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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

você nunca chegará a nada

Dos muitos livros que tenho de Juan Benet só li Otoño en Madrid hacia 1950 e Trece fábulas y media y fábula decimocuarta. "Você nunca chegará a nada" é seu primeiro livro e foi publicado originalmente em 1961. São contos, quatro deles, mas são cousas densas e poderosas, que cobram tempo e atenção do leitor. Talvez os truques literários, o tom e as preocupações com o estilo (notadamente inspirados em Faulkner, se nota), ainda não explicitam o quão habilidoso Juan Benet tornar-se-ia, mas é o tipo de livro que faz a festa para o leitor exigente. No primeiro conto, que dá nome ao volume, "Você nunca chegará a nada", acompanhamos as andanças de quatro amigos espanhóis pela Europa, nos anos 1950, viagens de aprendizado e de espantos, de descobertas (sobretudo do provincianismo individual e coletivo, espanhol) e de reflexões. Nos três contos seguintes: 'Baalbec, uma mancha", "Luto" e "Depois", Benet situa suas histórias em uma região remota do interior profundo espanhol, uma região que ele inventa e chamará e evocará em muitos outros de seus livros, como Región (uma espécie de Yoknapatawpha faulkneriana, Macondo, de García Márquez ou Santa María, de Onetti). "Baalbec, uma mancha" trata da viagem que um velho senhor faz a uma pequena e degradada cidade (perto de Región) em que viveu na infância, para dar uma espécie de consultoria sobre uma questão fundiária (e ser confrontado com uma espécie de dívida), para um sujeito que comprou as terras que no passado foram de seu avô e demais parentes; "Luto" conta sobre as razões do hábito de um velho senhor de depositar flores no túmulo de uma mulher com quem pretendia se casar, mas que preferiu cuidar de uma tia amalucada e morreu ainda jovem; Em "Depois" os sucessos gravitam a morte de um velho senhor e da sucessão de seus negócios, que passam a ser administrados por um filho, também já idoso, e que vive encerrado em uma casa afastada. Não são histórias que se deixam ler sem esforço. Nelas, repetidas vezes ficamos sem saber quem está contando os fatos, de quem se fala, se trata-se de realidade ou sonho, memória ou desejo. Nos quatro contos sobressaem-se a decadência (física ou moral), os segredos (públicos ou privados), a memória (sempre cúmplice e traiçoeira), a sensação que já se viveu suficientes privações, mentiras ou contínuo autoengano. Vamos a ver se eu enfrento as grandes magnum opus de Benet: Volverás a Región, La otra casa de Mazón e Saúl ante Samuel. A ver. Sigamos o baile macabro. Vale!
Registro #1590 (contos #184)
[início: 09/06/2020 - fim: 30/10/2020] 
"Você nunca chegará a nada", Juan Benet, tradução de Maria Alzira Brum Lemos, Rio de Janeiro: Editora José, 1a. edição (2008, brochura 10x14, 250 págs, ISBN: 978-85-03-00906-5 [edição original: Nunca llegarás a nada (Madrid: Ediciones Tebas) 1961]

sábado, 7 de novembro de 2020

dias e noites

Toni Araújo é de Salvador e, até onde sei, "Dias e noites" é seu primeiro livro. Ele chama de histórias de vida e morte as 27 narrativas enfeixadas no livro. Vou registrá-las aqui como contos. Nas histórias o leitor é levado a confrontar episódios onde quem domina o destino é  a morte, quem reina sobre os viventes são as perdas ou as misérias do cotidiano contemporâneo. Algumas parecem fábulas urbanas, tentativas de contar como somente aceitamos a realidade envolvendo-a em algo de mitologia, de fantasia, de magia. Os livros (ou o amor aos livros) sempre aparecem nelas, assim como sempre surgem a tecnologia (a escravidão digital), a ironia, os medos e os espantos dos homens. Gostei bastante de "Suavidade" em que acompanhamos os últimos momentos de um sujeito inebriado pela morfina, em um hospital; de "Despertar", onde um sujeito procura inspiração literária em um bar e acaba experimentando um surto psicótico; de "Natureza", onde um funcionário exemplar passa por uma metamorfose, após sofrer um AVC; de "Cruz", onde pai e filho vivem uma rotina melancólica e musical. Cito apenas essas quatro por preguiça, pois não quero aqui roubar do leitor a chave de todas as histórias, sempre curtas e interessantes. Vamos a ver o que nos apresentará Toni Araújo no futuro. Vale!
Registro #1586 (contos #183)
[início: 26/10/2020 - fim: 27/10/2020]
"Dias e noites: histórias de vidas e mortes", Toni Araújo, Salvador: República Af, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 188 págs., ISBN: 978-65-80229-01-7

