quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

balanço de 2020

Claro, fazer um balanço deste 2020 sem falar da pandemia de Covid19 é impossível. Mas primeiro eu vou falar dos livros que li. Nesse blog eu sempre falo mesmo é de mim, de Aguinaldo Medici Severino, do filho do Aguinaldo Severino e da Doña Victória Medici, do velho e cansado Guina, de meu igual Guina Medici, de "me, myself and I", e sempre falo pelo filtro dos livros que eu li ao longo de cada ano, os livros de minhas espraiadas bibliotecas, os livros, meus amigos, meus irmãos. Neste ano produzi registros de leitura de 20 romances, de 12 volumes de crônicas ou de ensaios, de 16 livros de contos, de 16 de poesias, de 4 romances policiais, de 6 novelas, de 9 livros de memórias, perfis ou relatos; de 8 livros de arte, de 6 boas peças de teatro e de 17 de outras classes de divertimentos (catálogos de exposições, gastronomia, música, didáticos, aforismos, turismo, cartuns e mangás, e de livros dedicados ao público infantojuvenil). Fiquei feliz por ter lido quase tanta poesia neste 2020 quanto li em 2019, cousa boa. Li mais livros de arte e menos de gastronomia, li mais ficção, histórias e narrativas inventivas e menos livros de não ficção. Em minha idiossincrática classificação foram 61% de volumes de ficção (69 livros); 21% de não ficção (24 livros) e 18% de variados divertimentos (21 livros). Alcancei 114 novos registros de leitura, completando 1594 desde aquele já distante primeiro de janeiro de 2007, quando inaugurei oficialmente este canal de comunicação. Este número, 114, é exatamente a média dos quatorze anos de leituras (114 livros lidos por ano, 9 por mês, 2 por semana). Está bom para o meu gosto. Mantive minha cota de livros em espanhol, 28 deles, exatamente um quarto, e também 7% de livros em inglês (portanto, os demais 68% foram lidos no meu costumeiro e familiar português). Em 2021, provavelmente, alcançarei alguns números mágicos: 200 livros de contos, 400 romances, 300 livros de ensaios ou crônicas, 150 livros de poesia e os 1600 registros, que não quis alcançar neste 2020 por puro cansaço, um esgotamento temático (vou explorar melhor esse tema no ano que vem). Eu deveria terminar esse balanço aqui. Todavia, porém, entretanto, não obstante e, como não, apesar disto, agora, vamos a ver como é que é (vamos a ver o que realmente foi importante neste ano). Helga e eu fomos em fevereiro para a África do Sul. Foi uma viagem muito bacana e tive uma miríade experiências boas, sobre as qual já falei um tanto aqui (Clica!). Lá vi uma enorme exposição de William Kentridge, que sei agora valeu por tudo o que não foi possível ver ao longo do ano por conta da pandemia. E sobre a África do Sul aqui mais não digo. Logo após nossa volta ao Brasil a sombra da pandemia era visível demais para ser evitada, mesmo para nós, desgraçados brasileiros, povo mais lorpa do planeta, quase todos escravos mentais de criminosos condenados, mentirosos de todos os matizes e outras espécies de jaguaras. Pois logo após voltarmos ao Brasil, ao saber dos sucessos do Carnaval e do errático início das aulas, exatamente no aziago idos de março tomei a decisão de isolar-me nas terras altas de Itaara. Helga e Natália ficaram no apartamento citadino, com os gatos, e eu, em Itaara. Pareceu uma boa solução naqueles dias de início da pandemia, que falsamente prometiam ser curtos. Acontece (como diz aquele bom Fado), que fiquei quase seis meses por lá, de março a agosto, com poucas interações, conversas ou contatos. Foram dias de introspecção, de uma administrada solidão e logo de chuva, vento e frio, de dias de longas caminhadas, de muitas leituras (ora caóticas, ora sistemáticas). Foram dias de ouvir muita música e descobrir podcasts (dos quais recomendo fortemente o "Agora, agora e mais agora", de Rui Tavares; o Cenáculo, de dois jovens porto-alegrenses: Miguel e Guilherme; o De modo geral (boa invenção do Paulo Scott) e o maravilhoso PodCastizo, que fez-me viajar a Madrid uma vez mais, desta vez conduzido pela sempre querida Mnemósine). Foram também dias de fotografar muitas vezes o céu, acompanhar os arrebóis, as nuvens e os pássaros, de sentir a presença solitária da araucária que seguramente me guardava, ali de perto. Neste período, Helga e Natália trouxeram-me Cappuccio, um pequeno gato, que agora já faz parte de minhas cotidianas alegrias. No 16 de junho, não pude organizar o Bloomsday Santa Maria, como faço desde 1994 aqui, porém participei virtualmente de dois eventos, um produzido em Dublin e outro em São Paulo. No segundo semestre, já de volta à cidade, retomei as aulas de forma remota, mas ninguém jamais será capaz de me convencer da validade pedagógica destas aulas, pois de hipocrisia eu entendo e, ademais, sou velho demais para acreditar em mágica. Paciência. A ignorância é sempre um doce bálsamo, que mitiga as misérias da maioria das gentes. Em novembro, tive um raro privilégio, ser entrevistado por um dos gigantes da cultura gaúcha, don Sergius Gonzaga. Falamos sobre livros e literatura, sobre arte e ciência, sobre a vida vivida. Foi mesmo uma festa e uma das alegrias mirradas deste ano aziago. Bueno. Em 2021 pretendo recomeçar os registros de leitura. Tantos e tantos projetos já foram baldados por mim mesmo ao longo dos últimos quatorze anos. Vamos a ver o que acontecerá. Só me resta agradecer a companhia que essa melancólica vilegiatura de 2020 proporcionou-me: Canetti e Coetzee, Marías e Pérez-Reverte (que soberbo "Línea de Fuego" ele publicou neste ano), Cave e Coleridge, Tokarczuk e Handke, Schwob e Hughes, Stevens e Busato, Bashô e Issa, Camilleri e Donna Leon, Massao Ohno e Augusto de Campos, Aleixo e Benet, Shakespeare e Hilst, e tantos outros que carregarei comigo para fora deste 2020 e levarei a 2021, sempre em minha memória. Sem eles os dias seriam menores, menos férteis, pouco valorosos, muito tristes, insuportáveis. O espírito deste tempo é algo que só os antropólogos (ou paleontólogos) do século XXV entenderão. O jornalismo nunca mostrou-se tão medíocre e irresponsável. A estupidez parece que encontrou o terreno fértil onde vicejar. Alas! Há pouco fez um ano que morreu  Salen, nosso Buda revivido e privado. Já se passaram quatro anos da morte de doña Vic e três do primeiro e verdadeiro Guina.  Em 2021 organizarei novamente as estantes, os 4 ou 5 mil livros das prateleiras, estantes, nichos, para colocá-los ao alcance da mão e do acaso. Os livros sabem me encontrar por aí, brotar dos guardados, como sempre acontece. Agora é verão. Verão. William Carlos Williams já nos ensinou, quando é verão nenhuma dúvida é permitida, pois nós somos apenas mortais e sendo mortais devemos desafiar nosso destino. Saúdes para todos e para cada um. Boa sorte. Nos vemos em 2021. E, sempre, Thalatta! Thalatta!

