domingo, 22 de julho de 2018

trinity

"Trinity", nome código do teste real ocorrido em 16 de agosto de 1945,  é uma versão em quadrinhos sobre o projeto que culminou na fabricação e explosão da primeira bomba atômica. Trata-se de um trabalho factualmente muito acurado. Jonathan Fetter-Vorm, jovem ilustrador norte-americano, baseou-se em trabalhos acadêmicos, uma dezena de livros sobre a história do projeto Manhattan e nas biografias dos dois principais envolvidos no projeto: o físico Julius Robert Oppenheimer e o general Leslie Groves (para os aficionados, há uma curiosa escultura dos dois em Los Alamos, clica aqui). Metade do livro conta rapidamente sobre os conceitos físicos relacionados a questão técnica de como construir uma bomba, das contribuições daquela brilhante geração de físicos que atuou no final do século XIX e na primeira metade do século XX (Pierre e Marie Curie, Rutherford, Einstein, Bohr, Heisenberg e outros tantos). Fala também da capacidade operacional e logística de Groves, que alcançou fazer com que milhares de pessoas trabalhassem no projeto de construção da bomba em dezenas de lugares diferentes do território americano - sobretudo os cientistas contidos em Los Alamos, no Novo México - sem saberem exatamente o que estavam fazendo, qual a finalidade daquilo tudo. Dizer que o projeto era secreto é quase um eufemismo. A segunda metade do livro é mais acelerada. Dá conta dos sucessos posteriores a primeira explosão experimental da bomba, a escolha dos lugares no Japão onde bombas daquele tipo poderiam ser lançadas (e o foram, em Hiroshima, no 06 de agosto e Nagasaki, no 09 de agosto, de 1945), o recrudescimento da guerra fria e da corrida armamentista, algo sobre os efeitos da radioatividade na saúde humana e sobre as questões éticas envolvidas no projeto. Óbvio, apesar da precisão das informações trata-se de uma graphic novel, de uma abordagem ingênua e sucinta de uma história complexa e cujos desdobramentos em certa medida ainda vivenciamos, pois a possibilidade de extinção da vida humana em decorrência de uma guerra nuclear total é algo tangível, real, desde 1945 até hoje. Mas, para um neófito no assunto iniciar sua jornada de estudos sobre a física dos processos nucleares ou a geopolítica da corrida armamentista não poderia pensar em algo melhor, mais apropriado. Sempre me lembro daquele pequeno fragmento de um documentário sobre Oppenheimer, em que ele fala da experiência de ver a primeira explosão da bomba (clica aqui). Ele usa os ensinamentos que Krishna (avatar de Vishnu, um dos três principais deuses do hinduísmo) dá a Arjuna no Bhagavad Gita para de alguma forma justificar-se (a vaidade nunca deixa de ser a mais curiosa e divertida das características humanas). Bueno. Em tempo: Ganhei esse livro de don Renato Cohen, amigo dos bons. E o li ainda em janeiro, quando estava em São Paulo, mas como resolvi enviá-lo pelos correios junto com tantas outras cousas que trazia de lá (e para não tê-las que carregar no avião) acabei deixando que ele fosse roubado, ai de mim. Não detalho aqui as circunstâncias do roubo reportado pela infame empresa que atende pelo nome de Correios brasileiros pois não quero irritar-me mais do que já me irritei neste ano. Apenas desejo que ela seja fechada, pois não serve nem para privatização, venda. É uma empresa canalha que precisa ser fechada e esquecida o mais rápida e definitivamente possível. Cabe dizer que tempos depois o Renato, sabendo de minha triste sina, mandou-me um novo exemplar. Vale! 
Registro #1297 (hq's, cartuns e mangás #69) 
[início - fim: 07/01/2018]
"Trinity: A história em quadrinhos da primeira bomba atômica", Jonathan Fetter-Vorm, tradução de André Czarnobai, São Paulo: Editora Três Estrelas (Grupo Folha de São Paulo), 1a. edição (2007), brochura 15,5x23 cm., 154 págs., ISBN: 978-85-65339-17-9 [edição original: New York: Farrar, Straus and Giroux / MacMillan Publishers) 2012]

