Mostrando postagens com marcador Nei Lopes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nei Lopes. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de abril de 2020

meu lote

Neste bom livro estão reunidos 121 textos de Nei Lopes inicialmente publicados em um blog (também chamado Meu Lote), entre 2003 e 2008, e selecionados por Marcus Fernando, produtor musical e cineasta carioca. De Nei Lopes já havia lido dois bons livros de ficção: um romance (O preto que falava iídiche) e um de contos (Nas águas desta baía há muito tempo). Suas crônicas são deliciosas. "Meu lote" trata daquilo em que o multitalentoso Nei Lopes é mestre: música, literatura, carnaval, cultura negra, história da África, do Brasil e do Rio de Janeiro (ele tem uma obra vastíssima centrada na temática africana e afro-originada, a da diáspora africana, como ele gosta de grafar). São crônicas realmente boas de ler, super informativas, bem escritas, aprende-se um bocado nelas, sobre uma miríade de assuntos. Algumas são mais caras à memória, a sua Irajá fundamental, ao registro de perfis biográficos de músicos, personalidades, influências; outras são mais engajadas, falam da necessidade de se discutir a questão negra no Brasil, com coragem, sem medo, como uma das muitas questões sociais que nós sempre adiamos por aqui; noutras ainda ele fala dos carnavais, do samba, de seus encontros com o povo da música; há ainda registros de falares brasileiros, influências das muitas línguas africanas que se fundiram no léxico do português; há também listas de verbetes bem humorados, que tratam de nossas alegrias e misérias cotidianas, além de sempre bacanas fragmentos biográficos. Grande estilista, ele inclui um bocado de ironia dos textos, sempre que é necessário fazer-se bem ler e bem ser respeitado. Livro muito interessante mesmo. Vou procurar mais cousas deste sujeito. Vale! 
Registro #1517 (crônicas #269) 
[início: 04/04/2020 - fim: 12/04/2020] 
"Meu lote", Nei Lopes, Rio de Janeiro: Editora Numa, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 312 págs. ISBN: 978-85-67477-25-1

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

o preto que falava iídiche

Por acaso descobrir e ler "O preto que falava iídiche" foi umas das grandes alegrias que tive em 2018 (já falei disto quando registrei aqui no final do ano passado algo sobre seu bom livro de contos, "Nas águas desta baía há muito tempo"). Pois "O preto que falava iídiche" é um romance especial, bastante inventivo e movimentado. Nei Lopes criou um personagem interessante, Lindonor, o Nozinho da Gamboa, uma espécie de Macunaima carioca, de quem se conta cousas desde seu nascimento até a espécie de transfiguração mítica que experimentará na velhice, nos confins da Africa (se é que ele não morreu de morte matada em algum momento, bem antes desta velhice). O narrador é um advogado carioca, que tornou-se tutor do jovem negro sem pai nem mãe, para impedir que ele fosse enviado ao cárcere. Esse advogado conta causos da vida de Nozinho, quase sempre em um bar, ou também ouve historias fabulosas de terceiros sobre seu protegido. Essas historias se confundem com histórias reais da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil no inicio do século passado: a convivência de negros e judeus no centro da cidade, que compartlham o mesmo tipo de marginalização e preconceito, a ascensão da zona do meretrício, a geografia da cidade, a reinvenção do candomblé, a invenção da bateria, do samba, fala sobre o teatro de revistas, o carnaval, a invenção dos sambas-enredo, a destruição do morro do Castelo, a história dos Orixás, a marcha da coluna Prestes, sobre o tráfico negreiro, a especulação imobiliária e expansão da cidade, a semana de arte moderna paulista, a história dos negros nos EUA, a historia do futebol e dos times cariocas, a rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo, as histórias de negros, muçulmanos e falashas judeus na Africa. Essa miriade de informações gravita o jovem Nozinho, que posto a trabalhar como aprendiz em um armarinho de um proprietário judeu na praça Onze carioca, apaixona-se por Raquel, filha do dono, que acaba sendo exilada na distante Porto Alegre gaúcha, enquanto ele foge para o Irajá carioca, obrigando o herói do livro passar sua vida perseguindo o sonho de reencontrá-la (e até virar argumento em uma peca teatral que teria sido escrita pelo abolicionista José do Patrocínio). Nesta busca ele deambula por lugares onde os judeus brasileiros floresceram: Porto Alegre, São Paulo, Bahia, mas me parece que é a história dos negros na sociedade brasileira que se está sendo melhor contada. De qualquer forma a história que realmente importa é a da busca de um amor perdido. Apesar das muitas citações eruditas a leitura é leve, o texto flui como poucos, ri-se das aventuras do sujeito. Há bons personagens secundários, uns velhinhos divertidos. Adorei a encrenca que Nozinho provoca entre o sofisticado paulista Décio de Almeida Prado e uma importante mãe de santo carioca, Mãe Mocinha. No final do livro se alcança um tom de fábula, um amigo de Nozinho argumenta, num transe mítico, que esse tornou-se uma espécie de imperador da Africa, unindo finalmente suas raízes negras e judaicas, servindo de exemplo, resgatando a importância e valor de todo o povo negro. O narrador confessa que escreveu um livro sobre os sucessos de Nozinho, que reencontrou próspero, protegido de Getulio Vargas nos tempos do Estado Novo, autor velado da Lei de Segurança Nacional, mas esse livro foi rejeitado por várias editoras por um pretenso antissemitismo. Que romance bom. Vou procurar mais cousas deste Nei Lopes. Vale!
Registro #1359 (romance #354)
[início 26/09/2018 - fim: 29/09/2018]
"O preto que falava iídiche", Nei Lopes, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 255 págs., ISBN: 978-85-01-11325-2

