sábado, 2 de julho de 2011

enchentes

“Enchentes” é o romance de estreia de Guido Kopittke, autor gaúcho com alguma experiência de produção e publicação de livros de contos e outros textos curtos. Seu romance pode ser entendido como uma alegoria, no sentido em que ele faz uma leitura do passado do Rio Grande do Sul utilizando elementos historiográficos. Todavia, também podemos entendê-lo como um conto moral, no sentido em que ele exemplifica para o leitor como as transformações sociais e políticas de um período revolucionário operam e afetam um indivíduo. Confessadamente não se trata de um romance histórico, mas antes uma ficção psicológica, na qual se tenta entender e descrever a motivação para as ações impetuosas de um jovem comerciante gaúcho nos anos que antecedem as mudanças provocadas pela revolução de 1930. Kopittke produz um enredo linear, apesar de fragmentar a voz de seu narrador e tentar alguma heterogeneidade enunciativa. Um comerciante influente de uma cidade próxima a Porto Alegre é convencido a viajar de férias, deixando seus negócios aos cuidados do filho. O núcleo central do romance é a história desse rapaz, que aproveita a oportunidade para imprimir sua marca nos negócios. De alguma forma, ele infere que, apesar da grande influência e poder de seu pai, os negócios devam ser modernizados e adaptados às novas realidades. Suas ações para alcançar esse objetivo são antes fortuitas e intuitivas que realmente planejadas. Há nele elementos modernos, transformadores, mas também um romantismo atávico, que o impede de compreender na totalidade o alcance de suas ações. Kopittke usa vários personagens para criar os cenários onde seu personagem principal confronta seus sonhos e seus planos com a realidade objetiva. Kopittke se preocupa com a adequação das formas de expressão de seus personagens. O romance é dividido nas três partes clássicas de um drama (definição, complicação, resolução). Na primeira parte, as motivações do rapaz são apresentadas. Na segunda, um elenco de personagens de apoio surge para criar alguma tensão, propor alternativas, gerar reviravoltas. Na última, Kopittke apresenta seu desfecho. Mas o leitor emerge do romance sabendo que esse final poderia ser outro, como ocorre na vida, onde, frente às mesmas condições, aos mesmos problemas, cada indivíduo, por conta de um ou outro detalhe insignificante, experimenta e acolhe soluções bastante distintas. Esse romance parece ser o resultado do projeto de entreter honestamente, sem grandes pretensões intelectuais, nem literárias. Kopittke usa o que seria material típico de um soturno e eventualmente aborrecido romance histórico para produzir uma reflexão ligeira sobre as motivações de indivíduos frente aos desafios da vida. O livro produzido pela editora Dublinense tem uma capa bastante inspirada. Seu designer explora com exuberância as possibilidades gráficas. Isso pode ser apreciado nos detalhes refletidos espalhados pelo livro (nos títulos dos capítulos e na numeração, por exemplo), elementos que jogam com o tema central da história de uma forma particularmente feliz. Enchentes parece se inspirar em Il gattopardo (O leopardo), filme de Luchino Visconti, de 1963. Há muitos clichês, frases feitas e termos gauchescos nesse livro. É um artifício limitante mesmo considerando que toda trama se passa no Rio Grande do Sul do início do século passado. É um livro linear, previsível. Um leitor ingênuo pode se satisfazer com uma história bem contada, mas um leitor reflexivo pode chegar a se irritar com a ausência de algum desafio que seja digno de nota. Kopittke povoa sua história com mais de duas dezenas de personagens. Um excesso, mesmo que todos tenham alguma função no enredo. Como a história se concentra em poucos dias, o desenvolvimento da trama depende muito do acaso, com soluções demasiado artificiais e esquemáticas. Temas que poderiam tornar-se importantes, como culpa, emancipação feminina, justiça e redenção, são tratados muito superficialmente. De qualquer forma “Enchentes” é um livro que vale o tempo de leitura. [Em tempo: esta resenha foi produzida originalmente para o Campeonato Gaúcho de Literatura de 2011, do qual fui juiz. Em função do formato desse campeonato esta resenha compartilha idéias com aquela do outro livro que julguei: "A misteriosa morte de Miguela de Alcazar", de Lourenço Cazarré]. [início - fim 25/06/2011]
"Enchentes", Guido Kopittke, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 158 págs. ISBN: 978-85-62757-08-2

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