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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

correspondência 1945-1970

Escrevo esse registro justamente hoje, 25 de novembro, 49 anos após o suicídio ritual de Yukio Mishima. Encontrei esse volume de cartas e também cartões postais por acaso, quando procurava um outro livro. Não havia lido nada sobre a edição e o lançamento, bastante recentes. Li as cartas sem pressa, tentando emular algo das camadas de tempo que elas guardaram, que elas capturaram. Que alegria ler este livro. Pois então. Entre março de 1945 e julho de 1970, Yasunari Kawabata e Yukio Mishima cultivaram uma franca amizade, sobretudo por meio de cartas. Mishima tinha pouco menos de 20 anos quando recebeu a primeira das cartas de Kawabata, impressionado com a força de "Floresta em plena florescência", primeiro de seus livros publicado. Kawabata já era um senhor - um jovem senhor se atualizarmos a régua da vida aos nossos dias, tinha  46 anos, mais que o dobro de Mishima. Por 25 anos, até o suicídio de Mishima, em novembro de 1970, os dois mantiveram uma relação de admiração e também competição, de respeito e rivalidade, de eternos mestre e discípulo. A leve assimetria no número de cartas (42 de Kawabata a Mishima, 51 de em sentido contrário), certamente deve-se ao início da correspondência entre eles, regrada pelo zelo com a etiqueta, por regras de conduta e boa educação, que hoje soam quase surreais nos relacionamentos entre indivíduos. Nas cartas não é apenas sobre literatura que se fala. Discute-se o estado de ânimo de cada um, problemas de saúde, opções de carreira, impressões de viagem, opiniões sobre peças de teatro (Mishima também foi um habilidoso dramaturgo), dúvidas mundanas, questões bastante pessoais. Claro, na maioria das cartas ou dos cartões postais a interlocução gravita o ofício do livro, da invenção, da estética, da política literária (Kawabata foi durante anos presidente do Pen Club japonês). Qualquer leitor familiarizado com a obra destes dois tremendos autores encontrará neste volume muita informação, muita reflexão sobre as obras de ambos, muitos esclarecimentos sobre o processo de criação literária praticado por eles. A edição oferece muitos mimos ao leitor: um bom posfácio, assinado por Donatella Natili, onde se contextualiza as cartas entre as demais publicações de ambos; curtos fatos biográficos dos dois, e uma longa bibliografia. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1470 (cartas #10) 
[início: 12/09/2019 - fim: 25/10/2019]
"Correspondência 1945-1970, Kawabata e Mishima", Yasunari Kawabata, Yulio Mishima, tradução de Fernando Garcia, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-85-7448-299-6 [edição original: Kawabata Yasunari, Mishima Yukio Ohfuku Shokan (川端康成・三島由紀夫往復書簡) 新潮文庫 1997]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

