Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador drama. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de outubro de 2020

rei lear

Quando se trata de bons livros, não importa quantas vezes um sujeito volte a lê-los, o assombro sempre será diferente, o encantamento sempre se dará de uma forma distinta, as descobertas sempre serão diversas das anteriores. Shakespeare, o eterno Shakespeare, inventou seu Rei Lear há mais de quatrocentos anos e esse drama segue nos arrebatando. Charles Lamb e Harold Bloom já nos ensinaram que a leitura de Rei Lear é particularmente gratificante porque, em geral, as montagens e/ou adaptações ficam sempre aquém do texto, porque os atores e/os diretores são sempre derrotados pela potência da peça, por sua riqueza, por seu caráter quase mitológico, por sua tessitura poética que remete a de uma santa escritura. Se for este mesmo o caso, a tarefa do leitor agora ficou muito mais prazerosa, pois Lawrence Flores Pereira, respeitado e premiado professor e tradutor, que já nos havia proporcionado suas ótimas versões de Hamlet e de Otelo, acabou de publicar seu Rei Lear. Não me atrevo aqui a fazer um resumo da peça. Talvez, numa sinopse, seja só o caso de lembrar que há duas tramas intrincadas, dois enredos paralelos: o enredo principal é o de Lear, rei da Bretanha, que planeja dividir seu reino entre suas três filhas (Regan, Goneril e Cordélia), mas apenas provoca conflitos e destruição, morte e loucura; a segunda trama é a de Gloucester, um conde do reino bretão, que é enganado por seu filho bastardo (Edmund), renega seu filho natural (Edgard) e, a exemplo de Lear, produz a si e a todos os que o cercam, somente degradação, sofrimento, ruína, realçando o conflito e caos gerado por Lear. Um leitor romântico (ou um que não seja pelo menos um pouco niilista ou cínico) precisa emparedar seu coração, pois na peça quase todos os personagens sofrem demasiadamente. O espectador/leitor também sofre com eles, até o final, mesmo quando uns poucos dentre os virtuosos personagens sobrevivem e todos os maus, os completamente perversos, sejam derrubados. De certa forma a loucura de Lear é a loucura grandiloquente deste nosso século, onde a falta de sabedoria, a vocação para destruição e o desentendimento sobre o que seja amar são a verdadeira norma contemporânea, fazem parte de nosso triste cotidiano (seja no envolvimento real entre os homo sapiens, seja nas especulares relações sociais virtuais, no contínuo autoengano das redes, que apenas deixa aflorar nosso lado mais sombrio). A tradução de Lawrence - frente toda a complexidade da peça, que funde prosa e verso, canções e retórica, com ritmos diferentes - valoriza sempre o verso (instável, no original, nas palavras dele mesmo), oferecendo ao leitor um léxico rico e variado, com elementos eruditos e populares, soluções muito originais, criativas. Gostei muito de ler. Os usuais mimos da coleção Penguin Classics Companhia das Letras estão presentes: (i) uma bela introdução, que ocupa um terço do volume, assinada por Lawrence e por Kathrin H. Rosenfield; (ii) duas notas breves que especificam as fontes e o compromisso tradutório utilizado (vale lembrar que o projeto de tradução do Lawrence pode ser encontrado na Revista de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982-6850); (iii) as referências bibliográficas fundamentais; e, por fim, (iv) aquilo que sempre é uma festa para o leitor curioso, uma leitura à parte que todos devem fazer simultaneamente ou mesmo só após terminar o texto: extensas notas de tradução para cada uma das 26 cenas da peça, que ocupam aproximadamente um quarto do volume, onde ora se argumenta sobre as soluções adotadas na tradução de passagens específicas, ora se fala da conveniência ou não de um determinado procedimento cênico, mas que também oferece explicações sobre aquilo que é cifrado ou enigmático demais no original, como certos antropônimos, topônimos, passagens que fazem alusão a mitologia, história e sociologia. Só um detalhe besta, que acho ser um deslize que a Penguin/Companhia poderia ter evitado: o sumiço do Conde de Kent na lista de personagens (logo ele, que é o primeiro a falar na peça). Outro detalhe besta, mas bacana desta vez, é que achei muito curioso Lawrence ter utilizado nas passagens fantásticas e loucas dos discursos do Pobre Tom (Edgard) a palavra "Trasgo", resgatando-a do folclore português (da província do norte de Portugal, Trás-os-montes), quando quer identificar os demônios que se ocupam deste pobre personagem. Acontece que "Trasgo" foi incorporado notavelmente pelos tradutores de Harry Potter para o português, já há vinte anos, quando precisaram identificar aquilo que J.K. Rowling chamou de "Trolls" em seu livro (é uma bobagem, mas pareceu-me um fortuito encontro entre registros eruditos e populares, tão presentes na peça). Finalizo reproduzindo aqui duas citações marcantes da peça, que parecem tão adequadas para os nossos dias, dias povoados por vazio e estupidez: "When we are born, we cry that we are come to this great stage of fools" e "Nothing will come of nothing.” ("Quando nascemos, choramos por aportar / A esse vasto palco de loucos." e "Mas nada virá de nada."), nas versões de Lawrence. Livro para se ler com atenção, esforço e disciplina. Vale muito a pena. Evoé Lawrence, Evoé! Vale!
Registro #1578 (drama #23)
[início: 22/07/2020 - fim: 29/09/2020]
"Rei Lear", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2020), brochura 13x20 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-8285-111-1 [edição original: His True Chronicle Historie of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters. With the Unfortunate Life of Edgar, Sonne and Heire to the Earle of Gloster, and His Sullen and Assumed Humor of Tom of Bedlam (London) first quarto, 1608; second quarto, 1619; The Tragedie of King Leat (London: Isaac Jaggard and Edward Blount) first folio, 1623; Foakes, R.A. (ed,), Arden Shakespeare, Third Series (London: Bloomsbury), 1997]

