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sábado, 24 de maio de 2014

4-3-3 e o porteiro do estádio

São doze histórias que gravitam o mundo do futebol. O título do livro, 4-3-3, faz menção a um esquema tático típico do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (hoje em dia o mais popular é o 4-5-1). Onze textos são escritos por autores que emulam cada uma das posições dos jogadores dentro de campo (goleiro, lateral-direito, zaqueiro-central, quarto-zagueiro, lateral-esquerdo, centromédio, meia-direita, meia-esquerda, ponta-direita, centroavante e ponta-esquerda) e um outro utiliza-se da figura de um porteiro de estádio na narrativa. Algumas histórias são organizadas em torno da posição dos jogadores de forma mais fidedigna, ou seja, o que é narrado associa-se mais diretamente com a função daquele jogador dentro de campo, noutras esta ligação é mais frouxa ou inexistente. Isso não é exatamente um problema, mas como o projeto está organizado nesta representação, talvez fosse o caso de explorar melhor o posicionamento tático (no futebol) com a técnica e/ou proposta de cada um dos contos. A última das histórias acaba se destacando por ser a última (claro), por ser desenvolvida através de cartas e por dar conta, ao menos lateralmente, da gênese do futebol no Rio Grande do Sul (afinal é um time gaúcho, o Sport Club Rio Grande, o mais antigo clube de futebol do Brasil em atividade). Quem gosta de futebol se identificará com as histórias compiladas nesse livro, afinal o futebol, território ao qual se debruçam curiosos de todas as classes sociais, presta-se a qualquer experimento cultural, antropológico, sociológico, histórico e, porque não, literário. Além disso, compilações desse tipo sempre são interessantes para todo aquele curioso sobre a produção literária contemporânea (no caso, desta pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, nossa Santa Maria da Boca do Monte). E vamos em frente (sem esquecer que a copa do mundo de futebol está logo ali, nos esperando, sabe-se lá com que terríveis conseqüências).
[início: 27/04/2014 - fim: 05/05/2014]
"4-3-3 e o porteiro do estádio", Athos Ronaldo Miralha da Cunha (organizador), Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, Francisco Ritter, Iuri Müller, José Luiz dos Santos, Maria da Graça Rodrigues, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Pedro Brum Santos, Raul Giovani Cezar Maxwell, Tânia Lopes, Vitor Biasoli, Porto Alegre: editora Movimento (coleção Rio Grande, volume 156) / Santa Maria - RS: editora Athena Livros e Revistas, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7195-225-6

quarta-feira, 16 de junho de 2010

arquimedes

Bueno. Hoje é o dia de Bloom, um Bloomsday. Logo mais vamos comemorar, discutir o Ulysses, falar da Irlanda, de literatura, de James Joyce, como fazemos por aqui desde 1994. No meio dos festejos vamos lançar um livro, "Arquimedes", publicado pela editora Movimento. Mas eu, que sou o menor dos anões desta paróquia, talvez não devesse fazer uma resenha de um livro, um romance, do qual participei do começo ao fim. Alertado já de meu eventual cabotinismo é o leitor quem decidirá se vale a pena seguir. É tempo. "Arquimedes" é um romance coletivo. O Athos Cunha teve a idéia original: emular um Bloomsday em Santa Maria, registrando um tanto da cidade no dia em que a CESMA foi fundada. Por acaso e sorte este dia é o mesmo 16 de junho que Joyce utilizou para contar a história do Ulysses. Feliz coincidência. Athos criou o personagem, deu nome e sobrenome a ele e apresentou-o com uma história algo crível. Não exatamente seguindo os passos de Leopold Bloom a idéia era usar este personagem para lembrar em prosa a Santa Maria de 1978. Para navegar por ela como Bloom fez em Dublin seu personagem funde aspectos tanto de Bloom quanto de Stephen Dedalus. Arquimedes, um professor do nível médio, toma café da manhã com sua mulher, sai para dar aulas, lê um jornal, reflete sobre os causos da política e sobre o dia que tem pela frente. A partir daí o texto seguiu para os demais autores. Cada um por seu turno fez uma contribuição que toma mais ou menos duas horas do dia de Arquimedes. Ao Athos seguiu-se o Candinho, depois Tânia, Raul, Orlando, Zanatta e eu. Pedro Santos arremata o livro. Cada um contribuiu com seu estilo, vontade e idiosincrasias. Por vezes a história seguiu caminhos distintos daqueles trilhados por Bloom em 1904, noutros o enredo se inspirou mesmo naquilo que se encontra nas páginas do Ulysses. De qualquer forma a personagem principal é mesmo a cidade. Ambígua, à Santa Maria talvez possamos associar o mesmo epiteto que Joyce utilizava para se referir à Dublin (sua "Dear Dirty Dublin"), mas é o leitor familiarizado ou curioso com ela que deverá verificar o quão verossímel Santa Maria se apresenta no livro. Vamos a ver se ele se defende sozinho. Ah! Happy Bloomsday, to you and all. [início - fim 16/06/2010]
(http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=22148609&sid=114230128125124801012953&k5=7F5C7E5&uid=)
"Arquimedes", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, Tânio Lopes, Raul Giovani Cezar Maxwell, Orlando Fonseca, Humberto Gabbi Zanatta, Aguinaldo Medici Severino, Pedro Brum Santos, editora Movimento, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 102 págs. ISBN: 978-85-7196-159-4