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

estudo sobre a carne humana

De Deonísio da Silva, respeitado escritor, professor e filólogo, só conhecia o bom livro de referência "De onde vem as palavras", que partilha espaço em minha biblioteca com os Houaiss e os Aurélios, o Oxford e o Cambridge, os Câmara Cascudo e um punhado de outros mais. Semanas atrás, ouvi uma transmissão do "Universidade aberta", mantido pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre e coordenado pelo professor Sergius Gonzaga, no qual o Deonísio da Silva era o entrevistado. Aprendi um bocado, sobre sua vida, carreira acadêmica e produção literária. Descobri que o sujeito já publicou mais de trinta volumes, entre romances, contos e ensaios (e que já foi várias vezes premiado). Curioso, procurei alguns livros, e resolvi começar pelo mais antigo que encontrei. Em "Estudo sobre a carne humana", de 1975, estão reunidos quatorze contos curtos. Neles transparece um fino leitor de tipos humanos, alguém que sabe incluir nas narrativas, sem sufocá-las, passagens das mitologias, histórias bíblicas, alguma etimologia, curiosos registros de linguagem popular e, sobretudo, o clima tenso e hipócrita dos tempos repressores da ditadura militar. Ele parece navegar por um mar de censores, cuidando o tom, mas sem comprometer as verdades de suas histórias. Há também muito humor nas histórias, que se passam tanto no mundo urbano, citadino, quanto no mundo do campo, periférico, das pequenas cidades. Os temas dos contos são variados. Alguns flertam com causos ou lendas urbanas (a do americano que ao fazer uma pesquisa médica no campo é visto como um vampiro no imaginário do povo, a do destino do dinheiro talvez escondido por um fazendeiro de origem italiana, a do médico inepto que por acaso descobre uma doença real em um paciente, a do diplomata que faz parecer que sabe muito sobre o mundo das mulheres, a do amigo estudante que volta de Paris e conta histórias em um bar, a de uma velha senhora que morre queimada, a de um bastardo "alemão" do norte brasileiro que se entrega a bebida). Outros contos tratam do ambiente escolar, tanto das seculares quanto das confessionais (são onde o sarcasmo domina a narrativa, demonstrando como a experiência pessoal pode se metamorfosear em literatura sem ofender ninguém). Como já registrei acima, o que se destaca em todos os contos é a capacidade de criar personagens (além de provocar o leitor com deliciosos jogos verbais). Lembrei muito do Elias Canetti, de um livro dele onde são apresentados perfis de pessoas, associados a suas características físicas ("O Todo ouvidos"), que li há décadas. É isso, vamos seguir em nosso baile macabro de pandemia. Vale!
Registro #1564 (contos #182)
[início: 13/08/2020 - fim: 18/08/2020]
"Estudo sobre a carne humana", Deonísio da Silva, Curitiba: Editora Hoje, 1a. edição (1975), brochura 12x19,5 cm, 83 págs., sem ISBN

domingo, 30 de agosto de 2020

vidas imaginarias

Sobre Marcel Schwob li boas recomendações em textos de Borges e Sebald, de Vila-Matas e Bolaños, de Javier Marías e outros tantos, mas foi o industrioso José Francisco Botelho quem convenceu-me a de fato procurar algo dele. "Vidas imaginarias" é de 1896. Schwob tem uma biografia de lenda, viajou muito, leu muito e sofreu muito, mas isso um leitor curioso deve procurar por aí, sozinho, no mar piscoso e infinito  de informações recolhidas neste curioso século XXI. São vinte e dois contos, que flertam com um mundo de sonho, fantástico, que brotam de uma rara erudição, de uma imaginação dos diabos. Num bom prólogo, assinado por ele mesmo, Schwob nos ensina que muitos biógrafos, talvez por se imaginarem historiadores, se furtaram de escrever retratos verdadeiramente admiráveis por ficarem intoxicados com a vida de grandes artistas, autores, escritores, esquecendo-se que o verdadeiro engenho da arte deve ser dedicado a descrever o caráter belo e único que todas as personas possuem, tanto as ditas divinas, quanto as de famosos e medíocres ou, até mesmo, as de criminosos. Sob este estatuto Schwob escreve seus contos. As histórias incluídas em "Vidas imaginadas" reinventam momentos de epifania, singulares, expressivos das vidas de vinte e dois homo sapiens, alguns cujos nomes podem até ser conhecidos de um leitor experiente (o poeta Lucrécio, o escritor Petrônio, o pintor Uccello, a princesa indígena Pocahontas, o capitão pirata Kid), mas isso não é realmente importante. Acontece que, assim como para estes cinco que citei (e outros leitores citariam outros tantos), todo o conjunto de vidas imaginadas por Schwob, num vai e vem entre ficção e realidade é escrito com a mesma exuberância, seja a de uns santos mártires ou hereges, de prostitutas e matronas romanas, de juízes e cartomantes, de indivíduos que se imaginavam possuídos por deuses, de piratas menos conhecidos ou de assassinos seriais ingleses. Todos parecem renascer como personagens inventados, acrescidos em suas biografias, em suas vidas vividas, de uma pátina vistosa e mágica. Haverá mais Schwob por aqui em breve. Vale! 
Registro #1560 (contos #181) 
[início: 20/07/2020 - fim: 25/07/2020]
"Vidas imaginarias", Marcel Schwob, tradução de Jorge González Batlle, ilustrações de Elena Ferrándiz, Barcelona: Thule Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 14,5x22 cm, 159 págs. ISBN: 978-84-16817-33-7

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

aranhas

De Carlos Henrique Schroeder já li os bons romances "História da chuva", de 2015, e "As fantasias eletivas", de 2014. "Aranhas" é seu volume mais recente. Trata-se de uma reunião de trinta e dois contos: dois terços narrativas bem curtas e um terço de contos comparativamente bem mais longos. No último conto, Armadeira (Phoneutria nigriventer), ecos de boa parte das trinta e uma histórias anteriores são evocados, reunindo os protagonistas delas em uma espécie de jogo, um jogo macabro, fantástico, de sonho. A exemplo deste último, cada conto recebe como título o nome de uma aranha. O leitor é informado que as histórias surgiram em meio a pesadelos associados a duas pinturas de  Odilon Redon, pintor e gravador francês, seminal mestre simbolista (as duas pinturas podem ser conferidas aqui: clika1 e clika2). Todavia, como sempre na boa literatura, sempre é bom enfatizar, não se sabe se as imagens da aranha triste ou da sorridente de Redon impressionaram o autor Schroeder ou apenas o narrador de suas histórias. As histórias gravitam temas fortes ou violentos: a hipocrisia; as relações de poder; os relacionamentos tóxicos; a tensão sexual entre indivíduos que vivem próximos; a memória de acontecimentos da infância que aflora e perturba adultos; a doença e a morte. Por vezes o narrador das histórias conversa com o leitor, confessando certas indecisões e justificando as guinadas abruptas delas (talvez haja um excesso de mortes - mas, claro, estamos no mundo das aranhas, muitas delas venenosas - entretanto estas mortes parecem saídas fáceis para as histórias, desfechos de ocasião). Gostei particularmente de algumas, aquelas em que se sobressaem um registro particular de linguagem (gírias ou língua cifrada de certas tribos urbanas) ou encontramos elaboradas descrições de ofícios e atos do cotidiano. Em todos os contos mais longos Schroeder alcança mostrar seu arsenal estético, para deleite do leitor, já nos contos curtos nem sempre isso acontece, parecem que ficam a dever algo (ao menos para esse menor dos anões dentre os leitores). Enfim, bom livro de um bom escritor. É hora de seguir em frente. Vale!
Registro #1558 (contos #180)
[início: 06/07/2020 - fim: 09/07/2020]
"Aranhas", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2020), brochura 14x21cm, 189 pág. ISBN: 978-85-01-11850-9

