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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

explora madrid

Já registrei aqui algo das boas lembranças que tenho de Madrid ("Escrito en el cielo", "Guia Madrid diferente"). De tempos em tempos leio algo sobre a cidade. Esse "Explora Madrid" é um volume fartamente ilustrado. Encontramos dezenas de reproduções fotográficas, gravuras, desenhos, pinturas, mapas. Os textos são curtos. Tratam da história e de anedotas, causos populares, lendas urbanas. Não é propriamente um guia turístico, nem tampouco está desatualizado. Os autores tentem a valorizar aspectos não exatamente históricos, antes sim indiscrições, mexericos, fofocas que ficaram populares. Eles também enfatizam que o segredo de um bom turista é ter novos olhos a cada visita, pois os descobrimentos são pessoais, intransferíveis. De qualquer forma, o livro é dividido de forma canônica. Um terço corresponde a geografia e história formal da cidade, descrevendo os vestígios urbanos da Madrid Medieval, da Madrid de los Austrias, da Madrid de los Borbones. Comentários sobre mais de trinta lugares são apresentados em um mapa, o que ajuda o leitor a localizar-se e deambular pela cidade. Os dois terços restantes são divididos em três partes: uma trata de lugares associados a causos bizarros, mortes, assassinatos, as tais lendas urbanas; uma a lugares de encanto, onde amores virtuosos ou proibidos se consumaram; uma última sobre as Tabernas ou Casas mais castizas (genuínas, tradicionais) de Madrid. O livro inclui também uma última seção, onde se fala de curiosidades histórias e apresenta as receitas mais tradicionais da cidade. Por fim, uma farta bibliografia ajuda o leitor curioso a procurar mais informações. O leitor aprende um bocado lendo os ensaios incluídos no livro, mas apenas folheá-lo, com calma, vagabundo, sem medo, já faz a alma um grande bem. Vamos em frente. Vale!
Registro #1565 (turismo #16)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Explora Madrid", Fátima de la Fuente del Moral e Enrique Fernández Envid, Madrid: Ediciones La Librería, 1a. edição (2017), brochura 21x21 cm, 212 págs., ISBN: 978-84-9873-361-7

sábado, 29 de agosto de 2020

barcelona: secretos a la vista

Foi Sílvia Serra, amiga querida, desde sua fundamental Barcelona, quem falou-me de Xavier Theros, um conterrâneo seu, escritor e antropólogo, que recentemente recebeu um prêmio literário. Encomendei alguns livros dele e comecei por "Barcelona: Secretos a la vista", publicado em 2015. São 90 crônicas, publicadas originalmente no jornal espanhol El País, e que podem ser consultadas no site deles: clika! Cada crônica é acompanhada de uma fotografia, sendo que no livro elas estão em preto e branco, e no site do jornal, em cores (fotografias assinadas por Tamara López Seoane). Não são textos ligeiros, escritos para atrair turistas ou para mitigar saudades em quem um dia deambulou por aquela bela cidade. Theros parte de pequenos detalhes arquitetônicos, de esculturas, de cartazes de propaganda, de grafites, de objetos que vê perdidos nas ruas (dentre tantos outros vestígios urbanos) para contar histórias de lugares, evocar o passado, capturar a passagem do tempo, descrever as metamorfoses da cidade. Xavier vai a museus e praças, a bares e restaurantes, visita fábricas antigas e cemitérios, percorre estações de metrô, rememora séries e filmes de sua juventude, conta notícias que se transformaram em fábulas urbanas, vaga pelos bairros de todo o entorno da cidade (do Besòs ao Llobregat, da orla do Mediterrâneo à Serra de Collserola), conta anedotas e causos bizarros. O autor procura ensinar aos leitores o prazer de descobrir nas pequenas coisas algo transcendental, mágico, algo que guarda, ainda não corrompida, a verdade de um tempo, de uma sociedade, de uma cultura. Apesar o lirismo das evocações, não há melancolia nelas. Trata-se de um exercício cerebral, de uma educação dos sentidos, de uma desaceleração, que permite a cada um entender a urbe e a si mesmo. A experiência pessoal de Xavier é intransferível, mas seu método não. Podemos aplicá-lo em nossas cidades, em nossos bairros; procurar, nos escolhos de nossa memória, a mesma magia que ele alcançou registrar em seus relatos; devemos nós também louvar nossas cidades, por mais defeitos e problemas que tenham. Lembrei-me de um poema do catalão Joan Maragall, "Oda nova a Barcelona", que termina assim: "(...) Tal com ets, tal te vull, ciutat mala: és com un mal donat, de tu s'exhala: que ets vana i coquina i traïdora i grollera, que ens fa abaixar el rostre. Barcelona! i amb tos pecats, nostra! nostra! Barcelona nostra! la gran encisera!", [(...) Eu te quero do jeito que você é, ó cidade má / tu és como um mal imposto, que emana de ti, porque és vaidosa e travessa e traiçoeira e rude, que temos que baixar nossos olhos / Barcelona! com todos os seus pecados, é nossa! é nossa! / Nossa Barcelona! A grande feiticeira!]. Que saudades tenho da velha feiticeira, da especialmente bela Barcelona. Vale! 
Registro #1559 (turismo #15) 
[início: 19/07/2020 - fim: 28/07/2020]
"Barcelona: Secretos a la vista", Xavier Theros, fotografias de Tamara López Seoane, Barcelona: Editorial Comanegra, 1a. edição (2015), brochura 16,5x23,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-16033-74-4

