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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

tirar del hilo

O grande Andrea Camilleri morreu em 2019. Como só leio as traduções espanholas e não os originais italianos tenho pelo menos seis livros dele para ler. Dentre estes seis estão o famoso "Riccardino", último volume da série de aventuras do Comissário Montalbano, escrito em 2006, porém programado para ser publicado após sua morte (na verdade os editores italianos publicaram duas versões do Riccardino, pois Camilleri não ficaria 13 anos sem mexer naqueles originais, claro). "Tirar del hilo" foi publicado originalmente em 2016. Camilleri afirma nas notas do final que esse volume recebeu contribuições criativas de Valentina Alferj, pois neste período a cegueira já havia limitado suas ações. A trama não é simples e é deliciosa de se ler. Montalbano, envolvido com a recepção de barcos de refugiados que continuamente chegam ao sul italiano, precisa investigar a morte de uma estilista. Como sempre nas novelas policiais de Camilleri, duas questões sociais e/ou políticas, bem distintas, ocupam a mente do investigador, que acaba encontrando, ao associá-las, a chave da solução de ambas. A questão do excesso de imigrantes/refugiados bem sabe-se que jamais terá solução, enquanto houver desigualdade no mundo e regimes ditatoriais os expulsando de suas casas. Camilleri fala de xenofobismo, da capacidade de amar, da mentira, da hipocrisia. Suas reflexões quase ficam anacrônicas em um romance policial canônico, mas para o leitor tudo é deleite. O título denuncia um eco grego e óbvio, a ideia de um fio - de Ariadne - que levará o heroi (Teseu) a salvar-se do labirinto de Minos. Montalbano, o Teseu moderno, encontra a solução com ajuda de sonhos e uma ariadniana gata (e mais ou menos a abandonará - como Teseu - após sua função, sem maiores problemas). Belo livro. Vamos a ver quando os demais volumes de Camilleri irão aparecer em espanhol. Vamos em frente. Vale!
Registro #1569 (romance policial #97)
[início: 28/07/2020 - fim: 31/07/2019]
"Tirar del hilo", Andrea Camilleri, tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 265 págs., ISBN: 978-84-9838-992-0 [edição original: L'altro capo del filo (Palermo: Sellerio editore) 2016]

sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

segunda-feira, 25 de maio de 2020

en el nombre del hijo

"En el nombre del hijo" é a vigésima oitava aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana, genial invenção de Donna Leon. Neste episódio não há muita movimentação, correrias, surpresas, mudanças súbitas. De certa maneira o leitor já imagina, ao fim das primeiras páginas e em também em função do título do livro, qual é o desdobramento natural da trama. Mas isso não significa que seja um livro monótono. Antes o contrário. Donna Leon povoa sua narrativa com diálogos muito interessantes, exemplos notáveis de como incorporar em um romance informações muito variadas, sobre arte, cultura clássica, a história de Veneza e do mundo contemporâneo, contrastando-as. Esses diálogos magistrais também são exercícios de mundanidade e de boa educação, mostram pessoas que sabem expressar seus sentimentos de forma ora precisa ora elíptica, dependendo do que for mais conveniente, prático, necessário. Brunetti, instigado por seu sogro, o conte Orazio Falier, se envolve em uma questão moral, que implica em julgar a decisão de um velho amigo de ambos, um sujeito nascido na Espanha, muito rico e muito respeitado no mundo das artes plásticas, Gonzalo Rodríguez de Tejada. Donna Leon oferece sua costumeira cota de descrições dos encontros gastronômicos da família Brunetti, sempre um festival para os sentidos, assim como da forma como Brunetti interage com sua cidade, sempre em mutação. Ela fala da importância dos encontros familiares, do prazer em ler os clássicos gregos e romanos, da inevitabilidade do acaso. Descobri lendo esse volume que Donna Leon, após mais de trinta anos vivendo em Veneza, passou a residir na Suiça. Assim como seu protagonista, a autora parece ter se cansado definitivamente dos turistas, da degradação nos costumes, da inexorável passagem do tempo. Segue o baile. Vale! 
Registro #1533 (romance policial #95) 
[início: 21/03/2020 - fim: 22/03/2020]
"En el nombre del hijo", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 310 págs., ISBN: 978-84-322-3481-1 [edicão original: Unto Us a Son is Given (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2019]