sexta-feira, 26 de junho de 2020

trece fábulas y media y fábula decimocuarta

Neste pequeno volume encontramos curtas fábulas sem moral, fábulas para gente grande, fábulas que antes provocam reflexão e não se limitam a uma única interpretação. O que está em jogo sempre é o comportamento humano; nossa capacidade de produzir maravilhas e misérias; a realidade de coabitarem em nossa psique, de ocuparem nosso corpo, tanto a dignidade quanto a impostura. Somos sim, maldita gente má. Há sempre um fragmento de frase destacado nas quatorze histórias que compõe o livro. Este fragmento ilumina aquilo que será brevemente desenvolvido nelas, assim como as colagens reproduzidas em preto e branco, assinadas por Emma Cohen (uma conhecida atriz espanhola, já morta). Como em um exercício de psicanálise, o impacto das curtas histórias provocam o leitor a interpretar ou a revelar algo de si naqueles bizarros acontecimentos. Os protagonistas de Juan Benet vivem vários dos conflitos típicos dos homo sapiens: são personagens que delegam à terceiros o seu destino; vivem de aparência e hipocrisia; se iludem com afazeres ridículos, insignificantes; esperam o acaso, e também o nada; flertam com a morte, escravos de desejos e sua ambição; são hedonistas e fracos. Algumas das fábulas têm inspiração bíblica (como a história de Abraão e Isaac, invertida, transformada em uma quase piada íidiche) ou brotam das histórias das mil e uma noites (uma releitura do encontro em Samarra, genial). Se há um personagem que paira sobre todas elas este é a morte, mas Benet sempre zomba dela e de sua onipotência. Enfim, trata-se de um pequeno livro cheio de inspiração e virtuosismo. Lembrei, a ler velhas anotações que havia feito no volume, que este foi um presente de don Manuel Vázquez, em 1998, quando a vida parecia mais fácil, sem limites. Que saudades de don Manolo, grande Manolo, e que grande autor é don Juan Benet, por supuesto!. Vale! 
Registro #1546 (contos #179) 
[início - fim: 02/06/2020]
"Trece fábulas y media y Fábula decimocuarta", Juan Benet, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (1998), brochura 15x24 cm, 125 págs. ISBN: 84-204-8375-3

terça-feira, 23 de junho de 2020

não está mais aqui quem falou

Nunca havia lido nada de Noemi Jaffe. Gostei de alguns comentários dela no bom podcast "De modo geral" e resolvi experimentar. Esse volume, "Não está mais aqui quem falou", foi publicado em 2017. São quarenta contos ou crônicas curtas quase todas, narrativas curtíssimas, verdadeiros aforismos. Alguns trechos das histórias parecem terem sido capturados de um fluxo, partes de um discurso que começou antes e talvez continue em outro lugar, mas resta ali grafado na forma como o leitor encontra. Os temas são muito variados e há um jogo, que flerta com a dúvida, com a verossimilhança, com a verdade última das coisas (brincando com a ideia de verdade e não verdade). Em algum momento parece que Jaffe tenta emular o Flaubert de Bouvard e Pécuchet, em textos de uma curiosidade esdrúxula (como ela mesma define em algum lugar), associações selvagens (que escondem uma cultura vasta), propostas de jogos verbais, catálogo de palavras. Lembrei coisas que li da Lydia Davis, do David Sedaris, da Patti Smith, do Sam Sheppard e do Caetano Galindo (cada um parecendo espoucar em um texto ou outro). Há histórias etimológicas, sobre a origem das palavras, dos lugares comuns, das frases feitas, das mutações dos conceitos e ideias, espantos com histórias das línguas e da tradução. Outras são releituras de mitos, de passagens bíblicas. Gostei muito de uma história sobre Rubem Braga, outra sobre Primo Levi, outra ainda sobre Manuel Bandeira e Beckett, as reflexões sobre a velhice, beleza, hospitalidade, solidariedade. Ojo!, é o caso de procurar mais coisas desta notável escritora. Vale! 
Registro #1545 (contos #178) 
[início: 08/06/2020 - fim: 10/06/2020] 
"Não está mais aqui quem falou", Noemi Jaffe, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-359-2948-5

