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sábado, 10 de outubro de 2020

rei lear

Quando se trata de bons livros, não importa quantas vezes um sujeito volte a lê-los, o assombro sempre será diferente, o encantamento sempre se dará de uma forma distinta, as descobertas sempre serão diversas das anteriores. Shakespeare, o eterno Shakespeare, inventou seu Rei Lear há mais de quatrocentos anos e esse drama segue nos arrebatando. Charles Lamb e Harold Bloom já nos ensinaram que a leitura de Rei Lear é particularmente gratificante porque, em geral, as montagens e/ou adaptações ficam sempre aquém do texto, porque os atores e/os diretores são sempre derrotados pela potência da peça, por sua riqueza, por seu caráter quase mitológico, por sua tessitura poética que remete a de uma santa escritura. Se for este mesmo o caso, a tarefa do leitor agora ficou muito mais prazerosa, pois Lawrence Flores Pereira, respeitado e premiado professor e tradutor, que já nos havia proporcionado suas ótimas versões de Hamlet e de Otelo, acabou de publicar seu Rei Lear. Não me atrevo aqui a fazer um resumo da peça. Talvez, numa sinopse, seja só o caso de lembrar que há duas tramas intrincadas, dois enredos paralelos: o enredo principal é o de Lear, rei da Bretanha, que planeja dividir seu reino entre suas três filhas (Regan, Goneril e Cordélia), mas apenas provoca conflitos e destruição, morte e loucura; a segunda trama é a de Gloucester, um conde do reino bretão, que é enganado por seu filho bastardo (Edmund), renega seu filho natural (Edgard) e, a exemplo de Lear, produz a si e a todos os que o cercam, somente degradação, sofrimento, ruína, realçando o conflito e caos gerado por Lear. Um leitor romântico (ou um que não seja pelo menos um pouco niilista ou cínico) precisa emparedar seu coração, pois na peça quase todos os personagens sofrem demasiadamente. O espectador/leitor também sofre com eles, até o final, mesmo quando uns poucos dentre os virtuosos personagens sobrevivem e todos os maus, os completamente perversos, sejam derrubados. De certa forma a loucura de Lear é a loucura grandiloquente deste nosso século, onde a falta de sabedoria, a vocação para destruição e o desentendimento sobre o que seja amar são a verdadeira norma contemporânea, fazem parte de nosso triste cotidiano (seja no envolvimento real entre os homo sapiens, seja nas especulares relações sociais virtuais, no contínuo autoengano das redes, que apenas deixa aflorar nosso lado mais sombrio). A tradução de Lawrence - frente toda a complexidade da peça, que funde prosa e verso, canções e retórica, com ritmos diferentes - valoriza sempre o verso (instável, no original, nas palavras dele mesmo), oferecendo ao leitor um léxico rico e variado, com elementos eruditos e populares, soluções muito originais, criativas. Gostei muito de ler. Os usuais mimos da coleção Penguin Classics Companhia das Letras estão presentes: (i) uma bela introdução, que ocupa um terço do