terça-feira, 22 de outubro de 2019

sidi

Arturo Pérez-Reverte parece correr contra o tempo. Ele tem 68 anos, começou a publicar livros em 1986, quando tinha 35 anos, boa parte deles dedicados ao jornalismo, como correspondente de guerra. De 1986 para cá publicou 34 livros, entre romances e compilações de suas fantásticas crônicas semanais. É uma produção incrível, algo mais de um livro publicado por ano. Não conheço outro autor que publique tanto assim, sobretudo mantendo qualidade nos textos (já registrei aqui um bocado deles: a série do Capitão Alatriste; a série Falcó; sua História da Espanha e tantos outros. Há poucos dias ele lançou seu livro mais recente: "Sidi: un relato de frontera", um romance histórico. Trata-se de uma versão romanceada de parte da vida de Rodrigo Díaz de Vivar, el Cid campeador, cavaleiro castelhano que viveu na segunda metade do século XI. Sua vida tornou-se lendária e, após os quase mil anos que separam seu nascimento (em 1048, em Burgos) ou morte (em 1099, em Valência) de nossos dias, é difícil saber da veracidade dos muitos dos acontecimentos que são usualmente associados a ele. O poema "Cantar de mio Cid", escrito no início do século XIII, confere aura épica aos feitos de Rodrigo de Vivar, associando-o à reconquista cristã da Península Ibérica e fundação do Reino de Castela. Certamente, à vida do homem Rodrigo de Vivar camadas de  invenção foram acrescentadas progressivamente ao longo dos séculos. Os sucessos contados no romance de Pérez-Reverte vão de 1080 a 1084, período em que El Cid, após ter sido desterrado de Castela pelo rei Alfonso VI, oferece seus serviços como guerreiro ao rei muçulmano da taifa de Zaragoza, al-Mutamán, e luta contra os reis cristãos de Navarra e Aragón, e também contra o conde de Barcelona. Por isto mesmo, devemos esperar pelo menos mais uns dois volumes, que contem as conquistas de El Cid nos últimos quinze anos de sua vida (sabe-se que ele tornou-se soberano da região de Valência, formalmente ainda vassalo dos reis de Castela, mas com suficiente autonomia para entendê-lo senhor completo do lugar). Lê-se o livro num sopro. A prosa de Pérez-Reverte é ágil, os acontecimentos se sucedem, arrebatando o leitor. As imagens que ele cria são sempre cinematográficas, como as de uma primeira versão de um roteiro de algo que se pretende adaptar para a linguagem do cinema. O vocabulário de Pérez-Reverte é rico, cheio de mimos para o leitor. De resto, acompanhamos os movimentos bélicos e diplomáticos do Sidi ("Senhor", em árabe) como quem lê um romance policial, lemos seus diálogos, cheios de humor e ironia, como se estivéssemos a conversar com um velho senhor, que lembra de acontecimentos de sua juventude. Diversão garantida. Vale! Em tempo: Esse volume foi lançado na Espanha no último 18 de setembro, uma quarta-feira. Comprei na Casa del Libro espanhola e o recebi, via DHL, na manhã da terça-feira 24 de setembro (isto porque dia 20/09 foi feriado no Rio Grande do Sul, prejudicando um tanto a logística). Que maravilha é ser bem servido por empresas realmente sérias e comprometidas com seus clientes. Evoé.
Registro #1461 (romance #369) 
[início: 24/09/2019 - fim: 08/10/2019]
"Sidi: un relato de frontera", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 373 págs., ISBN: 978-84-204-3547-3

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

l'art del menjar a catalunya

Num dia estival e mágico, de um ano que não quero esquecer, voltei ao Mercat de la Boqueria (Mercat de Sant Josep, na verdade). Como já contei em um velho registro, visitei pela primeira vez esta fundamental catedral dos sentidos no final dos anos 1980. Entre 2006 e 2011, por sorte voltei várias vezes a Barcelona, afinal lá estavam morando as meninas, Natália e Helga. Na primeira vez que voltava a percorrer aqueles corredores apinhados de turistas e barceloneses da gema, a rever as cores e os exóticos produtos, a experimentar inebriado todos os aromas e sensações que brotavam do lugar, eis que meus velhos e perenes amigos, os livros, fizeram-se saber. Era um final de tarde. Quando me preparava para me despedir da Boqueria vi por acaso uma pequena livraria escondida no segundo andar, acessível apenas por uma escada de metal contígua a um daqueles sujos e deprimentes corredores laterais (todo mercado tem um lado especialmente feio, que mesmo o mais entusiasta prefere não denunciar). Era mesmo muito pequena a livraria, mas os livros dali eram maravilhosos, quase todos eles dedicados a nobre arte da culinária, da eterna luta contra o fogo. Folheie vários com calma, mas não havia me decidido a comprar nenhum (minha cota de bagagem já estava mais do que comprometida, claro, e como sempre). Após um tempo disse para a moça que cuidava do lugar qualquer coisa sobre voltar em um outro dia, mas ela alertou-me que aquele era o último dia, que a livraria seria fechada definitivamente. Contou-me sobre certos aborrecimentos dos donos, do que entendi ser uma briga de casal ou desentendimento entre os sócios. A bem da verdade ela, funcionária nova, não sabia muita coisa, nem se seria paga realmente pelos dias em que ficou ali encerrada, quase sem clientes, olhando de cima o movimento dos turistas do lugar. Truque de vendedora malandra, logo pensei? Real preocupação de alguém que precisava contar (para um pobre diabo latino-americano, aferrado aos livros, como não) suas misérias? Dei uma última olhada e decidi comprar um volume recém publicado de Manuel Vázquez Montalbán, autor que já conhecia, graças à Eliana Sturza, mas de quem nunca havia lido nada em seu catalão fundamental. Trata-se de um volume de 2004, reedição de um original de 1977, quase um livro de arte, repleto de ilustrações e fotografias. O texto não esconde um entusiasmo que talvez seja exagerado, mas que é produto de seu tempo. A Espanha vivia os primeiros anos de redemocratização, após quase quarenta anos de ditadura franquista. Montalbán defende a particular identidade catalã, o fato da arte culinária ali praticada ser distinta das demais províncias espanholas, eventualmente até mais antiga e senhorial que todas as demais (ele cita o legendário libro de Sent Soví, talvez o primeiro livro de culinária europeu, publicado no século XIV). Montalbán percorre a geografia da Catalunya, fala dos pães, arrozes e pastas, das sopas e dos caldos,  das ervas e verduras, dos peixes, das carnes de caça, dos embutidos, dos vinhos e da confeitaria, das sobremesas, de possíveis menus catalães autênticos, não contaminados pela cupidez associada ao turismo de massa. Metade do livro é dedicada a receitas, não exatamente receitas que possam ser reproduzidas automaticamente, pois não há tempos de cozimento exatos, quantidades precisas, definição correta dos procedimentos. Fazia mais de dez anos que  este volume enfeitava a sessão de gastronomia de minha biblioteca. Meses atrás decidi ler cousas atrasadas com calma, testar minha paciência com o catalão. O texto cobra seu tempo, mas a força e o humor de Montalbán recompensa qualquer esforço. Aprende-se um bocado. Montalbán morreu em um 18 de outubro, como hoje. Ele faria hoje 80 anos. Morreu muito cedo, com certeza. Grande sujeito, grande espanhol, grande catalão. Vale!
Registro #1460 (gastronomia #41) 
[início: 01/08/2004 - fim: 16/09/2019]
"L'art del menjar a catalunya: el llibre de la identitat gastronòmica catalana", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Salsa Books / Edicions 62 (Grupo Planeta), 1a. edição (2004), capa-dura 17x24,5 cm, 256 págs. ISBN: 84-9787-059-X