cartas a harriet

Neste pequeno volume encontramos 62 das muitas cartas ou cartões postais que James Joyce enviou entre 11/11/1914 e 19/06/1939 para Harriet Shaw Weaver, sua amiga, editora, executora literária e também sua mecenas quase particular por muitos e muitos anos. É bobagem especular cousas assim, mas acredito ser bastante improvável que Joyce alcançasse publicar - da forma que publicou - seus três grandes romances: "Retrato de um artista quando jovem", "Ulysses" e "Finnegans Wake", sem a ajuda dela. E mais, seria muito improvável até que sua vida material - o pagamento de sua moradia, alimentação, cuidados da família e das muitas operações nos olhos que fez ao longo da vida - tivessem acontecido da forma que aconteceram. Edna O'brien, famosa especialista em Joyce, escreveu em um artigo que provavelmente Harriet Weaver transferiu (em dinheiro de hoje) mais de um milhão de dólares, dos quais jamais pediu compensação exata na forma de direitos autorais ou coisa que o valha. Joyce enviava-lhe seus manuscritos, mas isso jamais foi uma condição dela para as remessas de dinheiro. Mesmo depois da morte de Joyce, Harriet, que sobreviveu a ele quase vinte anos, continuou apoiando sua família, tendo sido responsável pelos funerais de Nora Joyce e os muitos cuidados hospitalares dedicados a Lucia Joyce. Aprende-se um bocado sobre o caráter e a biografia de Joyce lendo as cartas. Ele era um sujeito irascível e parte de suas obsessões restam registradas nas cartas. A organização do volume e tradução das cartas e cartões postais é de um casal industrioso lá de Santa Catarina, os professores universitários Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros (deles já registrei aqui vários livros e ainda tenho vários outros para ainda registrar, ai de mim). À edição eles acrescentaram um conjunto de mais de duzentas boas notas curtas e dois ensaios robustos, que contam algo da biografia e contextualizam as circunstâncias da troca de cartas entre Harriet Weaver e James Joyce. As cartas foram compiladas de quatro portentos editados nos anos 1950, 1960 e 1970 por Richard Ellmann, o seminal biógrafo de Joyce: os três volumes do "Letters of James Joyce" e o volume "Select Letters of James Joyce". É pena que nenhuma das cartas enviadas à Joyce por Harriet Weaver tenha sido incluída na seleção, mas trata-se obviamente de uma decisão autoral e editorial que se sustenta de várias formas. As cartas e postais dão conta de como Joyce circulava pela Europa e revelam doses mais ou menos equivalentes de generosidade, cumplicidade, lamentos, demandas e exploração, pura e simples. O leitor curioso pode aprender algo sobre esta notável mulher aqui: clika!, ou conferir um artigo de Edna O'Brien publicado na New York Review of Books: clika aqui!. Bueno. Em poucos dias estaremos a comemorar mais um Bloomsday, aqui em Santa Maria, em Dublin e em centenas de outras cidades ao redor do mundo. Nenhuma destas comemorações deveria existir sem que ao menos uma citação de louvor a Harriet Weaver fosse feita. Haverá mais registros sobre livros dedicados as cousas de James Jocye, muito em breve. Você já está preparado para o Bloomsday 2019? Vamos em frente. Vale!
Registro #1406 (cartas #9)
[início:12/05/2019 - fim: 16/05/2019]
"Cartas a Harriet", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-7321-589-2

terça-feira, 25 de setembro de 2018

queria ter ficado mais

"Queria ter ficado mais" é o resultado de um projeto bacana, que aposta na emoção, na sensibilidade, na paixão. Doze mulheres, doze jornalistas, foram convidadas para produzir relatos sobre alguma experiência de viagem. A ideia era elaborar narrativas que não servissem para fins práticos, como num guia de viagens, antes sim que evocassem o clima e a magia das viagens, o impacto de experiências que nos transformam. A edição é bem caprichada e inusual, bonita mesmo (como em geral são os livros da Lote 42). Trata-se de doze envelopes do tamanho de um cartão postal com cartas curtas, endereçadas ao eventual leitor, como em uma confissão. Os envelopes são ilustrados com aquarelas muito bonitas, assinadas pela artista plástica Eva Uviedo. As autoras quase sempre escrevem retrospectivamente, não durante as viagens, mas relembrando delas, falam daquilo que de marcante viveram em um determinado momento de suas vidas. Quase todos os destinos, ou melhor, sete deles, são mais ou menos óbvios: New York, Barcelona, Berlim, Paris, Roma, Londres, Buenos Aires. Três (Istambul, Tóquio, Israel e Valência) são só algo extravagante de se escolher em uma primeira viagem internacional. O único exótico e realmente diferente é Yangshuo (no sul da China, a aproximadamente 460 Km de Hong Kong). Na verdade esta foi a única história que realmente gostei, que alcançou comigo compartilhar a epifania que eventualmente experimentamos em uma viagem, o deslumbramento e alegria da descoberta, a sensação de que a vida vale a pena ser vivida sempre daquela forma. As demais são histórias convencionais, povoadas por clichês: correrias, atrasos em vôos, flertes ou sexo eventual, caminhadas ao luar, festas amalucadas. Talvez seja apenas minha natural rabugice que me impediu apreciar melhor as cartas, os relatos. Talvez se fossem histórias contadas por amigas de fato, ou por gente que falasse de suas aventuras em uma mesa de jantar ou numa noite na praia, para um grupo grande, rindo e detalhando as coisas ao sabor das reações dos demais, o efeito fosse mais marcante. Vai saber. De qualquer forma, sempre é uma boa ideia viajar, viver. Vale! 
Registro #1331 (cartas #8) 
[início 01/07/2018 - fim: 21/09/2018] 
"Queria ter ficado mais", Barbara Heckler, Bruna Tiussu, Cecília Araújo, Cecília Arbolave (organização), Clara Averbuck, Clara Vanali, Florencia Escudero, Isis Gabriel, Ligia Braslauskas, Lívia Aguiar, Luciana Breda, Olívia Fraga, ilustrações de Eva Uviedo, São Paulo: Editora Lote 42, 1a. edição (2015), 12 envelopes, 16x11 cm., 107 págs., ISBN: 978-85-66740-10-3

