terça-feira, 19 de dezembro de 2017

antologia da poesia clássica chinesa

No 19 de dezembro do ano passado, funesto dia, morreu doña Victória Medici Severino, minha mãe. Era fim de primavera e ela, como as flores que amava, sempre prática, porém cansada, não quis suportar as intermitências de mais um abrasivo verão. Em uma das viagens que fiz a São Paulo para vê-la, nos dias que antecederam sua morte, comprei esse "Antologia da poesia clássica chinesa". Assim como fiz com a antologia de poemas do Sebald, que comprei na mesma época, fui lendo esses poemas aos poucos, numa ração diária, aleatória, que acontecia quando chegava em casa, ainda aborrecido com o rumor e a indigência das ruas. Doña Vic, não nasceu chinesa, nem zen, era brasileira e católica, mas viveu seus quase 87 anos serena, rodeada de flores, propagando carinho e gentilezas, como só algumas pessoas alcançam aprender a fazer. Os 204 poemas reunidos nessa antologia foram vertidos para o português por Ricardo Primo Portugal e Tan Xao, patrocinados pelo Instituto Confúcio, organização que promove a língua e cultura chinesa. Há pelo menos dez institutos Confúcio instalados no Brasil, sediados junto a instituições de ensino superior. No caso desse volume, os tradutores contaram com o apoio do Instituto Confúcio na UNESP.  São 34 os autores reunidos na antologia, viventes do período conhecido por Dinastia Tang, entre 618 e 907. Os tradutores lembram que Haroldo de Campos louvava a poesia deste período por sua "concisão, aforismático vigor, plasticidade visual, sustentada surpresa e sentimento de inacabado". Ele mesmo foi artífice de transcrições de poemas deste período, num volume precioso, o "Escrito sobre Jade", de 1996. A maior parte dos poemas reunidos nessa antologia foram criados nas métricas conhecidas como octetos regulares e quartetos regulares, mas também estão incluídos poemas que seguem um estilo mais antigo, da dinastia anterior, Han, algo mais eruditos, associados a canções populares. Pode-se dizer que esses poemas foram engendrados em versos livres, mas os tradutores lembram aquele aforismo de Eliot, que diz "nenhum verso é livre para aquele poeta que quer fazer um bom trabalho". O livro inclui uma longa introdução, assinada pelos tradutores, na qual dão conta dos elementos estruturais da poesia clássica chinesa; seus estilos, formas e metrificação; aspectos semântico-lexicais; regras de transliteração; bem como algo sobre a história da China e da Dinastia Tang. Dos 34 autores os mais conhecidos e seminais, segundo os tradutores, são Lu Bai, Du Fu, Meng Haoran, Wang Wei e Ban Juyi. Os poemas são acompanhados de notas, que falam da geografia chinesa, de aspectos mitológicos, questões religiosas, feitos bélicos (decorrentes das contínuas guerras entre os povos chineses nos séculos VII, VIII, IX e X.), questões semânticas e metafóricas (associadas aos procedimentos tradutórios), atentam às imagens criadas, à historia taoista. Os autores ganham uma pequena biografia, onde restam contextualizas obra e vida de cada um. Muitos eram funcionários públicos da sempre imensa burocracia chinesa, outros monges budistas, iluminados, em contínua reclusão, outros ainda, artistas completos, que também pintavam, dominavam a música e a caligrafia. Os poemas cantam os picos sagrados do taoísmo, celebram a placidez da águas dos lagos, festejam a chegada da lua cheia, falam de gansos e corvos, da vida campestre e das paisagens, dos salgueiros e do jade, das peônias e do lótus, do vento que sopra, dos sonhos e dos desejos, louvam a contemplação, o silêncio, os gestos medidos, fixam em versos as cores e a força que emana das mudanças de estação. O leitor curioso pode acompanhar algo do livro num curto vídeo feito quando do lançamento, em 2013: clica!. Enfim, dos 204 poemas da antologia transcrevo apenas um, de Zhang Jiuling: "Depois, senhora, que partiste, / nada mais cuido a esta vida. / Mudei, como a cheia lua: / cada noite diminuo." Boa noite doña Vic, que, em seu voo, os anjos continuem a cantar para teu descanso. 
Registro #1249 (poesia #90)
[início: 19/12/2016 - fim: 19/12/2017]
"Antologia da poesia clássica chinesa - Dinastia Tang", Ricardo Primo Portugal e Tan Xao (organizadores), São Paulo: Editora UNESP, 1a. edição (2013), capa-dura 16,5x24 cm., 310 págs., ISBN: 978-85-393-0399-1