terça-feira, 15 de outubro de 2019

a promessa

Foi a arte da capa que me fez comprar este volume, que reúne duas narrativas de Friedrich Dürrenmatt, respeitado escritor, dramaturgo e artista plástico suíço, morto em 1990 (vale registrar que a pintura da capa é dele mesmo, Dürrenmatt, e vale a pena consultar o portal Centre Dürrenmatt Neuchâtel, onde toda sua produção resta arquivada). Em algum ponto da leitura dei-me conta que "A promessa", a primeira das duas narrativas, era a versão original da história que resultou em um bom filme, "The Pledge", dirigido por Sean Penn e protagonizado por Jack Nicholson, que vi há quase vinte anos (o filme é de 2001). A trama é interessante, Matthäi, um diligente policial de um cantão suíço, prestes a ser enviado em uma missão oficial no oriente médio, resolve pedir demissão após dar-se conta que um sujeito, que havia cometido suicídio em virtude de acusações de assassinato, não poderia ser o autor dos crimes. A história de fato é bem engenhosa (o título original do livro tem como subtítulo "Réquiem para os romances policiais", o que explica um tanto das ambições do autor). O narrador é um policial aposentado, que conta os sucessos e obsessões daquele antigo subordinado seu, Matthäi, a um silente escritor de romances policiais, que recentemente havia proferido uma palestra sobre seu ofício e arte. Não pretendo aqui acrescentar mais pistas sobre o enredo do livro além das muitas que já registrei. Dürrenmatt alcança conduzir o leitor pelo transe heroico do personagem, que jamais descobrirá que a realidade é algo muito mais bizarro, ilógico e até surreal que o mundo dos livros, da invenção literária, dos esquemas formais consagrados de composição narrativa. Muito interessante. Neste volume há também uma novela, "A pane", que em breve registrarei aqui. Vale! 
Registro #1459 (romance policial #91) 
[início: 30/07/2019 - fim: 31/07/2019]
"A promessa", Friedrich Dürrenmatt, tradução de Petê Rissati, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 220 págs., ISBN: 978-85-7448-300-9 [edição original: Das Versprechen : Requiem auf den Kriminalroman (Zürick: Arche / Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 1958]

sábado, 12 de outubro de 2019

siete cuentos morales

Neste volume estão reunidas sete histórias curtas (quatro delas curtíssimas, coisa de quatro ou cinco páginas). "El perro" trata dos encontros tensos entre um cão e uma jovem ciclista, que não aceita a natureza feroz de seu antagonista; "Una historia" conta algo sobre uma mulher que trai sistematicamente seu marido, todas as vezes em que ele viaja, mas que não associa sua traição a ausência de amor ou carinho por ele; "Vanidad" retrata a censura que os filhos de uma velha senhora fazem de seu corte de cabelos, para eles moderno demais, não compatível com a idade dela; "Una mujer que envejece" conta as preocupações de dois filhos sobre a saúde e o destino da mãe, num encontro em que todos estão longe de casa, praticamente estranhos uns aos outros;  "La anciana y los gatos" trata do choque que as escolhas de uma velha senhora, que mora em uma cidadezinha isolada no sul espanhol, provoca em seu filho cosmopolita e prático, que não comunga das escolhas morais de sua mãe; em "Mentiras", um conto epistolar, um filho escreve a sua mulher sobre o acidente sofrido pela mãe, e das providências que é obrigado a tomar. No último conto, "El matadero de cristal", dividido em seis partes curtas, uma senhora pensa na possibilidade de provocar reflexão e eventualmente mudar a opinião dos cidadãos seus contemporâneos sobre os rituais de criação e abate de animais, assim como o consumo da carne, algo para ela condenável. Nos sete contos a figura da velha senhora sempre parece ser Elizabeth Costello, uma personagem conhecida dos leitores de J.M. Coetzee. Ele, que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2003, a fez aparecer pela primeira vez em "A vida dos animais", publicado em 1999, depois em "Elizabeth Costello", em 2003 e também em "Homem lento, em 2005. A Costello personagem é uma escritora de opiniões fortes, provocante até a exasperação, que sempre se posiciona, discute temas complexos, como a vida dos animais, a censura e a fé, filosofa sobre a sexualidade, a moral e o mal entranhado nas pessoas. Além do veganismo Coetzee faz seus personagens digressar também sobre o ofício de escrever ficção, a velhice, a relação entre pais e filhos, o destino, o amor e o dever, refletir sobre as consequências de nossas decisões, da dificuldade de topar partido em questões éticas no dia a dia. "A vida não se resume a uma eterna sucessão de criação e solução de problemas", afirma a senhora Costello, em uma das histórias de Coetzee. Talvez esta frase resuma as questões morais discutidas nos sete contos. Nós, homo sapiens, devemos fazer valer mais o nosso tempo de vida, os dias que nos cabem. Sempre provocador o velho e bom Coetzee. Em tempo. Consegui encontrar links para gravações onde o próprio Coetzee lê "El perro",  "La anciana y los gatos" e "El matadero de cristal". Achei também links para o texto original de dois contos: "Una mujer que envejece" e "Mentiras" (publicados anteriormente na revista americana The New York Review of Books). "Una historia" e "Vanidad" parecem ser singularmente inéditos, mesmo em inglês. Vale! 
Registro #1458 (contos #167) 
[início - fim : 25/09/2019]
"Siete cuentos morales", J.M. Coetzee, tradução de Elena Marengo, Barcelona/Buenos Aires: El Hilo de Ariadna (Penguin Random House Grupo Editorial), 3a. edição (2019), brochura, 13,5x22,5 cm., 123 págs., ISBN: 978-84-397-3466-6 [edição original: Moral Tales 2017]

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

sobre pessoas velhas e coisas que passam...