quarta-feira, 20 de maio de 2020

anjo noturno

Há poucos dias morreu Sérgio Sant'Anna, escritor carioca bastante premiado e respeitado. A comoção nas redes sociais foi geral. Muitos amigos queridos publicaram registros necrológicos dele, reputando-o como um dos maiores escritores brasileiros de sua geração. Pois eu, sempre vaidoso em dizer que já li de tudo e mais um pouco, dei-me conta que nunca li Sérgio Sant'Anna, nada mesmo, ai de mim (a vaidade é o mais tolo dos vícios). Procurei nos guardados e garimpei alguns livros dele (sou um fiel discípulo de Richard de Bury e em casa guardo mais livros que viverei para um dia ler, ou tampouco reler, paciência). Resolvi ler o primeiro deles que encontrei, "Anjo noturno", publicado em 2017. São nove narrativas, realmente muito interessantes. As duas primeiras, "Augusta" e "Um conto límpido e obscuro", são contos curtos, que exploram estágios opostos da cumplicidade e tensão sexual que sempre existe entre homens e mulheres, no segundo a de quem se conhece muito bem e sublima o sexo, enquanto no primeiro a do casal que mal se conhece mas percebe a mútua atração de seus corpos. "Talk show" é uma divertida confissão de um sujeito que cai na armadilha da necessidade e comparece a um grotesco programa de entrevistas. Os dois seguintes, "A mãe" e "A rua e a casa", são distintos na forma (cabe dizer que todos os contos/narrativas deste volume são bem inventivos e diferentes entre si), porém parecem tratar de um mesmo sujeito em duas situações distintas: primeiro conta o que sabe sobre sua mãe e termina fazendo o censo das mortes de sua família, no segundo conta o cotidiano carioca dos anos 1940/50 (num feliz experimento de construção de uma narrativa em segunda pessoa). "Amigos" é um resumo sentimental de um Brasil que faliu em sua potência (como todos os brasis passados e futuros faliram e falirão inapelavelmente), aquele Brasil do período que vai da segunda eleição de Getúlio Vargas para a presidência e o golpe de 1968 dentro do golpe militar de 1964. "História de um pensamento" é uma epifania, a tentativa de explicar a fugacidade de um pensamento que se desprende de um corpo. "Uma peça sem nome" é um drama é cinco atos curtos, que lembra a ambientação de "A comilança", aquele filme de Marco Ferreri, dos anos 1970, em que se satiriza uma sociedade decadente (não consigo imaginar uma cidade brasileira prestar-se a isso tão bem quanto o Rio de Janeiro contemporâneo). A última das nove narrativas é "O conto fracassado", uma exuberante demonstração de como se dá o processo criativo, a construção ficcional, o ofício do escritor, no qual o autor parece retomar vários dos temas explorados nas oito histórias anteriores, como se fossem escolhos em um rio que se cruzou. Enfim, Sérgio Sant'Anna nos ensina, neste pequeno e potente livro, que não há assunto ou conceito que não possa ser plasmado em prosa, desde que o autor tenha destreza e tino adequados. Haverá mais Sant'Anna por aqui. Vale! 
Registro #1531 (contos #177) 
[início: 10/05/2020 - fim: 14/05/2020]
"Anjo noturno: narrativas", Sérgio Sant'Anna, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-359-2972-0

terça-feira, 19 de maio de 2020

cem encontros ilustrados

Neste seu "Cem encontros ilustrados" Dirce Waltrick do Amarante oferece ao leitor 18 curtíssimos contos disparatados, satíricos, exercícios de literatura nonsense. Trata-se de uma fórmula, onde sempre uma narradora inominada conta um episódio engraçado de seus encontros com escritores, intelectuais e artistas plásticos (Esopo, Céline, Poe, Sylvia Plath, Lucia Joyce, Yves Klein, Kafka, Raymond Rossel e outros tantos). Lembra algo que li há décadas, os contos reunidos em "Gog", de Giovanni Papini, mas em numa versão demasiadamente debochada. Os contos refletem bom conhecimento sobre a biografia e obra dos sujeitos com quem a narradora dialoga, mas são cansativos. Lemos dois ou três contos com um sorriso, mas logo a repetição nos faz abandonar o livro, tudo parece artificial demais, forçado demais. O livro inclui também cinco crônicas biográficas da autora, Dirce do Amarante, onde ela anota duas ideias para esquetes teatrais, conta sucessos de seu envolvimento com a obra de Lewis Carrol e o Bloomsday, festa literária dedicada ao Ulysses de James Joyce e registra um insight que a faz associar sua casa a um quadro de Edward Hopper. Vale! 
Registro #1530 (contos #176) 
[início - fim: 15/03/2020]
"Cem encontros ilustrados", Dirce Waltrick do Amarante, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2020), brochura 13,5x20,5 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7321-623-3

domingo, 3 de maio de 2020

uma antologia bêbada

Nesse volume estão reunidas 17 narrativas produzidas em homenagem a um tradicional bar paulista, a Mercearia São Pedro, fundada no início dos anos 1970. Publicado em 2004 e organizado por Joca Reiners Terron, "Uma antologia bêbada: fábulas da mercearia" tem histórias assinadas por Andréa del Fuego, André Sant'Anna, Antonio Prata, Bruno Zeni, Chico Mattoso, Clara Averbuck, Índigo, Ivana Arruda Leite, Joca Reiners Terron, José Alberto Bombig, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Matthew Shirts, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Ronaldo Bressane e Xico Sá. Nem todos eram exatamente conhecidos como escritores em 2004 (talvez só os mais vividos deste grupo: a Ivana, o Reinaldo e o Matthew, mas eu não conheço bem as 17 múltiplas biografias para pontificar aqui). Já, hoje, pode-se dizer que todos eles têm uma carreira literária respeitável (na medida em que isso é possível em um país desgraçado como o Brasil). Com a exceção do conto de Reinaldo Moraes, bem mais longo (e onde ele faz uma espécie de censo de frequentadores da Mercearia), todos os demais são registros curtos e variados do gênero. Quase todos gravitam o que título e subtítulo prometem: fábulas sobre o mundo da noite, dos bares, dos excessos, da bebida. Se pertencem ao mundo da ficção, da invenção, certamente foram inspirados em experiências reais vivenciadas por cada um deles em bares, mas não necessariamente ali. Os contos têm um quê de nostalgia (seja da geografia daquele bairro - a Vila Madalena; seja de uma certa atmosfera social e política da época). Mesmo que lidos agora, quando inegavelmente todos nos últimos três lustros embrutecemos um bocado, encontramos neles alegria de viver, em narrativas entre divertidas e saudavelmente cínicas. Bacana. Agora um adendo algo mais pessoal: Nunca fui um frequentador assíduo da "Merça", como agora o povo paulista parece usar para referir-se ao bar  Quando era estudante na USP, no início dos anos 1980, preferia o icônico Bar do Bilú, o musical Café Paris ou o teatral Rei das batidas, ali no Butantã; depois, quando passei a morar na Rua dos Franceses, frequentava ou os botecos do Bixiga ou os do centro da cidade. Entretanto, fiz minhas incursões também na Mercearia, usualmente com o Samuca, que gostava de sair da USP e me deixar na Doutor Arnaldo sem pegar um único farol fechado, fazendo só um necessário pit-stop ali (sim, naqueles dias era possível fazer uns 10 Km assim, sem muito trânsito, bem como beber e dirigir, além de fumar em qualquer bar ou restaurante). Depois de 1994, quando virei gáucho e só turistava em São Paulo, ia lá às vezes com o mesmo Samuca ou o Renato Cohen e o Luiz Melo, para lá eventualmente encontrar o Marcos Fernandes, o Luciano Bittencourt, a Ana e a Ivonete, mas isso, agora, no meio deste baile macabro, já parece fazer parte de um mundo perdido, de lenda, borrado, inventado. Alas! Vamos em frente. Vale! 
Registro #1423 (contos #175)
[início - fim: 25/04/2020]
"Uma antologia bêbada: fábulas da mercearia", Joca Reiners Terron (organização) [Andréa del Fuego, André Sant'Anna, Antonio Prata, Bruno Zeni, Chico Mattoso, Clara Averbuck, Índigo (Ana Cristina Ayer de Oliveira), Ivana Arruda Leite, José Alberto Bombig, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Matthew Shirts, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Ronaldo Bressane, Xico Sá], São Paulo: Ciência do Acidente, 1a. edição (2004), brochura 14x21 cm., 184 págs., sem ISBN