sábado, 16 de dezembro de 2017

barcelonas

Lá em maio, ainda quando lia o bom "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, resolvi começar a folhear "Barcelonas", mimo que carrego comigo há décadas. Ato contínuo "I was drowning in honey, stingless", como sempre deve ser. Manuel Vázquez Montalbán escreveu o robusto  texto desse livro, que inclusive inspirou e foi confessadamente utilizado por Tóibín na elaboração do seu, como material de divulgação dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que seriam celebrados em 1992. Mas se o que escreve Montalbán é seminal, rico e detalhado, repleto de informações e poesia, são as ilustrações, reproduções fotográficas, desenhos e imagens incluídas no livro que nos enfeitiçam, conduzem nosso olhar, quase nos impedindo acompanhar cada página de leitura até o fim. Talvez esse prodígio seja culpa do desenho gráfico do livro, assinado por Ferràn Cartes, um respeitado artista plástico catalão. Montalbán divide seu livro em seis grandes seções. "Desde as colinas", onde treina o olhar do leitor, fazendo-o acompanhar a geografia da cidade quando vista do alto, do Tibidabo, de Vallvidrera (habitat de Pepe Carvalho, seu personagem icônico), de Montjuïc, e também de suas sete modestas colinas, como as de Roma em número (os catalães são sempre tremendos em suas ambições): Monterols, Putxet, Creueta del Coll, Carmel, Rovira, Peira e Modollell. "Las ciudades sumergidas" percorre o tempo, as camadas de povos e culturas que se fixaram naquela região onde hoje vivem os catalães, importante centro comercial do Mediterrâneo desde tempos remotos. Em "El hombre libre en la ciudade libre" quem se sobressai são os indivíduos, em número anônimos, mas quando são identificados tornam-se na visão de Montalbán quase heróis, fadas, portentos (Montalbán descreve aqui e nas duas seções seguintes os períodos trágicos da cidade, sempre as voltas com um desejo de independência baldado; as fotografias destas três seções são soturnas, pesadas, carregadas de mágoa). A seção seguinte, "La Bem Plantada", conta a arquitetura, a engenharia, a distribuição dos equipamentos urbanos, a vocação da cidade para aceitar planejamentos que a modificam sem que a magia original se perdesse; fala dos bares, teatros e museus, dos desastres que a guerra civil provocou nas ruas, nas esculturas, nos bairros, nas edificações, e nas gentes, claro. "La ciudade ocupada" fala de como corações e mentes catalãs se resignaram nos anos da ditadura franquista, de como se operou o milagre da transição para a democracia, a reconstrução moral da cidade ocupada, como o título explicita. "Milênio" encerra o volume, prospecta um futuro, um porvir, uma possibilidade. Montalbán fala sobretudo dos projetos urbanos que serão feitos para os Jogos Olímpicos (a decisão havia sido tomada há pouco, em 1986), mas também fala do reerguimento da auto estima da cidade, da oportunidade, da possível volta da magia, da renovada utopia. Quase tudo o que foi escrito em 1987 ainda vale hoje, trinta anos depois. Inegavelmente os Jogos Olímpicos foram um sucesso e a cidade tornou-se um local de turismo privilegiado e marcante. Montalbán foi também um poeta, foi um homem otimista, sempre acreditou na capacidade de uma coletividade vencer qualquer obstáculo, qualquer desafio. Ele filtra com esses seus olhos confiantes uma sociedade complexa, que talvez tivesse mais matizes sociais do que ele era capaz de aceitar. Reli esse livro sobretudo por conta do que aconteceu na Catalunha neste ano. A tentativa da Generalitat de Catalunya (capitaneada por Carles Puigdemont) de forçar sua separação do Estado Espanhol, declarando unilateralmente a independência, em outubro, implicou em uma intervenção na Generalitat, a fuga de Puigdemont  e vários outros diputats independentistas para a Bélgica e a convocação de eleições gerais para o próximo 21 de dezembro. Ninguém sabe dizer hoje qual será o resultado prático das eleições. Ganhem os grupos nacionalistas ou os independentistas a questão da identidade catalã não se tornará por mágica menos complicada, menos tensa, menos humilhante para os catalães. Logo saberemos. Talvez eu acrescente um post-scriptum nesse registro, contando os sucessos das eleições. Vamos ver. Vale!
Registro #1248 (perfis e memórias #83)
[início: 10/05/2017 - fim: 15/12/2017]
"Barcelonas", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editorial Empúries / Grup62, 1a. edição (1987), capa-dura 31,5x31,5 cm., 247 págs., ISBN: 84-7596-145-5

