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quinta-feira, 9 de abril de 2015

things i didn't know

Quando um grande amigo passa pelos aborrecimentos de uma separação é inevitável: você acaba ficando com parte da vida dele (não apenas as histórias e palavras ditas por ele, mas muitas vezes dos objetos dos quais ele prefere se desfazer). De don Renato Cohen, capitão de longo curso, ganhei um bocado de livros, como esse "Things I didn't know", de Robert Hughes. Renato e eu devemos ao Hughes um tanto de nossa educação estética. Lembro-me de como comentávamos cada um dos capítulos de "O choque do novo", série que assistíamos na TV Cultura de São Paulo nos anos 1980. Depois lemos "Barcelona" e "Goya" e, mas recentemente, vimos "American Visions", outro bom documentário. "Things I didn't know" é uma boa autobiografia, mas ela conta apenas metade de uma história, pois termina quando Hughes emigra para os Estados Unidos e passa a colaborar com a revista Time, em 1970 (ele viveria mais de quarenta anos lá e só morreria, ativo e ainda influente no mundo da crítica de arte, em agosto de 2012). Lê-se suas memórias com prazer. À exceção do primeiro capítulo, dedicado a descrição de um grave acidente automobilístico ocorrido em sua Austrália natal e dos kafkianos desdobramentos jurídicos dele, os demais oito seguem a seta do tempo linearmente, desde sua infância em Sidney, filho mais novo de uma próspera família de advogados cujo pai combateu na primeira grande guerra, até a vida louca na Londres hiperurbana do final dos anos 1960, já casado e com um filho pequeno. Hughes nos conta sobre seus pais e antepassados remotos (o manual dos livros de memórias praticamente obriga um capítulo dedicado a essas arqueologias pessoais) e fala bastante sobre sua educação jesuítica e mentores intelectuais. Descreve como se aproximou da arte através da arquitetura (em seu curso superior de belas artes) e como entrou no mundo da televisão (e mesmo na crítica de arte) por acaso. A Austrália de seus dias de estudante (anos 1950) era muito conservadora, provinciana e o acesso a peças originais de arte moderna limitadíssimo. A discussão sobre arte moderna praticamente inexistia. Portanto, sua educação estética não é exatamente formal, fruto da experiência acadêmica. Hughes se aproxima dos artistas de seu país, sobretudo artistas plásticos, mas também atores, músicos, dramaturgos, frequenta ateliers, galerias, exposições, lê os livros clássicos sobre o tema que encontra. Faz algum turismo em Londres. Depois dos anos em que tenta viver como pintor, logo após terminar os estudos superiores, descobre que sua habilidade em falar e escrever sobre pintura é muito superior a sua técnica. Incentivado por um mentor (o escritor australiano Alan Moorehead) ele emigra para a Inglaterra e vive como escritor freelancer dos cadernos culturais de jornais londrinos (antes de se fixar em Londres ele passa um curto período nos Estados Unidos, onde conhece Robert Rauschenberg, Cy Twombly e Jasper Johns, além de gastar dinheiro em Las Vegas). Posteriormente vive uns anos na Itália e descobre lá um admirável mundo novo de arte escultória e afrescos etruscos e romanos (também aprende a relacionar-se melhor com os amigos influentes ligados ao jornalismo e ao circuito das artes). No final dos anos 1960 ele acompanha com seu trabalho a explosão da contracultura, tempo de maior engajamento político, contestação dos sistemas de poder estabelecidos, curiosidade com a experiência das drogas. Hughes não é exatamente um enfant terrible, mas frequenta vários círculos de ativistas políticos e culturais (sua mulher acaba sendo descrita com crueldade como uma drogada incorrigível). Com fontes limitadas de trabalho e a perspectiva do nascimento de um filho, Hughes e a mulher passam algum tempo na Espanha, ainda sob a ditadura franquista. Lá ele conhece a renaixença catalã e, em Madrid, os grandes pintores do século de ouro espanhol. Cada uma de suas cumulativas experiências longe da Austrália o fazem entender o fenômeno da arte com maior abrangência. Ainda trabalhando com a produção de documentários culturais na BBC2 londrina, no final dos anos 1960 Hughes escreve dois livros de arte, que venderam pouco mas alcançaram críticas bastante generosas ("The Art of Australia", em 1966 e "Heaven and Hell in Western Art", em 1969). Henry Grunwald, um australiano de nascimento e à época editor da Time Magazine, interessou-se por "Heaven and hell in Western Art" e resolveu contratar Hughes para a posição de crítico de arte da revista. Hughes parte de Roma para Nova Iorque e sabe que sua vida mudaria completamente. Mas isso só uma biografia completa poderá detalhar (sem saber onde encontrar uma, achei esse bom site sobre ele). Enfim, trata-se de um livro irregular, com passagens muito estimulantes mas também com seções bem tediosas. Esses altos e baixos não desmerecem totalmente o livro. Hughes nos ensina a enxergar melhor o mundo, perceber melhor as relações entre as pessoas, principalmente através das lentes da arte moderna. Defende a idéia que cada obra de arte deve oferecer ao indivíduo algo estimulante, inquietante, caso contrário é lixo (e não se deve entender cada movimento artístico como algo monolítico, inexpugnável, imune a críticas). Fala da vitalidade australiana, da busca incessante por conhecimento, da capacidade de aprender (e do papel da sorte em nossa vida, como não?). E como não agradecer uma vez mais o Cohen por me oferecer um presente tão especial assim. Evoé Renato Cohen, evoé.
[início: 12/01/2015 - fim: 07/04/2015]
"Things I didn't know: a memoir", Robert Hughes, New York: Alfred A. Knopf (Random House), 1a. edição (2006), capa-dura 16,5x24 cm., 399 págs., ISBN: 1-4000-4444-8

