domingo, 2 de setembro de 2018

aquela água toda

Nunca havia lido nada de João Carrascoza, premiado escritor paulista. Noutro dia, flanando sem pressa, encontrei lá nos domínios do Gus Ventura em Porto Alegre esse pequeno volume de contos. Interessantes. São onze histórias curtas, que gravitam o universo da memória, os fragmentos da infância, a reconstrução daquele mundo idílico e provavelmente inventado por nós mesmos, péssimos arqueólogos dos escombros de nossa vida. São bastante inventivos, sempre leves, mas de uma falsa simplicidade. Para produzir ficção assim o sujeito precisa dominar bem o seu ofício. Numa história o narrador traduz aquele consolo que só a imensidão do mar é capaz de oferecer a homens aborrecidos; noutra relembra o friúme de um primeiro encontro, num cinema; noutro ainda fala das estratégias toscas que só a ingenuidade infantil sabe criar. Nos contos não há digressões filosóficas, deambulações teóricas, escolhos retóricos. Uma situação é apresentada, desenvolvida com lirismo e cirurgicamente finalizada. Sem malabarismos, sem artifícios bestas. Gostei especialmente de "Recolhimento", onde um sujeito experimenta uma dolorosa epifania, e de "Mundo justo", que trata de como aceitamos retrospectivamente o luto, a perda. O livro inclui um conjunto de ilustrações assinadas por Visca, um artista plástico paulista (há coisas bacanas dele no Instagram: clica!). Vamos a ver quando o acaso irá me trazer outra pequena maravilha assim. Vale! 
Registro #1321 (contos #153) 
[início: 26/08/2017 - fim: 28/08/2017]
"Aguela água toda", João Anzanello Carrascoza, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz (Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-5652-023-4

4 comentários:

  1. Aguinaldo, acompanho seu blog há bastante tempo e sempre tenho muito prazer ao ler seus textos mas, não sei por qual motivo, nunca comentei nada por aqui. Recentemente o Carrascoza me trouxe uma curiosidade grande, nunca cheguei a ler nada dele. Vejo que gosta um bocado de literatura em espanhol/Castellano e me veio a pergunta: Leu algo do Onetti?? A vida breve, O poço ou os contos publicados pela Cia das letras?? Abraços.

    Heitor

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  2. Você precisa ler "Aos 7 e aos 40", um poderoso pequeno romance memorialístico onde o autor meio que mexe com o ideário de nossas vidas - muito semelhantes - aos 7 anos de idade e, após as quatro décadas, mostrar as marcas deixadas pela vida. Foi minha melhor leitura em 2017. Dele já tenho a Trilogia do Adeus, aguardando o momento em que livro cobra do leitor a sua atenção...ai de mim!

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  3. Heitor. Valeu pela dica. Nunca li o Onetti. Sempre uso dicas como a tua para me aventurar em novos autores. Grande abraço.

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  4. Bah Paulo. Agora sim. Com tuas dicas vou explorar mais coisas do Carrascoza. Nunca nem havia ouvido falar e o sujeito me ganhou de primeira.garnde abraço.

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