sábado, 21 de julho de 2018

gigante figura

"Gigante figura" é uma narrativa de ficção, mas é também algo que brota de uma história bastante real, a de um sujeito nascido na Itália e que viveu na virada do século XIX para o inicio do século XX, um homem muito alto, de quase 2,40 metros, chamado Ugo Battista. Fabrício Silveira parte da vasta bibliografia sobre Ugo para construir um romance curioso, onde se reconstrói a personalidade de seu gigante protagonista. Seu processo criativo equilibra uma forma quase acadêmica, pois a linguagem é devidamente contida, factual, de frases curtas e objetivas, com um controlado uso de ricas imagens, metáforas e alusões, cousa de alguém bem preparado, apesar deste ser o primeiro livro publicado por Silveira, que é jovem e é gaúcho. Na verdade ele oferece ao leitor em ordem cronológica uma série de instantâneos da vida de Ugo Battista, desde sua infância, em Vinadio, cidade próxima aos Alpes italianos, até sua morte, nos Estados Unidos, em 1916. Por ser um dos homens mais altos de seu tempo Ugo Battista fez carreira apresentando-se em teatros e circos, na Itália, França e América do Norte, eventualmente apenas deixando-se ver, noutras interpretando bizarros papéis em curtos esquetes. Os capítulos curtos dão pistas de sua curiosidade natural, de seu dom para línguas, de sua dolorosa consciência de estar sendo explorado e achincalhado, de sua persona pública, seus truques para encontrar paz de espírio. Ao leitor cabe imaginar aquilo que não é dito, as circunstâncias da mítica figura retratada por Silveira, refletir sobre o contínuo assombro que ele provocava em qualquer lugar. A edição é muito bem cuidada, inclui desenhos assinados por Denny Chang, outro jovem gaúcho. Os desenhos e o texto dialogam entre si, tornam o livro algo único, como se fosse mesmo um livro arte, um livro objeto, algo que admiramos em parte apenas por seu valor estético, pelo bom acabamento daquilo que temos nas mãos. Alias, cabe registrar aqui que só resolvi comprar esse livro por conta da força de um cartaz que vi na Feira do Livro de Santa Maria. Estava eu na fila para alcançar um autógrafo da Hilda Simões Lopes e de uma outra pessoa que estava lá naquele dia, não me lembro mais quem. Pensava também em eventualmente encontrar o  Ronai Rocha, o Noal, o Athos, o Byrata ou outro amigo na Feira. Quando vi o expressivo cartaz de propaganda do "Gigante Figura" resolvi conferir.  Folheei o volume e acabei me interessando pelo assunto, pelo tema.  Assim é a vida. São os livros, por algum mecanismo mágico, cada um a sua vez, que alcançam fazer-se chegar até nós. Pouco importam as listas que fazemos no início dos anos, os projeto de leitura, os conselhos dos amigos. São os diabretes incorporados em cada livro que nos fazem mudar de ideia, abandonar aquilo que nos aborrece, começar uma nova aventura, novas descobertas. Enfim, gostei da proposta do Fabrício (e dos desenhos do Chang). Vamos a ver o que eles vão produzir no futuro. Vale! 
Registro #1296 (romance #342) 
[início: 17/06/2018 - fim: 22/07/2018]
"Gigante figura", Fabrício Silveira, ilustrações de Denny Chang, Porto Alegre: Riacho editora, 1a. edição (2018), brochura 16x23 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-920303-2-2