quarta-feira, 8 de abril de 2020

la tentación del perdón

Veneza no outono (estação singela e pura, dizia aquele samba enredo da Mangueira) é outra cidade. Turistas e batedores de carteiras partiram juntos, deixando a cidade para os habitantes regulares, que estão descansados pelas férias, ainda bronzeados, de bom humor. Uma eventual neblina cobre a cidade de vez em quando, lembrando todos da necessidade de preparar-se para o inverno. Brunetti recebe em seu gabinete a visita de uma colega professora de Paola, preocupada com o aparente vício em drogas de seu filho. Não há muito o que fazer, pensa o comissário. Dias depois, em uma coincidência improvável, o pai deste rapaz aparece caído próximo a uma das pontes da cidade, com o crânio esmagado, condenado ao coma e a morte. O leitor acompanha em "La tentación del perdón", vigésima sétima aventura de Brunetti engendrada por Donna Leon, os desdobramentos da investigação das circunstâncias da queda deste sujeito. Quase todos os personagens recorrentes de Donna Leon têm seu protagonismo neste volume: o assistente Lorenzo Vianello; a secretária Elettra Zorzi; a comissária Griffoni; o vice-questor Patta; a mulher de Brunetti, Paola Falier; seus filhos Raffaele e Chiara. A história gravita questões morais, os conceitos de lei, justiça e equidade social. Brunetti passa boa tempo do livro relendo Antígona (de Sófocles), com seu senso de dever dividido entre a sociedade e a tentação de chamar para si o poder de perdoar. Contrapor uma reflexão clássica sobre um tema complexo e sua aplicação prática no mundo contemporâneo é um dos artifícios literários usuais da autora, sempre antenada, engajada, mordaz. No desenvolvimento da trama descobrimos algo sobre o sistema de saúde pública italiano (basicamente, sobre as formas de corromper esse sistema, usualmente aproveitando-se de brechas na enorme burocracia, algo que todo brasileira também conhece muito bem). Metaforicamente, o sujeito que caiu na ponte e ficou em coma é como o estado italiano: imobilizado, preso a regras e tradições, muito além da salvação, da cura, sofrendo as consequências - sempre imprevisíveis - de uma miríade de más decisões. Narrativa repleta de mimos para os entusiastas da série, com descrições das caminhadas pela cidade; das rápidas paradas para reflexão em cafés; dos registros das diferenças entre o Sul e o Norte italiano; do domínio da linguagem, que aproxima e afasta as pessoas; do papel das mulheres na sociedade italiana; da importância da ficção na psique dos homo sapiens. Belo livro. Voltei a Donna Leon e a Brunetti por conta das notícias assustadoras sobre a pandemia do covid-19 na Itália. Pelo jeito vou gastar os últimos livros dela que tenho nestes dias. Vale! 
Registro #1513 (romance policial #94) 
[início: 16/03/2020 - fim: 19/03/2020] 
"La tentación del perdón", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Booket Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.) Crimen y Misterio, 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 336 pág., ISBN: 978-84-322-3483-5 [edicão original: The Temptation of Forgiveness (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2018]

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

a pane

Como já disse num outro registro, foi a arte da capa que me fez comprar este volume, que reúne duas narrativas de Friedrich Dürrenmatt. O romance "A Promessa" já registrei aqui. A novela (ou curto romance policial) "A pane" li uns dias depois, mas só agora alcanço escrever sobre ela. Essa segunda história não me impressionou tanto quanto a primeira, mas é uma boa narrativa psicológica. Em algum momento, bem no começo a bem da verdade, você eventualmente captura a chave literária do que se conta, e só segue até o final por curiosidade, para saber como o autor vai chegar àquele desfecho previsível. Há algo que lembra os contos fantásticos de Edgar Allan Poe. O carro de um caixeiro viajante suíço quebra perto de um vilarejo, cujos hotéis estão sem vagas. Alguém sugere a ele que um velho senhor dos arredores recebe eventualmente em sua casa pessoas que estejam em situações similares à dele. Inicialmente interessado apenas em aproveitar a pane de seu carro para procurar companhia amorosa na cidadezinha, o caixeiro viajante decide aceitar a hospedagem e o convite para um jantar que lhe faz seu anfitrião, um juiz aposentado. Dois velhos amigos do juiz também comparecem ao jantar. Ao caixeiro viajante é feito também o convite para participar de um jogo recorrente que os três octogenários amigos organizam nestas noites, o jogo de simular o julgamento de uma pessoa, aplicando a ela todo o implacável rigor de suas leis morais, não exatamente legais. No caso, obviamente, e por exclusão, cabe ao caixeiro viajante a função teatral de réu. Mais não conto, para não roubar o leitor o eventual prazer de ler esta curta novela. O que se destaca na narrativa são as descrições dos pratos servidos no jantar e, sobretudo, os vinhos que são nele servidos. Cada um deles dignos das recepções mais refinadas. O assombro do caixeiro viajante é similar àquele que experimenta o velho oficial no conto "A festa de Babette", de Isak Dinesen/Karen Blixen. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1476 (romance policial #93) 
[início: 23/08/2019 - fim: 30/08/2019]
"A pane", Friedrich Dürrenmatt, tradução de Marcelo Rondinelli, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 220 págs., ISBN: 978-85-7448-300-9 [edição original: Die Panne: Eine noch mögliche Geschichte (Zürick: Arche / Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 1955]

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

restos mortales

Vigésimo sexto volume com os sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti, "Restos Mortales" é um tanto diferente da grande maioria dos anteriores. Donna Leon afasta seu personagem das Calli, Campielli e Canali de Veneza e o leva para a ilha de Sant'Erasmo, ao nordeste da Laguna. Desta vez não se trata de uma investigação oficial. Antes é o instinto moral e a memória afetiva que motivam Brunetti a examinar as circunstâncias da morte de um velho amigo de seu pai. Há uma cena algo burlesca no início do livro, que fez-me lembrar dos truques do genial Andrea Camilleri, escritor italiano que morreu há pouco tempo, de quem li livros notáveis, grande sujeito. Num julho de calores infernais, para evitar que um de seus subordinados possa ser acusado de agressão a um suspeito, Brunetti simula um desmaio, uma queda. Após uma sucessão rocambolesca de equívocos, ele resolve aceitar as recomendações médicas de ficar em licença de saúde por algumas semanas. Neste período ele passa os dias remando, num dolce far niente, lendo seus adoráveis autores clássicos: Plínio e Suetônio, Heródoto e Eurípedes. Na ilha de Sant'Erasmo, onde está hospedado, numa casa de verão de uma das tias de Paola, Brunetti reencontra um velho amigo de seu pai, Davide Casati, um sujeito taciturno. Davide demonstra ser um hábil marinheiro e também uma espécie de filósofo amador, porém alguém que esconde algo confuso na alma, somente sendo capaz de demonstrar preocupação com a morte das abelhas que cria nos baixios da Laguna de Veneza. Após a aparente morte acidental de Davide em uma dia de tempestade, Brunetti, um tanto para consolar a filha do morto, outro por sua perene curiosidade policial, resolve investigar os acontecimentos e chega a uma conclusão surpreendente. Donna Leon invoca temas diferentes desta vez. Ela discorre sobre questões ecológicas, sobre o suicídio, sobre a velhice, sobre a cobiça, sobre os animais. Em algum momento surge brevemente o nome de Robert Hughes e suas reflexões sobre arte. Que miríade de associações um sujeito não faz quando lembra de Hughes? Há notas amargas neste volume, tons duros, melancólicos, de quem já não acredita na capacidade do homem de melhorar, tornar-se menos perverso e daninho, para si mesmo e para o planeta. Enfim, trata-se de um bom equilíbrio entre diversão ligeira e importantes reflexões contemporâneas. Bom livro, como sempre deveria ser. Vale! 
Registro #1467 (romance policial #92) 
[início: 20/10/2019 - fim: 24/10/2019]
"Restos Mortales" (Brunetti #26), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2776 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-322-3331-9 [edição original: Earthly Remains (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2017]