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

los emplazados

Nos idos de março, quando subi para as terras altas de Itaara, em meu isolamento por conta da pandemia, levei um bom estoque de livros. Achei adequado levar alguns de Elías Canetti, sujeito que entendia muito sobre a morte. Pois fiz bem. Alternando Canetti com outros livros e divertimentos alcancei não deixar-me derrotar pela solidão, frio ou medo da morte. Reli as três peças reunidas neste volume: La boda, La comedia de la vanidad e Los emplazados. Como cada uma envolve reflexões muito especiais, farei registros separados delas. "Los emplazados" é de 1964. O título original é Die Befristeten, que dá a ideia de limitação, de algo temporário. Em espanhol se dá a ideia de "colocados", colocar alguma coisa em seu lugar, ou de convocar oficialmente alguém, na tradução inglesa (The Numbered), se enfatiza algo particular da peça, o fato de todos os personagens serem identificados por números, e a tradução publicada no Brasil (Os que Têm a Hora Marcada) talvez se associe mais precisamente ao título original. Bueno. Li essa peça pela primeira vez em 1983, na mesma época em que li "Auto de Fé", o romance fundamental de Canetti. Esta curiosa peça parte de uma situação absurda, distópica, para provocar no leitor/espectador boas reflexões sobre a condição humana. Canetti propõe um mundo (pós-apocaliptico?, pós-científico?), no qual a sociedade é organizada de tal forma que todos, ao nascer, recebem como nome um número, que corresponde aos anos que viverá (esse número é guardado em uma cápsula que todos carregam presas ao pescoço). Assim sendo, trata-se exatamente o contrário da realidade, pois não há em sua proposta dramática a loteria da vida, com a qual estamos suficientemente acostumados, que implica em aceitar que o momento da morte de cada um não é algo previsível. A sociedade é uma teocracia, ou seja, a religião fundamenta o poder político, organiza as leis. Não aceitar a inevitabilidade da morte no ano do seu nome equivale a um anátema, a excomunhão, ao exílio social. "Cinquenta", o protagonista da história, não aceita a ideia de morrer com cinquenta anos e questiona o sujeito responsável por verificar os prazos de vida ("Capsulón", na tradução espanhola). Um terceiro personagem principal, "Amigo", lamenta o desaparecimento de sua irmã, que fugiu da sociedade ao cumprir seus doze anos. A recusa de Cinquenta em aceitar seu destino provoca uma espécie de revolução, o início de uma nova seita, de organização social. Canetti parece antecipar o controle biométrico das pessoas (via implantes de chips no corpo, algo real neste nosso século XXI), de uma espécie de controle técnico do tempo de vida (com os avanços da medicina moderna) e da atração natural entre semelhantes (os jovens - pessoas com números baixos - só se identificam com jovens, os velhos - pessoas com números altos, socialmente admirados - exploram os demais). Filosoficamente, o leitor é apresentado a vários espantos: Seria bom se cada um de nós soubesse antecipadamente nosso tempo de vida?; neste mundo, viveríamos plenamente ou igualmente escravizados?; a ideia da morte e a ideia da vida são especulares, complementares ou contraditórias entre si?; viver ignorante de nosso destino não seria preferível?; em um mundo onde o tempo é propriedade de cada um, não compartilhável, é necessário aprender algo, reproduzir-se, fazer planos?; o mundo onde o medo da morte não existe, é bom? (lembrei de uma passagem do Blade Runner, em que Roy, um dos replicantes, diz a Decker, o humano: "que bom viver com medo!", - teria Phillip F. Dick conhecido esta peça?, a ver!). Grande Canetti. Poucos escritores escreveram tão bem sobre a morte e descreveram tão bem a psiquê de nós, pobres e limitados homo sapiens. Em breve farei registros das outras duas peças reunidas neste volume. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1566 (drama #22)
[início: 13/04/2020 - fim: 19/04/2020]
"Los emplazados", Elías Canetti, Barcelona: Muchnik Editores, 1a. edição (1982), brochura 13x20 cm, 260 págs., ISBN: 84-85501-46-2 [edição original: Die Befristeten (München: Deutscher Taschenbuch Verlag) 1964]

terça-feira, 7 de julho de 2020

lacombe lucien

"Lacombe Lucien", filme de Louis Malle, foi lançado em 1974, mas eu só o assisti em 1980 ou 1981. Lembro-me bem do filme, sobretudo porque naquela época eu lia muito Paulo Francis e ele era particularmente sádico em denunciar reiteradamente a sociedade francesa, falando do porco papel de boa parte daquela população durante a ocupação alemã, na segunda grande guerra. Recentemente comprei um pacote de livros do Patrick Modiano, dentre eles a versão original do roteiro do filme, que é assinado por ele e o diretor, Louis Malle. A leitura silenciosa do livro é tão impactante quando o filme. Não me cabe aqui contar detalhes do  roteiro/filme, claro. Só recomendo, como um dos filmes fundamentais, que todos deveriam tentar ver, mas sei que isso dificilmente acontece, tão anestesiados estão os viventes deste desgraçado país. Gostei de ler o roteiro. Não sou mais aquele jovem de vinte anos, que se instruía na vida, tentava ilustrar-se e que era praticamente imune ao cinismo. Hoje, já praticamente sessentão, vejo a desgraça dos atos e destino daquele protagonista como fruto do completo acaso, como quase tudo nesta vida. Retrospectivamente é fácil ser heroico, estar do lado certo da história, esbanjar bom mocismo, máximas éticas e morais. Noutro dia vi uma entrevista com um de meus gurus espanhóis, o escritor Arturo Pérez-Reverte, em que ele dizia desprezar muito mais a estupidez que a maldade. Segundo ele tendemos quase sempre a sermos condescendentes com as pessoas simples, mal educadas, idiotas, reputando a elas uma inocência que as blindaria dos funestos desdobramentos de suas insensatas escolhas e decisões. Lacombe Lucien é um destes sujeitos, que sempre existiram e existirão, que passam pela vida sem entender quase nada de sua complexidade. Grande livro. Grande filme. Grande Modiano e grande Louis Malle. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1551 (drama #21) 
[início - fim: 12/06/2020]
"Lacombe Lucien", Louis Malle e Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #981), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 156 págs., ISBN: 978-84-339-8011-3 [edição original: Lacombe Lucien (Paris: éditions Gallimard) 1974]