sexta-feira, 20 de julho de 2018

lira argenta

Nesse poderoso volume estão reunidos poemas de 37 autores, escritos originalmente em 14 línguas e traduzidos por 25 pessoas. Cabe registrar que um trigésimo oitavo autor, Étienne Dolet, também está presente no livro, já que um texto curto dele ("O modo de bem traduzir de uma língua a outra") é utilizado para apresentar o volume, fazendo as vezes de carta de intenções do projeto. Quem assina a edição/organização é o também poeta Vanderley Mendonça. Se há algo a se lamentar neste volume é a falta de indicação de como tal produção foi engendrada e reunida por ele. No cólofon do livro está dito que "a edição reúne as plaquetes impressas e editadas no ateliê do Hussardos Clube Literário, entre 2013 e 2014", mas não consegui encontrar muita informação sobre esse grupo/projeto (o tempo anda ligeiro). Claro, isso é uma bobagem, os poemas se defendem sozinhos. A edição é sempre bilíngue, apresentando lado a lado os poemas nas línguas originais e em português. Encontramos poemas em francês, inglês, catalão, alemão, italiano, latim, espanhol, provençal, friulano, russo, hebraico, romeno, polonês e grego. Os 25 tradutores são Álvaro Faleiros, Augusto de Campos, Claudio Willer, Cide Piquet, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Fernando Klabin, Guilherme Gontijo Flores, Idalia Morejón López, Juliana Di Fiori Pondian, Larissa Peron, Maíra Mendes Galvão, Marcelo Ariel, Matheus Guménin, Monique Maion, Omar Pérez López, Piotr Kilanowski, Reynaldo Damazio, Ricardo Domeneck, Roberto Zular, Ruy Proença, Tatiana Lima Faria, Vanderley Mendonça, Walter Vetor, Willian Zeytounlian. O resultado é muito bom. Claro, não se trata de um livro que o sujeito precise ler respeitando a ordem da edição. No meu caso fui errante, deambulando por eles, primeiro por aqueles dos quais já conhecia alguma coisa (Paul Valéry, Emily Dickinson, Czeskaw Milosz, Wislawa Szymborska, André Breton, Derek Walcott, e.e. cummings, Guido Cavalcanti, Zbigniew Herbert, Vladimir Maikovski, Yehuda Amichai, Paul Celan, Ovídio, Sor Juana Inés de la Cruz, Charles Bukowski, William Faulkner) depois por aqueles de quem mal havia ouvido falar ou, ao menos, não suspeitava terem produzido poesias (Alda Merini, Arthur Cravan, Basil Bunting, Boris Vian, François Rabelais, David Lynch, Denise Levertov, Hans Harp, Meleagro de Gadara, Roberto Juarroz, Vitor Hugo, Mina Loy, Mitos Micleusanu, Maria Mercè Marçal, Heiner Muller, Ingeborg Bachmann, Joan Salvat-Papasseit, Nara Mansur Cao, Peire Vidal, Pier Paolo Pasolini, Robert Desnos). A edição inclui uma brevíssima biografia de cada um dos autores e eventualmente também uma pequena caricatura deles. Quase todos os poemas parecem ter sido vertidos a partir da língua original, mas uns poucos o foram a partir do inglês, num exercício cruzado. Aprende-se um bocado. Esse tem sido mesmo o tempo dos poetas e dos poemas. Nada mais adequado nestes tempos bicudos. Vale! 
Registro #1295 (poesia #97) 
[início: 12/05/2018 - fim: 18/07/2018]
"Lira argenta: Poesia em tradução", Vanderley Mendonça (organizador), São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-66423-34-1