Logo depois de terminar "Confissão póstuma", de Marcellus Emants, comecei  o,  esse "Sobre pessoas velhas e coisas que passam...", de Louis Couperus. O livro foi publicado originalmente em 1906. Trata-se de uma história sobre segredos familiares e como carregamos o fardo de nossos atos até o fim da vida, mesmo escondendo-os sob camadas de mentiras, culpa ou isolamento. Por isto mesmo não posso contar muito da trama, para não roubar muito do prazer de um eventual leitor. Couperus, a bem da verdade, não esconde por muito tempo a gênese daquilo que provoca todos os desdobramentos do livro. Ele até repete-se várias vezes, faz seus personagens voltarem várias vezes àquele assunto, talvez tentando emular literariamente os diversos processos de nosso inconsciente envolvidos na negação, dos variados mecanismos de defesa de nossa economia psíquica. Charles Pauws, um escritor de quase quarenta anos, e Elly Takma, uma jovem de vinte e três, resolvem casar-se. Esta decisão afeta três mulheres chamadas Ottilie (a avó, a mãe e a irmã de Charles), assim como de mais três dezenas de personagens (tios, primos, amigos da família, agregados, empregados, a memória de gente já morta há décadas). O livro é dividido em duas partes, que funcionam como dois atos de um drama, que por sua vez são divididos mais ou menos esquematicamente em três cenas cada um. As cenas da primeira parte correspondem, respectivamente, a uns poucos meses antes do casamento de Charles e Elly, a véspera do enlace deles e uns dias depois, durante a viagem de lua de mel do casal. Por sua vez, as cenas da segunda parte correspondem a três períodos curtos que gravitam a morte de três personagens: a avó Ottilie, o vovô Takma e o velho médico Roelofsz. Além de descrever o arquétipo de uma família holandesa do início do século XX, Couperus trata das relações dos holandeses com seu passado colonial, de questões religiosas, da relação das pessoas com o dinheiro, do "sotaque" indonésio, das diferenças de temperamento entre o Norte e o Sul europeu, de nossa capacidade de amar, de como a vida de cada um de nós corresponde apenas a um fragmento, a uma dentre milhares de possibilidades, ao resultado de infinitos acasos, cousas inevitáveis, por mais racionais que possamos nos imaginar. Há uma discreta presença grega nesta história. Lembrei da trilogia malaia do Anthony Burgess, mas talvez esta seja apenas uma de minhas associações amalucadas. Em breve haverá Multatuli por aqui, e também alguma poesia holandesa, mais cousas dos filões de ouro puro e fino que brotam da lavra do Daniel Dago. Vale!
Registro  #1457 (romance #368)
[início: 16/09/2019 - fim: 19/09/2019]
"Sobre pessoas velhas e coisas que passam", Louis Couperus, tradução de Daniel Dago, Porto Alegre: editora Zouk, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 280 págs., ISBN: 978-85-8049-084-8 [edição original: "Van oude mensen, de dingen, die voorbijgaan..." (Amsterdam: L.J. Veen) 1906]

domingo, 6 de outubro de 2019

sangre o amor

Nesse volume Donna Leon está em seus domínios, fala de algo que conhece muito bem: o mundo da ópera, do canto lírico, dos concertos. Ela retoma uma de suas primeiras protagonistas, Flávia Petrelli, que aparece em seu romance de estreia, “Morteno teatro La Fenice”, de 1992, e também em “Acqua Alta”, de 1996, quinto volume da série dedicada aos sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti. Assim como neste nosso calendário real, mais de vinte anos se passam nos relógios imaginários dos personagens inventados por Donna Leon. Flávia Petrelli volta a se apresentar no sonante Teatro La Fenice e volta a se envolver em um caso de violência e assassinato. Petrelli é assediada por um fã, uma pessoa obcecada, incapaz de controlar o misto de admiração e inveja que sente pela famosa cantora lírica. Brunetti e seus comandados se unem na tarefa de proteger Petrelli e entender motivação e método do perseguidor, ao mesmo tempo em que se veem enredados na burocracia e ineficiência do governo italiano. Donna Leon vergasta, uma vez mais e sem dó, o governo italiano (os próceres de plantão sempre são igualmente venais, corruptos e limitados intelectualmente, pouco importa a matriz ideológica que obedecem, a cartilha de comportamento que seguem - algo muito parecido com que acontece neste desgraçado e inútil Brasil, terra de escravos mentais e gente canalha). Alvise, um pacato policial subordinado a Brunetti é falsamente acusado de violência contra civis, em uma manobra que busca prejudicar exatamente Brunetti. Elettra, a secretária do vice-questore Patta, ao solidarizar-se com Alvise, quase coloca tudo a perder ao envolver o comissário em suas trapaças digitais. Donna Leon faz longas digressões neste volume, aprendemos algo sobre Bochesse, o legista; Alvise, um policial; Patta, o vice-questore; o conde Fallier, sogro de Brunetti. A Veneza dos primeiros volumes da série é contrastada com a Veneza deste final de anos 2010. Trata-se de uma senhora que envelhece mal, sufocada por legiões de turistas, gigantescos navios de cruzeiro, batedores de carteira, políticos corruptos (um pleonasmo, já se sabe). Donna Leon fala também do valor da amizade, e de como as múltiplas metamorfoses vivenciadas pelos indivíduos ao longo do tempo podem até inverter o sentido e razão desta palavra. Em “Sangre o amor”, Donna Leon emula vários trechos da trama de Tosca, de Giacomo Puccini. Trata-se de um trabalho admirável. O leitor ganha muito se ler o libreto de Tosca ou ouvir algumas de suas famosas árias. Raramente um romance policial dela é fraco, mas este é realmente muito bom, trezentas páginas vibrantes. Depois de ter lido o sofrível “A última mulher”, de Alfredo Garcia-Roza, foi um alento encontrar neste volume algo com estofo e engenho. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1456 (romance policial #90) 
[início: 19/08/2019 - fim: 27/08/2019]
"Sangre o amor" (Brunetti #24), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2016), brochura 12,5x19 cm., 304 págs., ISBN: 978-84-322-2594-9 [edição original: Falling in Love (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2015]

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

a última mulher

Há doze anos li alguns livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza (O silêncio da chuva, Espinosa sem saída e Berenice procura), mas cansei, não conseguia entender o entusiasmo dedicado a seus romances policiais naquela época (ele chegou a ganhar um prêmio Jabuti). Recentemente topei com um livro dele em um aeroporto e resolvi experimentar. Li "A última mulher" em menos de duas horas, pouco mais do tempo de voo. A trama começa na Cinelândia e Lapa, no centro da cidade do Rio de Janeiro, mas logo se desloca para os domínios do delegado Espinosa, em Copacabana, em seu reduto afetivo no bairro Peixoto. Ratto, um cafetão, e seu sócio alcoólatra, Jappa, são perseguidos por um policial corrupto, atraído pelo bom dinheiro que eles ganham com prostitutas. Habituado a situações deste tipo, Ratto desaparece por uns tempos e conhece Rita, uma jovem prostituta, com quem acaba se envolvendo. A caçada humana empreendida por Wallace, o policial corrupto, deixa vários assassinatos brutais pelo caminho. Espinosa, que conhece Ratto e o sabe inofensivo, acaba se envolvendo no caso. Dizer o quê? A narrativa é muito fraca, esquemática, frouxa demais. Antes parece um esboço, uma primeira versão de uma ideia, que um produto pronto. Acho que preciso ficar outros doze anos sem Garcia-Roza. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1455 (romance policial #89) 
[início - fim: 24/07/2019]
"A última mulher", Luiz Alfredo Garcia-Roza, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 117 págs., ISBN: 978-85-359-3237-9