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

o imperador de sorvete

Nesta antologia, bilíngue, estão reunidos poemas de Wallace Stevens publicados originalmente entre 1923 (quando ele já tinha 43 anos) e 1957 (póstumos, pois ele morreu em 1955). São trinta e seis poemas, sete ou oito deles especialmente longos, que são os que mais cativam o leitor. As propostas de Stevens são quase sempre complexas, cerebrais, de uma abstração que confunde e espanta, porém que também nos enfeitiça e encanta. Há muitas reflexões sobre o ofício do poeta, sobre estética, sobre a capacidade de plasmar com palavras conceitos, ideias, a essência última das coisas. "The poem must resist the intelligence / Almost successfully. Ilustration: (...)", ele diz, no início de Man Carrying Thing. Noutro poema ele lembra que a poesia "Deve ser abstrata, deve mudar, deve dar prazer", mas a organização, seu método, tem algo de campanhas militares, de preparativos para uma guerra. Stevens povoa seus poemas com coisas simples: as cores, os sons, a noite, os rios, as aves, os frutos e árvores, a aurora, o tempo e a velhice. Todavia, a simplicidade das coisas que evocam sua musa é uma ilusão, pois seus poemas sempre cobram do leitor atenção, seja ao rico vocabulário, às imagens e aos jogos sonoros, seja às associações, os contrastes e aos veios de ouro puro e fino de imaginação. Os embates poéticos que aparecem são sempre entre um deus difuso e o homem, eterno e velho fantoche. Lembro de ter lido uma outra versão desta antologia, em meados dos anos 1980 (uma coleção poderosa, que incluía volumes de William Carlos Williams, W.H. Auden, Seamus Heaney, Marianne Moore, Eugenio Montale, Elizabeth Bishop, W.B. Yeats). Paulo Henriques Britto, que já assinava a tradução do livro naquela época, acrescentou novos poemas à antologia original e corrigiu "coisas abomináveis", em suas próprias palavras, que havia feito há quarenta anos. Ele também assina uma apresentação, notas e uma boa discussão sobre seu projeto de tradução (aprende-se um bocado). Aliás, vale a pena ver essa entrevista feita com ele e seu colega Caetano Galindo, sofre o ofício de Tradução literária. Esse foi uns dos volumes que acompanhou-me em meu exílio pandêmico, lá nas terras altas de Itaara. Como toda boa literatura, ajudou-me a suportar os dias de solidão, de frio, de ensimesmamento, de medo. Depois, já novamente aquerenciado ao apartamento citadino, continuei com ele à mão, relendo os poemas que mais me impressionaram, como este, que transcrevo aqui: "The Planet on the Table: Ariel was glad he had written hist poems. / They were of a remembered time / Or of something seen that he liked. // Other maskings of the sun / Were wasste and welter / And the ripe shrub writhed. // His self and the sun were one / And his poems, although makings of his self, / Were no less making of the sun. // It was not important that they survive. / What mattered was that they should bear / Some lineament or character, / Some affluence, if only half-perceived, In the poverty of theirs words, / Of the palanet of which they were part." (Paulo Henriques Britto traduziu assim: "O planeta na mesa: Ariel gostou de ter escrito seus poemas. / Eram de um tempo relembrado / Ou de algo visto que o agradara. // Outros feitos do sol / Eram a gruta e tumulto / E o arbusto maduro retorcido. // Seu ser e o sol eram um só / E seus poemas, embora feitos de seu ser, / Não eram menos feitos do sol. // Que perdurassem não era importante. / O importante era que portassem / Algum traço ou caráter, // Uma afluência, mesmo quase imperceptível, / Na pobreza de suas palavras, / Do planeta do qual faziam parte"). Vale!
Registro #1594 (poesia #139) 
[início: 02/04/2020 - fim: 30/11/2020]
"O imperador de sorvete e outros poemas", Wallace Stevens, tradução de Paulo Henriques Britto São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 332 págs., ISBN: 978-85-359-3008-5 [edição original: Stevens: Collected Poetry and Prose (New York: Library of America) 1996 e (New York: Alfred A. Knopf/Doubleday Group/Penguin Random House) 1997]