terça-feira, 19 de setembro de 2017

descendo a rua da bahia

Uma de minhas maiores alegrias como caçador de livros em sebos aconteceu em meados dos anos 1980, quando encontrei um exemplar de "Chão-de-Ferro", do Pedro Nava, volume raríssimo naquela época. Aprendi um bocado com seus livros de memórias ("Baú de Ossos", "Balão Cativo", "Chão-de-Ferro", "Beira-Mar", "Galo-das-Trevas", "O Círio Perfeito" e o incompleto e póstumo "Cera das almas") e também nos muito livros que foram escritos sobre ele. Esse "Descendo a rua da Bahia" reúne a correspondência entre Nava e Carlos Drummond de Andrade, cujas poesias sempre li pouco, ai de mim. São 63 documentos, manuscritos e datilografados, a maioria cartas, mas também cartões postais, recortes de jornal, telegramas. A edição é uma beleza. Uma miríade de ilustrações enfeita o livro, reunindo fotografias, reproduções de manuscritos, crônicas publicadas em jornais e revistas, poemas elegíacos, capas de livros, cópias de bilhetes. O leitor até esquece que há textos no livro, que também são belíssimas as cartas e os mimos que trocam entre si, que são os textos que contam algo melhor a genuína amizade que durou mais de sessenta anos, amizade iniciada em um longínquo fevereiro de 1922, em um bar em Belo Horizonte frequentado por jovens intelectuais e maio de 1984, quando Nava decide se matar. Eram dois sujeitos quase da mesma idade esses mineiros que tornaram-se cariocas, Carlos Drummond era uns poucos meses mais velho que o Nava. Além de duas breves apresentações assinadas pelas organizadoras do livros, as especialistas Matildes Demetrio dos Santos e Eliane Vasconcellos, o livro inclui um posfácio generoso de Humberto Werneck e, num apêndice, poemas e crônicas escritas por Drummond após a morte de Nava, onde ele canta a saudade do amigo ausente e exalta sua obra. Que belo livro. Lendo algo sobre o Nava e a amizade lembrei-me, claro, da Misa, para quem dei de presente aquele raro volume do "Chão-de-Ferro" encontrado num sebo. Logo depois ela se separou do Péricles e se afastou dos amigos dele, como eu, que perdi a amiga e as conversas sobre Proust, Hilda Hilst e, quase sempre, o Nava, mas essa é outra história. 
Registro #1217 (cartas #7)
[início: 04/09/2017 - fim: 12/09/2017]
"Descendo a rua da Bahia: A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade", Eliane Vasconcellos e Matildes Demetrio dos Santos (organização e notas), São Paulo: Bazar do Tempo, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-69924-24-1

