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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

os embaixadores

Em uma avenida de Porto Alegre, de cujo nome não quero lembrar-me, vivem, não há muito, um casal de amáveis anfitriões que costumam conjurar, de tempos em tempos, encantamentos e alegrias para seus convidados, enredando-os em maravilhas, inebriando seus sentidos, cercando-os de mimos, fazendo com que cada um e todos ao mesmo tempo, sintam-se ali especialmente acolhidos, com se estivessem em um palácio das mil e uma noites, em um altar de fábula. Pois esse ritual repetiu-se na noite do último oito de novembro, quando o Luiz-Olyntho e a Glória receberam um petit groupe em sua casa, logo após o lançamento de "Os embaixadores", livro mais recente de Luiz-Olyntho, que havia acontecido na Feira do Livro de Porto Alegre. Trata-se de um livro de ensaios, sobre onze autores gaúchos que são identificados como diplomatas das letras, embaixadores da boa literatura que se pratica no Rio Grande do Sul. No total o livro enfeixa dezessete ensaios. Acho que quase todos podem ser encontrados no  site tellesdasilva.com.br, mas sete deles já haviam sido publicados em livro, jornais ou revistas acadêmicas. De qualquer forma, para essa edição, todos os textos foram reescritos. O livro funciona como um guia de leituras de autores gaúchos fundamentais, autores que em algum momento chamaram sua atenção. Não são reflexões ligeiras, superficiais. O leitor encontra ponderações refinadas, ricas exegeses, minuciosa crítica. Antes de descrições definitivas dos livros sobre os quais fala, ele parece convidar os próprios autores e os eventuais leitores à interlocução, como em uma tertúlia espiritual. Quem já está familiarizado com o estilo habilidoso de hermeneuta que Luiz-Olyntho é, voltará a encontrar sua costumeira miríade de associações, não apenas entre os textos que lê e compara com o mundo dos livros, da ficção, mas também com os mundos da psicanálise e da clínica, da mitologia, filologia e história. De fragmentos e detalhes que ele resgata de seu passado brotam provocações, esclarecimentos, ideias, verdadeiras iluminações. Aprende-se um bocado. Enfim, os embaixadores do título são Luiz Antonio de Assis Brasil, Maria Carpi, Berenice Sica Lamas, Hilda Simões Lopes, Ana Mariano, Lenir de Miranda, João Simões Lopes Neto, Aldyr Garcia Schlee, Donaldo Schüler, Armindo Trevisan e Erico Veríssimo. Todavia, é certo que o Luiz-Olyntho pode também ele ser considerado um senhor embaixador, que bem apresenta seus colegas aos demais leitores. Evoé LOTS, EvoéVale!
Registro #1348 (crônicas e ensaios #238)
[início 08/11/2018 - fim: 15/12/2018]
"Os embaixadores", Luiz-Olyntho Telles da Silva, Porto Alegre: Editora Movimento, 1a. edição (2018), brochura 14x21, 296 pág. ISBN: 978-85-7195-283-6

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

iluminura turca

Do Luiz-Olyntho já registrei aqui "Incidentes em um ano bissexto" (um volume de contos) e "Um elefante em Albany street" (sobretudo ensaios).  Seu livro mais recente é "Iluminura turca e outras crônicas", lançado em novembro passado (lançamento aliás que perdi, ai de mim, por conta de uns compromissos dos diabos que não podia adiar). O Robson esteve lá, fez uma apresentação do livro (que está o fino de boa) e depois contou-me dos sucessos e da alegria dos presentes. São 21 crônicas, produzidas originalmente entre 2007 e 2013. O LOTS é um cronista curioso, paciente, que não se apressa em chegar ao desfecho de suas histórias, mais interessado no caminho que as palavras parecer seguir sozinhas, nas poderosas associações que faz, nas digressões que oferece ao leitor. Suas crônicas sempre parecem cifradas, cobram atenção do leitor, mas ele mesmo nos guia pelo labirinto de suas idéias e junções, dos fragmentos de sua memória, de suas interpretações. Elas são registros de seu cotidiano, reflexões de um intelectual refinado, vislumbres da história (como ele mesmo define no prólogo). O cronista observa os vizinhos; relembra um causo da infância; vai ao teatro, ao concerto, ao cinema e a exposições de arte; assiste palestras; vê um documentário na televisão; interpreta uma passagem bíblica; reinterpreta haikais; fala de suas leituras e decifra livros; experimenta a sensação de ser avô; conta algo de seus pais e de seus ensinamentos; descreve suas viagens e descobertas; partilha alegrias, epifanias; narra o que sente e o que vê. Gosto das epígrafes que o Luiz-Olyntho acrescenta sempre às crônicas (usar citações com tino parece ser marca registrada dele). Elas estimulam a curiosidade do leitor e iluminam o entendimento das crônicas. A capa do livro reproduz um quadro de um amigo nosso, o artista plástico João Luiz Roth, que acaba descrito numa das crônicas, uma que brotou do que o Luiz-Olyntho viu numa peça, enveredou pela literatura, flertou com o bico de pena do Roth e o jornalismo, voltou ao escuro do teatro e à peça, como um Dédalo desconstruindo seu próprio labirinto.
[início: 05/12/2015 - fim: 24/12/2015]
"Iluminura turca e outras crônicas", Luiz-Olyntho Telles da Silva, Porto Alegre: EDA/Edições do Autor, 1a. edição (2015), brochura 13,5x21 cm., 176 pág., ISBN: 978-85-909213-1-8