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

divino gibi

"Divino Gibi: crítica da razão sapiental", que livro especial! São poemas, 93 deles, todos muito curtos, como aforismos poéticos; todos muito potentes, como só as cousas seminais sabem ser; todos muito jocosos, como gritos de deuses recolhidos na rua por um vate, sempre muito bem guiado por suas musas (as Tieteidas). Jaa Torrano é tradutor experimentado, professor industrioso, especialista em língua e literatura grega. Ele oferece ao leitor uma mostra de como toda uma cultura, toda uma área de especialização, toda uma familiaridade com um assunto, pode ser plasmada em forma poética, ser vertida em sublime ouro puro e fino. Todavia, Torrano não facilita nada ao leitor. Por baixo da aparente simplicidade de seus aforismos poéticos ebulem camadas de interpretação, um palimpsesto de signos, interpretações, leituras, experiências, que fixam os muitos séculos da arte grega e as muitas décadas de cátedra do professor, que, mago divino, forja, mescla, caldeia uma miríade de textos e ideias. Ele parece nos ensinar que o mundo dos mitos, dos deuses, dos aedos, enfim, quase tudo o que importa, está ali na dobra da esquina, na notícia de nosso tempo, na nossa capacidade de amar e de nos entender, no nosso riso ou sentido de humor (antes o riso de si mesmo do que aquele reservado aos outros). Voltei no tempo, desde meus tempos de leitor de gibis (dos pequenos gibis aos grandes, "o Gibi semanal, gigante, engraçado, sensacional"), de proto-mitologia (Enciclopédia Trópico, Monteiro Lobato), de fábulas e contos de fadas, até as repetidas incursões já maduras, sempre com o Hesíodo debaixo do braço, sempre guiado por Homero, Sófocles e Robert Graves, por Ovídio, Eurípedes e Campbell, por Virgílio, Ésquilo e Jung, por uma miríade de outros tantos. Que belo livrinho, que belos poemas. Evoé, don Torrano, Evoé. Vale! 
Registro #1454 (poesia #118) 
[início: 28/08/2019 - fim: 30/08/2019]
"Divino Gibi: crítica da razão sapiencial", Jaa Torrano, São Paulo: editora Annablume (coleção Annablume Literária), 1a. edição (2018), brochura 14x23 cm., 114 págs., ISBN: 978-85-391-0846-6

terça-feira, 1 de outubro de 2019

fausto tropical

Se o sujeito tem alguma familiaridade com literatura provavelmente conhece a lenda do doutor Fausto, já recriada tantas vezes (de Marlowe a Goethe, de Thomas Mann a Fernando Pessoa, de Puchkin a Murnau, dentre tantos outros). A história foi inventada e/ou citada em uma miríade de mídias, formas e contextos da cultura, tanto em abordagens eruditas quanto populares. Sidney Garambone, jornalista  e escritor carioca, adapta a história a seu Rio de Janeiro fundamental, seu Rio de Janeiro contemporâneo. Victor Vaz, o protagonista da história, é um escritor esforçado, porém mediano, que ganha sua vida como funcionário de um sebo, que já perdeu amigos por incluir fatos da vida deles em suas histórias, que foi abandonado pela mulher, vê apenas episodicamente a filha ainda criança e frequenta puteiros bem modestos e fuleiros de Copacabana. A fórmula dos livros que tratam do mito "Fausto" é bem conhecida: um espectro se materializa e mesmo sem nunca se identificar como um diabo, oferece a um mortal algo impossível, algo que o indivíduo deseje acima de tudo. Feito o pacto, o sujeito normalmente se arrepende e sua alma, ou algo que o valha, é resgatado por deus (metamorfoseado em "unseen hook and invisible line", já nos ensinou Evelyn Waugh). Na versão de Garambone antes é seu diabo quem parece desejar algo impossível, algo que em suas palavras apenas de tempos em tempos alcança, que é alguma conversa qualificada com interlocutores que acompanhem suas reflexões filosóficas e questionamentos morais, indivíduos que possam conduzi-lo a entender melhor a espécie humana, sua grande e fadada ambição. Vaz e este personagem infernal conversam o tempo todo, sobre verdades e mentiras, sobre ressurreição e morte, sobre amizade e curiosidade intelectual, sobre aprendizado. É um diabo cansado esse o engendrado por Garambone, um diabo entediado, que talvez por ter frequentado pouco a América do Sul precisasse novamente do calor tropical do título. Gostei da história. Os elementos fantásticos necessários se encaixam bem na trama; há alguma sociologia selvagem, que ajuda o leitor a tentar aceitar a mitologia carioca; há também alguma filosofia selvagem que conduz o leitor por um emaranhado de conceitos e tradições religiosas; uma rica historiografia sobre o mito de Lúcifer e suas variantes infernais. Enfim, Garambone preparou-se bem para escrever seu livro, que realmente é bem escrito, oferece boas horas de entretenimento ao leitor. Há talvez algum excesso na nostalgia sobre um Rio de Janeiro que dificilmente existe ainda, mesmo fora dos livros e da memória afetiva das pessoas que lá nasceram ou vivem, como ele, Garambone. Por isto mesmo, caso fosse eu o editor de Garambone, pediria que ele fizesse seu diabo explicar algo sobre a cota realmente intolerável de desastres que assolam há décadas o Rio de Janeiro, mas aí, muito provavelmente, o livro abandonaria os limites da ficção, sempre tão modesta quando comparada ao surrealismo da realidade, pois para mim, parece sim que o diabo mora lá faz tempo. Bobagem minha. Nada disso atrapalha a narrativa deste Fausto tropical. Segue o baile. Vale! 
Registro #1453 (romance #367) 
[início 14/08/2018 - fim: 19/08/2018] 
"Fausto tropical", Sidney Garambone, Rio de Janeiro: 7Letras1a. edição (2019), brochura 15,5x23, 262 pág. ISBN: 978-85-421-0753-1

