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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

solução de dois estados

De Michel Laub já li "Tribunal da quinta-feira" (2017), "Diário da queda" (2011), "Não depois do que aconteceu" (1998) e A maça envenenada" (2013). "Solução de dois estados" é sua proposta mais recente e é realmente interessante. O formato deve algo a um antigo programa de entrevistas que existia na TV Cultura paulista (Ensaio, criado e dirigido pelo grande Fernando Faro). Digo isso pois Michel Laub faz seus personagens responderem continuamente a perguntas em longas entrevistas, mas estas perguntas não são grafadas, o leitor apenas as infere, quase nunca as lê. Estas entrevistas são conduzidas por uma mulher, Brenda, que pretende produzir um documentário sobre violência e envolve dois irmãos em conflito, Alexandre (o mais novo, um empresário do setor de academias de ginástica) e Raquel (a mais velha, uma artista plástica, que trabalha com vídeo arte e performance). A história não segue os fatos cronologicamente. A narrativa alterna fatos do início os anos 1990 e o final dos anos 2010, correspondendo assim aos anos de redemocratização do Brasil, aqueles que se seguiram a constituinte e a eleição de Fernando Collor, seguindo até os sucessos mais recentes (de 2013 a 2018). Assim como nosso país alternou momentos de entusiasmo, ufanismo e delírios de grandeza (sempre artificiais, já sabemos) e a experiência prática de desgraças, corrupção generalizada e vocação para a mediocridade (sempre inevitáveis, também já sabemos) a vida da família de Raquel e Alexandre reveza pontos baixos e altos, perdas e ganhos. No início acompanhamos como a empresa gerenciada pelo pai dos dois irmãos é levada a falência em decorrência do heterodoxo  plano Collor, programa imbecil, um dentre muitos deste país pródigo em programas, plataformas e decisões estúpidas. Os dois irmãos vivenciam de forma diferente o impacto da falência da empresa na vida dos pais (Raquel algo blindada, pois vive na Europa, estudando, Alexandre no redemoinho dos problemas brasileiros, justamente quando tem que decidir qual curso fazer na universidade). Laub não cai no erro de tentar fazer história ou ficar discutindo economia em seu romance. O conflito do livro gravita a repercussão de uma agressão física que Raquel sofre durante uma de suas performances públicas, já quando vive no Brasil, agressão que ela associa à disputa com Alexandre pelo espólio da família e ele associa a vida hedonista da irmã. Os diversos fragmentos de entrevistas que compõe a narrativa dão conta de exemplificar como a verdade nunca é plana quando membros de uma família contrastam suas interpretações da realidade imediata, ou falam dos fatos, do passado e de si mesmos, ou têm interesses econômicos distintos, se imaginam moralmente superiores uns aos outros, ou são hipócritas. As reflexões sobre política, economia, sociologia e psicologia que os personagens esgrimem parecem pajelanças, mostram ser ferramentas tímidas, inadequadas, que não se prestam a explicar como brasileiros em fúria se comportam, já que aqui ódio e desentendimento mútuo é norma, é lei. Laub, claro, parece interessado em entender o terrível país em que vivemos, não dogmatiza, não oferece chaves fáceis de interpretação. Talvez a palavra não dita no livro, mas que o domina, silente, é memória, ou seja, nossa incapacidade de lembrar corretamente o que vivemos, como indivíduos e como grupo social, sempre mais interessados em retificar as verdades do passado (as nossas e a de todos os demais, tarefa inglória, já se sabe). Assim como a "solução de dois estados" original (o projeto de criação e de coexistência pacífica entre Israel e Palestina), os dois irmãos parecem viver duas realidades distintas demais para que possam um dia coabitar num mesmo lugar e tempo, ou para que possam, um dia, se amar. Belo livro. Vale!
Registro #1585 (romance #391)
[início: 21/10/2020 - fim: 23/10/2020]
"Solução de dois estados", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 243 págs., ISBN: 978-85-359-3379-6