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

falcó

Primeiro volume de uma prometida série, "Falcó" garante momentos de diversão descompromissada para o leitor curioso sobre a guerra civil espanhola. Arturo Pérez-Reverte é um mestre na arte de escrever já pensando em uma possível adaptação cinematográfica. Claro, ele abusa sem dó dos clichês de livros de espionagem, do cinema noir, dos romances de aventuras e mistério, onde homens duros flertam com mulheres fatais, mas sabe povoar seu livro com um bom conjunto de protagonistas, produz diálogos inteligentes e controla o desenvolvimento das ações de seu folhetim até levá-lo a um insuspeitado final (a coisa não fica longe de ser caricata, mas quem se importa, se acabamos nos divertindo e aproveitando os truques narrativos que ele distribui pelo livro). Lorenzo Falcó é uma espécie de contraponto cínico ao heroico e valoroso Capitão Alatriste, personagem já consagrado de Pérez-Reverte. Reconhecido especialista em termos militares, Pérez-Reverte identifica sempre que possivel os modelos das armas, os tipos de granada e morteiros, caminhões de transporte, navios e indumentária utilizada pelos personagens. Falcó, um ex-contrabandista de armas, é um agente dos nacionalistas, grupo daquele que viria a tornar-se o ditador da Espanha por trinta e cinco anos, Francisco Franco. Acostumado a infiltrar-se nas linhas inimigas, a dos republicanos, ele sabe torturar e aguentar tortura, matar e escapar da morte. A trama envolve um possivel resgate de José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, grupo que apóia Franco, mas é um tanto mais radical, à direita, e está preso em Alicante. O livro é curto. Lê-se facilmente em poucas horas. O leitor não precisa saber detalhes da guerra civil espanhola para acompanhar a narrativa. Soube que há pouco mais de um mês Pérez-Reverte lançou o segundo volume da série, "Eva", onde reecontraremos Falcó em mais aventuras. Dificil dizer se esse personagem cairá no gosto do grande público, a exemplo de Alatristre. A Espanha é um país em que as marcas das divisões ideológicas daquela época ainda são visíveis e reepercutem na política contemporânea. Nem só de hipocrisia vive uma sociedade (sabemos bem nós, brasileiros, aferrados hipocritamente até a morte às nossas mazelas, narrativas históricas tortas e tontas, mentiras públicas, vícios privados, auto-enganos e ilusões coroadas). Arre. Vamos em frente. Vale!
Registro #1247 (romances #329)
[início: 23/11/2017 - fim: 25/11/2017]
"Falcó", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2016), capa-dura 16x24,5 cm., 294 págs., ISBN: 978-84-204-1968-8

