quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

contra um mundo melhor

Nos dois últimos dias do ano passado li este "Contra um mundo melhor", de Luiz Felipe Pondé, divertindo-me à beça. Enquanto cozinhava e enfrentava o fogo vez ou outra até ensaiva umas boas gargalhadas, pois o sujeito sabe criar argumentos fortes que não deixam a ironia e o sarcasmo de lado. Já tinha lido uma ou outra crônica dele na Folha de São Paulo, mas só agora, lendo estes "Ensaios do afeto", como ele mesmo chama estes textos, alcancei apreciar de fato seu trabalho. Que sujeito. Poético e erudito na medida certa. Ele fala da relação entre homens e mulheres; da vida em sociedade; da universidade brasileira; do judaísmo e da bíblia. Seus argumentos partem de seu cotidiano, de sua biografia, mas alcançam aquele território franco do universalismo. No fundo ele apresenta questões que incomodam o leitor e o levam a pensar. Nem sempre é isto o que um leitor acomodado e apático quer. Sua descrição de encontros e jantares "inteligentes" é impagável; sua crítica ao trabalho acadêmico frouxo, que se traveste de moderno, de pós-moderno, repleto de rótulos vazios, é muito pertinente; a forma como ele execra o provincianismo e a condescêndencia, expondo a hipocrisia das relações sociais é muito apropriada. O livro inclui muitas fotografias que criam uma atmosfera de sonho, gostei delas. Mas como em todo texto marcadamente confecional não sabemos se o que o autor conta representa um apenas um recorte de sua vida, reflexões que vão se modificar, se transformar, ou é algo perene, consolidado (afinal de contas cada um deve construir suas próprias idéias a partir do que está exposto por Pondé). Ao final do livro o leitor deixa o autor em um deserto, refletindo sobre possíveis religiosidades, sobre seu titubeante gnosticismo. Apesar de honesto (o livro é honesto como poucos) isto me parece algo artificial, algo pernóstico, pois lembra o isolamento de um Moisés, de um são Jerônimo, de um Buda (a vaidade é mesmo sempre onipotente nos homens). Mas isto não é exatamente um problema. "Contra um mundo melhor" é um livro que agradou-me como poucos, como só alguns livros o fazem, de tempos em tempos. [início 30/12/2010 - fim 31/12/2010]
"Contra um mundo melhor: Ensaios do afeto", Luiz Felipe Pondé, São Paulo: editora Leya, 1a. edição (2010), brochura 16x23 cm, 216 págs. ISBN: 978-85-62936-69-2

2 comentários:

  1. já frequentei suas aulas; o pondé, de fato, é um grande pensador que não sossega enquanto não abalar valores desconhecidos em nossas profundezas. por isso, se a vida estiver boa, gostosinha, é melhor afastar-se de seus textos (ou não, ele responderia)

    parabéns pela resenha, deu vontade lê-lo!

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  2. Excelente resenha! li recentemente e senti ago parecido.

    Acho que o ponto alto é quando ele fala de Kafka.

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