quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

diálogos sem fronteira

Por sugestão do industrioso Roberto Cataldo ainda antes de ler "A cidade silenciosa", que resenhei há pouco, encomendei este "Diálogos sem fronteira". Nele estão reunidas cartas, escritas por Sergio Faraco, brasileiro do Alegrete, e por Mario Arregui, uruguaio de Trinidad, entre julho de 1981 e fevereiro de 1985. A edição original, publicada em 1990 no Uruguai, coligiu um número bem menor das cartas, o que valoriza em muito esta edição brasileira. Faraco tinha quarenta anos quando teve a iniciativa de escrever a editora de Arregui no Uruguai solicitando sua autorização para a tradução e eventual publicação no Brasil de alguns de seus contos. Arregui (uns vinte e cinco anos mais velho) responde a carta e a partir daí uma amizade epistolar se inicia (eles só se encontraram uma única vez, na feira do livro de Porto Alegre de 1984, quando "Cavalos do amanhecer" foi lançado). No início as cartas tratam de questões técnicas de tradução. Aos poucos as cartas passam a englobar também questões pessoais. Na verdade desde o início Arregui trata Faraco como um "publisher" mais do que um tradutor, repassando a ele dúvidas editoriais, financeiras, pedindo a ele opiniões sobre seus projetos literários. Apesar de forte e significativa a obra de Arregui é pequena (ele não publicou mais do que cinquenta contos, muitos realmente bons, mas no conjunto trata-se de uma obra bastante irregular). À época desta troca de cartas praticamente todos os contos já havia sido publicada, - à exceção do póstumo "Ramos generales". Parte do trabalho de Faraco envolve selecionar dentre os contos publicados no Uruguai aqueles que comporiam os livros a serem lançados no Brasil. Através das cartas Arregui se apresenta quase sempre inseguro, tímido, transferindo a Faraco decisões sobre a própria construção dos contos, seus títulos, fechamentos, a estrutura deles, além de outras questões editoriais. "Diálogos sem fronteira" é um livro que conta a história de uma amizade sutil, um encontro de dois sujeitos com muitas afinidades (ambos marxistas, preocupados com questões sociais, ligados a produção primária). O livro inclui um prefácio e algumas cartas assinadas pelo filho de Arregui (Martin), um artista plástico muito ligado ao pai que também tornou-se amigo de Faraco. Curiosamente a capa do livro induz a uma troca de identidades, pois a foto de Faraco é de um senhor mais velho, enquanto a de Arregui é de um jovem senhor, o que - ao menos para mim - indica que a troca de papéis entre eles (a troca do papel de pupilo e o papel de mentor) não é algo a ser desconsiderada, por mais trivial e irrelevante que seja. Enfim, acho que é o tipo de livro que ajuda a entender melhor a obra dos dois missivistas. Bom divertimento. [início 01/12/2010 - fim 26/12/2010]
"Diálogos sem fronteira", Mario Arregui, Sergio Faraco, Porto Alegre: editora LP&M, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 244 págs. ISBN: 978-85-254-1941-5 [edição original: Mario Arregui & Sergio Faraco: Correspondência, editorial Monte Sexto (Montevideo), 1990]

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