segunda-feira, 11 de julho de 2016

vidas ejemplares y otros cuentos

Já li vários livros de Mempo Giardinelli e de todos verdadeiramente gostei. Neste "Vidas ejemplares y otros cuentos" estão reunidos vinte e três contos, publicados originalmente entre 1981 e 2005 (a saber: oito na década de 1980; 10 na década de 1990 e 5 na década de 2000; alguns confesso já ter lido antes nas coletâneas "Luminoso amarillo" e "9 historias de amor"). Talvez o que defina essa seleção (feita por ele para o público argentino, privado que foi por muitos anos de seus livros, por conta dos desastres políticos, exílios e a pura e definitiva censura que flagelaram a Argentina), seja o tom confessional, o fato de quase todos tratarem de uma forma de autoficcção, que exalta vidas plenamente vividas ou narrativas onde pouco se lamenta ou exalta o acaso das coisas, antes se alegram, se encantam, com a miríade de formas honestas possíveis de viver neste mundo. Alguns contos lembram crônicas, testemunhos da realidade, mas quando em um determinado ponto da leitura deles percebemos o quão cinematográficas são as situações e quão perfeito é o controle do tempo das narrativas damo-nos conta que estamos no terreno da invenção, da ficção, e não no mundo real. Mesmo a releitura dos contos seis ou sete contos que já conhecia é satisfatória, pois com elas temos a chance de perceber matizes diferentes, nos familiarizar com soluções possíveis de uma conhecida história. Grande sujeito é esse Mempo. Seguro que haverá mais cousas dele por aqui (enquanto isso, divirta-se com o bom e completo site mantido por ele: mempogiardinelli.com). Vale.
[início: 22/05/2016 - 28/06/2016] 
"Vidas ejemplares y otros cuentos", Mempo Giardinelli, Buenos Aires: editorial Página 12, 1a. edição (2011), brochura 14x20 cm., 152 págs., ISBN: 978-987-503-566-9

domingo, 10 de julho de 2016

o homem do terno de vidro

Do Cláudio já li os bons causos e narrativas curtas reunidos em "Um arado rasgando a carne" e "O uniforme", fração pequena dentre talvez os quarenta livros que ele já publicou (ele, que também trabalha com edição de livros, não tem medo de distribuir gratuitamente versões em pdf dos seus: veja a lista aqui). "O homem do terno de vidro" ele chama de rimance. Trata-se de um experimento, de um relato que tem a fluidez da poesia com as divisões de uma peça teatral, as transições lentas e suaves de um álbum musical, assim como a estrutura de um hipertexto, repleto de grafismos, tipologias, ilustrações e vinhetas que cobram e desviam a atenção do leitor. O livro brota de um poema do Carlos Drummond de Andrade ("E agora, José?") que, cindido, apresenta e encerra três livros curtos (as tais quase-novelas do subtítulo). Esses três livros tratam da covardia, da teimosia e de um terninho de vidro, que eu entendo como autoilusão, autoengano. O narrador sempre é o mesmo, está num ônibus que trafega entre Juiz de Fora e Belo Horizonte, amarga alguma desilusão, reflete sobre seu passado e futuro. No primeiro ele parece hiper consciente de sua condição, com ironia e erudição, mas sem medo, sem temor. No segundo livro o sujeito parece falar com seu eu psicanalista e faz um balanço de suas escolhas, suas decisões. No terceiro ele se percebe no ônibus, se espanta com os demais passageiros como alguém faria ao saber-se na infernal barca de Caronte, sabe que está nu como o rei da fábula, mas ainda protegido por um terno de vidro, pensa na vida e em seu talento desperdiçado. Num anexo, uma espécie de coda, já fora do ônibus, aquele narrador-poeta percorre os últimos trechos de seu labirinto mental declamando um poema. É o tipo de livro que honestamente provoca o leitor. Muito interessante. 
[início: 01/06/2016 - fim: 22/06/2016]
"O homem do terno de vidro: rimance (três quase-novelas ou um quase-romance)", Cláudio B. Carlos (CC), São Paulo: Clube de Autores, 1a. edição (2013), 15x20,5 cm., 112 págs., sem ISBN