sábado, 6 de junho de 2020

nuestros comienzos en la vida

"Nuestros comienzos en la vida" é uma peça, um drama em um ato, que se lê em voz alta em pouco menos de duas horas. Foi publicada simultaneamente ao romance "Recuerdos durmientes" em 2017, três anos após ele ter recebido o prêmio Nobel de literatura. Trata-se de um jogo de espelhos, pois o drama que lemos se passa no camarim e no palco de um teatro, onde se encena "A gaivota", famosa peça de Anton Tchekhov. Jean é um jovem que tem a ambição de tornar-se escritor, mas experimenta censura da mãe, uma atriz medíocre, e o atual marido dela, um jornalista arrogante, que imagina poder controlar o destino do rapaz. Jean está enamorado de Dominique, uma jovem atriz que teve a sorte de ser escolhida para o papel de Nina Zarêtchnaia, protagonista da peça de Tchekhov, o que aparentemente lhe garantirá um futuro respeitável. Assim como em Tchekhov os conflitos do jovem escritor dominam as cenas da peça, evidenciando várias questões do tempo francês em que se passa a peça (meados dos anos 1960), sobretudo a opressão de sua mãe e os fracassos dela que o assombram, assim como as relações abusivas entre homens e mulheres. Ao mesmo tempo Jean tem medo que sua Dominique emule tão completamente sua personagem Nina que o abandone, como se dá na peça de Tchekhov. A peça de Modiano oferece ao leitor vários planos temporais, várias situações que contrastam os sonhos da juventude com a experiência daqueles que conhecem todo seu passado, fala das metamorfoses pelas quais todos passamos com o tempo, em nosso corpo e em nossas ideias. Diferentemente de como se dá na vida, na realidade, vários destinos se superpõe na peça, e não saberemos exatamente o que acontece de fato com o casal Jean/Dominique. Muito interessante, uma aula de dramaturgia, uma festa para os sentidos. Lembrei muito de "A outra/Another Woman", filme de Woody Allen que adoro e revejo sempre que posso. Sim. Vale sempre a pena ler Patrick Modiano. Vale! 
Registro #1538 (drama #20) 
[início - fim: 20/05/2020]
"Nuestros comienzos en la vida", Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #983), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 109 págs., ISBN: 978-84-339-8013-7 [edição original: Nos débuts dans la vie (Paris: éditions Gallimard) 2017]

quinta-feira, 16 de abril de 2020

um fausto

O texto - anônimo - que deu origem ao mito de Fausto foi publicado em 1587. Christopher Marlowe escreveu a primeira versão dramática deste mito entre 1589 e 1592, mas não é certo que a peça chegou a ser encenada em vida do autor (sabe-se que foi publicada após sua morte, em diferentes versões, em 1604 e 1616). De qualquer forma esse mito literário tem sido reimaginado e reinventado desde então. Há versões para todos os gostos (de Goethe a Thomas Mann, de Fernando Pessoa a Puchkin, de Murnau a Berlioz, de Gounod a Liszt, de Paul Valéry a David Mamet, dentre tantos outros). A história é citada ou homenageada em uma miríade de mídias, formas e contextos da cultura. Tempos atrás fiz um registro de um romance de Sidney Garambone ("Fausto tropical"), jornalista  e escritor carioca, que adaptou a história a seu Rio de Janeiro fundamental. Mas hoje quero fazer o registro de uma versão curitibana, produzida a quatro mãos, pelos poetas Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos: "Um Fausto", publicado provavelmente em 1994. Esta adaptação acompanha de perto os sucessos da primeira parte da versão de Goethe (bem diferente da versão de Marlowe e sem a conclusão popularmente conhecida, com Deus vencendo a aposta que fez com Mefistófeles pela alma de Fausto, elevando-a aos céus, mas isso pouco importa). Na primeira das dez cenas em que "Um Fausto" é dividido, um editor, "à beira da falência, tenta convencer seu melhor poeta a escrever um best-seller" e o leitor descobre como esse poeta é estimulado por sua musa a aceitar o encargo. Após espiar o pacto entre Mefistófeles e Deus, o poeta nos conta como Mefistófeles apresenta-se a Fausto e oferece seus serviços, e como a menina Margarida é vagarosamente seduzida pelas artes infernais até por fim cair em desgraça e ser aprisionada. É um texto gostoso de ler, bem divertido, movimentado. Por ser uma versão debochada, em versos e curta, e por ser o resultado de boas leituras, de sujeitos que sabem equilibrar registros eruditos e populares, a cousa me parece funcionar, ou seja, me parece encenável, conferindo dignidade e valor à longa tradição de adaptações deste mito literário. Evoé rapazes, Evoé. O livro inclui algumas ilustrações de Roberto Carlos Jubainski. Bacana. Sigamos o baile macabro deste outono. Quem viver, lerá. Vale! 
Registro #1516 (drama #19) 
[início: 06/04/2020 - fim: 07/04/2020] 
"Um Fausto", Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos, Curitiba: Lagarto Editores, 1a. edição (1994?), brochura 12x18 cm, 48 págs., sem ISBN