quinta-feira, 19 de julho de 2018

de amor tenho vivivo

Nesse pequeno livro estão reunidos 50 poemas inspirados pelo amor, cousa que a autora deles viveu plenamente, sem amarras, sem pudor, sem afetação. Hilda Hilst sempre estará numa coletânea dos mais importantes poetas brasileiros de todo e qualquer tempo. Esse livrinho dá uma pequena mostra da técnica e capacidade alegórica de Hilda, funciona como uma porta de entrada para seu universo mágico. Os poemas foram produzidos e publicados em um largo período de tempo, os mais antigos em "Presságio", livro seu de 1950, os mais recentes no "Cantares do sem nome e de partidas", de 1995. A edição é caprichada (foi produzida por conta da homenagem que neste ano a FLIP faz a Hilda), oferece ao leitor ilustrações belíssimas de Ana Prata (cousas engendradas a partir de pinturas a óleo, encomendadas e inspiradas nesse projeto, nos poemas reunidos nele). Cada poema guarda uma alegria e uma dor, imagens sempre potentes e um rigor formal qualificado. Como todos poemas de amor já escritos pelos homo sapiens sapiens há lirismo no limite do patético e iras colossais, sanguíneas, coalescidas pela dor. Num curto posfácio se conta algo da agitada biografia de Hilda Hilst e se listam os livros de onde brotaram os 50 poemas nele reunidos: Presságio; Balada de Alzira; Balada do festival; Roteiro do silêncio; Trovas de muito amor para um amado senhor; Ode fragmentária; Trajetória poética do ser; Memória, noviciado da paixão; Da morte. Odes Mínimas; Cantares de perda e predileção; Poemas malditos, gozosos e devotos; Sobre a tua grande face; Amavisse; Do desejo; Da noite; Cantares do sem nome e de partidas. Não é possível que eu leia Hilda Hilst e não lembre da Misa e do Péricles, daqueles dias em que vivíamos todos "drowing in honey, stingless". Estes poemas não foram feitos para serem lidos em dias sombrios. O sujeito leitor precisaria ser obrigado a guardá-los para dias alegres, estivais, plenos. Vale! 
Registro #1294 (poesia #96) 
[início: 12/05/2018 - fim: 16/07/2018]
"De amor tenho vivido: 50 poemas", Hilda Hilst, ilustrações de Ana Prata, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), capa-dura 15,5x20,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-359-3089-4

quarta-feira, 18 de julho de 2018

a gruta de calipso

Em "A gruta de Calipso" Celso Gomes faz uso do mito grego, da história de Calypso, a ninfa do mar que mantém Ulysses por sete anos preso em sua ilha, Ogygia, para contar algo sobre as vicissitudes da vida, do quão enganadora é a ideia de que podemos controlar nossa vida, forjar nosso destino. Jardel, um jovem médico judeu, foge clandestino da Alemanha Nazista em um navio. A primeira terça parte do romance descreve exatamente como Jardel e alguns amigos conseguem a oportunidade de fugir, sobre a ruptura com família, amores e passado que essa fuga implicava. O navio acaba naufragando e Jardel vê-se resgatado em uma vila de pescadores na região de Cabo Frio, no litoral carioca. Logo depois, já recuperado, mesmo ainda mal dominando a língua e os costumes do lugar suas habilidades como médico fazem com que ele auxilie os ilhéus a debelar uma epidemia. Com a entrada do Brasil na guerra, em 1942, Jardel é mantido oficialmente prisioneiro em uma ilha, apesar de ser benquisto pelo comandante daquela região. Os dois terços finais do romance descrevem como Jardel usa sua sabedoria prática para não se aborrecer tanto com as limitações físicas da prisão e a ausência daqueles que ama, sobretudo uma mulher com quem estava comprometido na Alemanha. Ele se envolve com mulheres, participa de um grupo de caçadores de relíquias de navios naufragados, fala sobre literatura e filosofia com um de seus carcereiros, tenta entender algo da sociologia do lugar e das motivações da grande guerra que acontece distante, porém repercute e afeta o cotidiano de todos, também no Brasil. O homem solitário lamenta seu destino, mas é estoico o suficiente para não dar mostras públicas disto. Há uma sabedoria grega no livro, assim como há um bocado de citações literárias, mitológicas, musicais e bíblicas espalhadas por ele. Celso Gomes alcança seduzir o leitor assim como Calypso um dia seduziu Odisseu/Ulysses. Os capítulos finais de "A gruta de Calipso" são como um sonho, uma vertigem, na qual acompanhamos o desfecho dos sucessos de Jardel. Lembrei-me de meu pai, que contava histórias de meu avô, que nunca conheci, José Ildefonso de Paula Severino. Em uma delas ele jactava-se ter cumprido seu dever cívico ao prender um japonês que havia descumprido o toque de recolher noturno ao qual todos os italianos, alemães e japoneses estavam submetidos durante a guerra. As vezes o "prender" da história virava um "esfaquear". Nem meu pai soube exatamente o quanto havia de fantasia e realidade neste ato dele, mas sabendo o quão mercurial ele era, creditava essa e tantas outras histórias como verdadeira. Livro bem interessante esse de Celso Gomes. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1293 (romance #341) 
[início: 29/03/2018 - fim: 02/04/2018]
"A gruta de Calipso", Celso Gomes, Rio de Janeiro: Editora Macabéa, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 284 págs., ISBN: 978-84-66002-09-6