sábado, 9 de dezembro de 2017

free women, free men

Comprei esse livro ainda em abril, mas os serviços alfandegários brasileiros, ineficientes e canalhas como sabem ser, me fizeram recebê-lo apenas em julho. Em "Free Women, Free Men" encontramos 36 ensaios robustos, onde Camille Paglia apresenta sua visão bastante particular e provocadora sobre feminismo, sexo e gênero. Mais precisamente, encontramos no livro os três primeiros capítulos de seu livro mais contundente, "Personas Sexuais", de 1990; três transcrições de palestras ou conferências acadêmicas; três resenhas literárias; cinco transcrições de entrevistas; vinte e dois ensaios independentes, publicados originalmente em revistas e jornais americanos e ingleses. O conjunto também pode ser dividido cronologicamente, em dois grandes blocos: dezenove são textos relativamente antigos, dos anos 1990, associados a repercussão de "Personas Sexuais", e quatorze mais recentes, dos anos 2010. O leitor não precisa ler os ensaios do livro sequencialmente, na ordem em que foram editados. Há uma natural repetição de temas e informações, mas isso não chega a aborrecer o leitor. É inegável que cada um deles se defende sozinho e oferece um festival de associações ("Personas Sexuais" é imbatível, qualquer pessoa honesta intelectualmente que trabalhe com esses assuntos não pode furtar-se de lê-lo). Alguns ensaios são panfletos marcadamente políticos, mais agressivos, incisivos, categóricos; em outros o tom é mais professoral, acadêmico, frio, mas sem condescendência. Há vários ensaios em que Camille defende seus argumentos sobre política sexual, mídia e o papel das universidades como foro de discussão; noutros encontramos abordagens acadêmicas sobre a história do feminismo, estética, cultura pop, a história das lutas pelas liberdades civis nos Estados Unidos. No fundo seu tema principal não é exatamente o feminismo, a luta por igualdade de gênero, mas sim a cultura, a evolução da cultura como núcleo central de coesão entre seres humanos de diferentes lugares do planeta, origens étnicas e gêneros. É interessante como ela antecipa, nos artigos dos anos 1990, a ascensão de uma geração de acadêmicos dedicados aos temas de feminismo e gênero que não alcançaram uma formação adequada, fatalmente contaminados por retóricas foucaultianas, lacanianas, desconstrutivistas e marxistas. Segundo ela, sem perspectiva histórica, literária, antropológica e sem incorporar a realidade das diferenças biológicas entre homens e mulheres, qualquer debate ou pauta feminista está condenada ao fracasso, a discussão circular, estéril. Anotei uma miríade de argumentos e passagens divertidas, certamente polêmicas e explosivas, mas prefiro citar apenas duas, uma das antigas e outra bem recente: " What I represent is the essence of the Sixties, which is free thought and free speech. And a lot of people don't like it. A lot of people who are well-meaning on both sides of the political spectrum want to shut down free speech. And my mission is to be absolutely as painful as possible in every situation." (de uma palestra proferida no MIT, Massasshussets Institute of Technology, em 1991, num debate sobre a crise das universidades americanas) e "It is difficult to understand how a generation raised on the slapdash jumpiness of Twitter and texting will ever develop a logical, coherent, distinctive voice in writing and argumentation, And without strong books and essays as a permanent repository for new ideas, modern movements eventually sputter out for lack of continuity and rationale. Hasty, blathering blogging (without taking time for reflection and revision) is also degrading the general quality of prose writing." (de uma entrevista publicada em uma revista britânica, em 2014). Bom divertimento. Vale!
Registro #1246 (crônicas e ensaios #222)
[início: 12/08/2017 - fim: 07/11/2017]
"Free Women, Free Men: Sex, Gender, Feminism", Camille Paglia, New York: Pantheon Books / Penguin Random House, 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x21,5 cm., 319 págs., ISBN: 978-0-375-42477-9