sábado, 28 de novembro de 2020

a alma perdida

"A alma perdida" é ao mesmo tempo um curto conto de fadas contemporâneo e também um belo livro de arte, com ilustrações que emulam um mundo de sonhos, de evocações, de sentimentos. As ilustrações são assinadas por uma jovem polonesa, Joanna Concejo. O conto, que tem algo de infantojuvenil, mas só deve ser melhor entendido por aqueles que já passaram pelos primeiros aborrecimentos de verdade nesta vida, é assinado pela também polonesa Olga Tokarczuk, premiada com o Nobel de literatura em 2018. A história é realmente curta e talvez não merecesse ser conspurcada pelas ásperas palavras de um resenhador rabugento como eu, que não deposita muita fé na humanidade, nem tampouco acredita na propalada capacidade de amar das pessoas. Trata-se da descrição lírica do descompasso entre um sujeito e sua alma, de um registro sobre a velocidade do tempo, dos efeitos - nos homo sapiens - das muitas confusões de nossos dias. É um livro onde as cores são pálidas, a paleta carregada de cinzas e verdes, ocres e azuis sem viço. O texto é sereno, objetivo e, de alguma forma, nele a esperança vence a melancolia (nas ilustrações também parece acontecer). Bom. Mas é hora de seguir em frente, continuar no baile sempre macabro deste ano bizarro, onde todas as formas de estupidez e gloriosa vocação para a inutilidade dos homo sapiens tornaram-se especialmente visíveis. Vale!
Registro #1593  (livro de arte #39)
[início - fim: 26/11/2020]
"A alma perdida", Olga Tokarczuk, tradução de Gabriel Borowski, ilustrações de Joanna Concejo, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2020), brochura 19,5x26,5 cm, 48 págs. ISBN: 978-65-5692-065-1 [Edição original: Zgubiona dusza (Wrocław: Wydawnictwo Format) 2017]

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

maravalha

Cláudio B. Carlos é poeta, prosador, editor e também apresentador do bom podcast Balaio de letras. Recentemente ele lançou "Maravalha", uma inventiva e divertida novela. Lê-se com folga em menos de uma hora, sempre com um sorriso nos lábios. A edição é muito bem cuidada, com ilustrações de Thassiel Mel. A narrativa gravita, suja e sensual, umas poucas horas frias, amalucadas e ébrias em um bar vagabundo do interior profundo do Rio Grande do Sul. Linguagem, jogos verbais, filosofices e frases feitas gaudérias povoam as doidas dúvidas e conversas entre dois sujeitos: um narrador inominado e seu amigo Romualdo. Eles falam sobretudo de um terceiro amigo, conhecido como o Maravalha do título, e sobre o que aconteceu com ele em uma noite sem lua de sexta-feira. No bar onde estão (o bar do Dedé), uma vintena de personagens/nomes entram e saem, em seus afazeres e/ou rotina de final de semana de trabalho. O leitor acompanha o passar do tempo e o transe dos viventes. Mais não conto. Vale mesmo a pena ler esse pequeno livro. Diversão garantida.  Um último registro. Vale a pena conferir de Cláudio B. Carlos os bons "O homem do terno de vidro", "Um arado rasgando a carne" e "O uniforme". E segue o baile. Vale!
Registro #1592  (novela #79)
[início - fim: 06/11/2020]
"Maravalha: uma novela grunge gaudéria", Cláudio B. Carlos, ilustrações de Thassiel Melo, Cachoeira do Sul, RS: Saraquá Edições, 1.a edição (2020), 11x18 cm., 154 págs., ISBN: 978-65-991937-0-5

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

moldura de lagartas

Conheci a poesia de Susanna Busato por acaso, lá nas terras altas de Itaara, num dia de frio inverno, ao ouvir seu podcast (Poesia como entrada), gravado com Marcelo Tápia. Curioso, esperei o lançamento anunciado deste seu "Moldura de Lagartas". Neste volume ela oferece ao leitor seis conjuntos de poemas, totalizando 58 propostas. São poemas inventivos, que se por vezes flertam com a fantasia ou o sonho, sempre mostram alguém que domina as formas, os ritmos, as técnicas poéticas, enfim, seu ofício e arte. A metáfora do título: a ideia que um livro é o casulo de uma lagarta, que por sua vez é pensamento, a potência pura dos poemas, domina todo o volume. Como em um ciclo viconiano (que brota da epígrafe do livro), os pensamentos têm fome, percorrem o livro, comem o próprio rabo, conduzem ao leitor por uma aventura e o devolve às indignações iniciais do primeiro conjunto: "Sabe (,) lagarta? / Eu sou. / Eu sendo. / Ex-centro.", onde a ideia parece ser a de gestação, de criação, da vontade lasciva dos poemas de romper a armadura de um casulo, uma não-existência, e da necessidade de experimentar o mundo. Nos demais cinco conjuntos: "A poesia é fuga ou combate?"; "Colíricos"; "Eu exílio / e mefisto / de vermelho."; "Alvéolos de ar comprimido" e "Ex- / pulso / punctum / final", o leitor acompanha como a poeta fala de seu método, suas musas, seu ofício; explora sinestesias e o passar do tempo; força um espaço extra em certas palavras, que por vezes precisam respirar entre as letras que as compõe; explica como funciona sua respiração (que poeta e leitor têm de aprender, quando passam por metamorfoses (seja a de um mundo fluido e líquido que torna-se um mundo menos fluido, que é o ar, ou talvez a metamorfose de quem lê silente e passa a falar e cantar os poemas); faz viagens urbanas; abre asas e alça voos imagéticos; duvida de si e dos outros; sabe-se um corpo que sofre, sente e se extasia; faz homenagens a quem a conduz por escolhos e sombras (Haroldo de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Jacques Prévert, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, René Magritte, Augusto de Campos, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst, doces nutrizes de todos os poetas). O volume oferece dois mimos extras aos leitores: ilustrações assinadas por Ricardo Cavani Rosas e um bom posfácio assinado por Antonio Manoel dos Santos Silva (aprender o que não se sabe sempre é uma alegria). Livro bem interessante, de significados, de fôlego, onde os prazeres do intelecto (que emulam aqueles mais primitivos e humanos, do corpo) ganham o dia. Mas chega de mundanidade literária, é hora de voltar as esquivanças da vida, ao hábito (fiel camareiro), aos compromissos. Ai de mim. E vamos, quando possível, partir ao próximo livro. Vale! 
Registro #1591 (poesia #138)
[início: 16/10/2020 - fim: 08/11/2020]
"Moldura de lagartas", Susanna Busato, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2020), capa-dura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-66423-78-5