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o tribunal da quinta-feira

No "Em busca do tempo perdido" há uma passagem em que Elstir, um respeitado, discreto e já idoso pintor, confessa ao narrador ter sido ele, em uma odiosa encarnação da juventude, um sujeito frívolo e tolo, chamado Biche ou Tiche (Proust é cruel inclusive por fazer seu narrador não lembrar exatamente o nome do sujeito). Todavia Elstir não confirma a descoberta desta identidade passada com medo de ficar exposto, arranhar sua reputação ou por culpa, antes, com sabedoria, aproveita a oportunidade para ensinar ao jovem e arrivista narrador da inevitabilidade das metamorfoses pelas quais passamos, falando da dolorosa experiência de amadurecer e conviver com todas as lembranças dos atos passados, bons e maus. O narrador de Michel Laub, nesse poderoso "O tribunal da quinta-feira" experimenta algo similar. Ao ter uma indiscrição do passado revelada, passa por uma súbita metamorfose, e acaba moralmente condenado a enfrentar o juízo de uma pessoa, no tal tribunal da quinta-feira do título do livro. Esse encontro acontece no último parágrafo do livro, o réu já desarmado de seu natural sarcasmo. Jamais saberemos o veredito. Laub habilmente oferece ao leitor acompanhar o processo dessa metamorfose, envolver-se no emaranhado factual das circunstâncias da indiscrição (ridícula, irrelevante, casual, como sempre acontece no mundo real). Ficamos a saber das ponderações, providências, tomadas de decisão desse narrador. O intrincado da cousa, cerebral e desapaixonada, lembra muito os melhores Philip Roth. A fronteira elástica e permeável entre a vida pública e privada em nossos dias é uma espécie de fantasma que assombra todo o livro. Como já disseram personagens de Javier Marías em "Tu rostro mañana": "Ninguém nunca deveria contar nada, (...) mas calar é a grande aspiração que ninguém realiza". A falta de privacidade é um mal da modernidade, apesar da hipocrisia não ser invenção nem um pouco recente. Laub realmente alcançou concentrar num livro, que é curto e se deixa ler em poucas horas, algo da vertigem deste nosso tempo inapelavelmente terrível. Muito interessante mesmo. Enfim, há livros que nem precisamos ler para sabermos que são muito bons. Caso sejamos capazes de conter nosso açodamento, o guardamos para um final de semana especial ou feriado, ou ainda postergamos as alegrias estéticas para dias felizes que, muitas vezes, nunca chegam. Comprei meu volume ainda nas festas de final de ano, logo após a morte de minha mãe e deixei o livro perdido em meus guardados. Felizmente encontrei um dia ideal para ler. Evoé Laub, evoé.
[início/fim: 30/05/2017]
"O tribunal da quinta-feira", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 183 págs., ISBN: 978-85-359-2832-7

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

a maçã envenenada

Michel Laub apresenta em "A maçã envenenada" a história de um sujeito de quarenta anos, jornalista, que por alguma razão localiza num dilema moral, em um acontecimento fortuito de sua juventude, a origem de seu desconforto com a vida. Ao entrevistar uma ativista tútsi, sobrevivente do massacre de Ruanda (ocorrido início dos anos 1990), ele lembra que na mesma época do massacre um de seus ídolos, Kurt Cobain, o líder da banda Nirvana, havia cometido suicídio. O sujeito passa então a narrar seu conturbado relacionamento com uma garota, seu primeiro amor, um típico amor adolescente que desde o início está condenado ao fracasso. A garota é também vocalista de sua banda de rock, na Porto Alegre provinciana daqueles dias. O dilema moral que o narrador experimentou quando era jovem envolvia ir ou não com a namorada ver um show do Nirvana, em São Paulo, ao mesmo tempo que deveria decidir se aceitava ou não a extorsão pecuniária de um colega de sua turma do serviço militar, por conta de uma transgressão boba (que ele imaginava capaz de eventualmente destruir sua carreira profissional). Laub contrasta o suicídio de Cobain com o estoicismo e força da ativista tútsi e, simultaneamente, oferece ao leitor fragmentos da história do narrador, de sua namorada e da mãe dela, onde encontramos simetrias (trágicas simetrias) com aquelas duas histórias. A exemplo do que sempre acontece no mundo real, na história inventada por Laub os irrelevantes dilemas do narrador se evaporam (talvez não exatamente por acaso, mas de qualquer forma sua vida segue por novos caminhos). O narrador, em 2013, parece não estar convencido da eficácia efêmera do desgosto e continua aborrecido e culpado, preso ao passado. É um livro fácil de ler. E é de fato bem escrito, mas não empolga muito (as histórias de aprendizado raramente empolgam). Todavia Laub tem o mérito de exemplificar num bom texto que não há nada a se invejar da juventude (época dos milagres, como lembra divertido Josep Pla, mas que é boa e memorável exatamente porque acaba, quando todos nos metamorfoseamos um dia, afinal, em um adulto). Paciência. "Diário da queda" agradou-me muito mais. Aparentemente "A maçã envenenada" é o segundo volume de uma trilogia. Vamos esperar, e ler. Trivia: Laub enumera trechos de seu livro, de 1 a 101. Talvez seja uma bobagem, mas não há como deixar de pensar que a história que se narra é uma história de iniciação, de exercícios - como nos cursos 101 das universidades americanas.
[início: 06/09/2013 - fim: 07/09/2013]
"A maçã envenenada", Michel Laub, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 119 págs., ISBN: 978-85-359-2311-7