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

a arte da ficção

Se no "Breve história da literatura", de John Sutherland, que registrei há poucos dias, acompanhamos a vertigem de 3000 anos de literatura condensadas em 300 páginas, em "A arte da ficção" somos apresentados às técnicas que condicionam e explicam a prosa ficcional (oká, um tanto menor é a pretensão de Lodge, mas os vastos limites das duas propostas jamais são alcançados). Sutherland e Lodge são contemporâneos, nascidos na Inglaterra, nos anos 1930. Ambos fizeram carreira acadêmica nas melhores universidades inglesas, Lodge, em Birmingham, Sutherland, em Londres. As edições originais dos dois livros aconteceram em momentos diferentes. Sutherland publicou bem recentemente seu portento sobre a história da literatura (talvez seja o caso de enfatizar que ele se concentra vividamente na literatura inglesa); Lodge, publicou nos anos 1990 o seu (e igualmente enfatiza os romances escritos em inglês em seus exemplos). Enfim, em "A arte da ficção" encontramos 50 breves comentários, 50 tópicos, sobre algum aspecto da arte ficcional, publicados originalmente nas páginas do jornal "The Independent on Sunday" (tratava-se de um contraponto a uma outra série, "Ars Poetica", dedicada aos aspectos gerais da arte poética, escritos pelo poeta James Fenton). Lodge fala de como se começa e como se termina um romance; como se escolhem os nomes dos livros e dos protagonistas; como se conduz a narrativa, se manipula o tempo, se experimenta, escolhe e enfatiza vozes; como as ferramentas retóricas e linguísticas se prestam ao exercício da ficção; como evoluiu essa nobre arte e ofício; quem são os teóricos relevantes; quais são os termos dominantes; o quê diferencia um romancista de um beletrista amador. O livro destina-se ao leitor comum (complicado é encontrar um leitor comum que aceite essa condição de alvo). O formato é prático: Lodge transcreve um trecho de um determinado livro e o usa para exemplificar um aspecto de uma das técnicas narrativas. Por vezes ele fala mais do enredo daquele livro que usou como exemplo, noutras o que se enfatiza é o conceito da técnica que explica aquele efeito. Estranhei alguns termos e palavras usados pelo tradutor. Too much theory, I suppose! Paciência (que não tive, já que não me preocupei em ir atrás do que mesmo pensavam Bakhtin, Todorov e outros tantos formalistas russos sobre esses assuntos). De qualquer forma, interessante. Bom divertimento. 
Registro #1245 (crônicas e ensaios #221)
[início: 19/11/2017 - fim: 30/11/2017]
"A arte da ficção", David Lodge, tradução de Guilherme da Silva Braga, Porto Alegre: editora LPM, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-254-1859-3 [edição original: The Art of Fiction (London: Secker and Warburg / Harvill Secker / Penguin Random House Group) 1992]

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

uma breve história da literatura

Escrito em uma linguagem direta, sem afetações e até bem humorada, esse pequeno livro pode ser utilizado por estudantes e jovens leitores para alcançarem uma visão panorâmica da literatura. Obviamente não é possível que o leitor encontre nele digressões aprofundadas sobre cada um dos temas, tendências ou autores que se espalham em mais de três mil anos de história literária, dos mitos e lendas transmitidas oralmente por nossos antepassados até a miríade de textos disponíveis hoje, acumulados digitalmente. John Sutherland é um especialista renomado, autor de livros acadêmicos em que faz crítica literária e biográfica (sobretudo de autores do período vitoriano). É professor emérito da Universidade de Londres (University College London, to be precise). Um leitor mais exigente reclamará do quão ligeiros são os comentários dedicados a seu autor favorito; pedagogos não irão gostar do esquematismo da proposta, da associação direta entre grandes impérios, grandes civilizações e alta literatura; especialistas em literaturas de línguas não inglesas rechaçarão com veemência a ausência de seus cânones; feministas, grupos étnicos ou autores filiados a algum dos infinitos nichos literários deste nosso século XXI sentir-se-ão no mínimo ofendidos. Entretanto nem tudo é literatura de língua inglesa no livro de Sutherland; Jane Austen só é citada menos vezes que Dickens; há um bocado de informação sobre literatura pós-colonial, realismo mágico latino-americano, autores orientais; e ele fala um bocado sobre a ausência de fronteiras literárias no mundo contemporâneo. Mas o que pode ser dito de um assunto tão vasto em um livro de apenas 300 páginas? O que realmente dá estofo ao livro é a qualidade da prosa de Sutherland. Ele deve/devia ser um notável professor, com capacidade de síntese e a rara habilidade de buscar em detalhes que parecem irrelevantes a exemplificação de conceito bastante complexos. Os quarenta capítulos são basicamente independentes, uma rápida consulta ao índice pode levar o leitor a um assunto específico. A maioria deles não trata de um autor em particular, mas sim de um tema, cronologicamente definido. Sutherland também enfatiza as transições dos hábitos de leitura; fala sobre o objeto livro, que nunca poderá ser melhorado, como já nos ensinou Umberto Eco; sobre aquilo que poderíamos ler em um mundo onde a oferta de títulos é, convenhamos, infinita. Trata-se de um sujeito otimista, que acredita no poder das ferramentas tecnológicas contemporâneas de recuperar algo dos primórdios da aventura humana, quando a literatura era uma coisa falada, contada ao redor de um fogo. Para ele essas tecnologias possibilitarão mais diálogo comunitário, a construção de novas narrativas globais, que darão conta do assombro que todos nós, homo sapiens, experimentamos desde as cavernas, por mais cínicos que aprendemos a ser. No site de sua editora (a Yale University Press), encontrei Sutherland a falar de seu livro num curto teaser: clica! Vale a pena conferir. Bom divertimento. 
Registro #1244 (crônicas e ensaios #220
[início: 12/11/2017 - fim: 17/11/2017]
"Uma breve história da literatura", John Sutherland, tradução de Rodrigo Breunig, Porto Alegre: editora LP&M, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 311 págs., ISBN: 978-85-254-3660-3 [edição original: A Little History of Literature (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2013]