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

nas águas desta baia há muito tempo

Há livros que nos encontram por eles mesmos, sem que tivéssemos notícias deles antes, pouco importa quantos anos já tenham passado de sua edição. Há dois ou três meses, vagabundeando por uma livraria paulista, sem medo, sem temor, interessei-me por um livro cujo título é poderosíssimo: "O preto que falava iídiche". Resolvi comprá-lo, mas não me furtei de levar junto seu irmão mais novo, que a seu lado repousava na estante, justamente esse "Nas águas desta baia há muito tempo: Contos da Guanabara". Comecei a ler naquele dia mesmo. Que assombro. Que delicia. Que textos maravilhosos. O autor, Nei Lopes, é um senhor escritor. São 18 contos de fada, 18 mitos revistados, 18 narrativas de estalo, que demonstram o quão poderosa e rica é a língua portuguesa. Para usar uma metáfora de Nei Lopes utilizada no livro, são caudalosos os mares de invenção que podemos singrar quando nos damos conta que brasileiros somos, e que cabe a nós, cada um a seu jeito e maneira, tino e oficio, nos afastar da borda do perene abismo em que vivemos. Somos nietzschianos de nascença. Nei Lopes apresenta ao leitor 18 contos curtos, todos eles brotam de um nome, uma figura mítica, um carioca que viveu tempos atrás. Ele parece sintetizar e emular aquilo que nós, os não cariocas, imaginamos ser próprio dos habitantes daquela antiga capital. Os contos tratam de um período que vai dos anos finais do império e primeiros anos da republica, dos anos 1880 e 1900. Em vários deles ecoam os bombardeios decorrentes de uma das "revoltas da armada", aquelas em questionavam e confrontavam o despótico governo de Floriano Peixoto. A geografia ou cartografia literária dos contos se fixa na baía da Guanabara, nas ilhas do arquipélago interior formado por ela. A baía da Guanabara é um grande mar e suas ilhas e praias a terra prometida dos cariocas. Ao inventar e registrar suas histórias Nei Lopes reescreve um Rio de Janeiro lendário, de fábula. Fala de ruas que tinham outros nomes, usa palavras que tinham outra conotação, registra hábitos de um país que parece diferente do que conhecemos, mas do qual somos certamente metamorfose, nova encarnação, nova persona. Claro, o leitor pode ficar a pensar se aqueles personagens existiram, se tudo aquilo descrito por Lopes aconteceu, se somos mesmo descendentes ou herdeiros deles. Só sabe quem lê. Que aventuras maravilhosas experimentará todo aquele que se aproxime deste poderoso livro. Evoé don Nei Lopes, evoé. Vale!
Registro #1352 (contos #159)
[início 23/10/2018 - fim: 28/10/2018]
"Nas águas desta baía há muito tempo: Contos da Guanabara", Nei Lopes, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2017), brochura 14x21cm, 270 pág. ISBN: 978-85-01-10913-2