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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

a fada sem cabeça

Acho que já li tudo o que Luís Henrique Pellanda publicou em livro. As crônicas curitibanas dele são imbatíveis, difícil dizer qual de seus livros ("Asa de sereia", "Nós passaremos em branco" e "Detetive à deriva") é melhor. Já registrei aqui a sorte que uma cidade tem quando um bom cronista navega por ela, recolhendo histórias e produzindo pequenos milagres literários, que a eternizarão. Pellanda também já havia publicado alguns contos seus em "O macaco ornamental", seu livro de estreia, de 2009. Nesse "A fada sem cabeça", seu mais recente lançamento, estão reunidos 28 contos, produzidos entre 2010 e 2017, sendo 14 anteriormente publicados em cadernos culturais, jornais ou revistas, 5 publicados em um blog (Asa de sereia) e 9 inéditos. As narrativas quase sempre brotam da memória de um sujeito sobre seus dias de juventude, não exatamente da infância, mas de uma época em que ele era jovem o suficiente para experimentar assombros, vivenciar descobertas marcantes, encantar-se sem medo de ser piegas. Há um clima de contos de fada ou de sonho em todos eles, como se o passado precisasse de uma pátina de fantasia ou ilusão para ser devidamente aceito, entranhado, absorvido pelo sujeito que rememora. Onze dos vinte e quatro contos, um tanto mais curtos, são enfeixados em um sessão dita "Pesadelos possíveis", impressos em folhas azuis, que contrastam com o branco convencional dos demais. Nestes onze a ambientação mágica, de fábula, de faz-de-conta é ainda mais marcante, o leitor viaja para longe, para seu passado de criança, quando ainda ouvia e lia contos de fada e se encantava com as invenções. Nunca é tarde para voltar a ser criança e entender das coisas metaforicamente, sem barreiras intelectuais. Claro, há um travo amargo em todas as histórias, que carregam um fracasso, uma derrota, um pequeno horror, talvez uma negação. Nada finalizador, incontornável, definitivo, mas que nos faz lembrar do poder do acaso na vida, de uma eventual estagnação de nossas vontades, dos caminhos de infinitas bifurcações que trilhamos todos nós, cegos sendo guiados por cegos. Ojo. Grande escritor esse Pellanda. Vamos a ver o que ele inventará a seguir. Vale! 
Registro #1332 (contos #155) 
[início 11/09/2018 - fim: 15/09/2018] 
"A fada sem cabeça, Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago Editorial, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-5450-014-6

domingo, 21 de agosto de 2016

detetive à deriva

Foi o Galindo quem primeiro me falou do Pellanda, dizendo ser ele o bom cronista de sua Curitiba. Procurei por aí e fui garimpando o ouro fino que ele publica (encontrei primeiro o "Nós passaremos em branco", depois "O macaco ornamental" e por fim o "Asas de sereia"). "Detetive à deriva" foi lançado há poucas semanas. Reúne 68 crônicas, quase todas publicadas originalmente no jornal Gazeta do Povo. São crônicas recentes, de 2015, 2014 e 2013. O leitor não precisa ler muitas delas para se enredar nos feitiços do cronista e passar a acompanhar seu olhar e argumentos. Pellanda sabe controlar bem aquela ambiguidade típica das boas crônicas, onde pouco importa a veracidade ou exageros do registro, antes sim a qualidade do narrado, as imagens, alegorias e símiles que o artífice cria. Ele é um sujeito de hábitos, sempre o fiel camareiro de quem trabalha com prazos. Suas crônicas respondem a estímulos, poderiam ser organizadas em séries: há aquilo que se vê do terraço de seu apartamento, na parte central de Curitiba; há os sucessos das caminhadas com a filha pelas ruas, quando a leva para a escola; há o curioso que interage com as esfinges urbanas, os bêbados, drogados, loucos, notívagos e desesperados da cidade; há o escritor que reflete sobre a natureza de seu ofício, seus truques, influências, limites; há o sujeito que herdou uma sutil consciência ecológica, que o faz olhar sempre para árvores, animais ou pássaros; e, mais raramente, há o turista que viaja ou passa férias nas praias de Guaratuba, seja inverno ou verão. Ainda vamos descobrir que o Pellanda é um bruxo da Ébano Pereira que tem alma de poeta, e dos bons.
[início: 11/08/2016 - fim: 19/08/2016]
"Detetive à deriva", Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago editorial (coleção 'A arte da crônica'), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-60171-76-7