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

a coleção privada de acácio nobre

"A coleção privada de Acácio Nobre" nasceu como peça de teatro, encenada em Lisboa, em 2010 (um trecho da peça pode ser visto aqui: clica!). Patrícia Portela, cenógrafa de formação, assinava sua criação e direção. Recentemente, a exemplo do que fez com outras peças suas, ela transformou aquele roteiro em um romance, publicado, quase simultaneamente, pela lisboeta Caminho, em 2016, e pela porto-alegrense Dublinense, em 2017. Cabe registrar o bom trabalho que nos últimos anos a Dublinense tem feito ao dedicar-se pela publicação de outros dois autores portugueses: José Luis Peixoto e Gonçalo Tavares. Como bem registra Reginaldo Pujol Filho nas orelhas do livro trata-se de um jogo, em que autora brinca com a ideia de ter achado um baú repleto de guardados de um sujeito excêntrico, supostamente multitalentoso, uma espécie de gênio da raça português hoje completamente esquecido, nascido em Lisboa na segunda metade do século XIX e que teria vivido mais de cem anos. Esse tipo de jogo criativo lembrou-me algo dos livros de Enrique Vila-Matas, sobretudo os mais antigos e experimentais, como "Historia abrevida de la literatura portátil", "París no se acaba nunca", "Una casa para siempre", por exemplo. A criação de Patrícia Portela elenca parte dos objetos encontrados no baú, transcreve algumas cartas, reproduz fotografias de objetos, desenhos, esquemas de quebra-cabeças. O romance reproduz também a transcrição de algumas entrevistas que a narradora/autora teria feito com uma musa inspiradora de Acácio, uma mulher chamada Alma. A proposta é curiosa. A ideia de que tudo o que um autor diga que seja verdade é absolutamente verdadeiro entre capa e contracapa de um livro, certamente válida. Entretanto o resultado me parece aquém desta ambição. Talvez, a exemplo de um outro livro que li recentemente, "Laços", de Domenico Starnone, o efeito produzido em um teatro seja mais impactante e eficiente que aquele que se alcança por meio das palavras, num livro. Enfim, nem todo mundo precisa gostar dos mesmo jogos. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1243 (romance #328)
[início: 08/11/2017 - fim: 10/11/2017]
"A coleção privada de Acácio Nobre", Patrícia Portela, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2017), brochura 13x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-8318-099-9 [edição original: A colecção privada de Acácio Nobre (Lisboa: Editorial Caminho / Grupo Leya) 2016]