sábado, 7 de março de 2020

cape town day by day

Passei uns dias na África do Sul em fevereiro passado (e fiz um registro aqui, do bom Guia DK). Depois da experiência mágica com os animais no Shiduli (no Karongwe Private Game Reserve) começamos a segunda parte do passeio, viajando quase 1.900 Km, de Hoedspruit, que fica a pouco menos de 150 Km da fronteira com Moçambique, no Nordeste sul-africano, até Cape Town. The Mother City, como os sul-africanos a chamam, é uma bela cidade do extremo sudoeste africano, segunda cidade do país em população e sede do poder legislativo sul-africano (cada um dos poderes tem sede em cidades diferentes: o executivo em Pretória, próxima a Johannesburg; o judiciário em Bloemfontein, no centro do país). A grande Cape Town tem aproximadamente 4 milhões de habitantes. Claro, não posso dizer que a conheci. Vi um tanto dos pontos turísticos mais óbvios: Table Moutain, o belíssimo porto (V&A Waterfront), a Greenmarket Square, o Company Gardens, o casario da Long street, a remota Cape Point, fustigada pelos ventos e neblina, as vinícolas de Constantia, Stellenbosh e Franschoek. É uma cidade muito bonita, com camadas de história e que atraiu ao longo do tempo pessoas de lugares muito diferentes (etnias diferentes, línguas diferentes, hábitos diferentes). Com a expertise do povo da Akilanga hospedei-me num bom hotel, o AC Marriot, fiz bons passeios, com guias. Fui a bons restaurantes, flanei sem culpa, como sempre deve ser. As pessoas são especialmente sorridentes e sempre falam entre si em línguas indecifráveis (são onze os idiomas oficiais da África do Sul). A questão do racismo paira sobre tudo (nos programas de TV, nos jornais, nos restaurantes e na periferia). Mas não tenho tino para fazer aqui sociologia selvagem, nem posso sintetizar adequadamente a miríade de coisas que vi (as opiniões que construímos quando visitamos um lugar novo, uma cidade nova, são frequentemente bestas demais para ter algum valor para os demais). Mas faço sim esse curto registro para dizer que este guia de viagem da Frommer's é realmente muito bom. Além dos mapas e da descrição dos passeios possíveis, o guia também oferece ao leitor muita informação histórica, sobre a geografia, descreve possibilidades práticas para o dia a dia, fatos e curiosidades. Agora que já conheci a África do Sul penso em um dia voltar, mas não para Cape Town. Gostaria fazer outros roteiros pelas reservas, mais safaris e aproveitar o silêncio das bush, cruzar a fronteira para ver as Cataratas de Vitória, ir a região leste, como Durban, lugares onde a influência indiana e malaia foi notável, conversar mais com as gentes, deixar-me levar pelos lugares sem a pressão do primeiro e inevitável enigma da chegada. Quem sabe. Vale!
Registro #1497 (turismo #14) 
[início 20/07/2019 - fim: 19/02/2020] 
"Frommer's Day by Day: Cape Town (book 115)", Lizzie Williams, West Sussex/England: John Wiley and Sons, 1a. edição (2009), brochura 10,5x18,5 cm, 184 págs., ISBN 978-0-470-72121-6

quarta-feira, 4 de março de 2020

áfrica do sul

Quando se vê a África do Sul em um mapa convencional ela parece pequena, ali no extremo Sul do continente africano. Mas sua área equivale a soma dos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, aproximadamente um sétimo da área do Brasil. Cape Point, o Cabo da Boa Esperança, no extremo Sudoeste do país, está aproximadamente na mesma latitude de Buenos Aires ou Montevidéu. Polokwane, a capital da província de Limpopo, no nordeste sul-africano, próximo a fronteira com Moçambique e Zimbábue, está aproximadamente na mesma latitude da cidade de São Paulo. Enfim, trata-se de um país enorme, de longas distâncias e muita variedade de paisagens, hábitos e gentes. Em fevereiro passado passei uns dias por lá. Começamos nosso passeio por uma reserva de observação de animais, o Karongwe Private Game Reserve, num Lodge/Hotel chamado Shiduli. Esse Lodge fica há 70 Km do aeroporto de Hoedspruit, que por sua vez fica a 450 Km do aeroporto de entrada, na capital do país, Johannesburg. A experiência de ver os animais de perto, fora de jaulas, não escondidos sob a deprimente lona de um circo, é impressionante. Mesmo que você tenha reservas contra a ideia de importunar animais que prefeririam viver sem serem importunados. Foram dias divertidos e de descanso, de descobertas e uma certa reeducação dos sentidos. Como sou obsessivo, preparei-me para a viagem lendo um bom guia de viagens. Na verdade juntei e li uns cinco ou seis, mas só farei o registro aqui deste, sobre a África do Sul, e de um outro, sobre a cidade de Cape Town. Assim como já havia feito quando de uma viagem para Berlim, em 2014, este Guia Visual da DK (do Grupo Penguin Randon House) mostrou ser a melhor das formas de antecipar um tanto os prazeres da viagem. Todas as indicações, informações, descrições importantes são ilustradas, as fotografias e os mapas realmente ajudam o leitor a se localizar-se espacialmente nos locais que visita. Os textos são também um tanto mais longos que aqueles típicos dos demais guias. Se obviamente não esgotam os temas, ao menos sugerem ao leitor as chaves necessárias para procurá-las rapidamente em outros lugares. As sessões do guia sobre a história do país, suas províncias, o enigma das distâncias e dificuldades de deslocamento, hospedagem, restaurantes e bares, locais para compras e serviços são objetivas, claras. As propostas para estadias feitas de acordo com o número de dias que o leitor ficará na cidade pareceram exequíveis, mas quem nos ajudou com os diabólicos detalhes foram o Miro e o povo da Akilanga. O que mais gostei nesse guia são as sessões dedicadas aos animais e a descrição dos muitos parques nacionais (sempre enormes) e espaços públicos. As plantas baixas e ilustrações levam o leitor pelo labirinto de cidades, casario, estradas, aeroportos. Claro, nada supera a experiência do encontro com as coisas reais ou mesmo a surpresa de um achado, de uma mudança de planos, de uma sugestão de última hora que acolhemos (ou somos forçados a aceitar). As coisas mais memoráveis de qualquer viagem são em geral produto de associações que cada indivíduo faz por acaso durante a sua e são intransferíveis para os demais. Todavia, aqueles que costumam viajar espiritualmente por meses antes de se atreverem a enfrentar controles de passaportes, máquinas de raios-X, o medo de perder malas e se acidentar, irão gostar deste guia, um tipo generoso, um bom companheiro de viagem. Vamos em frente. Hoje é o primeiro de meus dias com 59 anos, começo a aventura de vivê-los. Vale! 
Registro #1496 (turismo #13) 
[início 19/08/2019 - fim: 20/02/2020] 
"África do Sul: Guia Visual Folha de São Paulo", Vivien Crump (editora), São Paulo: Publifolha (Grupo Folha), 8a. edição (2017), brochura 13x22 cm, 464 págs., ISBN: 978-85-7402-364-9 [edição original: DK Eyewitness Travel Guide: South Africa, (London: Dorling Kindersley / Penguin Randon House) 1992, 2017