terça-feira, 15 de outubro de 2019

a promessa

Foi a arte da capa que me fez comprar este volume, que reúne duas narrativas de Friedrich Dürrenmatt, respeitado escritor, dramaturgo e artista plástico suíço, morto em 1990 (vale registrar que a pintura da capa é dele mesmo, Dürrenmatt, e vale a pena consultar o portal Centre Dürrenmatt Neuchâtel, onde toda sua produção resta arquivada). Em algum ponto da leitura dei-me conta que "A promessa", a primeira das duas narrativas, era a versão original da história que resultou em um bom filme, "The Pledge", dirigido por Sean Penn e protagonizado por Jack Nicholson, que vi há quase vinte anos (o filme é de 2001). A trama é interessante, Matthäi, um diligente policial de um cantão suíço, prestes a ser enviado em uma missão oficial no oriente médio, resolve pedir demissão após dar-se conta que um sujeito, que havia cometido suicídio em virtude de acusações de assassinato, não poderia ser o autor dos crimes. A história de fato é bem engenhosa (o título original do livro tem como subtítulo "Réquiem para os romances policiais", o que explica um tanto das ambições do autor). O narrador é um policial aposentado, que conta os sucessos e obsessões daquele antigo subordinado seu, Matthäi, a um silente escritor de romances policiais, que recentemente havia proferido uma palestra sobre seu ofício e arte. Não pretendo aqui acrescentar mais pistas sobre o enredo do livro além das muitas que já registrei. Dürrenmatt alcança conduzir o leitor pelo transe heroico do personagem, que jamais descobrirá que a realidade é algo muito mais bizarro, ilógico e até surreal que o mundo dos livros, da invenção literária, dos esquemas formais consagrados de composição narrativa. Muito interessante. Neste volume há também uma novela, "A pane", que em breve registrarei aqui. Vale! 
Registro #1459 (romance policial #91) 
[início: 30/07/2019 - fim: 31/07/2019]
"A promessa", Friedrich Dürrenmatt, tradução de Petê Rissati, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm., 220 págs., ISBN: 978-85-7448-300-9 [edição original: Das Versprechen : Requiem auf den Kriminalroman (Zürick: Arche / Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 1958]

domingo, 6 de outubro de 2019

sangre o amor

Nesse volume Donna Leon está em seus domínios, fala de algo que conhece muito bem: o mundo da ópera, do canto lírico, dos concertos. Ela retoma uma de suas primeiras protagonistas, Flávia Petrelli, que aparece em seu romance de estreia, “Morteno teatro La Fenice”, de 1992, e também em “Acqua Alta”, de 1996, quinto volume da série dedicada aos sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti. Assim como neste nosso calendário real, mais de vinte anos se passam nos relógios imaginários dos personagens inventados por Donna Leon. Flávia Petrelli volta a se apresentar no sonante Teatro La Fenice e volta a se envolver em um caso de violência e assassinato. Petrelli é assediada por um fã, uma pessoa obcecada, incapaz de controlar o misto de admiração e inveja que sente pela famosa cantora lírica. Brunetti e seus comandados se unem na tarefa de proteger Petrelli e entender motivação e método do perseguidor, ao mesmo tempo em que se veem enredados na burocracia e ineficiência do governo italiano. Donna Leon vergasta, uma vez mais e sem dó, o governo italiano (os próceres de plantão sempre são igualmente venais, corruptos e limitados intelectualmente, pouco importa a matriz ideológica que obedecem, a cartilha de comportamento que seguem - algo muito parecido com que acontece neste desgraçado e inútil Brasil, terra de escravos mentais e gente canalha). Alvise, um pacato policial subordinado a Brunetti é falsamente acusado de violência contra civis, em uma manobra que busca prejudicar exatamente Brunetti. Elettra, a secretária do vice-questore Patta, ao solidarizar-se com Alvise, quase coloca tudo a perder ao envolver o comissário em suas trapaças digitais. Donna Leon faz longas digressões neste volume, aprendemos algo sobre Bochesse, o legista; Alvise, um policial; Patta, o vice-questore; o conde Fallier, sogro de Brunetti. A Veneza dos primeiros volumes da série é contrastada com a Veneza deste final de anos 2010. Trata-se de uma senhora que envelhece mal, sufocada por legiões de turistas, gigantescos navios de cruzeiro, batedores de carteira, políticos corruptos (um pleonasmo, já se sabe). Donna Leon fala também do valor da amizade, e de como as múltiplas metamorfoses vivenciadas pelos indivíduos ao longo do tempo podem até inverter o sentido e razão desta palavra. Em “Sangre o amor”, Donna Leon emula vários trechos da trama de Tosca, de Giacomo Puccini. Trata-se de um trabalho admirável. O leitor ganha muito se ler o libreto de Tosca ou ouvir algumas de suas famosas árias. Raramente um romance policial dela é fraco, mas este é realmente muito bom, trezentas páginas vibrantes. Depois de ter lido o sofrível “A última mulher”, de Alfredo Garcia-Roza, foi um alento encontrar neste volume algo com estofo e engenho. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1456 (romance policial #90) 
[início: 19/08/2019 - fim: 27/08/2019]
"Sangre o amor" (Brunetti #24), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2016), brochura 12,5x19 cm., 304 págs., ISBN: 978-84-322-2594-9 [edição original: Falling in Love (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2015]