domingo, 29 de setembro de 2019

uma confissão póstuma

Na literatura holandesa meu farol sempre será Cees Nooteboom, autor que ensinou-me muito sobre a arte de olhar as cousas, a observar além das aparências, a aprender tanto com a realidade objetiva quanto com a fantasia, com a memória. Entretanto, nos últimos meses li vários livros de outros autores da Holanda, cousas traduzidas por Daniel Dago, jovem paulista. Esse "Uma confissão póstuma" é de 1894, e há quem o compare com o "Memórias do subsolo", de Dostoiévski. De fato é um bom romance confessional, um romance que gravita os processos psicológicos de um sujeito que desnuda suas misérias ao leitor, sem esperar perdão ou remissão divina, talvez apenas por cansaço ou absoluta amoralidade, misantropia. Willen Termeer, o protagonista da história de Emants, é um adulto ainda jovem que confessa, além de um crime, sua inapetência para a vida em sociedade, sua inadequação para o convívio humano, sua autocomiseração. Assim como tantos personagens da literatura de qualquer tempo ou lugar (e tantos indivíduos de carne e osso, gente real, conhecidos nossos), Termeer parece acreditar que a felicidade existe, ou, ao menos, seria possível alcança-la em seus termos, que são bizarros, inaceitáveis, para qualquer pessoa intelectualmente sadia. É um livro fácil de ler. Todavia, talvez, como sempre fazemos, arrogantes viventes deste nosso século XXI, sobre as coisas escritas, produzidas ou imaginadas há tanto tempo, mas não exageradamente distante de nossos dias, esses exemplos literários de ações e comportamentos psicológicos tristes, patéticos ou condenáveis, que recebemos com um esgar e sarcasmo, apenas sirvam para nos absolver preventivamente das misérias modernas, contemporâneas, de nossos defeitos ainda invisíveis para nós mesmos, seja como indivíduos ou como grupo social. "Nada do que é humano me é estranho", já nos ensinou Terêncio, há 2500 anos, mas as variadas formas de amar que inventamos sempre serão inevitavelmente estranhas demais. Bom livro. Haverá mais holandeses por aqui, claro. Vale!
Registro  #1452 (romance #366)
[início: 16/07/2019 - fim: 19/07/2019]
"Uma confissão póstuma", Marcellus Emants, tradução de Daniel Dago, Porto Alegre: editora Zouk, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 236 págs., ISBN: 978-85-8049-083-1 [edição original: "Een nagelaten bekentenis" (Amsterdan: Van Holkena & Warendorf) 1894]

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

assombrações

De Domenico Starnone, italiano que é autor de mais de vinte romances, já havia lido o curioso "Laços", em 2017. "Assombrações" agradou-me menos, pois não me convenci muito com a ideia básica, com a provocação que o livro oferece. Um homem de meia idade, ilustrador que já teve seus melhores dias profissionais, viúvo e restabelecendo-se de uma cirurgia, é solicitado pela filha para cuidar de seu único neto, por uns poucos dias. Ele precisa se deslocar de Milão, onde vive há muitos anos, para sua Nápoles natal, lugar do qual não guarda boas recordações. A filha passa por uma crise conjugal, precisa ficar afastada dos compromissos domésticos para apresentar um trabalho acadêmico em um congresso (ela, o marido e talvez seu amante e chefe são matemáticos). Starnone apresenta ao leitor um conflito clássico, entre o novo e o velho, entre um sujeito e os fantasmas de seu passado. O ilustrador precisa terminar uma encomenda, a de um livro de Henry James, "The Jolly Corner", que trata justamente de um duplo, uma história de fantasmas (as assombrações do título), o retorno de um sujeito ao lugar onde nasceu e que provoca nele questionamentos sobre as escolhas que fez na vida. O personagem de Starnone confronta seus fantasmas pessoais na figura do neto, de quatro anos, que é singularmente inteligente e ativo, uma força da natureza encarnada. Todavia, a capacidade de fazer perguntas, que dá a criança ares de filósofo mirim, apenas esconde a simples repetição de falas e comportamentos dos pais, nuances que desconhece, não domina, só impressionando, superficialmente, aqueles que o veem pela primeira vez. Qualquer de nós que já teve a oportunidade de visitar casais com filhos pequenos teve experiências similares, que é a de ficar defronte pequenos tiranos, que visivelmente manipulam sem dó seus genitores, iludidos com a beleza especular dos atos e frases espirituosas ditas pelos filhos. Não vou estragar a leitura deste livro antecipando mais sobre o enredo. Há um capítulo final com a ilustrações e reflexões do personagem sobre seu embate com o neto (talvez seja a única parte do livro que realmente me agradou). Trata-se de um livro bom de ler, interessante, mas há muito de esquemático nele, um artificialismo que se foi bem lapidado pela linguagem, não alcança convencer o leitor que a sequência de eventos seja possível, mesmo para um velho senhor, curvado pelo fracasso e pela doença. Enfim, "Assombrações" pareceu-me cerebral demais, falso demais. Não é ruim, há autores que não alcançam registros assim, mas há cousas com mais estofo me aguardando (acho eu, que sempre me iludo). Vale! 
Registro #1451 (romance #365) 
[início: 31/07/2019 - fim: 14/08/2019]
"Assombrações", Domenico Starnone, tradução de Maurício Dantas Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-84-93828-34-8 [edição original: Scherzetto (Torino: Giulio Eunaudi Editore / Gruppo Mondadori) 2016]

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

nihan

Para aprender algo sobre os procedimentos corretos de cultivo de rosas comprei este manual (ou cartilha, como se dizia nos meus tempos de criança). Roberto Jun Takane, Paulo Tadeu Vital de Siqueira e Edivaldo Casarini, três engenheiros agrônomos, informam o que é mais importante na questão, desde as características botânicas e necessidades climáticas das roseiras, até os métodos de plantio, cuidados, variedades, formação, brota, adubação, tratos fitossanitários, colheita e comercialização. Eu mesmo só queria aprender como podar com cuidado, evitar as pragas e as plantas daninhas. O livro é bom, posso dizer que aprendi um bocado. O manual/cartilha é fartamente ilustrado, as informações curtas e objetivas, sem circunlóquios bestas. Para o leitor curioso em aprender mais os autores oferecem uma longa bibliografia. Enfim, recomendo sem medo esse manual. Vale! Todavia, a bem da verdade, não quero apenas falar deste livro. Acontece que hoje é 23 de setembro e exatamente às 04h50min começou a primavera. Hoje é também o dia que escolhi para louvar a memória de uma de nossas gatas: Nikita, la densa, branca como a neve, com laçarote fúcsia no pescoço, perfumada, presente da Lenise; Nikita, nascida lá no Camobi, que depois virou La Femme Nikita, Gorda e senhora do #403, cuidando sempre bem de seus domínios e de seus irmãos. Em algum momento, nos tempos em que Helga e Natália estavam longe passei a chamá-la de Nihan, para espanto da dona Leda, que mal entendia meus chamamentos. Depois da volta das meninas Nihan lutou sem muita compostura com o pobre Sr. BB, aceitou a mudança para o #902 com estoicismo e continuou senhora de seus dias, mesmo quando, já doente, recebemos a Pato, hoje Sissilina, que todos os demais gatos aceitaram pacificamente, menos ela.  Após o desfecho de seu câncer particular, daquela azarada chuva de bolitas (que é como os gaúchos chamam as bolas de gude), Nihan metamorfoseou-se em Flora, em Rosas, como num dos mitos recolhidos por Ovídio, passando a morar lá nas terras altas de Itaara. Desde sua morte, já em sua versão vegetal, Nihan continua oferecendo algo especial a nossos dias. As rosas que plantamos sobre sua cova estão sempre a florescer, a se multiplicar, os caules robustos, as folhas sempre começando num violácea quando brotam para alcançar um verde escuro, forte. Não há fim de semana em que não me lembre de suas manias, de seu comportamento, da forma como dominava o ambiente do apartamento, sem brigas, sem arranhões desnecessários (com a exceção de seus estranhamentos com a Sissi, claro). Lembro de como a associava com Hlenka, aquela personagem apenas citada no final de um filme de Woody Allen; com Cassandra, a profetisa troiana, filha de Príamo; com Shirley Bassey e os eternos diamantes de um filme com James Bond. Agora, basta olhar para o roseiral para evocar imediatamente William Carlos Williams, que já nos ensinou em seu "The Ivy Crown": "(...) Keep the briars out, they say. You cannot live and keep free of briars.(...)". Bueno. Cabe registrar por fim que quem fez as primeiras podas radicais e necessárias na Nihan foi a Marta, vizinha experiente e prática, mas esta é outra história. Grande Nihan. Vale! 
Registro #1450 (livro técnico, manual, cartilha #01) 
[início: 11/04/2019 - fim: 16/06/2019]
"Cultivo de rosas", Roberto Jun Takane, Paulo Tadeu Vital de Siqueira, Edivaldo Casarini,  Brasília (DF): Editora LK editora / Coleção Tecnologia fácil #80 ISSN 1809-6735,  1a. edição (2007), brochura 14x21 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-7776-017-6