segunda-feira, 25 de junho de 2018

guía madrid diferente

Os guias de viagem costumam envelhecer mal, pois tudo de factual neles pode muito bem mudar (e certamente muda), mas eles também guardam para nós algo que foi vivido quase sempre com intensidade, com gozo e, talvez por conta disto, nos recusamos facilmente a desfazer-se deles. O caso desse "Guía Madrid diferente" não caberia ser apresentado assim. Afinal comprei esse volume apenas no início desse ano e não o utilizei efetivamente em uma viagem, ao menos não nessa sua metamorfose, a de um livro impresso. Na última vez em que estive em Madrid consultei sim sua versão digital, que foi muito útil e me facilitou descobrir cousas novas pela cidade (nunca conheceremos completamente nem a cidade onde nascemos, o que dizer daquelas que apenas visitamos brevemente ou nas quais vivemos por temporadas longas apenas depois de já cínicos e mal acostumados pelo hábito, fiel e cruel camareiro. Só sei que aprendi um bocado com esse guia. Ao alcance de seu celular ou num computador você encontra tudo o que precisa saber sobre a cidade: onde comer e fazer compras, hospedar-se, desfrutar de tudo com calma e sem culpa, encontrar a agenda de eventos e espetáculos, os serviços essenciais. Ótimo, entretanto a versão em livro oferece algo mais. Trata-se de um objeto mágico, um livro de arte, colorido e ilustrado, repleto de informações e histórias nas quais dificilmente prestamos atenção na versão digital, apressados que estamos. Claro, nada supera a realidade de uma viagem, daquela sensação que tão bem Josep Pla descreveu como um "milagre vivido". Esses escolhos na forma de livros que eventualmente distribuímos pela casa nos fazem voltar calmamente àqueles dias de magia e encantamento, de ansiedade e descobertas, de epifanias sem fim, em que vivemos "drowning in honey, stingless". Vale!
Registro #1274 (turismo #72) 
[início: 25/01/2018 - fim: 11/02/2018]
"Guía Madrid diferente: La cara más genuina de la ciudad", Martín López Cano, Madrid: Ediciones La Libreria (Madrid Diferente),1a. edição (2016), brochura 15x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-9873-340-2

quarta-feira, 20 de junho de 2018

paseos por venecia

Já enfeitiçado por Donna Leon e seus romances policiais, encomendei esse livro de Toni Sepeda. Nele estão descritos os caminhos trilhados por Guido Brunetti e os demais personagens dos livros de Leon, que sempre exploram a mítica Veneza. "Paseos por Venecia" entrega ao leitor exatamente aquilo que o título promete: são descritos doze passeios que um entusiasta dos livros de Donna Leon poderá percorrer a pé por Veneza, cada um deles em uma ou duas horas, assim como a indicação de como se deslocar até as ilhas da laguna veneziana: San Michele, Murano, Burano, Le Vignole, Lido, San Servolo e Pellestrina. Nos mapas correspondentes a cada passeio são apresentados os pontos principais que podem interessar o leitor: os palácios, restaurantes e bares, os museus, praças e pontes, os mercados, lojas e igrejas, os canais, cafés e monumentos públicos. Cerca de metade do livro corresponde a transcrições de passagens dos originais de Donna Leon, inseridas ao longo das rotas que a autora (Sepeda) oferece ao leitor. A edição original é de 2008, portanto estão incluídas nestas rotas transcrições dos primeiros dezessete livros (que somam hoje vinte e oito, Donna Leon sabe ser prolífica). Mas não são as transcrições o que mais interessam neste livro. O leitor acompanha o caminho de um afeto, o de Toni Sepeda pelos livros de Donna Leon, todavia cada leitor poderá inventar o seu, propondo outros cruzamentos, outras aventuras, afinal nem tudo é objetivo nas viagens, nem tudo segue o roteiro imaginado antes delas, e o melhor meio de conhecer uma cidade é perder-se nela, reencontrando-se apenas horas depois. Muito interessante. Vale! 
Registro #1269 (turismo #11) 
[início: 03/05/2018 - fim: 15/05/2018]
"Paseos por Venecia con Guido Brunetti", Toni Sepeda, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 326 págs., ISBN: 978-84-322-3183-4 [edicão original: Brunetti's Venice (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2008]