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

asa de sereia

Pouco conheço de Curitiba, cidade onde tenho poucos mas bons amigos (que raramente visito, ai de mim). De uns tempos para cá Curitiba parece ter se impregnado um tanto em minha memória afetiva. Não por conta de minhas lembranças dos passeios que lá fiz com estes amigos, ou mesmo de quando fui lá a trabalho ou para algum evento acadêmico, mas sim por coisas que li de Luís Henrique Pellanda. Ele narra tão vividamente sua Curitiba nas 45 crônicas reunidas em "Asa de sereia" que nos familiarizamos com ela. Incrível. Dois terços das histórias haviam sido produzidas para um site que foi desativado (o Vida Breve), um terço em jornais e revistas. São coisas recentes, quase tudo foi publicado em 2012 e 2013. Pellanda domina tão completamente a arte da crônica que já nas primeiras linhas de cada história começamos a pensar sobre o que virá a seguir, com um sorriso ansioso nos lábios. O narrador das histórias é um flâneur antes que um voyeur, um flâneur que vagabundeia pela cidade, quase sempre sem pressa para compromissos ou responsabilidades e que se deixa arrebatar pela vida. Em geral seu olhar foca nos habitantes que parecem ter sido deserdados pela cidade (e por isso mesmo são aqueles que mais zelam dela, de suas tradições, de seus ritos e costumes, como se fossem os fiéis camareiros de uma senhora antiga, aqueles que congelam o tempo, por hábito). Pellanda é um bom frasista, um bom aforista. Em uma ou outra história há uns surrealismos (árvores, aranhas e outros bichos que falam e que sentem), mas nada que esconda o entendimento do mundo contemporâneo que ele descreve. Há vezes em que do nada brota algo que associamos ao Shakespeare, ao Sterne, ao Pamuk, ao Drummond, (uns mimos eruditos que alegram o bom leitor). Há vezes em que todo o sarcasmo que já encontramos em seu "Nós passaremos em branco", naquela sua antologia dos demônios curitibanos, parece dominar as histórias. É certo. Sorte da cidade que conta com um cronista assim.
[início: 30/12/2013 - fim: 06/01/2014]
"Asa de sereia", Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago editorial, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-69171-53-8

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

as melhores entrevistas do rascunho 2

Não li o primeiro volume de entrevistas do bom jornal Rascunho de Curitiba, mas este segundo volume estava à mão e fiz por bem experimentar. São quinze entrevistas curtas, numa antologia organizada por Luís Henrique Pellanda (de quem já li dois bons livros: O macaco ornamental, de contos, e Nós passaremos em branco, de crônicas). Pellanda faz um bom trabalho de seleção, pois o grupo de entrevistados é bem heterogêneo: há dois octagenários (Ariano Suassuna e Carlos Heitor Cony), três na casa de seus setenta e cinco (Affonso Romano de Sant'Anna, Silviano Santiago e Vilma Arêas), três na de seus sessenta (Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito e Ruy Castro); seis na travessia dos quarenta para os cinquenta anos (Adriana Lunardi, Joca Reiners Terron, Marçal aquino, Miguel Sanches Neto,  Rodrigo Lacerda e Sérgio Rodrigues) e um, Marcelo Backes, com menos de quarenta anos. Não é só a idade que os diferencia, também a ambição dos projetos literários (há quem publicou muito e há os mais parcimoniosos - o que não deixa de ser uma outra forma de ambição); a visibilidade na imprensa e o reconhecimento por público e crítica (alguns são premiados ou já alcançam exposição midiática, outros são mais discretos ou fazem questão disto); o relacionamento com a academia (alguns são também teóricos do ofício literário, professores, outros avessos à ela). Não são registros seminais, extensos ou definitivos, mas uma boa fonte de informações sobre o que pensam quinze bons representantes da literatura brasileira contemporânea sobre o ofício de escrever, sobre o combate diário deles com a palavra escrita. Como em toda antologia são as idiossincrasias do leitor que definem o valor do que é apresentado. Para meu gosto achei sofríveis os registros de Ariano Suassuna e Rodrigo Lacerda, ingênuo o de Adriana Lunardi; maluco demais o de Raimundo Carneiro; além de previsíveis e enfadonhos os de Ruy Castro e Affonso Sant'Anna, Por outro lado surpreendi-me com a erudição de Marcelo Backes; a segurança e entendimento de dois escritores de gerações bem diferentes (Joca Reiners Terron e Silviano Santiago); o comprometimento com o trabalho de Sanches Neto e Correia de Brito (apesar de pertencerem a polos opostos de humor); e as boas ponderações dos demais (Heitor Cony, Marçal Aquino, Sérgio Rodrigues, Vilma Arêas). O volume inclui curtas biografias de cada escritor e entrevistadores, além de um bom índice de nomes e obras, que ajudam o leitor a navegar pelo livro. Enfim, para um sujeito como eu, que não leio literatura brasileira com a regularidade necessária e, confesso, desconheço a obra da grande maioria dos entrevistados, há valor neste livro. Aprendi mesmo um bocado. 
[início 20/11/2012 - fim 25/11/2012] 
"As melhores entrevistas do Rascunho (vol.2)", Luís Henrique Pellanda (org.), com Adriana Lunardi, Affonso Romano de Sant'Anna, Ariano Suassuna, Carlos Heitor Cony, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Marcelo Backes, Miguel Sanches Neto, Raimundo Carrero, Rodrigo Lacerda, Ronaldo Correia de Brito, Ruy Castro, Sérgio Rodrigues, Silviano Santiago e Vilma ArêasPorto Alegre: Arquipélago editorial, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 287 pág. ISBN: 978-85-60171-25-5 [edição original: Jornal Rascunho (Curitiba - PR), 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2009, 2010, 2011, 2012]

