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sexta-feira, 14 de abril de 2017

pequena madrugada antes da meia-noite

Semanas atrás estive no sertão pernambucano, em Serra Talhada, em uma missão acadêmica. Foram dias de muito trabalho, mas como a viagem era longa levei vários livros para ler. Um deles foi o "Máquina zero", do Ricardo Aleixo, que já registrei aqui. Outro foi esse "Pequena madrugada antes da meia-noite", do Marco de Menezes. Como das maravilhas que encontrei no livro do Aleixo já falei, é hora de me dedicar a tentar descrever o outro fino da lavra do Menezes. Ele nos apresenta quatro séries de poemas, quatro como as estações e as principais direções de uma rosa dos ventos. Os poemas são variados em temática e forma. Alguns deles poderíamos chamar de aforismos ou mesmo de sintéticos haikus. Os conjuntos são: manchúria (13), goleiro-linha (17), nada retira no silêncio (14), gabardine (13). Em "manchúria" os poemas tratam de fragmentos de lembranças, memórias da fronteira e do campo, registros de uma criança que olha, mas tudo é calmo, não há arrependimento, culpa ou dor. "goleiro-linha" reúne coisas urbanas, viagens, desabafos, saudades entranhadas, a lembrança de um outro poeta, que já foi muito amigo, mas não parece ser mais. "nada retira do silêncio" faz com o leitor um jogo de luz e sombra, mostra um poeta que enfrenta o abismo, tateia a natureza viva dos insetos e plantas, observa objetos e ausências como natureza morta. "gabardine" é o conjunto mais invernal, mais fúnebre, onde um narrador fala da morte de um amigo, da depressão e do suicídio, de um passado que oprime mas acaba por libertar. Não há nada frouxo nos poemas de Menezes, não há poemas fáceis, malabarismos e jogos verbais que iludem o leitor. A única ilusão que Marco de Menezes cria é aquela onde acreditamos que até parece fácil fazer poesia, poetar, escrever versos e publicá-los. Evoé Marco, Evoé.
[início: 27/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Pequena madrugada antes da meia-noite", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 1a. edição (2016) brochura 12x18 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-81743-46-2


quinta-feira, 28 de julho de 2016

fim das coisas velhas

Com a confusão da mudança dos livros para o novo apartamento perdi/escondi coisas mas encontrei outras tantas que já computava inapelavelmente perdidas. Uma delas foi esse pequeno livro de poemas (que comprei num dia em que estive visitando don Frank e doña Valquíria em Caxias, já há tantos anos). Em 2010 Marco de Menezes ganhou o Prêmio Açorianos de livro do ano com esse seu "Fim das coisas velhas". Estão nele reunidos sessenta e um poemas divididos em quatro conjuntos. Os dezesseis de "torvelinho" são reflexões sobre o ofício do poeta, suas leituras e influências, exercícios de forma e ritmo; os onze de "os pátios" são poemas em geral mais curtos, sintéticos, onde cenas urbanas e simbólicas se alternam; já os dezessete de "como um peixe de parede" são versos que cantam a memória de quem vive numa cidade que não é aquela em que nasceu e que se esforça por guardar cousas de seu passado; por fim, em "ítaca, itaqui", estão reunidos os dezessete versos mais fortes (mais eruditos digo eu, na falta de uma definição melhor), que ecoam algo dos gregos, algo da dor e da morte. O efeito de todo o conjunto é realmente agradável. Marco de Menezes parece sem pressa, presta atenção a coisas simples que conta, do campo e da cidade, dos objetos do cotidiano, das gentes. É bom estar com tempo e calma para aproveitar livros assim. Vale.
[início: 16/05/2016 - fim: 17/07/2016]
"Fim das coisas velhas", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem (editora Belas Letras), 1a. edição (2009), 11,5x18,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-63-05700-6