segunda-feira, 31 de março de 2008

goya

Robert Hughes é um dos escritores e/ou intelectuais que eu mais admiro. Já escrevi aqui sobre o impacto em minha formação da série "O choque do novo", que tratava do modernismo nas artes plásticas (ele produziu esta série para a BBC e ela foi veiculada pela TV Cultura em meados dos anos 1980). Ano passado li "Barcelona", um belo ensaio dele sobre a capital dos catalães e li um terço de sua autobiografia ("things i didn't know", ainda vou resenhá-la aqui - quando terminá-la, claro). Este "Goya" comprei como peça de arte, para ficar folheando na sala, admirando as muitas ilustrações e gravuras, mas quem disse que eu iria resistir ao texto? Claro, o livro é belíssimo, capa dura, muito bem editado, mas é no texto que encontramos o melhor dele. O livro começa como sua autobiografia, descrevendo um grave acidente de carro em que ele se envolveu. O projeto de escrever um texto grande sobre Goya era antigo, mas só após o acidente ele percebeu que já era hora de dedicar-se de fato ao tema (antes que fosse tarde). Sorte nossa este acidente (sendo um tanto politicamente incorreto). O texto não é acadêmico, mas é rigoroso. Este sujeito escreve como se estivesse dando uma excelente aula, os parágrafos são vívidos e convincentes. Que coisa admirável. Nada do que eu já vi ou li deste sujeito é ruim. Recomendo este livro com a maior convicção. Não há muito o que antecipar. O livro acompanha cronologicamente a vida de Goya e é repleto de informações interessantes sobre a Espanha do século XVIII. Muitos dos mitos e lugares-comuns atribuídos a Goya são discutidos no livro (não, ele não era um irônico pintor da corte que ridicularizava seus nobres e aristocratas modelos; a maja desnuda não era a duquesa de Alba; o Goya pintor ainda não é um artista moderno que pinta o que quer e despreza encomendas, mas é um ilustrado que despreza a estupidez humana em primeiro lugar; e por aí vai.) Assim como no "Barcelona", onde suas descrições das massas e volumes escultórios das igrejas e prédios públicos deixam o leitor sem fôlego, neste "Goya" as descrições dos quadros é ao mesmo tempo didática e seminal. Ele mostra um caminho para o olho do leitor, mas nunca menospreza a inteligência de quem pode fazer uma leitura diferente de cada um dos quadros. Qualquer leitor interessado em entender um tanto a alma espanhola (que nestes tempos bicudos têm se mostrado ambígua como nunca) ganha muito em se aventurar pelas belas páginas deste livro. As descrições das séries de gravuras (Caprichos, Disparates, Desastres, Tauromaquia) são soberbas. Ainda encantado paro aqui citando um trecho da resenha deste livro escrita pelo prof. Teixeira Coelho: "Hughes vai rapidamente ao ponto: Goya nunca foi trivial, e o animou o desejo de conhecer e contar a verdade com enorme sentido de urgência - algo que, diz Hughes, a arte que veio depois perdeu. Opiniões cortantes são discutíveis - mas delas são feitos os textos que vale a pena ler.". Bom divertimento.
"Goya", Robert Hughes, tradução de Tuca Magalhães, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) capa dura 16x23cm, 504 pág., ISBN: 978-85-359-0999-9