sábado, 28 de março de 2020

o grito da borboleta

João Dusi é redator do bom jornal Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. Recentemente ele publicou um volume de contos: "O grito da borboleta".  São dez histórias curtas. Cinco delas gravitam os destinos de um curioso grupo, formado por Pablo, Amaro, Nádia, Pedro, Infante e Rorschach, que compartilham entre si o fato de viverem literalmente nas ruas de Curitiba, como mendigos, ou de estarem nas franjas da sociedade, marginalizados por drogas, estigmatizados por perdas, pelos azares da vida, escolhas ruins, trapaças auto infligidas, ou um outro cruel destino qualquer. Os cinco contos finais me parecem instantâneos biográficos de outros cinco sujeitos desgraçados por suas escolhas de vida: o real Ricardo López, um amalucado uruguaio que um dia foi apaixonado pela cantora islandesa Björk e suicidou-se; Alice, filha dos anos 1960, do movimento hippie, que não consegue fugir de um casamento violento; do real Stanislav Szukalski, um escultor polonês, que escapou do massacre nazista; de um erudito leitor inominado de Imre Kertész, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2002; de um suicida que decide abandonar a vida em uma praça de uma cidade costeira, em uma noite sem lua. Todas as dez narrativas, que são bem curtas, estão bem escritas, mas eu gostei mais do jogo das primeiras cinco histórias, nas quais personagens igualmente desgraçados parecem competir qual deles teve a pior das cotas, tornando a leitura um coisa realmente mágica. Os demais contos são mais convencionais. Corretos, porém estranhos. Provavelmente este seja um um erro de avaliação meu, uma desinteligência minha, de leitor capenga. Paciência. Livro interessante. Vamos a ver o que esse jovem autor nos apresentará no futuro. Vale! 
Registro #1508 (contos #175) 
[início - fim: 14/03/2020]
"O grito da borboleta", João Carlos Dusi, Guaratinguetá / SP : Editora Penalux, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 78 págs., ISBN: 978-85-5833-560-7

domingo, 22 de março de 2020

when hippo was hairy

Comprei esse livro quando estava na África do Sul, ainda digerindo experiências e assombros, como já contei aqui no "Livros que eu li", nos registros sobre a África e sobre Cape Town. O autor deste livro, Nick Greaves, é um fotógrafo e escritor inglês que vive na África há muitos anos (se é que entendi bem ele vive atualmente na Tanzânia). Greaves já publicou diversos livros sobre a vida selvagem africana, tanto de fotografias quanto de narrativas. Neste seu "When Hippo was Hairy" estão reunidas 36 lendas ou mitos sobre animais africanos. Ele conta causos sobre os big-five (Leão, Leopardo, Elefante, Rinoceronte e Búfalo) e também sobre vários outros: Babuíno, Girafa, Antílopes, Zebra, Javali, Lebre, Avestruz, Tartaruga, Guepardo, Hiena, Chacal e Hipopótamo. As histórias foram recolhidas do folclore de várias etnias e/ou povos africanos, dos povos das Bush ou das Savana: Batonka, Hambakushu, Ndebele, Zulu, Shona, Swazi, Hottentot, Makushu, Angoni, Swazi, Xhosa, Sesotho, Masai. Como todas as lendas deste tipo, as histórias se confundem, são contraditórias, algo ingênuas, mas são sempre inventivas, deliciosas, boas de se ouvir e certamente boas de se contar. O formato do livro é muito interessante. Após o registro dos mitos (em geral dois ou três sobre cada animal), o autor inclui uma seção com dados factuais sobre eles: sua distribuição geográfica (no passado e atualmente), seu habitat, hábitos, dieta, reprodução, dimensões e massa corporal, tempo médio de vida. Em geral as histórias tentam explicar uma característica física ou de comportamento do animal (porque o leão ruge, o hipopótamo não tem pelos no corpo, a girafa tem pescoço grande, a zebra listras, o javali se ajoelha para comer, o chacal é astuto, a lebre rápida, a tartaruga vive muito e assim por diante. As soluções são sempre mágicas, associadas aos mitos fundadores africanos, os mitos de Cagn e Mantis, os deuses que criaram todos os animais (dentro de um grande Baobá), e também criaram os homens, o povo das savanas, das bush, os Bushmen. Aprendi um bocado, como sempre deve ser. Vale! 
Registro #1505 (contos #173) 
[início: 18/02/2020 - fim: 02/03/2020]
"When Hippo was Hairy, and other Tales from Africa", Nick Greaves, ilustrações de Rod Clement, Cape Town / South AfricaCaxias: Struik Nature Publishers (Penguin Random House South Africa), 1a. edição (1988), brochura 17x22 cm., 144 págs., ISBN: 978-1-86872-456-7