sábado, 9 de julho de 2016

terra do fogo

Quando viajo sempre procuro ler algo de um escritor local. Se na minha última andança por Fortaleza encontrei o Weaver e o bom catálogo de sua exposição, durante minha passagem recente por Teresina foi-me sugerido esse "Terra do fogo". Edmar Oliveira é um piauiense radicado no Rio de Janeiro, atua na área de Psiquiatria. Recentemente ele decidiu produzir um romance histórico com elementos de sua memória afetiva, uma autoficção com fragmentos de suas lembranças da região onde nasceu e das histórias que ouviu quando jovem. Acrescentou a essa decisão um bom tempo de pesquisa e o resultado é um livro compacto, bem escrito e que se defende bem sozinho, mas que também fica devendo algo em invenção, preso a cronologia e fatos da política piauiense e brasileira dos anos da ditadura Vargas. O narrador conta a história de uma mulher que sucessivamente encarna alguns dos papéis que a machista e misógina sociedade brasileira costumava (e costuma) reservar a todas de seu gênero: a que engravida por acaso de um sujeito que não é de sua classe social; a que é forçada a se casar por interesse familiar com outro, bem mais velho e já viúvo; a que posteriormente se enamora de um terceiro que é estrangeiro, sedutor e encantador, mas que ela só descobre desprezar quando o abandona; e a que se encanta com um professor comunista salvo por ela de uma prisão do Estado Novo e que lhe oferece um amor perene e calmo. O Brasil letárgico e controlado por coronéis subservientes ao ditador Getúlio se transforma no final dos anos 1930 e acaba sendo forçado a se alinhar aos norte-americanos, nos anos 1940. Os desdobramentos destas transformações deixam marcas nos indivíduos, destrói vidas e destinos. O leitor encontra descrições dos terríveis incêndios provocados nas casas da gente pobre da periferia de Teresina pelos donos do poder interessados ou numa oportunidade imobiliária ou no controle político dos demais cidadãos, mas o livro tem lá suas passagens líricas e também registros interessantes sobre as classes sociais e a cultura regional daquela época. O livro faz bom uso de uma alegoria, na qual o entendimento acertado de uma história se assemelha ao processo psicanalítico de autoconhecimento, de descoberta de nós mesmos. E a solução que o autor encontrou para resolver o grande impasse do livro lembra o final do Casablanca (filme do Michael Curtiz, de 1942), só que com sinais trocados. Solução que funciona e é divertida. Vale.
[início: 25/05/2016 - fim: 12/06/2016]
"Terra do fogo", Edmar Oliveira, Rio de Janeiro: Vieira e Lent Casa editorial, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85- 8160-023-9