sábado, 21 de dezembro de 2013

um elefante em albany street

Este é o octingentésimo registro de minhas leituras neste blog, registros iniciados em janeiro de 2007. Com ele quero homenagear um grande sujeito, o amigo Luiz-Olyntho Telles da Silva, um artífice de idéias, realizações e amizades, que fez 70 anos há dez meses, num glorioso 21 de fevereiro, numa gloriosa festa que tive o privilégio de participar. Talvez fosse por isso apenas que este registro em particular seja muito caro a mim. Mas penso que há outros motivos para que ele seja assim apresentado. Afinal ele foi adiado por tanto tempo, trata-se um livro tão especial e representa uma forma de entender outros livros, aqueles que todos lemos e tentamos decifrar, que compartilho com Luiz-Olyntho, pois há um justo equilíbrio entre critério e emoção. Li os ensaios reunidos em "Um elfante em Albany street" ainda em janeiro deste conturbado ano, mas como queria usar a publicação da resenha como propaganda de seu lançamento aqui em Santa Maria, adiei diversas vezes sua escritura. Infelizmente, a cada camada de atrasos nos planos que don Robson Gonçalves e eu tínhamos para viabilizar a vinda de Luiz-Olyntho para cá, como pretendíamos, aos aborrecimentos que justificaram os adiamentos somou-se a certeza que o ele e seu livro mereciam uma divulgação mais digna. Os livros se defendem sozinhos, claro, mas os exegetas (mesmo este menor dos anões dentre eles, como eu) podem ao menos fazer com que um determinado círculo de leitores os encontrem. Em "Um elefante em Albany street" estão reunidos dezoito ensaios que são frutos de um ciclo de palestras proferidas em Porto Alegre ao longo de 2010 chamado "Janelas para o mundo". Alguns são longos e detalhados, mas a maioria é de textos relativamente curtos, que se prestam a uma apresentação em público seguida de debates e/ou reflexões improvisadas. São textos ambiciosos, no sentido que almejam trazer ao leitor maior compreensão sobre coisas difíceis, mas o autor nunca se sobrepõe aos textos originais que critica e resenha. Os autores que Luiz-Olyntho escolheu apresentar compõe um panorama bastante eclético. Encontramos Homero e Eurípides; Beckett e Joyce; Machado de Assis e Chesterton; Vargas Llosa e Érico Veríssimo; Ferenc Molnár e Enrique Vila-Matas, Garcia-Roza e Cristovão Tezza, dentre outros. Os gêneros também são variados. A maioria dos ensaios discute romances, mas também há livros de poesia, de contos, teatro e épicos. Em todos encontramos muitas citações e indicações de leitura que estimulam a imaginação do leitor quando somados aos temas discutidos nos livros que ele analisa. Talvez um ou outro texto peque por um exagerado acúmulo de detalhes ou mesmo excesso de citações, mas a maioria deles são mesmo um deleite para os sentidos, para os leitores. O texto final, dedicado ao Ulysses é uma pequena jóia, que todo leitor de Joyce saberá apreciar. E então don Robson, vamos ou não vamos convencer don Luiz-Olyntho a vir à Santa Maria relançar este belo livro? Evoé.
[início: 13.01.2013 - 27.01.2013]
"Um elefante em Albany Street: A arte da descrição discreta", Luiz-Olyntho Telles da Silva, Porto Alegre: HCE editora, 1a. edição (2012), brochura 16x23 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-65026-03-1

sábado, 6 de junho de 2009

incidentes

"Incidentes em um ano bissexto" é um livro de contos muito especial. A edição é muito bem cuidada, a capa é muito bonita, cada um dos contos tem uma epígrafe que nos prepara para apreciá-los mas também que nos instigam a conhecer outros livros, outras histórias. Luiz-Olyntho havia me enviado alguns deles anos atrás e lembro-me de ter dito a ele o quanto havia gostado desta veia ficcional dele. Mas os livros têm de nos conquistar por si sós, sem a ajuda dos seus autores, por mais amigos eles sejam do leitor. As histórias são quase sempre bem curtas, mas não porque lhes faltem fôlego, mas porque o autor prefere ser conciso e direto, talvez pensando encantar e seduzir de vez o leitor. Os contos sempre focam um ponto, uma máxima, uma idéia enfim, e fazem o leitor refletir um tanto sobre o que o autor está apontando. Há um humor e também uma sacanagem sutil em quase todos eles, bem como ecos de uma vida mais próxima do campo, mas deslocada para a infância e a memória de lugares remotos. Luiz-Olyntho gosta de jogos verbais, mas não apela para a cousa fácil. Em algumas histórias ele usa a voz feminina com muita correção. Observa-se também uma preocupação com o uso das línguas e a precisão que certos termos só alcançam na acepção original. Luiz-Olyntho não tem medo de arriscar e em uma das histórias inventa um fantasma de Machado de Assis a consultar seus originais em uma noite calma. Estou certo que não apenas os amigos de Luiz-Olyntho hão de se impressionar com suas histórias. Parabéns meu caro. Belo livro. [início 07/04/2009 - fim 13/05/2009]
"INCIDENTES em um ano bissexto", Luiz-Olyntho Telles da Silva, editora Edições do Autor (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 167 págs. ISBN: 978-85-909213-0-1