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

o princípio da incerteza

Nunca havia lido nada de Guido Viaro, escritor paranaense de mais ou menos cinquenta anos. Neto de um outro Guido Viaro, respeitado artista plástico ítalo-brasileiro modernista, o Guido Viaro escritor é autor de 15 romances, publicados desde 1998. "O Princípio da Incerteza" gravita o mundo dos livros, do ofício de escrever, do legado possível que qualquer vida oferece, da memória, da eventual imortalidade que o ato de escrever confere a personagens e autores, indistintamente. Na trama, Félix Aéras, um professor de filosofia universitário de quase sessenta anos, oscila entre seus planos de aposentadoria, o péssimo hábito de se envolver com mulheres mais jovens e problemáticas, seu desejo de tornar-se escritor. No livro vários registros se superpõem, ou melhor, lentamente se fundem: a história do narrador, que pode ou não ser Aéras, que quer aposentar-se e escrever livros, especialmente um que emule uma espécie de autobiografia do universo; a do compositor Robert Schumann, no exílio da loucura em seus anos finais, como personagem de um livro não publicado escrito por um amigo do narrador; a de Jacques Coeur, um comerciante francês do século XV, que no livro tornou-se imortal e aproxima-se de Aéras; a de Clara Castang, amante de Aéras e também uma personagem inventada por ele. Destes incertos registros, usando metaforicamente o Princípio da Incerteza do título, conceito fundamental da Física Quântica, Guido Viaro oferece ao leitor reflexões muito interessantes sobre a passagem do tempo, as imortalidades que existem na mente, no mundo fantástico, na literatura, identifica a morte como esquecimento. Lê-se "O Princípio da Incerteza" como se fosse um romance policial, em que pistas falsas são espalhadas pelo volume, aguçando a curiosidade do leitor. Bom. Vou procurar mais cousas deste curioso escritor. Vale! 
Registro #1449 (romance #364) 
[início: 27/07/2019 - fim: 03/08/2019]
"O Princípio da Incerteza", Guido Viaro, Curitiba: Editora Insight, 1a. edição (2019), brochura 15x21 cm., 210 págs., ISBN: 978-85-62241-71-0

domingo, 15 de setembro de 2019

os touros de basã

Marco Aurélio de Souza é um jovem paranaense que tem publicado regularmente romances, contos e poemas, desde o início dos anos 2010. Recentemente ele lançou "Os touros de Basã", um volume de contos. São treze histórias que gravitam vidas de pessoas marginalizadas, indivíduos que foram derrotados pela vida, sujeitos azarados, loucos, intoxicados, sujos. Marco Aurélio faz seus personagens padecer suas misérias em Ponta Grossa, no interior do Paraná, mas as histórias poderiam ser contadas desde a periferia de qualquer lugar do Brasil contemporâneo, país onde a desigualdade é norma, onde o isolamento daqueles que não são afeitos a regras sociais é terrivelmente comum. Nos contos o leitor acompanha fragmentos da decadência física e espiritual de um homem; o autoengano de uma jovem prostituta; o sarcástico relato de um sujeito sobre o destino de sua cidade; o justiçamento de um garoto em uma favela; a lascívia de um professor de educação física por suas alunas; a metamorfose moral de um sujeito, que após matar os pombos de uma praça, passa a atirar em mendigos; os planos de um rapaz de se masturbar em um ônibus lotado; a fantástica história de mendigos que são adotados como animais de estimação; entre outras tantas histórias igualmente brutas. Gostei do resultado. Ojo. É o caso de acompanhar os livros deste sujeito. Vale! 
Registro #1448 (contos #166) 
[início: 17/07/2019 - fim: 30/07/2019]
"Os touros de Basã", Marco Aurélio de Souza, Curitiba: Kotter Editorial, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-68462-94-2

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

anthony bourdain remembered

Há pouco mais de um ano, num funesto 08 de junho, uma sexta-feira, Anthony Bourdain cometeu suicídio. Senti aquela morte como a de uma pessoa querida, como se fosse uma pessoa muito próxima. Lembro-me muito bem do impacto da leitura de seu primeiro livro, "Cozinha confidencial", no início dos anos 2000. Não se tratava apenas de um livro sobre gastronomia, salpicado com receitas bacanas. Bourdain descrevia o ofício de cozinhar nos grandes restaurantes com humor e sarcasmo, contrastando o visível glamour daquela atividade com o pouco conhecido estresse ao qual os profissionais são submetidos, com os truques sujos dos proprietários para promover vendas, com o ego inflado dos cozinheiros estrelados, com as carreiras que se eclipsavam por conta das drogas. Depois li vários outros livros dele (Maus bocados, Ao ponto), seus textos de ficção (Bobby Gold) e suas graphic novels (Get Jiro! e Hungry Ghosts). O sucesso com a venda dos livros o levou a televisão, onde gravou várias séries, séries admiráveis que nunca cansam o espectador (A Cook's Tour, No Reservations, The Layover e Parts Unknown). Bourdain tornou-se uma celebridade, um talentoso contador de histórias, um sociólogo amador, alguém que tinha a notável capacidade de sintetizar em poucos minutos os complexos contextos de culturas bastante diferentes da sua. Poucas pessoas inspiravam tamanha admiração e também, claro, inveja. Assim como eu, que ao fazer minha peregrinação à Dublin preparei-me assistindo seus shows gravados lá (um deles pode ser acessado aqui: No reservations), muitos devem ter se inspirado nele ao programarem-se para uma viagem. Sua morte pegou todos de surpresa. Como podia um sujeito vivendo uma vida tão prazerosa cometer suicídio, todos perguntavam-se. Logo após sua morte o canal de notícias CNN abriu espaço em suas mídias sociais onde os fãs de Bourdain poderiam registrar algo sobre ele, celebrar seus feitos, falar de sua influência. Recentemente parte daqueles registros digitais nas mídias sociais foram transferidos para o formato livro, este "Anthony Bourdain Remembered". Trata-se de 155 registros, que guardam algo do impacto daquela notícia triste. Alguns são de celebridades, colegas chefs, gente da televisão ou políticos bastante conhecidos; a grande maioria pessoas comuns, entusiastas de sua arte, aficionados do mundo inteiro. O livro contém fotos muito bacanas, fotos que capturam aquele olhar ambíguo, de quem fazia as coisas parecerem fáceis, mesmo quando elas eram sabidamente difíceis. Grande sujeito, para ser lembrado sempre. Bela homenagem, belo livro. Vale! 
Registro #1447 (perfis e memórias #92) 
[início - fim: 29/07/2019]
"Anthony Bourdain Remembered", Amy Entelis (organizadora), New York: HarperCollins Publishers (Ecco hardcover books), 1a. edição (2019), capa-dura 22,5x26 cm., 208 págs., ISBN: 978-0-06-295658-3 [edição original: CNN Worldwide 2019]