sexta-feira, 8 de julho de 2016

rastros

Conheci virtualmente o Weaver há uns dois ou três anos. Tempos depois recebi dele "Seres Urbanos", uma antalogia de fanzines produzidos por ele e seus colegas no Ceará, na década de 1990 (e que ganhou o prêmio Miolo(s) de melhor livro de HQ em 2015, prêmio importante organizado pela editora Lote 42 e a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo). Desde o início dos anos 2000 ele tem se dedicado às artes visuais e tem participado de salões e mostras coletivas. Em 2011 ele iniciou um projeto de arte urbana, o RASTRO, cuja proposta permitiu a ele viajar pelo interior do Ceará e produzir grafittis e pinturas em espaços públicos e nas fachadas de casas particulares. A ideia não era apenas interferir graficamente no espaço urbano ou nas casas que conservam em sua arquitetura características típicas do sertão nordestino (principalmente o colorido vivo das fachadas, portas de madeira, marcos das janelas e platibandas - elemento arquitetônico muito antigo, gótico, cuja função é esconder telhado das edificações). Ele também  interage com a população das cidades que visita, conversa com os moradores, dá palestras em escolas e percorre as ruas das cidades distribuindo aleatoriamente obras originais de sua autoria (serigrafias ou pinturas, assinadas e numeradas, cujos temas são comuns às suas intervenções urbanas em grandes formatos). Esse esforço pela democratização da arte, que inventiva os moradores da cidade a participarem do processo criativo alcançou tão bons resultados que Weaver conseguiu patrocínio público para uma exposição individual na Caixa Cultural Fortaleza, que ficou aberta para visitação durante o outono deste 2016. Não vi a exposição, composta por aproximadamente uma centena de obras, entre painéis com grafites em grandes formatos, pinturas inéditas em tinta acrílica sobre tela, os moldes utilizados na produção, fotos e vídeos com os registros da  interação com a população nas cidades em que ele fez suas intervenções urbanas. Todavia, tive a sorte de encontrá-lo em sua definitiva Fortaleza e receber dele esse catálogo, onde estão reproduzidos boa parte do que poderia ser visto na exposição. O catálogo inclui dois textos longos, assinados por Juliana Castro e Luciana Rodrigues, nos quais são discutidos aspectos técnicos e conceituais do projeto. As imagens do catálogo contam e comprovam uma bela história. O povo cearense tem sorte de contar com um sujeito tão industrioso e talentoso. Em tempo: o projeto RASTRO continua. Ainda veremos os desdobramentos da ideia original e os novos caminhos trilhados pelo Weaver. Ojo.
[início: 10/06/2016 - fim: 05/07/2016]
"Rastros: Uma exposição de Weaver F", Weaver Lima, Fortaleza/Ceará: Caixa Cultural Fortaleza, capa-dura 16x21 cm., 184 págs., sem ISBN

quinta-feira, 7 de julho de 2016

una voz en la noche

Vigésimo-quarto livro da série Montalbano, "Una voz en la noche" garante bons momentos de leitura. Os truques de Andrea Camilleri são conhecidos: Montalbano sempre está as voltas com as trapalhadas linguísticas de Catarella; com o transtorno obsessivo de Fazio com os detalhes biográficos dos criminosos; com as delícias gastronômicas produzidas por Adelina ou Enzo; sempre faz uso da amizade com um jornalista ético para se contrapor aos planos de um jornalista canalha que trabalha para a máfia; sempre alimenta a tortura psicológica que é seu relacionamento à distância com Lívia; sempre faz uso de um elemento teatral ou onírico na trama. Todavia não é apenas a repetição dos métodos e situações que conquista a fidelidade do leitor. A inventividade das descrições, a complexidade da trama e a riqueza dos diálogos que ele cria dão relevo a uma literatura que, afinal, é produzida para entreter sem compromisso. Montalbano, no dia de seu aniversário, 58 anos, precisa resolver dois crimes aparentemente distintos: o assassinato da garota de um político importante e o suicídio de um comerciante. Montalbano é sobretudo um investigador, que sabe enxergar as camadas de verdade e mentiras nas histórias que ouve de suspeitos e vítimas, mas também é um sujeito que esquece, comete erros, sente o corpo e a mente cansados. A máfia operacionaliza um judiciário corrupto (que dá a alguns suspeitos um impenetrável foro privilegiado, nada com que um brasileiro já não esteja familiarizado), mata ou compra o silêncio das testemunhas. Entretanto não há problema ou dificuldade que seja obstáculo à determinação de Montalbano para solucionar o mistério dos dois crimes. Em uma curta nota no final Camilleri diz que esse texto foi produzido há muito tempo (a publicação original é de 2012) e que ele reconhece que algumas situações não se encaixam bem na cronologia dos eventos descritos nos livros anteriores de seu protagonista (a culpa é dos editores, sempre, ele avisa). Divertido, as usual.
[início: 23/06/2016 - fim: 25/06/2016]
"Una voz en la noche", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 221 págs., ISBN: 978-84-9838-744-5 [edição original: Una voce di notte (Palermo: Sellerio editore) 2012]