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

você nunca chegará a nada

Dos muitos livros que tenho de Juan Benet só li Otoño en Madrid hacia 1950 e Trece fábulas y media y fábula decimocuarta. "Você nunca chegará a nada" é seu primeiro livro e foi publicado originalmente em 1961. São contos, quatro deles, mas são cousas densas e poderosas, que cobram tempo e atenção do leitor. Talvez os truques literários, o tom e as preocupações com o estilo (notadamente inspirados em Faulkner, se nota), ainda não explicitam o quão habilidoso Juan Benet tornar-se-ia, mas é o tipo de livro que faz a festa para o leitor exigente. No primeiro conto, que dá nome ao volume, "Você nunca chegará a nada", acompanhamos as andanças de quatro amigos espanhóis pela Europa, nos anos 1950, viagens de aprendizado e de espantos, de descobertas (sobretudo do provincianismo individual e coletivo, espanhol) e de reflexões. Nos três contos seguintes: 'Baalbec, uma mancha", "Luto" e "Depois", Benet situa suas histórias em uma região remota do interior profundo espanhol, uma região que ele inventa e chamará e evocará em muitos outros de seus livros, como Región (uma espécie de Yoknapatawpha faulkneriana, Macondo, de García Márquez ou Santa María, de Onetti). "Baalbec, uma mancha" trata da viagem que um velho senhor faz a uma pequena e degradada cidade (perto de Región) em que viveu na infância, para dar uma espécie de consultoria sobre uma questão fundiária (e ser confrontado com uma espécie de dívida), para um sujeito que comprou as terras que no passado foram de seu avô e demais parentes; "Luto" conta sobre as razões do hábito de um velho senhor de depositar flores no túmulo de uma mulher com quem pretendia se casar, mas que preferiu cuidar de uma tia amalucada e morreu ainda jovem; Em "Depois" os sucessos gravitam a morte de um velho senhor e da sucessão de seus negócios, que passam a ser administrados por um filho, também já idoso, e que vive encerrado em uma casa afastada. Não são histórias que se deixam ler sem esforço. Nelas, repetidas vezes ficamos sem saber quem está contando os fatos, de quem se fala, se trata-se de realidade ou sonho, memória ou desejo. Nos quatro contos sobressaem-se a decadência (física ou moral), os segredos (públicos ou privados), a memória (sempre cúmplice e traiçoeira), a sensação que já se viveu suficientes privações, mentiras ou contínuo autoengano. Vamos a ver se eu enfrento as grandes magnum opus de Benet: Volverás a Región, La otra casa de Mazón e Saúl ante Samuel. A ver. Sigamos o baile macabro. Vale!
Registro #1590 (contos #184)
[início: 09/06/2020 - fim: 30/10/2020] 
"Você nunca chegará a nada", Juan Benet, tradução de Maria Alzira Brum Lemos, Rio de Janeiro: Editora José, 1a. edição (2008, brochura 10x14, 250 págs, ISBN: 978-85-03-00906-5 [edição original: Nunca llegarás a nada (Madrid: Ediciones Tebas) 1961]

terça-feira, 17 de novembro de 2020

instante infinito

Esse catálogo corresponde a uma exposição de trabalhos dos industriosos Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo, que aconteceu entre 26 de agosto e 16 de outubro de 2017, na Galeria de Arte BDMG Cultural, em Belo Horizonte. Mas não só isso. Há também reproduções de trabalhos produzidos para uma outra exposição de Jorge dos Anjos (Gravadura a Ferro e Fogo, na AM Galeria, em Belo Horizonte, em 2009, na qual Ricardo Aleixo também participou). A edição é bilíngue, com textos em português e inglês, assinados por Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Rogério Faria Tavares e Ricardo Aleixo (que foi o curador da exposição). As fotografias dos trabalhos plásticos são assinadas por André Burlan. O projeto gráfico do catálogo é assinado por Irena dos Anjos e André Burlan. As esculturas de Jorge dos Anjos, peças de aço dobradas, soldadas e vazadas, em grandes dimensões, lembram os trabalhos de Amílcar de Castro e/ou de Franz Weissmann (obras que já vi de perto várias vezes). Sei que seria legal experimentar o impacto estético de ver os trabalhos de Jorge dos Anjos da mesma forma que vi as destes dois grandes escultores. As obras de Ricardo Aleixo incluídas no catálogo são cartazes em grandes dimensões, propostas que envolvem diversos procedimentos técnicos (caligrafia, adesivos, estêncil e carimbo) aplicados à seus poemas visuais. Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo assinam juntos "Gravaduras a Ferro e Fogo", fusão de poemas visuais de Aleixo com letras marcadas/queimadas em telas de feltro, usando enormes "ferretes" de metal. Claro, a experiência de folhear um catálogo, bidimensional, nem de longe alcança reproduzir o que deve ter acontecido nos espaços da galeria de arte onde deu-se a exposição originalmente. De qualquer forma, uma exposição não pode continuar em sua proposta original para sempre (ao menos não em uma galeria convencional). Resta ao vivente curioso os catálogos. Vale registrar que a versão digital deste catálogo é bem bacana e pode ser visto acessada clicando aqui!. Bom divertimento. E cabe dizer também que só em lugares como Inhotim  ou em outras propostas museológicas muito particulares ao redor do planeta tornam possível oferecer perenidade a obras deste tipo (como já conferi no bom livro Arte e Natureza, de Serena Ucelli di Nemi). É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1589 (catálogo #12) 
[início: 01/10/2020 - fim: 11/10/2020]
"Instante Infinito", Jorge dos Anjos, Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Galeria de Arte BDMG Cultural, 1a. edição (2017), brochura 14x21, 64 págs, sem ISBN.