volume, assinada por Lawrence e por Kathrin H. Rosenfield; (ii) duas notas breves que especificam as fontes e o compromisso tradutório utilizado (vale lembrar que o projeto de tradução do Lawrence pode ser encontrado na Revista de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982-6850); (iii) as referências bibliográficas fundamentais; e, por fim, (iv) aquilo que sempre é uma festa para o leitor curioso, uma leitura à parte que todos devem fazer simultaneamente ou mesmo só após terminar o texto: extensas notas de tradução para cada uma das 26 cenas da peça, que ocupam aproximadamente um quarto do volume, onde ora se argumenta sobre as soluções adotadas na tradução de passagens específicas, ora se fala da conveniência ou não de um determinado procedimento cênico, mas que também oferece explicações sobre aquilo que é cifrado ou enigmático demais no original, como certos antropônimos, topônimos, passagens que fazem alusão a mitologia, história e sociologia. Só um detalhe besta, que acho ser um deslize que a Penguin/Companhia poderia ter evitado: o sumiço do Conde de Kent na lista de personagens (logo ele, que é o primeiro a falar na peça). Outro detalhe besta, mas bacana desta vez, é que achei muito curioso Lawrence ter utilizado nas passagens fantásticas e loucas dos discursos do Pobre Tom (Edgard) a palavra "Trasgo", resgatando-a do folclore português (da província do norte de Portugal, Trás-os-montes), quando quer identificar os demônios que se ocupam deste pobre personagem. Acontece que "Trasgo" foi incorporado notavelmente pelos tradutores de Harry Potter para o português, já há vinte anos, quando precisaram identificar aquilo que J.K. Rowling chamou de "Trolls" em seu livro (é uma bobagem, mas pareceu-me um fortuito encontro entre registros eruditos e populares, tão presentes na peça). Finalizo reproduzindo aqui duas citações marcantes da peça, que parecem tão adequadas para os nossos dias, dias povoados por vazio e estupidez: "When we are born, we cry that we are come to this great stage of fools" e "Nothing will come of nothing.” ("Quando nascemos, choramos por aportar / A esse vasto palco de loucos." e "Mas nada virá de nada."), nas versões de Lawrence. Livro para se ler com atenção, esforço e disciplina. Vale muito a pena. Evoé Lawrence, Evoé! Vale!
Registro #1578 (drama #23)
[início: 22/07/2020 - fim: 29/09/2020]
"Rei Lear", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2020), brochura 13x20 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-8285-111-1 [edição original: His True Chronicle Historie of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters. With the Unfortunate Life of Edgar, Sonne and Heire to the Earle of Gloster, and His Sullen and Assumed Humor of Tom of Bedlam (London) first quarto, 1608; second quarto, 1619; The Tragedie of King Leat (London: Isaac Jaggard and Edward Blount) first folio, 1623; Foakes, R.A. (ed,), Arden Shakespeare, Third Series (London: Bloomsbury), 1997]