quarta-feira, 6 de julho de 2016

história do mundo grego antigo

Esse bom livro foi projetado com a ambição de oferecer ao leitor não especialista um quadro panorâmico da história do mundo grego antigo. Não é uma tarefa fácil, claro, mas o resultado final é bastante satisfatório. Lefèvre, professor da Universidade Paris IV - Sorbonne, reconhecido especialista na área, argumenta que o adjetivo "antigo" é falho, pois somos herdeiros absolutos dessa cultura, tão viva e ainda próxima da nossa, rica e fascinante como poucas outras. Ele optou em apresentar essa história em quatro grandes blocos, associados a qualidade e a quantidade de registros confiáveis e/ou já estabelecidos pela crítica especializada. A primeira parte trata do Período Neolítico e da Idade do Bronze, antes do desenvolvimento da escrita alfabética; a segunda da Época arcaica, que vai do início do século XI (antes da era cristã) ao final do século VI (a.C.) ; a terceira parte trata da dita Época Clássica, que envolve as guerras contra os persas e a Guerra do Peloponeso, aproximadamente até o início do século IV (a.C.); e a quarta parte da Época helenística, que é o nome que se dá a difusão da cultura grega nos territórios conquistados por Alexandre (o Grande), a consequente adaptação dos gregos aos ritos das demais culturas com quem passam a interagir e o período de transição que termina com a afirmação do poderio militar romano, já no início da era cristã. O livro é repleto de fontes bibliográficas (que ele chama de orientações, pela quantidade e variedade delas), que auxiliam o leitor a procurar informações detalhadas sobre qualquer ponto que é apenas comentado no livro. O material iconográfico também é muito bom, reunindo reproduções de moedas, cerâmicas, mosaicos, pinturas, mapas, esculturas e resquícios das estruturas urbanas, templos e edifícios. Os capítulos não são estanques, a divisão não é rígida, Lefèvre repetidas vezes retoma argumentos que já havia discutido para ilustrar a evolução de um determinado tema ou assunto. Ele inclui também subcapítulos temáticos, que tratam das fontes primárias, problemas atuais de arqueologia, características geográficas, evolução da escrita, experiências políticas, aspectos religiosos e socioeconômicos. Uma detalhada cronologia auxilia o leitor a localizar rapidamente no livro os grandes temas, aqueles que imediatamente associamos aos gregos e a sua história, por menos que a estudamos ao longo da vida. Grande livro.
[início: 01/03/2016 - fim: 02/07/2016]
"História do mundo grego antigo", François Lefèvre, tradução de Rosemary Costhek Abílio, São Paulo: editora WMF Martins Fontes, 1a. edição (2013), brochura 16x23 cm., 486 págs., ISBN: 978-85-7827-749-9 [edição original: Histoire du monde crec antique (Paris: Librairie Générale Française / Livre de Poche) 2007]

quinta-feira, 16 de junho de 2016

os mortos (bilíngue)