segunda-feira, 3 de julho de 2017

blumenau planeta verde

Em um dia de maio, por conta de uma missão acadêmica, tive a sorte de visitar Blumenau. Meus anfitriões da IBES, generosos, presentearam-me com esse belo volume comemorativo dos 150 anos de fundação da cidade. Trata-se de uma edição trilíngue, com textos reproduzidos em português, inglês e alemão. Fartamente ilustrado, o livro é bem mais que um objeto decorativo que poderíamos encontrar e  folhear displicentemente em uma sala de espera qualquer. Acontece que depois que o abrimos dificilmente o deixamos de lado. As imagens são impressionantes. As cenas capturadas registram vividamente os momentos festivos, a passagem do tempo, a rica arquitetura, a diversidade do povo, o colorido da flora e fauna do lugar. As fotografias são assinadas por dois irmãos, Rafael e Daniel Curtipassi. Os textos, assinados por Daniel Curtispierre, dão conta dos acontecimentos mais importantes da cidade: as circunstâncias de sua fundação, os ciclos migratórios que recebeu, a biografia das pessoas que viabilizaram seu crescimento, sua vocação industrial, as atividades culturais e esportivas, a Oktoberfest, o empreendedorismo de sua gente, o terrível impacto das grandes enchentes do rio Itajaí-Açu, a alegria das festas e a diversidade da rica gastronomia que definem aquele lugar. Os textos são bacanas, mas o livro impressiona mesmo pela qualidade das fotografias incluídas nele. Para conhecer melhor as cidades que visito costumo comprar livros de autores locais, pois sei que não é raro que uma cidade tenha sorte e conte com bons cronistas. Não tive tempo de apurar qual é o sujeito que registra o cotidiano de Blumenau com mais engenho e arte. Arrisquei e comprei dois livros de uma escritora de lá, Urda Klueger, mas ainda não tive tempo de ler seus contos e causos. De qualquer forma, sei que juntamente com "Blumenau planeta verde" os livros da Urda me ajudarão a conhecer melhor essa bela cidade. Agradeço mesmo o Mário Henrique e toda sua equipe pelo belo presente. Inté.
[início: 05/05/2017 - fim: 10/07/2017]
"Blumenau: Planeta verde / Green Planet / Grüner Planet", Daniel Curtipassi, Rafael Curtipassi e Daniel Curtipassi (fotografias), Curitiba: Editora Laz Audiovisual, 1a. edição (2001), capa-dura 28,5x28,5 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-88417-01-4

quarta-feira, 10 de maio de 2017

homenagem a barcelona

Admirado com o acabamento da boa edição que "As ilhas gregas" de Lawrence Dürrell ganhou da portuguesa Relógio D'água resolvi comprar outros volumes da coleção de livros de viagens deles. "Homenagem a Barcelona" é de Colm Tóibín, premiado escritor irlandês. Ele viveu em Barcelona por muitos anos e aprendeu a amar a cidade. Isso costuma acontecer após algum tempo, mas não com todo mundo, nem o tempo todo, pois não é fácil, como parece ao experimentarmos os primeiros deslumbramentos, entender as sutilezas e matizes do caráter dos catalães. Ele viveu em Barcelona quase ininterruptamente entre 1975 e 1978, mantendo-se com aulas de inglês e morando em apartamentos baratos. Depois voltou à cidade, em um ano sabático, já escritor experimentado e com algum dinheiro, em 1988, justamente por encomenda para escrever esse livro, antecipando a curiosidade dos leitores europeus com os sucessos que viriam com a Olimpíada de 1992. O livro é antigo, de 1990, foi parcialmente reescrito em 2002, mas muito daquilo que Tóibín registra é perene, já que nem de longe se trata de um livro para fins turísticos. Gostei particularmente de suas reflexões sobre história e política, sobretudo sobre a guerra civil espanhola, pois ele rapidamente, e com clareza, explica a complexidade das forças políticas e interesses cruzados experimentados pelos cidadãos, seja sobre o período da guerra civil, seja sobre o período que se segue a redemocratização, com a morte de Franco. Tóibín é muito feliz em sua técnica de utilizar um artista plástico, poeta, músico ou arquiteto (Picasso, Miró, Dalí, Casals, Lorca, Maragall, Cerdà, Montaner, Gaudí e Cadafalch) para com ele trilhar uma parte de Barcelona, um parque ou edificação, um período de tempo da história da cidade ou o interior profundo da Catalunha. Seus comentários sobre a língua catalã e as relações sociais dos catalães me pareceram menos brilhantes que os registros políticos e/ou históricos. Para entender algo sobre arte e arquitetura ainda prefiro o detalhamento que se encontra no livro de Robert Hughes, mas esse livro de Tóibín tem algo o Hughes não tem, parece ser mais familiar, quente, menos crítico, definitivo e frio. São experiências de leitura muito diferentes. Escritor talentoso como é, ele enfeitiça o leitor com sua prosa envolvente, criando imagens incríveis das festas, danças, explosões de fogos, dos bares e restaurantes, das mitologias antigas que brotam do chão e das pedras da cidade. Sua descrição das festas da paixão e de Páscoa em um pequeno vilarejo próximo a Girona, dos passeios solitários pela Costa Brava e da aglomeração na Diada (festa nacional da Catalunha, 11 de setembro) são impressionantes. Tóibín contrasta a cidade que conheceu em 1975 com aquela de 1988. Saudosista, faz coro com seus amigos catalães que reclamam dos turistas mal educados, daqueles que não apoiam a causa da independência catalã, dos imigrantes que não praticam o catalão e suas tradições sagradas. Não consigo imaginar o que ele diria da Barcelona de 2017, meca do turismo de massa, hiper cosmopolita. Cabe registrar que o título do livro faz homenagem ao escritor George Orwell, que lutou na guerra civil espanhola e escreveu sobre ela, em seu "Homenagem a Catalunha", de 1938. Vale.
[início: 09/04/2017 -  fim: 18/04/2017]
"Homenagem a Barcelona", Colm Tóibín, tradução de Ana Falcão Bastos, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 274 págs., ISBN: 978-989-641-640-0 [edição original: Homage to Barcelona (New York: Simon and Schuster Ltd), 1990]