domingo, 26 de novembro de 2017

romeu e julieta

Talvez apenas menos conhecida que o "Hamlet", "Romeu e Julieta" é daquelas peças de Shakespeare que qualquer vivente pode dizer sem medo que leu, vastas são as referências, influências e marcas na cultura disponíveis até ao mais leniente e vagabundo dos leitores. Shakespeare, como usualmente fazia, quase não inventou nada. Ele baseou-se em tramas bastante conhecidas, de Ovídio a Dante, de Bocaccio a Bandello. A desse último, por sua vez, foi adaptada para o inglês por um sujeito chamado Arthur Brooke, ainda no início do século XVI, e talvez seja a versão mais próxima e disponível ao velho Shakespeare para engendrar a sua. Pouco importa. O genial das peças de Shakespeare é que as versões dele das tramas alheias sempre são as melhores, as mais seminais, as mais curiosamente lembradas e eufônicas. Don José Francisco Botelho, jovem tradutor, da melhor cepa possível dos bons tradutores brasileiros, publicou essa sua versão no final de 2016. Só recentemente tive chance de ler com calma seu portento. Em suas notas sobre a tradução ele dá conta de seus procedimentos, dos recursos poéticos e estilísticos de sua arte. Fala de sua preocupação com a impressão da velocidade da entonação das falas da peça, ajustando os decassílabos e a prosa poética do conjunto original às particularidades do português falado. Ele registra também fidelidade às palavras de Adrian Poole, clássico especialista em Shakespeare que assina um ótimo ensaio incluído na edição da Penguin Companhia. Faz isso sobretudo quando discute o ambíguo equilíbrio entre os tons trágico e cômico da peça e também na questão do controle da sensação da passagem do tempo que experimentamos ao lê-la (ou assistirmos uma montagem dela - a de Baz Luhrmann, Romeo+Juliet, é extravagante, porém digna, talvez seja a que eu mais goste). O amor é primo da morte (nos ensinou um dia Carlos Drummond de Andrade), mas no caso de Shakespeare o amor não vence a morte, apenas dá chance às duas enlutadas famílias rivais de Verona uma chance de reconciliação (mas sabemos, ai de nós, cínicos que hoje somos, da precariedade dessas iniciativas de louvor ou apreço derivadas de um ato funesto). A edição inclui um conjunto de notas assinadas por T. J. B. Spencer, conhecido especialista em Shakespeare, e outras assinadas por Botelho. Como sempre acontece nessas edições da Penguin, as notas dão alegria aos leitores que dispõe de tempo e disciplina, vontade de aprender. A tradução de Botelho é bem boa de se ler, acompanhamos suas soluções com alegria. O sujeito conhece e preza seu ofício. Acompanhamos os sucessos como quem ouve uma história já conhecida, porém contada por um novo vate, um novo bardo, um novo menestrel, dono de uma voz que agrada mais que outras. Com esse livro termino o pacote de três projetos shakespearianos aos quais dediquei-me esse ano. Roberto O'Shea ("Os dois primos nobres"), Lawrence Flores Pereira ("Otelo") e José Francisco Botelho são quase da mesma geração e estão produzindo portentos tradutórios das peças de Shakespeare num ritmo que assombra (Botelho já assinou um Julio César, que está nas livrarias; Lawrence prepara seu Rei Lear - ambos pela Penguin Companhia; e O´Shea, continuará suas traduções das peças tardias de Shakespeare?). Sorte nossa vivermos desse assombro. Evoé! Em tempo: Assim como registrei antes por aqui, ao falar das traduções de "Hamlet" e de"Otelo", lembrei-me ao ler essa tradução de "Romeu e Julieta" de meus tempos de espectador de teatro, de uma encenação que vi no meu tempo das cavernas, início dos anos 1980, no Teatro Anchieta do Sesc, ali próximo dos baixios da Consolação paulista, com o bom Antunes Filho assinando a direção e a jovenzita Giulia Gam, diáfana sob a lua, fazendo as vezes de Julieta (pouco importa quem fazia o papel de Romeu, claro, quem se lembraria dele?). Seriam as pudendas da jovem Giulia que vi em relance naquele dia, no escuro do teatro, ou seriam as da Fernanda Torres ou, ainda, da Júlia Lemmertz, numa montagem de Orlando, que vi no Teatro Municipal? O velho e necessário Alzheimer embaralha tudo e faz o corpo sonhar, talvez dormir (ou seria o contrário, seria outra peça, outras pudendas? Por quantas metamorfoses já passei?). Vale!
Registro #1242 (drama #13)
[início: 04/03/2017 - fim: 15/10/2017]
"Romeu e Julieta", William Shakespeare, tradução de José Francisco Botelho, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-8285-040-4 [edição original: first quarto, 1622; first folio, 1623; Romeo and Juliet (New Haven / Londres: Yale University Press) 2004]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