Essa é uma edição muito especial de "Os mortos", conto de James Joyce que encerra a coletânea "Dublinenses", publicada originalmente em 1914 (muito embora esse conto tenha sido finalizado um bom tempo antes, quando Joyce vivia em Trieste, em 1907). Trata-se de uma edição bilíngue e a tradução é assinada por Tomaz Tadeu. Nela o leitor tem direito a um conjunto robusto de notas, que explicam as passagens mais enigmáticas do livro, uma breve introdução e um link de acesso a um mapa onde os locais mencionados no conto estão assinalados (esse mapa pode ser acessado aqui). O tradutor alerta na introdução que foi obrigado a fazer ligeiras adaptações devido a uma restrição editorial, que foi a necessidade de deixar os parágrafos traduzidos com o mesmo número de linhas dos respectivos parágrafos originais, de forma a permitir a leitura em paralelo dos dois. Não me pareceu nada que prejudique essencialmente o texto. Como sabe qualquer sujeito que tenha lido "Dublinenses", trata-se de uma das histórias mais poderosas e bem escritas de Joyce. O leitor acompanha uma festa de epifania, um jantar de gala, com direito a música e bebidas, que acontece num dia 06 de janeiro, provavelmente o de 1904. Quem dá a festa são as irmãs Morkan, Kate e Júlia, duas senhoras idosas. Joyce utilizou duas tias avós maternas suas na concepção destas personagens. O local da festa é o número 15 de um dos "Quays" da margem direita do rio Liffey, aquele conhecido por "Usher's Island". Hoje esse endereço fica exatamente defronte a entrada sul da James Joyce Bridge, uma ponte projetada pelo arquiteto Santiago Calatrava. Nesse endereço ainda existe uma casa que foi propriedade das duas tias avós de Joyce e onde deveria funcionar um museu ou casa de cultura (mas que não está regularmente aberto ao público, infelizmente). Por uma sorte dos diabos, através de um amigo irlandês, o John Murphy, conheci o atual proprietário da casa, um sujeito chamado Brendan Kilty, e a visitei numa noite de inverno em 2015 alternando Irish whiskey e Guinness (mas esta é outra história, que um dia conto com detalhes). Pois no conto de Joyce acompanhamos os frenéticos preparativos para a festa e logo uma elaborada apresentação de todos os personagens que chegam. Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, que fará um discurso de encerramento do jantar, é um dos últimos a chegar. Conroy é um sujeito afetado, que imagina serem superiores suas opiniões sobre a complexa relação política e social entre Irlanda e Inglaterra. Mas o que o leitor acompanha na história são as sucessivas mostras de quão errado está Conroy, não apenas sobre a situação de seu país (não exatamente um país, pois a Irlanda ainda estava sob administração inglesa naquela época), mas também sobre a forma como ele se relaciona com os demais e com sua mulher. Após a festa Conroy e a mulher rumam para a O'Connell Street, onde fica o hotel em que ficarão hospedados. Conroy parece animado e ansioso , mas quando confronta a tristeza que nota na mulher ela lhe conta que uma das músicas cantadas na festa a fez lembrar-se de um rapaz por quem foi apaixonada e que morreu numa noite fria como aquela. Conroy percebe de súbito a tolice de sua vaidade, do vazio das palavras que proferiu no discurso e do quão pouco conhece sua mulher e a si mesmo. Sua existência é patética, sabe ele agora. Que história dos diabos. Cabe dizer que registrei aqui recentemente uma outra tradução de "Os mortos", a do industrioso Caetano Galindo. E, por fim, digo que um leitor inspirado pelo livro ganhará muito se ouvir os seis podcasts reunidos no "Joyce's Dublin". Ouro puro e fino. Vale. Leia o Ulysses, leia James Joyce. Sláinte. Happy Bloomsday, to you and all.
[início: 11/05/2016 - fim: 16/06/2016]
"Os mortos", James Joyce, tradução de Tomaz Tadeu, Belo Horizonte: editora Autêntica, 1a. edição (2016), capa-dura 14,5x21,5 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-8217-802-7 [edição original: edição original: Dubliners (London: Grant Richards) 1914]