sábado, 28 de janeiro de 2017

as ilhas gregas

Publicado em 1978, mas reunindo textos que começaram a ser escritos ao final da segunda grande guerra, em 1945, "As ilhas gregas" foi originalmente concebido como um livro de viagens, um guia turístico, uma homenagem ao sol e ao mar gregos. A massificação do turismo e os quarenta anos de publicação certamente tiram do livro sua funcionalidade como guia, mas não o impacto nos sentidos, o doce encantamento, o fluxo sedutor de imagens e histórias criadas por Lawrence Durrell. Lê-se esse livro com calma, ou seja, com aquilo que definia a arte de viajar pelo menos até a primeira metade do século passado, bem mais uma experiência transformadora, de reflexão e aprendizado que a espécie de gincana que fazemos hoje em dia. Durrell viveu muitos anos na Grécia, sobretudo em Corfu, Rodes e Chipre (que hoje não é uma ilha grega, mas um estado independente). Ele pegava carona em barcos de cabotagem, cruzava a pé as ilhas mais remotas, dormia sob as estrelas e ao redor do fogo, como muitos dos heróis da Ilíada fizeram antes dele. Seu livro não faz o censo das quase duas mil ilhas gregas, mas se arrisca em contar a história e geografia dos conjuntos mais icônicos delas (as Jônicas, como Corfu e Paxos; as do mar Egeu, como Creta e Lesbos; as Espórades, como Rodes e Samos; as Cíclades, como Naxos e Mykonos e as Sarônicas, como Salamina e Spetses). Sua narrativa inclui digressões pela mitologia, linguagem, folclore, arte, causos pitorescos, filosofia, botânica, histórias de bar e de pescadores, reflexões sociológicas e políticas. Quem já leu o conjunto de volumes reunidos em "O quarteto de Alexandria" sabe o quão hábil Durrell sabe ser. Suas histórias ora são divertidas, ora líricas, alcançam emocionar o leitor e também instruí-lo. O tom das histórias lembra as de um outro grande escritor, o catalão Josep Pla, que também sabe contar o que vê quanto está longe de sua terra e deixa o leitor, debaixo de sua má estrela, invejoso do destino e das escolhas do viajante (como já nos ensinou Auden). Durrell é especialmente inventivo quando fala da arquitetura dos portos (em seu tempo vivido nas ilhas as travessias eram todas feitas em pequenos barcos à vapor); das técnicas de navegação, de coleta de esponjas e da pesca; descreve os templos em ruínas e as conversas com os lunáticos dos pequenos vilarejos (sempre os interlocutores mais fidedignos); interpõe às antigas lendas e mitos gregos a rotina e hábitos contemporâneos dos indivíduos com quem interage. Certamente aquelas ilhas não existem mais da forma que Durrell as viu, mas o que importa? A experiência de cada um que viaja e vê é a única que vale. Já é tempo, vamos em frente.
[início: 15/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"As ilhas gregas", Lawrence Durrell, tradução de Carlos Leite, Lisboa: Relógio D'Água editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 331 págs., ISBN: 978-989-641-644-7 [edição original: The Greek Islands (London: Faber and Faber) 1978]

terça-feira, 22 de novembro de 2016

written in my heart

Como já contei em um outro registro, no início de 2015 aventurei-me por Dublin, com cópias anotadas das páginas do "The Ulysses Guide" debaixo do braço. Esforcei-me para não perder nenhum dos lugares bacanas da cidade relacionados à James Joyce e seu Ulysses. Foi divertido. Mesmo o mais severo dos especialistas em Joyce reconhece que o livro de Robert Nicholson é preciso e completo, muito útil, mas não é o tipo de guia que um turista pode carregar facilmente em uma viagem longa. Recentemente foi publicado um novo livro com referências joyceanas, um guia mais moderno, compacto, com informações igualmente precisas, porém mais objetivas, sintéticas: "Written in my heart". A diagramação e os roteiros sugeridos são mais simples de seguir. Enquanto no livro do Nicholson os roteiros seguem mais ou menos a ordem dos dezoito capítulos do Ulysses e os passeios de Leopold Bloom e Stephen Deadalus, neste novo nove roteiros são distribuídos geograficamente pela cidade. São roteiros longos, que cobram tempo do flâneur, mas quem vai a Dublin com pressa? Mark Traynor e Emily Carson, dois experientes jovens dublinenses, ligados ao James Joyce Centre, acompanham o leitor pelas ruas da cidade, fazendo referência aos edifícios, parques, pubs, hotéis e monumentos que são ou citados nos livros de Joyce ou foram frequentados por ele e pessoas de seu círculo de amizade. Esses pontos de referência são identificados em mapas por meio de ilustrações estilizadas (assinadas por uma jovem designer, Fuchsia Macaree). O texto inclui citações curtas dos livros de Joyce, associadas a cada um dos pontos de parada. Para facilitar a vida do leitor cada um dos nove roteiros se distingue dos demais pela cor. Mesmo em uma época em que aplicativos para smarphones oferecem bons serviços de localização e referência às cousas do Joyce (há o Digital Dubliners, o Walking Ulysses e o bom mapa do Daniel Gray), esse livro me parece uma boa alternativa, principalmente para quem não conhece muito das referências literárias de Dublin. Ô beleza. 
[início: 14/11/2016 - fim 16/11/2016]
"Written in my heart: Walks through James Joyce's Dublin", Mark Traynor, Emily Carson, ilustrações de Fuchsia Macaree, Dublin: The O'Brien Press, 1a. edição (2016), brochura 13x19,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-1-84717-820-6