otelo

Em 2015 li a notável tradução do Hamlet engendrada por Lawrence Flores Pereira (que inclusive mereceu o prêmio Jabuti de melhor tradução, em 2016). No início deste ano foi lançado um novo portento do Lawrence, sua tradução do Otelo. Li o texto quando ainda era outono, em maio, mas deixei os elementos paratextuais para ler mais tarde. Aborrecido com a morte de meu pai, em junho, só retomei o volume recentemente, no início dessa úmida primavera. É certo que dedicamos tempo a leitura de livros como esse por conta do encantamento que o nome de Shakespeare evoca. Todavia, no caso das edições comentadas da Penguin Classics o conjunto de mimos que acompanham o texto da peça produzem múltiplas alegrias. O leitor encontra um ensaio longo do poeta W. H. Auden, "O curinga no baralho", já clássico, onde ele advoga a precedência de Iago sobre Otelo, disseca como bom professor e especialista que foi toda a trama, defendendo a ideia que a peça espelha nosso complexo mundo contemporâneo tão bem como espelhava a conturbada Inglaterra elisabetana. Lawrence oferece uma longa introdução, onde digressa sobre as circunstâncias da composição (mais próxima de 1601 ou mais próxima de 1604?); sobre as dificuldades de se manter isento na questão do ciúme evocada pela peça, como leitor ou como crítico; sobre as camadas de temas, detalhes estilísticos, alusões; sobre o protagonismo compartilhado entre Iago e Otelo; sobre a delicada questão racial que a nossos olhos contemporâneos ganha relevo, mas que seria até irrelevante no início do século XVII; fala das fontes primárias do texto original e do contexto de suas primeiras encenações. Ele também assina um conjunto de notas que esclarecem as passagens mais herméticas e suas escolhas, notas que merecem ser consultadas. E, em sua "Nota sobre a tradução", Lawrence fala da concepção e método de tradução de que se vale, dos contrastes estilísticos, registros, musicais e sonoros (ele os chama de "multidão de procedimentos envolvidos", cousa que não duvido nem um pouco);  explicita sua preocupação com os efeitos que podem ser produzidos num palco, numa encenação real, partindo-se de sua escolha de versos e rimas. Da peça nada falo. Dificilmente alguém a desconhece completamente, apesar de ser uma tolice furtar-se de lê-la ao menos uma vez na vida, coisa muito facilitada agora por essa notável tradução. Lembro-me sim de uma montagem que assisti, no início dos anos 1980, no solene Teatro de Cultura Artística paulista, com bom Juca de Oliveira no papel de Otelo e um quase sofrível Ney Latorraca no papel de Iago. A cenografia era assinada pelo grande Flávio Império, que era irmão de uma de minhas professoras no IFUSP, a Amélia Hamburger, sempre muito querida. A vida no interior do Rio Grande do Sul roubou-me esse hábito de ir ao teatro, paciência.
Registro #1241 (drama #12)
[início: 14/04/2017 - fim: 22/10/2017]
"Otelo", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x20 cm., 328 págs., ISBN: 978-85-8285-045-9 [edição original: The Tragedy of Othello, the Moor of Venice, (London) first quarto, 1622; first folio, 1623; E. A. J. Honigmann (org.), Hamlet, Bloomsbury Arden Shakespeare, second series (New York: Bloomsbury Publishing) 1996]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