segunda-feira, 13 de junho de 2016

a pianista

Nunca havia lido um livro de Elfriede Jelinek, ganhadora do prêmio Nobel de literatura em 2004, todavia já havia visto uma adaptação cinematográfica de seu romance "A pianista", dirigida por Michael Haneke em 2001 (e que ganhou o Grande Prêmio do Juri do festival de Cannes daquele ano). Trata-se de um livro impressionante mesmo. Erika Kohut, 36 anos, uma tirânica professora de piano, um dia imaginou poder tornar-se uma solista de sucesso, mas dá aulas num conservatório vienense. Seu aparente profissionalismo e erudição mascaram uma personalidade fraca, submissa ao despotismo da mãe, viúva; escondem um temperamento cruel, de quem não se envergonha das maldades que cometeu e comete contra colegas e rivais; ocultam seu duplo, uma mulher voyeurista, curiosa de sua sexualidade, que se mutila e frequenta cabines de peep-show. Um de seus alunos, dez anos mais jovem, passa a seduzi-la. Ela responde com tal perversão e desentendimento aos avanços do rapaz que ele acaba tomado de uma ferocidade absurda, incontrolável. O livro é escrito numa prosa direta, de frases curtas, implacáveis. Não há vez para romantismo e hipocrisia na narrativa. Erika funciona como uma metáfora da sociedade austríaca (para não dizer da sociedade contemporânea). Incapazes de entender a si mesmos pouco entendemos daqueles que nos cercam. Jelinek alcança demonstrar o quão devastadores podem ser os efeitos do confronto com a realidade que num determinado momento pode vivenciar todo aquele que, ou por escolha ou por submissão a uma figura de autoridade, experimentou apenas um aspecto da existência, foi incapaz de compreender mais que uma fração de si mesmo, esforçou-se em entender somente parte das complexas relações sociais e afetivas que poderia estabelecer com os demais homo sapiens sapiens, nossos contemporâneos. Viver plenamente não é uma atividade ordinária, corriqueira, pois custa tempo, educação e real investimento psicológico. Podemos viver anos sem fim num limbo moral e afetivo, padecer como escravos mentais por décadas, nos desgraçar em silêncio por tolas causas, sonhos ou distopias. Todavia é possível, senão provável, que em algum momento o mais cruel dos juízes, nós mesmos, finalmente decida-se por nos sentenciar e nos obrigue contemplar o que somos de fato, sem ilusões, sem autoenganos, sem máscaras. Costuma não ser um quadro bonito de se ver. Vida dura. Belo livro. 
"A pianista", Elfriede Jelinek, tradução de Luis S. Krausz, São Paulo: editora Alaúde (selo Tordesilhas / Prêmio Nobel), 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm., 333 págs., ISBN: 978-85-64406-05-6 [edição original: Die Klavierspielerin (Reimbeck bei Hamburg: Rowohlt) 1983]