domingo, 5 de abril de 2020

minha pequena irlanda, my little ireland

Dirce Waltrick do Amarante, ativa pesquisadora das cousas que gravitam o mundo de James Joyce, produziu uma peça, "Minha pequena Irlanda", que mescla elementos do oitavo capítulo do Finnegans Wake joyceano (último capítulo do primeiro livro do Finnegans Wake) com algumas das cartas ditas pornográficas de James Joyce enviadas a Nora Barnacle, sua mulher. O oitavo capítulo pode ser lido aqui: clika1!. E as cartas de Joyce aqui: clika2!. A peça de Dirce do Amarante foi apresentada pela primeira vez em junho de 2019, no Teatro da Universidade Federal de Santa Catarina. Trata-se de um texto curto. A peça encenada dura cerca de 35 minutos, a leitura dela pode durar um tanto menos (vale registrar que o próprio Joyce lia esse capítulo em menos de dez minutos: clika3!. No livro o editor optou por oferecer duas versões, em português e em inglês. Todavia, ao menos no meu exemplar, um erro de montagem dos cadernos fez com que o texto em português ficasse pela metade. Paciência. O leitor pode ler todo o texto em inglês e, de resto, pode acompanhar um gravação integral da peça, disponível no YouTube: clika4!. Trata-se de uma proposta interessante. Funciona como dramaturgia, mesmo para o espectador não familiarizado com o universo joyceano, o contexto das cartas e do capítulo. Neste capítulo duas lavadeiras de roupas trabalham às margens do Liffey e conversam (fofocam talvez seja o termo mais adequado). Elas fazem troça do estado das roupas de Humphrey Chimpden Earwicker, HCE, o protagonista da história, o Proteus joyceano, que se metamorfoseia tantas vezes no livro. E contam, enquanto o fim de tarde não chega, outros sucessos de Anna Livia Plurabelle, mulher de HCE, sobretudo sobre sua vida sexual, sobre seus filhos, Shem e Shaun, e alguns dos demais habitantes de Dublin. Ao final, separadas pelo Liffley, as lavadeiras se metamorfoseiam em pedra e árvore. Na montagem, além das duas lavadeiras, dois narradores em off contam a história, enquanto imagens de Dublin são projetadas em lençóis e roupas que são penduradas por elas em varais. Os efeitos produzidos são muito bonitos. Leitura bastante agradável. O livro inclui algumas ilustrações, assinadas por Sérgio Medeiros, um curto ensaio assinado por Dirce do Amarante e uma lista biográfica dos demais colaboradores/participantes do projeto de transcriar, na linguagem teatral, um pequeno trecho da mais complexa das obras de Joyce. Justa e válida homenagem. Vale! 
Registro #1512 (drama #18) 
[início: 20/03/2020 - fim: 23/03/2020]
"Minha pequena Irlanda / My Little Ireland", Dirce Waltrick do Amarante, ilustrações de Sérgio Medeiros, Forianópolis: Rafael Copetti Editor, 1a. edição (2020), brochura 11x18 cm, 116 págs. ISBN: 978-85-67569-56-7

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

los cuentos de la peste

Além de habilidoso romancista, inventor de histórias igualmente cativantes e fortes, Mario Vargas Llosa também aventurou-se pelo teatro ao longo de sua carreira literária, tendo publicado pelo menos uma dezena de peças. "Los cuentos de la peste" é a mais recente. Foi montada pela primeira vez em janeiro de 2015, no Teatro Español de Madrid, sob direção de Joan Ollé e contou com o próprio Llosa atuando. A peça é baseada no "Decameron", de Giovanni Boccaccio. Llosa transporta o leitor/espectador para os arredores de Florença, em meados do século XIV, quando eclodiu a peste negra, que tantas vidas cobrou. A peça é dividida em duas partes ou atos, de dez cenas cada um. Assim como no original de Boccaccio, a eclosão da peste faz com que um grupo se isole e, de certa maneira, sobrevivam à doença inventando histórias, inventando mundos. A literatura funciona como metáfora para a fuga da realidade, para a experiência de viver em fantasia destinos que jamais viveríamos. Na peça de Llosa são apenas cinco os atores (enquanto para Boccaccio eram dez, o dobro). Nenhum deles é de fato quem afirma ser: O duque Ugolino, também é um covarde que fugiu da luta nas cruzadas, que nunca foi capaz de amar; Giovanni Boccaccio, apenas um inquisitor cruel de seu tempo, não um poeta; Aminta, condessa de la Santa Croce, uma princesa muçulmana, enganada por homens vis; Pánfilo, um ator mambembe travestido de monja; Filomena, uma monja travestida de atriz mambembe. A bem da verdade cada um deles passa por diferentes metamorfoses nos contos que contam na peça, nos vinte esquetes teatrais em que a peça é dividida, assumindo papéis que, assim como um caleidoscópio, multiplicam a luz, as imagens, as histórias. Os atores falam de questões de seu tempo, do medo da morte, do amor e do desejo, das relações entre distintas classes sociais, do destino, de suas biografias inventadas e por inventar, das mentiras cotidianas que sustentaram no passado. Ao enganarem a peste, contando os contos, livraram-se da morte, mas também da ilusória existência de seus passados. Será possível voltar à realidade? Será tolerável viver uma vida sem mentiras? No final da peça Boccaccio sabe que deve agora escrever seu "Decameron", na língua franca do povo, o italiano, não no latim de seus poemas. A vida imaginada e a vida vivida, a ficção e a realidade, serão plasmadas naquele livro. De certa forma, Llosa está falando de nosso mundo contemporâneo, das infinitas formas que utilizamos para fugir das pragas reais e metafóricas que vivemos, das insuportáveis e cruéis facetas da vida em sociedade, da farsa que praticamos nas redes sociais, do autoengano, das manipulações à qual tão alegremente nos submetemos e de forma tão desprezível praticamos contra nossos semelhantes. Que jogo mágico e interessante Mario Vargas Llosa nos oferece. A edição é muito bonita, com muitas reproduções fotográficas da montagem original da peça, fotografias assinadas por Ros Ríbas. Lembrei dos dias em que morei em Madrid, jovem neófito e necessariamente deslumbrado, das poucas peças e apresentações teatrais que vi, inclusive lá no Teatro Español, que fica justamente na icônica Plaza de Santa Ana, ai de mim. Vale! 
Registro #1474 (drama #17) 
[início: 07/11/2019 - fim: 12/11/2019]
"Los cuentos de la peste", Mário Vargas Llosa, fotografias de Ros Ríbas, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Aguilar, Altae, Taurus, Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2015), brochura 14x23 cm., 280 págs., ISBN: 978-987-738-029-3