sábado, 4 de abril de 2015

diario de la bicicleta

Já li quase todos os romances de Natsume Soseki (ainda há um inacabado, "Mei An", que foi publicado postumamente e está fora de minha lista). Recentemente soube da publicação em espanhol de algumas de suas cartas e crônicas de viagens. Encontrei dois desses volumes em Madrid (um terceiro terei de garimpar virtualmente). Homem cerebral e focado nos estudos, Soseki, que já pertencia ao quadro de professores da Universidade de Tóquio, ganha uma bolsa do governo japonês para uma estadia em Londres. Lá ele permanece por quase trinta meses, de outubro de 1900 a janeiro de 1903. Como o valor monetário da bolsa era muito baixo Soseki economiza morando em alojamentos e pensões afastados do centro, recluso. Sua vida é modesta, espartana. Quase todo o dinheiro que recebe é convertido em livros de segunda mão (como ele fez para levar quase 500 volumes que adquiriu em Londres para o Japão não é contado nos livros que li dele). Nesse volume estão reunidos dois textos. O mais curto é "Diario de la bicicleta", onde Soseki conta seu fracasso em aprender a conduzir uma bicicleta. Ele é levado a aprender a dirigir uma bicicleta pois seus senhorios, preocupados com sua sanidade mental, praticamente o obrigaram a sair de casa, parar de estudar tanto, num outono de dias ainda quentes. O humor de Soseki é algo contagiante e o leitor é levado à Londres vitoriana pela palavras dele. O texto mais longo é "Carta de Londres", na verdade uma espécie de diário onde é descrita sua rotina de estudos, deslocamentos pelo metro, cafés da manhã com seus senhorios, visitas aos sebos e aos parques. Ambos são dirigidos a dois amigos não nominados (a edição não precisa quem dentre seus amigos em Tóquio chegou a receber os textos, se é que eles foram de fato enviados). Posteriormente, quando Soseki retorna ao Japão, os textos foram reproduzidos em uma tradicional revista chamada Hototogisu. As duas narrativas são muito boas. Soseki é um mestre da ironia e não é nem um pouco auto indulgente, sabe rir de suas trapalhadas e do assombro que é viver num país muito diferente do seu. Ele é capaz de fazer observações muito interessantes dessas diferenças. Soseki nos lembra que a experiência de viajar sempre é seminal, mesmo quando sofremos a privação dos prazeres oferecidos pelo hábito, o fiel camareiro de nossas vidas.
[início: 18/03/2015 - fim: 21/03/2015]
"Diario de la bicicleta", Natsume Soseki, tradução de Abel Vidal, Palma/España: José J. de Olañeta editor (coleccíon Centellas), 1a. edição (2013), brochura 9,5x14 cm., 117 págs., ISBN: 978-84-9716-868-7 [edição original: (Tokyo: Hototogisu,  ホトトギス) 1901 e 1903]

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

carta sobre a felicidade

Esta pequena plaquete contém apenas uma carta, a do filósofo grego Epicuro a um de seus discípulos, Meneceu. A edição é bilíngue e inclui uma pequena apresentação, que contextualiza o que é discutido na carta frente ao conjunto da obra de Epicuro (a tradução e a apresentação são assinadas em dupla, por Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore). Resolvi lê-lo agora pois justamente esse texto é citado em um outro com o qual estou envolvido nestes dias: "Federico en su balcón", de Carlos Fuentes. Achei que era uma boa coincidência encontrá-lo e que valeria a pena entender um tanto mais sobre Epicuro antes de voltar às invenções de Fuentes. Em sua carta Epicuro apresenta basicamente o que poderíamos chamar de instruções, como a de que a prática da filosofia deve ser sempre cultivada; que não há nada a se temer sobre os deuses ou sobre a morte; que a felicidade é algo que pode ser alcançado; que a dor é suportável; que a prudência e o hedonismo são valores supremos. Claro que a filosofia de Epicuro deve ser algo muito mais complexo do que se depreende destas poucas instruções (que de resto são suficientemente genéricas para serem aplicadas às mais variadas situações). Interessante (mas viver no Brasil já é suficientemente terrível, cruel e aborrecido para que a busca pela felicidade possa ter alguma chance de sucesso como Epicuro parece defender tão alegremente). Talvez eu devesse ser um tanto mais disciplinado e estudar mais os gregos, conhecer melhor os filósofos, voltar aos clássicos, mas o quê fazer com os outros projetos? Paciência. Vamos em frente. 
[início - fim:04/10/2013]
"Carta sobre a felicidade: (a Meneceu)", Epicuro, tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, São Paulo: editora UNESP, 1a. edição (1997), brochura 10x14,5 cm., 52 págs., ISBN: 978-85-7139-397-4 [edição original: Ἐπίκουρος (300 a.c.), tradução para o português baseado na edição de Graziano Arrighetti 'Epicuro - Opere, Introduzione, testo critico, traduzione e note" (Classici della Filosofia) Turin: Einaudi, 1960]