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

dublin: lonely planet

No Bloomsday de 2014 decidi que as férias de verão de 2015 seriam em Dublin. No mundo confortável dos sonhos eu já havia ido a Irlanda centenas de vezes e no mundo terrível dos desejos já havia feito roteiros dos mais mirabolantes para ver tudo que fosse remotamente associado a James Joyce, Samuel Beckett, Bram Stoker, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Jonathan Swift, W.B. Yeats (para não citar duendes, fadas, o The book of Kells, São Patrício, cerveja Guinness, pubs, museus, et caterva). Consegui decidir por um roteiro viável e no 29 de janeiro de 2015 embarquei para a aventura (a idéia era já estar familiarizado com a geografia da cidade quando chegasse o 02 de fevereiro, dia de aniversário de Joyce). Foram dias muito especiais, divertidos. Ao longo do ano passado fiz vários registros aqui de livros adquiridos lá (Marsh's Library; Chapelizod; Jewish Dublin; Pub Crawl; Joyce in Paris; Nicholson) e já contei algo das experiências associadas a cada um deles. Mas num 10 de fevereiro como hoje, no ano passado, ai de mim, tive de saír de Dublin (e fui a Madrid, depois a Pamplona, já contei algo sobre isso aqui). Hoje, 10 de fevereiro novamente, para terminar o ciclo de registros dedicados a memória de Joyce (que comecei no início do mês com o bom livro da Dirce Waltrick e segui com o Leon Edel, o Finnegans, o Read e o McCarthy) escreverei umas linhas sobre um livro fundamental para que tudo acontecesse da melhor maneira possível. Gostei do guia da Lonely Planet pela forma com que os temas são organizados e as informações distribuídas. Claro, o verdadeiro guia é a intuição do flâneur, o bom senso do turista, o acaso e a sorte (e isso eu posso dizer que tive de sobra), mas um bom guia ajuda o sujeito a se livrar de enrascadas óbvias e desastres anunciados. Conheço pessoas que não toleram nem saber que existem guias de viagens, mas obsessivos como eu adoram colecioná-los (e usá-los). O guia incluí dezenas de ilustrações e mapas, caixas de texto com informações históricas e até um espaço generoso para notas pessoais. As dimensões são corretas e o tamanho não incomoda um sujeito que está num casaco com bolsos (talvez no verão seja o caso de usar um guia menor, mais compacto). A versão digital dele está disponível no site da Lonely, entretanto devo confessar que me inspirei um bocado num programa do Anthony Bourdain para escolher os restaurantes e bares que frequentei. Claro, fiz minha peregrinação pessoal pelos pubs da cidade e digo que o melhor site/aplicação para escolher um é o Publin. Sláinte.
[início: 16/06/2014 - fim: 10/02/2015]
"Dublin: Lonely Planet", Fionn Davenport, London: Lonely Planet Publications Pty Ltd, 9a. edição (2013), brochura 13x20 cm, 256 págs., ISBN: 978-1-74220-204-4

segunda-feira, 27 de julho de 2015

dublin literary pub crawl

Essa pequena jóia, super bem editada, repleta de histórias memoráveis, incríveis, além de incluir reproduções fotográficas realmente boas certamente carrega algo de Dublin em suas páginas. De todos os mimos que trouxe de lá esse é o que mais me ajuda com a geografia afetiva da viagem. Claro, "Jewish Dublin" e "The shadow of James Joyce" são duas maravilhas que não me canso de apreciar, mas "Dublin literary pub crawl" tem o sabor de ter sido o primeiro livro que comprei em Dublin, poucas horas após ter me instalado em um hotel e caminhado até o The Duke para participar de uma memorável apresentação. Chamo de apresentação pois se trata de um passeio guiado pelas ruas de Dublin, interrompido por uns quatro ou cinco sketches teatrais de dez ou quinze minutos cada um. Após cada uma das paradas você é convidado a explorar as redondezas (a região de Temple bar e do Trinity College) ou entrar em um pub e apreciar algo estimulante/refrescante. Os passeios acontecem desde 1988 e já recebeu atores consagrados como convidados especiais. Três atores acompanharam os espectadores/turistas quando participei (o próprio Quilligan - autor do livro - e também Derek Reid e Frank Smith). Eles entregaram o que o título promete: uma série de histórias sobre os escritores e os pubs da cidade. Além dos nobelizados Samuel Beckett, Bernard Shaw, William Yeats e Seamus Heaney ele falam também de Oscar Wilde, James Joyce, Patrick Kavanagh, Brendan Behan, Bram Stoker, Flann O'Brien e tantos outros. O livro, publicado originalmente em 2008, inclui curtas biografias de quinze escritores, poetas e dramaturgos irlandeses; a história de vinte e oito pubs de Dublin (que tem cerca de 1000 estabelecimentos deste tipo) e uma generosa introdução que descreve tanto a tradição literária da cidade quanto algo da mítica atmosfera literária dos pubs. Encontramos também uma descrição das esculturas do St Stephen's Green (um dos parques públicos da cidade) e uma bibliografia honesta. Um turista acidental irá se divertir um bocado nesse passeio e terá sempre algo dele ao folhear essa beleza de versão impressa. Em tempo: é possível agendar visitas através do site dublinpubcrawl.com e apreciar algo do clima da festa no YouTube. Bom divertimento. Sláinte.
[início: 02/02/2015 - fim: 16/06/2015]
"Dublin literary pub crawl: The story of Dublin pubs and the writers they served", Colm Quilligan, Dublin: Writer's Island, 3a. edição (2013), brochura 13x20cm., 160 págs., ISBN: 978-0-9559327-0-0 [edição original: 2008]