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

a última mulher

Há doze anos li alguns livros de Luiz Alfredo Garcia-Roza (O silêncio da chuva, Espinosa sem saída e Berenice procura), mas cansei, não conseguia entender o entusiasmo dedicado a seus romances policiais naquela época (ele chegou a ganhar um prêmio Jabuti). Recentemente topei com um livro dele em um aeroporto e resolvi experimentar. Li "A última mulher" em menos de duas horas, pouco mais do tempo de voo. A trama começa na Cinelândia e Lapa, no centro da cidade do Rio de Janeiro, mas logo se desloca para os domínios do delegado Espinosa, em Copacabana, em seu reduto afetivo no bairro Peixoto. Ratto, um cafetão, e seu sócio alcoólatra, Jappa, são perseguidos por um policial corrupto, atraído pelo bom dinheiro que eles ganham com prostitutas. Habituado a situações deste tipo, Ratto desaparece por uns tempos e conhece Rita, uma jovem prostituta, com quem acaba se envolvendo. A caçada humana empreendida por Wallace, o policial corrupto, deixa vários assassinatos brutais pelo caminho. Espinosa, que conhece Ratto e o sabe inofensivo, acaba se envolvendo no caso. Dizer o quê? A narrativa é muito fraca, esquemática, frouxa demais. Antes parece um esboço, uma primeira versão de uma ideia, que um produto pronto. Acho que preciso ficar outros doze anos sem Garcia-Roza. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1455 (romance policial #89) 
[início - fim: 24/07/2019]
"A última mulher", Luiz Alfredo Garcia-Roza, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 117 págs., ISBN: 978-85-359-3237-9

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

muerte entre líneas

"Muerte entre líneas" se passa em uma Veneza primaveril, já exuberante em cores, cheiros, movimentos de pássaros, ainda não cheia de turistas e batedores de carteira. Brunetti precisa investigar sobre um crime que lhe incomoda particularmente, o roubo e destruição de livros, sobretudo de livros antigos, aqueles primeiros a serem impressos na Europa após a invenção dos tipos móveis por Gutenberg. Donna Leon se inspira em um crime real, o cometido em Nápoles, na Biblioteca dei Girolamini, de onde foram furtados milhares de livros há pouco menos de dez anos. Na história de Donna Leon é de uma biblioteca veneziana que livros são suprimidos e vandalizados, inclusive livros impressos pelo genial Aldo Manúcio. Apesar deste ser um tipo de crime fora de sua alçada, Brunetti faz seus comandados e colaboradores trabalhar e descobrir o enorme esquema de roubos, tanto aqueles por encomenda, quanto aqueles fruto de cupidez individual (há um terrível personagem no livro, um venal ex-padre, especialista em Tertuliano, um dos grandes padres latinos da Igreja Católica). Elettra e a comissária Griffoni já são amigas, o conte Fallier está algo fragilizado após um AVC, Paola e as crianças já estão planejando as férias de verão. Neste volume o leitor encontra a usual cota de reflexões sobre a complexa sociedade italiana, temperada por um sarcasmo brutal direcionado à impostura intelectual, à hipocrisia, à falsa cultura, ao funesto comportamento politicamente correto. O Brasil, ai de nós, é citado duas vezes no livro, de forma nem um pouco edificante, quando os personagens denunciam o comportamento vicioso de um cocainômano brasileiro e do melhor lugar para se fugir da Itália em caso de ter-se cometido um crime. Quem sou eu para censurar Donna Leon? Livro bem movimentado, que trará alegria para bibliófilos, bibliômanos e bibliólatras. Vale! 
Registro #1442 (romance policial #88) 
[início: 13/07/2019 - fim: 18/07/2019]
"Muerte entre líneas" (Brunetti #23), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2015), brochura 12,5x19 cm., 384 págs., ISBN: 978-84-322-2433-1 [edição original: By Its Cover (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2014]