domingo, 28 de abril de 2013

cartas pônticas

Recentemente, ao ler o impressionante "Danúbio" encontrei uma menção ao exílio de Ovídio. "Augusto soube escolher sua vingança", escreve Claudio Magris, ao comentar o lugar do desterro do poeta. Foi em Tomis, a atual Constança, na Romênia, perto do delta do rio Danúbio, onde Ovídio viveu seus últimos anos, os longos dez anos desde do banimento imposto por Augusto. Tomis havia sido fundada pelos gregos e à época de Ovídio (no início do século I) era uma fortificação da fronteira oriental do Império romano. Ovídio lá viveu assustado com os constantes ataques dos povos ditos bárbaros daquela região, incomodado pelo frio intenso, os ventos gélidos e as más acomodações do lugar, saudoso da vida boêmia, das amizades e das delícias de Roma. Nestas "Cartas Pônticas" estão reunidas cartas que ele escreveu solicitando a intervenção de amigos junto a Augusto (e depois depois da morte deste, a Tibério) ao menos por sua transferência para um lugar de exílio não tão penoso (aos poucos ele se convence da inutilidade de seus pedidos). As primeiras cartas deixam o leitor um tanto incomodado, pois soam como aborrecidos e repetidos exercícios de adulação (é uma associação besta, mas acho que muitas das cartas que o narrador de "Em busca do tempo perdido" escreve devem algo ao estilo das de Ovídio). Mas aos poucos experimentamos um outro efeito, como se o gênio de Ovídio se despejasse de uma vez só. Compreendemos de súbito o quão grande pode ser a dor do sujeito que se sabe impotente frente as circunstâncias da vida (que acontece serem terríveis quase sempre, apesar de nossos esforços em nos iludir com as mirradas maravilhas que encontramos). Qualquer sujeito que esteja para assumir um cargo importante, sinta-se orgulhoso de sua fama momentânea ou do sucesso em sua atividade, deveria ler um par destas cartas. Aprendemos com ele como num sopro aquilo que nos valorava pode tornar-se a prova de nossos crimes, que nossas habilidades podem tornar-se exatamente o nosso fardo, que é fácil ser esquecido por quem não conta mais com nossos favores e mimos. Não se sabe exatamente o porquê da decisão de Augusto, mas provavelmente Ovídio foi traído por coisas que ele mesmo escreveu e defendeu em seus poemas. Há sabedoria nas cartas, mas uma sabedoria esgotada, cansada, quase inerte. Em umas poucas cartas ele deixa de lamentar suas desgraças e consola genuinamente alguém em luto ou adoentado, por amizade ou por educação. Noutras ele convoca sua Musa e espera que seu talento não se extinga de vez. Mas nem tudo é dor, nos anos de exílio Ovídio aprendeu a língua do lugar (a língua dos Getas, das diversas tribos Trácias e Dácias do baixo Danúbio) e chegou a escrever versos nela. Num mar de estupidez, o conhecimento e a erudição são os únicos remédios realmente eficazes ao alcance dos homens. As cartas foram originalmente escritas como poemas, os versos medidos e contados, mas o tradutor optou por fazer uma versão em prosa das cartas. O livro inclui uma detalhada introdução crítica sobre a vida e obra do poeta, além de uma bibliografia. E, por fim, o livro termina num lamento poderoso: "Se me for permitido dizê-lo, minha Musa, entre tão grandes autores, tinha um nome preclaro e encontrava leitores. Deixa, portanto, Inveja, de insultar um homem banido de sua pátria e não disperses, cruel, as minhas cinzas. Tudo perdi, só me foi deixada a vida para oferecer sentido e matéria à minha desgraça. De que adianta cravar o ferro em membros extintos? Não há mais em mim lugar para uma nova ferida". Será possível maior clareza?
[início: 12/04/2013 - fim: 27/04/2013]
"Cartas Pônticas", Ovídio (Públio Ovídio Naso), tradução de Geraldo José Albino, São Paulo: editora WMF Martins Fontes, 1a. edição (2009), brochura 13,5x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-85-7827-043-8 [edição original: Epistulae ex Ponto, (Tomis / Mar Negro) anos 12 a 16]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