domingo, 8 de setembro de 2019

marrom e amarelo

"Marrom e amarelo" é um romance corajoso. Paulo Scott, autor já experiente e premiado, poderia povoar sua narrativa com chavões politicamente corretos, entendimentos de almanaque, fórmulas mágicas e desejos travestidos de bom mocismo, porém oferece uma boa e honesta história, que pode (ou não, convenhamos) provocar em cada leitor reflexões sobre sua própria postura em relação ao mais silente dos dramas brasileiros, que é a questão do racismo. Na história de Scott o narrador, Federico, um respeitado ativista que administra uma ONG em Brasília, quase cinquenta anos, é convidado a fazer parte de um grupo de trabalho ministerial cujo objetivo é validar um software que seria utilizado pelo governo para preencher as vagas de cotistas "pretos, pardos e indígenas" no ensino público federal. Tema mais complexo e explosivo é difícil, mesmo neste surreal, doente e insuportável país, onde toda maluquice ganha seu espaço e fama, onde todo ato vil alcança respaldo bovino de legiões. No início da trama, que a bem da verdade é curta, coisa de 150 páginas, acompanhamos as motivações e propostas de cada um dos membros do grupo de trabalho, assim como sobre o estado da arte do debate nacional sobre racismo, a perene tensão racial, as políticas públicas e sociais voltadas aos negros. O sarcástico panorama construído por Scott do que seria um procedimento digital de classificação racial contrasta com a descrição jornalística do que tem acontecido no mundo real das universidades públicas desde a promulgação da lei das cotas (ele se furta de citar o gaúcho que na prática engendrou a classificação racial contemporânea no Brasil, mas tudo bem, trata-se de um livro de ficção, não de sociologia ou história). Bueno. Aos poucos o leitor é levado para um outro território, muito mais fértil e adequado ao debate sério sobre o fundamental tema do racismo. O romance passa a gravitar o passado de Federico, sujeito nascido em Porto Alegre nos anos 1960, filho de funcionários públicos negros de classe média, que é um tanto mais claro que seu irmão mais novo, Lourenço. Um fato de seu passado, a briga entre jovens negros e brancos na entrada de um clube social da cidade, passa a assombrar Federico, quando uma sobrinha sua é presa em posse de uma arma durante uma manifestação. Scott alterna em curtos capítulos cenas de seu passado, sua educação sentimental, a influência dos ensinamentos de seus pais e o áspero aprendizado prático nas ruas, com suas reflexões e conflitos atuais, sua inapetência para relações afetivas duradouras, sua solidão entranhada, o distanciamento discreto que tem da família. Há algo de nostálgico no livro. Scott passeia por sua Porto Alegre fundamental, cita todo o tempo suas ruas, hotéis, bares e restaurantes, faz seus personagens navegarem pela cidade como certos gregos que um dia perderam-se no Mar Egeu, após a guerra em Troia. Seu protagonista, Federico, tem mesmo algo de herói grego, pois parece ser mais altivo, forte e inteligente que todos a seu redor, mas sabe que também é mortal, frágil e falível. A coragem física dele em uma briga (em seu passado) e sua coragem moral, ao confrontar um delegado de polícia (no tempo presente da narrativa), são invulgares, tanto nos anos 1980 quanto nos anos 2010. Enfim, trata-se de um belo romance, que antes provoca reflexões, e não simplesmente oferece respostas rasas aos leitores. Lembrei muito de Philip Roth, de seus livros sobre a questão judaica, sobre o racismo na sociedade americana, da capacidade de Roth abordar corajosamente os temas mais espinhosos possíveis com coragem e gênio literário (o mesmo vale para Scott). Antes de terminar, cabe registrar aqui que a forma utilizada por ele para construir seus diálogos, fazer fluir a consciência de seus personagens, é sim o ponto mais alto do livro. Evoé Scott, Evoé. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1446 (romance #363) 
[início - fim: 03/09/2019] 
"Marrom e amarelo", Paulo Scott, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz / Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2019), brochura 15x23 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-5652-091-3

sábado, 7 de setembro de 2019

el héroe discreto

Romance publicado em 2013, entre dois outros já registrados aqui, os bons "El sueño del Celta", de 2010 e "Cinco esquinas", de 2016, "El héroe discreto" funciona tanto como romance, quanto como uma aula magna de construção de narrativas. Vargas Llosa alterna em capítulos temáticos duas histórias que lentamente, só quase no final, irão convergir, mesclarem-se. Não quero contar muito da trama para não roubar nenhum prazer do leitor. Posso dizer que as histórias são sobre um valente empresário de Piura, cidade do interior peruano, e um nobre advogado (um oxímoro, claro) de Lima, a capital do Peru. Ambos são afetados pelas más ações de terceiros, e precisam valer-se de toda honestidade intelectual, engenho e artimanhas para se safarem, não se prejudicarem. Vargas Llosa oferece ao leitor um romance bem humorado, longo, mas que nos prende do começo ao fim. Incrível o fôlego e a capacidade de invenção deste senhor já octogenário. Não sou exatamente um especialista na língua espanhola, mas a linguagem utilizada no livro me parece ser seu maior predicado. Llosa faz seus personagens abusarem de palavrões, gírias, jogos de palavras, diminutivos carinhosos, maneirismos e toda uma tradição oral, elementos que contrastam a vida no interior e a vida na capital. Ele também alterna duas ou mais narrativas dentro de um mesmo capítulo, como se o narrador contasse sua história emulando as vozes e trejeitos dos personagens em uma apresentação teatral, mesa de bar ou sala de aula. Pelo menos dois personagens antigos de Llosa reaparecem no livro, o sargento Lituma (que conhecemos desde "A casa verde", de 1966 e don Rigoberto (com sua lasciva Lucrécia e seu filho Fonchito, de "Os cadernos de don Rigoberto", de 1997). Dá vontade de voltar a esses textos antigos. Que belo livro. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1445 (romance #362) 
[início: 31/08/2019 - fim: 05/09/2019] 
"El héroe discreto", Mário Vargas Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Aguilar, Altae, Taurus, Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2013), brochura 15x24 cm., 392 págs., ISBN: 978-987-04-3113-8