domingo, 28 de julho de 2019

el huevo de oro

"El huevo de oro" deixa-se ler com calma, como calmo deixa-se fluir o outono veneziano. Não se trata exatamente de uma investigação policial canônica, de um crime que precisa ser desvendado. Donna Leon nos apresenta antes sim a curiosidade quase mórbida de seu comissário Guido Brunetti, curiosidade em descobrir as razões de um sujeito que é portador de óbvias deficiências físicas e mentais, com mais de quarenta anos, não estar inscrito de forma alguma nos registros oficiais de Veneza, ser um pária absoluto, um homem sem nome, nem passado, nem identidade, e que está morto, talvez por acaso. Antes de alcançar a razão para a morte deste sujeito desafortunado, Donna Leon oferece ao leitor boas reflexões sobre a sociedade italiana, os hábitos entranhados de sua gente, as regras de conduta distintas entre o Norte e o Sul, o uso da linguagem e dos dialetos para aproximar e afastar indivíduos, o crescente apego das pessoas às redes sociais, a hegemonia dos terríveis conceitos politicamente corretos, a rapidez ilusória dos equipamentos que permitem comunicação instantânea entre nós. Oferece também seus usuais mimos, digressões sobre questões filosóficas, questões de linguagem, questões culturais contemporâneas. Foa, o piloto de uma lancha de serviço da chefatura de polícia, veneziano há mil gerações, e a eficiente comissária Griffoni, siciliana exilada em Veneza, ganham relevo nesta trama, ajudam Brunetti a entender as ancestrais motivações para o crime. Narrativa policial bem engendrada, conduzida. Interessante. Vale!
Registro #1434 (romance policial #87)
[início: 13/05/2019 - fim: 18/06/2019]
"El huevo de oro" (Brunetti #22), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2561 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2014), brochura 12,5x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-84-322-2249-8 [edição original: The Golden Egg (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2013]

segunda-feira, 1 de julho de 2019

la palabra se hizo carne

Neste volume, o vigésimo primeiro das adoráveis aventuras do comissário Brunetti engendradas por Donna Leon, acompanhamos a investigação sobre a morte de uma pessoa desfigurada, sem documentos, que aparece em um dos canales de Veneza. Brunetti, com a ajuda dos leais Viannello, Elettra, Pucetti e Foa, alcançam descobrir a identidade do sujeito e as razões de seu assassinato. Patta, o tolo questore que supervisiona a delegacia onde Brunetti trabalha, ganha alguma consideração neste volume, pois não usa sua influência e poder para ajudar um de seus filhos nos exames finais em sua universidade; Paola, sua engenhosa mulher, resolve com maestria questões acadêmico e/ou políticas em sua universidade; seus filhos, Chiara e Raffa, cresceram um bocado, e se espantam com o conhecimento do pai sobre a história italiana e a participação dos jovens italianos na primeira grande guerra mundial; Rizzardi e Bocchese, respectivamente, legista e cientista forense, que prestam serviços a Brunetti, aparecem episodicamente, mas mostram o caminho seguro que ele deve seguir na investigação. A trama envolve basicamente uma questão moral, onde a avareza funciona como motor de um crime. Um médico veterinário, que trabalha em um grande abatedouro, nas proximidades de Veneza, é morto. Donna Leon oferece ao leitor suas costumeiras reflexões sobre questões de meio ambiente, gastronomia, turismo, imigração, mobilidade social, corrupção, problemas educacionais e intrigas típicas da política italiana. Livro primaveril, sem acqua alta, sem grandes sobressaltos, sem caminhadas pela cidade, que se resolve no continente, longe dos canales, campos, fondamentas e sestieres de Veneza. Bem interessante. Vale!
Registro #1425 (romance policial #86)
[início: 30/05/2019 - fim: 05/06/2019]
"La palabra se hizo carne" (Brunetti #21), Donna Leon, tradução de Beatriz Iglesias Lamas, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2478 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 336 págs., ISBN: 978-84-322-1487-5 [edição original: Beastly Things (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2012]

quarta-feira, 19 de junho de 2019

el carrusel de las confusiones

"El carrusel de las confusiones", título desse vigésimo oitavo volume com os sucessos do comissário Montalbano, denuncia o que o leitor encontrará na história. Trata-se de uma sucessão de reviravoltas, de recorrentes mudanças de pontos de vista, de contínuas guinadas e mudanças, de suspeitos que parecem se metamorfosear. Máfia, amantes, sindicalistas, o sistema judiciário e velhos senhores que sustentam jovens moças, todos em algum momento podem ser acusados de terem motivações para os crimes. Andrea Camilleri apresenta uma história bastante intrincada, que começa com o próprio Montalbano sendo confundido com um delinquente após uma briga na praia e termina como em um drama teatral, como em uma ópera bruta. Já li vários livros de Camilleri nos quais ele usa recursos dramáticos, mas neste volume as ações e os diálogos são quase sempre mesmo teatrais, algo exagerados, sempre buscando um efeito ora cômico, ora trágico. Funciona. Acompanhamos com interesse o momento em que o verdadeiro culpado será apresentado. Haverá mais Camilleri? Ontem soube de seus problemas de saúde. Vamos finalmente saber o destino que ele engendrou para Montalbano? Conhecer o romance Riccardino, último da série, que ele escreveu há tantos anos, naquele longínquo 2006? Logo veremos. Segue o baile. Vale! 
Registro #1419 (romance policial #85) 
[início: 28/05/2019 - fim: 29/05/2019]
"El carrusel de las confusiones", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 221 págs., ISBN: 978-84-9838-941-8 [edição original: La giosta degli scambi (Palermo: Sellerio editore) 2015]