os dois primos nobres

"Os dois primos nobres" é a mais tardia das peças atribuídas a Shakespeare, e também uma daquelas ausentes do Primeiro Fólio, de 1623, volume em que se imaginava estivessem transcritas suas obras completas. Já registrei aqui sobre uma destas, "Cardênio", provavelmente escrita em 1612 ou 1613, e que perdeu-se completamente (no belo livro de Roger Chartier se aprende um bocado sobre Shakespeare e Cervantes). As demais ditas "peças tardias" são: "Péricles, príncipe de Tiro" (1607-1608), "O Conto do Inverno" (1609-1611), "Cimbeline, Rei da Britânia" (1610), "A tempestade" (1611) e "Henrique VIII" (1613). Outra particularidade dela é ter sido escrita em colaboração, no caso com John Fletcher, sujeito que o substituiria à frente dos negócios da King's Men. Sabe-se com certeza que a peca foi encenada em Blackfriers, em 1634. Bueno. Eu sabia vagamente algo do enredo desta peça, mas a conhecia por um outro título: "Os dois nobres parentes", como foi traduzida e publicada anteriormente (isso me causou um leve aborrecimento com uma tonta que atendeu-me na boa Livraria da Vila paulistana, mas essa é outra história). José Roberto O'Shea, respeitado tradutor, membro da távola haroldina, hoje professor da UFSC e responsável por esta nova versão, optou por explicitar o parentesco do título. Trata-se de uma tragicomédia, inspirada em um dos "Contos da Cantuaria", de Geoffrey Chaucer.  Alternam-se e se entrelaçam duas histórias: uma é uma narrativa medieval, de amor cavalheiresco, na qual dois homens, Arcite e Palamon, grandes amigos, os tais  primos do título, se apaixonam por uma mesma mulher, Emilia, irmã da amazona e rainha, Hipólita, senhora de Atenas. Os primos tornam-se rivais absolutos, a ponto de Teseu, senhor de Atenas, promover um combate entre ambos para decidir qual dos dois mereceria casar-se com a jovem. A segunda narrativa é a de uma jovem, filha do carcereiro que teve sob seus cuidados Arcite e Palamon. Essa jovem se apaixona até a loucura por Palomon, o ajuda a fugir da prisão, condenando o próprio pai com esse ato. O método da loucura dessa personagem lembra o de Ofélia, no Hamlet.  Os cinco atos da peça, que num curto prólogo diz-se poder ser encenada em duas horas, são bastante movimentados, fáceis de ler, muito embora, sejamos hoje cínicos demais para aceitar como corriqueiro e normal o comportamento moral dos dois jovens, que de amigos tornam-se rivais por um amor impossível e a loucura por amor da filha do carcereiro. Todavia os deuses do teatro são poderosos, a magia da encenação e o encantamento provocado pelos versos transportam o espectador para um mundo onde tudo é possível e válido. O'Shea acrescenta um conjunto robusto de notas ao texto traduzido. Elas ajudam o leitor a entender as passagens mais crípticas da peça. Ele justifica seus procedimentos tradutórios (versos decassílabos e partes em prosa), elenca suas fontes, orienta as interpretações possíveis que o leitor pode fazer. Cabe registrar que essa a quinta empreitada de tradução de Shakespeare de O'Shea (ele já traduziu "Antônio e Cleópatra", "Péricles, príncipe de Tiro", "O Conto do Inverno", "Cimbeline, Rei da Britânia" e "Hamlet"). Preparando-me para escrever esse registro encontrei informações sobre a Folger Shakespeare Library, biblioteca/santuário daqueles que pesquisam sobre Shakespeare. Don O'Shea deve ter se divertido um bocado por lá. A edição inclui uma bela introdução, assinada por Marlene Soares dos Santos. Em tempo: No curto epílogo que encerra a peça os autores perguntam se o conto foi bem contado, se contentou o espectador. Esse leitor, que fechou satisfeito o livro, responderia que sim, lá do escuro do teatro, ainda enfeitiçado. Vale!
Registro #1237 (drama #11)
[início: 26/10/2017 - fim: 31/10/2017]
"Os dois primos nobres", William Shakespeare e John Fletcher, tradução de José Roberto O'Shea, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 15x23 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-7321-560-1 [edição original: The two noble kinsmen (1613-1614) in-quarto 1634; (New York: Simon & Schuster's Washington Square Press) Folger Shakespeare Library, Barbara A. Mowat e Paul Werstine, editors, 1989]