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

la muerte de jesús

Publicado há poucos meses, simultaneamente em inglês e em espanhol, "La muerte de Jesús" encerra a trilogia de J.M. Coetzee iniciada em 2013 com "A infância de Jesus" e continuada em 2016 com "The Schooldays of Jesus". Em "La muerte de Jesús" reencontramos David, Inês e Simón, a disfuncional sagrada família inventada por Coetzee, e seguimos com seus sucessos. Assim como nos demais volumes a trama não é exatamente o que importa, antes sim as reflexões que encontramos sobre cognição e linguagem, memória e vida em sociedade, relações familiares e competições esportivas, ciência e morte, capacidade de amar e destino. Não há uma única chave de leitura no livro. Há vezes em que penso este volume (e de resto toda a trilogia) como um conto de fadas contemporâneo, uma fábula amoral; noutras em um exercício  de entendimento de como funciona nossa mente, pobres homo sapiens, tão facilmente iludidos em nossa percepção da realidade, em nossos esforços por conhecer e aceitar verdades; noutras, ainda, como uma investigação sobre as possibilidades da ficção, de nossa habilidade de usar a literatura para construir mundos alternativos, utopias, espelhos de nossa pálida realidade. Ao contrário do que fiz durante a leitura do segundo volume da trilogia desta vez não submergi no emaranhado de associações e metáforas, de sugestões e possibilidades provocadas por Coetzee. Ao final deste seu admirável mundo novo, além da morte do protagonista, David, já denunciada no título, encontramos também a ascensão de eventuais proto religiões, de paganismos organizados, de cultos à personalidade, de liturgias à memória de David. É sempre difícil para nós matar um pai, matar um deus. Pouco importa. Gosto da ideia de pensar que o Jesús dos três títulos seja na verdade Cervantes, o autor de Don Quijote, livro preferido de David, o mais seminal dos inventores desta forma narrativa que nos assombra e encanta há quatro séculos. Estaríamos condenados todos a vagar como Don Quijotes mundo afora, iludindo-nos sempre? Vamos a ver o que o sempre provocante Coetzee inventará no futuro. Vale! 
Registro #1444 (romance #361) 
[início: 20/07/2019 - fim: 24/07/2019]
"La muerte de Jesús", J.M. Coetzee, tradução de Elena Marengo, Buenos Aires: El Hilo de Ariadna (Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura, 13,5x22,5 cm., 189 págs., ISBN: 978-84-397-3577-9 [edição original: The Death of Jesus (Melbourne, Australia: The text Publishing Company) 2019]

domingo, 1 de setembro de 2019

o matrimônio de céu e inferno

Enéias Tavares, professor de literatura da UFSM, e Fred Rubim, designer gráfico, uniram-se para engendrar o ambicioso projeto que foi o de recriar algo dos livros iluminados de William Blake na forma de uma graphic novel. O resultado é bacana. Claro, qualquer reinvenção de um clássico envolve as limitações de cada gênero, a liberdade criativa dos autores, as camadas de recepção do original já acumuladas, o público a quem a nova transcriação é oferecida e tantas outras condições de contorno. No caso específico de Blake deve-se acrescentar o quão enigmático e metafórico é o próprio original. De qualquer forma, acho que os dois apresentam uma proposta honesta ao leitor. Blake foi poeta, pintor, gravador, escritor, viveu entre a segunda metade do século XVIII e o primeiro quarto do século XIX. Produziu uma obra vastíssima, que pode ser acessada no "Arquivo Blake". O livro iluminado  transcriado por Enéias e Fred, composto originalmente em 1790, pode ser acessado no link "The Marriage of Heaven and Hell". A história de Enéias e Fred acrescenta ao propósito de homenagear Blake uma miríade de alusões de outros autores que nele se inspiraram nos últimos 200 anos (de Yeats e Jung a Aldous Huxley e Jim Jarmusch, entre tantos). O enredo é confessadamente tarantinesco, ou seja, deve algo ao universo criativo de Quentin Tarantino, a estilização da violência e cultura pop. Os dois autores criaram uma narrativa que alterna o destino de quatro personagens (um matador de aluguel, uma prostituta, um pastor evangélico e uma designer), viventes de uma furiosa São Paulo contemporânea, com as partes do livro de Blake, onde o diabo oferece ao poeta sua versão dos sucessos de sua queda, sua bíblia infernal. A paleta de cores de cada personagem funciona como marcador e facilita, eu diria até demais, a vida do leitor. O livro inclui vários mimos: notas de referência sobre as associações cifradas no texto e nas imagens; reproduções das pranchas de Blake, o making of do roteiro de Enéias; o making of da concepção plástica de Fred Rubim; vários curtos textos críticos, que contextualizam o trabalho de Enéias e Fred no universo da produção de literatura fantástica e gráfica brasileira contemporânea. Como já disse, bacana. Vamos a ver o que esta dupla inventará na sequência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1443 (graphic novel #74) 
[início: 12/07/2019 - fim: 21/07/2019]
"O matrimônio de céu e inferno", Enéias Tavares e Fred Rubim, Porto Alegre: AVEC, 1a. edição (2015), capa-dura 15x21 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-5447-042-5

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

muerte entre líneas

"Muerte entre líneas" se passa em uma Veneza primaveril, já exuberante em cores, cheiros, movimentos de pássaros, ainda não cheia de turistas e batedores de carteira. Brunetti precisa investigar sobre um crime que lhe incomoda particularmente, o roubo e destruição de livros, sobretudo de livros antigos, aqueles primeiros a serem impressos na Europa após a invenção dos tipos móveis por Gutenberg. Donna Leon se inspira em um crime real, o cometido em Nápoles, na Biblioteca dei Girolamini, de onde foram furtados milhares de livros há pouco menos de dez anos. Na história de Donna Leon é de uma biblioteca veneziana que livros são suprimidos e vandalizados, inclusive livros impressos pelo genial Aldo Manúcio. Apesar deste ser um tipo de crime fora de sua alçada, Brunetti faz seus comandados e colaboradores trabalhar e descobrir o enorme esquema de roubos, tanto aqueles por encomenda, quanto aqueles fruto de cupidez individual (há um terrível personagem no livro, um venal ex-padre, especialista em Tertuliano, um dos grandes padres latinos da Igreja Católica). Elettra e a comissária Griffoni já são amigas, o conte Fallier está algo fragilizado após um AVC, Paola e as crianças já estão planejando as férias de verão. Neste volume o leitor encontra a usual cota de reflexões sobre a complexa sociedade italiana, temperada por um sarcasmo brutal direcionado à impostura intelectual, à hipocrisia, à falsa cultura, ao funesto comportamento politicamente correto. O Brasil, ai de nós, é citado duas vezes no livro, de forma nem um pouco edificante, quando os personagens denunciam o comportamento vicioso de um cocainômano brasileiro e do melhor lugar para se fugir da Itália em caso de ter-se cometido um crime. Quem sou eu para censurar Donna Leon? Livro bem movimentado, que trará alegria para bibliófilos, bibliômanos e bibliólatras. Vale! 
Registro #1442 (romance policial #88) 
[início: 13/07/2019 - fim: 18/07/2019]
"Muerte entre líneas" (Brunetti #23), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2015), brochura 12,5x19 cm., 384 págs., ISBN: 978-84-322-2433-1 [edição original: By Its Cover (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2014]