sexta-feira, 14 de maio de 2010

a face oculta da lua (inércia)

Antônio Cândido Ribeiro é um sujeito que realmente gosta de livros e de usar a palavra. Recentemente ele foi escolhido patrono da Feira do Livro de Santa Maria e teve a chance de lançar nela este livro, sua primeira narrativa mais longa, uma novela intitulada "A face escura da lua" (ele é conhecido por suas crônicas e de outros textos produzidos em parceria). A novela se deixa ler em um par de horas, pois é realmente pequena. Talvez a pretensão inicial dele fosse produzir um texto de mais fôlego, uma narrativa mais extensa e mais detalhada (isto se depreende pelo intervalo temporal da novela e também pelo fato de apesar do núcleo central de personagens ser pequeno, serem citados e participarem da trama vários outros personagens, calcados em fatos históricos da Cidade e do Estado há cem anos mais ou menos.) O enredo segue sempre rápido, descrevendo como um jovem médico, ao se radicar em uma ainda provinciana e distante Santa Maria, se envolve afetivamente com uma mulher casada com um sujeito que é de um grupo político distinto do seu, mas de quem torna-se um bom amigo (cabe dizer que as divisões políticas gaúchas são famosas por sua perenidade, sendo as disputas sempre lembradas por uma violência que não raro desgraça famílias e cidades.) Dos sucessos iniciais deste envolvimento somos levados a vislumbres da história política do Rio Grande do Sul, a repetidos embates e reconciliações, nem sempre fraternas. O narrador acompanha o nascimento e o crescimento do filho do casal, de quem acaba se tornando uma espécie de preceptor, pois o rapaz escolhe também a medicina como carreira. A história chega a um desfecho que propositalmente é ambíguo (onde Candinho faz uso de um poema de Felippe d´Oliveira que resume o conflito do personagem principal da história.) Talvez a história merecesse mais tempo de preparação, onde as tramas apenas mencionadas pudessem ganhar mais espaço, onde pudessemos acompanhar com mais vagar a evolução dos personagens, mas se isto acontecesse teríamos um outro livro nas mãos. Como eu considero que este pequeno livro é um presente do Candinho para os santa-marienses, não me cabe ficar aqui mal humorado reclamando da brevidade do encantamento que sua prosa provoca. Paciência. Em tempo: não vou me furtar de registrar aqui o absurdo que foi o processo de distribuição dos exemplares deste livro (editado com recursos públicos e destinado sim a distribuição gratuita). Se é que entendi bem o que aconteceu naquelas horas só tinham acesso ao livro aqueles que por alguma proximidade com um edil ou preposto municipal merecesse tal regalo. Frente aos reclamos dos presentes aparentemente uns quantos exemplares foram distribuídos, mas a maioria deles ficou mesmo confinado em caixas de onde eu mesmo duvido que um dia sairão. A sorte dos livros é quase sempre funesta, mesmo quando editados acabam por vezes nas mãos de pseudo-editores, que relapsos e ineptos, não tem pejo em cobrar constrangedores pedágios morais para deles se desfazerem. É mesmo pena. Como eu leio mais livros por mês que estes senhores serão capazes de ler em sua vida toda é claro que tenho um entedimento e apreço aos livros que é inacansável a eles. Seria de se esperar um tipo diferente de zêlo com a coisa pública neste caso, mas isto é pedir demais em uma cidade como Santa Maria. Preciso também agradecer ao Werner Rempel e ao próprio Candinho a gentileza de terem feito chegar às minhas mãos este livro. [início 03/05/2010 - fim 03/05/2010]
"A face oculta da lua (inércia)", Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, editado pela Câmara Municipal de Santa Maria, 1a. edição (2010), brochura 14x19 cm, 77 págs. sem ISBN