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

vênus e adônis

Quem leu o bom e velho Ovídio conhece a história: Afrodite (a Vênus dos romanos) leva uma moça a loucura (a lasciva Mirra, que seduz seu pai Theias - ou Ciniras). Antes de morrer e ser metamorfoseada numa árvore, Mirra da a luz a um filho, Adônis (ele é a casca desta árvore!). Encantada pela beleza do menino Afrodite o leva para ser criado por Perséfone, rainha do Hades sombrio. Quando adulto as duas deusas querem Adônis para si. Zeus acaba decidindo que ele deveria ficar um terço do ano com cada uma delas e escolher livremente o que fazer com a outra terça parte. Adônis escolhe ficar mais tempo com Afrodite. Eles tornam-se amantes, passam o tempo caçando juntos na mata. Num dia Adônis decide perseguir sozinho um javali (que na verdade é o deus Ares metamorfoseado, ciumento dos amores de Afrodite pelo rapaz mortal). Adônis é morto (emasculado e sangrado até a morte seria a forma mais precisa de se dizer) e de seu sangue brotam anêmonas. De volta ao Hades, novamente terá Perséfone como amante e visitas regulares de sua boa Afrodite. Cabe registrar que ninguém melhor que Robert Graves explica a simbologia dos períodos sobre e sob a terra que os personagens gregos experimentam nos mitos. Shakespeare, no início dos anos 1590, em virtude do fechamento dos teatros, dedica-se a escrever dois poemas longos. "Vênus e Adônis", inspirado na história de Ovídio, alcança enorme sucesso de vendas e o consagra como poeta. "A violação de Lucrécia", também inspirado na obra de Ovídio, é outro sucesso. Shakespeare modifica um tanto o mito e o torna compacto, a ação não tomando mais que um dia. Ele não está interessado na descrição das caçadas com as quais os dois amantes se ocupam no mito original, mas sim com o jogo retórico da sedução. Na verdade o Adônis de Shakespeare resiste a sedução de Vênus (Shakespeare utiliza a forma latina da deusa). A conjunção carnal não se consuma, o amor é "cosa mentale", é arte. Vênus utiliza todos artifícios que pode, mas Adônis é sempre esquivo e desdenha da deusa, a faz desmaiar de amor (logo ela, a deusa do Amor). Ela tenta impedir o rapaz de sair a caçar, retardando-o, mas ele resiste e escapa, para logo e longe dela ser morto pelo javali. Ela o chora, pranteia, amaldiçoa as Parcas, discursa sobre o amor e a luxúria e segue seu caminho, farta do mundo, de volta para sua Pafos natal. A tradução é de Alípio Correia de França Neto, que assina também uma longa introdução, muito boa mesmo, onde contrasta as versões de Ovídio e Shakespeare. Ele chama o poema de "drama da sedução", uma beleza de definição. Alípio também inclui no livro um conjunto de notas, compiladas e adaptadas de outros comentadores da obra, que fazem a festa do leitor curioso. A edição é bilíngue e o leitor pode apreciar cada uma das soluções que Alípio criou para contornar as dificuldades do texto. Comecei a ler esse livro ainda na primavera do ano passado, mas os dias andavam turvos e amargos demais para que a leitura avançasse. Nesse glorioso verão o livro se deixou ler/seduzir. Foi bom.
[início: 06/10/2015 - fim: 13/01/2016]
"Vênus e Adônis", William Shakespeare, tradução de Alípio Correia de França Neto, São Paulo: Texto Editores / Grupo LeYa, 1a. edição (2013) brochura 16x23 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-8044-870-2 [edição original: Venus and Adonis (London: Richard Field) 1593]