sábado, 14 de novembro de 2020

o livro dos hai-kais

Sempre que mergulhava em doce mel, nos dias em que lia e via o belo livro/homenagem à Massao Ohno, escrito por José Armando Pereira da Silva e publicado pela Ateliê, sobre o qual já falei aqui, eis que consultava meus guardados para tentar achar um ou outro dos volumes editados por ele. Alguns brotavam fáceis, outros tive que investir tempo e paciência para encontrar. Na estante da poesia achei esse belo volume de 1980, que eu comprei na verdade muitos anos depois, ainda nos meus tempos paulistas. A edição inclui, além de poemas de Matsuo Bashô, Kobayashi Isssa e Yosa Buson, sobre os quais falarei mais abaixo, alguns mimos preciosos: (i) um curto ensaio de Octavio Paz, que trata da definição de hai-kais/haikus (que nos ensina ser esta forma poética um arranjo em que três versos de 5, 7 e novamente 5 sílabas compõem uma estrofe e que devem equilibrar uma parte descritiva, enunciativa (temporal e espacialmente falando) com uma parte ativa (relampejante, nas palavras de Paz); uma introdução, assinada por Osvaldo Svanascini, que também trata de explicar as funções poéticas desta forma; algumas boas notas e uma curta, porém fundamental, bibliografia sobre o assunto. São 151 poemas, traduzidos pela também boa poeta carioca Olga Savary, que morreu neste ano das pragas, 2020, ai de nós. Cada conjunto deles é ilustrado por um desenho colorido de Manabu Mabe. Curtas biografias dos três grandes poetas japoneses (que percorrem do século XVII ao século XIX) contextualizam algo da produção de cada um deles. Já falei aqui sobre os milhares de haikus que li de Issa e Bashô, em robustas e maravilhosas edições da Assírio & Alvin. De Buson só havia lido uns poucos, em uma antologia deles, traduzidos por Sérgio Medeiros. Na antologia de Olga Savary (que traduziu os poemas a partir de versões em inglês, francês e espanhol, não diretamente do japonês) encontramos uma pequena mostra de como pode-se encontrar deleite em pequenos objetos, neste encantador livro-arte. Bashô, Issa e Buson falam dos dias, dos espantos, do imanente, do belo, da magia do mundo. ÔBeleza. Só um último registro. Esse volume foi publicado em 1980, em uma edição de 3000 exemplares. Grande Massao Ohno, que editor teria a coragem de fazer algo assim nestes dias aziagos em que vivemos? Vale! 
Registro #1588 (poesia #137)
[início: 25/09/2020 - fim: 14/10/2020]
"O livro dos hai-kais", Bashô, Buson, Issa, tradução de Olga Savary, São Paulo: Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1a. edição (1980), brochura 14x21 cm., 134 págs., sem ISBN

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

notas sobre a pandemia

Esse volume é um autêntico caça-níqueis e eu, ai de mim, por impulso, comprei e li em menos de uma hora (são só noventa e poucas páginas). Acontece, paciência, sigamos o baile macabro. Nele estão reunidos três artigos e três entrevistas publicados originalmente em jornais ou transmitidos pela televisão (Times, Financial Times, The Guardian, CNN, South China Morning Post, Correio da Unesco). São produtos deste ano bizarro, peças curtas produzidas entre março e abril. Os textos entregam o que o título promete, reflexões curtas sobre a pandemia da covid-19. Entretanto, são ainda reflexões bem do início da pandemia, quando as mortes estavam concentradas sobretudo na China, no Irã e na Itália. O número de mortes no final de abril, em todo o mundo, acumulava menos de 200 mil, hoje já superam 1.300 mil. De qualquer forma Harari alcança fornecer "lições" perenes, ainda válidas agora, no final de outubro. Harari sempre fala da história das grandes epidemias que afetaram o homo sapiens, das diferenças de velocidade de transmissão e mortalidade em função do tempo, de como as chaves para o bom combate são a cooperação, a coordenação de esforços, a solidariedade, a confiança no processo científico, a educação científica. Em todos os textos Harari fala também sobre os riscos não exatamente relacionados à doença que corremos, sobretudo os riscos associados ao controle social, as ferramentas de manipulação social, a coleta antiética de dados de saúde individual, as tecnologias disponíveis aos governos que permitem hoje não apenas monitorar a biometria todos os cidadãos, mas também decidir políticas públicas que podem tornar norma o controle populacional. Os temas e considerações de Harari são realmente estimulantes. Pelo acelerado processo pandêmico que todos experimentamos, talvez, outros assuntos tornem-se mais relevantes, outras preocupações mais fundamentais, outros assombros mais vívidos. Quem viver verá. Vale! 
Registro #1587 (crônicas e ensaios #277)
[início - fim: 28/10/2020] 
"Notas sobre a pandemia e breves lições para o mundo pós-coronavírus: artigos e entrevistas", Yuval Noah Harari, tradução de Odorico Leal, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 12x18 cm., 97 págs., ISBN: 978-85-359-3370-3 [edição original: 2020]

sábado, 7 de novembro de 2020

dias e noites

Toni Araújo é de Salvador e, até onde sei, "Dias e noites" é seu primeiro livro. Ele chama de histórias de vida e morte as 27 narrativas enfeixadas no livro. Vou registrá-las aqui como contos. Nas histórias o leitor é levado a confrontar episódios onde quem domina o destino é  a morte, quem reina sobre os viventes são as perdas ou as misérias do cotidiano contemporâneo. Algumas parecem fábulas urbanas, tentativas de contar como somente aceitamos a realidade envolvendo-a em algo de mitologia, de fantasia, de magia. Os livros (ou o amor aos livros) sempre aparecem nelas, assim como sempre surgem a tecnologia (a escravidão digital), a ironia, os medos e os espantos dos homens. Gostei bastante de "Suavidade" em que acompanhamos os últimos momentos de um sujeito inebriado pela morfina, em um hospital; de "Despertar", onde um sujeito procura inspiração literária em um bar e acaba experimentando um surto psicótico; de "Natureza", onde um funcionário exemplar passa por uma metamorfose, após sofrer um AVC; de "Cruz", onde pai e filho vivem uma rotina melancólica e musical. Cito apenas essas quatro por preguiça, pois não quero aqui roubar do leitor a chave de todas as histórias, sempre curtas e interessantes. Vamos a ver o que nos apresentará Toni Araújo no futuro. Vale!
Registro #1586 (contos #183)
[início: 26/10/2020 - fim: 27/10/2020]
"Dias e noites: histórias de vidas e mortes", Toni Araújo, Salvador: República Af, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 188 págs., ISBN: 978-65-80229-01-7