domingo, 26 de novembro de 2017

romeu e julieta

Talvez apenas menos conhecida que o "Hamlet", "Romeu e Julieta" é daquelas peças de Shakespeare que qualquer vivente pode dizer sem medo que leu, vastas são as referências, influências e marcas na cultura disponíveis até ao mais leniente e vagabundo dos leitores. Shakespeare, como usualmente fazia, quase não inventou nada. Ele baseou-se em tramas bastante conhecidas, de Ovídio a Dante, de Bocaccio a Bandello. A desse último, por sua vez, foi adaptada para o inglês por um sujeito chamado Arthur Brooke, ainda no início do século XVI, e talvez seja a versão mais próxima e disponível ao velho Shakespeare para engendrar a sua. Pouco importa. O genial das peças de Shakespeare é que as versões dele das tramas alheias sempre são as melhores, as mais seminais, as mais curiosamente lembradas e eufônicas. Don José Francisco Botelho, jovem tradutor, da melhor cepa possível dos bons tradutores brasileiros, publicou essa sua versão no final de 2016. Só recentemente tive chance de ler com calma seu portento. Em suas notas sobre a tradução ele dá conta de seus procedimentos, dos recursos poéticos e estilísticos de sua arte. Fala de sua preocupação com a impressão da velocidade da entonação das falas da peça, ajustando os decassílabos e a prosa poética do conjunto original às particularidades do português falado. Ele registra também fidelidade às palavras de Adrian Poole, clássico especialista em Shakespeare que assina um ótimo ensaio incluído na edição da Penguin Companhia. Faz isso sobretudo quando discute o ambíguo equilíbrio entre os tons trágico e cômico da peça e também na questão do controle da sensação da passagem do tempo que experimentamos ao lê-la (ou assistirmos uma montagem dela - a de Baz Luhrmann, Romeo+Juliet, é extravagante, porém digna, talvez seja a que eu mais goste). O amor é primo da morte (nos ensinou um dia Carlos Drummond de Andrade), mas no caso de Shakespeare o amor não vence a morte, apenas dá chance às duas enlutadas famílias rivais de Verona uma chance de reconciliação (mas sabemos, ai de nós, cínicos que hoje somos, da precariedade dessas iniciativas de louvor ou apreço derivadas de um ato funesto). A edição inclui um conjunto de notas assinadas por T. J. B. Spencer, conhecido especialista em Shakespeare, e outras assinadas por Botelho. Como sempre acontece nessas edições da Penguin, as notas dão alegria aos leitores que dispõe de tempo e disciplina, vontade de aprender. A tradução de Botelho é bem boa de se ler, acompanhamos suas soluções com alegria. O sujeito conhece e preza seu ofício. Acompanhamos os sucessos como quem ouve uma história já conhecida, porém contada por um novo vate, um novo bardo, um novo menestrel, dono de uma voz que agrada mais que outras. Com esse livro termino o pacote de três projetos shakespearianos aos quais dediquei-me esse ano. Roberto O'Shea ("Os dois primos nobres"), Lawrence Flores Pereira ("Otelo") e José Francisco Botelho são quase da mesma geração e estão produzindo portentos tradutórios das peças de Shakespeare num ritmo que assombra (Botelho já assinou um Julio César, que está nas livrarias; Lawrence prepara seu Rei Lear - ambos pela Penguin Companhia; e O´Shea, continuará suas traduções das peças tardias de Shakespeare?). Sorte nossa vivermos desse assombro. Evoé! Em tempo: Assim como registrei antes por aqui, ao falar das traduções de "Hamlet" e de"Otelo", lembrei-me ao ler essa tradução de "Romeu e Julieta" de meus tempos de espectador de teatro, de uma encenação que vi no meu tempo das cavernas, início dos anos 1980, no Teatro Anchieta do Sesc, ali próximo dos baixios da Consolação paulista, com o bom Antunes Filho assinando a direção e a jovenzita Giulia Gam, diáfana sob a lua, fazendo as vezes de Julieta (pouco importa quem fazia o papel de Romeu, claro, quem se lembraria dele?). Seriam as pudendas da jovem Giulia que vi em relance naquele dia, no escuro do teatro, ou seriam as da Fernanda Torres ou, ainda, da Júlia Lemmertz, numa montagem de Orlando, que vi no Teatro Municipal? O velho e necessário Alzheimer embaralha tudo e faz o corpo sonhar, talvez dormir (ou seria o contrário, seria outra peça, outras pudendas? Por quantas metamorfoses já passei?). Vale!
Registro #1242 (drama #13)
[início: 04/03/2017 - fim: 15/10/2017]
"Romeu e Julieta", William Shakespeare, tradução de José Francisco Botelho, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-8285-040-4 [edição original: first quarto, 1622; first folio, 1623; Romeo and Juliet (New Haven / Londres: Yale University Press) 2004]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