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

feiticeira


Quando vi este livro do Hughes e o ano da publicação fiquei curioso e ávido por ler, pois o outro livro dele "Barcelona", que li recentemente e reenhei aqui, havia realmente me impressionado muito. Será que ele continuaria a história da "velha feiticeira" do ponto em que parou? Acrescentaria alguma coisa? Infelizmente não é bem isto. Publicado em 2004, mais de quinze anos após o anterior, "Barcelona: The Great Enchantress" tem pouco material inédito. Feito de encomenda para o grupo National Geographic, em uma série de reportagens sobre cidades do mundo, este pequeno livrinho contem claro algumas das excelentes passagens do livro anterior, mas são realmente muito curtas para se ter uma idéia do que o outro livro apresentava. Não há o farto material iconográfico, as longas passagens sutis e inspiradas de antes. Não há os anexos bibliográficos e as sugestões de leituras mais técnicas. Claro, há um tom mais pessoal, agradável de se acompanhar e boas passagens que contam um tanto como o autor veio pela primeira vez a cidade e dos grandes amigos que fez (e manteve) ao longo dos últimos quarenta anos. Uma frase inédita que realmente eu gostei diz algo mais ou menos assim: Você é uma pessoas realmente afortunada caso, não muito tarde na tua vida, descubra uma outra cidade, distinta de sua cidade natal, que seja verdadeiramente a "sua" cidade. Eu acredito nisto também. Se identificar com um lugar a ponto de gostar de se apresentar como um nativo daquele lugar me parece um fenômeno que dá ao sujeito um prazer enorme e indistinto. Se é que eu posso sugerir algo para os eventuais e extemporâneos leitores deste blog eu diria que a leitura indicada segue sendo o original Barcelona, de 1988. Este livro é apenas um aperitivo que, ao menos para mim, de alguma forma pode até afastar o leitor do encantamento que a velha feiticeira pode provocar. De qualquer forma é um livro honesto a disposição de quem se inspire a enfrentá-lo.
Barcelona: The Great Enchantress, Robert Hughes, National Geographic Directions, 1a. edi ção (2004) ISBN: 0-7922-6794-X

sexta-feira, 20 de julho de 2007

seny y rauxa

Barcelona é um livro estupendo. É ao mesmo tempo um longo ensaio sobre a história de uma cidade, um excelente guia de viagens, um compêndio de críticas de arte e de artistas, uma reflexão desapaixonada sobre um povo e uma cultura. Conhecia Robert Hughes de seus documentários sobre arte moderna produzidos pela BBC nos anos 1980 e veiculados pela TV cultura de São Paulo: "O Choque do Novo" e "Visões da América". Lembro-me das conversas longas sobre cada um dos episódios que tinha com don Renato Cohen, hugheano de primeira hora. Hughes nasceu na Austrália mas se radicou ainda jovem no continente europeu em meados dos anos 1960. Desde 1970 é crítico de arte da revista Time em Nova York. "Barcelona" foi publicado às vésperas das olimpíadas de 1992 e textualmente se limita a descrever a história da cidade apenas até a morte de Antônio Gaudí, um pouco antes do início da guerra civil espanhola, no final dos anos 1930. O projeto inicial dele envolvia focar-se na arquitetura para descrever o período modernista catalão (mas conhecido em outros lugares como período art noveau, que vai da segunda metade do século XIX até 1910, aproximadamente). Mas segundo ele é impossível descrever estes 30, 40 anos sem ao menos refletir sobre os 2000 anos anteriores, desde o surgimento de Barcelona como pequena colônica na época de Augusto. Os capítulos não são esquemáticos. Quase todos os temas são apresentados sem atropelo, fundindo os fatos históricos mais importantes, a análise das influências, as mitologias, as descrições, as biografias, os relatos, as citações, a crítica de arte em um todo muito agradável de ler. O estilo é mesmo a marca de Hughes. Mesmo sendo um texto de fácil leitura em nenhum momento encontramos argumentos rasos e divagações inúteis. Contando com um detalhado guia remissivo e uma bibliografia extensa certamente este texto pode ser utilizado como porta de entrada ao universo da cultura catalã tanto por arquitetos, quanto artísticas plásticos, músicos, historiadores, curiosos e também, incrível, por viajantes em busca de sugestões de passeios turísticos. Eu li boa parte do livro com um mapa de Barcelona ao lado, procurando as referências e tentando lembrar um tanto dos passeios que fiz. Barcelona é mesmo " la gran encisera", a grande feiticeira, como o poeta Maragall escreveu um dia: "orgulhosa, traiçoeira e vulgar", mas completamente deles, orgulhosos, traiçoeiros e até vulgares, catalães.
“Barcelona”, Robert Hughes, tradução de Denise Bottman, Editora Companhia das Letras, 1a. edição (1955) ISBN: 85-7164-443-8