segunda-feira, 2 de março de 2015

guia ilustrado pamplona

Quando você sai de Madrid e segue "north by northeast" até Pamplona parece que estás sempre subindo rumo às terras altas de Navarra, mas isso é uma ilusão (Madrid está num ponto mais alto que Pamplona, um ponto pelo menos 200 metros mais alto.) Mas pouco importam as altitudes. O que impressiona em Pamplona ao chegar-se ali é o contraste que oferece seu entorno, as montanhas nevadas que a acolhem, a geografia e a história impregnadas na arquitetura, na disposição das ruas dos "casco antiguo", nos "ensanches", nos monumentos, nas edificações. Depois o que conquista o viajante são a gastronomia e as tradições (como as festas de "San Fermín", contadas por Hemingway em seu "O sol também se levanta").  Pamplona foi fundada há mais de 2000 anos, disputada por muitos povos, mas permanece como uma pequena jóia incrustada nos Pireneus. Claro, doña Cristina ensinou-me os caminhos da cidade, fez-me desfrutar alegrias sem fim nos poucos dias que fiquei ali, mas esse "plano-guia" ajudou-me também a conhecer a cidade. A linguagem é bem humorada, estudada para tornar um certo acúmulo de informações tolerável para o leitor que talvez queira apenas saber como chegar até a "Plaza de toros", a um trecho do "caminho de Santiago", a "Plaza del ayuntamiento", a "Catedral de Santa Maria", a "Ciudadela". As ilustrações e reproduções fotográficas ajudam o viajante a situar-se e conhecer um tanto mais a cidade. Belo guia. Belo livro. Memorável cidade.
[início: 08/02/2015 - fim: 13/02/2015]
"Guia Ilustrado Pamplona", Luis Goñi Iturralde, Pamplona: Iturralde e Goñi estudio creativo S.L., 1a. edição (2014), brochura 21x21 cm., 27 págs., sem ISBN (D.L. NA 1890-2014)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Berlim

Foi com don Landgraf a primeira vez que conversei seriamente com alguém sobre ir um dia até Berlim. Em meados de 1980 ele havia voltado de uma curta viagem por lá e fez uma de suas costumeiras sínteses fundamentais: "Berlim é o tipo de cidade que está uns cem anos mais próxima do apocalipse que as demais". Depois conversei muito com a doña Katya, que por um lance de sorte estava lá em 1989, quando o Muro caiu. No final dos anos 1990 don Piquini, que morou por mais de um ano lá, contou-me muitas de suas aventuras e descobertas. Nos últimos anos tenho lido coisas de Cees Nooteboom, que fala da Alemanha e sobretudo de Berlim com assombro e com a alma do poeta (que sabe também contar histórias). Enfim, em meados do ano passado Helga e eu havíamos decidido: "Nas próximas férias de verão, Berlim. É tempo." E foi por conta deste projeto antigo de viagem à Berlim que abandonei por tantas semanas este blog a sua sorte e a seus leitores contumazes (e os há, que bom, alegria das alegrias). No início de fevereiro, logo após digitar as notas finais do absurdo 2013, embarcamos, primeiro a Madrid (sempre cara às minhas felicidades mirradas) e logo a Berlim. Durante três semanas "we were drowning in honey, stingless", mas existe sempre uma hora de abandonar nossas Citeras espirituais, voltarmos ao mundo real e aos afazeres domésticos. Ontem completei meus 53 anos, quase em olor de santidade, tamanhos foram os mimos que recebi, luck me. Hoje é o primeiro dos dias de meus 54, já é tempo de voltarmos aos registros de leitura, afinal esse esse não é um blog de memórias, de reminiscências de viagens, mas sim sobre os livros que eu li. Vale. Li e usei vários livros quando planejava os caminhos pela cidade: "Berlim - Seu guia passo a passo" é muito útil, sobretudo por conta de seus mapas; "Frommer´s Berlin day by day" é super completo, eficiente; "Berlim Top 10" suficientemente conciso para informar sobre o que não se deve deixar de ver em uma grande cidade; "Berlim PopOutMap", o mais prático de todos. Usei também vários sites, entre eles o sempre divertido "Viaje na viagem", do Rick Freire e o oficialíssimo e fundamental "Visit Berlin". Mas "Berlim - Guia Visual", como já denuncia o título, parece servir melhor àqueles que precisam estimular visualmente à memoria voluntária (a memória involuntária, já nos ensinou Proust, percorre caminhos bem diferentes e incontroláveis antes de fazer brotar as cousas do esquecimento). Todas as indicações, informações, descrições importantes são ilustradas, as fotografias e os mapas realmente ajudam o leitor a se localizar-se espacialmente nos locais que visita. Os textos são também um tanto mais longos que aqueles típicos dos demais guias. Se obviamente não esgotam os temas, ao menos sugerem ao leitor as chaves necessárias para procurá-las rapidamente em outros lugares. As sessões do guia sobre a história da cidade, hospedagem, restaurantes e bares, locais para compras e serviços são objetivas, claras. As propostas para estadias feitas de acordo com o número de dias que o leitor ficará na cidade parecem exequíveis. O que mais gostei nesse guia são as sessões dedicadas aos principais museus. As plantas baixas e ilustrações levam o leitor pelo labirinto das salas, dos edifícios, dos espaços públicos. Claro, nada supera a experiência do encontro com as coisas reais ou mesmo a surpresa de um achado, de uma mudança de planos, de uma sugestão de última hora que acolhemos. As coisas mais memoráveis são em geral produto de uma associação que cada indivíduo faz por acaso e é intransferível para os demais. Todavia, aqueles que costumam viajar por meses espiritualmente antes de se atreverem a enfrentar os controles de passaportes e máquinas de raios-X irão gostar desse tipo de livro, um tipo silente de companheiro de viagem. Bueno. Agora é tempo de recuperar os registros de leituras que ficaram esperando minha volta. Logo veremos o que me lembro deles.
[início: 01/08/2013 - fim: 28/02/2014]
"Berlim: Guia Visual Folha de São Paulo", Ewa Szwagrzyk (editora), tradução de Carlos Rosa, São Paulo: Publifolha (Grupo Folha), 1a. edição (2012), brochura 13x22 cm, 354 págs., ISBN: 978-85-7914-363-5 [edição original: DK Eyewitness Travel Guide: Berlin, Malgorzata Omilanowska (London: Dorling Kindersley / Penguin Randon House) 2012]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