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

el cartero del rey

Escrita em 1912, essa pequena peça de teatro deixa-se ler em um par de horas. É uma cousa sutil, delicada, algo mágica, que provoca o leitor/espectador refletir sobre nossa humana fragilidade, nossa transitória condição, nosso destino. A peça (Bengali Dak Ghar no original) foi traduzida por Yeats e por conta disto rapidamente ganhou visibilidade no ocidente, tendo sido encenada com regularidade desde sua primeira publicação (cabe dizer que ambos ganharam um prêmio Nobel, Tagore em 1913, Yeats em 1923). A história é curtíssima, e tem muito de alegórico. Uma criança, Amal, encerrada numa casa em função de sua doença, debilitante e incurável, alcança conversar e fazer perguntas a algumas pessoas, aquelas que passam próximas da janela de seu quarto. Neste ele conversa com seu pai adotivo, Madhav, e com um médico; da janela do quarto ele conversa com um leiteiro; um vigia noturno; um marinheiro; um valentão, que é chefe de sua aldeia; e com uma florista, Sudha. Basicamente ele pergunta a estas pessoas qual o destino delas, pergunta para onde eles vão. Os diálogos levam o leitor a refletir sobre o significado da vida, sobre a curiosidade que nos move, que nos obriga a tentar entender o quê significa mesmo partilhar uma existência, uns poucos anos, em um universo que tem mais de 13,77 bilhões de anos. Eventualmente, cada um de nós se desapega da vida, do eu, das cousas, dos outros. Todavia, quase sempre, esta epifania acontece quando já não somos capazes de mudar, nem tampouco entender de fato, a razão e o acaso de nossos destinos, se é que isto importa. Vale! 
Registro #1466 (drama #16) 
[início - fim: 03/10/2019]
El cartero del Rey", Rabindranath Tagore, tradução de J.A. López de Letona, Madrid: Ediciones Akal, (Básica de Bolsillo) 1a. edição (1986), brochura 12x18 cm., 80 págs., ISBN: 978-84-460-3323-3 [edição original: The Post Office (New York: Macmillan Company) 1914]

terça-feira, 5 de novembro de 2019

helena

Nunca havia lido essa peça, nem tampouco cheguei a ver uma apresentação dela, mas conhecia sua trama (graças ao bom Robert Graves, sempre o melhor artífice das associações possíveis sobre os gregos). Eurípides a escreveu no século V a.C. A peça baseia-se em uma variante da história mais conhecida de Helena de Troia (ou de Esparta). Na Ilíada aprendemos que Helena, mulher de Melenau de Esparta, foi sequestrada por Páris, filho de Príamo, rei de Troia. Desta forma ela é a causa material da longa guerra entre gregos e troianos, da morte de tantos guerreiros de ambos os lados. Em uma outra versão do mito, registrada por Heródoto e alguns outros, Helena foi transportada logo após seu sequestro para o Egito (para Mênfis), abandonada por Paris e lá mantida, incógnita, por dez anos, até ser reencontrada e levada por Menelau de volta a Esparta. É esta a variante utilizada por Eurípides para construir sua peça. Menelau, após a destruição de Troia pelos exércitos gregos, encontra nas ruínas da cidade uma Helena, mas não a sua. Esta nada mais é que um simulacro, um fantasma, um espectro engendrado por Hera, que enganou os sentidos dos dois grupos de combatentes durante os dez anos da guerra. Helena e Menelau, assim como os demais guerreiros espartanos, embarcam em um navio, mas navegam erráticos por longos sete anos pelo Mar Egeu, jamais alcançando Esparta. Imediatamente antes dos sucessos da peça, o navio deles naufraga nas costas do Egito. Enquanto Menelau procura ajuda, Helena e os demais marinheiros que sobreviveram ao naufrágio abrigam-se em uma gruta próxima da costa. Quando Menelau chega a cidade (Mênfis) encontra lá a verdadeira Helena, sua mulher há tanto anos sequestrada (na peça são 17 anos). A princípio ele pouco acredita na incrível semelhança entre a mulher que encontra no palácio e aquela que havia deixado na gruta marinha, mas após um de seus marinheiros alertá-lo que o espectro da outra Helena havia desaparecido no ar, alçado aos céus, desaparecido, ele passa a acreditar ter sido ludibriado pela deusa (Hera jamais perdoou Helena ter sido oferecida como prêmio a Páris após este ter escolhido Afrodite a mais bela das deusas e, cabe dizer, o fato de Helena ser filha bastarda de seu Zeus tonante). A peça gravita os sucessos que o casal finalmente reunido, Helena e Menelau, precisam engendrar para conseguirem fazer-se ao mar novamente, fugirem do palácio egípcio em segurança e voltarem para Esparta. A Helena de Eurípedes é uma mulher valorosa, com força moral e psicológica que supera em muito os engenhos de um tosco Menelau. É ela quem concebe todas as ações que ambos precisam tomar. Diversão garantida. A edição é bilíngue. Uns poucos comentários críticos e um prefácio assinado pelo próprio tradutor, Trajano Vieira, completam o volume. Seguro que ninguém perde tempo lendo uma peça clássica, um drama como este. Aprende-se um bocado, seja sobre a miríade de mitos que a sustentam, seja pelos matizes de entendimento de como opera a psique humana, de como nós fazemos uso da ficção para suportarmos a complexidade das paixões humanas, as surpresas do acaso, as vicissitudes da vida. Mas é hora de voltar a fazer-se ao mar. Vale! 
Registro #1465 (drama #15) 
[início: 29/08/2019 - fim: 31/08/2019] 
"Helena, de Eurípides, e seu duplo", Eurípides, tradução de Trajano Vieira, São Paulo: Editora Perspectiva (Coleção Signos #59), 1a. edição (2019), brochura 15x20,5 cm., 272 págs., ISBN: 978-85-273-1145-8