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

solução de dois estados

De Michel Laub já li "Tribunal da quinta-feira" (2017), "Diário da queda" (2011), "Não depois do que aconteceu" (1998) e A maça envenenada" (2013). "Solução de dois estados" é sua proposta mais recente e é realmente interessante. O formato deve algo a um antigo programa de entrevistas que existia na TV Cultura paulista (Ensaio, criado e dirigido pelo grande Fernando Faro). Digo isso pois Michel Laub faz seus personagens responderem continuamente a perguntas em longas entrevistas, mas estas perguntas não são grafadas, o leitor apenas as infere, quase nunca as lê. Estas entrevistas são conduzidas por uma mulher, Brenda, que pretende produzir um documentário sobre violência e envolve dois irmãos em conflito, Alexandre (o mais novo, um empresário do setor de academias de ginástica) e Raquel (a mais velha, uma artista plástica, que trabalha com vídeo arte e performance). A história não segue os fatos cronologicamente. A narrativa alterna fatos do início os anos 1990 e o final dos anos 2010, correspondendo assim aos anos de redemocratização do Brasil, aqueles que se seguiram a constituinte e a eleição de Fernando Collor, seguindo até os sucessos mais recentes (de 2013 a 2018). Assim como nosso país alternou momentos de entusiasmo, ufanismo e delírios de grandeza (sempre artificiais, já sabemos) e a experiência prática de desgraças, corrupção generalizada e vocação para a mediocridade (sempre inevitáveis, também já sabemos) a vida da família de Raquel e Alexandre reveza pontos baixos e altos, perdas e ganhos. No início acompanhamos como a empresa gerenciada pelo pai dos dois irmãos é levada a falência em decorrência do heterodoxo  plano Collor, programa imbecil, um dentre muitos deste país pródigo em programas, plataformas e decisões estúpidas. Os dois irmãos vivenciam de forma diferente o impacto da falência da empresa na vida dos pais (Raquel algo blindada, pois vive na Europa, estudando, Alexandre no redemoinho dos problemas brasileiros, justamente quando tem que decidir qual curso fazer na universidade). Laub não cai no erro de tentar fazer história ou ficar discutindo economia em seu romance. O conflito do livro gravita a repercussão de uma agressão física que Raquel sofre durante uma de suas performances públicas, já quando vive no Brasil, agressão que ela associa à disputa com Alexandre pelo espólio da família e ele associa a vida hedonista da irmã. Os diversos fragmentos de entrevistas que compõe a narrativa dão conta de exemplificar como a verdade nunca é plana quando membros de uma família contrastam suas interpretações da realidade imediata, ou falam dos fatos, do passado e de si mesmos, ou têm interesses econômicos distintos, se imaginam moralmente superiores uns aos outros, ou são hipócritas. As reflexões sobre política, economia, sociologia e psicologia que os personagens esgrimem parecem pajelanças, mostram ser ferramentas tímidas, inadequadas, que não se prestam a explicar como brasileiros em fúria se comportam, já que aqui ódio e desentendimento mútuo é norma, é lei. Laub, claro, parece interessado em entender o terrível país em que vivemos, não dogmatiza, não oferece chaves fáceis de interpretação. Talvez a palavra não dita no livro, mas que o domina, silente, é memória, ou seja, nossa incapacidade de lembrar corretamente o que vivemos, como indivíduos e como grupo social, sempre mais interessados em retificar as verdades do passado (as nossas e a de todos os demais, tarefa inglória, já se sabe). Assim como a "solução de dois estados" original (o projeto de criação e de coexistência pacífica entre Israel e Palestina), os dois irmãos parecem viver duas realidades distintas demais para que possam um dia coabitar num mesmo lugar e tempo, ou para que possam, um dia, se amar. Belo livro. Vale!
Registro #1585 (romance #391)
[início: 21/10/2020 - fim: 23/10/2020]
"Solução de dois estados", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 243 págs., ISBN: 978-85-359-3379-6

domingo, 1 de novembro de 2020

poesie

Esta antologia de poemas de Augusto de Campos foi produzida pela Demônio Negro e lançada durante a exposição "Poesie ist Risiko", de poesia concreta, que aconteceu em Zurique, na Suíça, entre outubro e novembro de 2019 (tratava-se de uma colaboração com a Universidade de Zurique e com curadoria dos poetas e professores Eduardo Jorge de Oliveira e Vanderley Mendonça). A antologia é bilíngue. Simone Homem de Mello assina a tradução dos poemas de Augusto de Campos para o alemão e também um detalhado prefácio (valei-me meu são Goethe, o Alzheimer parece que comeu o que restava de meu alemão, preciso estudar mais, definitivamente). Paciência. Em "Poesie" encontramos trabalhos criados num período longo, de quase seis décadas, desde o primeiro volume publicado ("O rei menos o reino", de 1951) até propostas da primeira década do século XXI, como Contemporâneos, de 2009. Cabe dizer que Augusto continua ativo e produzindo, fazendo notável uso de várias mídias e/ou suportes digitais. Um neófito da poesia concreta tem chance de ilustrar-se um bocado com este livro. Encontramos várias daquelas propostas que provocam espantos e encantam o leitor até hoje: Poetamenos (de 1953); Ovonovelo (de 1956), Pluvial (de 1959); Cidade/City/Cité (de 1963); Luxo (de 1965); Viva Vaia (de 1972), Não (de 1990), dentre tantas outras. Na falta desta bela edição à mão, a melhor forma de "ver" a poesia de Augusto de Campos é procurá-la no Google (experimente, por exemplo, clica aqui!). Bom divertimento. Em tempo: esse volume será lançado oficialmente no Brasil no próximo dia 03/11, terça-feira, no Instituto Goethe Paulista, e que pode ser acompanhada pelo Facebook (clica aqui!). Vale!
Registro #1584 (poesia #136)
[início: 01/10/2020 - fim: 30/10/2020]
"Poesie", Augusto de Campos, edição bilíngue (português e alemão), tradução de Simone Homem de Mello, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 115 págs., ISBN: 978-85-66423-70-9