quinta-feira, 19 de março de 2020

verão no fim do mundo

Luís Farinatti é historiador e professor universitário. "Verão no fim do mundo" é seu primeiro livro de ficção e com ele ganhou  o prêmio da Associação Gaúcha de Escritores de narrativa curta, em 2019. São doze histórias, que gravitam questões e problemas de pessoas que vivem em cidades pequenas, ou que levam estas questões e problemas consigo, mesmo quando vivem em grandes cidades, ou no exterior. Há um tom amargo nelas, uma melancolia indisfarçada, mas não pieguice ou ingenuidade. Farinatti escreve bem, mas não se trata de um autor especialmente inventivo, que use um léxico muito vasto, ou que tente seduzir o leitor com achados linguísticos e expressões raras. Enfim, o texto é correto, que segue a convenção do conto e ele sabe bem conduzir as histórias. Gostei especialmente de "Tarde de domingo" e "Forasteiro", narrativas de inevitáveis, porém distintas, brutalidades, e de "Noite adentro", na qual um delegado divorciado enfrenta uma vez mais, em uma noite fria e sob neblina, seus demônios familiares. As histórias são curtas. Nem sei porque esse livro ficou tanto tempo entre os guardados, esperando para ser lido. Paciência. Parabéns meu caro Luís, ficou bom teu livro de estreia. Vamos a ver o que você recuperará dos baús familiares, dos ecos literários que brotam da memória. Evoé! Vale!
Registro #1503 (contos #172) 
[início - fim: 02/03/2019]
"Verão no fim do mundo", Luís Augusto Farinatti, Caxias do Sul: Belas Letras (selo Modelo de Nuvem), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 136 págs., ISBN: 978-85-8174-432-2

segunda-feira, 16 de março de 2020

a barata

Neste pequeno conto Ian McEwan nos oferece uma terrível fantasia, uma sátira contemporânea, uma narrativa irônica, uma descrição  alegórica dos desatinos aos quais se aferram quase sempre os homo sapiens, por mais educados, socialmente homogêneos e economicamente abastados que sejam. Invertendo a conhecida fórmula de Kafka, McEwan inventa uma barata cuja mente se apodera do corpo de um primeiro ministro inglês. E, a partir deste mote, oferece ao leitor imaginar um dos infinitos mundos possíveis decorrentes de nossas escolhas cotidianas (no caso específico dele, a decisão inglesa de romper com o Mercado Comum Europeu, o Brexit). Esse conto foi publicado antes que McEwan soubesse do desfecho das eleições inglesas de dezembro de 2019, eleições que confirmaram a maior vitória do partido conservador em sua história, e que garantiu a Boris Johnson, o atual primeiro ministro inglês, ampla maioria parlamentar, caminho fácil para oficializar a saída definitiva do Reino Unido da união europeia. Caso soubesse do real tamanho da derrota trabalhista McEwan provavelmente seria ainda mais sarcástico e cruel em seu livro, sobretudo com a personagem que representa o tolo Jeremy Corbyn (já sabemos que a realidade sempre será muitas vezes mais surpreendente que qualquer invenção literária, não nos iludamos). Não há muito sobre o que falar deste livro sem roubar o prazer individual e solitário da leitura. McEwan povoa seu texto com críticas ao populismo e a ignorância do eleitorado inglês, fala num tom amargo das regras de conduta e hábitos dos ingleses, ilustra nossa especial vocação para destruição e morte, pulsão que quase sempre nos domina, nos define. Dificilmente um leitor pouco familiarizado com o Brexit e as circunstâncias que regram as eleições gerais na Inglaterra poderá aproveitar adequadamente este livro, mas quem se importa. Divertir-me à beça com as amalucadas associações de Ian McEwan, mas a vida segue, as baratas estão em todas as partes e certamente sobreviverão aos homo sapiens. Vale! 
Registro #1501 (contos #171) 
[início: 05/03/2019 - fim: 07/03/2019]
"A barata", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 102 págs., ISBN: 978-85-359-3310-9 [edição original: The Cockroach (New York: Anchor Books Knopf Doubleday Publishing Group) 2019]

domingo, 1 de março de 2020

sobre os canibais

Caetano W. Galindo, industrioso tradutor e professor universitário, venceu o Prêmio Paraná de Literatura de 2013, na categoria conto, com "Ensaio sobre o entendimento humano", sua estréia em ficção. Este livro passou por uma legítima e robusta metamorfose, transformou-se em "Sobre os canibais", recentemente publicado pela Companhia das Letras (não se trata de uma nova versão, mas na verdade de um livro novo, pois quase que dobrou de tamanho). Quando resenhei o "Ur-Sobre os canibais", que reunia 24 contos curtos, afirmei que procurava neles por uma única história cifrada que enfeixasse os contos, todavia, como não a encontrei, aceitei que cada uma delas se defendia sozinha. "Sobre os canibais", reúne 42 contos, contos com mais facetas, está mais burilado. Três histórias desapareceram e vinte uma outras foram acrescentadas. Nesta nova encarnação agora pareceu-me que o livro revela um viés diferente, agora mais crível: sua filiação à tradição ensaística de Michel de Montaigne em seu "Dos canibais" (que nos ensinou que não podemos dizer que alguém é um bárbaro, canibal, apenas por ser diferente). E não digo que os contos de Galindo sejam ensaios. Acontece que seus contos parecem inspirados no mesmo tipo de curiosidade infinita de Montaigne. O leque de invenções de Galindo é mesmo vasto. Ele fala sobre amor e morte, experiências de vida e reflexões sobre vidas em curso, paradoxos, sobre os espantos que os outros provocam em nossa sensibilidade, sobre os hábitos entranhados que nos definem e aprisionam. Cada personagem de Galindo parece um duplo singular de um ser plural, de um Proteus que passa por metamorfoses sucessivas, porém, quando preso (preso pelas mãos ou seduzido pelo olhar do leitor que se debruça generosamente ao volume), obriga o autor a contar verdades. As novas narrativas são tão potentes quanto as anteriores. Há jogos sarcásticos que emulam catálogos de exposições de artes plásticas; ferinos necrológicos; elucubrações e descrições de vidas privadas; um revisitado "Sex, Lies and Videotape"; um flerte bacana com o Rashomon original de Akutagawa. Os contos falam de cousas inusitadas, roncos, desejos, descoberta da surdez, surgem histórias curiosas; a angústia urbana e a melancolia que carregamos por aí é espelhada nos contos. Gostei particularmente de uma das histórias novas: "Tudo ou nada", talvez a chave emocional dos contos; também do maior deles: "Sozinho"; e de reler o grafado como "Käfer" desta vez, uma versão potente do Aleph borgeano, que já existia no livro de 2013. Ganha-se muito lendo esses contos, seja pela inventividade, seja pela exuberância dos registros linguísticos, que nunca traem o artífice cerebral, o acadêmico que controla todos os efeitos literários de sua nobre arte. Viva. Vale! 
Registro #1495 (contos #170) 
[início 10/01/2020 - fim: 14/01/2020] 
"Sobre os canibais", Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-359-3298-8