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

hamlet

Quando me preparava para ler essa tradução do Hamlet procurei lembrar qual era a que havia lido pela primeira vez. Recordo-me bem da capa dos pequenos volumes - tratava-se de uma coleção integral das obras de Shakespeare, mas não alcanço lembrar do nome do tradutor. Paciência. Descobri que já foram feitas pelo menos dez traduções para o português praticado no Brasil (as de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Carlos Alberto Nunes, Adriana de J. Buarque, Carlos Almeida Cunha Medeiros, Oscar Mendes, Geraldo de Carvalho Silos, John Milton, Ana Amélia Carneiro de Mendonça, Millôr Fernandes e a José Roberto O´Shea). Recentemente o poeta e professor Lawrence Flores Pereira publicou a sua. Trata-se de uma tradução que combina várias ambições, compromissos desafiadores, que certamente lhe cobraram extrema habilidade e testaram sua experiência: Lawrence mantém o mesmo número de versos do original (utilizando-se do que ele chama de alexandrinos atonais), evitando com esse procedimento transbordamentos; mantém o coloquialismo nos momentos que o original o mantém, alcançando que cada personagem tivesse em português a sua própria voz (a voz que Shakespeare deu a elas); faz um uso mais rico do léxico português; explora muito bem o contraste entre prosa e verso sempre presente nas obras de Shakespeare; respeita o ritmo do original; e produziu um texto para ser encenado de fato, um texto que pode ser lido em voz alta ou declamado com naturalidade (cabe dizer que uma primeira versão dessa tradução já foi testada com sucesso em uma montagem sob a direção de Luciano Alabarse, em Porto Alegre, há cinco anos). Gostei muito do texto, da leitura dos cinco atos da peça, de reencontrar aqueles bizarros personagens, que parecem sempre me convencer da necessidade de seus atos terríveis. O volume inclui uma série de mimos (típicos desta coleção Penguin Classics Companhia das Letras): (i) uma introdução, assinada pelo tradutor, que dá conta de aspectos históricos e teatrais das obras de Shakespeare; (ii) um famoso ensaio do poeta e dramaturgo Thomas S. Eliot (Nobel de 1948), onde ele alerta para uma espécie de encantamento que a peça provoca nos leitores (principalmente naqueles cujas mentes de natureza criativa, por falta de poder criativo, dedicam-se à crítica), encantamento que os faz esquecer dos problemas técnicos que a peça tem (não os problemas que o personagem Hamlet tem); (iii) duas notas breves que especificam as fontes e o compromisso tradutório utilizado; (iv) as referências bibliográficas fundamentais; e por fim, aquilo que acredito ser o mais generoso dos presentes, (v) extensas notas de tradução, que ocupam aproximadamente um terço do volume, onde ora se argumenta sobre as soluções adotadas na tradução de passagens específicas, ora se fala da conveniência ou não de um determinado procedimento cênico, mas que também oferece explicações sobre aquilo que é cifrado ou enigmático demais no original, como certos antropônimos, topônimos, passagens que fazem alusão a mitologia, história e sociologia. Essas últimas notas fazem a festa de um leitor curioso. O projeto de tradução do Lawrence pode ser encontrado na Revista de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982-6850). Agora cabe um último parágrafo, um tanto mais cabotino, que você leitor apressado, pode abandonar: Como é bom voltar ao texto quando queremos entender algo mais da engenharia de uma peça, quando tentamos decifrar detalhes dos diálogos e das referências cifradas com as quais os autores as povoam. Mas como contrastar essa experiência de leitura com a experiência teatral? Assim como não é incomum um sujeito nunca ter lido Freud para em algum momento da vida discursar com autoridade sobre Complexo de Édipo é bastante provável que a maioria daqueles que nunca leram um verso que seja de Shakespeare saibam muito bem quem foi Hamlet. O personagem, a peça, as passagens mais famosas e o conflito básico do livro fazem parte da cultura de nosso tempo. Recebemos ao longo da vida tantas referências sobre ele que acabamos por acreditar que o livro já foi mesmo lido, muito tempo atrás, só não sabemos precisamente quando. Claro, nada supera a experiência de ver a peça bem encenada, num palco ou, mesmo com algum prejuízo numa produção para cinema ou televisão. No caso dos dramas clássicos a experiência visual sempre é mais vívida que a leitura silenciosa, nos aproximamos melhor daquilo que Wagner chamava de arte total e é por isso que dificilmente esquecemos aquelas horas de encantamento numa sala escura. Como disse lá no início não me lembro quando li Hamlet pela primeira vez, mas lembro-me sim de quando vi a versão cinematográfica dirigida e protagonizada por Laurence Olivier (ainda em São Bernardo, no final dos anos 1970) e também de uma montagem teatral que assisti em Madrid (em 1990, diz o livro/catálogo bilíngue utilizado na peça que ainda tenho em meus guardados). Só de escrever essas lembranças já me sinto novamente transportado para aquele tempo de maravilhas, de alegrias e experiências prazerosas sem fim, "drowning in honey, stingless", como nunca canso de repetir. 
[início: 22/08/2015 - fim: 30/08/2015]
"Hamlet", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 318 págs., ISBN: 978-85-8285-014-5 [edição original: The Tragicall Historie of Hamlet, Prince of Denmarke (London) first quarto, 1603; second quarto, 1604/1605; first folio, 1623; Harold Jenkis (org.), Hamlet, Arden Shakespeare, second series (New York: Routledge) 1989]