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

o macaco ornamental

Entusiasmado com o bom livro de crônicas "Nós passaremos em branco", de Luís Henrique Pellanda, resolvi procurar outras coisas dele. Encontrei esse "O macaco ornamental", publicado em 2009, onde estão reunidos 13 contos e um microconto. São histórias nas quais um narrador não-nominado quase sempre se dirige diretamente ao leitor, como se as histórias fossem cartas, testemunhos, conversas de bar, registros de uma impressão particular, de um entendimento específico das coisas que esse narrador experimentou e viveu. Várias histórias parecem fixar aventuras e loucuras de carnaval, lembranças alcoólicas da primeira juventude ou adolescência. Há uma violência surda e contida nelas, até naquelas que são mais líricas. Gostei mais das longas. Em "Caldônia Beach" um sujeito procura uma garota que serviu de modelo vivo para ele quando era ainda eram ambos muito jovens; em "Chaleira" acompanhamos os sucessos de uma noite de bebedeira e conversas amalucadas vividas por um rapaz; em "Duas cartas" Pellanda destrincha os eventuais porquês de um suicídio. Mas as histórias curtas também têm seu valor. Alguns dos contos são muito inventivos, como a biografia de "São Menécio", o encontro especular dos fantasmas de "Amigo vivo, amigo morto" ou o turbilhão de mentiras de "Ursa". Luís Pellanda é mesmo um bom observador e sabe encontrar o registro certo para cada história que oferece ao leitor. Vamos a ver se encontro mais alguma outra cousa dele no futuro. [início 14/10/2011 - fim 17/10/2011] 

"O macaco ornamental", Luís Henrique Pellanda, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2009), brochura 13,5x21 cm, 192 págs. ISBN: 978-85-286-1405-3

terça-feira, 27 de setembro de 2011

nós passaremos em branco

Foi don Caetano Galindo, o varão industrioso, tradutor do Ulysses, quem me alertou pela primeira vez sobre Luís Pellanda, citando-o como um dos bons escritores de Curitiba, durante un censo literário rápido que fizemos aqui durante o Bloomsday Santa Maria. Assim, quando encontrei por acaso esse "Nós passaremos em branco", não tive dúvidas em comprá-lo. Nele encontramos crônicas ambientadas em Curitiba. São crônicas recentes, de 2010 e 2011. Pellanda inclui um mapa do centro da cidade para ajudar o leitor não familiarizado com a cidade a acompanhá-lo nas histórias. Fiquei surpreendido mesmo com esse sujeito. Ele faz o censo das tribos urbanas de sua cidade, sabe manter alguma tensão, contar causos, inventar alguns e ao mesmo tempo acrescentar lirismo às narrativas. As histórias são muito bem escritas, Pellanda um bom observador. A cidade e seus habitantes (algo emblemáticos, claro, como se deve fazer em crônicas de jornal) aparecem vívidos. Nada é piegas ou artificial (e é fácil encontrar crônicas que se arrastam em sentimentalismos bobos, obviedades, platitudes e lugares-comuns). Em geral ele fala de suas caminhadas e pausas em bares e restaurantes, mas há também reflexões sobre filmes, um zoológico, um circo. Às vezes ele está sozinho, noutras com uma criança no colo, como se precisasse de uma testemunha, um interlocutor. Ele mescla acontecimentos recentes e lembranças de juventude com muita competência e tino. O rio de sua cidade, o rio Ivo, torna-se um Lete às avessas, pois as memórias de Pellanda parecem brotar dele, mesmo escondido, canalizado, sobre a rua Vicente Machado. Quando o leitor termina o conjunto das vinte e nove crônicas (e se lamenta por não ter mais algumas para ler), eis que ele nos oferece um conjunto do que ele chama de antologia dos demônios curitibanos. São oito divertidas histórias, perfis biográficos, contos infernais, escritas num tom que tem algo de solene, eclesiástico, mas é sarcástico como há tempos não lia num sujeito (que é jovem, mas domina um vocabulário e um estilo que denunciam disciplina nas leituras e cultura refinada). Deu-me até vontade de reler meu Dante, surrado e velho de guerra. Quem disse que há inveja boa não entende nada da alma humana. Invejo a sorte de Curitiba em contar com um cronista desse calibre. [início 18/09/2011 - fim 21/09/2011]
"Nós passaremos em branco", Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago editorial, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 192 págs. ISBN: 978-85-60171-19-4