cartas a nora

Nos Bloomsdays que organizo aqui em Santa Maria, desde 1994, a leitura das cartas pornográficas de Joyce sempre alcança muito sucesso. Sempre deixo à mão a tradução de Mary Pedrosa ("Cartas a Nora Barnacle", de 1982, editada pelos industriosos Massao Ohno e Roswitha Kempf) ou a edição portuguesa da Hiena ("Querida Nora!", de 1994, cuja tradução é assinada por Carlos Valente e inclui comentários muito bons da biógrafa de Nora, Brenda Maddox). Agora certamente terei de incluir algo novo no balaio dos livros do próximo Bloomsday. E que belo livro! Sou mais que suspeito com as cousas de James Joyce, mas esta antologia de cartas, publicada recentemente pela Iluminuras está mesmo muito boa. Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante, reconhecidos especialistas em Joyce, assinam a tradução e também uma curta apresentação cada um. O volume inclui as poucas cartas de Nora dirigidas a Joyce que sobreviveram até nós, além de um bom texto, nas orelhas, assinado por Caetano Galindo, que publicou recentemente sua tradução do Ulysses. As cartas correspondem aos poucos períodos em que os dois estiveram afastados. Claro, as cartas realmente pornográficas ou escatológicas são umas poucas, talvez dez em um conjunto de mais de cinquenta, mas elas encantam pela franqueza, se destacam por escancarar o quão forte e nada platônico era o amor de Joyce por Nora, dão conta de como sexo e amor são centrais no relacionamento deles. Desde as primeiras cartas, cartões postais e notas curtas acompanhamos um James Joyce enfeitiçado, realmente apaixonado, ciumento, obsessivo, inseguro e frágil, mas também sem medo de reiteradamente identificar Nora como o descanso de suas loucuras, sem vergonha de contar da necessidade imperiosa de estar próximo dela. O Ulysses é a história mais humana já escrita. E o Ulysses e o Bloomsday nascem no dia em que Joyce se encontrou com Nora pela primeira vez. Nestas cartas vislumbramos um pouco da vida privada de Joyce, temos a chance de partilhar a intimidade dele e de quem foi tão fundamental para que ele engendrasse tudo o que publicou. Certamente Fernando Pessoa nunca teve acesso a estas cartas, mas pensou em coisas assim quando disse que apenas as cartas ridículas são verdadeiras cartas de amor. 
[início 23/11/2012 - fim 27/11/2012] 
"Cartas a Nora", James Joyce, organização, apresentação e tradução de Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 149 pág. ISBN: 978-85-7321-398-3 [edição original: Selected letters of James Joyce, editor: Richard Ellmann (New York: Vicking Press) 1975]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