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

hedda gabler

No ano passado a editora Carambaia lançou reunidas, num belo projeto gráfico, quatro peças de Henrik Ibsen: "Espectros", "Um inimigo do povo", "Hedda Gabler" e "Solness, o construtor". As peças foram editadas em volumes separados, como se fossem os programas que as vezes são disponibilizados à plateia de um teatro. Acompanhadas de um volume extra, um curto posfácio assinado por Aimar Labaki, as quatro peças foram comercializadas juntas em uma caixa. As li ao longo do primeiro semestre deste ano. Pretendo agora fazer curtos registros separados de cada uma delas. Nunca vi uma montagem de "Hedda Gabler". Labaki nos ensina que já houve quatro montagens brasileiras da peça, a primeira em 1937 e a mais recente em 2006. Os eventos da peça ocorrem em dois dias. No primeiro ato o casal Gabler (Hedda e Jorgen) volta de uma longa viagem de núpcias e se instala em uma grande mansão, mas Jorgen ainda não tem uma posição financeira sólida, pois espera a nomeação para um cargo público em uma universidade. Hedda é uma mulher esnobe, afetada, de temperamento forte; Jorgen é um homem fraco, sonhador, endividado. No segundo ato, Brack, um juiz que é credor de Jorgen, assedia Hedda, e Lovborg, um antigo namorado dela, diz ter produzido um ensaio importante, mas que não ambiciona o cargo pretendido por seu marido. Jorgen, Brack e Lovborg saem para festejar, enquanto Hedda fica conversando com uma amiga, Thea, que é casada mas está enamorada de Lovborg e trabalha como sua secretária. No terceiro ato acompanhamos retrospectivamente descrições do tumultuado festejo noturno do qual participaram Jorgen, Brack e Lovborg, no qual esse último deu-se conta de ter perdido seu manuscrito. Hedda, sabe-se lá por qual razão (tédio, cupidez, vingança, estratégia, pura maldade), induz Lovborg a cometer suicídio e queima seu manuscrito. No quarto ato acompanhamos o desfecho da trama. Após o anúncio da morte de Lovborg, Hedda passa a ser chantageada por Brack, que sabe ser dela a arma utilizada por Lovborg para matar-se. Jorgen e Thea tentam reescrever o importante manuscrito, como homenagem ao amigo morto. Hedda, em transe, sabendo-se pela primeira vez incapaz de controlar seu destino e fazer valer suas vontades, comete também o suicídio. Deve ser uma experiência poderosa ver a peça encenada. Ibsen nos faz refletir sobre o alcance de nossos desejos, sobre a psique de homens e mulheres, sobre as relações de poder às quais estamos todos enredados. Haverá mais Ibsen por aqui. Vale! 
Registro #1299 (drama #14) 
[início: 04/03/2018 - fim: 06/03/2018]
"Hedda Gabler: Peça em quatro atos, 1890", Henrik Ibsen, tradução de Leonardo Pinto Silva, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2017), brochura 17x24 cm., 116 págs., ISBN: 978-85-69002-33-8 [edição original: Hedda Gabler (London: William Heinemann) e (Copenhagen / Christiania: Gyldendalske Boghandels Forlag) 1890]

