livro dele em um aeroporto e resolvi experimentar. Li "A última mulher" em menos de duas horas, pouco mais do tempo de voo. A trama começa na Cinelândia e Lapa, no centro da cidade do Rio de Janeiro, mas logo se desloca para os domínios do delegado Espinosa, em Copacabana, em seu reduto afetivo no bairro Peixoto. Ratto, um cafetão, e seu sócio alcoólatra, Jappa, são perseguidos por um policial corrupto, atraído pelo bom dinheiro que eles ganham com prostitutas. Habituado a situações deste tipo, Ratto desaparece por uns tempos e conhece Rita, uma jovem prostituta, com quem acaba se envolvendo. A caçada humana empreendida por Wallace, o policial corrupto, deixa vários assassinatos brutais pelo caminho. Espinosa, que conhece Ratto e o sabe inofensivo, acaba se envolvendo no caso. Dizer o quê? A narrativa é muito fraca, esquemática, frouxa demais. Antes parece um esboço, uma primeira versão de uma ideia, que um produto pronto. Acho que preciso ficar outros doze anos sem Garcia-Roza. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1455 (romance policial #89) 
[início - fim: 24/07/2019]
"A última mulher", Luiz Alfredo Garcia-Roza, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 117 págs., ISBN: 978-85-359-3237-9

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

divino gibi

"Divino Gibi: crítica da razão sapiental", que livro especial! São poemas, 93 deles, todos muito curtos, como aforismos poéticos; todos muito potentes, como só as cousas seminais sabem ser; todos muito jocosos, como gritos de deuses recolhidos na rua por um vate, sempre muito bem guiado por suas musas (as Tieteidas). Jaa Torrano é tradutor experimentado, professor industrioso, especialista em língua e literatura grega. Ele oferece ao leitor uma mostra de como toda uma cultura, toda uma área de especialização, toda uma familiaridade com um assunto, pode ser plasmada em forma poética, ser vertida em sublime ouro puro e fino. Todavia, Torrano não facilita nada ao leitor. Por baixo da aparente simplicidade de seus aforismos poéticos ebulem camadas de interpretação, um palimpsesto de signos, interpretações, leituras, experiências, que fixam os muitos séculos da arte grega e as muitas décadas de cátedra do professor, que, mago divino, forja, mescla, caldeia uma miríade de textos e ideias. Ele parece nos ensinar que o mundo dos mitos, dos deuses, dos aedos, enfim, quase tudo o que importa, está ali na dobra da esquina, na notícia de nosso tempo, na nossa capacidade de amar e de nos entender, no nosso riso ou sentido de humor (antes o riso de si mesmo do que aquele reservado aos outros). Voltei no tempo, desde meus tempos de leitor de gibis (dos pequenos gibis aos grandes, "o Gibi semanal, gigante, engraçado, sensacional"), de proto-mitologia (Enciclopédia Trópico, Monteiro Lobato), de fábulas e contos de fadas, até as repetidas incursões já maduras, sempre com o Hesíodo debaixo do braço, sempre guiado por Homero, Sófocles e Robert Graves, por Ovídio, Eurípedes e Campbell, por Virgílio, Ésquilo e Jung, por uma miríade de outros tantos. Que belo livrinho, que belos poemas. Evoé, don Torrano, Evoé. Vale! 
Registro #1454 (poesia #118) 
[início: 28/08/2019 - fim: 30/08/2019]
"Divino Gibi: crítica da razão sapiencial", Jaa Torrano, São Paulo: editora Annablume (coleção Annablume Literária), 1a. edição (2018), brochura 14x23 cm., 114 págs., ISBN: 978-85-391-0846-6