diálogos sem fronteira

Por sugestão do industrioso Roberto Cataldo ainda antes de ler "A cidade silenciosa", que resenhei há pouco, encomendei este "Diálogos sem fronteira". Nele estão reunidas cartas, escritas por Sergio Faraco, brasileiro do Alegrete, e por Mario Arregui, uruguaio de Trinidad, entre julho de 1981 e fevereiro de 1985. A edição original, publicada em 1990 no Uruguai, coligiu um número bem menor das cartas, o que valoriza em muito esta edição brasileira. Faraco tinha quarenta anos quando teve a iniciativa de escrever a editora de Arregui no Uruguai solicitando sua autorização para a tradução e eventual publicação no Brasil de alguns de seus contos. Arregui (uns vinte e cinco anos mais velho) responde a carta e a partir daí uma amizade epistolar se inicia (eles só se encontraram uma única vez, na feira do livro de Porto Alegre de 1984, quando "Cavalos do amanhecer" foi lançado). No início as cartas tratam de questões técnicas de tradução. Aos poucos as cartas passam a englobar também questões pessoais. Na verdade desde o início Arregui trata Faraco como um "publisher" mais do que um tradutor, repassando a ele dúvidas editoriais, financeiras, pedindo a ele opiniões sobre seus projetos literários. Apesar de forte e significativa a obra de Arregui é pequena (ele não publicou mais do que cinquenta contos, muitos realmente bons, mas no conjunto trata-se de uma obra bastante irregular). À época desta troca de cartas praticamente todos os contos já havia sido publicada, - à exceção do póstumo "Ramos generales". Parte do trabalho de Faraco envolve selecionar dentre os contos publicados no Uruguai aqueles que comporiam os livros a serem lançados no Brasil. Através das cartas Arregui se apresenta quase sempre inseguro, tímido, transferindo a Faraco decisões sobre a própria construção dos contos, seus títulos, fechamentos, a estrutura deles, além de outras questões editoriais. "Diálogos sem fronteira" é um livro que conta a história de uma amizade sutil, um encontro de dois sujeitos com muitas afinidades (ambos marxistas, preocupados com questões sociais, ligados a produção primária). O livro inclui um prefácio e algumas cartas assinadas pelo filho de Arregui (Martin), um artista plástico muito ligado ao pai que também tornou-se amigo de Faraco. Curiosamente a capa do livro induz a uma troca de identidades, pois a foto de Faraco é de um senhor mais velho, enquanto a de Arregui é de um jovem senhor, o que - ao menos para mim - indica que a troca de papéis entre eles (a troca do papel de pupilo e o papel de mentor) não é algo a ser desconsiderada, por mais trivial e irrelevante que seja. Enfim, acho que é o tipo de livro que ajuda a entender melhor a obra dos dois missivistas. Bom divertimento. [início 01/12/2010 - fim 26/12/2010]
"Diálogos sem fronteira", Mario Arregui, Sergio Faraco, Porto Alegre: editora LP&M, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 244 págs. ISBN: 978-85-254-1941-5 [edição original: Mario Arregui & Sergio Faraco: Correspondência, editorial Monte Sexto (Montevideo), 1990]

sexta-feira, 5 de junho de 2009

a arte de recusar

Este é um livro de ficção, claro, mas não é exatamente um romance e acabei colocando-o na cesta dos livros epistolares, dos livros de cartas. O autor, um jovem canadense, inventou uma centena de cartas que imaginários editores poderiam mandar em resposta ao recebimento de originais de "escritores em busca do abrigo de uma editora". Todo aquele que já tentou cedo descobre que escrever é fácil, publicar é difícil. Há livros onde se analisa o mercado do livro, o mundo das editoras, das feiras literárias, dos grupos de estudo e de leitura, das sessões e das críticas literárias dos jornais com seriedade e precisão. Lembro sempre do "Livros demais", do Gabriel Zaid, ou ainda do "A construção do livro", do Emanuel Araújo. Não é este o caso deste "A arte de recusar um original", de Camilien Roy. Talvez por experiência própria ele usa o deboche e o bom humor para demonstrar que é fácil ser achincalhado por um editor invisível que em geral se esconde atrás do nome vistoso de um editora. Por vezes teu livro não interessa comercialmente (pois as editoras são sobretudo comerciais) por ser experimental demais, noutras por ser passivo demais, noutras ainda por ser muito parecido com o que está na moda, e por aí vai. As cartas são sempre engraçadas, apesar da violência verbal que observamos na maioria delas. Alguém com pretensões sérias em ser publicado certamente ganha algo lendo este livro. É fácil cairmos no auto-engano de se apaixonar pelo que escrevemos e somente ver nos textos valor, verdade e beleza. Uma boa gaveta e o tempo costumam ser bons conselheiros, pois deve-se esquecer o que produzimos por paixão e desbastarmos sem dó os originais já envelhecidos, até transformá-los em algo digno de ser impresso. Esta deveria ser a sabedoria prática à qual nossa experiência imagina conduzir-nos, mas em geral somos vaidosos demais para não gostar de ver nosso nome destacado em um feixe de laudas. Muito humano tudo isto. Divertido e cruel este livro. [início 10/05/2009 - fim 12/05/2009]
"A arte de recusar um original", Camilien Roy, tradução de Pedro Afonso Vasquez, editora Rocco (1a. edição) 2009 brochura 12,5x20, 142 págs. ISBN: 978-85-325-2400-3