domingo, 26 de novembro de 2017

romeu e julieta

Talvez apenas menos conhecida que o "Hamlet", "Romeu e Julieta" é daquelas peças de Shakespeare que qualquer vivente pode dizer sem medo que leu, vastas são as referências, influências e marcas na cultura disponíveis até ao mais leniente e vagabundo dos leitores. Shakespeare, como usualmente fazia, quase não inventou nada. Ele baseou-se em tramas bastante conhecidas, de Ovídio a Dante, de Bocaccio a Bandello. A desse último, por sua vez, foi adaptada para o inglês por um sujeito chamado Arthur Brooke, ainda no início do século XVI, e talvez seja a versão mais próxima e disponível ao velho Shakespeare para engendrar a sua. Pouco importa. O genial das peças de Shakespeare é que as versões dele das tramas alheias sempre são as melhores, as mais seminais, as mais curiosamente lembradas e eufônicas. Don José Francisco Botelho, jovem tradutor, da melhor cepa possível dos bons tradutores brasileiros, publicou essa sua versão no final de 2016. Só recentemente tive chance de ler com calma seu portento. Em suas notas sobre a tradução ele dá conta de seus procedimentos, dos recursos poéticos e estilísticos de sua arte. Fala de sua preocupação com a impressão da velocidade da entonação das falas da peça, ajustando os decassílabos e a prosa poética do conjunto original às particularidades do português falado. Ele registra também fidelidade às palavras de Adrian Poole, clássico especialista em Shakespeare que assina um ótimo ensaio incluído na edição da Penguin Companhia. Faz isso sobretudo quando discute o ambíguo equilíbrio entre os tons trágico e cômico da peça e também na questão do controle da sensação da passagem do tempo que experimentamos ao lê-la (ou assistirmos uma montagem dela - a de Baz Luhrmann, Romeo+Juliet, é extravagante, porém digna, talvez seja a que eu mais goste). O amor é primo da morte (nos ensinou um dia Carlos Drummond de Andrade), mas no caso de Shakespeare o amor não vence a morte, apenas dá chance às duas enlutadas famílias rivais de Verona uma chance de reconciliação (mas sabemos, ai de nós, cínicos que hoje somos, da precariedade dessas iniciativas de louvor ou apreço derivadas de um ato funesto). A edição inclui um conjunto de notas assinadas por T. J. B. Spencer, conhecido especialista em Shakespeare, e outras assinadas por Botelho. Como sempre acontece nessas edições da Penguin, as notas dão alegria aos leitores que dispõe de tempo e disciplina, vontade de aprender. A tradução de Botelho é bem boa de se ler, acompanhamos suas soluções com alegria. O sujeito conhece e preza seu ofício. Acompanhamos os sucessos como quem ouve uma história já conhecida, porém contada por um novo vate, um novo bardo, um novo menestrel, dono de uma voz que agrada mais que outras. Com esse livro termino o pacote de três projetos shakespearianos aos quais dediquei-me esse ano. Roberto O'Shea ("Os dois primos nobres"), Lawrence Flores Pereira ("Otelo") e José Francisco Botelho são quase da mesma geração e estão produzindo portentos tradutórios das peças de Shakespeare num ritmo que assombra (Botelho já assinou um Julio César, que está nas livrarias; Lawrence prepara seu Rei Lear - ambos pela Penguin Companhia; e O´Shea, continuará suas traduções das peças tardias de Shakespeare?). Sorte nossa vivermos desse assombro. Evoé! Em tempo: Assim como registrei antes por aqui, ao falar das traduções de "Hamlet" e de"Otelo", lembrei-me ao ler essa tradução de "Romeu e Julieta" de meus tempos de espectador de teatro, de uma encenação que vi no meu tempo das cavernas, início dos anos 1980, no Teatro Anchieta do Sesc, ali próximo dos baixios da Consolação paulista, com o bom Antunes Filho assinando a direção e a jovenzita Giulia Gam, diáfana sob a lua, fazendo as vezes de Julieta (pouco importa quem fazia o papel de Romeu, claro, quem se lembraria dele?). Seriam as pudendas da jovem Giulia que vi em relance naquele dia, no escuro do teatro, ou seriam as da Fernanda Torres ou, ainda, da Júlia Lemmertz, numa montagem de Orlando, que vi no Teatro Municipal? O velho e necessário Alzheimer embaralha tudo e faz o corpo sonhar, talvez dormir (ou seria o contrário, seria outra peça, outras pudendas? Por quantas metamorfoses já passei?). Vale!
Registro #1242 (drama #13)
[início: 04/03/2017 - fim: 15/10/2017]
"Romeu e Julieta", William Shakespeare, tradução de José Francisco Botelho, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-8285-040-4 [edição original: first quarto, 1622; first folio, 1623; Romeo and Juliet (New Haven / Londres: Yale University Press) 2004]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

otelo

Em 2015 li a notável tradução do Hamlet engendrada por Lawrence Flores Pereira (que inclusive mereceu o prêmio Jabuti de melhor tradução, em 2016). No início deste ano foi lançado um novo portento do Lawrence, sua tradução do Otelo. Li o texto quando ainda era outono, em maio, mas deixei os elementos paratextuais para ler mais tarde. Aborrecido com a morte de meu pai, em junho, só retomei o volume recentemente, no início dessa úmida primavera. É certo que dedicamos tempo a leitura de livros como esse por conta do encantamento que o nome de Shakespeare evoca. Todavia, no caso das edições comentadas da Penguin Classics o conjunto de mimos que acompanham o texto da peça produzem múltiplas alegrias. O leitor encontra um ensaio longo do poeta W. H. Auden, "O curinga no baralho", já clássico, onde ele advoga a precedência de Iago sobre Otelo, disseca como bom professor e especialista que foi toda a trama, defendendo a ideia que a peça espelha nosso complexo mundo contemporâneo tão bem como espelhava a conturbada Inglaterra elisabetana. Lawrence oferece uma longa introdução, onde digressa sobre as circunstâncias da composição (mais próxima de 1601 ou mais próxima de 1604?); sobre as dificuldades de se manter isento na questão do ciúme evocada pela peça, como leitor ou como crítico; sobre as camadas de temas, detalhes estilísticos, alusões; sobre o protagonismo compartilhado entre Iago e Otelo; sobre a delicada questão racial que a nossos olhos contemporâneos ganha relevo, mas que seria até irrelevante no início do século XVII; fala das fontes primárias do texto original e do contexto de suas primeiras encenações. Ele também assina um conjunto de notas que esclarecem as passagens mais herméticas e suas escolhas, notas que merecem ser consultadas. E, em sua "Nota sobre a tradução", Lawrence fala da concepção e método de tradução de que se vale, dos contrastes estilísticos, registros, musicais e sonoros (ele os chama de "multidão de procedimentos envolvidos", cousa que não duvido nem um pouco);  explicita sua preocupação com os efeitos que podem ser produzidos num palco, numa encenação real, partindo-se de sua escolha de versos e rimas. Da peça nada falo. Dificilmente alguém a desconhece completamente, apesar de ser uma tolice furtar-se de lê-la ao menos uma vez na vida, coisa muito facilitada agora por essa notável tradução. Lembro-me sim de uma montagem que assisti, no início dos anos 1980, no solene Teatro de Cultura Artística paulista, com bom Juca de Oliveira no papel de Otelo e um quase sofrível Ney Latorraca no papel de Iago. A cenografia era assinada pelo grande Flávio Império, que era irmão de uma de minhas professoras no IFUSP, a Amélia Hamburger, sempre muito querida. A vida no interior do Rio Grande do Sul roubou-me esse hábito de ir ao teatro, paciência.
Registro #1241 (drama #12)
[início: 14/04/2017 - fim: 22/10/2017]
"Otelo", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x20 cm., 328 págs., ISBN: 978-85-8285-045-9 [edição original: The Tragedy of Othello, the Moor of Venice, (London) first quarto, 1622; first folio, 1623; E. A. J. Honigmann (org.), Hamlet, Bloomsbury Arden Shakespeare, second series (New York: Bloomsbury Publishing) 1996]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