sexta-feira, 10 de junho de 2016

el azar y el destino

Foi o Daniel Dago, tradutor que segue os rastros de tudo que sai por aí sobre literatura holandesa, quem me alertou sobre este livro e a presença de Cees Nooteboom numa feira do livro colombiana, a FilBo. São 32 textos, crônicas de viagem compiladas dentre as centenas que Nooteboom produziu desde o final dos anos 1950 até hoje. Em 1957 Nooteboom, um jovem apaixonado, aceita o desafio do pai de sua amada e embarca em um navio, de sua Holanda fundamental rumo a Guiana Holandesa (hoje Suriname). Ele não era exatamente um neófito do vaguear pelo mundo, já havia feito algumas viagens pela Europa, desde a vizinha Alemanha até sua sempre especial Espanha. O livro reúne alguns dos registros que ele fez desde aquela viagem inaugural. Como ele disse em uma recente entrevista: "Los viajes deben tener un fin, un objetivo, pero no siempre el mismo objetivo. En mi caso en ocasiones son políticos, literarios, pero otras veces son viajes por el paisaje, por el arte, pero sobre todo de la aventura. Sin ella, no vale salir de casa". Sim, o que o leitor encontra nas crônicas é o relato das aventuras de um sujeito que observa, ouve, saboreia e sente o que está a seu redor. Se é o caso de confundir-se com centenas de mulheres bolivianas que carregam cimento para sair ilegalmente da Argentina ele não hesita e desaparece no meio delas (ele logo voltará, disfarçado novamente); se é o caso de testar a paciência de um delegado aduaneiro francês até conseguir autorização para atravessar o rio Maroni e ficar um único dia na Guiana Francesa ele o faz, mas depois deverá regatear com um velho barqueiro a viagem de volta; se ele precisa apelar para o jeitinho brasileiro para conseguir fazer fotografias num cemitério no Brasil, brota rápido de dentro dele um malandro holandês, carioca da gema. Os textos estão organizados em blocos: há quatro sobre as seis semanas que ficou nas Guianas e em Trinidad, escritos naquela viagem inaugural, de 1957 (além de um texto curto, de 1987, onde ele contrasta os trinta anos de diferença entre as duas visitas, mas não sabemos se ele conquistou a amada afinal de contas); há sete sobre sua primeira visita ao Brasil, de uma viagem de duas semanas, em 1967 - só o parágrafo onde ele descreve um Fla-Flu no Maracanã já vale o livro; dezesseis sobre o México, produzidos em 1988, nos quais ele fala mais da capital e de sua história, e em 2007, através dos quais ele descreve o interior do país; dois curtos, um sobre a Costa Rica, de 1986, e outro sobre a Colômbia, de 2014; dois longos, um sobre a Bolívia (produzidos em várias viagens, entre 1968 e 1971) e outro sobre uma viagem que passa pelo Uruguai, Argentina e Chile, escrito em partes, entre 2005 e 2009. Neste ele fala muito das grandes navegações e dos navegadores portugueses, espanhóis, ingleses e holandeses que passaram por aqueles perigosos canais e caminhos do mar). Cada crônica teve uma vocação diferente (exemplificando o que ele escreveu e transcrevi acima). Há textos mais engajados politicamente, nos quais ele fala da presença de Che Guevara na Bolívia, da ditadura militar no Brasil e da corrupção entranhada no sistema político mexicano; mas na maioria ele faz uma sociologia calma, ausculta o pulso da gente que encontra, experimenta pratos típicos, fala de poesia, música e tradições. Ele não é um mero compilador de fatos e causos curiosos, mas alguém que reflete, com método e disciplina, com uma erudição disfarçada, de quem conhece bem os temas sobre os quais fala e justifica bem as associações que reportam a filosofia e a arte, a religião e a história. Ele sabe perguntar e sabe perguntar-se, não aceita as explicações mais óbvias sem duvidar, partilha com o leitor seu ceticismo com uma versão dos fatos ou a alegria da descoberta de uma informação. Suas receitas são simples: o viajante deve mover-se num passo lento e tropical, deixar que a atmosfera do lugar se filtre lentamente naquilo que escreve; saber que aquele que se move, o faz em um mundo em constante movimento, mutável; aceitar que um número maior de experiências envelhece mais rapidamente a alma - eu diria, endurece mais rapidamente a alma; guardar tempo para sempre visitar mercados e cemitérios, os lugares gêmeos, da vida e da morte, quando quiser conhecer mesmo uma cidade; perceber que apesar de maior dificuldade, manusear blocos de anotação e canetas é mais eficiente que tirar fotografias (ele diz isso pois sempre viaja com sua mulher, a fotógrafa Simone Sassen). O livro tem intercalados aos textos oito poemas curtos (que estão incluídos na antologia "Luz por todas as partes", que já registrei aqui). Um leitor curioso vai encontrar algo da verve dele nesta entrevista publicada na revista El Colombiano. Vale a pena Grande sujeito. Nooteboom é sim um dos grandes escritores de nosso tempo. 
[início: 01/06/2016 - fim: 05/06/2016]
"El azar y el destino: Viajes por Latinoamérica", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal (prosa) e Fernando García de la Banda (poemas), Madrid: Ediciones Siruela (colección El Ojo del Tiempo, #91), 1a. edição (2016), brochura 15x23 cm., 253 págs., ISBN: 978-84-16638-94-9 [edição original: Continent in beweging (Antwerpen/Netherlands: De Bezige Bij) 2013]