terça-feira, 17 de julho de 2018

un nido de víboras

Esse é o vigésimo-sexto livro da série Montalbano, de Andrea Camilleri. "Un nido de víboras" explora um tema que Camilleri abandonou quando publicou em 2008 seu nono romance da série: "La luna de papel", que é o do incesto. Se naquele volume sobrava apenas a insinuação de uma relação amorosa entre mãe e filho em "Un nido de víboras" toda a trama gravita pelos amores cruzados entre vários membros de uma família. De qualquer forma não é fácil para Montalbano chegar a entender a sequencia factual dos delitos e dos crimes que lhe cabe investigar e, sobretudo, separar o que é público, de ser desvendado, publicizado, constar dos autos do processo e o que é de foro íntimo e, por terrível que seja, deve ser mantido em segredo. Há um longo intervalo temporal entre dois crimes violentos, o afogamento de uma senhora e o assassinato de um pacato advogado de família. Os personagens secundários da série ganham importância aqui. Fazio e Mimi argumentam, enquanto Montalbano parece um Eáco, um Minos, um Radamanto, a julgar serenamente mortos e vivos. A cozinheira Adelina e Sílvia, a eterna amante de Montalbano, continuam se detestando e trocando farpas, mas de suas mútuas intrigas surge o caminho para entender algo dos crimes que esperam solução. Como em uma das comédias de Shakespeare ("Much Ado about Nothing") é um personagem menor e algo obtuso quem de fato resolve os crimes, identifica os culpados. Camilleri sempre faz bom uso da fantasia, dos sonhos, das técnicas do teatro, tanto na criação de cenários quanto no ritmo da narrativa. Agora que estou familiarizado com os romances policiais de Donna Leon, entendo melhor as referências cruzadas sobre as notáveis diferenças entre o povo e a cultura do Norte e do Sul italiano. Brunetti e Montalbano compartilham senso de dever e comportamento ético, mas se utilizam de ferramentas de dedução diferentes, Montalbano é sanguíneo, mercurial, quase dissoluto nos costumes, Brunetti metódico, regrado, introspecto. Já recebi o próximo volume da série, lançado no ínício deste 2018. Logo haverá mais Camilleri por aqui. Vale! 
Registro #1292 (romance policial #72) 
[início: 24/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Um nido de víboras", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 223 págs., ISBN: 978-84-9838-784-1 [edição original: Un covo di vipere (Palermo: Sellerio editore) 2013]

segunda-feira, 16 de julho de 2018

fica comigo esta noite

De Inês pedrosa já tinha lido dois bons romances: "A instrução dos amantes" e "A eternidade e o desejo". Foi há dez anos, ai de mim. Em "Fica comigo esta noite", publicado originalmente em 2003, encontramos 12 contos curtos, sintéticos. Na verdade o volume reúne histórias que já haviam sido publicadas anteriormente em revistas, jornais ou coletâneas, entre 1993 e 2002. São histórias de amores rotos, frustrados, questões de casal, estratégias de sedução que terminam mal, um feminismo real, sem soluções de almanaque, sem rompantes panfletários ou ativismo besta. A edição é brasileira mas o sotaque é totalmente português. Inês Pedrosa constrói imagens belíssimas e toca temas que não perdem contundência ao serem tratados com lirismo, suavidade. Acompanhamos situações típicas de mulheres e homens que vivem neste início de século, porém são únicas e transcendentais para quem as vive: uma mulher que lembra de um homem que amou no passado, mas dele só era satisfatório o sexo; um casal que se separa, abandonando uma casa os dois, mas parece ser ela, a casa, quem mais sente a solidão; um pai que se aproveita de um assalto para entrar em contato com um filho de quem se afastou; um pai lembra da filha que morreu longe, nas torres gêmeas, no 11 de setembro, e chora; uma russa peregrina pela Europa, por Suécia, Espanha, França e Portugal, após o esfacelamento da URSS, fazendo um balanço de sua vida e sonhos; uma mulher vê na filha a repetição de um erro seu do passado, mas como trata-se de uma experiência afetiva de alguém que ama muito, sabe que não pode interferir. Não continuarei aqui o catálogo das 12 histórias, todas elas muito bem escritas e poderosas, encantadoras. Só uma delas foge algo do tom das demais, pois parece um conto de fadas, a descrição do mundo interior de uma criança que está prestes a nascer, sua mãe expulsando-a daquele mundo aquático e morno. Muito interessante. Espero não ficar outros dez anos sem ler Inês Pedrosa. Vale! 
Registro #1291 (contos #150) 
[início: 10/02/2018 - fim: 18/02/2018]
"Fica comigo esta noite", Inês Pedrosa, São Paulo: Editora Planeta do Brasil (Grupo Planeta), 1a. edição (2007), brochura 15,5x23 cm., 159 págs., ISBN: 978-85-7665-259-5 [edição original: Alfragide/Portugal: Publicações Don Quixote) 2003]