sábado, 4 de julho de 2009

pra começo

"Pra começo de conversa" foi lançado no Ponto de Cinema, como parte das comemorações do Bloomsday Santa Maria de 2009. Os autores me convidaram para escrever a orelha do livro. Apesar de entender o comentário de meu amigo Ronaldo Lippold acho que não tenho muito que acrescentar ao que escrevi ali. Portanto, sigamos com o baile: James Joyce passou por atribulações mil e teve de ser paciente para conseguir publicar Dublinenses da forma que imaginou cada um de seus quinze contos. Suas histórias, ambientadas na ainda provinciana Dublin do início do século passado, incomodaram tanto pela forma como são descritos os personagens quanto pela crítica implacável aos hábitos e costumes da época. Um século depois e em outro hemisfério eis que quatro santa-marienses de fato ou adoção: Tânia Lopes, Athos Miralha Cunha, Orlando Fonseca e Antônio Cândido Ribeiro, resolveram publicar um livro reunindo crônicas genuinamente santa-marienses. Cada um deles, em seus estilos, vozes, manias e idiossincrasias, registra um tanto desta Santa Maria que é passagem e porto de tantos gaúchos, brasileiros e viajantes. Não se trata de ficar aqui comparando os contos de Joyce e as crônicas destes quatro amigos, mas sim de tentar entender como a palavra pode ser utilizada para reconhecermos melhor o lugar em que vivemos e as pessoas com quem interagimos todos os dias. Nas histórias do Athos a memória flerta com um desejo de modificar rapidamente o mundo. Acompanhamos seu olhar sobre situações banais: a rotina de uma casa bancária; os encontros de boleiros saudosistas, os causos de mateadores e churrasqueiros sempre listos. Leio suas histórias e penso no duro silêncio de uma roda de chimarrão. Já nas histórias do Orlando encontramos o registro da vibrante vida deste início de século, dos horários apertados que seguimos, das correrias pelas quais passamos. Atarefados deixamos de refletir sobre o que fazemos, mas ele congela em seu texto situações que identificamos rapidamente como acontecidas, ou conosco, ou com um vizinho, ou com um parente, como não? Tânia por sua vez usa sua memória de certos diálogos, de certas situações, de certos compromissos e os transforma em belas histórias que lemos com prazer. O mundo das mulheres, claro, se apresenta mais contundente pela voz de Tânia, sempre observadora. Por fim o Candinho é aquele cronista que “fala” mais diretamente com o leitor, tentando seduzi-lo para seu campo, para suas idéias (e quase sempre conseguindo). Suas histórias têm a força de quem quer entender e contribuir para modificar a realidade. Fico feliz por estas crônicas, enfeixadas como em um buque de flores, prontas para serem lidas e também prontas para homenagear o velho James Joyce neste Bloomsday santa-mariense de 2009. [início 10/05/2009 - fim 16/06/2009]
"Pra começo de conversa: crônicas santa-marienses", Tânia Lopes, Antônio Candido de Azambuja Ribeiro, Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Orlando Fonseca, editora Manuzio (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 112 págs., ISBN: 978-85-7782-076-4