domingo, 9 de junho de 2019

la pirámide de fango

Lívia ainda está de luto pela morte de François (como foi relatado em "Un filo de luz") e Guido Montalbano algo lento, cansado, sem ânimo, talvez com problemas de audição. Já velho demais para a profissão? Chove sobre a Itália, o mar está encrespado, sujeira e lama se acumulam. Mas nos sucessos narrados por Andrea Camilleri neste seu "La pirámide de fango" a lama é metafórica, pois ele fala sobre corrupção, lavagem de dinheiro e assassinatos. O corpo do contador de uma grande empresa de construção civil é encontrado. A mulher deste sujeito desaparece, para surgir vagamente já distante, na Alemanha. Um misterioso senhor que talvez estivesse hospedado com eles também não deixa pistas de seu paradeiro, mas Montalbano alcança descobrir uma caixa forte na casa do contador morto, um cofre que poderia conter milhões de euros em espécie. A investigação segue os procedimentos usuais de Camilleri, alternando descrições do estado de ânimo de Montalbano, sua inspiração rediviva após os almoços preparados por Adelina ou os jantares na cantina de Enzo. Camilleri volta a usar os truques típicos do teatro em sua trama. Os advogados dos dois grupos mafiosos envolvidos nos crimes espalham inventivas pistas falsas, tentam obstruir o trabalho de investigação. Todavia Montalbano recupera seu tino e força mental, consegue deslindar as mirabolantes histórias que advogados canalhas e jornalistas venais criaram, levando ao menos um dos empresários corruptos para a cadeia. Haverá mais Montalbanos por aqui. Vale!
Registro #1413 (romance policial #84)
[início: 22/05/2019 - fim: 23/05/2019]
"La pirámide de fango", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-840-4 [edição original: La piramide di fango (Palermo: Sellerio editore) 2014]

segunda-feira, 27 de maio de 2019

las aguas de la eterna juventud

Neste volume, o vigésimo quinto da série dedicada ao comissário Brunetti, já é outono, os dias começam a ficar mais curtos, as turbulentas águas de Veneza começam a subir. Donna Leon faz Brunetti interagir bastante com sua colega comissária, a eficiente Claudia Griffoni. Paola e os filhos, Elettra e Vianello, Scarpa e Patta, também aparecem episodicamente, mas os momentos chaves da trama são protagonizados pelos dois. Eles se envolvem na investigação sobre as circunstâncias que levaram uma garota veneziana, neta de uma influente contessa, a quase morrer afogada e a ficar com severas sequelas físicas. Como esse acidente ocorreu há mais de quinze anos há poucos registros confiáveis. A única testemunha do caso é um alcoólatra, cuja memória esfumou-se com o tempo. Elettra, sempre útil quando Brunetti necessita contornar a burocracia, a lentidão das repartições públicas e até das leis italianas, vê-se impossibilitada de ajudar, pois hackers parecem estar bisbilhotando seu computador. Enquanto faz seus personagens buscarem a solução para aquele enigma, Donna Leon  faz desvios pela sociedade italiana, fala dos projetos de restauração urbana que são utilizados para desviar dinheiro público, da ocupação desordenada dos espaços privados da cidade, da invasão sazonal de turistas, dos crimes do cotidiano, que se resolvem sozinhos. Esse volume é calmo, não há muitas reviravoltas, sobressaltos. Claro, repete-se a dose costumeira de sarcasmo de Donna Leon dirigida aos italianos, os mimos literários e de alta cultura oferecidos aos leitores, a cota de digressões sobre culinária, bons vinhos e a mundanidade dos cafés. Vamos em frente. Vale!
Registro #1405 (romance policial #83)
[início: 02/05/2019 - fim: 06/05/2019]
"Las aguas de la eterna juventud" (Brunetti #25), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2711 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 333 págs., ISBN: 978-84-322-2994-7 [edição original: The Waters of the Eternal Youth (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2016]

sexta-feira, 3 de maio de 2019

carvalho, problemas de identidad

Carlos Zanón é escritor e roteirista espanhol, autor premiado de romances policiais. Recentemente o poderoso grupo editorial Planeta o convidou para escrever um romance que desse continuidade às aventuras do mítico detetive Carvalho, invenção genial de Manuel Vázquez Montalbán, que morreu em 2003. Quem já leu algum dos livros de Montalbán sabe do tamanho da responsabilidade. Carvalho surge em 1972, ainda sem muitos dos predicados que acostumamos associar a ele, em "Yo maté a Kennedy". É protagonista de pelo menos vinte e cinco romances ou livros de contos de Montalbán, até seu encantamento em "Milênio", de 2004, e algumas reencarnações recompiladas de jornais e publicadas nos "Cuentos negros", de 2011. Zanón opta por imaginar em seu livro um outro Pepe Carvalho, um detetive real cuja expertise foi utilizada por Montalbán na gênese do Carvalho original. Trata-se de uma espécie de jogo: o Carvalho de Montalbán perdeu-se como personagem em "Milênio", após sua volta ao mundo fugindo da Interpol, e o Carvalho de Zanón continua a viver em Barcelona, lembrando episodicamente de como "El escritor", ou seja, Montalbán, usava suas histórias reais nas narrativas ficcionais que publicava. Os sentimentos são ambíguos. Apesar de feliz por não mais ler seu nome associado a um personagem de ficção e precisar dar explicações a gente curiosa, ele sente saudades das conversas que tinha com o homem Montalbán, o jornalista e intelectual dinâmico que era. Enfim, funciona como explicação para essa nova metamorfose do personagem. De qualquer forma "Carvalho: problemas de identidad" demora um pouco para prender o leitor. Estamos no verão de 2017, às vésperas do plebiscito pela separação da Catalunya que tantos desdobramentos já experimentou, e que de certa forma fraturou toda a Espanha (as eleições da semana passada estão aí como exemplo). As obsessões e temas de Montalbán aparecem como em uma pátina ou palimpsesto: os turistas que passeiam pelas Ramblas catalanas, Biscuter e sua ambição gastronômica, a cresecente presença de chineses em sua Barcelona fundamental, a queima ritual de livros, as saudades de Charo, as relações com a comunidade européia, as relações autofágicas entre direita e esquerda, a rivalidade entre Madrid e Barcelona, os contatos com a polícia e o submundo, as receitas, as citações eruditas disfarçadas, o separatismo catalão, as preocupações com o destino político e econômico da Espanha. O Carvalho de Zanón continua sarcástico, amargo, abusando do cinismo, talvez com menos vigor físico e mais problemas de saúde, enredado em relações amorosas confusas e desgastantes. Os crimes que ele investiga são, a exemplo dos romances originais, o que menos importam na narrativa, são peças acessórias que servem para conduzir o ritmo do livro, mas que não são foco de real interesse. Carvalho precisa entender as razões para a morte de uma velha senhora e sua neta ao mesmo tempo que investiga o desaparecimento de uma prostituta em Montjüic. Afinal, o livro funciona como homenagem a Vázquez Montalbán e também funciona como romance policial independente. Vamos a ver se esse projeto terá continuidade, se haverá outros Carvalhos no futuro. Em tempo: Sempre vale a pena atualizar-se nas cousas de Montalbán acompanhando o site Vespito. Vale!
Registro #1390 (romance policial #82) 
[início: 13/03/2019 - fim: 23/03/2019]
"Carvalho: problemas de identidad", Carlos Zanón, Barcelona: Editorial Planeta, 3a. edição (2019), capa-dura 16x24 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-08-20148-9