domingo, 15 de julho de 2018

a cozinha encantada dos contos de fadas

Comprei um exemplar desse livro e presenteei primeiro a Clara, ainda no final do ano passado, depois comprei outro e deixei para a Raquel, gurias queridas, filhas, respectivamente, da Cássia e da Heloísa. Entretanto, também eu quis ter meu exemplar. Trata-se de um volume que convida o leitor a experimentar a cozinha, emular as receitas que encontramos ao ler as historias de contos de fada. Ao mesmo tempo oferece versões resumidas de cada um dos contos. Katia Canton é uma mulher de muitos talentos. Por conta da Helga conheço algo de seus livros de critica de artes plásticas, seus trabalhos de curadoria, de seus ensaios, mas não sabia desta sua veia de autora de livros dedicados ao público infantojuvenil (descobri agora que é vastíssima essa sua experiência). Em "A cozinha encantada dos contos de fadas" ela oferece uma aventura lúdica, onde versões abreviadas de algumas destas histórias são acompanhadas de receitas. O publico alvo do livro são jovens curiosos por aventura e por gastronomia. São 16 contos de fadas de quatro autores diferentes, os três grandes clássicos: Charles Perrault ("Cinderela", "O Gato de Botas", "Barba Azul", "A Bela Adormecida" e "Pele de Asno"), Irmãos Grimm ("Chapeuzinho Vermelho", "Rapunzel, Branca de Neve", "João e Maria" e "Príncipe Sapo") e Hans Christian Andersen ("Polergazinha", "A Rainha da Neve", "A Princesa e a ervilha", "A pequena vendedora de fósforos" e "O patinho feio") e uma mulher que eu não conhecia, Madame de Villeneuve, a inventora da história "A Bela e a Fera". As 23 receitas que são explicadas num formato visual, em diagramas muito práticos. O livro todo é bem editado, com ilustrações coloridas e uma miríade de detalhes bacanas. É mesmo um livro para ser desfrutado na cozinha, em grupo, nos quais as pessoas envolvidas podem falar das receitas que estão a fazer e das histórias que as inspiraram. A memória afetiva de quem nos leu os primeiros contos de fadas nunca nos abandona e a memória sensorial das primeiras experiências na cozinha também é algo mágico, que nos acompanha vida afora. Vale mesmo dar uma espiada neste livro. Vale! 
Registro #1290 (infanto-juvenil #46) 
[início: 12/06/2018 - fim: 19/07/2018]
"A cozinha encantada dos contos de fadas: 23 receditas cheias de magia e fáceis de fazer", Katia Canton, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 18x27 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-7406-635-6