segunda-feira, 18 de maio de 2009

a frase do doutor

"A frase do doutor Raimundo" é um livro curioso, pois nos contos todos os quatro autores contribuem com uma pequena parte. O livro é curto, pouco menos de cem páginas. Cada um dos autores começa e termina ao menos dois contos (o número de combinações possíveis é vinte e quatro, mas eles se contentaram em produzir dez). Um destes contos coletivos, "Relíquias de um tempo remoto", ganhou o primeiro lugar de um concurso literário em Bento Gonçalves no ano passado. Talvez motivados pela boa recepção eles decidiram produzir outros e encontraram o porto seguro de um editor, que os acolheu e publicou. O livro ficou bonito (apesar do Athos não ter gostado da capa). Alguns dos contos envolvem soluções algo fantásticas, passagens oníricas, narrativas mágicas, mas há também vários onde o pano de fundo é a crua política brasileira dos anos da ditadura militar. Em outros encontramos o amor e o sexo envolvendo as pessoas, sem medo e sem temor. As coisas da vida no Rio Grande do Sul, notadamente a geografia e a história de Santa Maria, estão sempre presentes. Algumas vezes as histórias caminham de um autor a outro sem que todas as possibilidades apresentadas se encaixem à perfeição, nem da melhor forma (a meu juízo) mas em vários dos contos observa-se um equilíbrio e ritmo bastante razoáveis, como se um único autor os tivesse produzido. Trata-se de um bom livro onde se aprende e se delicia um tanto da voz narrativa de cada um deles, indivíduos senhores do ofício solitário da escrita, mas também amigos que se divertem juntos com um brinquedo novo. [início 30/04/2009 - fim 03/05/2009]
"A frase do doutor Raimundo", Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Orlando Fonseca, Tânia Lopes, editora Movimento (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 80 págs. ISBN: 978-85-7195-138-9

terça-feira, 15 de maio de 2007

confrades

Estamos vivendo em uma época onde podemos sem pejo ser cabotinos, falsos, inconstantes, mentirosos, traidores, agressivos, hipócritas, tolos ou quaisquer outros atributos que no passado seria ofensivo ostentar. Na leitura de qualquer jornal ou em um par de minutos na frente da televisão somos apresentados a uma fauna de homens de quem não compraríamos um carro usado, quanto mais convidar para uma mesa de bar. Mentir, trapacear, mudar de opinião, roubar idéias e virtudes, comprar votos e consciências parece ser a moeda de troca da franca maioria dos políticos e homúnculos que habitam o noticiário neste início de século brazuca. Fazer o quê? Ler um bom livro, namorar a menina bonita, pescar um bom peixe, nadar em um bom mar, ouvir uma música cara à memória, cozinhar para os amigos, cousas assim são soluções válidas. O problema da primeira sugestão é que o livro em questão aí à esquerda tem textos meus e mesmo o mais corrupto dos senadores e mais torpe dos deputados desta república teria certo pudor de fazer prosa laudatória de suas próprias garatujas (em geral eles pedem para um colega fazê-lo, com a obrigação do favor ser devolvido logo, claro). Este livro foi produzido por muitas mãos e é irmão de um outro, de poesias. Do livro dos poetas eu poderia falar mais e com mais isenção, por isto vou deixar isto para uma outra resenha. Do livro de crônicas basta eu dizer que são sete autores (seis autores e uma autora, a Sione, que ficou por último na lista ordenada alfabeticamente e parece carregar à todos nas costas). São sete crônicas de cada autor, a grande maioria inéditas, recém saídas dos fornos e dos dedos dos viventes. Seguramente eu sou o menor dos anões ali. O Candinho, o Diomar, a Sione, o Larré, o Canellas, mestres que são, têm suas colunas fixas nos jornais locais. O Athos não publica toda semana mas é escritor prolífico e não tem medo de ouvir uma recusa dos editores de plantão quando submete suas crônicas ligeiras. Assim, bem acompanhado, fica fácil empurrar meus textos goela abaixo do leitor. Se o leitor se engasgar com meus erros de concordância ou com minha rude verve certamente encontrará cronistas mais equilibrados nas páginas seguintes às minhas no livro. Gostei muito de fazer parte deste projeto. Vamos a ver o que você acha afinal de contas. Se é que você vai se interessar por ele, diga o que achou dos textos afinal. É isto. Bom divertimento.
O Maquinista Daltônico - Crônicas, Aguinaldo Medici Severino, Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Antônio Candido de Azambuja Ribeiro, Marcelo Canellas, Diomar Konrad, Ludwig Larré, Sione Gomes, editora Manuzio, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-89833-99-8