otelo

Em 2015 li a notável tradução do Hamlet engendrada por Lawrence Flores Pereira (que inclusive mereceu o prêmio Jabuti de melhor tradução, em 2016). No início deste ano foi lançado um novo portento do Lawrence, sua tradução do Otelo. Li o texto quando ainda era outono, em maio, mas deixei os elementos paratextuais para ler mais tarde. Aborrecido com a morte de meu pai, em junho, só retomei o volume recentemente, no início dessa úmida primavera. É certo que dedicamos tempo a leitura de livros como esse por conta do encantamento que o nome de Shakespeare evoca. Todavia, no caso das edições comentadas da Penguin Classics o conjunto de mimos que acompanham o texto da peça produzem múltiplas alegrias. O leitor encontra um ensaio longo do poeta W. H. Auden, "O curinga no baralho", já clássico, onde ele advoga a precedência de Iago sobre Otelo, disseca como bom professor e especialista que foi toda a trama, defendendo a ideia que a peça espelha nosso complexo mundo contemporâneo tão bem como espelhava a conturbada Inglaterra elisabetana. Lawrence oferece uma longa introdução, onde digressa sobre as circunstâncias da composição (mais próxima de 1601 ou mais próxima de 1604?); sobre as dificuldades de se manter isento na questão do ciúme evocada pela peça, como leitor ou como crítico; sobre as camadas de temas, detalhes estilísticos, alusões; sobre o protagonismo compartilhado entre Iago e Otelo; sobre a delicada questão racial que a nossos olhos contemporâneos ganha relevo, mas que seria até irrelevante no início do século XVII; fala das fontes primárias do texto original e do contexto de suas primeiras encenações. Ele também assina um conjunto de notas que esclarecem as passagens mais herméticas e suas escolhas, notas que merecem ser consultadas. E, em sua "Nota sobre a tradução", Lawrence fala da concepção e método de tradução de que se vale, dos contrastes estilísticos, registros, musicais e sonoros (ele os chama de "multidão de procedimentos envolvidos", cousa que não duvido nem um pouco);  explicita sua preocupação com os efeitos que podem ser produzidos num palco, numa encenação real, partindo-se de sua escolha de versos e rimas. Da peça nada falo. Dificilmente alguém a desconhece completamente, apesar de ser uma tolice furtar-se de lê-la ao menos uma vez na vida, coisa muito facilitada agora por essa notável tradução. Lembro-me sim de uma montagem que assisti, no início dos anos 1980, no solene Teatro de Cultura Artística paulista, com bom Juca de Oliveira no papel de Otelo e um quase sofrível Ney Latorraca no papel de Iago. A cenografia era assinada pelo grande Flávio Império, que era irmão de uma de minhas professoras no IFUSP, a Amélia Hamburger, sempre muito querida. A vida no interior do Rio Grande do Sul roubou-me esse hábito de ir ao teatro, paciência.
Registro #1241 (drama #12)
[início: 14/04/2017 - fim: 22/10/2017]
"Otelo", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2017), brochura 13x20 cm., 328 págs., ISBN: 978-85-8285-045-9 [edição original: The Tragedy of Othello, the Moor of Venice, (London) first quarto, 1622; first folio, 1623; E. A. J. Honigmann (org.), Hamlet, Bloomsbury Arden Shakespeare, second series (New York: Bloomsbury Publishing) 1996]