barcelona

De todos os guias e mapas que já comprei ao longo de minhas modestas e curtas viagens este é que mais me agradou, por isto decidi resenhá-lo aqui. Ele é pequeno, cabe no bolso de um casaco em um dia de inverno ou em uma bolsa à tiracolo em um dia de verão. Cada página se divide entre um mapa que se desdobra e uma página de informações. Assim o leitor, viajante, turista, curioso, vai de bairro a bairro da velha feiticeira sem chance de esquecer uma dica cultural, gastronômica, irrelevante que seja, por conta de divisões aleatórias do conteúdo "turístico" que cada cidade tem. O livro é bem ilustrado, as fotos são de boa qualidade. O texto é objetivo e direto, sem muita adjetivação. Depois dos mapas e da descrição dos bairros as usuais seções de um livro de viagens aparece: dicas de aeroporto e de translados, dicas de gastronomia e de compras, dicas de bancos e de festas. Na verdade cada um de nós deve construir seu guia pessoal de cada cidade que visita, de cada região que explora, de cada país com o qual se envolve, mas na falta deste envolvimento um bom guia sempre é fundamental. Bom divertimento. [início 01/08/2009 - fim 26/09/2009]
"Barcelona: Plano guia, la ciudad, plano a plano, guía práctica", Llátzer Moix, Josep Liz, editorial Turism de Barcelona - Triangle Postals (1a. edição) 2009, brochura 11x19,5, 64 págs., ISBN: 978-84-8478-367-1

domingo, 18 de outubro de 2009

pamplona

Quando lemos "O caminho de Swann" de Proust acompanhamos o narrador e sua família por dois passeios dominicais pelas vizinhanças da casa de campo em Combray. Um é o caminho de Swann propriamente, o outro o caminho de Guermantes. Em algum ponto após descrever um deles o narrador diz: "...je tourne une rue... mais... c’est dans mon coeur. - Dobro uma esquina..., mas dentro do meu coração." Estes desvios são sim sempre muito mais numerosos (e sempre mais poderosos) que aqueles que fazemos fisicamente em nossas vidas. Resolvi resenhar aqui o guia turístico da prefeitura de Pamplona em Navarra "Pamplona: guía breve", pois de uma certa maneira também lá fiz um desvio "dans mon coeur." Pamplona é uma cidade pequena para os padrões brasileiros (deve ter um pouco mais de 250.000 habitantes), mas causou-me um impressão muito boa (o que por si só já me preocupa um paranóico como eu). Tudo muito organizado, muito limpo, muito bonito. Pareceu-me que eles misturam bem o passado com coisas modernas, com facilidades modernas. Mas o que dizer de uma cidade onde se fica em "plan turístico" apenas dois ou três dias? O guía é muito bem produzido, com muitas fotografias e ilustrações, mas também com textos ricos onde os muitos aspectos relacionados à cidade são apresentados. com riqueza de detalhes Claro, um guía literário tem de incluir a história, falar dos lugares de interesse turístico, citar os monumentos importantes, os hotéis, os restaurantes. Mas neste guía os autores (não nominados, pois deve ter sido mesmo um trabalho coletivo de encomenda para a prefeitura da cidade) se preocupam também em incluir algo mais imaterial, registrar aqueles "desvios no coração" que todo aquele que viajando a esmo teve ao se aproximar de algo que não havia programado, a algo que se torna de pronto uma experiência nova. Apesar de ter sido convidado por Cristina há quinze anos para visitar Pamplona só agora tive a chance de conhecê-la. Assim, só por ser um cabotino contumaz é que registro aqui a vontade de um dia voltar as terras altas de Navarra, de cruzar uma vez mais o casco histórico, perder-me pela ciudadela, ver melhor o café Iruña - que me lembrou um filme com o Tyrone Power, passear pelos parques e os jardins, disfrutando tudo com calma, sem medo e sem temor. [início 06/08/2009 - fim 26/09/2009]
"Pamplona: guía breve", editorial Ayuntamiento de Pamplona (3a. edição) 2009, brochura 12.5x24cm, 88 págs., ISBN: 978-84-89590-83-4