quinta-feira, 2 de maio de 2019

cuestión de fé

Os sucessos de "Questión de fé", décimo-nono volume da série de Donna Leon onde é protagonista o comissário Guido Brunetti, se passam no início do verão, quando o calor parece mais forte e inclemente. Um velho amigo alerta Brunetti sobre crimes nos quais estão envolvidos membros do judiciário e do setor imobiliário veneziano. Oficialmente não há como ele investigar o assunto, mas quando um funcionário do tribunal onde os tais crimes acontecem é morto, Brunetti tem a oportunidade de denunciar corruptos e corruptores. Claro, não há exatamente justiça no processo, apenas uma interrupção, um recuo tático dos malfeitores, uma substituição dos agentes dos vários crimes. Talvez só o sistema judicial italiano seja mais podre e corrupto que o brasileiro. E é fato que onde há dinheiro e poder há canalhas, pessoas suficientemente venais e imunes a um fiapo de caráter. Em paralelo a esta investigação mais séria, Brunetti e a sempre eficiente secretária Elettra ajudam o investigador Vianello com um crime menor, que envolve uma de suas tias, enganada por um estelionatário especializado em fraudar pessoas idosas e com problemas de saúde. Brunetti, Paola e os filhos planejavam férias nos Alpes, em uma região mais fresca e afastada dos turistas, mas ele precisa ficar em Veneza por conta de dois crimes. Neste volume ganha destaque uma nova comissária, Claudia Griffoni, tão proba e diligente quanto Brunetti, um novo contraponto aos irresponsáveis vice-questor Patta e seu lugar tenente Scarpa. Há muitas cenas em bares, nos quais Brunetti e seus comandados refrescam-se e fazem refeições ligeiras, quase sempre os deliciosos tramezzini italianos. Com Paola, sempre cúmplice, Brunetti discute as circunstâncias dos crimes, os livros que estão a ler, ela sempre Henry James, ele os clássicos latinos, e também algo sobre o desemprego endêmico italiano, sobre o fato de milhões de jovens não alcançarem jamais um emprego fixo, um problema conjuntural e grave daquela sociedade. É sempre uma alegria ler Donna Leon. Mas vamos em frente. Vale!
Registro #1389 (romance policial #81) 
[início: 16/04/2019 - fim: 18/04/2019]
"Cuestión de fé" (Brunetti #19), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2340 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 315 págs., ISBN: 978-84-322-5094-1 [edição original: A Question of Belief (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2010]

quinta-feira, 11 de abril de 2019

testamento mortal

"Testamento mortal" é o vigésimo volume das histórias de Donna Leon com seu comissário Guido Brunetti e sua sereníssima Veneza. Desde meados de 2017 eu seguia os volumes dela cronologicamente, mas um azar com os correios fez-me registrá-lo aqui antes de "Uma questão de fé", que o antecede. Paciência. A história se passa no outono, em ritmo lento, sem correrias. Donna Leon uma vez mais investe na rivalidade entre o Norte e o Sul italianos, entre a hipocrisia dos nortenhos e a onipotência silenciosa da máfia sobre a gente do Sul. Quase no limite da legalidade Brunetti investiga o passado de uma mulher de meia idade, viúva, que é encontrada morta em seu apartamento por uma vizinha. O diagnóstico de legista, o mercurial Rizzardi, dá conta que a mulher sofreu um ataque cardíaco fulminante, mas não deixa de sugerir à Brunetti que o ataque poderia ter sido induzido, com drogas e violência. Da investigação inicial aflora um mundo de mulheres que sofrem violência e surge uma rede de apoio e proteção que talvez não seja tão proba como aparenta, e percebem-se pressões políticas para que o caso seja encerrado sem alarde. Mas esse primeiro rumo da narrativa muda completamente, quando Brunetti passa a se interessar em quem poderia ter morto aquela senhora, e por quais razões, sem ter o devido direito legal de fazer isso (afinal o atestado de óbito é taxativo: a causa mortis é um ataque cardíaco inevitável). Donna Leon volta a tornar a geografia da cidade em protagonista, em fazer seus personagens percorrerem as Calle, Sestiere, Rio Terá, Campos e Ramos, as Fondamenta, Canales e Rios, como em um labirinto infinito, só conhecido por uns poucos, que tomam atalhos eficazes para incluir um almoço familiar na agenda apertada de trabalho, facilitando o entendimento da cronologia do crime que se quer investigar, propiciando a solidão necessária para uma conversa ou confissão. A solução do crime só interessa mesmo a Brunetti, sempre moralmente implacável. Paola, Elettra e Vianello são fundamentais nesta trama, cada um a seu modo. A narrativa brinca com as ferramentas retóricas, com exemplo dos lenitivos mentais que só educação clássica e inteligência propiciam. Bom livro. Vale!
Registro #1375 (romance policial #80) 
[início: 07/02/2019 - fim: 08/02/2019]
"Testamento mortal" (Brunetti #20), Donna Leon, tradução de Vicente Villacampa, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2408 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2012), brochura 12,5x19 cm., 318 págs., ISBN: 978-84-322-0032-5 [edição original: Drawing Conclusions (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2011]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