terça-feira, 27 de outubro de 2020

despedida

"Despedida: Poemas en tiempos del virus" é o volume mais recente de poemas de Cees Nooteboom. Foi lançado há pouco, em julho. O título e o tom remetem, claro, à morte, ao fim, à uma última vez, ao adeus, mas Nooteboom sabe brincar com o leitor, e sabe que nada está predestinado, nada é finito, mesmo estando todos nós vivendo o impacto desta pandemia dos diabos. Nooteboom nasceu em 1933. À exemplo de seu volume anterior de poemas (Ojo de monje), encontramos nesse "Despedida" 3 conjuntos de 11 poemas, ou seja, 33 poemas, 33 quartetos todos eles (a edição é bilíngue, mas ao menos na tradução que li, em espanhol, são quartetos não rimados, onde faz-se uso notável de enjambement). Os enjambement dos últimos versos dos poemas capturam o olho do leitor e forçam uma interrupção extra na leitura (esperamos um pouco mais antes de virar a página, pensamos no efeito daquela frase truncada, antes de começar o poema seguinte). Os poemas começam na fundamental Menorca de Nooteboom, na cidade de Sant Lluís, em novembro de 2019. Como todos nós, ele e seus poemas foram capturados pela pandemia, de forma que os últimos deles foram compostos em sua Holanda natal, em Hofgut Missen, em abril deste 2020. No primeiro conjunto o narrador do poeta vê-se em seu jardim espanhol, não no verão luminoso das ilhas Baleares, mas já no inverno. Ele cuida das plantas, vê fotografias antigas, lê jornais, lembra de seus dias de criança, da segunda grande guerra, da morte do pai, dos seres que passam pela cidade ou marchando em triunfo ou arrastando a dor da derrota. Dois eus surgem e o narrador vê-se como uma garça. No segundo conjunto o narrador reflete sobre o entorno, sobre os personagens criados pelo autor, os mortos, o sentido da vida, o ofício do escritor. No terceiro conjunto os poemas falam de como as pedras são o melhor substrato para a verdade, lembra de sua ilha, daquilo que se perdeu, das perdas, da velhice, de como Orfeu tentou mas não conseguiu seguir sem olhar para trás, do medo de se perder a voz poética. A palavra que mais aparece no livro é "cabeças". Difícil dizer o quê são. Serão as gentes, os personagens dos livros, os inventados? Serão os amigos, os senhores dos mundo, os atores da realidade? Serão os mortos-vivos, os escravos mentais, a maldita gente má que nos sufoca? Em algum momento se pergunta: "Cuántos misterios puede uno suportar?". No final, um réquiem: "Ahora el silencio / es la distancia restante, / sin memoria / no hay vida. // He dejado de oír / mis pasos, / lo que me rodea / permanece oculto. // A ciegas prosigo mi camino, un pálido perro / en el frío. Debe de ser aquí, / aquí me despido de mí mesmo / y lentamente me transmuto en // nadie". Eu - e o Daniel Dago, certamente - vamos esperar mais coisas de Cees Nooteboom, vamos esperar algo mais deste adorável viajante dos sentidos, deste sensível e antenado senhor. Evoé don Cees, Evoé. Vale!
Registro #1583 (poesia #135)
[início/fim: 14/10/2020] 
"Despedida: Poemas en tiempos del virus", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía #MCIX), 1a. edição (2020), brochura 12,5x19,5 cm., 88 págs., ISBN: 978-84-9895-409-8 [edição original:  Afscheid: gedicht uit de tijd van het virus (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2020].