segunda-feira, 12 de março de 2012

não depois do que aconteceu

Encontrei este livro em um dos balaios da última Feira do livro de Porto Alegre. O preço que paguei foi uma indecência. Seguro que os autores devem ser poupados do constrangimento de ver seus livros em dias de saldo. A edição é do Instituto Estadual do Livro (do Rio Grande do Sul), de quinze anos atrás. Li os contos com muito interesse e prazer. São histórias curtas, duas, três ou quatro páginas, boa parte delas. Laub tem uma imaginação poderosa e saber adequar a linguagem do que narra à atmosfera criada em cada um dos contos. Os temas são cotidianos, nada é fantástico, exótico ou surrealista. São histórias banais, corriqueiras: Uma fisioterapeuta não sabe dizer se o que pratica é vocação ou expiação de uma culpa; um advogado relata as felicidades mirradas de sua vida; um sujeito em Londres cataloga os hábitos de um casal de amigos; uma mulher entediada flerta com o suicídio; um rapaz conta seu tempo e procura um emprego; um "shaper" sonha com uma vida de surfista profissional; num bairro amalucado um sujeito se imagina dono de uma árvore; um rapaz estuda com estoicismo e sonha melhorar de vida; na rotina besta de uma base militar um sujeito delata seus colegas; mochileiros na Grécia são arrebatados (mas também entediados) pela beleza do lugar; um sujeito comete um crime e se percebe impune, elabora estratégias de auto-indulgência. O conjunto não chega a formar um mosaico compacto, auto-referente, mas demonstra que Laub sabe produzir bons contos. Minha cota anual de literatura brasileira sempre é modesta, mas desta vez pretendo me aventurar mais. Vamos a ver o que se passa. [início 07/03/2012 - fim 08/03/2012]
"Não depois do que aconteceu", Michel Laub, Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm, 95 págs. ISBN: 85-7063-223-1

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

diário da queda

É sempre sutil, mas cada livro que encontramos conecta-se com os anteriores e futuros. Como leio vários livros simultaneamente é comum que estabeleça sempre associações (ou introduza contaminações) entre eles. Se no "A máquina de fazer espanhóis" valter hugo mãe inventa um futuro para um homem velho como seu pai nunca chegou a ser, nesse "Diário da queda" o que encontramos é a justificativa mental para a invenção de uma trajetória, ou melhor, de uma guinada na vida, uma mudança no futuro de um homem que pode não vir a se tornar pai caso continue com seus hábitos mais entranhados. Trata-se de uma boa história, num livro muito bem escrito. Lembra um tanto o "Quase memória", do Carlos Heitor Cony, mas "Diário da queda" é mais irônico e mais explicitamente literário. Michel Laub faz seu narrador contar a história de três gerações de homens, como em um recenseamento. Este narrador conta o que sabe de seu avô, o que sabe de seu pai e o que sabe de si próprio. Do primeiro as memórias são emprestadas, já que ele não o conheceu. Mas seu pai tampouco parece ter compreendido a complexidade do avô, um sobrevivente de Auschwitz radicado na Porto Alegre do final dos anos 1940. A relação do narrador com seu pai é igualmente difícil e ambígua. O livro parte da descrição de um acidente ocorrido durante o Bar Mitzvah de um colega de turma (gói) do narrador. A obsessão do narrador com sua culpa no acidente e todos os desdobramentos desta culpa (rompimento com os demais colegas, mudança de colégio, briga com o pai, tentativa de se redimir através de uma amizade artificial este colega, as traições cruzadas e seus relacionamentos afetivos complicados) servem como espelho para ele analisar a memória e os atos de seu pai e de seu avô, como se ele estivesse transferindo essa culpa original para alguém, por conta dos atos pregressos de seu pai e de seu avô. Há uma espécie de economia em seu texto (e registro isso não exatamente como um demérito). Ele não é nada verborrágico, nem se preocupa em criar metáforas elegantes, que adornem ou glamurizem o que se descreve. Os capítulos algo fragmentados basicamente constrastam as agruras do Alzheimer, a história judaica pós segunda grande guerra e a intoxicação do alcoolismo. O texto progressivamente acumula camadas de memória, que podem ser reais, tanto as individuais quanto as coletivas, mas também podem ser inventadas ou manipuladas, tanto individualmente quanto coletivamente. Laub apresenta um mosaico de reflexões sobre esses três grandes temas que certamente não irão deixar nenhum leitor indiferente. Bom livro. [início 31/08/2011 - fim 03/09/2011]
"Diário da queda", Michel Laub, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 151 págs. ISBN: 978-85-359-1817-5