sábado, 14 de julho de 2018

mac y su contratiempo

Noutro dia falávamos, Marcio Renato dos Santos e eu, sobre Enrique Vila-Matas. Ele dizia que há leitores que o cultuam e há os que o detestam. Disse também que ele havia emprestado vários volumes de Vila-Matas para um jovem amigo que tinha ambição literária, mas que a abandonou (junto com os livros do Marcio, acontece). Já eu disse a ele que havia lido um livro de Vila-Matas ainda em dezembro e não sabia como registrá-lo aqui. Ainda acho que é o tipo de livro que nos encanta porém  também nos rechaça. Preferimos ficar com nossos entendimentos e incertezas mais que as compartilhar com os amigos ou demais leitores. Semana passada, lendo um conto de McEwan, que já registrei aqui, veio-me uma chave desse possível registro. Vila-Matas trata em "Mac y su contratiempo" da vaidade e da inveja, irmãs siamesas da literatura e dos escritores (esse era justamente o tema do conto de McEwan). Vila-Matas advoga também em seu livro que escrever ficção e inventar mundos é um método particular de loucura. Se para James Joyce seu leitor ideal era um insone que dedicasse toda sua vida a decifrar seus livros, para Enrique Vila-Matas o leitor ideal é um esquizofrênico, um sujeito incapaz de distinguir o quê é ou não real, um sujeito que seja capaz de entender um romance tanto ou mais que os narradores, tanto ou mais que o próprio autor. Parece sim ser esse o ensinamento que "Mac y su contratiempo" nos oferece. O leitor é apresentado a reconstrução de um  conjunto de contos (que são, na verdade, episódios ou fragmentos de histórias do próprio Enrique Vila-Matas publicadas no volume "Una casa para siempre", de 1988). Mac, um neófito barcelonês, senhor aposentado que aparentemente vive do dinheiro de sua mulher, Carmem, resolve reescrever um livro antigo e esquecido de um sujeito famoso de seu bairro, chamado Sánchez, um alter ego de Vila-Matas. Mac se metamorfoseia, deixa de ser apenas mais um louco de bar, aquele tipo de sujeito que gasta sua energia criativa e ideias bebendo em bares, e passa a ser o ativo escritor de um diário que se tornará uma nova versão de um livro já publicado, ou seja, se tornará um plagiador, um falsário, mas continuará anônimo. O livro é dividido em capitulos curtos, numerados, superpostos a dois tipos de inserções, denominadas "Puthoroscopo" e "&", esse último o registro dos sonhos amalucados do narrador, Mac, aquele registros ainda mais amalucados, onde se emula um método de Beckett para entender textos alheios (se é que entendi bem "Whoroscope" é o nome do primeiro livro de poemas de Beckett). Os personagens do livro frequentam os bares do Raval e parecem procurar um autor a disposição de fixá-los em uma ficção. Acompanhamos o transe quase tóxico da vida de Mac e dos demais personagens que, afinal, brotaram de um outro livro, aquele de Vila-Matas de 1988. Na primeira metade do livro o narrador resume o que entendeu de "Una casa para siempre" para a seguir reescrever essas histórias como se fossem suas. Ao final Mac parece esgotado, sonhador, viajando (apenas em sua mente talvez), saindo da mesa de seu bar, saindo de seu bairro, do Raval, e vendo-se em Lisboa, Marrocos, Túnez, oriente médio, como se fosse por fim um personagem dos contos das mil e uma noites. Acostumado ao vórtice de citações de Vila-Matas comecei de brincadeira a anotar os nomes que surgiam, como escolhos num rio. Parei na página 50 (das 300 do livro) quando já listava 25: de Barthes a Bowie, de Zambra a Gogol, de Duchamp a Benjamim, de Kubrick a Cervantes, de Diderot a Mallarmé, de Schweblin a Foster Wallace, de Dinensen a Hemingway, de Walser a Nietzsche, dentre outros tantos. É fácil se afogar no mar de referências cruzadas com que Vila-Matas povoa seus livros. Mas, afinal, do que se trata "Mac y su contratiempo"? Da vaidade? Do abismo que é a folha em branco? Do comprometimento que um sujeito tem que ter com sua vida antes de ter com seus projetos literários? Vai saber! Segue o baile. Vale!
Registro #1289 (romance #340) 
[início: 25/11/2017 - fim: 09/12/2018]
"Mac y su contratiempo", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2017), brochura 13,5x23 cm., 303 págs., ISBN: 978-84-322-2988-6