os dois primos nobres

"Os dois primos nobres" é a mais tardia das peças atribuídas a Shakespeare, e também uma daquelas ausentes do Primeiro Fólio, de 1623, volume em que se imaginava estivessem transcritas suas obras completas. Já registrei aqui sobre uma destas, "Cardênio", provavelmente escrita em 1612 ou 1613, e que perdeu-se completamente (no belo livro de Roger Chartier se aprende um bocado sobre Shakespeare e Cervantes). As demais ditas "peças tardias" são: "Péricles, príncipe de Tiro" (1607-1608), "O Conto do Inverno" (1609-1611), "Cimbeline, Rei da Britânia" (1610), "A tempestade" (1611) e "Henrique VIII" (1613). Outra particularidade dela é ter sido escrita em colaboração, no caso com John Fletcher, sujeito que o substituiria à frente dos negócios da King's Men. Sabe-se com certeza que a peca foi encenada em Blackfriers, em 1634. Bueno. Eu sabia vagamente algo do enredo desta peça, mas a conhecia por um outro título: "Os dois nobres parentes", como foi traduzida e publicada anteriormente (isso me causou um leve aborrecimento com uma tonta que atendeu-me na boa Livraria da Vila paulistana, mas essa é outra história). José Roberto O'Shea, respeitado tradutor, membro da távola haroldina, hoje professor da UFSC e responsável por esta nova versão, optou por explicitar o parentesco do título. Trata-se de uma tragicomédia, inspirada em um dos "Contos da Cantuaria", de Geoffrey Chaucer.  Alternam-se e se entrelaçam duas histórias: uma é uma narrativa medieval, de amor cavalheiresco, na qual dois homens, Arcite e Palamon, grandes amigos, os tais  primos do título, se apaixonam por uma mesma mulher, Emilia, irmã da amazona e rainha, Hipólita, senhora de Atenas. Os primos tornam-se rivais absolutos, a ponto de Teseu, senhor de Atenas, promover um combate entre ambos para decidir qual dos dois mereceria casar-se com a jovem. A segunda narrativa é a de uma jovem, filha do carcereiro que teve sob seus cuidados Arcite e Palamon. Essa jovem se apaixona até a loucura por Palomon, o ajuda a fugir da prisão, condenando o próprio pai com esse ato. O método da loucura dessa personagem lembra o de Ofélia, no Hamlet.  Os cinco atos da peça, que num curto prólogo diz-se poder ser encenada em duas horas, são bastante movimentados, fáceis de ler, muito embora, sejamos hoje cínicos demais para aceitar como corriqueiro e normal o comportamento moral dos dois jovens, que de amigos tornam-se rivais por um amor impossível e a loucura por amor da filha do carcereiro. Todavia os deuses do teatro são poderosos, a magia da encenação e o encantamento provocado pelos versos transportam o espectador para um mundo onde tudo é possível e válido. O'Shea acrescenta um conjunto robusto de notas ao texto traduzido. Elas ajudam o leitor a entender as passagens mais crípticas da peça. Ele justifica seus procedimentos tradutórios (versos decassílabos e partes em prosa), elenca suas fontes, orienta as interpretações possíveis que o leitor pode fazer. Cabe registrar que essa a quinta empreitada de tradução de Shakespeare de O'Shea (ele já traduziu "Antônio e Cleópatra", "Péricles, príncipe de Tiro", "O Conto do Inverno", "Cimbeline, Rei da Britânia" e "Hamlet"). Preparando-me para escrever esse registro encontrei informações sobre a Folger Shakespeare Library, biblioteca/santuário daqueles que pesquisam sobre Shakespeare. Don O'Shea deve ter se divertido um bocado por lá. A edição inclui uma bela introdução, assinada por Marlene Soares dos Santos. Em tempo: No curto epílogo que encerra a peça os autores perguntam se o conto foi bem contado, se contentou o espectador. Esse leitor, que fechou satisfeito o livro, responderia que sim, lá do escuro do teatro, ainda enfeitiçado. Vale!
Registro #1237 (drama #11)
[início: 26/10/2017 - fim: 31/10/2017]
"Os dois primos nobres", William Shakespeare e John Fletcher, tradução de José Roberto O'Shea, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 15x23 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-7321-560-1 [edição original: The two noble kinsmen (1613-1614) in-quarto 1634; (New York: Simon & Schuster's Washington Square Press) Folger Shakespeare Library, Barbara A. Mowat e Paul Werstine, editors, 1989]