la otra cara de la verdad

Donna Leon segue o ritmo das estações em seus romances policiais. Nesse "La otra cara de la verdad" encontramos Veneza no inverno, por vezes coberta de neve, a neve seca que logo após cair vaporiza-se, flutuando sobre as superfícies.  Apesar do excesso em número e da violência das mortes que o comissário Brunetti deve investigar, esse volume gravita questões morais, permitindo aos personagens longas sessões de reflexão sobre as razões de suas escolhas, de seus comportamentos, sobre a natureza perversa e inevitável do homo sapiens. O conte e a contessa Falier, Orazio e Donatella, sogros de Brunetti, mostram-se ser fundamentais para a solução da trama; ele, oferecendo ao comissário informações sobre a mundanidade, o mundo dos negócios e da política, bem como sobre a história de Veneza, história da arte e os hábitos de sua elite, e ela, ainda mais precisa, por revelar-lhe detalhes da vida privada de uma amiga íntima, informações que jamais tramitariam pelos despachos de uma unidade policial.  A trama envolve questões ambientais e de sustentabilidade, os maus hábitos de consumo dos indivíduos, o descarte de substâncias tóxicas e a responsabilidade da máfia italiana e do governo chinês nestes assuntos. Donna Leon faz um paralelo curioso entre a beleza artificial de uma mulher, alcançada por cirurgias plásticas, com a falsa prosperidade das sociedades consumistas. Ao mesmo tempo contrasta nosso mundo contemporâneo com aquele do apogeu da República de Veneza, por meio da arte e das regras sociais. Todavia, o que realmente torna a narrativa relevante são os interregnos entre vários crimes, os momentos em que os personagens debatem, trocam experiências, falam de literatura clássica, de cultura e arte. Donna Leon rouba dos Fastos de Ovídio a estrutura e os motivos para os crimes, enquanto Brunetti lembra de seu bom Cícero, de um de seus discursos, onde esse descreve quais são os deveres de um bom cônsul, mas também fala da sutil arte de fugir da verdade sem mentir. Enfim, eis que encontro neste décimo oitavo volume da série dedicada ao comissário Brunetti mais uma honesta e inventiva história de Donna Leon. Vale! 
Registro #1365 (romance policial #79) 
[início: 03/09/2018 - fim: 08/09/2018]
"La otra cara de la verdad" (Brunetti #18), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 327 págs., ISBN: 978-84-322-5058-3 [edição original: About Face (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2009]

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

la chica de sus sueños

Por supremíssimo e pessoano cansaço deixei de ler Donna Leon. Fiquei um tempo sem pensar nas aventuras de Brunetti e sua turma. Acho que tenho três ou quatro volumes dela já lidos, mas não me animei em registrá-los aqui. A bem da verdade deixei tanto bons livros para trás como outros algo frouxos, uma salada dos diabos. Paciência. "La chica de sus sueños" foi publicado originalmente em 2008. Assim como nos demais volumes que já li desta série, o comissário Brunetti sempre resolve um  ou dois crimes cometidos em sua Veneza fundamental, todavia a narrativa é apenas um subterfúgio para que Donna Leon desvele seu entendimento de algum aspecto condenável da sociedade italiana, algo que não necessariamente seja um mal absoluto, mas que talvez pudesse ser praticado de uma forma diferente (talvez seja exatamente por isso que ela não permite que seus livros sejam traduzidos para o italiano). Trata-se de uma fórmula, óbvio, mas que fórmula! Mulher realmente interessante essa Donna Leon. Neste volume Brunetti precisa investigar a morte de uma garota cigana que aparece morta,. afogada em um dos canais venezianos. A morte da garota só aparece no livro no final do primeiro terço do livro. Digo isso para exemplificar o quão secundário são os crimes para Donna Leon, seu interesse é mesmo sociologia selvagem de sua cidade de adoção, e também do país onde vive. Essa trama inicial - a morte da garota cigana, punguista que sobrevive de pequenos golpes pela cidade - se confunde com outra, que envolve negócios escusos entre a máfia e o filho de um importante ministro italiano. A narrativa aborda questões que hoje, dez anos após a publicação original do livro, mostram-se fundamentais: a questão da legião de imigrantes que chegam à Europa, a banalização das leis italianas, o conflito entre o entendimento comunitário, europeu, e o local, italiano, sobre o quê é realmente importante e necessário, urgente. O Brasil aparece numa nota amarga, como exportador de novelas de gosto popular e duvidosos (culebrones, é o termo espanhol) e também de prostitutas. O inspetor Vianello, braço direito de Brunetti, e a signorina Elettra, eficiente como sempre, o ajudam na solução dos crimes. Outros personagens ganham relevo, algum estofo, um humor inusitado. O romance se define em função das questões morais que apresenta. Não mais digo sobre os sucessos do livro. Vale! 
Registro #1360 (romance policial #78) 
[início: 05/05/2017 - fim: 20/07/2017]
"La chica de sus sueños" (Brunetti #17), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Booket (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 317 págs., ISBN: 978-84-32250-022-4 [edição original: The Girl of His Dreams (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2008]