domingo, 5 de janeiro de 2020

dois meninos

Em "Dois meninos", de Leonardo José Andriolo, administrador e professor universitário, encontramos onze contos curtos e uma breve crônica. São histórias honestas, se não exatamente inventivas, algo produzido por alguém que está se familiarizando com a forma e não tem medo de parecer piegas, de experimentar variações, de mesclar a memória afetiva de antepassados com alguma curiosidade literária. A ambição confessa do autor é "mexer com a sensibilidade do leitor e, se possível, surpreendê-lo". Os contos são bem escritos, e se deixam ler sem pressa. Alguns são relatos que brotaram de histórias familiares, são homenagens a pessoas queridas, a seu legado e esforço; um terço deles são causos que flertam com o gauchismo, com o realidade da imigração europeia nestas terras, aquele tipo de histórias que se contam em reuniões de amigos, de origem indeterminada, mas que parecem já ter sido ouvidas de/ou sobre algum parente; outro terço são contos clássicos, que exploram as possibilidades do gênero, com um tanto mais de liberdade, originalidade e risco. Gostei particularmente de "A moça dos olhos tristes", talvez uma boa releitura de uma novela de Dürrenmatt e de "A visita", uma boutade sobre o encontro entre o imperador Pedro II e um colono no interior do estado. Vamos a ver o que o Andriolo vai nos oferecer no futuro. Segue o baile. Vale!
Registro #1482 (contos #169) 
[início: 27/11/2019 - fim: 29/11/2019]
"Dois meninos", Leonardo José Andriolo, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 140 págs., ISBN: 978-85-80360-10-9

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

cara de cavalo

Neste pequeno volume da 7Letras encontramos seis contos curtos de Pedro Dutra Pedra, autor maranhense de quem nunca havia ouvido falar. São propostas inventivas, que se destacam pela linguagem, pelo rico e variado vocabulário, pelo controle do tempo nas narrativas. "O gigante Adamastor" conta a história de um jogador experimentado, mas que não controla seu ciúme, numa Rio de Janeiro de sonho e lenda. Em "Rosas vermelhas" acompanhamos as confidências de dois irmãos, um médico e outro juiz, imediatamente após a prisão do médico por ter cometido um crime, num lugar do Nordeste brasileiro (lembrei do tom de "O fim do ciúme", narrativa curta de Proust). "Sorriso sem lábios" é uma fragmentada história de destinos, de como alguns indivíduos parecem condenados previamente a toda sorte de azares, num subúrbio de uma cidade que talvez possa ser gaúcha, talvez carioca, mas isto não importa muito. "Traio meu marido" é uma espécie de versão literária de um testemunho, de uma confissão, o relato de uma menina/mulher que flerta num mundo masculino, de pessoas que jamais a entenderão honestamente. Em "Meninas" é da vida sexual e planos para o futuro de três irmãs que se fala, observa-se que os relacionamentos delas parecem seguir um carrossel de hormônios e de competição, e também de acasos. Em "Cara de Cavalo", que dá nome ao volume, narra-se a volta de uma mulher a uma cidade após quinze anos afastada, por conta da venda do antigo casarão de sua família; acompanhamos como todos os moradores do lugar emitem opiniões sobre essa mulher, mas o leitor sabe que nenhum deles está perto da verdade, do enigma completo que o é para eles. Não posso dizer que todos os contos me conquistaram. "O gigante Adamastor" é muito bom; "Sorriso sem lábios" é muito chato; os demais são corretos, se destacam pelo estilo e domínio do tempo do jogo literário. Vamos a ver o que Pedro Pedra inventará na próxima vez. Vale!
Registro #1473 (contos #168) 
[início 12/11/2019 - fim: 14/11/2019] 
"Cara de cavalo", Pedro Dutra Pedra, Rio de Janeiro: 7Letras1a. edição (2019), brochura 14x21, 109 pág. ISBN: 978-85-421-0825-5