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

línea de fuego

A Guerra Civil Espanhola durou pouco menos de três anos (de 17/7/1936 a 01/04/1939). Morreram nela aproximadamente 500 mil pessoas (há quem diga que foram apenas 150 mil e há outros que afirmam que o número de mortes alcançou 1 milhão). De qualquer forma foi uma das guerras mais sangrentas do século XX, período não exatamente conhecido por valores humanistas e pacíficos. O custo social foi enorme. A ditadura franquista vencedora, que ficaria no poder por 36 anos, até meados dos anos 1970, ainda provocaria muitas mortes e o exílio de milhares de espanhóis. Arturo Pérez-Reverte, prolífico autor de trinta romances e de vários volumes de crônicas, lançou recentemente um “relato” (em suas palavras) sobre a Guerra Civil dos espanhóis. Suas motivaçôes são explicadas por ele mesmo nesta boa entrevista: Librotea El país. Sua proposta é narrar uma história de ficção, ou seja, não se trata de história, de análise política ou de sociologia. Ele situa esse seu relato em uma das batalhas mais famosas da Guerra Civil, a batalha do Ebro. A batalha real aconteceu entre 25/7/1938 a 16/11/1938 (pouco menos de quatro meses). Morreram nela aproximadamente 80 mil pessoas, em uma região de aproximadamente 800 Km². No recorte ficcional de Pérez-Reverte os sucessos acontecem em uma cidade imaginária que ele chama de Castellets del Segre, na qual, em seus 35 Km² e nos primeiros dez primeiros do conflito, morrem 3.000 pessoas. Ele povoa o romance/relato com personagens icônicos do mosaico de participantes da conflagração real: comunistas, socialistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas, brigadistas internacionais, nacionalistas, legionários, monarquistas, carlistas, fascistas, nazistas, falangistas. O tom não é pedagógico, mas percebe-se que Pérez-Reverte quer oferecer ao leitor a experiência da complexidade da Guerra Civil, que não pode ser resumida em platitudes como “a luta em defesa da civilização cristã contra a barbárie comunista” (dos que se afeiçoam com o discurso nacionalista de Franco, que vencerá o conflito) ou “a luta do bem contra o mal” (na igualmente vazia retórica dos republicanos, o grupo derrotado). De qualquer forma, Pérez-Reverte lamenta, em suas entrevistas, o uso "bastardo", político ou ideológico da Guerra Civil que domina os discursos contemporâneos, eclipsando o lado humano, a realidade da dor e horror, pois aqueles que participaram diretamente já estão hoje, quase todos, mortos. Não me atrevo aqui a fazer uma sinopse das quase 700 páginas do volume. É um livro fácil de ler, pois somos rapidamente capturados pela boa prosa de Pérez-Reverte. Distribuídos em três partes (e em dezenove capítulos e um epílogo), o autor alterna cenas dos dois grupos em guerra. Algumas destas cenas permitem a ele fazer alguma filosofia sobre as motivações de cada um dos envolvidos; outros distendem a tensão e o acúmulo de mortes com tiradas cômicas e jocosas; outros ainda oferecem oportunidade para discussões sobre questões de estratégia, de táticas ou para descrever os armamentos utilizados e a indumentária (nem todos usavam uniformes nesta guerra). Há também personagens femininos e uma criança, personagens que permitem discussão sobre o especial papel das mulheres e dos jovens nas guerras e sobre o impacto da carnificina neles. Pérez-Reverte trabalha muito bem os modos de falar e sotaques dos muitos grupos em luta, inclui canções, bravatas e coplas utilizadas como ferramentas motivacionais nas trincheiras. A melhor dupla de personagens é formada por Ginés Gorguel, um abobado carpinteiro do interior de Albacete, e Selimán al-Barudi, um legionário marroquino, um mouro, que combatem juntos no lado franquista e se tornam improváveis amigos. Também é muito interessante o papel de um jovem alferes, Santiago Pardeiro, que aplica com sabedoria tudo o que aprendeu na escola militar, ganhando respeito de seus comandados, todos legionários já bastante mais velhos e experimentados em batalhas. Outro personagem interessante é Saturiano Bescós, um aragonês, pastor de ovelhas, que garante momentos de descontração na trama com seu sarcasmo, senso de oportunidade e objetividade. Entretanto, é verdade que todos os demais protagonistas cumprem bem seus papéis, neste mosaico de vidas inventadas (Julián Panizo, um dinamitador comunista; Bascuñana, um cético capitão da marinha, perdido nas montanhas e vales do leste espanhol; Pato Monzón, uma disciplinada e idealista especialista em comunicações; Tonet, o garoto de 12 anos, que escolhe ajudar o grupo nacionalista mais por diversão que por ideologia; Vivian Szerman, uma curiosa jornalista americana, que sonha viver aventuras, e as vivedolorosamente; Oriol Les Forques, um catalão “requetés”, para quem a guerra era uma nova cruzada cristã; O’Duffy, um sonhador major irlandês das brigadas internacionais; Phillip Tabb, um fotógrafo destemido; o major Emilio Gamboa, que luta pelos republicanos, mas reluta em aceitar interferência dos comissários políticos russos nas questões militares). O leitor percebe rapidamente que o núcleo das forças militares nacionalistas é mais profissional, enquanto nas tropas republicanas o comando é caótico,  improvisado. Em seu livro não há grandes nomes (acho que ele só grafa “Franco” uma vez). No campo de batalha todos são quase anônimos, confia-se em apenas uns poucos camaradas, em pessoas com quem se partilha o perigo da morte. Os 3.000 mortos inventados por Pérez-Reverte, a grande maioria do lado republicano, são quase todos crianças, de 17 anos, se tanto, recrutados por que alcançaram este número mágico, não  alguma maturidade; ou indivíduos sem instrução militar alguma, capturados em cidadezinhas e forçados a lutar; ou sonhadores estrangeiros, que imaginavam lutar contra o fascismo, o mal encarnado, mas eram apenas carne barata à serviço dos planos estratégicos maiores de Stálin; ou ainda militares patriotas, cuja expertise sempre morria no fogo cruzado das ideologias, emaranhados nas quimeras de uma revolução global, que jamais acontecerá. Ele também nos ensina que em uma guerra não se morre por causas nobres, por conceitos abstratos, por bandeiras ou por líderes. Morre-se por um passo mal dado, por um cigarro acesso em hora imprópria, por fogo amigo, pelas costas, por puro azar, por uma arma que trava quando não devia, por uma ponte que cai, por intrigas de caserna e trincheiras, por falta de medicamentos, de fome, sede ou frio, por injustas acusações de covardia, por inabilidade, por uma palavra mal dita, por um documento errado ou foto familiar carregada na carteira, por um crucifixo, ou a falta dele, no pescoço. A verdade não é revolucionária, já se sabe, pois ela morre sempre no primeiro dia de cada grande batalha. Todavia, a verdade ficcional de Pérez-Reverte está registrada em um grande livro, que viverá por mais anos que aqueles que dela participaram. Parece ter funcionado o esforço de trazer o lado humano da Guerra Civil para o primeiro plano da discussão contemporânea. A repercussão - e as vendas - na Espanha é enorme. Muitos políticos ou simpatizantes de ideias de esquerda ou direita condenaram o livro, claro. Mas tanto a crítica honesta, quanto o público leitor, parece pouco interessado em disputas ideológicas, no discurso fácil, sempre dirigido apenas aos acólitos e escravos mentais dos dois bandos. Pouco importa. Como disse recentemente Pérez-Reverte em sua conta no Twitter: "Por supuesto, eso va a indignar a los que viven de lo simple, de señalar buenos y malos desde ambos extremos de la política española, los ultras,  sectarios y paniaguados de derecha y de izquierda, necesitados siempre de blanco y negros, enemigos de los matices y complejidades que les estropean el discurso fácil. También indignará a los tontos. Y seré muy feliz cuando eso ocurra, pues entonces habré logrado mi objetivo. Que empiecen a chillar las ratas". É verdade. Quem for capaz de reclamar deste grande livro é mesmo um rato, um homem oco, crâneo recheado de palha, que apenas grita palavras vazias.Vale!
Registro #1582 (romance #390)
[início: 14/10/2020 - fim: 17/10/2020] 
"Línea de Fuego", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2020), brochura 15,5x24,5 cm., 683 págs., ISBN: 978-84-204-5466-5