terça-feira, 1 de outubro de 2019

fausto tropical

Se o sujeito tem alguma familiaridade com literatura provavelmente conhece a lenda do doutor Fausto, já recriada tantas vezes (de Marlowe a Goethe, de Thomas Mann a Fernando Pessoa, de Puchkin a Murnau, dentre tantos outros). A história foi inventada e/ou citada em uma miríade de mídias, formas e contextos da cultura, tanto em abordagens eruditas quanto populares. Sidney Garambone, jornalista  e escritor carioca, adapta a história a seu Rio de Janeiro fundamental, seu Rio de Janeiro contemporâneo. Victor Vaz, o protagonista da história, é um escritor esforçado, porém mediano, que ganha sua vida como funcionário de um sebo, que já perdeu amigos por incluir fatos da vida deles em suas histórias, que foi abandonado pela mulher, vê apenas episodicamente a filha ainda criança e frequenta puteiros bem modestos e fuleiros de Copacabana. A fórmula dos livros que tratam do mito "Fausto" é bem conhecida: um espectro se materializa e mesmo sem nunca se identificar como um diabo, oferece a um mortal algo impossível, algo que o indivíduo deseje acima de tudo. Feito o pacto, o sujeito normalmente se arrepende e sua alma, ou algo que o valha, é resgatado por deus (metamorfoseado em "unseen hook and invisible line", já nos ensinou Evelyn Waugh). Na versão de Garambone antes é seu diabo quem parece desejar algo impossível, algo que em suas palavras apenas de tempos em tempos alcança, que é alguma conversa qualificada com interlocutores que acompanhem suas reflexões filosóficas e questionamentos morais, indivíduos que possam conduzi-lo a entender melhor a espécie humana, sua grande e fadada ambição. Vaz e este personagem infernal conversam o tempo todo, sobre verdades e mentiras, sobre ressurreição e morte, sobre amizade e curiosidade intelectual, sobre aprendizado. É um diabo cansado esse o engendrado por Garambone, um diabo entediado, que talvez por ter frequentado pouco a América do Sul precisasse novamente do calor tropical do título. Gostei da história. Os elementos fantásticos necessários se encaixam bem na trama; há alguma sociologia selvagem, que ajuda o leitor a tentar aceitar a mitologia carioca; há também alguma filosofia selvagem que conduz o leitor por um emaranhado de conceitos e tradições religiosas; uma rica historiografia sobre o mito de Lúcifer e suas variantes infernais. Enfim, Garambone preparou-se bem para escrever seu livro, que realmente é bem escrito, oferece boas horas de entretenimento ao leitor. Há talvez algum excesso na nostalgia sobre um Rio de Janeiro que dificilmente existe ainda, mesmo fora dos livros e da memória afetiva das pessoas que lá nasceram ou vivem, como ele, Garambone. Por isto mesmo, caso fosse eu o editor de Garambone, pediria que ele fizesse seu diabo explicar algo sobre a cota realmente intolerável de desastres que assolam há décadas o Rio de Janeiro, mas aí, muito provavelmente, o livro abandonaria os limites da ficção, sempre tão modesta quando comparada ao surrealismo da realidade, pois para mim, parece sim que o diabo mora lá faz tempo. Bobagem minha. Nada disso atrapalha a narrativa deste Fausto tropical. Segue o baile. Vale! 
Registro #1453 (romance #367) 
[início 14/08/2018 - fim: 19/08/2018] 
"Fausto tropical", Sidney Garambone, Rio de Janeiro: 7Letras1a. edição (2019), brochura 15,5x23, 262 pág. ISBN: 978-85-421-0753-1