sábado, 12 de outubro de 2019

siete cuentos morales

Neste volume estão reunidas sete histórias curtas (quatro delas curtíssimas, coisa de quatro ou cinco páginas). "El perro" trata dos encontros tensos entre um cão e uma jovem ciclista, que não aceita a natureza feroz de seu antagonista; "Una historia" conta algo sobre uma mulher que trai sistematicamente seu marido, todas as vezes em que ele viaja, mas que não associa sua traição a ausência de amor ou carinho por ele; "Vanidad" retrata a censura que os filhos de uma velha senhora fazem de seu corte de cabelos, para eles moderno demais, não compatível com a idade dela; "Una mujer que envejece" conta as preocupações de dois filhos sobre a saúde e o destino da mãe, num encontro em que todos estão longe de casa, praticamente estranhos uns aos outros;  "La anciana y los gatos" trata do choque que as escolhas de uma velha senhora, que mora em uma cidadezinha isolada no sul espanhol, provoca em seu filho cosmopolita e prático, que não comunga das escolhas morais de sua mãe; em "Mentiras", um conto epistolar, um filho escreve a sua mulher sobre o acidente sofrido pela mãe, e das providências que é obrigado a tomar. No último conto, "El matadero de cristal", dividido em seis partes curtas, uma senhora pensa na possibilidade de provocar reflexão e eventualmente mudar a opinião dos cidadãos seus contemporâneos sobre os rituais de criação e abate de animais, assim como o consumo da carne, algo para ela condenável. Nos sete contos a figura da velha senhora sempre parece ser Elizabeth Costello, uma personagem conhecida dos leitores de J.M. Coetzee. Ele, que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2003, a fez aparecer pela primeira vez em "A vida dos animais", publicado em 1999, depois em "Elizabeth Costello", em 2003 e também em "Homem lento, em 2005. A Costello personagem é uma escritora de opiniões fortes, provocante até a exasperação, que sempre se posiciona, discute temas complexos, como a vida dos animais, a censura e a fé, filosofa sobre a sexualidade, a moral e o mal entranhado nas pessoas. Além do veganismo Coetzee faz seus personagens digressar também sobre o ofício de escrever ficção, a velhice, a relação entre pais e filhos, o destino, o amor e o dever, refletir sobre as consequências de nossas decisões, da dificuldade de topar partido em questões éticas no dia a dia. "A vida não se resume a uma eterna sucessão de criação e solução de problemas", afirma a senhora Costello, em uma das histórias de Coetzee. Talvez esta frase resuma as questões morais discutidas nos sete contos. Nós, homo sapiens, devemos fazer valer mais o nosso tempo de vida, os dias que nos cabem. Sempre provocador o velho e bom Coetzee. Em tempo. Consegui encontrar links para gravações onde o próprio Coetzee lê "El perro",  "La anciana y los gatos" e "El matadero de cristal". Achei também links para o texto original de dois contos: "Una mujer que envejece" e "Mentiras" (publicados anteriormente na revista americana The New York Review of Books). "Una historia" e "Vanidad" parecem ser singularmente inéditos, mesmo em inglês. Vale! 
Registro #1458 (contos #167) 
[início - fim : 25/09/2019]
"Siete cuentos morales", J.M. Coetzee, tradução de Elena Marengo, Barcelona/Buenos Aires: El Hilo de Ariadna (Penguin Random House Grupo Editorial), 3a. edição (2019), brochura, 13,5x22,5 cm., 123 págs., ISBN: 978-84-397-3466-6 [edição original: Moral Tales 2017]

domingo, 15 de setembro de 2019

os touros de basã

Marco Aurélio de Souza é um jovem paranaense que tem publicado regularmente romances, contos e poemas, desde o início dos anos 2010. Recentemente ele lançou "Os touros de Basã", um volume de contos. São treze histórias que gravitam vidas de pessoas marginalizadas, indivíduos que foram derrotados pela vida, sujeitos azarados, loucos, intoxicados, sujos. Marco Aurélio faz seus personagens padecer suas misérias em Ponta Grossa, no interior do Paraná, mas as histórias poderiam ser contadas desde a periferia de qualquer lugar do Brasil contemporâneo, país onde a desigualdade é norma, onde o isolamento daqueles que não são afeitos a regras sociais é terrivelmente comum. Nos contos o leitor acompanha fragmentos da decadência física e espiritual de um homem; o autoengano de uma jovem prostituta; o sarcástico relato de um sujeito sobre o destino de sua cidade; o justiçamento de um garoto em uma favela; a lascívia de um professor de educação física por suas alunas; a metamorfose moral de um sujeito, que após matar os pombos de uma praça, passa a atirar em mendigos; os planos de um rapaz de se masturbar em um ônibus lotado; a fantástica história de mendigos que são adotados como animais de estimação; entre outras tantas histórias igualmente brutas. Gostei do resultado. Ojo. É o caso de acompanhar os livros deste sujeito. Vale! 
Registro #1448 (contos #166) 
[início: 17/07/2019 - fim: 30/07/2019]
"Os touros de Basã", Marco Aurélio de Souza, Curitiba: Kotter Editorial, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-68462-94-2

sábado, 6 de julho de 2019

do que falamos quando falamos de amor

Neste volume encontramos dezessete contos de um dos grandes mestre do gênero, o norte-americano Raymond Carver, morto já há mais de trinta anos. São histórias sempre curtas, quase fragmentárias, de vidas de quem o leitor não precisa saber muito, apenas o que foi dito ali em poucas páginas. Seus contos são frequentemente ditos minimalistas, mas não são fáceis nem de ler, e muito menos de escrever. Lembro-me de ter lido alguns logo após ter visto "Short Cuts", um bom filme do sempre bom Robert Altman, mas isso também foi há quase trinta anos. Os contos de Carver gravitam sempre dificuldades de comunicação, vidas em desacerto, problemas com o álcool, momentos decisivos de alguém. Ele alcança fixar a atenção do leitor não com descrições detalhadas, correrias, mimos culturais, mas sim com diálogos algo diabólicos, que sintetizam todo um complexo contexto, conversas que nos magnetizam. Além dos diálogos os contos primam pelo uso exemplar da técnica de fluxo de consciência. Nem tudo precisa ser dito. Nem tudo precisa ser apresentado diretamente ao leitor. Não vou tentar resumir aqui os fatos das curtas histórias do livro. A mágica literária de Carver não está nos fatos em si, mas em como aqueles personagens são enredados em situações que cada um de nós compreende bem. Ao mesmo tempo, não se trata apenas de verossimilhança, mas da capacidade de desnudar nossa muita humana habilidade de mentir para nós mesmos, de negar a realidade, de fingir e, também, de amar. Grande escritor. Vale!
Registro #1427 (contos #165)
[início: 12/07/2017 - fim: 06/07/2019]
"De que falamos quando falamos de amor", Raymond Carver, tradução de Carlos Santos, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 150 págs., ISBN: 978-989-641-517-4 [edição original: What We Talk About When We Talk About Love (New York: Alfred A. Knopf) 1981]