domingo, 29 de setembro de 2019

uma confissão póstuma

Na literatura holandesa meu farol sempre será Cees Nooteboom, autor que ensinou-me muito sobre a arte de olhar as cousas, a observar além das aparências, a aprender tanto com a realidade objetiva quanto com a fantasia, com a memória. Entretanto, nos últimos meses li vários livros de outros autores da Holanda, cousas traduzidas por Daniel Dago, jovem paulista. Esse "Uma confissão póstuma" é de 1894, e há quem o compare com o "Memórias do subsolo", de Dostoiévski. De fato é um bom romance confessional, um romance que gravita os processos psicológicos de um sujeito que desnuda suas misérias ao leitor, sem esperar perdão ou remissão divina, talvez apenas por cansaço ou absoluta amoralidade, misantropia. Willen Termeer, o protagonista da história de Emants, é um adulto ainda jovem que confessa, além de um crime, sua inapetência para a vida em sociedade, sua inadequação para o convívio humano, sua autocomiseração. Assim como tantos personagens da literatura de qualquer tempo ou lugar (e tantos indivíduos de carne e osso, gente real, conhecidos nossos), Termeer parece acreditar que a felicidade existe, ou, ao menos, seria possível alcança-la em seus termos, que são bizarros, inaceitáveis, para qualquer pessoa intelectualmente sadia. É um livro fácil de ler. Todavia, talvez, como sempre fazemos, arrogantes viventes deste nosso século XXI, sobre as coisas escritas, produzidas ou imaginadas há tanto tempo, mas não exageradamente distante de nossos dias, esses exemplos literários de ações e comportamentos psicológicos tristes, patéticos ou condenáveis, que recebemos com um esgar e sarcasmo, apenas sirvam para nos absolver preventivamente das misérias modernas, contemporâneas, de nossos defeitos ainda invisíveis para nós mesmos, seja como indivíduos ou como grupo social. "Nada do que é humano me é estranho", já nos ensinou Terêncio, há 2500 anos, mas as variadas formas de amar que inventamos sempre serão inevitavelmente estranhas demais. Bom livro. Haverá mais holandeses por aqui, claro. Vale!
Registro  #1452 (romance #366)
[início: 16/07/2019 - fim: 19/07/2019]
"Uma confissão póstuma", Marcellus Emants, tradução de Daniel Dago, Porto Alegre: editora Zouk, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 236 págs., ISBN: 978-85-8049-083-1 [edição original: "Een nagelaten bekentenis" (Amsterdan: Van Holkena & Warendorf) 1894]

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

assombrações

De Domenico Starnone, italiano que é autor de mais de vinte romances, já havia lido o curioso "Laços", em 2017. "Assombrações" agradou-me menos, pois não me convenci muito com a ideia básica, com a provocação que o livro oferece. Um homem de meia idade, ilustrador que já teve seus melhores dias profissionais, viúvo e restabelecendo-se de uma cirurgia, é solicitado pela filha para cuidar de seu único neto, por uns poucos dias. Ele precisa se deslocar de Milão, onde vive há muitos anos, para sua Nápoles natal, lugar do qual não guarda boas recordações. A filha passa por uma crise conjugal, precisa ficar afastada dos compromissos domésticos para apresentar um trabalho acadêmico em um congresso (ela, o marido e talvez seu amante e chefe são matemáticos). Starnone apresenta ao leitor um conflito clássico, entre o novo e o velho, entre um sujeito e os fantasmas de seu passado. O ilustrador precisa terminar uma encomenda, a de um livro de Henry James, "The Jolly Corner", que trata justamente de um duplo, uma história de fantasmas (as assombrações do título), o retorno de um sujeito ao lugar onde nasceu e que provoca nele questionamentos sobre as escolhas que fez na vida. O personagem de Starnone confronta seus fantasmas pessoais na figura do neto, de quatro anos, que é singularmente inteligente e ativo, uma força da natureza encarnada. Todavia, a capacidade de fazer perguntas, que dá a criança ares de filósofo mirim, apenas esconde a simples repetição de falas e comportamentos dos pais, nuances que desconhece, não domina, só impressionando, superficialmente, aqueles que o veem pela primeira vez. Qualquer de nós que já teve a oportunidade de visitar casais com filhos pequenos teve experiências similares, que é a de ficar defronte pequenos tiranos, que visivelmente manipulam sem dó seus genitores, iludidos com a beleza especular dos atos e frases espirituosas ditas pelos filhos. Não vou estragar a leitura deste livro antecipando mais sobre o enredo. Há um capítulo final com a ilustrações e reflexões do personagem sobre seu embate com o neto (talvez seja a única parte do livro que realmente me agradou). Trata-se de um livro bom de ler, interessante, mas há muito de esquemático nele, um artificialismo que se foi bem lapidado pela linguagem, não alcança convencer o leitor que a sequência de eventos seja possível, mesmo para um velho senhor, curvado pelo fracasso e pela doença. Enfim, "Assombrações" pareceu-me cerebral demais, falso demais. Não é ruim, há autores que não alcançam registros assim, mas há cousas com mais estofo me aguardando (acho eu, que sempre me iludo). Vale! 
Registro #1451 (romance #365) 
[início: 31/07/2019 - fim: 14/08/2019]
"Assombrações", Domenico Starnone, tradução de Maurício Dantas Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-84-93828-34-8 [edição original: Scherzetto (Torino: Giulio Eunaudi Editore / Gruppo Mondadori) 2016]